Gustavo

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Hienas – Sabugo

In ficção on Agosto 5, 2008 at 4:50 pm

Sabugo é um dos personagens da série “Os Hienas” que será desenvolvida em episódios daqui por diante neste blog.

Sabugo é o homem da cabeça mirabolante.

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Não é por mim que você procura

In ficção on Junho 30, 2008 at 5:59 pm

O tempo é onisciente

Curitiba, 12 de setembro de 2005.
Sentado no banco de uma das verdejantes praças curitibanas, Aurélio arremessa migalhas aos pombos que se amontoam. Aurélio carrega óculos redondos de armação metálica sobre sua face severa, cheia de rugas. Na cabeça branca um elegante chapéu preto disfarça sua calvicie, os sapatos impecáveis foram lustrados ontem por um desses garotos de rua que muitas vezes ameaçam o cliente em troca de trabalho.

Aurélio observa a movimentação curitibana, seus jovens enfeitados com roupas de brechós, roupas que poderiam muito bem ter pertencido à um contemporâneo de Aurélio estão hoje ditando a moda para a juventude. Nas ruas apertadas, nos becos estreitos, dezenas de artistas de rua, apaixonados, modistas, skinheads, punks, sonhadores, loucos varridos passam sempre cheios de vida, mas Aurélio já está cansado. As pernas bambeiam, precisa ficar sentado alimentando os ratos voadores, que após alimentados com as migalhas de Aurélio e de outros velhos, subirão no ponto mais alto da catedral para cagar as ruas modelo da cidade fria.

Um outro velho aproxima-se de Aurélio e senta-se exatamente ao seu lado. É o ceifador, de costas curvadas, atento como uma coruja, vigoroso como uma locomotiva. Estão lado a lado na praça de curitiba, respectivamente a morte e o vivedor, e proseiam.

AURÉLIO:
Você nunca se atrasa não é?

CEIFADOR:
Não Aurélio. Nesse trabalho a pontualidade é a regra de ouro.

AURÉLIO:
Certo… certo. Mas não sou eu. Não é por mim que ce ta procurando.

CEIFADOR
…Ahh Aurélio, ainda bem que você não perdeu seu senso de humor. Como conseguiu? Como conseguiu chegar no ponto mais crítico da sua vida sem perder o dom de fazer piadas?

AURÉLIO:
Olha aqui meu amigo. Não sei quem você pensa que é, mas esse aqui não é nem de perto o momento mais crítico da minha vida.

CEIFADOR:
Então você pode me contar qual foi o momento mais crítico da sua vida?

AURÉLIO:
Você não entende nada de vida. Você só vem aqui pra ceifar e colher, mas olha… vou te dizer… a morte não é grande coisa perto do que pode acontecer numa vida só.

CEIFADOR:
Mas você sempre foi tão solitário. De onde vem esse apego pela vida?

AURÉLIO:
Noite passada eu passei acordado. A vida me derrotou. Tive amores… esperanças… alegrias, mas sempre apanhava e apanhava. Tudo me foi tirado com a mesma pressa que me foi dado. Só o que tenho desde o início é esta velha vontade… esta teimosia… desde o início. Confesso que já pensei em desistir. Mas se não fiz isso, foi por ser teimoso. Esta velha vontade é a única que não me abandona… Não é hoje meu dia. Não depois de ter me dado conta do quanto minha vida fez sentido, de ter entendido como foi bom ser vivedor.

CEIFADOR:
Aurélio. Não quero te tirar esperanças, mas é meu trabalho. Eu preciso cobrar isso de você, não importa aonde você vá ou no que você acredite.

O ceifador tira um cigarro de palha de dentro do bolso.

CEIFADOR:
Aceita um cigarro?

AURÉLIO (pegando o cigarro):
Hoje eu vou aceitar. Nunca dei uma tragada na vida e olha só quem veio me oferecer tabaco.

Aurélio não sabe fumar direito, não tem estilo e nem muito menos a capacidade de tragar corretamente.

CEIFADOR:
Faça assim…

O ceifador dá um trago na fumaça e cospe as rajadas de ar fumegante para fora, desenha curvas no ar. Aos poucos Aurélio vai pegando o jeito, o vento, até então invisível, se torna aparente quando tenta atravessar a fumaça cinzenta.

AURÉLIO:
Quando eu era mais novo, eu não acreditava em nada. Nem em Deus, nem na vida e nem na morte. Eu me achava imortal e a vida as vezes era pesada. Se você tivesse me aparecido naquela época eu riria da sua cara. Mas agora, com esse corpo velho e essa osteosporose já dá até pra adivinhar qual vai ser minha aparência quando meus ossos estiverem virando pó. Fico pensando como vou ficar ridículo morrendo nessa praça, as pessoas vão me carregar, a minha boca vai ficar aberta. Será que eu vou babar? tomara que não. Tomara que eu não me borre todo, que nem fez o Borges antes do ataque no coração. Eu não queria ir ainda, nem muito menos assim. me diz um negócio…

CEIFADOR:
Pergunte Aurélio.

AURÉLIO:
Você não pode abrir uma excessão pra mim? Me libera da dívida que tenho com você.

O ceifador lança um riso desalentador.

CEIFADOR:
Aurélio. A dívida que você tem não é comigo. Sou apenas o cobrador.

AURÉLIO:
Quem é seu patrão então? Fala com ele… seja Deus ou Diabo, acho que você pode dar um jeito.

O ceifador puxa um relógio de bolso antigo, preso por uma cordinha enferrujada. Os ponteiros correm religiosamente.

CEIFADOR:
Sua dívida não é com nenhum desses dois. Sua dívida é com este sujeito aqui. É este aqui quem dá as ordens.

Existem algumas coisas que Aurélio gostaria de ter dito, mas precisou se conformar. Quando o braço do ceifador tocou o ombro de Aurélio, o hálito gelado não foi capaz de concretizar em palavras os seus últimos pensamentos.

O grupo de pombos alçou vôo e Aurélio se viu por trás da revoada, as cores já não eram mais cinzentas. De costas para a praça Aurélio alçou um vôo ainda mais alto do que os pombos, e dalí partiu, nunca mais olhou para trás.

O bom ladrão

In ficção on Junho 21, 2008 at 3:49 am

O verdadeiro canalha sabe encontrar boas desculpas para fazer o que faz

Quando Ricardo observou aquele senhorzinho bem vestido na frente da paróquia carregando uma maleta na mão, logo viu que se tratava de um alvo fácil. Ricardo permaneceu do outro lado da rua, sentado na parada de ônibus. O senhorzinho bem vestido andava de um lado para o outro, esperava por uma carona, talvez. Já era noite, a rua silenciosa, ao lado de Ricardo o vendedor de churrasquinho conversava amenidades com outros dois sujeitos. Dentro da paróquia alguns fiéis prestavam contas de suas dívidas de fé. Assaltar aquele senhorzinho em frente à paróquia seria azar na certa, precisava esperar o momento certo.

O senhorzinho inquieto largava a maleta no chão, consultava as horas. Olhava para os lados mas a rua estava vazia, nem um ônibus, nem um carro. A sensação de solidão e insegurança das ruas noturnas pode assustar alguns, mas para tipos como Ricardo, predadores urbanos, este tipo de ambiente é não apenas conveniente, mas agradável. A insegurança é uma parente relativa à liberdade.

“Esse almofadinha precisa sair daí”, pensou Ricardo. Enquanto isso o vendedor de churrasco conversava com a boca cheia sobre sua amante prostituta. Um cão simpático estava parado de olhos cravados no churrasco, estimulando a própria saliva, deixou a língua pendurada. A conversa do churrasqueiro não era das mais cultas:
“Eu vou dizer pra ela que assumo a penca de filhos que tiver. Vou tirar ela daquela vida. Quando eu ia no putero, ela me dizia que se eu fosse homem e sustentasse ela, pagasse comida e uma casa, seria mulher minha, ia ficar comigo só. Ia trepar sem camisinha. Mas na época que eu conhecí, eu era casado, aí eu falei que não dava, eu tinha mulher e uma filha. Agora minha filha tá crescida já”
“E a sua mulher?”, perguntou o outro sujeito curioso.
“A mulher já morreu de desgosto faz é tempo”, finalizou o vendedor de churrasco.
O cão simpático, quando inventava de uivar por um pouco de comida levava um “sai pra lá”, mas voltava logo em seguida. O estamago de Ricardo, assim como o do cãozinho já roncava bastante, mas nada de comer antes de terminar o “trampo”.

Enquanto isso o senhorzinho conversava ao telefone, parecia enfezado. Após a conversa pelo celular ele entrou na paróquia. Ricardo se apressou, levantou da cadeira da parada de ônibus e seguiu o homem. Antes de entrar, esfregou as mãos uma contra a outra, respirou fundo, estava tão frio que o vapor exalou pela boca. Um sorriso sádico se revelou, o prazer da caça.

Dentro da igreja Ricardo sentou algumas cadeiras após o senhorzinho da maleta. A paróquia estava quase vazia. O senhorzinho buscava uma posição para se prostar de joelhos. Ricardo puxou um espelho, fingiu pentear os cabelos ao observar se o senhorzinho já estava de olhos fechados para rezar. Por o que estaria rezando? O que havia dentro da maleta? O conteúdo, tanto da válise quanto do coração, permaneceriam no mistério.

Ricardo olhou para frente e a imagem de Jesus Cristo crucificado o observava. Os punhos pregados à cruz, sentiu culpa. “To dentro da igreja querendo roubar um cara, sou um canalha mesmo”, pensou. Olhou pelo espelho novamente, o senhorinho já havia fechado os olhos. A maleta sozinha ao seu lado. “Oh pai, tenha piedade, ele tá dando muita sopa”, pensou Ricardo. Mas a imagem de Jesus o deixou constrangido, resolveu fazer uma pequena oração.

“Jesus, pega leve comigo aí. To precisando de uma grana e tu já sabe bem disso! Tú tá ligado que eu to mais quebrado que espelho de feioso. Olha, eu prometo que vou voltar a comparecer às missas, tu sabe que eu sou religioso, que eu gosto desse lugar aqui, mas sabe coméquié né? Preciso viver o presente. Vamos dizer assim, que eu vivo pelo presente, e essa maletinha do engravatado que eu vou pegar e ele não vai perceber é uma oferenda que eu faço ao teu pai, o Deus. Ele é onipresente né? Então ele é do agora também! Vamos entender esse roubo não como um roubo, mas como uma missa pelo tempo presente! Pode ser assim? Tu aceita essas condições? Se não aceitar, me dá um sinal, vou esperar, pode ser qualquer coisa, uma pomba voando, um trovão, qualquer coisa. Se não tiver sinal, aí eu vou lá e celebro a missa pelo tempo presente! Combinado? Tá certo, depois não vai reclamar hein! Tu já perdoou um ladrão uma vez, você pode me perdoar também.”

Ricardo terminou a oração e aguardou por um sinal divino que o impedisse de cometer o furto. Marcou 30 segundos no relógio. “Não vou esperar demais também né? Vou dar uma colher de chá, se o cara sair em 30 segundos eu vou embora sem roubar”. Os trinta segundos foram os mais demorados que Ricardo já passou. Ficou encasquetado tentando descobrir o que tinha dentro daquela maleta, temia que o homem fosse embora, mas no fim dos 30 segundos Jesus não deu nenhum sinal divino. O senhorzinho ainda rezava de olhos fechads, nenhuma santa chorou sangue, nenhuma luz celestial pousou dos céus, e não choveu.

“É Jesus! Quem cala consente!”, pensou Ricardo. Se levantou calmamente, andou em passos astutos, o silêncio abençoado da igreja não ouviu nenhum de seus ossos estralar. Esticou o braço, retirou a maleta do lugar com toda a cautela e saiu pela porta da igreja. O senhorzinho permaneceu rezando, de olhos selados e fé azarada. “Talvez ele esteja pedindo um alívio na vida, eu to aliviando o peso dele carregando a maleta!”, pensou ricardo rindo por dentro.

Quando varou a porta da igreja o estômago já estava reclamando, um ronco agudo e dissonante alertou para a fome. Ricardo atravessou a pista numa calma esquiva, foi até o vendedor de churrasquinho e pediu dois churrascos no espeto. Passou farinha, girou no molho. Tirou a carne toda de um dos espetos e jogou no chão para alimentar o cão simpático.

Caminhou para longe, pelos becos de São Sebastião que só ele conhecia. Comia espeto de churrasco de carne de terceira, com uma mala na mão, um amigo cão e a consciência tranquila.

Estava celebrada a missa pelo tempo presente, o padre? Um ladrão.

John Cage Messe pour le temps Présent
http://www.youtube.com/watch?v=qlSX50pXVto

Do que a alma precisa?

In ficção on Junho 17, 2008 at 4:13 am

Ajoelhou-se como já não fazia há muitos anos

Me ajuda a fazer a coisa certa. Quando a gente tá com a cabeça triste, ou afundada em nervosismo, é difícil escolher a coisa certa. Me ajuda. Eu sei que passei um tempo sem acreditar em você, sem trocar uma palavra contigo, depois passei a olhar com raiva para você, e confesso que ainda não perdí a mania de praguejar. Mas nessa vida eu queria um pouco do direito, de ser um cara bom, de não fazer mais as merdas que eu fiz, de poder amar e ser amado, de dar o valor que minha família merece, de não trair a mim mesmo fazendo coisas que não são do meu feitio. Me dá o poder de ser eu mesmo com toda a força, de saber suportar os meus momentos de fraqueza. Me dá paz e sabedoria, porque depois do tempo que eu passei longe de você, às vezes fica tão difícil conseguir essas coisas todas, que a sensação que dá, é que a gente tem que reaprender tudo de novo.

Foram as coisas que ele disse, com os olhos fechados, cabeça virada para o teto, apoiado sobre os joelhos e os dedos das mãos entrelaçados, com os punhos unidos. Chorava por algo, a antecipação de um futuro sofrimento talvez, lembrou-se de “não vos preocupar com o dia de amanhã”, desistiu de chorar. Pensou em como deveria estar engraçado o seu rosto todo encolhido de tristeza, e sorriu. Sorriu porque já não queria mais chorar para a vida, não queria mais observar a vida com amargura, não queria desejar o mal para às pessoas que lhe fizeram mal. Queria sorrir, e queria de volta o sorriso da vida.

Tanta coisa estava de mudança, os móveis fora do lugar, os papéis fora da gaveta, a cabeça e o coração dobrados por uma garota que instalou uma flor em seu coração.

Dizem que quando nós estamos muito felizes, nós ficamos tristes só de saber que aquela felicidade pode um dia acabar. Por isso estava tão abatido, horas antes daquela conversa sincera. Tanta gente com problemas bem piores do que o seu, tanta gente com coragem para lutar, porque ele sadio não haveria de ter. A tristeza quando vêm e se instala pode ser uma doença grave, a falta de saúde da alma é corrosiva. Mas como alimentar a alma? Do que a alma precisa?

Sem sarcasmo nenhum, no dia seguinte ele tomou uma única e gostosa cerveja sozinho, degustou a cevada. Caminhou com a mente alerta pelas ruas lotadas observando toda a multidão de trabalhadores, o exército de funcionários diários da enorme cidade. A modernidade é bonita enquanto dura. Manteve-se numa direção, observando o entardecer. Não tinha dinheiro para o cinema, mas não se importou, observou o espetáculo gratuito e esperou que acabasse. A tristeza, como o sol, se queimou no horizonte.

Tétano e a cordialidade

In ficção on Junho 8, 2008 at 2:18 pm

Texto originalmente escrito em São Paulo 29/09/2006. Ví um garoto humilhado pelo dono de um carro atingido pela bola de futebol do menino. O que se passou pela cabeça do garoto? Quem se tornou aquele garoto depois da humilhação? ( Tá certo que exagerei um pouco )

Uma forma eficiente de preservar a gentileza

A ameaça pressupõe violência. Meu apelido é Tétano, depois eu explico o porquê. Outro dia eu tava jogando bola perto do carro daquele magrelo careca. Com 16 anos eu não aguentaria nem um tapa na orelha daquele fi-di-puta e foi por isso que me deixou com medo quando chegou pra reclamar. Ainda bem que ele não me acertou tapa nenhum, mas bem que poderia ter acertado. Foi por causa de um chute que eu dei e a bola bateu no carro dele, é claro que não foi um chute pesado, nem tinha espaço pra acertar um chutão, mas a bola bateu no carro e fez barulho. Ele olhou pra porta do carro, olhou pra minha cara e ficou calado, só olhando. “Se acertar a bola no meu carro vai ter seu moleque! To avisando!”, ele disse. Fiquei calado.

Não foi um aviso cordial, foi um aviso grosseiro que me fez pensar que assim que ele fosse embora eu voltaria a jogar bola no carro dele, quase sem querer. Ele não é meu pai pra me mandar ficar calado, se meus amigos estivessem aqui eles iam virar pra mim e perguntar “Tétano, você vai deixar ele falar assim com você?”

Preparei uma bicuda e fiquei pronto pra chutar a bola com o dedão para amassar a lataria do retardado. Entrou um frio de medo na minha cabeça e comecei a imaginar um monte de coisas:

“O magrelo rabugento ia aparecer e me acertar uma murranca desgraçada. Eu cairia direto no chão, não dá pra desobedecer a lei da gravidade. Depois ele bicaria as minhas costelas, com a mesma força que eu biquei a bola de futebol. Meus rins ficariam esmigalhados dentro da minha barriga. Aí ele ia me levantar com uma mão só, primeiro ia me dar mais uns tapas na cara, só por diversão. A raiva dele viraria piada e ia me encher de socos, como se eu fosse uma almofada. Um dos golpes esmagaria a minha goela. No final eu estaria triturado. Ele me arremessaria no meio do lixo, cheio de cacos de vidro, eu cairia sem poder fazer nada, abraçado com a minha bola de futebol. Quando chegasse a ambulância eu já estaria delirando, naquele estado que vem antes da morte, quando a pessoa já não tem mais jeito, e fica tentando encontrar uma fagulha de vida através da frestinha que resta nos olhos. Ele teria fugido no carro, não tinha ninguém por perto pra testemunhar, e se alguém chegou a ver isso, ficou tão chocado com a tragédia que não teve nem cabeça pra lembrar do rosto do sujeito. O pessoal só pensaria “Tadinho do Tétano, tava querendo jogar bola em paz, o sujeito foi lá e deu uma pisa na cabeça dele”, ia ser muito triste na hora do meu enterro”.

É claro que isso era tudo a minha imaginação do que ele poderia fazer comigo depois de uma ameaça daquela. Nem meu pai me chama de moleque. Ainda bem que eu sou muito esperto e conseguí imaginar todas as possibilidades. Decidí parar o meu jogo de futebol perto do carro. Não queria acertar uma bola quase sem querer no carro dele, porque eu até gosto da minha vida, eu faço um monte de coisas: falto muita aula, jogo muita bola, jogo videogame e abro passarinhos com canivete pra ver o coraçãozinho bater. Depois eu fecho o peito do passarinho com uma linha de costura pra ele poder voltar a voar. É claro que eu esquento a agulha de costura no fogo, porque senão o passarinho pode pegar tétano. Aliás, foi assim que eu ganhei esse apelido.

Eu comecei a pensar como eu tava com raiva daquele Magrelo rabugento. Deu vontade de fazer com ele o que eu faço com o passarinho. Abriria o peito dele com um facão, aí depois de ver o coração dele eu fecharia e costuraria tudo com agulha, mas eu não colocaria a agulha no fogo, porque queria que ele pegasse tétano pra morrer. Minha raiva tava longe de acabar, e da raiva pro ódio o passo é curtinho, do tamanho de um passo de minhoca.

Ví que o sujeito não ia voltar, ele tinha saído há um tempão, o sol já tava descendo e a rua ficou vazia. Peguei uma pedra de brita e risquei uma frase no carro dele: “Você não é meu pai!”, aí eu assinei em letras bem pequenas “Ass: Tétano”. O engraçado é que se eu tivesse tanta concentração para os estudos quanto eu tenho para as maldades eu seria o melhor aluno na sala. Mas cada um é para o que nasce.

Depois desse dia eu mudei a minha cabeça. Já me sentia adulto. Esse dia mudou minha vida toda. Eu não precisei mais ter medo das pessoas agressivas, porque no instante seguinte eu seria capaz de pagar com vingança para me livrar da ojeriza de ser humilhado sem poder dar o troco.

É por isso que trato as pessoas bem, trato todo mundo como gostaria de ser tratado. Sei que num julgamento honesto, ninguém escapa ao chicote, mas trato as pessoas como se fossem nobres, entidades divinas e não suporto grosseria. Um fato assustador é que eu posso ser qualquer um e este qualquer um pode topar com você hoje ou amanhã na esquina de qualquer cidade, de qualquer lugar, em qualquer horário. Ele pode ter ferro de furar, de bater, ou de atirar, seja qual for o ferro que ele tiver, sua vida pode sair crivada, terrivelmente prejudicada.

Então se você só funciona na base do cabresto, fique atento ao constante exercício de cordialidade urbana porque o que não leva jeito para o respeito entra macio pela goela, mas desliza rasgando na garganta.

Sejam cordiais.

Nem todos os goianos são radioativos

In ficção on Maio 21, 2008 at 1:17 am

Atenção: Este texto pode conter sentenças preconceituosas. Texto originalmente escrito em 22/09/2007

O acidente isolado com o Césio 137, e os constantes acidentes de trânsito são fatores de preconceito para com os goianos.

Não demorou mais do que três horas para percorrer o trajeto Brasília – Goiania dentro de um ônibus semi congelado. Com umidade relativa do ar em 5%, Gufo calculou que a rachadura de seus lábios e a dor em suas narinas foram causadas pelo ar condicionado constante.

O ônibus chegou às onze horas na noite em Goiania. Gufo pagou um motoboy para levá-lo à casa de uma parente, lá ele dormiria como uma pedra. O motoqueiro do moto táxi acelerou sem dó. O capacete que Gufo foi obrigado a colocar parecia estar subindo de seu rosto. Gufo preocupado em se prender na garupa da moto ficou com medo de que ao puxar o capacete de volta para o rosto. Vendo a cidade passar através do capacete eu pensei que se eu caísse da moto, que andava em alta velocidade, meus braços quebrariam, minhas pernas se estilhaçariam, mas ao menos minha cabeça continuaria intacta, quem sabe né? Coisas da vida.
__O capacete tá caindo! – gritou
__Coloca a viseira! – respondeu o motoboy com outro grito, enquanto acelerava.

A moto enfiou o bico na traseira de um ônibus. Gufo esperou que fosse feita a perigosa ultrapassagem e arriscou tirar uma das mãos da garupa para tampar a viseira. Se lembrou dos boatos que rodam em Brasília sobre o fato de que os Goianos são péssimos motoristas. Em Brasília quando alguém faz uma cagada no trânsito, os Brasilienses chamam essa cagada de Goianada, é um dos preconceitos existentes sobre a cidade de goiania, um bairrismo evidente. Conseguiu criar coragem de tampar a viseira, o capacete parou de quase cair.

Chegou na casa da tia às onze e meia. Conversou com sua tia até as duas da madrugada. Gostava da tia, só não suportava o sotaque. Os goianos também tem a fama de serem ingênuos, até abobados as vezes, mas a tia já havia viajado bastante, morou em outras cidades, não compartilhava do provincianismo do Goiás.

No outro dia Gufo visitou a Faculdade Federal para participar da palestra sobre “Dinâmica Econônica”. Gufo não sabia exatamente do que se tratava isso, mas o chefe do gabinete lá em brasília disse que seria bom que ele participasse. Folga do trabalho com aprovação do chefe, ótimo. “Tomara que não seja uma palestra muito chata” – pensou Gufo enquanto esperava sua hora. O calor rachava sua cabeça.

No dia seguinte a palestra estava entediante, mas Gufo precisou esperar até o fim para assinar uma maldita lista de presença, depois disso ele desceu para almoçar. Teve que andar por algumas quadras passeando pelas agradáveis e silenciosas ruas Goianas. A Goiania dos fins de semana parece ser uma cidade pós apocaliptica. As ruas estão vazias, todos goianos combinam de ficar em casa, “fazendo o que, não sei!” pensou Gufo “Bando de bicho do mato” conclui. Goiania foi palco de um acidente com material radioativo há muitos anos atrás, quase foi mesmo palco de um apocalipse.

Gufo continuou andando, sozinho na rua, quis conhecer a cidade pacata, deserta. Gosta de ver as folhas das árvores balançando com o vento, em Brasília não há tanto vento, “não sei porque”, pensou Gufo, “vento é um negócio tão bonito, porque a gente não vê, mas ele afeta as coisas mesmo assim”.

E então, virando a rua duas almas goianas apareceram. Uma passeata de Goianos protestava com cartazes. A imprensa tirando fotos, câmeras de TV, crianças em volta e cartazes. Muitos cartazes! Exigiam direitos iguais. Queriam o fim do preconceito. Gufo lembrou de ter visto, na hora do almoço, uma notícia sobre a passeata contra o preconceito, pró respeito aos goianos.

Na época do acidente radioativo com césio-137 no Instituto Goiano de radioterapia (13 de setembro de 1987) um grupo de artistas goianos saiu da cidade e foi de viagem para vender seus artesanatos em uma feira do Rio de Janeiro. A intrépida polícia carioca tentou impedir a entrada dos Goianos na cidade. Levaram os coitados para a delegacia sob suspeita de emissão de radiação. Dizem por aí que a pessoa contaminada com radiação infectará as próximas três gerações de sua prole.

Os policiais cariocas impediram a entrada dos artistas Goianos, mas depois de ir para a DP os artistas conseguiram uma autorização da justiça para vender legalmente na feira do Rio de Janeiro. Os guardas cariocas que são tão malandros como qualquer malandro, deixaram que os Goianos fossem a feira, mas mandaram que instalassem sua barraca de fora, mas os guardas não esperavam pelo que aconteceu, a barraca dos goianos, por estar do lado de fora, na porta de entrada, foi a mais visitada da feira. Venderam uma série de estatuetas de artesanato que hoje enfeitam estantes de casas do rio de janeiro.

Não se sabe se houve ionização de gases, fluorescências ou partículas atravessando corpos solidos nas casas dos compradores das obras artísticas. Até o cantor Fagner Montes se pronunciou contra o preconceito que os Goianos sofreram na época. As pessoas não aceitavam goianos em hotéis, eles não podiam viajar. Ficaram isolados, em quarentena. De uma coisa eu sei, o fato dirigirem mal não foi culpa da radiação, os goianos já faziam goianadas no trânsito antes de qualquer desastre radioativo!

Apesar de tudo, e brincadeiras a parte, a experiência em goiania foi boa para quebrar estereótipos. Agora eu sei que nem todos são radioativos, a maioria dos goianos são pessoas de bem, comprometidos com a civilidade e isso é um bom sinal para o mundo. Apesar das barbeiragens, do calor infernal e do sotaque, os goianos são gente boa, tem mulheres bonitas e ruas agradáveis.

Duas irmãs e um cão

In ficção on Maio 15, 2008 at 5:37 pm

São duas irmãs, andam sempre juntas. Uma é a corajosa e a outra é retardada

Quem são elas? Mãe e filha? Não. Óbvio que não, elas tem quase a mesma idade, cerca de uns quarenta anos. No duro, elas são irmãs. Estão todo dia na mesma parada de ônibus, nesse horário das 11h30. Uma delas é a retardada, parece uma criança, e a outra é a corajosa, incuráveis companheiras.

Ouví dizer que a corajosa rejeitou um marido por causa da irmã retardada. Há cinco anos atrás a corajosa namorafa com um tal Bomfim, bom sujeito o rapaz, andava com os cabelos penteados e estudava para se formar engenheiro, hoje deve ser formado já. O Bomfim propôs à irmã corajosa um noivado, depois de algum namoro, notícia feliz, mas havia uma condição, “você precisa internar a sua irmã”, propôs Bomfim.

A irmã corajosa não gostou da condição, ela teve que beber muitos copos d´agua para vencer o nervosismo. “Eu não vou colocar a minha irmãzinha numa casa de loucos, lá não é lugar de gente, eles tratam mal as pessoas”, disse a corajosa. Apesar de triste, continuava corajosa, foi o fim de Bonfim na vida dela. Não tinha tempo para ser vaidosa, os cabelos viviam desgrenhados, mas sempre penteia os cabelos da irmã.

Às vezes a irmã retardada dá muito trabalho. Tem uns chiliques assim do nada, fica irritada e grita, e vou lhe contar, mas mantenha segredo, ainda faz xixi na cama, aos quarenta anos. A corajosa pensou até em se tornar amarga uma vez, você pode compreender. “Eu dou tanto amor pra essa gente, mas para me amar as pessoas querem coisas em troca, pedem condições”. Mas o que fazia da irmã corajosa uma verdadeira corajosa, era a coragem de não ceder, de não amargar, e também a crença de que “não basta ser recebedor do amor, você vai se decepcionar com as pessoas. É preciso ser uma fonte gratuita de amor”.

Numa manhã como qualquer outra lá estavam as duas, como em todas as manhãs, a retardada e a corajosa. A corajosa penteava os cabelos da retardada. A retardada distraída. Basta passar uma borboleta assanhada que a irmã retardada já quer olhar de perto as asinhas batendo “essas borboletas parecem folhas caídas. As folhas se juntam, como duas irmãs, e sobem de novo, pro alto da árvore, uma folha irmã ajuda a outra folha irmã”, pensou a retardada.

Mas o que aconteceu foi um vira-lata perdido passando pela rua. O pobre coitado do cão correndo no meio do asfalto com a língua para fora e no semblante canino um evidente cansaço e desespero “Aonde é a minha casa?”, deveria estar pensando. Os carros buzinando, desviando do cachorro.

A irmã retardada viu a cena e observou de longe. O cachorro passou do outro lado da pista, e ninguém fez o favor de chamar o cachorro para fora da rua. Compadecida, a irmã retardada correu para o meio dos carros na direção do cachorro. Os carros tiveram que brecar, quase causaram um acidente. A irmã corajosa ficou sem reação, boquiaberta, aguardava por um desastre, não teve nem voz para gritar pela irmã.

Por uns instantes os passageiros até pensaram que a retardada fosse morrer. Um carro brecou em cima dela e o motorista gritou “Saia do meio da rua sua retardada imbecil!”, mas ela nem viu o motorista, correu em direção ao cachorro, chamou com um assobio e o acolheu.

O cão baforava linguarudo, assustado, mas agora safo.

