Em uma terra que não existe, dentro do país imaginário, houve um dia um cotejo inesperado, anonimamente antecipado por um duende malcriado. A esperança foi um presente herdado do dia mágico, do lago parado, do duende calado. Pedrinho e Cristiane tinham se encontrado.
A grade da janela de Cristiane estava fechada, Pedrinho ficou do lado de fora enfiando a mão para tentar alcançá-la. Já era tarde da noite e a menininha estava dormindo, de tanto trabalho que teve pra limpar a casa e preparar a comida para o banquete de família que estava por vir no dia seguinte. Pedrinho esticou a mão na janela e conseguiu tocar a cama, mas ela dormia para o lado de lá.
Pedrinho se abaixou, catou um graveto e esticou pela janela. Passou no cabelo de Cristiane. Ela deve ter pensado que fosse um mosquito porque se coçou e tremeu todinha. Na agitação da noite, a menina se descobriu. Pedrinho pegou o graveto e puxou de volta a coberta para mantê-la aquecida. Ela virou-se para o o outro lado da cama e ficou bem perto de Pedrinho. Ele viu o rosto angelical da menina dormindo e lembrou-se daquela mesma manhã que gastou ao lado dela de mãos dadas correndo pelo lado de fora da casa, estavam buscando alguma coisa, não sabiam o que, mas estavam juntos. Pedrinho admirou o rostinho da garota e viu o luar tocar o rosto e tingir de prata os cabelos macios. Ele levou a mão até a cabeça dela e acariciou seus cabelos.
Foi então que a palma de sua mão começou a coçar. Pedrinho então fechou a janela em silêncio para que Cristiane não pegasse frio e fechou as mãos. Algo tinha aparecido alí. Ele olhou com muita atenção e fechou a mão formando uma concha com um pequeno buraco para que pudesse colocar o olho e ver o que tinha aparecido. Não queria que aquilo que estava alí dentro de suas mãos escapasse de maneira nenhuma. Ele não sabia nem dizer qual era o nome daquilo que tinha aparecido bem na covinha que se forma no centro da mão quando ela está fechada, mas era alguma coisa bem bonita que ele guardou e não quis mostrar para ninguém.
Pedrinho saiu correndo pelo matagal com as mãos fechadas, tendo como luz apenas o luar, quase tropeçou algumas vezes nas raízes grossas das árvores gigantescas e teve que se cuidar para não cair de rosto no chão. Com as mãos fechadas não poderia se apoiar em nada. Passou pelas sombras e ouviu o zunido dos morcegos, o uivo dos vira latas, o sussurro da brisa que fazia côcegas nas folhas que farfalhavam alvoroçadas.
Pedrinho encontrou a beira de um lago e sentou-se em sua borda. Descalçou-se da botina apertada e deixou que os dedos dos pés afundassem na lama gelada. Um sapo a espreita deu um salto para longe dos pés de pedrinho e coaxou curioso. Pedrinho escondeu a mão do sapo e não deixou que ele visse o segredo que havia alí guardado. Do lado de cá um vagalume tentou iluminar o segredo em suas mãos, mas Pedrinho guardou bem fechado as mãos fechadas próximo da barriga curvando-se, e não deixou que ninguém visse. Foram todos embora, deixaram Pedrinho e o lago manso. Pedrinho gastava horas observando o que havia de tão especial dentro de suas mãos, e de vez em quando descansava observando a lua refletida no lago. Com o passar das horas a lua e sua voz melodiosa voz noturna escapou-se do céu, só.
Pedrinho já estava cansado quando o sol surgiu, mas continuou sentado quase querendo chorar, porque não sabia o que estava sentindo nem guardando entre as mãos. Apesar de sentado, quieto e livre de perigos, era como se estivesse caindo do céu, e subindo de novo, uma aventura humana que vivia pela primeira vez. Mal sabia dizer, mas se ficasse parado, esse sentimento misterioso, do segredo guardado, quase dava pra ver.
Cristiane viu de longe pela manhã Pedrinho curvado na beira do lago ao pé de uma árvore sem folhas e correu para abraçá-lo:
“Oi Pedrinho”, ela disse, “Vamos correr mais um pouco no quintal atrás da minha casa?”