Ela voltou para o seu lado da pista e a irmã corajosa brigou com ela “Você não pode andar no meio dos carros, quer morrer?”. Quando o susto passou, olharam juntas para o cachorro e decidiram ficar com ele.

São duas irmãs, andam sempre juntas, uma é corajosa e a outra também.

Valeu pela coragem

In ficção on Maio 14, 2008 at 4:27 am

Um garoto franzino que apanhou muito na quinta série na turma dos repetentes, vinga-se com a esperteza

A sirene tocou e a cambada do ensino primário saiu se acotovelando pelo portão principal sem muita disciplina. Aquele tal de Rafael, que eu odiava, fazia a questão de esbarrar em mim, era meio baixinho e tinha cara de enfezado. Andava acompanhado dos marmanjos repetentes. Era apenas a quinta série, mas tinha marmanjo de até 18 anos, passando dessa idade a diretora não aceitava mais na escola “lugar de delinquente é na rua, não na escola”, dizia a diretora.

A diretora, aliás, era uma mulher inteligente. “Sofrendo e sorrindo”, é como ela dizia que vivia boa parte da população pobre do Brasil. “Aquelas picardias de carnaval, a porcaria de futebol e novela da tv globo, era tudo pra sorrir sofrendo, sentado com a bunda no sofá de chumbo, por isso é melhor que vocês fiquem na escola, aqui dentro sim é lugar de gente”, ela dizia . Nossa escola tinha muitas brigas, ela não impedia a gente de brigar, desde que não fosse dentro da escola “é natural na idade de vocês que se troquem bofetadas, mas façam isso agora, enquanto a bofetada só machuca um pouco, porque se continuarem fazendo isso quando forem mais velhos, não vai ser bofetada, vai ter tiro e facada. Então briguem o que tiverem que brigar agora. Mas briguem a cem metros de distância daqui!”

Na saída do colégio o Rafael me empurrou em direção ao portão de ferro e eu revidei, puxando pelo braço da mochila eu o derrubei no chão e enchi a cara dele de porradas, amassei o rosto do pobre coitado contra o chão. Você não sabe, mas a sensação de socar o rosto de alguém é uma sensação maravilhosa, é a sensação de quem pode tudo, mas não se deve viciar nessa sensação.

Fazendo um parêntese, lembro de uma história que aconteceu lá em casa, minha irmã criava dois lagartos exatamente iguais, um dia um deles fugiu e passou a viver no quintal de casa enquanto o outro permaneceu no aquário. Por duas semanas o lagarto ficou desaparecido, mas um belo dia ela encontrou o lagarto foragido no quintal e o colocou de volta no aquário. A diferença básica entre os lagartos era a selvageria, a coragem, a agressividade. Quando jogavam um inseto no aquário, o lagarto do aquário esperava que o inseto passasse por perto para capturá-lo, o lagarto selvagem ia a caça, caminhando matreiro, espreitando a presa. Eu imagino o medo que aquele lagarto passou quando estava sozinho no quintal, depois de grande eu aprendí que a solidão e o isolamento podem ensinar um monte de coisas para a gente e uma delas é que agressividade não significa violência. No meu futuro, muitos anos depois da quinta série um professor da faculdade olhou para a minha prova corrigida e disse “Uma nota mediocre para um aluno mediocre”, eu poderia ter socado o rosto daquele homem, mas eu me calei e deixei que ele me encarasse como um aluno mediocre. Naquela mesma noite gastei horas pensando na sensação. Não era humilhação, mas eu torcia para que um dia eu surpreendesse aquele professor com algum ato de verdadeira importância. Uma prova de faculdade, uma derrota na vida não prova o valor de um homem. Foi o que pensei, se eu tivesse socado o rosto dele, ou ofendido sua integridade moral, por mais que eu saísse impune as consequências psicológicas seriam desastrosas, eu teria admitido a mediocridade, por causa de uma ridícula prova de faculdade.

Voltando à quinta série, decidimos deixar de brigar na porta de saída da escola por respeito à diretora. Quando me encontrei com o tal pirralho e nojento Rafael, havia uma pequena platéia para assistir a nossa briga. Todos da platéia eram os amigos repetentes do Rafael, marmanjos de 16 a 18 anos. Lembro quando ele começou a estralar os ombros em sinal de que já estava se preparando para a luta, eu o puxei pela camisa e soquei seu rosto já ferido. Achei ótima a forma como tirei aquele sorriso de esperto da cara dele. Os marmanjos deixaram que eu acertasse alguns bons murros até que me seguraram.
“Vamos fazer conforme as regras. Conte até 3 e no três lutem!”
Eles me seguraram com força, e contaram até três. Quando a contagem chegou ao fim o marmanjo que me segurava pelos ombros, me empurrou com força na direção do idiota Rafael, e ele acertou um murro em cheio no meu rosto. Minha visão se apagou e uma penumbra preta me desequilibrou. Eu caí de joelhos no chão e todos eles saíram abraçados e sorrindo. Eu voltei para casa humilhado, com os joelhos ralados e com um murro no meio da minha cara.

No outro dia de escola eles acreditavam que eu estaria tão moralmente rebaixado que poderiam me tratar como quisessem. O Rafael chegou em mim com um empurrão e eu disse “O que foi sua putinha?” (eu tinha treinado por horas na frente do espelho a forma como eu falaria com ele, mas as conversas nunca vão no rumo que a gente planeja). “Como é que é que você me chamou? Repete”, os amigos dele estavam atentos. Eu não tinha coragem de falar, mas eu disse “Você ouviu o que eu disse!”.
“Então repete que eu quero ver se você é homem!”
Eu estava com medo, admito, mas sem demonstrar eu simplesmente dei as costas e sai, eles me chamaram de covarde. Foi quando o Rafael disse “Eu sei onde é a sua casa! Eu posso te quebrar de porrada de novo a hora que eu quiser”.

Eu virei para ele com uma calma heróica e disse “Pode tentar quando quiser, mas da próxima vez que tentar é bom que você me mate, senão eu vou atrás de você, e vou cobrar vingança”. Ficaram em silêncio, até riram, mas não esconderam a preocupação.

Naquela noite eu dormí tão bem que você não pode me imaginar. Eu lembro que naquela época minha mãe ainda me obrigava a frequentar a igreja, e antes de dormir eu tinha feito uma oração. Deitado no travesseiro eu sorrí pro teto como se estivesse falando com deus, pisquei para ele num tom de camaradagem e pensei na coragem súbita, sabendo que ele poderia me entender eu disse “Valeu pela coragem, Amém”.

Sangria desatada

In ficção on Abril 13, 2008 at 6:42 am

Vivo no infindo impasse entre a maravilha e o terror de ser um individuo. Há vezes em que a angústia vêm sem dizer. Quando nos falta fé, ficamos vulneráveis.

Quando cocei o nariz no trabalho comecei a sangrar loucamente. Pingou na mesa branquinha e me assustei quando ví que tava saindo do nariz, passei o dedo por cima e ví o mel vermelho na minha mão, era pouco sangue, mas brotava com uma facilidade que me deu medo porque lembrei de uma história que minha mãe sempre contava.

Era uma menina, do bairro da minha mãe quando era criança. Vizinha eu acho. A menina teve uma espinha bem no nariz, ela coçou e começou a sair sangue. Não tinha hospital por perto e a mãe dela não se preocupou em ir ao médico, achou que era um sanguinho a toa. O sangramento não parava. Ela manteve o nariz sangrando, só estancando com papel. Vinte e quatro horas depois a menina estava morta. Minha mãe, que era adolescente ficou sabendo disso em casa e cresceu com essa história. Eu achava que ela contava isso só pra impressionar, pra que eu não coçasse o nariz.

Fui ao banheiro tentando chamar o mínimo de atenção, mas só a forma brusca como me levantei foi o suficiente pra que ohassem na minha direção, mas ninguém chegou a ver o sangue. Lavei na pia, me olhei no espelho, e uma gota rapidamente saia do nariz e pingava no branco límpido do mármore. Passei papel, deixei o papel seco em cima do sangramento. Tirava e o sangue ainda brotando. Saí.
__Meu nariz tá sangrando. Não quer parar de sangrar.
__Você já teve isso antes? – Perguntou a patroa.
__Não. Nunca.
__Coloca gelo. Tem na sala alí do lado.

Os outros funcionários estavam me olhando assustados. Peguei o gelo, com uma certa dificuldade, acho que até quebrei o plástico da geladeira. Botei o gelo no nariz e o sangue pingando junto com a água que derretia do gelo. Tirei o gelo. Mais sangue.

Descí do trabalho. Atravessei a rua e entrei no shopping tampando o nariz com um papel branco, empapuçado de sangue, passei por toda aquela gente, deviam achar que eu tinha levado um murro. Entrei na farmácia. Esperei uma pequena fila ser atendida, segurando o papel no meu nariz.
__Meu nariz tá sangrando. Vocês fazem curativo?
__Não, mas a brigada dos bombeiros no segundo andar faz.

Ví que o bandaid era muito caro, resolví subir. Chegando na brigada, a porta estava trancada. Bati uma vez. Demorou um pouco, destrancaram a porta por dentro. Assim que entrei, uma cena um tanto estranha, uma garota, bem bonita por sinal, estava sentada na mesa, ela tinha um decote imenso, nem levantou o rosto, manteve o olhar como estava. As mãos dela estavam estendidas sobre a mesa, do outro lado da mesa um bombeiro acariciava os pulsos dela. A sala tinha um clima pesado, calorento. Entrei na sala e expliquei a situação.
__Lima. Ainda tem bandaid aí? – Disse o bombeiro levantando a voz sobre a cortina azul.
__Vou olhar. – Respondeu o tal do lima, do outro lado da sala.

Fiquei olhando para o bombeiro que conversava com a menina. Dois homens trancados dentro de uma sala com uma mulher que mais parece um monumento ao sexo, no mínimo suspeito. Pela forma como eles estão, a garota deve ser namorada do baixinho, mas e o Lima? Será que ele fica com as casquinhas? Ou ele deixa a menina namorar com o colega enquanto faz vista grossa? De tanto que reparei na situação, ligeiramente constrangedora, o bombeiro baixinho que estava com a menina me falou:
__Vai alí atrás que ele vai fazer um curativo nisso aí.

Obedecí. O lima era um bombeiro de uns dois metros de altura. “Essa menina aí… vai levar a dupla…”, mas ao mesmo tempo que eu queria pensar com humor, eu pensava também com agonia. Bate um desespero quando você não consegue parar de sangrar, você sente que está indo embora. Lembro de uma vez, quando ví um cara baleado. A camisa branca dele se enegreceu com o vermelho noturno, fiquei sabendo que ele morreu. O sangue sai, a gente vai embora.

Passou alcool na ponta de um algodão.
__Isso aí que você está com sangue demais. Tá na hora de ir ao hemocentro.
__Pois é. Mas to é preocupado, porque não pára. Minha coagulação tá ruim.
__É assim mesmo. Mas olha, nós estamos sem bandaid, pressiona esse algodão contra o nariz e compra um na farmácia. Vai tirando os excessos de sangue e passa o bandaid por cima.
__Tá beleza.

Fui saindo da sala reparando na garota sozinha com os dois. Que clima tenso. Assim que saí, a porta se trancou atrás de mim. Descí a escada rolante, os consumidores passaram me observando com um algodão tampando o minúsculo ferimento do nariz do qual saia tanto sangue que já tingia o algodão. Que engraçado ser notado dessa forma. Lí uma entrevista com um antropólogo porto alegrense dizendo que os centros de convergência das cidades não eram mais as indústrias e sim os shoppings. Ele falava sobre o policentrismo.

O policentrismo significa que o consumo, a comunicação e também a cultura têm agora uma importância às vezes maior do que aquela da produção. E que, em particular o consumo, que é baseado sobre esse tipo de shopping-center, mas não somente shopping-centers, também parques temáticos, desenvolve um tipo de público que não é mais o público homogêneo, massificado, da era industrial. É um público muito mais pluralizado, ou podemos dizer, públicos. Esses públicos gostam de performar o lado do consumo. Então, o consumo, o shopping-center tem uma importância que mais ou menos é igual a que tinha a fábrica no passado.

Com o algodão sobre o nariz, reparando nos olhares suspeitos e curiosos, sentí-me como um forasteiro do policentro. Discordo desse filósofo, esse tal MASSIMO CANEVACCI, provavelmente ele é um classe média de pompa, por isso tem tanta tendência a pensar no shopping como centro de convergência, é lá que ele compra os seus pijamas. Para mim, shoppings tem mais o aspecto de matadouros hipnóticos. Você enfia sua cabeça numa loja e consome roupas e artigos diversos, sobe alguns andares carregado por um impulso misterioso consumista, olha algumas besteiras, chega no último andar e consome sua refeição. Seu dinheiro, como se fosse sua cabeça é decepado inutilmente. Eu fazia o caminho do posto, escapava ferido daquele centro, o sangue manchando o chão, marca simbólica de que se pode perder a vida para o consumismo. Prefiro pensar que as feiras, os centros comerciais ao ar livre são os verdadeiros policentros convergentes. Os bancos das praças lotados ao meio dia, as paradas de ônibus, as ruas repletas, a lanchonete da esquina. Lá você tem um céu sobre a sua cabeça, e quando dá tempo de parar, você discute, observa e transforma. No shopping tudo é concreto, tudo é feito com a intenção de prender o seu olhar, você fica perdido, não há pensamento sendo feito no shopping, no shopping tudo é produto pré fabricado, embalado, tudo tem um preço, até seus olhos e sua atenção.

Quando dei por mim já estava com um bandaid no nariz, o sangramento felizmente havia cessado e eu estava fora daquele matadouro, com uma boa desculpa para passear na rua e pensar com mais clareza “mas que dia burlesco”.

Fiz o sinal da cruz e voltei para a minha média vidinha, ostentava um ferimento.

Como seria perfeito

In ficção on Abril 3, 2008 at 1:29 am

Descendente dos povos indígenas, ela era maravilhosa, tanto nos traços faciais quanto no corpo escultural

Como sempre, a maioria das minhas histórias brasilienses ocorrem no trajeto RODOVIÁRIA-CASA. Tinha bebido muita cerveja há uma hora atrás, pois esperava chegar a hora de uma festa que nem aconteceu. Resultado, esperei a toa, mas pelo menos bebí muita cerveja. É claro que eu não estava bêbado, o tempo me ensinou a calibrar a dosagem certa de cerveja para ficar apenas “medicado”. Eu estava com os músculos relaxados, sorriso fácil, mente paciente. O ônibus demorava para chegar quando ela apareceu com uma mini-saia, tão mini que era inevitável olha-la sem percorre-la pelas pernas. Fiquei na fila do ônibus, logo atrás dela, “vou arranjar um lugar para sentar bem do lado dessa garota”. A pele dela era morena jambo, traços faciais característicos dos povos indígenas, e as pernas descobertas tão lindas quanto se pode imaginar, ela tirava os pés do salto, estava inquieta.

Entrando no ônibus, não havia lugar do lado dela. Eu abrí minha revista e comecei a ler algo sobre a evolução das espécies segundo Darwin e outros desses loucos, uma matéria interessante, apontando sobre a forma como utilizaram as teorias Darwinianas como ideologia e pretexto para se cometer massacres genocidas, quando Darwin não apoiava nenhuma ligação de seus estudos científicos com a maldita velha cegueta, a ideologia. Um trecho da matéria me chamou a atenção:

“O macho pode multiplicar seus genes disseminando suas numerosas células sexuais a esmo, ao passo que a fêmea fica restrita a uma fecundação de cada vez. É como se os machos se especializassem em produzir filhotes, as fêmeas em garantir que eles sobrevivam. Richard Dawkings, o evolucionista, tentou realizar estudos de contabilidade evolutiva das espécies com simulações que chegaram aos seguintes resultados: Se 5/6 das fêmeas fossem tímidas e 5/8 dos machos fossem fiéis, esta espécie seria evolutivamente estável. Mais tarde, após numerosos estudos Dawkins reformulou seus pensamentos, “nenhum arranjo seria estável, as proporções flutuariam intermitentemente. O comportamento dos amantes oscila como a lua”, e acrescentou, “ninguém precisa de equações diferenciais para perceber isso”.”

Me sentindo na responsabilidade de macho da espécie, em busca da devida proliferação dos meus genes para evoluir e perdurar, puxei papo com a garota.

“Qual é seu nome?”
“Luciana… porque?” ela respondeu com timidez, o que é um bom sinal, em termos de visão evolutiva.
“Por nada, fiquei curioso. Mas me diz, você tem alguma ascendência Indígena?”

Ela estava meio desconfiada, mas respondeu:
“Porque?” Pequena pausa. A timidez deu lugar a um sorriso, ainda um pouco tímido, mas acolhedor. “Tenho sim, minha avó era India”
“E você é de Brasília?”
“Não. Sou de Maranhão.”

Apaixonei, adoro garotas de fora, de forma geral, o genes das brasilienses estão devidamente programados para a frescura, e à chatice. Eu, como bom procriador, pretendo disseminar meus genes buscando uma diversificação da espécie, missigenação é a chave da sobrevivência.

“E me diz… O que você faz no seu tempo livre aqui em Brasília?”

Ela já estava toda sorridente, era tão linda, eu fiquei reparando nos olhinhos dela.

“Só tenho tempo livre nos domingos, porque trabalho todos os dias, e no domingo eu cuido do meu filho”.

Opa.

“E você é solteira?”
“Não, sou casada.”

Opa.

Houve um longo silêncio. O desejo de procriação havia encontrado uma barreira e o silêncio foi a única resposta plausível que eu conseguí encontrar. Me recostei na minha cadeira, não sabia o que dizer.

“E aí? A curiosidade já passou?”
“Pra falar a verdade ainda não. Tenho muita curiosidade, mas você é casada, eu não posso ser muito curioso.”

Ela riu. Como gosto das garotas de sorriso fácil, se fosse uma brasiliense essa conversa nem teria acontecido. Então, apesar do entrave, eu me sentí feliz, e disse a ela

“Sabe o que seria perfeito?”
“…”
“Seria perfeito se você não fosse casada, e eu te perguntasse pra onde você vai hoje, e você me respondesse que vai para a casa da sua mãe, pois mora sozinha com ela, mas que só vai porque é obrigada, porque você teve uma briga com ela e nem queria voltar pra casa. E ai eu diria o seguinte, eu diria que não tem problema, pois se você quisesse você poderia dormir na minha casa numa boa, eu deixava você ligar para a sua mãe para avisar para ela. E aí, depois desse dia nós passariamos a frequentar um a casa do outro, e quando menos percebessemos, já estariamos namorando.”

Ela ficou surpresa olhando para mim, ela não sabia se devia rir e acabou ficando calada. Percebí que as outras pessoas do ônibus estavam olhando para mim, curiosos com a conversa, mas isso não me preocupou porque eu estava inspirado.

“Pena que as coisas não são mais perfeitas como a gente as vezes gostaria que fossem.”

Puxei a cordinha do ônibus e antes de descer, apertei a mão dela, estava suada de nervosismo. Eu descí do ônibus e fui para casa pensando no cinismo darwinista, e no quanto ele provavelmente deve estar certo com sua teoria evolutiva.
Procriemos.
O amor, se existisse, seria perfeito, mas ele é apenas uma desculpa delirante para a pesada verdade genética.
Perduremos.

A rapsódia do vento

In ficção on Março 25, 2008 at 6:23 am

Uma ode ao vento
Zé Almeida era o chefe do escritório do décimo oitavo andar do edifício. “Mantenham as janelas fechadas”, uma de suas principais recomendações, o sistema imunológico de Zé Almeida é tão forte quanto o seu caráter, um golpe de vento e já se preocupa com pneumonia. Zé foi sempre assim, o chefe chato do décimo oitavo andar, máu hálito, falta de autoconfiança e o péssimo hábito de destratar as outras pessoas. Falavam pelos corredores que ele nunca teve uma mulher, mas a verdade é que ele teve algumas putas, mas a primeira de todas foi a força.

Naquela manhã, um subalterno de tendências anarquistas gastou a manhã toda escrevendo com letras recortadas de revista um poema subversivo. O poema não tinha rimas e o título era “Abram as janelas”. O poema abria com uma introdução, foi xerocado e colado ao lado de cada uma das janelas.

“O velho Baumgartne, meu avô, natural da Austría escreveu, entre várias coisas, um poema sobre os perigos de uma janela fechada. Crescí ouvindo esse poema, sem entender o que significava, mas gostava da sua sonoridade, da forma como ele rimava e da curiosa fonética alemã, tão aspera, mas ainda assim tão bonita. Mesmo sem entender nada, sempre que terminava de declamar o poema, meu avô dizia em português, mantenha abertas as janelas da sua vida. Antes de morrer eu pedí que me traduzísse, linha por linha, para o português, infelizmente o poema veio sem rimas, mas dizia mais ou menos o seguinte:

“Invisível vem o rio. A pequena semente titubeia no alpendre pede para cair. Vem o rio e derruba, traz pra baixo e voa longe, massageia, sacodindo a frágil essência, e enterra com cuidado. Derruba o chapéu. Engana o guardachuva. Do chão, brota cuidadoso, um pedaço da flor. Este rio que recobre, que envolve, precisa de espaço pra correr, é um rio, atravessando o corpo meu e o corpo seu, é invisível quando corre e não existe quando pára. É um mistério, sopro de vida, não se vê. É um rio invisível. O rio corre e serpenteia nos cabelos da ninfeta. O rio empurra, balança a placa, flamula a roupa, empina a pipa, tonteia o falcão e no fim vira tufão, é um rio, de tão forte esse rio, quando passa assusta, levanta a saia. Quando passa por dentro da janela, procura saída na porta ou chaminé, se não há brecha, então pobre do rio, se represa e desmancha, rio nenhum nasceu para ser lago. Quem tem medo de frio não deixa o rio entrar, não deixa o rio sair, nesse rio parado, não vive peixe ou passarinho, só tem poeira velha.”

Zé Almeida, nem precisava dizer, quando viu os poemas nas janelas se enfureceu, arrancou todos os papéis e fez sermão. “o espírito de equipe está emperrado nessa empresa! Isso é uma sabotagem, quando descobrir quem fez isso eu ponho no olho da rua” Foi isso que ele disse. Um dos funcionários questionou “porque não podemos abrir a janela?”. “Mas para que janela se temos ar condicionado?”. “Se quer espírito de equipe”, pensou o neto do Austriaco, “deixe que o vento entre. É ele quem fica entre nós. É o vento quem nos une, quem nos entrelaça. Nenhum homem é uma ilha”. A alma é um sopro, não se entende a alma de alguns mas pode-se senti-la passar, o sopro do rio pelos pêlos eriçados. Se a alma é um sopro, o espírito de equipe é um sopro coletivo, gera vento, cria rios, e rios não ficam represados em escritórios, rios precisam de janelas abertas. São os rios invisíveis que trasnportam a liberdade, sem rios caudalosos, o naufrágio é o final.

Após o longo sermão, no qual Zé Almeida muito falava, e os funcionários apenas escutavam, foram todos juntos para o elevador. Sem cochichos pois o chefe estava perto. Algum gripado e espirrou. O espirro pairou e quando a porta se abriu, o vento carregou a umidade viral para a faringe do Zé Almeida, que chegou em casa com as janelas fechadas respirou o ar viciado de sua casa poeirenta e solitária. Nenhuma boa mulher aguentaria viver alí dentro com as janelas fechadas. Zé Almeida se masturbava muito, as vezes contratava algumas putas e conservava as janelas fechadas para manter o cheiro de sexo do lado de dentro do quarto. O cheiro durava até apodrecer, e impregnava a pele do Zé Almeida.

No outro dia trovoava. O nariz de Zé estava cheio de meleca seca e a garganta de catarro. Ardendo com a passagem da saliva. O vento lá fora trepidava, carregava os fios, ameaçou faltar luz. A chuva soando forte. Zé Almeida saiu de casa atrasado, atravessou o percurso diário, parei em frente o semáforo, percebeu a confusão, carros desordenados. Os semáforos sem sinalização, piscavam em amarelo constante, tudo isso porque o vento carregou uma nuvem cheia de água que maltratou a estação de energia, que por sua vez desestabilizou toda a cidade informatizada, mesmo com janelas fechadas os computadores encheram de água, e não havia por onde sair. Água represada.

Zé Almeida atravessou a pista, os carros estavam loucos, por causa dos sinais que estavam loucos, por culpa da central que estava louca, por culpa da chuva que estava louca, por culpa do vento, que afirmou em trovoadas, que era o dono da razão.
O atropelamento de Zé Almeida na Avenida Principal não pode ser evitado.
Naquele dia todas as janelas do décimo oitavo andar do amanheceram abertas pela força do rio invisível. Foi varrida a poeira e o mal humor. Ficaram boatos de que Zé Almeida não teve forças para proferir sua última palavra antes de morrer, só fez uma coisa, soprou.

Caderninho

In ficção on Março 24, 2008 at 5:16 am

Perdi o caderninho
Foi sumiço que levou
Tão bem foi escondido
No limbo se atracou

Aonde estará o caderno?
Terá alguém o roubado?
E fúteis escritos anotado?
Ai do caderninho, sindo tanto

Havia escrito um poeminha
Mas não quis que ela lesse
Trancafiei intimamente, selei
Ela veio, não leu. Nem eu

Aonde estaria o caderninho?
Quantas letras desperdiçadas
Quantas lembranças no oblívio
Perder a memória é perder a senha

Revirei o quarto, tudo no chão
Escancarei gaveta a gaveta
Arrombei os outros quartos
Dedilhei palavras chave

Tantas páginas lhe faltavam
Me dei por vencido então
Com desapego eu aceitei
O triste fim do caderninho

Foram-se as noites
E logo após um banho
Bem no meio das cuecas
Apanhei-te cadernhinho

Diamante e ouro

In ficção on Março 18, 2008 at 12:50 am

Inspirado pela música Diamond and Gold de Tom Waits

Um…
dois…
três…
Um…
dois…
três…
um…
Cavando e cavando
cavando e cavando
um…
dois…

A arma de Murilo Estorpenico apontada sincera e tremulamente hesitante para a frágil nuca do pobre Lirinha escavador. E lirinha cavando e cavando. Suor escorre às testas de ambos os homens. Uma gota desliza cuidadosa pela fronte direita do rosto enrugado de Murilo, aguardando a delimitação da cova. Várias gotas cachoeiram da testa de lirinha…
cavando…
cavando…

Murilo, equipado com seu guardachuva, terno de linho, está elegantemente posicionado, um dos braços estendidos, o dedo no gatilho. As duas bolsas no chão.
um…
dois…
Cavando e cavando
Cavando e cavando

A pá escava e retira a areia do buraco, abrindo o inevitável caminho do homem, a cova. O buraco sempre esteve alí, só foi necessário que alguém tirasse de dentro toda a terra. Foi a pá que, cavando, tratou de concretizar o potencial buraco no inevitável caminho do homem.

um…
dois…
três…
Sete palmos completos. Lirinha descansa sobre a pá, limpa com a mão a água da testa, desidratação.

Blam. Dispara a pistola de murilo. Os miolos de Lirinha voam pelo ar. Lirinha e a pá caem juntos no chão, quase abraçados, mas a cova ainda está vazia.

Murilo recolhe as duas sacolas, diamante e ouro. Pesadas sacolas, o fardo da vida, a riqueza material.

Murilo posiciona-se em frente a cova cavada pelo defundo Lirinha. Aponta a arma para a própria cabeça.

um…
dois..
blam…

Murilo estira-se de botas batidas, corpo rijo, olhos fechados, testa furada.
Terno de linho.
Diamante e ouro.
A cova ocupada.

A entrevista que não fiz

In ficção on Março 13, 2008 at 1:42 am

Toda vez que essa pessoa passa eu tenho mil perguntas a fazer, mas não é assim que funciona, certas perguntas nunca serão feitas. Porém a ficção anda comigo.

Você lembra de tudo?
Lembro sim, mas é como se eu não estivesse lá na hora. Eu lembro de cada detalhe, mas não parecia que estava fazendo aquilo, é como se estivesse desligado.

Teve algum prazer?
Não. Não foi prazer, eu não tava sentindo nada. Não. Tava não. Eu gostava dela, eu ainda gosto, como eu gostaria de fazer isso? Não, não, não teve nada disso.

E como você fez?
Eu estrangulei ela com as mãos, apertei a traqueia dela, senti um ossinho estralar no meu pescoço e ela ficou toda mole no meu braço, eu deixei ela cair com cuidado pra não se machucar, mas ela já tava morta. Eu deitei e fiquei um tempão olhando pro teto, a janela tava aberta e a brisa tava boa.

Você sente remorso?
Não sei distinguir o que é isso. É que nem queimação de estomago, todo mundo fala que sente, e tem remédios pra isso, mas se eu sentisse eu nem saberia dizer o que é, não sei dizer qual a diferença entre uma queimação de estômago e outra dor de estomago qualquer. Os meus sentimentos são confusos assim, eu não sei a diferença entre o remorso e outra emoção qualquer, é tudo embaralhado.

No outro dia após o crime ele tentou fugir, tentou escapar da cidade, pelo que eu soube o pai deu uma ajuda, mas demorou demais, foi pego quando estava cruzando a entrada do próximo estado. Foi preso, dentro da cadeia não consigo imaginar o que pode ter acontecido a ele, mas esta história não é sobre o que se passou com ele, e sim sobre como ele se sente em relação ao mundo após ter cometido um ato tão digno de arrependimento, e tão distante da redenção, o homicídio.

Da última vez que o ví, ele estava na rodoviária às 11h da noite. O ônibus chegou e a fila se desfez em uma massa humana entupindo a porta de entrada do ônibus, um homem tomou as dores das pessoas que esperavam na fila e alinhou-se a porta, começou a gritar “ninguém vai furar fila comigo aqui não!” Ele olhou pra mim, “você não estava na fila! Você não vai entrar! Não vai!”, eu recuei, era muita gente, foi quando ví o cara, o tal, o “entrevistado”, era um dos mais calmos da fila, todos alvoroçados, menos ele, aliás, ele sempre teve a fama de calmo. Esperava diante da fila com uma paciência tremenda, eu pensava sobre o que aquele sujeito poderia estar pensando. Sobre a impossibilidade de tomar uma ação como qualquer outra pessoa, o simples pensamento de tomar uma atitude violenta diante de uma fila bagunçada pode ser suficiente para desencadear lembranças do dia maldito em que se atreveu a tocar no pescoço de sua namorada com um intuito sinistro. Aquele cara, ele não está mais na cadeia, está solto, mas solto não quer dizer livre, pois imagino que a luta interna sejá constante, para o resto de sua vida lembrará que a mulher que o amou não está mais nesse mundo, e a culpa é toda dele.

Entre os homens não há piedade.
Que Deus tenha.

Em busca do banal

In ficção on Março 10, 2008 at 8:29 pm

Tem um banquinho logo ali, vou sentar e prosear

“Não tem nada acontecendo. Não to conseguindo escrever. A impressão que me dá é que o curso de jornalismo tá me deixando com o texto muito metódico” foi o que Jonas estava pensando, sentado em um banquinho da praça do parque da cidade de Brasília.

Ele levantou a cabeça e observou a montanha russa descendo vertiginosamente em direção a pequena quase morte do susto da queda, passageiros gritavam desesperados para no fim entregarem-se ao marasmo da vida do lado de fora dos trilhos. “Quando a gente tá mais seguro nessa vida, aí é que a gente vê como é bom passar medo, perigo e borrar as calças de medo” Jonas estava pensando bastante hoje, mas o quadro da casa dele estava vazio, nem uma pincelada, e eram preciso muitas destas para botar algo na tela, algo que ele pudesse ganhar alguns trocados vendendo na torre de TV.

“Diabo de crise criativa” uma moça passando deixou cair um pedaço de pano, tava molhado o pano e a maquiagem no rosto da moça manchada, “o que será que aconteceu”. Esse porra desse jonas não sabia mais imaginar nem criar bosta nenhuma, só observar.

Jonas agora tinha um papel diferente no mundo, não era mais criar acontecimentos vertiginosos e realizar descidas constantes na montanha Russa, ele tornara-se um fotografo da vida, buscava agora os momentos banais e simples pós montanha russa, e se reparar existem muitos, veja só, a menina que gritava, agora vomita. O garoto que jogou um cuspe pro alto agora foi comer algodão doce. Um monte de coisas acontecendo, a caneta de Jonas já não inventa mais nada, copia e cola, copia e cola, copia e cola. E os momentos mais impressionantes são aqueles próximos do chão, bem longe da montanha russa.

Excelsa morada (2/2)

In ficção on Março 9, 2008 at 9:39 pm

(…continuação)

Segunda parte de um antigo conto

Dois dias na casa e nada.
Você perde o resto do seu segundo dia na casa tentando encontrar algo para comer ou para beber. A sensação de fome e sede é enorme, mas depois de dois dias sem comer, a fome passa como se nunca tivesse existido. Depois de algumas horas você dorme no sótão da casa e tem alguns sonhos estranhos. Havia alguém dentro da casa. Essa mulher viveu com você por muitos anos e nunca abriu a boca para expressar um sentimento real. Eram muitos “eu te amo” ditos a força, por obrigação, necessidade de convívio civilizado. Você se lembra de estar feliz. De achar estar feliz. Você acorda com a sensação de calor, mas não está suado.
Tudo a sua volta parece falso. Você mora numa casa de plástico.
Existe algum propósito?
Cheiro de novo, belos estofados de plástico, desconfortáveis como pedra, e bela arte em um quadro falso.Desesperado, você corre, desce a escadaria. Não há comida ou saída. A porta do térreo cede facilmente, você está do lado de fora. Tudo está escuro.

Você anda na penumbra e esbarra na parede de papel. Um material resistente, diversas camadas de papel. Tateando pela parede você busca por uma saída. Após alguns minutos, desiste de achar saídas e tenta criar a sua própria. Começa a rasgar o papel da parede, por ser muito espesso e ter várias camadas suas unhas se quebram. Seu desespero é maior do que qualquer preocupação com unhas. Como um rato, você cava.
Você se lembra de ter criado aquele pequeno ratinho que escapou de sua caixa de papelão? Se lembra de como ele fugiu e se escondeu por vários dias atrás da pia do armário do banheiro? O papo dele estava enorme, cheio de comida que ele havia conservado para a fuga. Quando sair deste lugar você não estará tão indefeso quanto o rato. Mas a pessoa que fez isso pagará. Você não admite ser enjaulado. Vingança!
Apenas por um milagre você ainda está vivo.
Esqueça. Não há o que cavar. Você sobe novamente para o ponto mais alto da casa, o teto inclinado em 45 graus. Uma luz podia ser vista através da parede.
Essa luz, a mesma luz que iluminava a casa toda. Pelo fato de que toda a casa era feita de plástico a luz ultrapassava cada parede deixando toda a casa esguiamente iluminada. No segundo andar uma das janelas lhe dá acesso ao teto da casa, tirando forças não se sabe de onde você escala a casa pelo lado de fora. O pensamento de escapar lhe move o corpo, não há medo nem hesitação.
Pulando para cima do telhado da casa, você sobe até o alto. A estranha parede de papel que fazia a volta por toda a casa fecha-se em cima de você como se fosse uma grande caixa envolvendo a casa. Subindo para o topo do telhado, você pode alcançar a pequena abertura que existe em cima da caixa. O lugar de onde emana tanta luz. E com enorme esforço, você passa para o lado de fora da caixa, escapando por fim do terror que ali está contido.
Uma pessoa mais fraca enlouqueceria com tanto sacrifício, mas o terror do lado de dentro da caixa abissal nada se compara ao que existe do lado de fora. Uma voz aguda e estridente ameaça seus tímpanos.
__ Você escapou. Andou vendo coisas que não devia! Agora é hora de descansar um pouco. Depois disso eu te coloco dentro da caixa novamente.
Uma gigante mão infantil lhe segura pela cintura, levando-o até uma plataforma vinte metros sobre o chão. Nesta plataforma está sentada a mesma mulher com quem sonhou, empalidecida, plastificada. Eu te amo. Inexpressiva. Pernas estiradas. Os olhos mortos, focam no infinito.
A mão que lhe carregou, entorta o seu corpo, aplicando-lhe força sobre o abdômen para que fique curvado, com as pernas esticadas. Você é obrigado a sentar-se alinhavado perfeitamente à mulher de seu sonho. A mulher dos seus sonhos.
Você quer falar com ela, mas não é possível. Seus pensamentos emborrachados sentem dificuldades de propagação no hemisfério mental.
A paz está de volta. Os pensamentos inquietantes já se foram. Não há lembranças, somente esta estranha calma que conforta.
Sua curta existência se encerra com as despedidas de boa noite da dona da abissal mão infantil. Você tem certeza que amanhã seu mundo encantado recomeça, assim que a voz divina voltar da escola.
Quando Deus vier brincar com você.

Excelsa morada (1/2)

In ficção on Março 9, 2008 at 9:39 pm

Primeira parte de um antigo conto

Você acorda encostado na quina da parede, sentado. Está usando uma bela calça social e um terno justo ao seu corpo. Suas mãos revestidas com luvas de pano branco e os pés calçados com sapatos caros de bico quadrado. Não entende porque está ali, não lembra seu nome e não tem a mínima informação a seu respeito.
Essa cena lhe parece familiar, no entanto é como se fosse produto de um sonho. O problema é que você nem sequer sabe se existia até minutos antes deste momento. Você se levanta com certa dificuldade, seus músculos estão doloridos como se não se movessem há muito tempo. Seu pescoço dói e as pontas de seus dedos estão pétreas, os olhos custam a se acostumar com a luz da sala.
As paredes da casa são cor-de-rosa, de um plástico resistente, no entanto são finas, seria possível ouvir o que se passa do outro lado, se não houvesse o mais absoluto silêncio. Não existem móveis na sala, somente uma escada, também de plástico. Você pode subir para o próximo andar.
Um porão cor de rosa, você ri, é tudo tão perfeito… e tão falso. Você pensa se aqui as pessoas serão feitas de plástico também, com suas belas aparências, máscaras de plástico. Existe essência sobre o plástico, ou serão todas ocas? Como bonecos?
Você sobe as escadas até o próximo andar, plástico e plástico por todos os lados. O papel de parede é de um adesivo vagabundo, imita a mobília da casa, bidimensional. O cor-de-rosa fino e infinito, super resistente, ânsia de vômito.
Você investiga algumas salas, janelas escuras. Uma misteriosa névoa silenciosa envolve toda a casa, bloqueia as janelas. A frágil porta de entrada está trancada, nem se move. Você se senta em um pequeno sofá de plástico da sala de estar, desproporcional ao seu tamanho, mas suficiente ao seu cansaço.
Como você veio parar aqui? – que estranho referir-se a si mesmo em terceira pessoa.
De onde veio, porque está aqui? Terá alguém lhe empurrado neste maldito lugar com algum propósito? O que há para se fazer? Quais são os seus objetivos aqui? É preciso ficar ou insistir uma saída na porta?
Apesar da familiaridade, sua memória não colabora. Você está completamente esquecido. Se alguém lhe deixou aqui, este alguém não se importa com você. Mas será realmente que “alguém” lhe deixou por aqui? Talvez você tenha chegado por engano. Por acaso.
Big Bang.
As diversas hipóteses lhe dão tempo para descansar o corpo, mas a mente se alardeia. Ficar parado não lhe levará a lugar nenhum, mas apesar de tudo estes pensamentos lhe motivam. Sugerem um objetivo. Acusam a filosofia de doença, uma infindável busca por respostas que se multiplicam em novas perguntas, porém, o fato de erguerem você de um sofá plastificado para encontrar estas respostas já é um bom motivo para se filosofar, talvez a filosofia não valha pelo seu objetivo, mas pela vontade que elas podem criar na alma de um indivíduo, aliás, pela alma que a filosofia lhe cede, a troco da busca. A força de vontade a troco da busca. Da busca sem fim e sem significado. A falta de significado em sua busca não o assusta, não há significado algum em ser o que quer que se seja. Não se pode desprezar a vida baseado no argumento de que ela não possui sentido, seria subordina-la a um conceito humano menor que a própria vida, a razão.

Os dias se passam, o silêncio é propício a evolução de seus pensamentos, às novas perguntas que lhe surgem, e a loucura que a inexistência de respostas podem causar.
Dois dias depois e você está morrendo de fome. É necessário explorar partes da casa que ainda não ousou explorar. Terá que subir a sinistra escada de plástico revestida com papel adesivo de estampa de madeira para descobrir algo por lá.

São diversos corredores, mobília falsa, papel de parede, lugares fechados. Um belo jardim de flores sem vida. Você precisa de comida, mas teme que seja falsa também.
Você se lembra das frutas de plástico, daquelas que as donas de casa usam para enfeitar a mesa de jantar. O motivo? Elas não morrem, não apodrecem, mas também não alimentam. Você costuma chamá-las de pequenas hipocrisias. É assim que começa a hipocrisia humana, aceitando pequenas frutas de plástico sobre suas mesas, e aos poucos, quando menos se percebe as hipocrisias já estão enormes, sem controle, é falta de amor. Não há nada a se sorver de vida nem de saber, de uma fruta de plástico. São tóxicas.
Você não se lembra de nenhuma experiência antes de aparecer nesta casa, mas estranhamente conhece os hábitos da vida comum, as frutas de plástico. Em um esforço mental você tenta associar as frutas de plástico a qualquer outra lembrança, tenta encontrar as suas próprias hipocrisias. Qual foi a última vez que disse eu te amo quando na verdade queria estar com outra pessoa? Essa seria uma hipocrisia e tanto, serviria de base para que se lembrasse de todo o resto de sua vida. Mas não lembra, nem disso. As pequenas hipocrisias cegam aos poucos tudo o que significa alguma coisa em sua vida.
Sua sensação é a de nunca ter existido. Os flashbacks de vagas lembranças são sempre impessoais, de um passado que não parece ter sido o seu, mas sim um passado coletivo, comum a todos nós.
Você só está na casa há três dias, mas é como se fosse a eternidade. As horas não passam no relógio de plástico.
Cada novo pedaço da casa que você conhece lhe traz a sensação de já o haver conhecido previamente, a surpresa do novo não existe. Você pensa que irá se surpreender com o próximo aposento, mas é sempre a mesma sensação:
“Eu já estive aqui.”
Apatia.
Esta “quase lembrança”, esta sensação de já ter passado por isso antes lhe causa um desapego, seus olhos não escondem o tédio. O tédio lastimável das pessoas indiferentes, um olhar elegante, blasé, tão imperceptivelmente triste.
Procurando por algo no sótão da casa nada encontra alem de um quarto vazio que dá para o teto inclinado 45 graus sobre a sua cabeça. O quarto tem cheiro de coisa nova. Presente de dia das crianças. Sempre que você compra algo novo (não que tenha lembrado de algo que já comprou) você se lembra desse cheiro de coisa nova. E lembra-se que gostava desse cheiro, mas agora a história é outra, esse cheiro de coisa nova está em você, em sua casa. Embrulho no estômago.
(continua…)

Rotíferos Delirantes

In ficção on Fevereiro 27, 2008 at 5:45 pm

Havia algo na coca cola, e era uma rotífera delirante

Fui de carona a uma festa de música eletrônica, apesar de não gostar, fui. Depois de uma hora de festa eu sentí a dor de cabeça e o mau humor. Irritação, procurei uma saída da festa, passei no meio daqueles jovens estúpidos, porque pra mim uma pessoa que fica debaixo de um chuveiro de estocadas mentais só pode ter merda na cabeça, é a minha geração, com a qual não me identifico. Na saída do local esbarrei sem querer em um frouxo, quando passei por ele, o sujeito empurrou meu braço, eu me virei para ele e a expressão facial de medo na cara do imbecil era evidente, fiz um gesto violento para ele, raspando as unhas dos dedos no queixo e apontando-as para eles, um gesto italiano de desrespeito, ele achou que eu fosse machuca-lo, prosseguí em direção a saída e respirei da atmosfera não tão poluída do lado de fora, ainda assim as batidas daquilo que eles chamam de música ainda era constante.

Não lembro de como foi o trajeto para a minha casa, uma voz gultural soava dizia coisas estranhas, era provavelmente o verme contido na coca cola acoplando suas manopla trituradora ao meu cortex cerebral.

Acordei no dia seguinte com a televisão ligada, não sei dizer até que ponto eu estava realmente acordado, mas penso ter visto, com os olhos entre abertos uma reportagem na TV:

Os vermes podem ser encontrados praticamente em qualquer habitat, mas por sua condição frágil os vermes preferem lugares escuros onde possam se hospedar com segurança. O sipúncula habita o meio marinho em águas pouco profundas aproveitando-se de conchas descartadas de outros animais. Os rotíferos são microscópicos e possuem uma coroa de círculos em sua boca que se movem rapidamente para captar seu alimento, habitam a água doce, mas podem se esconder até em pequenas poças de água da chuva. Alguns vermes podem habitar o aconchegante espaço interno de um ser humano, instalando-se em suas entranhas, alimentando-se da comida, de nacos de carne, de sinapses cerebrais ou até mesmo de dejetos. Alguns dos sintomas de vermes no organismo são: Apatia, sonolência durante o dia, vontade de alimentar-se de doces, desejos obscuros e incoerência de idéias.

Acordei plenamente minutos mais tarde quando já havia começado o programa da Ana Maria Braga. Descí e minha mãe me ofereceu comida, eu não aceitei, balbuciei qualquer coisa, não tinha fome mas roubei um ou dois bombons da caixa de chocolate, aquele programa da TV me deixou preocupado, pensava como os vermes podem influenciar nossa mente. Um simples verme no organismo poderia se conectar ao nosso cérebro solvendo nossa energia mental, alimentando-nos com comandos verminosos. Recebí um telefonema, sem muita atenção atendí. Concordei com uma ou duas sentenças e desliguei, era o meu chefe reclamando da minha falta ao trabalho. Minha mãe injetou minha dose diária de heroína na minha veia e eu perdí totalmente a noção da história que estava contando… não era heroína, mas minha carcaça já havia sido completamente tomada, minha individualidade fora absorvida por pensamentos verminosos. O remédio que minha mãe me injetou era o licor de cacau xavier, potente contra vermes e outras coisas nojentas.

_Mãe! – Gritei. – Me ajuda, me ajuda a sair daqui.
_O que foi meu filho?

Expliquei a ela todos os detalhes, contei inclusive os detalhes sordidos das minhas aventuras sexuais com a garota de um metro e cinquenta. Minha mãe olhou para mim estupefata e gritou:
_Vá para o seu quarto filho, você está com vermes.

Antes de dormir novamente (havia acabado de acordar) olhei para o espelho, profundas olheiras escavadas em meu rosto. Suor na minha testa, febre.

Tive sérios pesadelos aquela noite, quando acordei, a sensação de que tive foi a de que havia mais espaço livre na minha cama, mas os meus pensamentos já haviam adquirido ordem novamente, sai rastejando da cama e após escapar da coberta com uma dificuldade reparei na extensão de meu corpo, um bege estranho e prolongado que se estendia por um metro e oitenta e terminava em uma cauda ferina, tentei me livrar daquela carapaça mas não haviam braços, para me mover era necessário rastejar de um lado para o outro. Eu não era capaz de escavar pois o chão era de concreto, minha mãe abriu a porta e me viu rastejando suado pelo chão:
_Tome isso meu filho, você vai melhorar, você está com febre.
_Não mãe, não me dê um vermífogo, você vai me matar, você quer me matar mãe!!!

Ela me obrigou a tomar o licor de cacau xavier, na minha condição de minhoca não havia muito que eu pudesse fazer. Ela me colocou de volta na cama e durante mais um dia de sono pleno eu senti meus braços regressando a posição normal, podia mover minha cabeça separadamente de todo o corpo e quando acordei a cama parecia bem menor.

Aos poucos retornei a minha condição normal e concluí: Quando tiver vontade de fazer coisas estranhas, apatia, ausência de emotividade, incapacidade criativa e artística, incoerência despropositada ou consciência limitada, tome cuidado…
Podem ser vermes.

COMPRE LICOR DE CACAU XAVIER

O LICOR DE CACAU VERMÍFUGO DE XAVIER é um preparado a base de piperazina de efeito seguro e constante no tratamento de infestações por Ascaris e Oxiuros e rotíferos delirantes.

O seu filho vai sorrir melhor.

Fui me foder

In ficção on Fevereiro 21, 2008 at 12:16 pm

Mau humor contamina, e a culpa é dos maçons

Entrei no shopping, era pra encontrar alguém na lateral do shopping, mas em qual das duas? Fui na lateral errada e passando perto da porta esbarrei com um apressado, ele carregava um grande anel metálico, o anel raspou na minha mão causando um arranhão dolorido, agudo.
__Porra. Olha por onde anda! – Eu disse.

O cara lá de trás olhou pra mim e voltou.
__O que é que foi?

O guarda percebendo a confusão se aproximou, o sujeito chegava perto, eu parado, esperei.
__Você acha que eu fiz de propósito? – ele disse gritando.
__Não, mas toma cuidado com isso aí pow, chegou a sangrar aqui. Fica balançando o braço que nem um macaco. – Acho que foi a chegada do guarda que me deu essa coragem.

Quando ele percebeu a chegada do guarda ele saiu a tempo de dizer:
__Vá se foder.

Saí para a lateral e me encontrei com José, tirei de um envelope pardo alguns papéis referentes a uma negociação em andamento. José assinou os papéis enquanto eu percebia o sangramento da minha mão, causado pelo anel que o macaco ostentava no dedo. “Porque alguém anda com um anel tão esdrúxulo?”, pensei, “provavelmente é maçom”.

Prosseguí a caminhada, tinha um encontro marcado com a Lilian, achei que me acalmaria. Ela começou a comentar sobre coisas que eu tinha feito de errado com ela. Eu sentí como se a estivesse deixando triste, sentí que tudo que estava fazendo com ela era errado, mesmo sem querer.
__Aquele dia você não devia ter bebido cerveja!
__Mas eu nem quis ir, eu estava de carona! E além do mais, depois disso fiquei doente.
__E mereceu! Pra aprender!
__Mas eu te liguei pra avisar, não foi culpa minha.

Ela me olhou e apertou os olhos, o tom de acusação.
__Isso é atitude de menino! Eu não te disse que você tem jeito de menino? Eu tava certa – foi o que ela me disse, para concluir a ofensa.

O que ela quis dizer é que eu não me porto como um homem, que eu não tenho caráter. Depois dessa acusação eu não conseguirei ser espontâneo com ela novamente, pois sou o que sou, mas eu ainda não tinha cabeça para saber se eu estava certo ou errado, sorrí um sorriso bem amarelo, me levantei da frente dela meio baqueado, me despedí secamente e saí pensando como aquela garota estava me fazendo mal. Pensativo, na beira da pista de um dia chuvoso o ônibus aproveitou a poça suja para espirrar água na minha canela e dentro dos meus sapatos.
De calças e meias molhadas gritei:
__Vá se foder!

Coração de pedra simulado

In ficção on Fevereiro 3, 2008 at 11:28 pm

Ela quis terminar o namoro ontem, eu não fugi
Tudo começou no dia que eu fui na casa dela e percebí que ela estava sofrendo pelo ex namorado. Aí eu pensei, eu não devia ter me apaixonado, tudo estava seguro enquanto eu só queria passar a mão nas pernas dela, agora foi longe demais. E eu titubei, mas não caiu nenhuma lágrima, porque eu estava sofrendo, mas o período que passei em São Paulo me foi útil para aprender a simular um coração de pedra.
_Tá. Eu vou embora então.

Foi o que eu disse enquanto me levantava. Ela tentou me puxar pelo braço. Eu puxei o meu braço com de violência. Ela olhou pra mim surpresa.
_Eu vou. Porque eu sei como são essas coisas, e eu não vou me lamentar aqui pra você.

Fui embora. Lembro que no ônibus eu tirei um anel que ficava no meu dedo. Eu considerava um anel de compromisso. Ela não sabia disso, só eu tinha o anel, eu nunca tive coragem de dar um anel pra ela. Eu andava com um anel no meu dedo para me lembrar de não fazer besteiras. Joguei o anel pela janela do ônibus. Ele quicou umas duas vezes no chão até que um carro passou por cima.

E eu pensando:
_Então você vai acabar comigo mesmo né?

E ela acabou comigo. No outro dia eu estava acabado. Triste e apático.

Recebí hoje uma ligação dos meus pais. Eu to com uma tremenda dor de barriga, vai ver foi aquela sopa de feijão que eu comi ontem a noite no lual perto do tororó. O jeito certo pra preparar feijão é deixa-lo congelado um dia antes, assim evita gases e as dores inconvenientes, oriundas do acúmulo de ar no abdomen. Quando meus pais me ligaram eu estava com duas dores inconvenientes… a primeira dor, dos gases, a segunda era a dor de estar acabado.

Tratei meus pais tão friamente que sentí pena deles depois, pois sou um filho tão omisso e tão desmerecedor de tudo o que tive nessa vida. Sempre fui um filhinho de papai, burguês, classe média, cristão e higiênico e olhem só para mim agora, tratando-os com descaso. Que péssimo traste de filho eu sou. Por causa de uma estúpida garota que não me ama, estou tratando as pessoas que realmente me amam, e que ligam pra mim somente para ter notícias de como eu estou.
Isso é tão triste que eu não pude simular o coração de pedra.
Eu chorei.

A Boca da fé

In ficção on Janeiro 28, 2008 at 6:12 pm

Os dentes são a fé e Deus é o Dentista
Cara. Minha teoria sobre a fé do Cristão é a seguinte. Deus é como um dentista, os dentes são a fé e o dono da fé é o Cristão. O Cristão só cuida dos próprios dentes porque ele morre de medo de encarar o dentista. Os cáries são as máculas dos pecados nos dentes da fé. Os doces são as tentações que destroem a fé. Os dentes brancos e corretos são exemplos de fé, santidades bucais.
Quando Deus corrige as máculas da alma, ele causa dor, muita dor. O Cristão fica exposto de boca aberta, diante de seu Deus, é uma provação!
Perder os dentes seria algo como cair nas brasas do inferno, você nunca mais terá acesso as tentações, tomará sopa para o resto da sua vida!

Entendeu a parada boca murcha ?

Naja

In ficção on Janeiro 25, 2008 at 4:52 pm

Já estava bêbado, mas parei em um boteco para beber mais e ouvir forró de terceira
Lastimável o meu estado. Completamente bêbado, cheio de olheiras, com o pé sujo de chutar latas de lixo e pisar nas poças de pós chuva. Sentei na mesa e pedí uma cerveja mas não quis ficar sentado, fui para dentro do boteco. Fiquei perto da Jukebox, de uma seleção musical de extremo mal gosto. De costas para a muvuca impregnada de suor eu bebi a minha cerveja e fiquei observando de longe uma mulher mal cuidada, mas bonita. O cabelo embaraçado e a maquiagem barata disfarçavam a beleza natural daquela mulher, habitante da sargeta.

Olhava para ela de longe e ela se aproximou com o rebolado dengoso, deixei que o meu quadril se encostasse no dela. Eu podia estar no fundo do poço, mas ainda estava melhor do que qualquer pé rapado daquele bar.

_Qual é seu nome? – perguntei.
_Por aqui me chamam de Naja.
_mas esse é seu nome?
_Não interesa. Vem cá.

Mesmo sem saber dançar me engalfinhei com aquela mulher e saímos balançando pelo bar, esbarrando em todo mundo. Acabamos a cerveja e saímos do bar sob o olhar malicioso e invejoso dos que já estavam alí há algum tempo, esperando brecha daquela mulher.

_Para onde estamos indo?
_Para o “Cereja´s”, fica perto da minha casa. Eu conheço todo mundo por lá.

Saímos andando, bêbados esbarrando um no outro. Passamos em frente ao lugar onde eu morava.

_Espera. Vou entrar para escovar o dente e já volto.

Enquanto eu abria o cadeado da minha porta ela me puxou.

_Não. Vamos para o cereja´s
_Só quero escovar o dente, minha boca está com um gosto ruim.
_Se eu não vou escovar o dente você também não vai. É justo né?
_certo.

Tá certo, ela sabia o que eu estava fazendo. Eu realmente queria escovar os dentes, mas no fundo o que eu queria mesmo era traze-la para o meu quarto, o matadouro. Ela foi esperta em me puxar. Continuamos atravessando as ruas sujas, o sol nascendo coloria de cor bonita aquela feiura toda, misturada com miséria e gente suja. Ela começou a me contar sobre um caso de amor, que se transformou em um caso de ódio. Um ex-namorado humilhou ela em frente da família dela e ainda ficou lhe devendo 300 reais.

_Eu quero matar ele! Eu juro que vou me vingar! O que ele fez comigo ninguém mais faz!
_Que isso. não é pra tanto!
_Eu vou matar ele! Eu mato mesmo! Eu mato com a minha mão.

Fiquei assustado, mas estava tão bêbado que abracei ela enquanto andavamos, como um amigão dos velhos tempos.

_Não tem porque você fazer isso. Ignora esse cara. Pensa no tanto de coisas boas que você vai deixar de fazer se fizer uma coisa ruim com esse cara? Você vai pra cadeia! Vai sujar sua vida em troco de quê ? De trezentos contos e de um cara que é um verdadeiro bosta! Esquece essa idéia!
_Eu não.
_Poxa. To te pedindo de coração aqui. Esquece esse assunto. Faz isso por mim.

Eu não costumo dizer essas coisas, acho engraçado até essa minha última frase, mas eu estava realmente muito bêbado, e saiu. Ela parou, pensou, também estava muito bêbada.

_Sabia que eu to gostando da sua presença aqui?

Ela me repetiu isso umas três vezes enquanto caminhavamos. O sol batia no nosso rosto, o dia estava bom, mas o sono já começava a incomodar. E aí eu comecei a pensar em Deus e nas coisas que ele faz, e comecei a imaginar que o senso de moral definitivamente não foi uma das invenções desse nosso Deus. Deus é bom, mas a maneira dele, se ele tivesse mesmo um senso de moral ele me castigaria por estar bêbado, mas vejam bem, eu estou bêbado nesse momento, pregando para essa garota cheia de ódio e rancor uma mensagem de amor: Perdôe o seu próximo. Eu estou na sarjeta e mesmo assim posso fazer algo de bom. Me desculpem mas os Cristãos estão errados, eles não sabem do que estão falando. Ser um certinho hipócrita não é sinal de presença do divino.

Chegamos no tal “ceraja´s”, mais um boteco meia boca. Naja chegou cumprimentando todo mundo.

_Eu moro alí!

Ela me apontou um apartamento caindo aos pedaços e já foi pedindo outra cerveja. Um velhinho com traços de boçal ficava nos fazendo rir com sua maneira engraçada de falar. Ele abraçava a Naja a todo momento e olhava para mim com uma cara divertida. Os outros bêbados, amanheceram descendo a cachaça, mas todos tinham algo de bom no olhar, infelizmente estavam numa posição ruim. Eu não queria acabar como eles. A Naja repetiu que a minha presença estava fazendo a ela muito bem, e que ela já tinha desistido de matar o cara. Achei graça.

_Eu tenho que ir agora.

Eu deixei meu copo de cerveja pela metade. Ela foi comigo até a porta do bar.

_Me dá um beijo. – Eu pedi.
_Não. Pra que?
_Quero te beijar. Eu vim até aqui com você pra te beijar.

Ela não pareceu incomodada. Ela me deu um beijo bem pequeno, um selinho, lábios com lábios, mas o bom foi saber que o dia estava começando bem.

Quando virei a esquina ela ainda estava se despedindo.
Nunca mais ví a Naja.