“Agora eu não posso. Eu achei um troço, tá aqui guardadado, eu não posso abrir a mão, porque esse troço pode escapar, ou sei lá. Você pode achar feio e querer jogar fora. Sei lá o que pode acontecer se eu abrir a mão”. Pedrinho queria esconder as mãos de Cristiane, mas ao mesmo tempo estava satisfeito com a companhia dela. Queria que ela ficasse por alí e não fosse mais embora. Ele disfarçou que escondia algo, mas ela percebeu, e tentou ver o que estava alí dentro. Ele escondeu as mãos fechadas do outro lado.
Cristiane ficou curiossa e insistiu para que ele abrisse, Pedrinho não quis e se jogou no lago, com as mãos estendidas para que a água não vazasse pelas frestas dos dedos e molhasse o segredo. Pedrinho enxarcou a prórpia roupa e pensou na bronca que levaria da mãe quando voltasse para casa. Cristiane não teve coragem de entrar na lagoa. Era muito cedo e estava muito frio, o sol era apenas um pré-adolescente boiando no céu tão cheio de incertezas quanto ao resto do dia, quanto ao resto da vida, assim como os dois jovens banhados por sua luz à beira do lago. Pedrinho chegou mais perto de Cristiane, ficando com água até a barriga.
“Eu não posso mostrar pra você. Na verdade, o que eu tenho aqui, é pra você, mas pode ser que você não entenda. Vai que você joga fora, vai que você não gosta. Vai que você nem liga!”
“ahhh. Eu vou gostar sim, me mostra, me mostra”, e ela estava morta de curiosidade. Nunca se viu aquela garota tão alvoroçada logo depois do café da manhã. Geralmente falava devagar, tinha preguiça de comer o pão e demorava pra sair da cama, só ia virar gente lá pra depois das onze horas quando o galo já tinha desistido de cantar.
E Pedrinho não quis. Cristiane falou que se ele não quisesse abrir as mãos, então ela iria brincar sozinha lá no quintal, e ia deixa-lo molhado e sozinho dentro da lagoa. Pedrinho estava incorformado. Criou coragem e caminhou lentamente na direção dela. Manteve as mãos fechadas esticadas de frente para ela. “Abre logo! Quero ver o que tem aí dentro”. Os dedos de Pedrinho estavam cerrados com força e aos poucos foram ficando frouxos. Sua pele estava enrugada por causa da água fria que invadiu até os poros enchendo-os de umidade. Pedrinho tremia de frio e fazia um barulho engraçado ao respirar, o ar de sua boca saia em forma de fumaça. Cristiane deu um beijo na boca dele que encheu de calor o coração, e os dedos foram enfraquecendo até abrirem-se por completo revelando o que havia de tão precioso escondido entre as mãos de Pedrinho, e não havia nada.
“Ei. Você me enganou. Não tinha nada”.
“Tinha sim. Eu juro que tinha”
“Então o que é que tinha?”
“Nâo sei.”
“Como era?”
“Não sei.”
“De que tamanho era?”
“Não sei.”
“De que cor era?”
“Não sei.”
“Era alguma coisa?”
“Era.”
“O que?”
“Não sei.”
“ahhhh. Para com isso Pedrinho. Tchau, eu vou brincar”.
E Cristiane saiu correndo, deixou Pedrinho com os pés ainda chafurdados no lodo, com as mãos vazias, os ombros caídos e o corpo molhado. Pedrinho olhou para o céu, olhou para a lagoa, nem ele pode compreender o que viu por tanto tempo entre próprios dedos. Nem ele entende, foi alguma coisa mágica, quase sem explicação.
Naquela mesma noite a janela de Cristiane estava fechada com uma cortina. Pedrinho dormia cansado, com o coração abalado. Numa clareira, em meio à mata, havia uma fogueira e um duende sentado. Um sorriso de bochecha a bochecha, claramente no rosto estampado. O duende cupido, insensato e piadista, divertido e analista, deixou para Cristiane um coração sonolento e para o garoto um motor velho e descalibrado que no peito bate no compasso errado, no ritmo varado do tempo escorrido, do segredo revelado, do mistério encerrado, do amor não correspondido.
O segredo perdendo o brilho, a vida ficando sem graça.