Estranho dia, e comiseração

In Egotrip, ficção on Janeiro 17, 2008 at 7:16 pm

Era um dia complicado, dor de cabeça, mal humor, calor. Eu confesso, estava a ponto de chorar. Digno de comiseração. A empregada da minha casa veio passando mal, isso foi há um mês, e chegou febril e mesmo assim realizamos todas as ações, não reparei que ela estava doente, eu devia estar num dia daqueles, de correria, mas ela suava como um porco que acabou de trepar. Eu não reparei. Tudo bem, isso foi há um mês.
Hoje eu acordei de mal humor, tive um pesadelo terrível, sonhei que um sujeito invadia a minha casa, sequestrava duas mulheres que estavam comigo e me prendia. Ele me torturava arrancando uma das minhas orelhas, me fazia implorar pela vida, eu ficava com o rosto colado no chão e com os olhos arregalados esperando pelo pior. Em certo momento eu conseguia escapar e fugia correndo, alucinado, fechava o portão da casa e olhava para trás, ele, o antagonista, ainda não tinha me visto, porém já tinha percebido que eu havia escapado. Eu entrava num matagal e dalí prosseguia para um pedregulho, para me esconder. O maldito vinha andando. Eu achava que estava bem escondido, mas ele vinha exatamente na minha direção. Eu fugia para dentro de uma casa e encontrava uma faca que usava para perfurar a barriga do criminoso e fazer um corte em seu rosto. E então eu saia desse local, mas o criminoso ainda estava vivo e vinha andando atrás de mim, e então eu era obrigado a cortar o pescoço dele para que morresse. Eu saia, sem querer assistir a miséria daquele homem, sofrendo com a garganta cortada diante de mim. Eu voltava para minha casa e encontrava o meu cachorro, que é o cachorro que possuo na vida real. O cachoro me atacava, era o espírito do assassino que estava incorporado no meu cão! Ele me mordia, arrancava grandes nacos da minha carne, e num certo momento ele falava, com sua voz canina, que iria me destruir, completamente, porque me odiava. E então eu parava e discutia, dizia que por mais que ele me odiasse, eu nada poderia fazer, porque não sabia sequer qual era a razão do ódio que ele tinha por mim, e pedia desculpas caso eu tivesse feito algo em meu passado que o irritasse. Mas ele não me dizia nada, não explicava o porquê do ódio, eu, por não me lembrar de motivo algum, assumi que fosse um ódio gratuito. Mas aí então o demônio saia do corpo de meu cachorro e me deixava finalmente em paz, severamente danificado, psicológica e fisicamente, eu acordei, debilitado na manhã de hoje. A casa estava vazia, tive que alimentar os pássaros e os cachorros.
Olhei a caixa de correio e lá estava uma carta que eu abrí com cuidado para não estragar demais o envelope. Qual não foi minha surpresa ao saber que a minha empregada estava me ameaçando. Ela queria me processar pelo meu descaso como empregador, por tê-la feito trabalhar num dia de febre, e que isso lhe causara grandes aflições à saúde e ao psicológico dela. Quase rí, estariamos ambos tendo maus dias, em dias diferentes. A carta me deixou ainda mais abalado do que o pesadelo, ou talvez da mesma forma, não sei dizer.

Fui ao restaurante almoçar, não havia mais comida congelada em casa, e um homem de porte atlético discutia suas teorias fascistas com um outro sujeito, provavelmente seu irmão, que ouvia tudo calado, apenas comendo, sem muito gosto. Explicava ao colega que os gordos são animais, e que são sujos como são os pervertidos sexuais, pois o pensamento em comida do gordo é luxuriante, seus hábitos alimentares são bestiais e sua aparência rotunda, uma blasfêmia. O ideal grego de beleza, quase nazista. Mas para o meu espanto, na mesma mesa em que ele estava sentado comendo se sentou uma mulher gorda, ela era enorme, e era realmente feia, e comia voraz, a comida caia pelas bordas do prato, e ela repetia. Enquanto isso o sujeito atlético olhava com reprovação “Está vendo só! É o que eu estou dizendo”. Por algum motivo senti raiva de todos presentes naquela mesa, não pareciam humanos, pareciam ter sido unidos por um trágico destino, falando em Grécia, por um ato de crueldade dos Deuses. Porque estariam juntos, alí naquele momento, um homem que odeia gordos, com um antipático, com uma gorda tremenda? Mas o odiador de gordos se humanizou quando me disse: “Quando eu era como você! Eu pensava como você, e tudo o que os outros diziam parecia não me fazer sentido! Mas eu tive alguém para me educar, e vou educar você! Pára de comer essa comida agora!” Ela queria repetir o prato, mas ele não deixava.

Eu contemplava os dois brigando enquanto pensava que não havia fundamento algum na dramaturgia da vida cotidiana.

Menino Explosão e a nota baixa

In ficção on Janeiro 11, 2008 at 2:23 am

Lições anarquistas do menino explosão
Menino explosão e a nota baixa (001)

Oi, :-)

Eu sou o menino explosão. Algumas coisas que me incomodam, eu acabo explodindo com as técnicas que eu aprendí :) Eu tenho esse péssimo hábito de explodir as coisas. hehehe. Eu sei. É falta de educação, mas poxa vida. Eu sou uma criança e as bombas me dão uma sensação de ser mais poderoso que os adultos autoritários.

Uma vez minha professora tinha pedido pra eu trazer um trabalho mas eu não trouxe, aí ela ficou me enchendo o saco e baixou minha nota. Eu fiquei triste e quase chorei. Mas aí eu resolví me vingar. Eu pedí pra ir no banheiro. Em vez de ir no banheiro eu fui na piscina e peguei um pouco de cloro granulado (20 a 50g). Depois fui na cantina e pedí a mesma quantidade de açucar (20 a 50g). Arrumei uma garrafa de refrigerante (dois litros). Só achei a garrafa de plástico. Se eu resolvesse usar a de vidro poderia fazer um belo estrago porque o vidro se espalha e voa em alta velocidade para todas as direções causando danos enormes a qualquer coisa que esteja no caminho. Aí eu peguei a garrafa, coloquei o cloro primeiro, depois fiz uma mistura (separadamente) de água (mas com açucar (mas tambem poderia usar leite) e joguei lá dentro. A quantidade de água que eu usei tomou mais ou menos 1/4 da garrafa, é uma boa quantidade. Aí eu agitei a garrafa rapidinho e voltei pra sala como se nada tivesse acontecido. Minha Bomba de cloro estava engatilhada.

Na hora que eu sentei na cadeira, a garrafa demorou um pouco para explodir mas isso é normal, a reação não é rápida, por isso é melhor não voltar, mesmo que ache que vai dar errado. Alguns segundos intermináveis se passaram e a garrafa explodiu. KABUM ! A minha professora deu um grito tão alto que eu achei que ela ia morrer do coração.

Ela olhou para mim com uma certa suspeita. Eu olhei de volta com um sorrisinho educado. As minhas notas não aumentaram mas acho que ela entendeu o recado porque apesar de ter ido mal em todas as provas eu passei de ano numa boa. Ela foi esperta, porque sabe que o carro dela seria o próximo alvo caso meus pais soubessem de alguma coisa ;-)

Das próximas vezes vou contar algumas das minhas experiências com outras bombas :) Você sabia que para fazer napalm é a coisa mais fácil do mundo? Um dos ingredientes pode ser suco de laranja. Legal né? :-D

Será que ele voou?

In ficção on Janeiro 5, 2008 at 1:51 pm

Augusto tomava cerveja e ouvia mpb num barzinho a beiramar quando da telha cai um pássaro, direto no chão. Ele se aproxima e segura o pequeno filhote, cheio de pulgas, que mal sabe piar, está abrindo a boca pedindo por minhocas.
Augusto jura de pés juntos que tentou colocar o passarinho de volta no seu ninho escondido no teto do bar, mas esse rebelde voltava a cair. A solução foi leva-lo para casa, embrulha-lo com jornais e isopor e amassar um pouco de goiaba e maracujá para alimentar o bichinho.

No dia seguinte Augusto acordou tarde, foi direto olhar o embrulho do passarinho, não estava mais lá. Maria é o nome da empregada da casa, ela fala num tom monocórdio e lento, e as vezes quando você diz alguma coisa ela responde automaticamente, como se não tivesse entendido nada, mas responde do mesmo jeito.

_Maria! Você viu um passarinho aqui?

Maria se aproxima, faz uma cara de sonsa e responde no monotom, lentamente.

_Que passarinho?

Augusto imaginou: Essa mulher jogou fora o embrulho com o passarinho e nem sequer viu que ele estava lá dentro.

_Maria, é porque ontem eu encontrei um passarinho que fugiu do ninho e decidi abriga-lo aqui em casa. Eu deixei ele guardado aqui.
_Num embrulho de isopor?
_ISSO!
_Será que ele voou?

Como assim será que ele voou? Pensou Augusto, que tipo de pergunta é essa?
_Não Maria. Ele era bem filhote, as penas estavam se formando. Além do mais ele estava preso.

Maria ficou calada, como se estivesse engolindo a culpa. Aquela cara de sonsa.
_Vem cá. -Ela disse.

Augusto foi atrás de Maria, percorreram a cozinha, saíram de casa. O sol rachava lá fora. Maria apontou um toco de madeira e o passarinho estava estirado, duro como uma pedra debaixo do calor do sol quente. Augusto olhou para o bichinho, Maria pegou nele sem nenhum cuidado, e fez o pescocinho inerte se mover. Augusto sentiu uma fisgada no coração, era de família, quando viam um animal doente tinham que cuidar, e o peso da responsabilidade doia porque geralmente o animal morria.

_Maria. Quando você tirou ele da caixa ele já estava morto?
_Ahhh. Já.
_Já estava morto? Tem certeza?
_Ahhh. Estava quase morto.

Que raiva Augusto sentiu. Pensamentos infames, “eu podia pega a bicicleta dela e esconder em algum canto. “Augusto, aonde está minha bicicleta?” ela perguntaria. “Será que ela não saiu andando?”, e então a levaria em direção a bicicleta e a roda estaria quebrada, “Augusto, a roda já estava quebrada antes?”, e Augusto responderia “Ahhh.Estava quase quebrada”.

Maria jogou o bichinho morto na lixeira, Augusto ficou parado em frente ao toco de madeira ensolarado.

Aquela mentecapta, Maria.

ilustração: Garden and Birds Nest – Maria Eva

Fonsequinha, o criminoso

In ficção on Dezembro 19, 2007 at 1:52 am

Três horas e vinte cinco minutos da madrugada de sete de outubro de 1987na cidade Burlesca

Fonsequinha, o filho mais jovem da família Fonseca, levantou-se com o estômago roncando, pôs os pés no chão frio e desceu as escadas, os ossos de Fonsequinha estralavam e o som ricocheteava nas paredes num crescendo estridente. A ausência dos sons diurnos ampliava o menor dos sons noturnos, quer fossem emitidos pelo corpo de Fonsequinha, ou pela madeira da casa encolhendo com o frio.
Fonsequinha chegou à cozinha da casa, nas pontas dos pés alcançou a jarra de biscoitos proibidos de sua mãe. Os biscoitos foram feitos especialmente para a festa de dia das crianças que a família Fonseca tinha costume de comemorar todo dia 12 de outubro. A família dos Fonseca amava a vida, e gostava de celebrá-la em qualquer ocasião, na páscoa, no dia dos estudantes, no dia do trabalhador, no dia do engenheiro, esta era a profissão do pai de Fonsequinha. Nos meses sem datas especiais a família comemorava só por comemorar. Mas os biscoitos, feitos com tanto amor, só deveriam ser devorados no dia da festa. Fonsequinha achou que um biscoito antes da hora não faria diferença num jarro cheio deles.
Sentou-se na mesa da cozinha silenciosa com a tampa do jarro aberta, no relógio atrasado eram três horas e doze minutos. Fonsequinha degustou um dos biscoitos, um prazer lento, o biscoito e as gotas de chocolate derreteram em sua boca, suculenta de apetite.
Fonsequinha guardou os biscoitos no lugar de sempre, virando o desenho da jarra para a esquerda, exatamente do jeito que ela estava, o crime perfeito, sem provas. Andou para fora da cozinha em passos de passarinho.
Os holofotes se acendem!
_Alto lá. Você está sendo julgado pela acusação de furto dos biscoitos de sua mãe antes do momento apropriado. – Disse o Juiz do Tribunal improvisado na sala da família Fonseca.
_ Meritíssimo! O meu cliente não teve culpa, acordou e desceu para matar a fome, que mal há nisso! – Protestou o advogado de defesa.
_Que seja condenado então por homicídio! Que seja por isso então, condenado o réu. Observem, senhores do Júri, que a cara de inocente não é sinônimo de inocência, eu conheci pessoalmente os mais frios assassinos e suas faces eram todas menos a de um culpado!
O semblante de Fonsequinha era o mais atônito e surpreso jamais expressado. O advogado de defesa puxou Fonsequinha para a cadeira do réu, era uma das regras do tribunal que quem não estivesse falando deveria ficar sentado.
_Fique calmo Fonsequinha! Nós vamos sair dessa – Confortou-lhe o defensor, que prosseguiu dirigindo a voz a todo tribunal – senhoras e senhores aqui presentes neste tribunal, lhes peço que não façam julgamento das aparências, nem muito menos baseados nas belas palavras de meu colega de profissão, pois não estamos no recinto para pôr em julgamento as capacidades de oratória de um retórico eloqüente, nem muito menos para criminalizar um pobre cidadão com a única intenção de livrar-se da própria fome durante a madrugada, estamos aqui para pesar na balança da justiça se este homem, acordado com fome durante uma noite fria, deve ser condenado tão gravemente por comer um biscoito que acabaria comendo do mesmo modo no dia seguinte, aquele que nunca cometeu um crime destes, que atire a primeira pedra.
_Fonsequinha, – disse o Juiz – O senhor tem alguma palavra em sua defesa?
Todo o tribunal olhou para Fonsequinha, inclusive seu pai, mãe e irmãos que a essa altura já acordaram com toda algazarra do julgamento. A família ficou atrás das cordas amarelas de “não atravesse” para isolamento da cena do crime e do público curioso. Os dois irmãos mais velhos olhavam para Fonsequinha em tom reprobatório. Fonsequinha com tristeza no olhar proferiu:
_Mãe, pai… desculpa. Eu não resisti, eu só queria um biscoito…
_Antes da hora meu filho? – Disse a mãe chorosa. O pai a abraçou e choraram juntos pelo filho marginal. Os irmãos descontentes com o ato ilícito, um deles carregava o cartaz “o biscoito é para todos”. A essa altura o advogado de defesa estava cabisbaixo recolhendo os papéis. O promotor do tribunal bradou:
_Réu confesso meritíssimo! Exijo o encerramento deste caso!
O martelo que bateu sobre a mesa soou mais alto do que todos os ossos do corpo de Fonsequinha estralando juntos durante a madrugada, a vizinhança acordada com a senteça de culpado. O advogado de Fonsequinha, recolheu os papéis da mesa, falou em voz baixa, sem olhar nos olhos do cliente:
_Você não devia ter dito nada, estávamos chegando lá!
Fonsequinha foi algemado. O querido caçula envergonhou a família, passou no banco de trás do carro da polícia escondendo o rosto da imprensa. A vizinhança se avolumava, ainda de pijamas com um interesse mórbido por saber quem seria o delinqüente do bairro.
Culpado! Culpado! Foi a notícia dos jornais. O promotor secretamente comemorou mais uma vitória para o seu gordo currículo.
De toda a família, só a mãe perdoou o jovem caçula por seu ato condenável. Sempre que há dia de visitação na penitenciária, a mãe esta lá, com um ou dois biscoitos para o filho Fonsequinha.
Mãe é mãe.

O encosto do crente

In ficção on Dezembro 14, 2007 at 3:58 am

Ele, um devoto de Jesus Cristo convicto sabia que algo de errado deveria transitar nas profundezas de sua alma, não é certo prestar tanta atenção nos bustos e bundas das garotas por tanto tempo… por tanto tempo que quase salivava. Que curvas… Meu Deus – ele dizia – porque as fez tão desejáveis? Que crime terei cometido eu para merecer estas tentações? Evitava. Certa vez até jejum fez, mesmo com fome e sede, ele deseja os corpinhos ladeados pelos vestidos de ceda. A pureza das irmãs estava ameaçada pelos seus olhares sedentos.

Luana, a mais fornida das cristãs, de formas rotundamente aprazíveis, virava a esquina, com a bíblia debaixo do braço… e os quadris, que quadris… apareciam a cada requebrada, involuntariamente, avolumando se nas dobras da ceda, seus imensos quadris, sobriamente disfarçados sob o tecido azul cafona na altura das canelas.

Não! Não! O brilho dos olhos daquela moça com certeza foi Deus quem deu, mas as curvas, estas foram eroticamente planejadas pelo capeta, afim de angariar almas para o inferno. E quanto mais tentava reprimir, mas clara em sua cabeça ficava a imagem da sua língua percorrendo os caminhos sinuosos das coxas carnudas. A verdade seja dita, que coxas! Mas haveria algo no meio daquelas pernas… era o capeta de barbas! Era isso!

Andou sem destino, quando se viu parado, tentando respirar, encontrou na banca de revistas um varal de obscenidades, expostas à luz do dia. Pouca vergonha! E depois da próxima esquina o pastor, sereno. Passou direto, esquivou-se como pôde.

Um cheiro estranho atraiu sua fome de 25 horas de jejum. Era camarão… camarão e algo mais. O acarajé da daquela mulher gorda e sorridente não era comida de crente mas os quatro reais de sua carteira foram bem gastos, pagou a comida pecaminosa com o dinheiro sujo que ela recebeu de bom grado. A fome passava, mas a outra fome ainda não.

Me diga senhora… Preciso saber se nessas religiões, nessa tal de macumba… Preciso saber se tem um orixá pra luxúria! Eu preciso saber!

Meu filho, orixá da luxúria. Não tem nenhum orixá desses no candomblé nem na umbanda filho. Tem não meu filho.

Não era um encosto, ele não estava possuído. Estava é na fase de acasalamento. Aquele crente safado. Com a barriga farta do acarajé, o sabor ainda na boca, a fumaça do óleo velho, os olhos vítreos nas curvas da irmã de carne farta passeando pela rua. Seu jejum estava banido e logo a castidade também estaria. Esta noite a irmã crente ouvirá uma confissão.

Durante a noite a irmã hesitou.
Vire o rosto. Esconda a bíblia. – Foi o conselho que ele deu.

Incomunicabilidade na loja dos Siqueira

In ficção on Dezembro 7, 2007 at 7:29 pm

O expediente havia encerrado na loja de sapatos da família Siqueira
O Pai arrumava os sapatos jogados.
A filha inquieta no canto, sem ajudar.

“Ajuda filha! Esse pessoal faz uma bagunça. Dá uma mão aí.”

Ela ajuda o pai, sem motivação mas ajuda. Os vendedores saíram mais cedo hoje, sexta feira é sempre assim.

“Eu não sei o que é, mas as vezes sinto essa sensação. Estranha…” – diz a filha, pensativa.

O pai não pára de arrumar, e nem presta atenção na filha. Ela prossegue.

“É como se eu tivesse feito algo de errado. Sabe pai? Sabe quando você faz algo de muito errado e sente um peso na consciência?”

O pai olha para a filha. Ela tenta adivinhar se aquele é um ar de desaprovação ou de incompreensão.

“o que você fez agora hein Letícia?”
“Não fiz nada pai!”
“Então tá reclamando do que?”
“Não to reclamando, só to falando que to com a sensação, de como se eu tivesse feito algo de errado, mas eu não fiz nada. Você já teve isso?”
“Quem não deve não teme! Você deve alguma coisa?”
“Não pai.”
“Então termina logo isso enquanto eu fecho o caixa. Cabeça vazia é oficina do diabo.”
“Tá bem pai.”

A batida e o tribunal

In Egotrip, ficção on Dezembro 3, 2007 at 6:16 pm

Há um mês, andando de carro eu entrava em um balão quando fui ultrapassado e batí no outro carro
No mês retrasado fui vítima e autor de uma batida com duplos culpados. Tanto eu, quanto o outro carro envolvido fomos vítimas e autores da batida. Explico aqui com total sinceridade.

Eu transladava de um lado para o outro da cidade, era uma longa viagem. No meio do caminho a pista estava completamente vazia, havia apenas um carro além do meu, olhei no retrovisor, ele estava a direita e atrás. O balão era espaçoso, percebí que eu deveria virar a minha direita, mas que tinha passado na entrada e então resolví fazer o balão para pegar o meu caminho certo. Subitamente, quando olho no retrovisor, o outro carro me ultrapassa pela esquerda na entrada do balão. No momento em que eu percebí a ultrapassagem não havia mais tempo para desviar, e batemos, roda com roda. Ele parou do lado de dentro do balão, eu parei do lado de fora.

Com o homem do outro carro estavam duas pessoas, uma criança de uns oito anos e uma garota de cerca de desesseis anos. Ele saiu do carro e ficou olhando a batida. Eu permaneci um pouco dentro do carro, me culpava pelo acidente. “QUE IDIOTA QUE EU SOU” eu dizia. Abaixei o som, e saí do jeito que estava, sem camisa, o dia estava quente.

Observei a batida, o para choque dele estava danificado, e a parte da roda. O meu carro foi danificado na porta e na parte da roda. Não houveram grandes danos. A colisão não foi tão forte.

Conversei com ele calmamente, passei meus dados, nome, rg, endereço, telefone e fui embora nervoso, como se eu fosse o total culpado pelo acidente. Prossegui com minha viagem, a consciência estava pesada. Ainda teria que enfrentar meus pais, eu sou estagiário, ganho um salário de 400 reais, como iria pagar pelo estrago. Combinei com o homem que tratariamos do assunto sem envolver justiça.

Dias depois começamos as negociações por telefone, e a cada vez que ele me ligava cobrando (1300R$ o valor do conserto no carro dele) eu ficava pensativo. Ele me enchia com aquela voz de culpado, e eu pensava melhor sobre a ocasião, e eu entendia “ele me ultrapassou na entrada do balão. Eu estava nervoso e assumi a culpa, mas eu não tive culpa, ele está querendo se aproveitar de mim. Vou reduzir o preço desse pagamento, apenas para evitar problemas com a justiça. Sugerí que ele diminuísse o preço para R$600,00, e ele aceitou sem hesitar. Será que o valor estrago do carro era realmente de 1300R$? Ele não teria aceitado minha oferta tão rapidamente. E mesmo que fosse, e o meu carro que também sofreu com a colisão? Ele poderia ter esperado que eu entrasse no balão e depois me ultrapassado, ele não precisava nem sequer me ultrapasssar, a pista era larga. Havia espaço para os dois carros. Mas ele me ultrapassou, e batemos. Depois que ele me ligou algumas vezes, ele sugeriu que eu vendesse meu computador, me perguntou por quanto eu poderia vender e eu respondí “por 2000R$” e ele disse, “ahhh, é coisa de bacana”. A partir daí eu perdí as estribeiras, fiquei ofendido com o comentário e já estava com raiva, por ter raciocinado que eu não era o culpado da história, e que ele não era vítima. Prorrogamos o acordo até que ele decidiu me levar ao tribunal.

Na audiência conciliatória ele apresentou um depoimento distorcido, dizia mais ou menos que estavamos ambos em baixa velocidade (quase na mesma velocidade), e que eu virei imprudentemente para cima do veículo dele, causando o acidente. Ele sugeriu também que eu estava bêbado no momento, alegou que por eu estar sem camisa, devia estar chumbado. Enfim. Eu fui contra esse depoimento superficial e repleto de omissões. Se ele sabia que tem razão, por que esconder certos fatos ? Aquele que tem razão numa causa quer expor toda a verdade, e não omiti-la.

A seguir, o meu depoimento:

AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO

A 27 de novembro de 2007 às 15h07, na Circunscrição Judiciária de Sobradinho/DF, e na sala de audiências deste Juízo, presentes a MM. Juíza, Dra. CARLA PATRÍCIA FRADE NOGUEIRA LOPES e o Conciliador, Dr. ALINE RADICA DE CARVALHO, à hora designada, foi aberta a audiência de Conciliação nos autos da ação supramencionada. Feito o pregão dentro das formalidades legais, a ele responderam as partes. Tentada a conciliação esta restou infrutífera. A parte autora requereu a juntada de documentos, o que foi deferido pela MM(a). Juíza. Pela parte requerida foi ofertada contestação ORAL, acompanhada de documentos, nos seguintes termos: ” Que a colisão dos veículos foi frente com frente causando dano aos dois veículos, que o requerente foi quem ultrapssou pela esquerda na entrada do balão, sendo que o requerido tentou evitar a colisão sendo que o requerido estava fazendo a curva do balão quando foi ultrapssado em alta velocidade não tendo tempo hábil para tentar desviar do veículo do autor, que o veículo do requerido é que estava em baixa velocidade e do autor em alta velocidade, que diante da situação o requerido por ter ficado nervoso no momento assumiu a culpa no intuito de evitar maiores transtornos, que o acordo de R$ 600,00 (seiscentos reais) divido em duas parcelas foi cancelado devido ao pedido do autor por cheques, sendo que o requerido é estagiário, e que nenhum momento o carro do requerido entrou em discursão, que as acusão de imprudências e culposo não são verdadeiras, o requerido antes da colisão o requerido avistou o requerente pelo retrovisor no qual estava a sua direita e logo após foi ultrapassado pela esquerda na entrada do balão.” Sobre os documentos juntados pelo autor a parte requerida não quis se manifestar. Sobre os documentos juntados pela parte requerida o autor não quis se manifestar. As partes informaram que não possuem mais provas a produzir. Pela MM. juíza foi determinada a conclusão dos autos para sentença. Intimados os presentes. NADA MAIS HAVENDO ENCERROU-SE O PRESENTE TERMO QUE VAI DEVIDAMENTE ASSINADO PELOS PRESENTES..

A próxima audiência ainda não foi marcada. A minha sugestão é que cada um pague pelos danos do seu carro. Vamos ver no que vai dar.

A laranjeita do Pátio

In ficção on Novembro 26, 2007 at 7:58 pm

A laranjeira do pátio da penitenciária e o calor eventual são as únicas ligações de Michigan, cidade ao Centro Oeste dos Estados Unidos, com o Brasil

Inácio Siqueira, um Paulista de São Paulo Capital veio para cá quando foi preso em 1960, por posse de documentação ilegal. O Brasileiro gostava da boa cozinha, especialmente da cozinha de sua pátria natal, gostava especialmente das frutas daqui, eram importadas do Brasil, mas eram melhores, “só ficamos com o resto por lá” dizia Siqueira. Quando Inácio foi preso em 1962, trouxe consigo alguns caroços de frutas diversas e plantou todas no pátio, no horário de folga.

Só sobraram a laranjeira e o limoeiro, e depois de 43 anos a laranjeira já bate no alpendre acima da janela da cela 3B. Dentro da cela, hoje, residem os dois prisioneiros, Erving Sagan e Michel Goffman.

O dia está calorento em Michigan, os dois prisioneiros sentados sob a janela refrescam-se no chão frio onde a goteira respinga, constante, vazando da caixa d´água. Erving está inquieto por uma conversa, sempre foi conversador, não escolheu a profissão de barbeiro a toa, nesta cidade pacata todos sempre tiveram muito tempo para prosear. Erving já está preso há um mês e até hoje não trocou uma palavra com o companheiro de cela, para um homem conversador como Erving, isso é tortura. Suas façanhas e peripécias, quem saberá delas?

__Calor né? – Abrupto, Erving disfarçou casualidade.

Michel olhou para ele com a mesma expressão de todas as horas, de todos os dias.

__Nada pra fazer nesse lugar. Se tivesse uma chuva pelo menos era fácil de dormir. Mas nem isso. O jeito é jogar conversa fora… Porque cavar um buraco daqui do terceiro andar não leva a gente pra lugar nenhum.

Erving forjou uma risada ardida de vontade de rir, mas ainda amarela. Silêncio. Erving prosseguiu.

__Sabe como eu vim parar aqui? Já que você não fala nada, vou levar na de que quem cala consente. Eu roubei a televisão e o dinheiro de uma loja. Mas não matei ninguém. Quem matou foi o cara que assaltou a loja logo depois de mim. Ele não acreditou que a loja já tinha sido saqueada. Horas depois, já estava assistindo o jogo de hockey na TV nova, que imagem cara! Que imagem! E a polícia bateu lá em casa. Eu fiquei surpreso quando minha mãe deixou que eles entrassem e nem chorou quando eu fui embora. Sabe… tem vezes que eu penso que minha mãe que fez a denúncia contra mim. A televisão é um trambolho muito grande pra se esconder da própria mãe. Mas poxa, uma mãe não faz uma coisa dessas com um filho! Como é que pode? Mas ela veio me visitar um dia, eu nem comentei nada. Se foi ela, eu perdôo. Mãe é mãe né?

__Eu Matei a minha mãe.

Rude e grave, foi assim que Michel falou. A voz preencheu a cela toda. Calafrios! Dava calafrios. Erving conteve o espanto, nem tanto por Michel ter matado a mãe, mas sim por ter falado pela primeira vez. Erving prosseguiu entusiasmado, buscando a normalidade no tom de voz.

__E porque você fez isso cara? Porque matou sua mãe?
__Porque ela cozinhava mal.
__Mas isso não é motivo suficiente pra matar a mulher que te pariu porra! Aliás, esse motivo é o maior clichê criminal da história. O personagem bidimensional, parcial e sem profundidade com essa desculpa, pra dizer que é mau, que mata a mãe por um motivo qualquer.
__É motivo sim! – Calafrios! – A pessoa é o que ela come e mamãe estava tentando me transformar em um babaca. Ela me fazia comer as coisas que os babacas comem.
__Como assim? Ela queria te transformar em um babaca por causa da comida?
__Tem pessoas que são bem temperadas, vivazes e coloridas, como os brasileiros. Outras pessoas são excessivamente doces ou salgadas e existem algumas pessoas que são insossas, como os Russos ou os Franceses. Sabe comida de avião? Era assim a comida de minha mãe. Eu nunca viajei de avião, mas eu trabalhei na livraria do Aeroporto e descolei um prato com uma aeromoça loirinha, que estava fodendo no banheiro sempre que o vôo dela fazia escala aqui na cidade. Era uma comida sem graça, e aos poucos eu fui perdendo o tesão por aquela mulher também. Como eu podia encontrar alguma alegria em viver se a comida da minha casa era uma porcaria insossa? Eu me tornei insosso também, porque eu não podia desfrutar as refeições. Eu sentia inveja do meu vizinho italiano, da comida dele de todos os dias, da mulher de seios fartos que ele tinha. Eu fui almoçar lá algumas vezes, e como eram saborosas as massas preparadas pela dona Lola! Eu tive um caso com a Dona Lola. Que italiana! Eu amei aquela mulher! Passei a almoçar todo dia na casa dos casal, me tornei amigo do marido dela, e como eu apreciava as iguarias da casa. O marido dela, é claro, não me notava apreciando a delícia de decote da esposinha cozinheira. Mas foi o que eu fiz, e foram as melhores refeições da minha vida. Aquilo poderia ter durado para sempre. Mas um dia mamãe resolveu que eu não deveria mais ficar tanto tempo na casa dos vizinhos, comendo as coisas de lá. Eu já tinha vinte e dois anos, era idade mais do que suficiente para fazer o que eu quisesse, mas mamãe insistia que eu deveria continuar em casa, vivendo sem tempero, sem gosto pela vida. E tive que abandonar meu amor, a Italiana. Que tipo de mãe é esta? E um dia eu matei a minha mãe, por causa disso.

Erving não tinha o que dizer. Michel prosseguiu.

__Eu odeio a comida da cadeia, mas sabe porque eu pedi a transferência pra essa cela?
__Não.
__Por causa dessa laranjeira, ela tem uma grande história, quem me contou foi o diretor da prisão. O Brasileiro que plantou a laranjeira se tornou o cozinheiro do presídio na década de 60, ele fazia feijoada, uma comida típica do Brasil, e segundo o diretor foi a época em que não houve nenhuma rebelião no presídio, estavam todos felizes com a feijoada brasileira, uma mistura, uma gororoba saborosa. Se eu fosse nascido na época, teria sido preso só para provar algo da comida daquele povo feliz.
__Legal… então se não fosse a laranjeira você não estaria aqui?
__É.

Erving queria conversar sobre futilidades, não se interessava por culinária. Queria falar de mulheres, sobre o que faria depois da prisão, sobre fugas impossíveis, mas mal começou a conversa e já estava de saco cheio do falatório de Michel. Além do mais, Michel é um cara que matou a própria mãe, não é um parceiro de conversas para um ladrão meia boca como Erving. Michel definitivamente não era uma amizade em potencial.
__Novato. Que tal você subir na janela e pegar uma laranja para mim? – Perguntou Michel com a voz poderosa.
__O que?
__Eu falei que você deve pegar uma laranja para mim. É só esticar seu braço na janela.
__Porque você não pega a sua?
__Eu gostei de conversar com você, mas não é só por isso que o seu papel de novato é melhor do que o meu, de veterano. E se você não pegar uma laranja para mim vai virar a substituta de Italiana nas minhas noites de solidão.

Erving teve que subir na janela, com dificuldade porque a janela ficava lá no alto, esticou o braço até a árvore e recolheu a única laranja que estava por ali e jogou para Michel.

Erving quis nunca ter iniciado a conversa, a “intimidade” não vale a pena. Até então nunca tinha recebido uma ordem dentro da prisão e ficou com mais raiva ainda do maldito Brasileiro que plantou aquela árvore miserável.
“Brasileiro fudido, raça nojenta!”, pensou Erving.

Obs: A ficção pode tudo mas saiba que uma laranjeira teria dificuldades de brotar no solo de Michigan, o clima de hoje, só para exemplificar, é de 0 graus, com neve

Diário de um quase desvirginador

In ficção on Novembro 16, 2007 at 3:53 am

Nem toda virgem faz juz ao feitiche que se tem por elas.

A primeira virgem que eu quase tive foi no parque da cidade de Brasília. Próximo ao Lago, onde os casais se agarram e os patos mendigam por pipocas. Os assuntos dela não me interessavam nem um caracol. O meu interesse era no conteúdo por baixo daquelas roupas.
Pús-me a passar minha mão sobre o corpinho virginal e ela me deu um empurrão quebra-tesão. Eu me afastava, mas voltava, afastava e voltava. Óbvio que eu não conseguiria nada demais em pleno dia no parque da cidade, mas aproveitei o quanto pude. Eu pedí, meio que de sacanagem, desculpas, por tentar agarra-la e por ter sido chato, e ela disse que tudo bem “o seu papel é esse, o meu papel é não deixar que você cumpra o seu papel.” Que bom que todos sabem os seus lugares. Trata-se da homogenia fálica.

Eu não quis me encontrar novamente com ela. O motivo? Não, não foi o fato dela ser virgem, eu tinha ficado puto mesmo era com o estranho senso de humor virginal daquela garota, ela me contou o final de um filme que eu queria muito ter visto. Isso me deixou irado. Eu pedí que não contasse, mas ela contou, só de maldade. Que espécie de diversão sádica é essa? É a diversão de quem não faz sexo há mais de 20 anos.

Passei a reparar em outras virgens. Sandy, com aquela carinha de virgem gripada não engana ninguém. A Britney, bom, essa não é virgem. Elas são raras mas nos cercam, não é a pureza que define uma virgem, é o senso de humor semi-retardado. Mas eu tenho que concordar que o fato das virgens nunca terem conhecido o sexo faz delas pessoas mais agradáveis do que as mal-comidas. Estas sim são chatas ao extremo, pois por saberem o que estão perdendo, descontam a raiva reclamando da vida, reclamando de tudo.

A virgem de ontem não foi excessão. Além de virgem, é crente. Crente e virgem, só falta ser petista para completar a trinca-fanatismo.

Combinamos às 8 horas, mas choveu onde e eu me atrasei em casa. Eu já queria desmarcar, ela me ligou, eu disse “Eu já to arrumado, e tô esperando na parada de ônibus há um tempão, mas não passa nenhum ônibus”. Mentira minha, eu estava na frente da minha casa com bermuda e sem camisa, mas o cachorro do vizinho latia, ela pergunta “E esse cachorro aí?”. E eu disse “É um cachorro que tá aqui”. Não dei mais explicações, mas ela insistiu “Tudo bem, eu vou aí te buscar!”. Eu tive medo, são lendárias as histórias das virgens que perpetuam paixonites agudas e obsessivas pelos seus desvirginadores (se é que eu faria isso), e eu não queria que ela soubesse o meu endereço. Eu me apressei “Não! Espera aí! Já está vindo um ônibus, me espera perto da catedral”. Corri para dentro de casa, vesti uma roupa, não dava tempo de tomar banho, passei perfume, e corrí para a parada de ônbius. Ela ainda me ligou mais umas três vezes enquanto eu realmente esperava pelo ônibus. “Já esta vindo” eu dizia.

No local marcado ela elogiou o meu perfume. “Sorte” pensei, “ela não percebeu que estou sem banho”. Enrolei até que resolví, dei um beijinho nela, ela quase me engole a cabeça. O beijo para as virgens nunca é banal (tenho isso anotado). Ela tem 27 anos, pasmem! Uma mulher de 27 que nunca fez sexo precisa se saciar de alguma forma, o beijo para as virgens é uma alegoria ao sexo. Conheci uma, há tempos atrás, que me disse, com ar de filósofa “o beijo é o núcleo do relacionamento”. Elas tem essas coisas. Elas não admitem que sentem tesão, mas o que acontece entre o corpo e a calcinha, só a xoxota é quem sabe.

Propûs sem escrúpulos que nos beijassemos dentro do carro, ela não queria “é perigoso”, mas a música ambiente era um funk carioca pornográfico no som importado do porta malas do carro de algum playboy, espécie em abundância no Distrito Federal. Por causa da música entramos no carro dela. No pequeno espaço eu levei uma cabeçada não intencional, ela tentava se virar e me acertou a testa. “Nem doeu” eu disse, “Ugh”. Começamos a nos beijar, mas ao mínimo sinal de mão-nos-peitinhos ela já se afastavam de mim e dava um grito que trincava o meu tímpano “Meu Deus! Você tá muito assanhado pro meu gosto”. Se eu fosse um malandro eu diria “Mas gata, é assim que eu sou”. Fora isso, os crente são autores das maiores façanhas no que se refere a utilizar o nome de Deus em vão, eles convocam o Deus todo poderoso até para passar numa prova de vestibular. “Sangue de Jesus tem poder” ela dizia a cada trinta segundos. “Sua miserável dos infernos” eu respondia mentalmente, e ela, percebendo uma expressão em meu rosto, que ela definia como “cara de cachorro pidão”, me abraçava e eu pensado “Que diabos eu estou fazendo aqui?”. Se vocês vissem minha cara saberiam, não é cara de cachorro pidão, é cara saco-cheio.

Por sorte, a coisa começou a ficar boa quando os vidros do carro começaram a embaçar. Fui percebendo que só era proibido tocar os peitinhos com a mão, mas a minha região pélvica podia fazer nela uma massagem genital, isso era permitido. E assim aproveitei como pude, simulei um sexo vestido.

E no fim a bomba. Eu não estava de carro. Ofereci a ela 10 reais para que me deixasse em casa. E ela disse “Faz o seguinte, paga o taxi com esses 10 reais que ele te leva. Pode ser?”. Mais uma vez o sádico humor das virgens. Contrariado eu disse que “tudo bem”. Ela me deixou na rodoviária e me perguntou “Vai ter repeteco né?”. “No seu rabo que vai” foi o que eu pensei, o que eu disse foi “É… vai…”.

Eu não desvirginei nenhuma das duas, apesar dos lucros eróticos que obtive. Hoje eu percebo que dos dois um:
Ou as virgens são incrivelmente inteligentes para se preservarem por tantos anos, ou são realmente umas bestas completas.

Cartão Vesa

In ficção on Novembro 12, 2007 at 1:12 pm

O velho espera, entediado, no caixa do supermercado. Batuca com os dedos.

O lojista chega correndo, traz consigo uma colher, presa entre o polegar e o indicador.

VELHO: Po! Eu não vou comprar mais essa colher.
LOJISTA: Mas eu fui lá só pra ver o preço dela pra você.
VELHO: Eu sei, mas você vem com o dedão bem em cima da parte de comer.
LOJISTA: AH. É isso? Tem problema não, é só dar uma lavada.
VELHO: Uma lavada? Uma lavada? Você tá com a mão suja de dinheiro, fica mechendo com dinheiro o dia inteiro, dinheiro é merda pura. É a mesma coisa de você vir com a mão suja de merda e me dar a colher. Dá no mesmo.
LOJISTA: Não. Não é bem assim. Minha mão tá limpa.
VELHO: Você é ateu?
LOJISTA: Porque?
VELHO: Porque parece. Você só acredita no que vê. Sua mão nesse instante está borbulhando de micróbios sujos nadando nas banheiras de oleosidade dentro de seus poros e agora alguns deles estão tomando banho de sol em cima da minha colher.
LOJISTA: Tá exagerando.
VELHO: Exagerando? Se eu te desse merda para comer o senhor comeria?
LOJISTA: Não mas…
VELHO: Pronto! Pronto. Você mesmo adimite que não comeria merda. Mas por outro lado você quer que eu chegue em casa, coloque meu cereal na tijela, encha a vasilha de leite e vá com essa colher suja de vermes fecais.
LOJISTA: Vermes fecais? Minha mão não é tão suja.
VELHO: Dinheiro e fezes é quase a mesma coisa meu amigo. Se você meche com dinheiro meche com merda. A única diferença entre dinheiro e merda é que o dinheiro a gente luta pra conseguir, a merda a gente luta pra se livrar.
LOJISTA: Olha. Peço desculpas, se não quiser levar a colher não leva.
VELHO: Não é bem assim. Agora vou ter que denunciar o senhor ao procon por tal porcaria, vender colheres sujas de merda.
LOJISTA: Olha pra colher. Você tá vendo algum vestígio de merda aqui?
VELHO: É um ateu incurável.
LOJISTA: Toma! Toma! Fica com a colher para o senhor. Não precisa pagar. Deixa que eu pago a colher.

O lojista pega o dinheiro do bolso e coloca em cima do balcão.

LOJISTA: Agora eu to curioso pra ver como você vai pagar o resto das compras sem pegar na merda.

O velho abre a carteira, hesita por um momento.

Letreiro:

“Compras da semana: 40,00 R$
Colher: 2,50 R$”

O velho tira da carteira o seu cartão VESA e entrega ao caixa.

Letreiro:


“Sair com a dignidade em alta… Não tem preço.”
VESA, Não deixa você na merda.

Pastilhas

In ficção on Novembro 1, 2007 at 5:31 pm

Eram duas da manhã, eu queria ficar loucão

Visitei a rua de baixo e paguei sessenta reais em dois comprimidos de cor púrpura, em alto relevo o desenho de um elefante.

Não provei. Deixei os comprimidos embrulhados num recorte de jornal, coberto pelas roupas. Confesso, a consciência não me pesou, mas naquela madrugada aconteceu uma coisa bem pior, eu acordei e suava. Suava muito.

Tão grande o mal estar, tão grande a dor, me tornei nu e me levantei com um gosto ruim na boca. Um gosto horrível, o pior que já sentí. E o gosto estava por todo meu corpo, inexplicável, a pior sensação que já senti. O tempo me assustava ainda mais, será que teria fim? Três e meia da manhã.

Sob estresse latente devido ao repentino ataque de pânico, pensei que aquilo seria culpa dos comprimidos, mas eu não tinha nem sequer provado nenhum dos dois. Havia no máximo tocado com os dedos em sua superfície e levando a mão à língua. E agora este colapso nervoso.

Minutos depois, com o rosto lavado já estava mais calmo. Deitei, temia acordar novamente, com a mesma sensação, o gosto ruim. Acordei, intacto. Um junkie-wannabe da faculdade me pagou dez reais a menos pelo preço que eu paguei. “amanhã eu trago a grana’” ele disse. “Amanhã eu trago a bala” eu disse.

Voltei pra casa, no caminho uma blitz policial. Eu tremia de medo, as balas ainda no bolso, deveria ter dado, jogado fora. Nem olharam para mim, mas eu não ousava verificar com os olhos se já estava tudo certo. No outro dia fiz o mesmo caminho e vendí as pastilhas.

Um mês depois perguntei ao junkie-wannabe sobre qual teria sido o destino da bala. “Perdí cara! Eu levei para a balada e deixei cair!”.

Pensei em algumas das milhares de possibilidades, foi engolida por um cachorro esfomeado? Vou esmagada pelos pés de uma criança que voltava da escola? Foi encontrada por um casal de idosos e degustada no jantar? Foi pelo ralo. Não importa. “Me devolve o dinheiro” ele disse brincando. Eu quase devolví, tão limpa estava minha consciência.

Dias depois, tive o mesmo pesadelo, mas permanecí na cama. Sonhei que estava morrendo novamente. O gosto ruim na boca. Um gosto ácido e dolorido. O problema não era com as balas, apesar de saber que não deveria tê-las provado. O problema era a apatia que me levou a ir atrás das balas, esse sim foi o motivo.

O pesadelo de morte, um lembrete de que ainda estava vivo.

A ética da malandragem

In ficção on Outubro 25, 2007 at 6:09 pm

Meio verdade, meio ficção. Você decide no que deve acreditar.

Mais uma tarde quente no outubro desse projeto de cidade que é Brasília. Entrei no barbeiro e pedi pra pelar minha cabeça na maquina quatro. Eu ainda não conheço muito bem o pessoal dessa barbearia, mas eles me fizeram de 10 por 6 reais. “Pelar é muito fácil. Não tem por que custar tanto”. Eles falaram que eu posso voltar quando quiser por esse preço, “só não vai contar do desconto pra todo mundo”.

Enquanto arrancava os pêlos que fizeram minha cabeça suar, um idoso fazia as unhas com a manicura no banquinho lá atrás. Todo mundo acha que ele é bicha, ele vai lá pra fazer as unhas e até o jeito como ele mostra as mãos é meio homo-alegórico, “olha só! Não sangrou nem um pouquinho!”, ele diz mostrando para a menina da fila de espera, o velho gesticula afeminado dobrando o pulso, “vejam o que essa moça sabe fazer com a cutícula”Mas ele não é viado, do espelho, enquanto os pêlos me caem sobre a cara, eu vejo ele de olho no decote da manicura. Ela é loirinha, nem é tão gostosa, mas tem uns peitões que valha me deus. Quando ela se vira, o velho observa com malícia. Eu não acho que ele seja bicha, ele fica desejando a mulher, mas é bem verdade que também pode ser só inveja da fartura daqueles peitões.

Enquanto isso o cara da cadeira ao lado pediu um corte “surfista”. Como diabos é um corte surfista? Eu digo para o barbeiro apressar porque tenho que pegar o ônibus daqui a pouco. “Pra onde você vai?”, pergunta o diabo do surfista. “Pra São Sebastião”, eu digo. Ele falou que vai pra lá também, faz transporte pirata. “Se eu fosse passageiro eu preferia ir no carro com um monte de mulheres, mas como eu sou motorista, eu prefiro carregar o carro com homens”. Ele diz. “Se a polícia pegar e tiver mulher no carro, elas dizem que eu to fazendo transporte pirata. Os homens sustentam a mentira até o fim, falam assim: Que isso seu guarda! A gente é tudo amigo! Ele deu carona pra gente numa boa! A gente só rachou a gasosa!”.

Fiquei olhando para a cara dele. É a ética da malandragem. Quando você entra num táxi pirata você assina um contrato invisível e consensual. O transporte pirata resolve o problema do transporte público ineficiente em Brasília, mas tem lá o seu risco. Se a polícia parar, ta todo mundo fodido se não souber mentir. O mulherio entrega o jogo com medo de ir pro xilindró. Na opinião dele o homem é fiel na camaradagem, e não entregam o colega porque estão literalmente no mesmo bonde.

Eu fiquei curioso,“E se a polícia perguntar: Qual é o nome do seu amigo então?”.
O corte dele tinha acabado de terminar. Ele pagou a conta, se olhou no espelho. Tirou um pente do bolso, passou no cabelo, olhou pra mim e disse:
“Aí fudeu, meu chapa!”

O sacrifício do homicida bem intencionado

In ficção on Outubro 14, 2007 at 4:41 am

Assassino! Assassino! Eu repito! Assassino!

Lua Nova. O nariz de Gufo escorrendo loucamente. As vias nasais infestadas não contem o sangramento. Ele está indisposto. Há secura. Há gripe. Há dor de cabeça. Não há sono. Do outro lado da parede as estacas se repetem! É o ritmo a-cardiaco de uma festa jovem, a geração rave. O gosto musical foi trocado pelo amor às construções. É uma dor característica, a dor da velhice. Gufo está tão antiquado que os jovens parecem pertencer à outra geração, não fosse ele próprio, o Gufo, um jovem. “Não se dão conta da própria mortalidade, por isso celebram”. Gufo não. Gufo sabe que vai morrer amanhã.

Encostado na parede gelada o nariz começa a escorrer. O mal humor que carcome os restos de bom humor que ainda existe na massa encefálica de Gufo, “ha ha”. Está doente, sinal de que está vivo. Soem as cornetas, tem um homem vivo em cima do colchão mofado! O rádio chama, não precisa responder, não há vida social. Gufo não tomou droga nenhuma, mas ele já não consegue distinguir as pessoas. Não existem faces em seus rostos, são todas iguais, tão perfeitinhas que dão nojo. Nem todas dão nojo, algumas dão nojo, outras dão pena. Gufo salva os rostos de quem sente pena, e depois sente nojo de todos eles. Quanto mal humor Gufo, ria um pouco, “ha ha”.

Matina. Gufo passeia pela rodoviária. Presta atenção na curiosa vida humana diária, ele é um forasteiro. Ouve a flauta de longe e compra um jornal novo em folha. Quanta desgraça há no dia a dia dessa gente! É incrível que não se lembrem de que um dia também farão parte da estatística de mortalidade que lêem na vitrina da banca de jornais em alguma tribuna diária.

“Ha ha”, vejam só que graça, não foi o jornal que apontou uma desgraça hoje! Foi a nota de um real que Gufo recebeu de troco. Há um pedido de socorro em letras tremidas, foi escrito às pressas. Uma nota de SOS, tão romântica quanto uma “message in a bottle”. A nota é um pedido de socorro escrito por uma garota adolescente. Foi sequestrada. Gufo promete salvá-la, sem postergar, sem procrastinar. Há hospitalidade em seu coração, resquício de amor.

Madrugada. Com as costas grudadas na parede gelada, Gufo rancoroso deixa as gotas do suor brotarem pelos póros fedidos. “Pára que banho se vou morrer?” é o que ele pensa. A dor de cabeça é a dor do mundo, está toda nele, em sua pequena e quebrantável cabecinha de homúnculo que ele é.

Há um livro sobre a mesa, não é um livro qualquer, é O LIVRO, preto escuro, com a capa bonita e as bordas das páginas são douradas. Comprou por uma nota de um homem religioso. Gufo não teme ao Deus dos Cristãos, mas tem fé. Tem fé em alguma outra concepção de Deus que sua mente deformada ousou definir. Seleciona o versículo mais apropriado. Folheia com cuidado, não cometa a blasfêmia de rasgar uma dessas páginas tão caríssimas à lembrança histórica da humanidade. São a seda do livro mais puro e sagrado, “é o que dizem”. As letras aqui contidas não trazem conforto nessa hora tão imprópria, a noite que precede um assassinato: “aquele que ferir com intensão de matar e matar, homicida é. O homicida certamente morrerá”. “Ha ha”.

Há um homicida a solta. Gufo há de tornar-se um homicida pela manhã. O Algoz do algoz. O homicida deve pagar pelos seus crimes, porém tanto ele quanto Gufo terão que morrer. O executor também é homicida.

Aurora. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Homicida que mata homicida…
homicida é!

As graças da vida

In ficção on Outubro 11, 2007 at 8:28 pm

A vida sempre tem que ter alguma graça
Quando eu era pequeno a graça era sentir o feltro macio da coberta, as mãos da minha vó ou da minha mãe banhando meu minúsculo corpo de bebê.
Depois disso a graça era descobrir o mundo, enxergar pessoas, tocas as coisas, reconhecer a minha presença no espaço, até pensar fazia côcegas. A graça tambem era a comida amassada, só abóbora que não tinha graça. Mamar no peito, balançar no cólo e até golfar tinha lá sua graça.

Poucos anos depois a graça era bater. Queria ser forte e bater nas outras crianças, aí um dia eu apanhei e perdeu a graça. A graça era rir a toa, brincar de pique esconde até tarde debaixo do prédio, ou de polícia e ladrão, mas minha mãe sempre me chamava pra dormir, tinha aula no outro dia, oh coisa sem graça. Vida de adulto não tinha graça. A graça passou a ser fugir, me tornei um pequeno delinquente, a graça era a liberdade, descobria o mundo novamente, com os pés descalços, roupas sujas e um disfarçado sorriso selvagem.

Minha adolescência não teve muita graça. Crescí de repente. Eu era feio e desengonçado. Muita acne. Eu era a graça involuntária em pessoa. A adolescência não teve graça.

Aí teve outra graça, anos depois. Me apaixonei, amei de verdade pela primeira vez, mas por não ter namorado o suficiente na adolescência não sabia lidar com essa coisa estranha que era uma menina. E perdeu a graça. Na verdade a vida perdeu a graça, por uns dois anos nada teve graça depois dela. Nem a comida tinha graça, nem a obrigação cansativa de sair todos dias de casa, ou a convivência em familia.

A vida voltou a ter graça quando eu escapulí da minha cidade trabalhando como artista de rua. De Brasília, rasguei o Brasil ao meio, até o Recife. A graça era fazer graça aos outros, eu era um palhaço e novamente eu era a graça em pessoa. Dessa vez a graça era espontânea e sincera. Meu trabalho era ser ridículo. E essa foi uma das graças mais sublimes que eu já viví. O poder de conter a platéia, de trancar respirações e não só sentir graça, mas causar graça. Saber que aquele silêncio é uma espécie de medo e respeito. Algumas pessoas admiram os palhaços, outras morrem de medo. Ninguém ignora um palhaço, eles são anjos livres. E o nariz clown, a máscara que mais revela, trouxe de novo a graça do mundo para mim.

De volta a Brasília a graça foi sair de Brasília novamente. Descobrir por um ano o frio de curitiba, viver coisas tristes, jogar basquete na praça, caminhar pela chuva quase diária. E depois a graça foi morar um ano no meio do caos paulista e a graça foi sofrer nas mãos da cidade e voltar experiente, com malícia e entender o jeito de lidar com o caos, os últimos meses em São Paulo foram tão sublimes de graça quanto os meus tempos de palhaço. Tempos de liberdade e descoberta. Estava ativa a capacidade de criar novas aspirações, de descobrir novas graças para vida.

E hoje, de volta a Brasília, muito mais ligado às letras, a escrita e às palavras a graça é descobrir que com essas letras posso fazer muita coisa. Através delas e por causa delas posso conhecer pessoas admiráveis e receber respostas de outras pessoas admimiráveis. Perde um pouco da graça quando me sinto incapaz, quando falta inspiração, quanto perco a prolifidade. Mas isso costuma voltar, e enquanto voltar está tudo bem.

Amor pela vida, esta é a graça.

Adeus

In ficção on Setembro 30, 2007 at 2:08 pm

Me despedí da garota ao deixa-la na rodoviária.
“Adeus” ela disse.
Coloquei um cd com músicas apropriadas à noite. Acionei a ignição, pois o carro atrás de mim, já buzinava para que eu desse passagem. A rodoviária é perigosa, eu tive que ficar parado até que ela chegasse em segurança até o ônibus. Pensei que se algo como um assalto ocorresse eu poderia sair do meu carro com a tranca na mão e dar uma de herói. Nada aconteceu, eu fui embora sem me despedir.

Percorri as ruas brasilienses, sempre vazias ao sábado. O brasiliense se isola, sai, viaja, mas não fica nas ruas no sábado. O Brasiliense não é muito o tipo de cidadão que costuma ficar a toa nas ruas jogando conversa para o ar. Preciso me mudar de cidade, o brasiliense gosta de shoppings, eu gosto de lugares abertos. Porque ela se despediu daquela forma? Foi tão estranho, um tchau é efêmero, dura até o próximo encontro, mas o adeus soa tão eterno… “a deus”.

A curva acabou na minha frente e eu nem percebí.

O delicado baque traçou uma fenda no topo de meu crânio durante a colisão com o volante. Nos instantes finais de consciência sentí o calor de vida que emanava de mim. Fortes latejos como bombardeios nas extremidades, os dedos, os ombros, os pés já não podiam mais responder. Brotava-me sangue dos ferimentos e o calor seguinte veio da jorrada de fogo que abraçou o espaço interior do veículo. Enquanto chamusca-va me os cabelos e derretia me os globos óculares, explodi internamente na mais mais plena consciência. Respirava ofegante perdendo a força dos pulmões, ainda úmidos. Estiquei o pescoço e recostei-me no banco. O feltro derretido grudava na minha pele. O pé no acelerador manteve o motor funcionando. Bombeava gasolina nas engrenagens do carro causando novas e pequenas explosões.

“Ele tá gritando…”
“Alguém tira ele dalí…”
“Apaga! Apaga! Apaga o fogo…”

O orgasmo fatal durou pouco mais do que uma eternidade de três segundos.

Brotei pelo teto solar do carro criando uma nova fenda, dessa vez minha cabeça incólume foi que perfurou o metal retorcido do teto. Minhas asas acomodaram-se no vento. Flamulava em mim uma existência não mais terrestre, saindo do corpo mortal. De longe, como uma coruja, observei meu próprio acidente automobilístico a distância. Sobrevoei minha cidade natal. Voei tão longe como nunca pude, e no último vôo de consciência, enquanto desintegrava-me no ar para unir-me ao todo do universo, eu disse, “Adeus” enfim.

Submarino Patch – Parte 1

In ficção on Setembro 10, 2007 at 8:15 pm

Capitulo 1 – O Submarino Patch
Um estrangeiro de terras longínquas chamado Steban sempre teve o sonho de pescar baleias, sabendo que o preço de um Baleeiro era muito caro e que exigia tripulação treinada ele se decidiu por uma nova idéia. Atravessou o oceano de Balsa e viajou até as “Terras Batidas”, uma ilha tropical cheia de pessoas inexperientes em caça as baleias. O povo vivia da agricultura e não entendia nada de pesca. O máximo de que sabiam a respeito do mar era como pescar piabas sem anzol com uma isca de minhoca ou como pegar jacaré nas ondas propícias.
Steban não encontrou nenhum navio baleeiro, mas tinha dinheiro para uma pechincha, tanto que um mercante do mar ofereceu a preço de banana, um submarino enguiçado que havia lutado na guerra dos estandartes. O submarino inicialmente havia sido pintado de vermelho, mas a pintura já estava gasta. Steban decidiu reformar o submarino, pintou a carcaça de preto e o batizou como “Patch”. Steban anunciou para os quatro ventos que estava vendendo ingressos para uma viagem de submarino que iria cruzar o oceano. O objetivo dessa viagem era treinar pessoas inexperientes em marujos de submarinos e por fim eles desfrutariam de férias gratuitas nas ilhas de Bora-Bora. O preço da viagem e do aprendizado era de Duzentos xelins e Trinta níqueis.
Antes que os tripulantes chegassem, Steban contratou vários ajudantes, os escravos se encarregaram do fornecimento de alimentos, dos despachos, da limpeza e da manufaturação de materiais e de vestimenta. Contratou Beto como o capataz dos escravos. Beto parecia um Troll (monstro gigante, um personagem das lendas inglesas) de voz profunda que num grito seria capaz de fazer tremer todo o submarino. Steban se contentou com Beto pois precisava de alguém com estas características para colocar ordem durante alguma confusão ou possíveis motins.
Durante a reforma que Steban empregou em seu Submarino de terceira categoria, ele ficou com poucos níqueis restantes em seu bolso e para poder empreender sua viagem, ele contou com a ajuda de uma sócia, seu nome Leia. Esta mulher tinha o poder nas palavras e a habilidade de negociar com navios mercantes para conseguir comida barata, além do mais, sua voz mansa era capaz de confortar os tripulantes que transitassem por traumas psicológicos, coisa natural para a vida reclusa dentro do Patch. A viagem pelo oceano até o arquipélago de Bora-Bora duraria dois anos.
Capitulo 2 – A comitiva de Steban
Steban, em sua inteligência forasteira, sentiu necessidade de contratar dois instrutores que seriam responsáveis pela educação dos tripulantes inexperientes que estavam para chegar, estes instrutores deveriam ser capazes de ordenar que os tripulantes remassem na direção certa e quem se desviasse do rumo receberia chicotadas educadoras. Para isso contou com a ajuda de irmãos siameses, Duni e Edna.
Os irmãos siameses se completavam em suas habilidades, Duni já havia guiado muitos submarinos no passado e Edna era capaz de traçar rotas precisas. Seriam não somente instrutores, mas também responsáveis pelo leme do submarino.
Steban e Leia fariam questão de se manterem informados, pois afinal são os empreendedores da viagem, para tal efeito, Duni e Edna precisavam escrever um relatório uma vez por dia sobre como andavam as coisas dentro do submarino. No relatório deveriam constar dados com relação aos alunos, com relação à preservação dos ambientes, das rotas que estavam seguindo e da ordem geral.
Steban contratou por último um homem chamado Gilmor, ele viajaria na proa do submarino amarrado por um cabo. Quando o submarino submergisse, o cabo teria largura para que Gilmor se segurasse no periscópio e respirasse boiando na superfície. Ele precisava ficar do lado de fora porque a escotilha estava emperrada pelo lado de dentro e Gilmor seria o responsável por abrir a escotilha quando lhe pedissem.
Gilmor era um homem do Leste, e no Leste só lhe foram ensinadas três palavras: ABRE, FECHA e AZEITONAS. Portanto, se alguém pedisse a Gilmor que abrisse a porta ele abriria sem complicações, se pedissem que fechasse ele também o faria sem complicações, estas coisas ele sabia fazer bem, apesar do fato de que às vezes se cansava e ficava um pouco emburrado. E azeitona era sua comida favorita, quando sentia fome ele grunhia por azeitonas e alguém lhe providenciaria seu alimento. Todos estavam contratados, era momento de iniciar as inscrições para os interessados na viagem a bordo do Patch!
Os tripulantes começaram a chegar. O preço do embarque era de duzentos xelins e trinta níqueis. Os tripulantes chegavam de todos os lugares do mundo no sonho de aprender a timonear o submarino e de chegar a Bora-Bora. Estavam todos ansiosos.
O submarino estava com os motores defeituosos. Steban e Leia não tinham dinheiro para o conserto. Para isso pediram a Beto que adaptasse um motor mecânico que seria movido a base de energia humana. Em vez de uma hélice, seriam remos.
Capitulo 3 – A festa de inauguração
Com a chegada de todos os tripulantes, Steban e Leia organizaram uma festa de inauguração do submarino Patch. Neste dia todos falaram.
Steban saudou os tripulantes e disse que apesar de não compreender seu idioma, gostaria que se tornassem amigos. Obviamente ninguém entendeu nada, por isso Leia interveio e continuou com o discurso, alertou que se alguém tivesse dificuldades em exercer suas funções no submarino, deveria dirigir-se a ela, se alguém tivesse dificuldades com pagamento também deveria dirigir-se a ela. Ela possui um punhal retorcido que penetra a carne em voltas sinuosas causando dor lancinante, este punhal é um ótimo incentivo aos mal pagadores. O próximo a falar foi Duni, que já iniciou o discurso em tom de reclamação tentando explicar aos tripulantes a melhor forma de remarem, mas de certo modo incentivou a todos e deixou bem claro que a viagem seria longa e que precisariam de braços musculosos para agüentar os remos durante estes dois anos. Edna disse então que ela seria a responsável por guiar o submarino, ela olharia através do periscópio e checaria a superfície todos os dias. Somente Edna e Duni teriam acesso ao periscópio e ninguém mais. Steban também queria o direito de olhar no periscópio, mas não sabia pronunciar esta palavra, contentou-se em receber os relatórios. Steban espera que um dia, quando a viagem acabar, alguém tenha a delicadeza de traduzir os relatórios para sua língua natal. Leia atravessou o discurso de Edna e afirmou veementemente que gostaria muito de olhar através do periscópio, gostaria de saber o que se passava na superfície e deixou clara a posição de que ela já havia tomado posse do cargo de comandante do submarino, deixando para Steban a posição de receber os louros da viagem bem sucedida e os Xelins que pingavam em seu cofre. Edna e Duni já estavam gostando da idéia de guiar o Patch a sós, não queriam dividir o periscópio com ninguém, mas por hora ficaram calados. O último a falar foi Gilmor que pediu uma Azeitona. Não tinha preferência pelas verdes, pelas pretas, azeitonas com palmitos ou pedaços de queijo, contentava-se com qualquer azeitona desde que tivesse caroço. O prazer de Gilmor era roer o caroço por horas a fio para depois acertá-lo em algum alvo numa cusparada certeira.
Os tripulantes estavam empolgados com a viagem. Alongavam os braços e todos os tendões do corpo. As dificuldades eram muitas, mas isso não os desencorajou. No dia que fossem operar um submarino de primeira classe estariam completamente preparados devido ao aprendizado que tiveram, os braços fortes que ganhariam nestes dois anos seriam úteis para muitas coisas, entre elas para abrir a tampa da lata de azeitonas.
Capitulo 4 – Gulliver
A esperada viagem se iniciou. Edna e Duni não precisaram chicotear ninguém no primeiro dia.
Steban foi para sua sala e apoiou a cabeça sobre as mãos, estava feliz, pois Patch estava em movimento e funcionava perfeitamente com as remadas vigorosas. Havia alguns problemas com o ar condicionado, mas nada preocupante. Mesmo que Steban não entendesse uma palavra da língua dos “aborígines”, ele poderia ao menos se divertir observando as coisas funcionarem. Era uma pena que as televisões não funcionassem dentro do submarino, teria que se contentar em observar o fundo do mar pelas pequenas janelas. Uma pena ainda maior Steban não poder observar a superfície pelo periscópio, nem conseguia dizer periscópio.
Leia estava em sua sala catalogando os nomes dos tripulantes e tratando de trocá-los por números individuais. A comunicação se tornaria mais fácil, pois não precisaria lembrar o nome de ninguém, basta fazer as contas. Ela pensou nas facilidades que teriam com isso:
“Acerte uma chicotada no número 12, está remando devagar!”
Em seu bloco de notas Leia associava os números individuais aos números coletivos que era a soma do cálculo de quantos Xelins se acumulariam no fim desta viagem. “Uma barbada!” pensou. Quem não pudesse pagar seria jogado para fora e devorado pelos tubarões antes que chegasse ao final da viagem. Não basta o esforço em remar, o pagamento precisa ser feito em Xelins, pois o suor se evapora.
Gilmor está preso ao submarino por cabos resistentes que lhe permitem boiar na superfície durante as incursões submarinas do Patch. Ele não se incomoda enquanto houver azeitonas para roer, e poder treinar a mira cuspindo suas azeitonas na lente do periscópio quando estiver entediado.
Gulliver era um dos tripulantes desta viagem. Seus braços eram fracos e devia ser o menor tripulante do Patch. Gulliver não é um bom remador, mas sempre sonhou timonear um submarino. Sentia-se feliz por estar dentro de um. Não esperava que fosse remar. “Logo, logo eles vão nos mandar parar de remar! Devem estar querendo nos iniciar para ver quem são os resistentes!”. Pensou que o Submarino deve ter um motor funcional escondido em algum lugar. Gulliver já havia pesquisado a história dos submarinos, estas embarcações capazes de realizar operações sobre a superfície da água sempre o fascinaram. Já desde os primeiros esboços de Leonardo Da Vinci, até um estranho modelo proposto por Cornelis Van Drebel que foi lançado no Rio Tamisa, em Londres. Aquele modelo era o primeiro veículo construído capaz de operar sob a água. E sua propulsão era manual assim como a do Patch. Utilizava remos. Patch não era uma exceção aos submarinos quanto a sua autonomia limitada, talvez a única exceção fosse o fato de que Patch era enorme por dentro. Gulliver concatenou suas idéias e calculou que Steban era tão genial que havia propositalmente comprado um submarino operado por remos para que os tripulantes tivessem a dura lição sobre como funcionavam as coisas nos primórdios da ordem náutica.
Durante a noite Gulliver sonhou que estava timoneando o submarino. Foi a primeira chicotada distribuída por Duni e Edna que o fez acordar e voltar a remar.
Capitulo 5 – A posse do periscópio
Na manhã seguinte Leia e Steban desceram de seus aposentos reais, tinham acabado de tomar um café da manhã muito saudável e estavam os dois empolgados com o lançamento de Patch no mar. Chegaram em frente aos tripulantes que remavam exaustos e ordenaram que fizessem uma curta pausa de quinze minutos para tomarem seu lanche. As ordens eram que os tripulantes se dirigissem ao Beto, o Troll, e pedissem a comida. Os tripulantes levantaram-se de seus assentos e foram em direção ao refeitório do submarino comer.
Leia pediu a Duni e Edna para olhar através do Periscópio. Duni já havia olhado pelo periscópio naquela manhã.

“Não há nada demais para ver lá fora, apenas um grande e vasto oceano que nos indica que estamos no caminho certo. Não é mesmo Edna?” e Edna balançou a cabeça em tom afirmativo, antes que Leia pudesse pedir pela segunda vez Edna completou:

“Se não há obstáculos quer dizer que tudo está muito bem. O céu está limpo e o oceano está calmo. Não há o que ver lá fora, já olhamos esta manhã e somos ótimos conhecedores do mar e de seus meandros.”

E com uma voz calma e agradável Edna praticamente acariciou os ouvidos de Leia “Confie em mim.”.

Leia queria mesmo olhar, mas a voz encantadora da irmã siamesa de Duni foi contundente. Ela sentiu na eloqüência e na afabilidade persuasiva com que Edna e Duni se expressavam que havia uma credibilidade inquestionável. Apesar disso Leia não queria perder o direito de olhar pelo periscópio. Para decidir a melhor rota os líderes precisam saber o que se passa no campo por onde viajam. Leia pediu encarecidamente que na manhã seguinte gostaria muito de ver a superfície pelo periscópio.
“E não me venham com respostas negativas, sei que vocês são dois amores e que farão isso por mim, até porque já que Steban já não fala nossa língua. Ele precisa de olhos, ouvidos e de uma boca que fale por ele. Apesar de não entendê-lo creio que ele me confiou esta tarefa porque sabe que eu governaria o Patch da forma que convém a ele e a todos. Peço então a todos que também confiem em mim, pois a partir de amanhã quero o acesso irrestrito ao periscópio” – Disse Leia

Saramago, um escrivão da corte diria que em terra de cegos, quem tem um olho é amaldiçoado, mas no caso do submarino Patch, nesta terra de cegos quem tem um olho é rei. Seria mesmo um rei aquele que tivesse um olho no qual pudesse confiar, pois um olho farsesco é cheio figurações despropositadas. Perigosas, elas podem ludibriar a verdadeira compreensão do que se vê. Neste caso quem tem um olho é ainda mais tolo, pois não somente não enxerga a verdade, como também acredita numa mentira que criou para si mesmo. O maior cego é aquele que não quer ver.
Capitulo 6 – A noite no Submarino Patch
Enquanto isso no refeitório Beto, o Troll, expulsa os tripulantes, alguns nem terminaram suas refeições. As ordens são claras, quinze minutos de intervalo, o submarino não pode ficar parado por muito tempo. Gulliver aprendeu a comer rápido se não quer esperar de barriga vazia pela próxima insossa refeição.
Edna não queria que Leia tivesse acesso ao periscópio. Leia, hierarquicamente esta no direito da posse do periscópio e do comando de Patch sobre Edna. Duni disse a Edna que não se preocupasse, há um plano na manga. Apesar de siameses, Duni e Edna, não compartilham os mesmos pensamentos. Duni é organizado e tem soluções para os problemas difíceis. Muitas das suas soluções exigem métodos ardilosos. De uma cabeça peluda infestada por piolhos Duni trataria do problema escalpelando o couro cabeludo, não restaria moradia aos ectoparasitos que fossem.
Edna é uma oradora eloqüente, sabe induzir e fascinar. Edna pode transformar uma idéia mixuruca em uma concepção pomposa e transcendente pelo simples bom uso de adjetivos e hipérboles. Ela podia convencer um tímido fobofóbico a falar diante de uma platéia. Juntos eram imbatíveis, mesmo quando não estavam com a razão. Edna é uma ficcionista da moral.
A carta na manga de Duni deveria ser eficaz. Os siameses passaram a noite no quarto de ferramentas fabricando algo enquanto os marujos remavam. Os sons de serragens e martelos estridularam a noite.
Gulliver tentou imaginar o que estariam criando lá dentro.

Gilmor sonhava com azeitonas.

Na manhã seguinte Leia saiu na ponta dos pés de seu quarto para não acordar Steban, que já não sabia mais do tempo. As notícias dos relógios cessaram desde o primeiro dia, o misterioso magnetismo das ferragens de Patch é um fenômeno que perturba as engrenagens dos ponteiros e as horas se expandem.
O sono de Steban fica mais pesado a cada dia. Seu contato com o mundo é unilateral e mesmo estar em pé não significa estar desperto.
Leia desceu até o andar dos empregados e dos vassalos. Lá estava o periscópio sozinho e reluzente. Ela achou bom porque poderia olhar livremente, não seria preciso conversar com aquela aberração de dois em um, olharia direto a superfície através do visor. Quando se está distante da superfície se quer o mínimo de intermediários possíveis, um periscópio já é cheio deles: o primeiro intermediário entre a superfície é a blindagem que não permite que a pressão da água estoure o vidro. Em seguida a luz penetra o prisma do tubo e transforma a visada horizontal em vertical, o segundo torna novamente horizontal a fim de que a cena possa ser observada, finalmente a luz passa pelo ultimo visor. É claro como o dia que para a luz não há intermediários vítreos que lhe impeçam.
Antes que Leia possa encostar o olho no visor do periscópio Duni e Edna saem de dentro da sala de ferramentas apressados, tornam-se novamente o segundo intermediário entre Leia e a superfície.
“Tcharam” Dizem Duni e Edna juntos.

Leia tenta ver o periscópio pelo visor, mas Duni e Edna chegam perto dela com um abraço camarada desviando sua atenção. Eles carregam em uma das Mãos um telescópio improvisado de madeira.

Provinciano

In ficção on Agosto 19, 2007 at 8:28 pm

Coelum non animum mutant qui trans mare currant*
- Horácio

A luz irritante o acordou no domingo insosso de 19 de agosto de 2005. Era um domingo como todos os outros, exceto pelo fato de que ele não havia pegado geral na noite passada. Não acordou ao lado de alguma gostosa qualquer, de maquiagem borrada, com a perna suja de seu sêmen.

Dessa vez acordou sozinho, da mesma maneira que acordava na manhã de 19 de agosto de 2004, quando ainda era um garoto do interior do paraná. Nessa época ele ainda não tinha os penduricalhos, os piercings e cabelos picotados de forma incomum, quase como um personagem do Laranja Mecânica. Na cidade ele aprendeu que para ser amado precisava “ter um diferencial”, pois tudo alí, por entre as pedras deliberadamente plantadas, chamadas de construções, o “mercado de trabalho” exigia uma atitude “empresarial” com relação a tudo, inclusive sua auto-imagem.

Eram onze horas da manhã no apartamento alugado na rua João Negrão, próximo ao teatro Paiol de Curitiba. Os olhos inchados sentiram vergonha de tanta maquiagem. Sentia-se o mesmo por baixo da máscara, o mesmo garoto interiorano, provinciano e caipira, apesar da atitude descolada de embuste que pregara cuidadosamente com um prego na frente de sua testa.

A companhia artificalmente adquirida nas baladas joviais, neste exato momento em que olhava seu rosto disforme no espelho do banheiro lembrou da frase de quem mais lhe quis bem, sua mãe. Estava prestes a sair de casa e via nas lágrimas de sua mãe uma mensagem, ela não lhe disse nada mas ele pôde ler o que estava escrito em seus olhos. Ela dizia com o ar fraternal que só uma mãe é capaz de comunicar com os olhos: “Seja um garoto feliz”. E ele aceitou o conselho dos olhos chorosos.

Caminhou até a estante da sua sala e deixou sobre a prateleira sete piercings. Raspou os cabelos e despiu-se de atitudes e gírias descoladas. Foi questão de tempo para que as falsas amizades se afastassem, e as garotas bonitas perdessem o interesse. O peso que saiu de seus pulmões foi enorme pois agir como um punk de padaria era um esforço social tremendo. Os ombros aliviaram-se de uma tensão e os problemas de coluna ficaram curados. A hospitalidade passou a ser o motivo de seus anseios.

Passou a viver menos para sí mesmo e mais para os outros.

Quando voltou de um trabalho voluntário na África em 2009 incluiu em suas orações agradecimentos sobre não ter sido devorado por um leão que poderia ter pulado pela janela de sua casa de barro em sua casinha no meio da savana, agradeceu pela amizade que fez em Byrumba, Ruanda, com um comerciante que não sabia fazer nada além de rir da vida, agradeceu por ter ensinado o alfabeto a uma classe de doze crianças, e agradeceu por apesar de ter atravessado o mar e mudado o céu sobre sua cabeça, sua alma era a mesma alma provinciana, interiorana e caipira de sua cidade natal.

* Os que atravessam o mar mudam o céu acima deles mas não as suas almas

Submarino Patch – Parte 3

In ficção on Agosto 15, 2007 at 9:22 pm

Capítulo 14 – As sereias
Gulliver teve de prosseguir pela ilha. Chegando ao outro lado observou as rochas que brotavam do oceano. Belas mulheres estavam com metade dos corpos nus esticados sobre as pedras banhando-se ao sol. Assim que Gulliver se aproximou elas, tímidas, nadaram mais do que rápido para as profundezas. Viraram-se esparramando água com as nadadeiras.
Ele improvisou um barco com a folha de uma bananeira gigante, frutos comuns da ilha, que provavelmente servia de alimento para macacos também gigantes, e nadou até chegar perto das pedras. Apontou sua câmera fotográfica movida a vapor para dentro do mar. Tirou algumas fotos. Nas primeiras só viu peixes e algas marinhas desinteressantes, mas aos poucos foram surgindo algumas das ninfas aquáticas mais vaidosas.
Fizeram uma sessão de poses submarinas. A cada impulso que tomavam com os rabos de peixe os cabelos tornavam-se contra o rosto como cortinas dos mais variados tons imaginados índigos, dourados, amarelos, vermelhos, negros. Formavam uma sinfonia de movimentos, cores e corpos prateados pela luz do sol que turvada pela água banhava as nadadeiras.
Cada uma das sereias tinha sua beleza particular, os seus corpos esculturais e desnudos isentos de qualquer vergonha pela nudez fariam com que a mandíbula do mais valente se abrisse e uma gotícula sem controle escorregasse de apetite.
Gulliver queria uma foto sobre o sol e esperou que elas viessem. As sereias, de início envergonhadas, pousavam para Gulliver nas pedras distantes. Munido de suas lentes, muito mais claras do que a de qualquer periscópio, constatou nos cliques os mais belos seios já vistos na face da terra.
Uma delas veio por baixo de sua folha de bananeira gigante. Gulliver percebeu que os tampões das orelhas haviam caído, mas não houve nenhum encanto mal. O rosto dela saiu respingando, o coração palpitando. Gulliver ofegante recebeu a mão úmida que se esticava. Ele teve medo pelas lendas piratescas, mas esticou a mão e sentiu a suavidade da pele mágica que nem enrugada ficou com a umidade do mar. Ele esticou a cabeça e beijou as costas da mão da formosa ninfa. O beijo ficou gravado em seus lábios, os pelos molhados da sereia se eriçaram, mas o barco ameaçou virar e espantou a sereia. Espantá-la foi pior do que ser chicoteado por sonhar ser o capitão do submarino. Foi quando se deu conta de que ser capitão do submarino não era nada perto disso.
As vozes suaves e os cânticos das sereias cessaram assim como acontece com os canários quando lhe oferecem a mão bruscamente. Gulliver esperou por que voltassem. Não tinha mais medo, talvez o único encantamento fora o fato de que ele estava agora apaixonado pela sereia que chegou tão perto de seu barco improvisado, mas que se assustou sem querer. O sol já tinha se inclinado muitos graus e o cálculo de Gulliver foi que o tempo se esgotava.
Levou as fotos aos piratas e eles ficaram fascinados.
“Pronto pessoal! Temos material pra agüentar mais seis meses sem mulher!”
Capítulo 15 – O Regresso de Gulliver
Deviam ser piratas da pior estirpe, pensou, mas ainda assim Gulliver se sentia mais confortável entre eles do que entre os remadores do submarino Patch. Durante a viagem de volta o capitão chamou Gulliver num canto e alertou.
“Gulliver! Alerte os seus companheiros de que o submarino está indo diretamente de encontro ao Iceberg Baffin, um iceberg inextinguível que vagueia pelos oceanos mais calorosos sem nunca se derreter. Vi através de minha luneta. Avisem para que contornem este perigo antes que seja tarde demais.”
Um dos olhos do capitão era um olho de vidro, mas o que lhe sobrava era um olho de águia, naquele olho Gulliver podia confiar, mesmo que não houvesse luneta.
Eles chegam ao Submarino e tocam a campainha na escotilha. Gilmor pede uma azeitona, mas Gulliver não tem nenhuma sobrando. Se soubesse teria pegado alguma gigante da ilha. Gulliver percebe então no periscópio que há vários caroços de azeitona cuspidos na lente. O ranho da baba de Gilmor se misturou com as algas e a visão do periscópio está comprometida. Não há tempo de limpar, Gulliver acaba de tomar uma decisão e precisa informar ao capitão da expedição TROPA.
“Capitão! Eu não quero mais voltar para este submarino! Eu quero viver fotografando as sereias! Eu quero me tornar um membro da expedição TROPA!”
E o capitão não parece ter ficado muito contente com a idéia:
“Que história é essa agora rapaz! Não seja um traidor dos seus! Eles te premiaram com este passeio e agora você vai deixá-los na mão? Pois eu vou dizer! Vou entregá-lo como prisioneiro e deixo bem claro para eles que tipo de sujeito da pior estirpe é você! Seu sujo!”

O capitão ordena que os piratas prendam Gulliver imediatamente e assim eles o fazem. Amarram suas mãos e a escotilha se abre. Leia, Duni e Edna saem à porta e vêem Gulliver amarrado.
O capitão diz:
“Vejam aqui este traidor! Encarcerem o sujeito e tratem-no como um porco! Ele me propôs agora a pouco fugir da vossa embarcação e trair vossa confiança, mas meu voto com os senhores é baseado em palavra de honra, por isso decidi entregá-lo e deixar claro para vocês que tipo de sujeito ele é! Não sei nem como pode ter nome este sujeitinho!”
Ao passo de que Edna diz:
“Ele não tem nome! Não sei nem porque o chamamos pelo nome. Ele é o remador número 81!”
“E agora é o prisioneiro 81!”, disse Duni.
“Venha cá seu vermezinho! Me escute bem! Se você tivesse escapado dessa embarcação nós iríamos caçá-lo com arpões e logo em seguida usaríamos os mesmos arpões para submetê-lo ao suplício da empalação! Está me entendendo? Abra seus olhos remador 81. Abra seus olhos!”, diz Leia ameaçadoramente com uma voz não tão calma, bem diferente de todas as vezes que ele a ouvira falar antes.
Empurraram Gulliver acorrentado para dentro da escotilha. Como não haviam celas no submarino, deram a ele um castigo ainda maior, trancafiaram-no dentro do banheiro sujo utilizado pelo Troll Beto.
Capítulo 16 – A cela de Gulliver
Gulliver desce gritando, mas não tem mais forças para lutar contra os inimigos, além do fato de que está acorrentado. Quando passa em frente aos amigos remadores ele diz:
“Parem de remar seus idiotas! Vocês nem sabem para onde estamos indo!”
Ao passo de que Edna diz:
“Estamos indo para Bora-Bora homens. Se pararem de remar nunca chegaremos. Ele está louco. Confiem em mim.”
E todos parecem tranqüilizar-se com a voz de Edna. O “confiem em mim” já virou uma espécie de reforço positivo para o rato da gaiola que aperta a alavanca querendo comida. Chega uma hora que não tem mais comida, mas o rato ainda aperta a alavanca.
“Estamos indo em direção a um Iceberg! Vamos bater e morrer todos! Foi o capitão da expedição TROPA quem disse! Ele me alertou e pediu que alertasse a vocês.” – Gulliver completa.

Leia pega o seu Telescópio farsesco e olha através do espelho enganador e nada mais vê do que a foto de um oceano calmo e de um céu sem nuvens.
“Não há nada de errado! Pelo meu periscópio de controle remoto tudo está muito bem! Além do mais estamos sobre oceanos caudalosos, nenhum iceberg resiste à água quente” – Diz Leia subindo tranqüila para o seu aposento.

Duni e Edna se entreolham preocupados.

Os remadores não param de remar. Quem são eles para fazer algo contrário a tudo isso? São apenas remadores, não entendem de submarinos e estão conformados. Edna tem tanta credibilidade, Duni é tão confiante. O Patch está seguro nas mãos deles.
Duni e Edna trancam Gulliver no banheiro podre onde Beto liberava seus tesouros intestinais. Duni está ficando realmente preocupado. Edna é suficientemente megalomaníaca para acreditar nas próprias mentiras, mas Duni nunca acreditou tanto no que dizia, ele sempre soube que precisavam conquistar as pessoas mesmo na base da mentira, mas chega a hora em que as mentiras escapam do controle. Edna é orgulhosa demais para admitir que esteja errada. Duni quer tomar o caminho menos pior quando já não há mais possibilidades de que o melhor caminho esteja a vista.
Capitulo 17 – Iceberg a vista
“Vamos conferir no periscópio. Não custa nada!” – Diz Duni
“Ele está mentindo! Não está claro para você? Ele quer causar uma confusão. Ele sempre quis causar confusão desde que entrou nesse submarino! Você não vê isso? Ele é um subversivo.” – Diz Edna.
“Eu sei, mas vamos chegar. Não tem nada de errado em checar.”

Olhando pelo periscópio nada mais há do que a imagem desfocada cheia de manchas pretas, um céu azul indistinguível do mar como sempre.

“Viu! Nada de errado! Está como sempre esteve.” Diz Edna.
“Vamos falar com ele!” Diz Duni
“Pra que?” Diz Edna
“Ele merece algumas chicotadas!” Diz Duni

De volta ao banheiro cela de Gulliver eles abrem a porta e a catinga das fezes de Beto vasa pela porta como escapa o vapor de uma sauna. Gulliver está no canto ao lado de uma privada. Por incrível que pareça o único lugar que o Troll Beto poupou de suas defecadas, porque todos outros lugares estão sujos, até mesmo a pia.

“Que diabos de Iceberg é esse? Como pode um iceberg neste calor todo?” – Duni
“É um iceberg inextinguível! Ele nunca derrete.” – Gulliver
“Tal tipo de coisa não existe!” – Edna

Os remadores estão remando, os cegos estão cegos e o prisioneiro é prisioneiro.
Capítulo 18 – A farsa da farsa é real
A verdade é que dentro de uma farsa as mentiras se confundem com a realidade e muitas das coisas absurdas e burlescas acabam vindo a existir. A mentira que desmente a mentira é verdade? Não há como saber, mas existem coisas burlescas mesmo no mundo real, longe do mundo farsesco. O mundo está recheado de burocratas, assim como os churrascos estão de moscas, de nada servem senão para nos atentar. As pessoas convivem com o burlesco como se fosse uma parte inerente a vida. Ninguém acha os absurdos da vida um absurdo.

“Se não existe tal tipo de iceberg eu não sei. Mas eu sei que estamos indo na direção dele!” – Gulliver já indisposto com o rosto sobre o vaso limpo.
“Acabamos de olhar em nosso periscópio e ele está como sempre esteve” – Diz Edna
“Exato! Entupido de caroços e de catarro do nosso amigo Gilmor. Por acaso vocês não perceberam que o azulado do céu está levemente esverdeado?” – Gulliver
“Ele tem razão Edna. O céu está cada dia mais nojento. Achei que fosse algo relacionado às estações do ano que estavam mudando.” – Diz Duni
“Você está dando razão para esse verme? Ele não passa de um remador! É o remador 81 se esqueceu? Ele não sabe nada sobre nada!” – Edna
“Eu sei! Mas porque ele faria isso. Vamos mudar o curso do submarino só por garantia. Nós temos o poder. Steban não sabe de nada e Leia fica contente com qualquer desculpa. Nós somos os verdadeiros governadores.”
“Mudar o curso? Como vamos mudar o curso? Não fazemos a mínima idéia de onde vamos parar se mudarmos o curso.”
“Não importa! É melhor do que batermos no iceberg e morrermos todos!”
“Que iceberg! Você acredita nesse papo furado? Se ele estivesse realmente acreditado que iríamos morrer chocados por um iceberg teria se suicidado ali mesmo”

Edna e Duni ouvem o som de descarga. Olham para o lugar onde estava Gulliver, ele não está mais lá. O vaso sanitário está cheio de água, ele acaba de se jogar dentro do encanamento. Vazou pelos canos.
Edna e Duni arregalam os olhos.
Capítulo 19 – A fuga de Gulliver
Gulliver cai no oceano inconsciente. Os encanamentos do submarino são extremamente desconfortáveis. Boiando como fazem todos os excrementos, Gulliver acaba se convencendo de que não existe mais para onde correr e se deixa levar pela agitação das ondas do mar que lhe balançam as roupas e carregam o corpo suavemente num passeio submarino. E então seus cabelos são afagados e os olhos se abrem no conforto subaquático. As sereias estão de volta, prontas para carregá-lo para onde ele quiser. Elas o abraçam, suas peles como a seda e os sorrisos como o da lua quando míngua.
Dentro do Patch, Steban olha através de sua pequena janela, conversando com os peixes.
Leia certifica-se de que não há perigos na superfície através do telescópio farsesco.
Edna e Duni adotam uma nova medida política e direcional.
“Atenção pessoal! Tivemos que fazer uma mudança de curso de última hora. Não vamos mais para Bora-Bora. Mas não vos preocupeis com os problemas de amanhã. Estamos trabalhando para levá-los em segurança para algum lugar seguro e agradável. Preocupem-se em fazer o que estão fazendo agora: remar e remar. Confiem em mim.”
E todos remadores sorriem entre si. Não há nenhuma queixa. A mudança repentina soa mesmo promissora. Carregam nos braços a empolgação inicial. Uma voz tão macia que sabe o que queremos ouvir é sempre um bom incentivo. Há um momento em que os incentivos se tornam as recompensas. Vamos remar.
A verdade é que nenhuma pessoa dentro daquele submarino jamais fez a mínima idéia de para onde estavam viajando. A única idéia fixa na cabeça de todos os tripulantes de Patch é a de que todos queriam controlá-lo, qualquer que fosse o custo.

Submarino Patch – Parte 2

In ficção on Agosto 13, 2007 at 6:21 pm

Capitulo 7 – O Telescópio Farsesco
“Leia, percebemos que você tem sentido falta de conhecer a superfície por isso decidimos criar este periscópio especialmente para você!”, Diz Duni

O periscópio com que presentearam Leia tem uma abertura na extremidade de baixo e é fechado na extremidade superior.

“O que é isso?” – Perguntou Leia não conseguindo deixar de esticar as mãos sem conter a própria curiosidade.

“Demos a ele o nome de Telescópio Farsesco!” Diz Duni.

“Mas que belo nome. Me pergunto para que serve esta invenção peculiar.” Diz Leia

Duni “É um periscópio portátil. Você pode levá-lo para onde quiser, poderá olhar para a superfície de onde estiver, com muito mais nitidez do que através das lentes do periscópio velho desse submarino!”

“Mas ele não tem saída para a proa. Como posso ver alguma coisa da superfície dessa maneira?” – Leia parece confusa, mas ao mesmo tempo feliz com a idéia de que poderá assistir o que se passa lá fora. É até melhor estar em seu quarto, longe de todos estes remadores mal cheirosos. Seres grotescos sem o bom hábito do banho ou do uso diário de desodorante.

“Nunca ouviu falar de controle remoto Leia? Este é um periscópio de controle remoto! Você vê a superfície através de controle remoto. Olhe dentro deste visor e verá” Disse Duni.

A testa de Duni começa a suar, como fica a testa do culpado diante de uma acusação pela qual quer se passar por inocente.
Leia enfia o rosto dentro do visor do Telescópio farsesco e descobre que realmente pode ver uma imagem da superfície através desse sistema inovador de controle remoto. Há um oceano vasto, um claro céu azul e nada mais. Ela sentiu-se feliz pela segunda vez ao saber que poderia ser uma das primeiras a enxergar a terra firme assim que chegassem em Bora-Bora. Perguntou a si mesma se não seria possível instalar uma espécie de vídeo gravador dentro do telescópio remoto para recordar aquele momento mágico, mas decidiu não explicitar a pergunta com medo de que sua ignorância se tornasse pública.
O sistema do telescópio farsesco é baseado numa idéia digna de qualquer charlatão barato. O telescópio é feito de um tubo de madeira na qual estão posicionados um grupo de espelhos que incidem uns sob os outros e o último espelho aponta para a foto estática de um oceano e um céu azul. O reflexo da foto chega aos olhos de Leia como se fosse a imagem da superfície. Como não existem relógios dentro do submarino ela nunca saberia distinguir o dia da noite. Na foto o dia é constante, mas caso ela questione este detalhe, Duni e Edna poderiam atribuir a culpa ao fato de que estavam viajando pela linha do equador celeste e que a esta altura a inclinação magnética é nula e o dia é constante. A explicação não explica coisa alguma, mas Leia não quer correr o risco de tornar pública sua ignorância.
Leia subiu com o telescópio falso para seu quarto. Decidiu que não contaria nada à Steban, guardaria a novidade só para si. Tranqüilizou a própria consciência dizendo que ele próprio preferiria assim, ele era o líder e como líder gostaria de aproveitar a sua viagem de outras maneiras. Enquanto isso Leia poderia governar as coisas em seu lugar sem que ele gastasse um só minuto de cansaço.
Edna e Duni satisfeitos porque seu plano astucioso está em prática e funciona na mais perfeita ordem. Agora os irmãos coordenam o submarino enquanto Steban se confina e Leia se ilude.
Capitulo 8 – A pequena janela de Steban
Os braços de Gulliver estão cansados e cada momento de desatenção de Duni e Edna serve para se permitir um pequeno descanso. Já está exausto e a bexiga pesa a cada empuxo. Por isso Gulliver se levantou e pediu para usar o banheiro. Leia e Duni de tão entorpecidos com o sucesso recente nem se importaram e deixam que ele fosse ao banheiro.
Gulliver caminhou pelos corredores sombrios do Submarino e percebeu a sujeira do lugar. Questionou se todo o discurso de Steban estava sendo posto em prática. Já estavam no mar há tanto tempo e até agora nada além de remar e remar e remar. “Se quiséssemos apenas remar teríamos comprado caiaques e não pagado duzentos xelins e trinta níqueis para remar num submarino”, pensava. Gulliver chegou ao banheiro e foi descarregar seus pensamentos na latrina, mas o banheiro era uma porcaria das maiores pois era usado regularmente por Beto, o Troll, completo ignorante no que se trata de hábitos higiênicos.
Gulliver subiu as escadas, decidiu que queria saber diretamente de Steban quais eram os planos para o futuro, queria ter certeza de que este submarino seria um aprendizado de valor.
Nos corredores superiores do submarino imaginou que não deveria estar lá, sentia-se sujo e por lá tudo era tão limpo e impecável. Passou pelo quarto de Leia, que observava o periscópio de brinquedo atentamente, girava o periscópio no ar como se pudesse controlar o verdadeiro periscópio em busca de terra a vista. Nem dormia, queria ter a sensação de saber de tudo e queria saber antes mesmo das aberrações. O telescópio farsesco tornou-se um vício para Leia, e uma piada que rende bons risos para Edna e Duni.
Steban olha hipnoticamente para a pequena janela do submarino. Cutucando o vidro a espera de alguém ou algum peixe conversador. Se ele pudesse enviar uma mensagem numa garrafa pediria por socorro, mas ninguém saberia ler em seu idioma. Steban viu que Gulliver acaba de entrar pela porta e Gulliver reclamou:

“Ei! Os banheiros do andar de baixo estão uma porcaria só! Quem vai limpar tudo?”
Steban grunhiu algumas palavras, mas a comunicação não se efetivou.

“Mas não tem problema, eu queria saber mesmo é quando vamos ter o direito de participar das outras funções dentro do submarino. Eu já cansei de remar e acho que já aprendi bem como se rema. Qual o objetivo de vocês em nos fazer remar afinal?” – Gulliver esperava por alguma resposta genial. Steban quis pedir que falasse mais pausadamente, não adiantaria mesmo assim, mas talvez houvessem fonemas parecidos entre os idiomas. Gulliver só entendeu grunhidos e rezingados.
Capítulo 9 – O Discurso de Edna e Duni
Gulliver fez mímicas para explicar o que tentava dizer. Steban conseguiu entender a parte que dizia que os banheiros estavam sujos. Gulliver e Steban desceram as escadas prontos para resolver este problema. Gulliver sentiu que tudo começaria com a resolução de um pequeno problema que era um banheiro sujo, e logo os outros problemas seriam resolvidos dentro da seqüência. Dentro de pouco tempo o submarino estaria viajando no rumo certo e os tripulantes estariam todos aprendendo e alimentando seus sonhos com esperanças, porque ganhar braços fortes parecia não ser essencial na arte de timonear submarinos.
Gulliver e Steban chegaram ao andar de baixo e foram em direção ao banheiro para analisar o tamanho da calamidade. Duni e Edna levantaram-se imediatamente de seu trono que fica de frente ao periscópio e bloquearam a porta do banheiro antes que Steban tomasse qualquer iniciativa.

“Podemos saber o que se passa aqui Marujo?” Perguntou Duni a Gulliver.

“Eu trouxe o Steban para conferir o estado dos banheiros. Estamos pagando duzentos Xelins e trinta níqueis para aprender a timonear um submarino e não para remar. Nós não aprendemos nada, não sabemos em que direção nós estamos remando, alguns deles estão remando em direções opostas. A comida parece temperada com poeira e o troll nos trata como porcos, nos dá quinze minutos para esperar um prato limpo e pegar a comida. É preciso no mínimo trinta só pra criar coragem de engolir aquela pasta de gororoba!” – Disse Gulliver

Duni e Edna ficam revoltados com a atitude rebelde do marujo Gulliver. Ele por sua vez olha para os companheiros remadores esperando que alguém levante a voz. Que alguém tome partido ou grite um “Estou com ele!”. Estão todos calados, cabisbaixos esperando que os siameses resolvam a situação como acharem melhor. A verdade é que os irmãos siameses faziam a realidade do submarino parecer tão gostosa quanto água na nuca em dia ensolarado. Estavam convencidos, todos eles, de que as coisas estavam assim por enquanto, mas que estão no caminho de um paraíso, e que de acordo com Edna, basta confiar nela que as coisas darão certo. Para os remadores não adianta brigar, mesmo que tudo seja uma mentira, ficar do lado mais fraco não é uma escolha esperta, e Gulliver é tão pequeno. Como pode alguém de estatura tão prejudicada ser portador de alguma razão? Como pode nessa terra, ter recebido um tamanho de rato o correto e ter um corpo duplicado o errado? Isso não pode. Gulliver só pode estar errado e os duplos, ahhh, eles pensam por dois.
Edna pegou Steban pela mão e disse para não se preocupar porque tudo ia acabar bem, bastava que confiasse nela. Duni ofereceu a ele uma estopa para que lustrasse o vidro de sua pequena janela. Edna disse que já havia providenciado uma limpeza geral do banheiro e que o banheiro estava sendo limpo naquele exato instante. Não deviam perturbar de maneira alguma o faxineiro que ali estava porque era um sujeito muito tímido e cheio de regras, uma delas é que durante a limpeza a porta não deveria ser aberta de maneira alguma, o ar poluído do exterior contaminaria antecipadamente o ar imaculado do interior.
Todo bom produtor, todo bom locutor, todo bom orador sabe dizer o que as pessoas precisam ouvir, mesmo que o que elas tenham a dizer não seja verdade. Se as pessoas ouvem o que precisam ouvir já basta para que fiquem satisfeitas. No fundo todos sabem que não se trata da verdade, mas tem uma outra verdade que diz que estar satisfeito é melhor do que saber a verdade. Steban confuso balançou a cabeça como se tivesse entendido tudo, o que não era verdade, mas Steban ficou satisfeito com o tom da voz de Edna, as coisas pareciam estar em ordem. Edna o indicou o caminho de volta para o quarto e ele foi levado como se não conhecesse o caminho, impassível acreditando que na mão dos siameses o problema estaria resolvido. Steban voltou a olhar pela pequena janela do submarino, agora com uma estopa esperando que algum peixe viesse conversar com ele em sua língua natal. Dos peixes, se espera que borbulhem e que nadem, nadem e nadem. De Steban nada.
Capítulo 10 – A punição de Gulliver
Edna e Duni estão descontentes com a rebeldia de Gulliver: “Queremos o melhor para vocês, mas é assim que vocês nos pagam?” Acorrentam-no e o punem com chicotadas. Gulliver agüenta tudo calado e vez ou outra contempla os olhares medrosos dos amigos remadores. Nenhum deles ousa encarar os seus olhos lacrimosos, pois estão com vergonha dos próprios olhos e das próprias costas. Dos olhos porque não estavam chorando quando deviam chorar, das costas tinham vergonha porque eram eles os merecedores das chicotadas. Talvez a maior vergonha de todas fosse agüentar calados toda essa mentira, é uma grande chicotada ser enganado, saber disso e ainda sorrir, mas satisfeitos pela promessa de um futuro melhor cegava as ventas dos remadores e esta vergonha não os incomodava tanto. Os submersos se submetem, é natural.
Uma vez por dia Beto abria a escotilha e oferecia azeitonas ao Gilmor e assim foi por um ano e meio. No fim desse tempo todos já estavam acostumados com o tédio e até mesmo o tédio já havia perdido a graça.
Num belo dia claro para o telescópio farsesco de Leia, mas nublado para o verdadeiro céu do periscópio verdadeiro, alguém do exterior tocou a campainha do submarino. Steban já havia aprendido a conversar a língua dos peixes e seu autismo adquirido não lhe permitia mais distinguir o som de campainhas. Ficou borbulhando de sua janela para os peixes. Leia saiu de seu aposento e subiu as escotilhas num salto nefasto. Duni e Edna vieram logo atrás e todos subiram juntos pela primeira vez desde o início da viagem na proa do Patch. Gilmor estava lá, amarrado em seu cabo e queria azeitonas. Um barco estava ancorado perto do submarino.
Capítulo 11 – A chegada da expedição TROPA
O alvoroço geral era evidente. Entre os remadores murmurinhos curiosos. Eles já não faziam idéia nenhuma de tempo. Gulliver aproveitou que todos estavam na proa do submarino e foi até o periscópio para ver o que estava acontecendo.
A visão do periscópio era muito estranha. Tudo estava borrado e haviam manchas pretas no visor, mal se dava pra distinguir o céu do oceano, o periscópio desfocado era inútil. Edna e Duni ainda assim pareciam seguros de para onde estavam indo. Um guia nublado aos seguidores ceguetas.
Os homens do barco fazem parte da expedição TROPA e é o capitão da expedição que está falando. “Somos a Expedição de Trabalho Racional Operante na Prática de Água-Salgada. Decidimos cortar o S para não nos pouparmos do plural. Nosso trabalho basicamente é investigar a vida curiosa e fantástica dos oceanos tardios, cada grupo operante trabalha em um setor diferente do oceano, este é o nosso”. Os oceanos tardios são oceanos no qual todos chegam uma hora ou outra, mas é sempre tarde demais seja para o que for.
E prosseguiu o capitão: “Vimos um homem surfando sem prancha e pedindo por azeitonas na superfície. Como benfeitores que somos decidimos ajudá-lo.”
Foi este o momento em que Gilmor, o surfista amarrado, puxou a corda e de repente emergiu.
“Nós da expedição TROPA, queremos saber se o submarino Patch não poderia emprestar um de seus tripulantes por um curto período de tempo. Estamos desfalcados de um homem que morreu durante um ataque de tubarões alados. O empréstimo não passará de um dia.”

Leia empolgou-se com a idéia, mas ela própria não gostaria de embarcar com os homens da expedição TROPA. Todos pareciam muito brutos, quase tão brutos como haviam se tornado os remadores. Leia pensou que poderia premiar Edna ou Duni com a chance de viajar. Duni e Edna ficaram interessados, mas os homens da expedição TROPA disseram que o barco só comportava mais uma pessoa, sugeriram que Edna e Duni fossem serrados ao meio. Eles não gostaram da idéia. Numa altura dessas da vida, logo quando tinham conseguido tanto sucesso profissional não era hora de desfalcar a dupla inseparável. Gilmor era muito estúpido para participar da expedição TROPA. Beto era muito grande, afundaria o barco. Os membros da expedição sugeriram que enviassem um dos remadores. Leia hesitou, mas resolveu que sim, daria o prêmio ao mais bem educado de todos eles.

“Muito bem!” Disse Leia. “Vamos escolher o remador número 12. É um excelente remador, tem boa memória, é obediente, bem educado e anota tudo o que a gente diz. Não há melhor remador do que o número 12, definitivamente não dá problemas! Estamos decididos que vamos premiar o número 12 pelo seu bom comportamento.” – Disse Leia.

“Qual o nome do número 12?” – Perguntou o capitão da expedição TROPA.

“Os remadores passaram tanto tempo remando que esqueceram seus próprios nomes.” – Respondeu Duni.

“E como vamos viajar com alguém que não tem nome? Como vamos chamá-lo? Como vamos pedir alguma coisa para alguém que não tem nome? Precisamos de alguém que tenha um nome.” – Capitão

“Mas nenhum dos remadores tem nome! São apenas remadores, nada mais. Remador um, remador dois e por aí vai.” – Duni

“Não vamos viajar com um marinheiro anônimo, isso traz uma má sorte que não vai embora!” – Disse o capitão em nome da expedição Tropa batendo a perna de pau.
Capítulo 12 – O Marinheiro nominado
Era uma confusão geral entre os líderes do Submarino Patch. Quem mandariam? A voz de Edna soou tímida com a solução aparentemente inviável.
“Na verdade um deles tem um nome…”

“Qual… Ahhh sim. Aquele! O tal Gulliver. Não, você não ia se interessar por ele. É um subversivo.” – Duni

“Um subversivo? Eu não tenho problemas com subversivos. Metade da expedição TROPA é formada por ex-piratas. Entre nós existem estupradores, saqueadores, cangaceiros, assassinos, ovelhas negras, marginais sonegadores, mentirosos, picaretas, depravados e subversivos! Um subversivo seria bem vindo a bordo!”

Sem que os piratas da expedição TROPA ouvissem, conversaram entre si os membros do Patch. Com suas línguas de Cobra, Edna, Ludi e Leia decidiram que:
“Então mandem subir o tal Gulliver. Ele é o único de todo este submarino que pode viajar com estes malucos da expedição TROPA. É muito perigoso para qualquer um de nós correr este risco. Enviem-no como isca e se ele voltar receberemos nós o pagamento.”

Chamaram Gulliver entre os remadores. Alguns o invejaram, outros sentiram medo por ele. Outros acharam que ele havia sido julgado a morrer na prancha. Ninguém sabia por que ou para que, além de anônimos eram todos ignorantes de qualquer realidade que não fosse a de segurar seus remos individuais. Já era tanto tempo dentro do submarino remando que nem sabiam mais para que estavam remando. Sabiam remar com perfeição, seus giros eram perfeitos e faziam o submarino avançar ferozmente, movido pelos seus braços fortes, mas não faziam noção nem mais da direção em que estavam remando. O que importava era que fizessem certo o que tinham para fazer. Pensaram que um dia alguém perceberia como remam bem e os chamaria para trabalhar num submarino nuclear, ou algo que o valha. A verdade é que entre os remadores, quem rema pior é quem sai. Bons remadores continuam para sempre fazendo o que tem de fazer, remar.
Gulliver subiu a escotilha e partiu com os piratas da expedição TROPA.
Capítulo 13 – Gulliver e os piratas
“Meu rapaz, hoje vamos fotografar e estudar o comportamento das sereias das ilhas de Antemoessa. Coloque estes tampões nos ouvidos assim que chegar lá e tudo ficará bem. Leve esta maquina e fotografe tudo o que puder.” – Disse o capitão da expedição TROPA.
Durante o percurso um dos piratas começou a tocar sua sanfona. Uma voz rouca e desafinada soou cantando uma canção, as outras vozes acompanharam a cantoria, todos cantaram menos Gulliver, que não conhecia as letras.
Após um bom tempo de festa a expedição TROPA chega à ilhota e o silêncio volta a reinar. Com cuidado para não fazer barulho os piratas empurraram Gulliver a terra firme.
“Nós temos que ir por aqui?” Gulliver pergunta.
“Nós não. Você vai!” – Um dos piratas responde.
O capitão completa a instrução.
“Basta atravessar a ilha, tire todas as fotos que puder. Se não voltar em duas horas vamos embora sem você.” O capitão diz.
“E para que estes tampões nos ouvidos?” Pergunta Gulliver.
“Para que o canto delas não te influencie magicamente. As sereias são perigosas, elas podem te levar para o fundo do oceano e lá elas te devoram vivo.”
Entre os piratas ficou o medo da morte, apesar de um explícito desejo contido, mas não escondido de observar as mulheres peixe de perto.
Gulliver quis voltar, mas as espadas dos piratas da operação TROPA apontaram-se para ele.
“E se voltar sem as fotos morre do mesmo jeito!” Gritaram.

O Groove do Universo Caótico

In ficção on Agosto 3, 2007 at 3:52 am

Barbaridade meu cumpadre!

A Pedra voou numa trajetória facilmente descrita e destrinchada pela física newtoniana e ao cair abriu um ferimento de possibilidades quânticas na tua cabeça, sujeito teimoso. Alvejado pelo amor, cambaleou sem direção e procurou as setas no chão. Não há indicação de para onde ir!

Cercado pelo ceticismo miserável de uma mente egoísta o sujeito teimoso busca se proteger. Se não tivesse o amor. Se não tivesse essa dor, será que valia a pena? Badden, já diria “era melhor tudo se acabar”.

O chão manchado da cor da chuva carregou para o bueiro as lágrimas de um sujeito que teimava em não encarar os olhos de seu objeto de amor, e talvez por isso houvesse um débito com o próprio Satanás, de pagar em lágrimas a sua aversão pelo amor!

Ainda assim, inveterado estudante, teimava em viver encarcerado do universo comum a todos, aquele mesmo universo que faz dos humanos, humanos. A não aceitação da mediocridade intelectual lhe tornou um tecnocrata mediocre no que se refere a qualquer forma de afeto. Nada sabe sobre a a-ciência do coração.

A ciência pode explicar um monte de coisa, e chega a travar o mundo num conceito exato. Mas quando bate uma tecla de amor, de um acorde bem agudo, aí meu cumpadre, muda tudo e a física que funcionava na prática a olho nú não serve pra descrever o movimento quântico das partículas subatômicas. E aí meu chapa, é a hora que as músicas do Tim Maia começam a fazer sentido, e do teu coração brota uma coisa que tú nunca viste nessa terra, é um groove.

Barbaridade, meu cumpadre!

É hora de dar meia volta, porque esse terreno é perigoso. Talvez o mais careta dos humanos não esteja preparado para tal vislumbramento dessa dimensão tão maior do que se pode compreender. Fica quieto aí teimoso porque hoje a noite meu chapa, hoje a noite vai chover, só você que não vai se molhar, porque a chuva vem de ti.

O Ruído

In ficção on Julho 30, 2007 at 7:46 pm

Não há um dia sequer em que Barone – PT4JC não acione sua antena receptora com seus diversos indicativos no Brasil.
É um prazer auscultar conversas alheias como uma coruja, na espreita, aguçado. “Sobre o que estarão falando?” “Quem serão aquelas pessoas?”, é um dos prazeres de Barone ser radio amador.

Quando está com amigos, através das ondas sonoras propagadas pela atmosfera, nunca deixa de demonstrar sua queda por metafísica, amigos entediados. Ele gosta de ponderar acerca dos mistérios sem resposta do universo. As coisas não resolvidas e não respondidas são muito mais interessantes do que aquelas que já estão em panos limpos.

Corujando conversas como sempre faz, numa quarta feira de um mês de outono interrompeu sua rádio escuta para pegar o chá que sua quase esposa (pois já moravam juntos há mais de dez anos) preparou. Enquanto entrava na cozinha para pegar a caneca de água quente, Lucio passou correndo. Com seus 9 anos, adorava descobrir pequenas peças na bagunça do quarto do pai.
“Michele! Tira o Lúcio do quarto! Ele vai bagunçar minhas coisas”
“Barone! Tira você. Estou assistindo a novela.”
“Eu estou preparando meu chá. Vai lá amor. Tira ele de lá pra mim. Vai fazer a maior zona”
“Ta bem. Tá bem”

Michele, acostumada já se prepara para a choradeira por vir. Barone mergulha a erva verde dentro da água e se conforta com a calma que o ritual proporciona ao seu corpo. O vapor que toca seu nariz e o pó fundindo-se a água são pequenos prazeres das noites frias.

Barone passa para o quarto do rádio, há um chiado incomum. Com cuidado para não derramar nenhuma gota, Barone empurra a porta com a cintura e tropeça no corpo de sua esposa derramando a água quente sobre o rosto de seu filho que também está caído inerte no chão. Não há tempo para o desespero nem muito menos para compreensão pois os tímpanos de Barone estão prestes a explodir.

Dizem que durante a raiva nós esquecemos de quem somos. E Barone não era mais Barone, era apenas raiva e ódio.
Raiva e ódio.

Pensamentos dourados

In ficção on Julho 24, 2007 at 6:52 pm

Notívagos de São Paulo dos quais fiz parte um dia, saudações.
Duas da matina, já embriagado mas sem vontade de pisar no inferno do meu cafofo. Não quero deitar naquela cama poeirenta para ouvir os carros passando dentro do meu quarto, nem muito menos ouvir o casal homossexual brigando ou trepando, Babilônia.

Queria ficar fora, arrumar a companhia de umas empregadinhas gostosas frequentadoras de festas em ambientes suspeitos. Andei cambaleante para a rua de trás, e evitei aos tropeços de bater a boca numa placa de sinalização, os cadarços desamarrados.

Bem vestido que eu estava até parecia um bom moço. Desses que vão para a igreja e se perdem no caminho de casa. Na verdade foi exatamente isso o que aconteceu. Um dia eu estava na igreja, com os cabelos penteados, de mãos dadas com meus pais e hoje eu estou aqui, observando uma vadia na porta de um motel, tentando me concentrar nos resquícios de beleza conservados na sua aparência decadente. Uma beleza amassada.

Ela pode me chamar que eu não vou. Estou bêbado mas não sou bobo e ainda tenho dignidade. Passo direto. Alguns passos depois a carência me faz dar a meia volta lá no cruzamento e quando eu me vejo já paguei 20 reais por um quarto no Motel. Esse preço está caro. A minha cara de bonzinho sempre faz com que as pessoas se aproveitem da boa vontade.

Ela só queria se picar. Eu tentei agarrar os peitos dela. Parece que não havia sangue pulsando alí, ela nem percebe a minha mão. Está com um isqueiro acendendo a ponta de uma colher torta com o “suquinho”, como ela diz. O suco vai pra seringa e da seringa vai para as veias. O braço todo picado. Que nojo,tiro a minha mão dos peitos dela e deito na cama, o espelho no teto.

Antes de se picar ela me diz que tem medo de ficar com a agulha no braço. Enquanto ela faz os preparativos, me passa um sermão sobre o quanto essa vida é uma merda e que eu não devo usar isso nunca. Ela se pica no meio do sermão e pára de falar, eu tiro a agulha do braço dela. De tão cansado volto a me deitar.

Um gato entra pelo buraco da janela estilhaçada, qualquer chuvisco molharia o chão todo, sorte que ultimamente os dias são quentes e apesar de úmidos, sem chuva. O Gato me conta sobre a filha dela e da vida que ela poderia ter se não fosse viciada, filha de publicitários, foi la que ela aprendeu a cheirar cocaína. Eu peço para o gato falar mais alto, porque daqui do teto não posso ouvi-lo direito. Ele tem uma dicção perfeita, mas o volume de sua voz não me alcança com facilidade.

Eu juro que não queria, mas sentí pena dela. Pensei até, na minha embriaguez, em ficar com ela, cuidar dela, tirá-la dessa vida.
Sabe Brother! Deviamos ser todos irmãos. Cuidar uns dos outros… Eram os meus pensamentos dourados. E os do gato também.

Já faziam duas horas. Foi o que o relógio me disse. O gato, com seus olhos de diamante fitava-nos, sem desdém mas com respeito e dignidade. Era eu quem sentia pena de mim mesmo. “O que estou fazendo aqui?”, mas os olhos do gato me confortaram. Eu a abracei, querendo dormir. Ela estava em paz.

O gato sonhava para nós com um futuro agradável envoltos em nuvens flutuavamos para o céu. Nós dois.

Eu mencionei que o gato estava com pensamentos dourados. Acho que ela não entendeu. Quando amanheceu o dono do motel bateu na porta e pediu para que saíssemos. Eu paguei pela noite, mas queria dormir até meio dia, não podia. Ela já estava melhor agora, gritou para o gerente que ia tomar um banho e que depois sairia. “Me espere terminar o banho, vamos tomar um café da manhã juntos.” e eu disse que tudo bem.

Ela entrou no banheiro minúsculo descalça. As baratas pularam para fora. Ela não se importa. Assim que a ducha se ligou eu abrí a porta e saí do quarto. Desejei que o gato tivesse mais daqueles pensamentos dourados, ela iria precisar.

Fiquei pensando naquela viciada que nunca mais ví.

Открытая выставочная

In ficção on Julho 4, 2007 at 7:17 pm

A “Feira Aberta” é um mercado ilegal que ocorre semanalmente na Federação Russa, localizado em Alagir, uma cidade da Ossetia do Norte, próxima ao Rio Ardon. Nesta feira qualquer coisa pode ser vendida. Há leilões há todo momento e basta levar seu produto para receber os lances. Existe um leilão bem específico que é um Leilão de Seres Humanos. Você pode vender seres humanos de diversas categorias:
Escravos, Garotas de Programa, Bebês, crianças e mães.

Existem regras gerais e específicas de acordo com as categorias.
Para adotar qualquer ser humano é preciso calcular seu valor primário.
A seguir os aspectos observados pelos monetaristas:
1. Carteira de saúde em dia
É necessário conferir a carteira e aspectos como ausência de membros, cabelos, olhos ou dentes. Humanos que sofreram maus tratos em cativeiro costumam estar avariados e com isso seu preço diminui.
2. Capacidade de Comunicação básica
O objeto de compra deve saber se portar em sociedade e precisa saber no mínimo falar, ler, escrever. Ter a audição funcional também é um elemento que pode aumentar o seu preço no mercado.
3. Noções de auto higiene
Ter que dar banho num escravo não é uma tarefa agradável. Por isso os compradores sempre preferem aqueles que já tem noções sobre como se manter no mínimo sem odores desagradáveis.
4. Rebeldia
É incrível, mas alguns vassalos apresentam um comportamento rebelde que os diferencia dos demais. Costumam lutar e não aceitam as tarefas para as quais são propostos. Estes rebeldes são tratados como maças podres, geralmente são sacrificados ou usados em tarefas lastimáveis para que entendam qual sua posição social.

Existem manuais enormes com regras específicas para as várias modalidades de seres humanos.
As mães devem ser capazes de:
a) prover leite para um bebe
b) reproduzir
c) lavar louças
d) trocar fraldas
e) acalentar
f) amar

Os escravos devem ser capazes de:
a) carregar peso
b) levar açoite

As garotas de programa devem ser capazes de:
a) praticar sexo (com ou sem preservativo)
b) praticar o aborto
c) beijar na boca (dependendo da quantidade de dentes)
d) levar açoite

Os bebês e crianças devem ser capazes de:
a) Controlar seu choro
b) agradar aos pais adotivos
c) não se interessar pelos pais biológicos
d) levar açoites

E não se esqueça de aplicar injeções e vacinas regularmente. Isso prolonga a vida útil de seus vassalos.

A última aula do jardim de infância

In ficção on Julho 3, 2007 at 2:48 am

Uma professora entra na escola suando, não sabe bem o que está acontecendo. Foi arranhada minutos atrás por um ensandecido e teve que empurrar o sujeito. Agora está passando mal.

Depois que perde o primeiro ônibus é difícil conseguir outro. Ela entra no jardim de infância mas está passando mal, já não consegue definir muito bem o caminho. Será a menopausa?

Bebeu água. Era um calor tremendo, talvez passasse. Não quis passar na sala dos professores, estava atrasada e era melhor não passar pela vergonha de se confrontar com a diretora, já era a terceira vez que tinha chegado atrasada só nesta semana e para a sorte a maquina de bater ponto estava com defeito. O crime perfeito.

Chegou na sala, as crianças alvoroçadas já de manhã. Segunda série é fogo! Mas foi só entrar na porta da sala que a criançada silenciou.
“Bom dia professora!”

Ela acenou. Já não conseguia mais responder. Pegou o giz com a mão suada. Rabiscou no quadro e o suor com o giz molhado tornaram a letra um tanto feia, talvez fosse a coordenação motora que já estava indo para as cucuias. Pediu às crianças uma redação sobre onde iriam passar suas férias. A criançada começou, deu sorte de pegar uma turma onde quase todos gostavam de redação, menos o Pedro, que odiava, entregava uma página com uma frase só, sempre algo do tipo “minha mãe é bonita”, sem muita complexibilidade. Já a Anita inventava histórias formosas, adorava falar sobre coelhinhos e o Amilton, garoto esperto surpreendia a professora com a capacidade de inventar histórias bizarras e as vezes até crueis.

A professora dava sempre 20 minutos para terminar a redação. fez como sempre, sentou na cadeira, abriu a lista de chamada e começou a verificar os nomes. O suor da testa despencava aos montes. O sangue parecia ser arrastado dentro das veias, a cada pulso uma contração em todo o corpo. Os olhos não queriam mais ficar abertos e um deles apontava para o lado errado. Algo de errado estava acontecendo à doce professora, ela não era mais dona dos próprios movimentos.

A criançada redigiu e a primeira a terminar foi a Luiza, a mais bonitinha da classe, ela dizia que seria vendedora quando fosse grande. Uma vez a Luiza trouxe brigadeiros para a escola e todo mundo comprou. Ela adorou.

A luiza entregou uma redação bem bonita pra professora. “Pronto. Acabei”
Ela ficou esperando a professora falar. “Agora fica quietinha e espera seus colegas terminarem” mas a professora não disse nada. Era só um troço suado, sentado na cadeira com a coluna envergada e a cabeça pendurada. A Luiza, sempre uma boa menina, fez um carinho na cabeça da professora, tinha pena de gente cansada.

A boca da professora abriu e um resquício de bílis vazou sobre o colo sujando a saia nova. Arreganhou os dentes e cravou uma mordida no bracinho infantil da Luiza, devorou partes do ombro da menininha. Ela não resistiu por muito tempo.

Seria por demais degradante descrever a carnificina que se passou na sala 2B da escola de ensino primário da Asa Norte. Não vale a pena conhecer tal história.

Algumas crianças tentaram escapar, mas as grades eram fechadas e aconteceu que aos poucos todas foram sendo devoradas. A diretora se manteve escondida enquanto ouvia os gritos das crianças lá no pátio principal, onde geralmente eram risinhos do recreio que a incomodavam em sua sala, mas hoje era medonho. Não adiantava apertar o sinal porque as crianças, mortas vivas, não retornariam educadamente às suas classes.

Assim que houve uma brecha a diretora escapou pela porta deixando o portão principal, pegou seu carro e foi embora. Alguns quilômetros adiante seu carro se acidentou com um corsa desgovernado.

Quando as crianças zumbificadas saíram pela porta principal, não houve quem não con corcordasse que o exército infantil de mortos vivos fora a coisa mais triste e repugnante que já se viu nessa vida.

Desabafo

In ficção on Junho 27, 2007 at 6:57 am

Acordei de um sonho esmurrando o travesseiro. Queria esfaquear um imbecil. Queria matar também os que me ofenderam, os que me botaram pra baixo. Os piadistas que fazem humor da minha desgraça. Queria ver um pouco de sangue pra variar. Cansei do Romance, o romance é por definição utopia, no Romance é tudo perfeito, até os conflitos acabam da maneira como seu autor gostaria que acabassem, mesmo quando se tratam de Romances com finais tristes. Eu queria fazer um não Romance, uma prosa da vida real, um não ficção e esfaquear estes que me estapeiam.

O Guardador de Canetas de Cristal

In ficção on Junho 22, 2007 at 8:15 pm

Bruno se sentiu culpado quando derrubou o guardador de canetas da diretora.
Ele já foi mandado para aquela sala para ESPERAR QUIETO, mas no tempo em que passou sozinho não conseguiu se aguentar sem mecher nas coisas e o que mais chamou atenção foi aquele guardador de canetas caro que ela mantinha sobre a mesa, tão idiota que ele se sentiu quando derrubou e viu o troço redondo, e caríssimo, rolar sobre a mesa, parecia câmera lenta, estava muito lento, tão lento mas tão lento que dava pra prever exatamente onde iria cair, exatamente na falha do carpete, na parte do chão onde não era macio, mas ainda assim não dava tempo de deter a queda. Bruno bem que tentou mas caiu e se espalhou no chão em mil pedaços e um barulho que até a secretária da escola havia ouvido.
O mais engraçado de tudo, foi que quando a diretora entrou na sala, depois de mais alguns minutos de espera angustiante, ele estava com a cara das mais santas do mundo, agora teria que aguentar uma briga não só por ter enfiado a cara da professora no bolo de aniversário da Joana, sua coleguinha de sala que já tinha completado 9 anos.
Bruno era claramente um exemplo de aluno desajustado, não só porque era bagunceiro, mas convenhamos que um garoto de 19 anos não deveria mais estar na quarta série.

Simulei desmaio em dois casamentos

In ficção on Junho 11, 2007 at 8:47 am

O primeiro casamento em que eu simulei o desmaio foi no meu, quando eu ia casar com uma mulher que estava grávida e eu nem sabia que era o pai. Quando eu estava no altar eu desmaiei.

De qualquer modo acabei casando com ela porque me obrigaram e eu reparei que desmaiar novamente não iria adiantar, até porque ela achou que eu tinha desmaiado de tanto que eu gostava dela. (Foi um desmaio falso perfeito, me orgulho disso)

A segunda vez que desmaiei foi quando minha amante se casou e me convidou para o casamento. Eu fiquei sabendo que ela e o novo esposo se mudariam para uma cidade do méxico, então quando o padre perguntou aquela famosa frase do “Se alguém tem algo contra fale agora ou cale-se para sempre” eu simplesmente desmaiei. Todos vieram me socorrer, inclusive ela, e quando eu ouvi a voz dela eu abri o olho rapidamente e dei uma piscadela pra mim. Ela entendeu que eu tinha arruinado o casamento dela de propósito.
Felizmente o casamento teve de ser adiado e o noivo dela acabou a largando por algum motivo que eu não conheço e para minha sorte agora eu tenho a minha esposa, de quem eu não gosto, e a minha amante, que eu amo.

José

In ficção on Junho 8, 2007 at 7:11 pm

Burro!
É isso que você é, caro José!
Não devia ter falado com ela daquele jeito!
Pra que gritar, me diz José? Pra quê?
Você acha que ela está chorando? Pois saiba que não. Ela deve estar chateada contigo, ah, isso deve. Mas chorando é exagero, não é pra tanto.
Como ela mesma disse, “Não é um carinha que vai chegar e mudar minha vida assim”
Você é só mais um carinha Zé!
Que inveja né Zé? Você queria ser “O CARA”.
Nem no amor você é alguém Zé, ninguém.

Sabe aquele “professor de meditação” que deu carona para ela um dia?
Quem precisa de professor pra meditar?
Ela não é Zen, e ele deve ser tantra.

Você devia ter comido ela antes de ir embora. Pegava por baixo das coxas e virava a garota ao avesso. Ia ser gostoso. Aquele vestidinho, a cara de brava, era tesão disfarçado.

Se tivesse feito isso estaria relaxado, mas não. Teu coração tá pulando pela boca e seus olhos tremelicam. Vai chorar? Zé mané! Joga esse anel fora. A janela do ônibus tá aberta. Pode jogar.

Esse tipo de comportamento da sua parte… Eu não sei porque você ainda faz isso, Zé!
Tão infantil às vezes.

Lembra da lição número 1 do manual de chauvinismo masculino?
“Nunca deixe uma mulher mal comida”!
Ahhh não… peraí, Zé. Essa é a lição número 2.
A lição número 1 é:
“Nunca se Apaixone”.

FAQ: Como conseguir um diabo conselheiro?

In ficção on Junho 6, 2007 at 5:16 pm

Esta simpatia serve para que você consiga um diabo conselheiro. Este diabrete de pouco mais de 18 centímetros te orientará com conselhos para que você consiga o que quer. Ele habitará o bolso esquerdo de uma camisa social branca, do lado do seu coração. É o habitat dele enquanto estiver materializado.

Instruções:
Pegue uma garrafa de manguaça com dois dedos de bebida restantes. A garrafa deve conter aproximadamente 100ml. Quebre um ovo e despeje a clara e a gema dentro do bico da garrafa. Não desperdice nem uma gota.

Reze uma ave maria e arranque três páginas da Bíblia. Amasse as páginas da bíblia usando-as como rolha para a garrafa. Isso permitirá que o Diabo não escape da garrafa quando estiver no período de formação.
Enterre a garrafa fechada com ovo e cachaça numa profundidade de pelo menos 50 centímetros abaixo da terra. Reze outra ave maria.

Espere duas semanas exatas e volte ao local. Lembre-se de ir para o local trajando uma camisa social branca. Quando for exatamente meio-dia comece a cavar.
Desenterre a garrafa e tire a rolha de papel de Bíblia. Lá estará o seu diabo dentro da garrafa. Ele saírá eufórico da garrafa, louco por algum lugar seguro. Cuidado, ele é extremamente frágil mas possui dentes afiados. Ofereça sua mão a ele, até que ele se acostume. Para alguns diabretes, principalmente para as crias de Exu, é muito difícil de serem amansados. Não faça movimentos bruscos.

Quando ganhar a confiança do Diabrete, coloque-o dentro do bolso esquerdo de sua camisa social branca. Ele dormirá por cerca de 8 horas ininterruptas. Não perturbe seu sono de maneira alguma, caso contrário ele pode tomar raiva de você e em vez de ajuda-lo poderá atrapalhar sua vida.

O diabo viverá dentro do bolso de sua camisa. Aproveite enquanto ele vive e peça todos os conselhos e faça todas perguntas que tiver de fazer. Ao fim de um ciclo lunar o diabo voltará para o seu plano de existência original. Se você trocar de camisa ele morrerá.

Não repita essa mandinga com menos de um ano de intervalo.

Ps.1: Alguns diabretes não se comunicam, apenas coferem uma sorte sobrenatural ao seu portador.

Ps.2: O Diabo não suja sua camisa branca. Sua pele de queratina é limpa e viscoso como a de uma barata, mas ele fede um pouco. Ele detesta perfumes, desodorantes e coisas do tipo.

Ps.3: Se tiver que tomar banho, tome banho de camisa, ele não se importa com água.

Fonte: Mandingueiros do Candomblé

Casal falido em tempo intimista

In ficção on Junho 4, 2007 at 3:53 am

Eram cinco da tarde, o sol já bem baixo e a luz acenando. Àquela coisa mágica do fim da tarde avermelhada penetrava pelas frestas da persiana brega da lanchonete de quinta categoria. Eu estava na mesa de cá, a luz peneirada me camuflou em zebra, e o casal do lado de lá. À luz. À contraluz. Não fui notado.

Eramos nos três, além, é claro, dos impassíveis funcionários, acostumados à posição de subserviência e a indiferênça a que alguns clientes os submetem. É por isso que sempre procuro ter no estoque alguma golfada de humor, pra ceder um gesto amigável à quem só toma patadas. Às vezes vale a pena. Às vezes me arrependo.

Na mesa oposta o casal discute em silêncio. Ele, por um motivo qualquer, não diz o que deveria dizer, fosse o que fosse. Ela, por outro motivo só dela, não foge da mesa, não acaba com tudo. É um tédio cumulativo, porque o tédio sozinho, como o meu, é só um tédio sozinho. Mas o tédio a dois, este é petrificante. Se fosse o tempo de papel, estaria amassado, amarrotado.

Eu sentí um medo. Um medo por mim. Não é repulsa nem aversão à vida de casado, mas tem vezes que acho que vou ficar sozinho. Tem vezes que quero ficar sozinho.
Ir morar longe, num lugar bonito onde a areia seja bem branca, a água do mar bem clara e o céu bem azul. Assim talvez um dia a vida e a morte percam todo o contraste, assim como o horizonte que já não existe mais.

Entrevista com a Virgenzinha Marxista

In ficção, jornalismo on Maio 29, 2007 at 6:10 pm

Sentada sobre um sofá coberto por uma colcha de retalhos, sem se levantar. Foi assim que ela, conhecida pelo Vulgo de Virgem Marxista me recebeu para a entrevista.

Olhei no relógio, eram 15:33h, ela não se incomodou pelo meu atraso de 15 minutos, provavelmente sabia como o trânsito próximo de sua casa era er… caótico. Ela me ofereceu algo para beber e de início eu me senti completamente sufocado pela formalidade.

Seu ambiente é extremamente bem decorado e impecavelmente limpo, nem uma poeira sequer sobre os lustrosos totens incas que ela coleciona. A beleza da Virgenzinha Marxista me ofuscou por alguns instantes mas logo eu parei de suar e tentei me concentrar na entrevista e não no corpo dela, deliciosa, admito. É tão coberta, tão púdica que se torna provocativa; Seu olhar, tão blasê, tão indiferente, se torna sensual. Puxei meu caderno de notas e comecei:

Cineasta 81:
Boa tarde. Vamos começar com uma pergunta leve. Você escreveu em um de seus 7 livros publicados que não se arrepende de nunca ter aderido a vida de freira. Sente muitas dificuldades de levar um estilo de vida casto no mundo de hoje?

Virgenzinha Marxista:
Antes de tudo boa tarde a todos, e quero corrigir que sim, são 7 livros publicados mas que três novos livros meus sairâo até o fim do ano. Agora voltando a sua pergunta, não. Se eu me sentisse tentada seria difícil, mas eu não sou tentada. Sou paciente na busca do meu objetivo.

Eu deveria perguntá-la sobre qual seu objetivo, mas não me contive.

C81:
Não é tentada mas sabe que é tentadora…

Ela descruza as pernas

VM:
Sei. É verdade. Sei que os homens me desejam. Que tem anseios eróticos pelo meu corpo e que querem me possuir em suas camas, em seus carros, no parque aquático, na esquina, em cima da maquina de lavar, sobre as roupas sujas, em cima da mesa de sinuca, dentro de camas de moteis baratos, mas saber disso só me dá forças para prosseguir com o meu propósito de levar uma vida casta.

C 81:
De acordo com seu livro “Filosoris Hentai Pupulos Néosis” Quando você se refere à castidade, não é a mesma castidade que o Cristianismo vem pregando. Estou correto?

Ela cruza novamente as pernas. Coloca a ponta do dedinho na boca, pensando por um segundo ela olha pela janela, como se houvesse se distraído, mas sem hesitar volta a responder a minha pergunta.

VM
Correto. A castidade a qual eu me refiro é na verdade um retorno às origens, veja bem que entre os significaos – deriva do latim castu – a palavra tambem tem a significância de intacto, intocado. É preciso ressucitar velhos conceitos etmológicos e não se apegar ao que a língua se tornou pois ela está em constante mutação, não é mesmo querido?

Eu tomo um gole d´agua concordando com a cabeça. Perecebo que ela está lambendo os lábios. Olho para o chão humildemente.

C 81
E qual a importância, para você, de se manter intocada?

Ela se vira para trás e seus seios ficam espremidos contra o sofá. Inclinando-se mais um pouco e eu reparo que por baixo da roupa de seda não há calcinha. Ela se inclina mais um pouco e eu sinto um desconforto urgente um pouco abaixo da região do cinto e então ela retorna com um retrato de Karl Marx e Friedrich Engels na mão.

VM
Sou uma mulher de meu tempo, secular, Laica. Vocês homens, perpetradores desse estado falocêntrico são os maiores responsáveis pela solidificação do conceito de que a mulher é um objeto de prazer do homem…

Enquanto ela está falando o vestido de ceda escorre pelo seu ombro e o seio direito quase brota do decote imenso.

VM
E já que somos objetos de prazer do homem nosso único valor é sexual. Se nosso valor como seres humanos do sexo feminino é sexual, a cada vez que somos “tomadas”, “utilizadas”, “fodidas”, “comidas”, “curradas”, “estupradas”, “enrabadas”, “desgustadas”, “penetradas”, a cada vez que isso acontece nós perdemos um pouco do nosso valor…

Não consigo prestar atenção no que ela diz, por sorte eu tinha um gravador. É como o sonho mais incrível que se realiza, mas o leve tecido do vestido da moça está na beira do seio, sustentado apenas pelo bico do peito e minha testa está numa suadeia maluca. Meu caderno de notas está borrado pelas manchas do contato da tinta com as gotas do meu suor. Minhas mãos tremem e minha calça num furor tremendo desabotoaria-se caso houvessem dedos alí dentro, mas só há um, ensoberbado, e é desprovido de ossos e articulações.

VM
O meu objetivo com a causa da castidade voluntário é o de agregar valor feminino ao meu corpo antes que ele se deteriore com o passar dos anos. Tornar-me assim o objeto de maior valor neste mundo, visto que de acordo com a ótica capitalista a ordem da cadeia alimentar ocorre da seguinte maneira: “obter dinheiro para ganhar poder, ganhar poder para conseguir mulheres, ter mulheres para ter sexo”. Com este ato ativista de permanecer virgem eu agrego todo o valor possível ao meu corpo e tiro o poder das mãos dos homens. Eles não tem o sexo, que é o objetivo final de suas vidas e permaneço ainda como objeto abrindo um importante caminho para que as mulheres da próxima geração possam modificar este quadro e sejam valorizadas pelo que elas são. Sou como Ghandi, mas sou melhor, – aliás melhor é uma palavra bem parecida com mulher, já que estavamos falando de etimologia – Sou a primeira mulher do mundo a ser enquadrada na categoria dos possíveis messias da salvação, e não apenas como uma concunbina de Jesus, e atesto hoje com toda a propriedade que num futuro próximo nós, mulheres seremos as herdeiras do mundo.

Um silêncio petrificante se apodera de mim. Não existem perguntas a serem feitas. Ela tem razão! Eu concordo, eu concordo! E então ela se levanta e se inclina sobre mim para beijar meu rosto. Me despeço dela, mas ela se aproxima um pouco mais, o decote da Virgem Marxista, que era até então uma bobinha para mim mas que acaba de se tornar a minha musa, minha rainha, causa-me uma convulsão nos testículos quando apoia as mãos sobre as minhas coxas. Eu beijo o rosto dela e sofro o mais minimalista e maravilhoso orgasmo que eu já tive, apenas com o toque de sua mão. Percebo então o poder que aquela mulher possui.

Ela entra novamente em sua câmara de compressão e eu vou embora com meu caderninho manchado e meu gravador. Exultante pela entrevista miraculosa, porém com um nó no coração.

Bu

In ficção on Maio 23, 2007 at 3:31 am

Bu tem sido uma pessoa horrível ultimamente
Bu só diz coisas ruins, só pensa coisas ruins
Bu não sabe amar e não aceita ser amado, não
Bu não sente mais as coisas boas como sentia
Bu não quer participar de encontros, não quer
Bu fala mas é ignorado, sua voz rouca não ecoa
Bu não admite carência, Se sofre se supre de sexo
Bu causador de repulsa, pessoas não aguetam Bu
Bu é forjado, um falsário mentiroso e charlatão
Bu é um idiota que se coloca em terceira pessoa porque não gosta da responsabilidade de assumir que sou eu quem tem problemas por aqui

O Idiota

In ficção on Maio 20, 2007 at 7:54 am

São três as qualidades de um idiota. É claramente tapado das idéias. Discorda por discordar, por se achar dono da verdade. A segunda é que fala como um cavalo, tossindo palavras torpes achando-as às mais belas e isso se revela de mesma forma na sua escrita pretensiosa. A terceira e última é o fato de que todos idiotas, sem excessão, são como lobisomens, em certos dias acordam com aquela estranha relação com a lua.

Foi num desses dias que eu, um idiota, entrei naquele ônibus lotado. Gofando quantidades de ar, gestual desrespeitoso, esta barba por fazer. O olhar matreiro a procura do indistinguível cheiro exalado pelas fêmeas da espécie. Através dos póros me chega até o faro e causa arrepios à metros de distância a substância libidinosa que elas produzem sem parar por entre os nacos de carne farta que têm. Acho que senti uma delas. A lua lá do alto está minguando, me sorrí.

Procuro o ponto exato, eclipsando meu corpo ao dela. Entre as suas mãos encaixo as minhas. Dedos nos dedos. O sangue pulsa no seu pescoço, os meus pêlos procuram caminhos para o alto, eriçam. O vestido macio, seda, não sei, avoa baixinho roçando nas canelas. Os quadris só tornam o incomodo dela como sendo um figimento dos mais canastrões, por baixo dos panos existe um quadro sendo emoldurado por duas vontades em nome do mesmo anseio erótico.

O ônibus colabora com a nossa perversidade semi explícita, os dedos nos dedos crepitam, os corpos balançam e as tentativas de se safar do constante balanço só tendem a adicionar a gradação e o refrão se dá justamente no ponto em que a farta carne dela, amassada sob a minha encontra forças para puxar a linha do ponto onde deseja descer. Como um pêndulo o quadril da moça interrompe o movimento assim que as portas se abrem, eu deixo que ela desça.

Envergonhada passa por todos apressada. Como bom lobisomem, não deixei muito espaço para a fuga. O único motivo da vergonha que brotou avermelhada nas feições da moça foi a de não querer que debaixo do discreto vestido de seda fosse declarada uma devassa.

Caminhou pela rua. O vento frio contornava seus seios bem desenhados e o ventre invadido por pano frio esvoaçante. Do outro lado da rua o lobisomem matreiro esperava para confirmar se era desejo dela ou não, o de ser perseguida.

Olhando para trás com aparente nervosismo ela abriu a porta de sua casa. Esperei sem pressa, deixei que entrasse e lhe dei algum tempo.

Confesso que meu instinto canino, ou idiota como preferir, hesitou. Não sei exatamente quanto dura um momento, é uma medida sem métrica exata mas eu pude contar que foram dois momentos de hesitação. Pensei na possibilidade de rejeição. A hesitação passou.

Atravessei a pista, molhada por uma chuva passageira, meu reflexo no chão. As luzes do asfalto brilhavam com mais intensidade. Girei a maçaneta, apenas para descobrir se estava aberta ou não.

Estava.

Mensagem erótica para acendê-la

In ficção on Maio 15, 2007 at 3:49 am

Quero chamar a atenção dela. Mas como?
Fico pensando que uma mensagem erótica, algo sutil, porém pecaminoso seria ideal.
Ela deve ser do tipo “Ai meu Deus Hiihiiihi” E solta aqueles risinhos bobos e fica logo louca para mudar de assunto. Mas se você der corda na conversa ela vai atrás. Conheço esse tipinho, são sempre as mesmas características, os mesmos padrões. As pessoas tem padrões. São texturas de caráter, como eu gosto de definir.

Por exemplo, um ladrão. Um ladrãozinho de quinta que faz-se de bonzinho para ganhar tua confiança e te rouba quando tu menos espera. Esse tipo é cheio dos cacoetes e dos sotaques psicológicos que o denunciam como um ladrão. Se um dia você foi vítima de um ladrão, em outro dia qualquer você reconhecerá outro ladrão. É como dizem “Um Homem roubado nunca se engana!”. Eles tem métodos, jeitos de falar, a voz sempre mansa, indutora. São persuassivos ao ponto de enjoar. Eles chegam de fininho, você nem percebe. E pam, o larápio rapela sua carteira num passe de mágica. Sua vista e seus sentidos estavam ludibriados pela graciosidade detratora dos movimentos soturnos. Mas este tipo de ilusionista só ilude uma vez.

Ela não é uma ladra. Não, longe disso. Acabei me distanciando do assunto ao qual eu me pretendia. Emendei a falar de tipos de caráter e preciso me focar no tipo dela. O tipo de caráter dela. Ela é daquela que gosta de ser seduzida, mantem na pose um ar de madame, mas o que gosta mesmo é de uma boa sacanagem.

Lembro da última trepa com uma dessas. Ela mal conversava comigo. Não tinhamos assunto. Mas na hora da foda eu a penetrava por trás e ela fixava os olhos nos meus. Me cravava o olhar e falava sem pudor “Quero mais”.

Esta para a qual estou olhando é uma novata. Uma paciente. Vou deixar uma mensagem erótica aqui. Dentro dessa carta destinada a ela. Quando ela abrir há duas reações possíveis. A primeira é de espanto e ultraje! Neste caso serão duas as possibilidades:
Ou ela é uma Putana assumida e se espantou de propósito apesar de não conseguir esconder o sorriso safado e de dobrar as pernas para dentro, afinal ficou molhada até os joelhos.
Ou Ela é uma casta reprimida que secretamente sonha com sexo, porém por não vir a fazê-lo vai sofrer de artrose e provavelmente vai morrer de câncer, ou talvez dure muito, pois dizem que estas desgraças servem para fazer o balanço do universo quando a energia cósmica libidinosa tende a exaltar-se, são estas aquelas que corrigem o balanço. Mas é claro, o universo sempre dá o troco.

Porém, caso a reação dela seja de completo descaso e apatia, há apenas uma e terrível possibilidade:
A ninfeta tem as pernas abotoadas, é uma daquelas… daquele tipo…
frígida!

As duas esposinhas de Garcia

In ficção on Abril 28, 2007 at 9:20 pm

Garcia Amava as mulheres, mas seu sonho de vida era ter um filho. Queria ser na mediocridade gostosa da vida mansa, daquele jeito dos que não pedem mais do que o essencial.

Conheceu Marli, uma boazuda sem igual, mas em poucas semanas de namoro constatou: Era frígida a pequena. Nem simpatizava muito com o ato da proliferação, fazia aos domingos mais por obrigação. Sexo. Achava sujo, feio e principalmente chato.

Foi-se aconselhar com o amigo Renato, profundo entendedor de mulheres, o garanhão mais conhecido da rua. “De nada valem tanta beleza e pernas numa mulher só se a trepa não compensa” Dizia conclusivo. Confluíram os pensamentos de Garcia às idéias de Renato, mas a verdade é que Renato, bem no fundo bem queria ter uma trela com a tal boazuda da Marli. Passar as mãos naquelas coxas não ia ser nada mal, mesmo que a moça não gostasse.

Garcia não esperou, deu por encerrado o namoro com Marli.

Garcia foi ter com a vizinha, a feiosa Denise. O que tinha de feia tinha de safada, e era uma daquelas ninfomaníacas insaciáveis. Passado o furor inicial Garcia quis partir para o primeiro filho.

Renato o amigo conselheiro, em uma de suas frequentes conversas interviu enquanto era tempo. “Pra que uma criança se tú sabe muito bem que de beleza sua esposa sente falta. E nesse quesito tu também não é abençoado. Reflita bem com calma quando for dormir. Será que vale por no mundo a criatura que resulta de tal dupla? Vale mesmo popular a terra com mais uma demoniozinho, se o mundo, coitadinho, tão carente de beleza já tem falta de espaço. Será que vale?”

Sentiu na eloquência do outro uma verdade que não pôde negar. Pôs um fim em tudo. Ficou sem filho e sem mulher.

Renato conselheiro, já em outros meses, debruçava-se na varanda de tanto cansaço. Tinha que cuidar de duas moças que restaram sem marido. Da Denise cuidava na cama com as luzes apagadas, e da outra, a tal Marlí era para os dias claros. No banco da pracinha passeavam sob as saias suas mãos de malandrão.

O estagio

In ficção on Abril 20, 2007 at 7:51 pm

Estava nervoso, perdendo as esperanças de conseguir a desejada vaga. Agora estavam lhe dizendo que não.

Se fossem outros dias estaria tranquilo, mas hoje era o dia de provar a sí mesmo que já podia fazer o seu próprio dinheiro. De virar as tripas ao coração para poder pagar o próprio almoço, o motel para a garota, o cinema, a revista com a matéria que queria ler. O dinheiro não lhe ficaria brotando pelos bolsos, mas ao menos haveriam notas alí quando abrisse a carteira.

O dinheiro, agora mais do que tudo, cerceava-lhe as ventas das idéias. Não havia outra coisa em sua cabeça (nem mesmo sexo) que valesse tanto quanto o dinheiro, a não ser através dos póros da pele da testa pela qual escorria o suor dolorido da vergonha de sentir-se o mais vira-lata dos brasileiros, o não-capitalista.

A utopia que um dia lhe fez voar como passarinho agora nem sonho mais era. A grama da ilha dos sonhos que ele imaginou, não era mais de uma matéria macia qualquer, era sim, do rançoso e verdejante dolar americano, o vira lata brasileiro estava com diarréia de valores e todo cachorro que se preze sabe por instinto que comer umas verdinhas é muito bom para o estômago numa hora como essas.

Da janela do ônibus

In ficção on Abril 16, 2007 at 4:12 pm

Tentava se concentrar nas coisas simples. Manter a calma e a sanidade pensando em futilidades mas nada estava dando certo. Ainda faltava cerca de meia hora para o ônibus chegar, comprou uma revista pra se distrair mas as palavras pareciam embaralhadas. Comprou um cartão telefônico de quarenta unidades por seis reais e fez uma ligação do orelhão.

__Oi Leonor.
__Oi. Quem é?
__Sou eu pô.
__Eu quem?
__Rogério.
__Rogério!?
__…
__Nossa! Que surpresa.
__É. Não parece tão surpresa.
__É que.
__Não precisa. Eu só tava querendo falar com você. Ouvir tua voz.
__Alguma coisa de errado?
__Não. Tudo certo.
__E você tá bem.
__É… Tô. Você tá?
__To bem. To levando.
__…
__Eu nem sei o que dizer Rogério. Faz tempo já né?
__Não precisa dizer nada. Só queria falar contigo, qualquer bobagem serve.
__Conta alguma coisa. Quais são as novidades?
__Eu vou viajar. Vou passar uns dias em Belo Horizonte.
__Belo Horizonte. Que legal. Eu gosto de lá.
__É. To indo visitar uns conhecidos de lá. Você tambem tem parentes lá né?
__Tenho.
__Pois é.
__É.
__Bom. O cartão tá acabando.
__Tá bem. Tchau Rogério.
__…tchau.
__Tchau. Se cuida.

Rogério desliga o telefone.

__te amo sua idiota.

Voltou a ler a revista mas não estava lendo. Se o problema acabasse por aí tudo estaria bem. Esse tipo de coisa faz a gente se sentir vivo, mas quando os problemas são maiores do que um amor que não tem mais como aparecer na vida da gente então é porque o negócio tá complicado, afinal, esse tipo de problema parece o maior problema do mundo quando tá acontecendo com a gente, mas hoje não parecia, parecia o menor deles, aliás, parecia que tudo estava perdendo o sentido,esse probleminha agora soa como uma futilidadezinha das menores lá no passado que não faz diferença nenhuma aqui no presente.

O ônibus tava chegando na parada e Rogério guardou as malas. Sentou numa cadeira de frente pra janela. Não tinha ninguém pra se despedir dele. Não tinha a mãe pra fazer aquele dramalhão todo e levar sanduiche embalado pra ir comendo no percurso, não tinha amigos pra darem uma carona num scort velho caindo aos pedaços, não tinha nem um tio solteiro pra o levar de carro durante a madrugada dando conselhos a ele que gostaria de ter dado pro filho que nunca teve. Ele queria ter mais pessoas por perto. Todas pessoas que gostam da gente tem seu valor, mesmo aquelas que nos irritam. Aí que está o ponto crucial do problema que Rogério sempre teve com a Leonor, ela olhava para ele como “mais um dos carinhas que passou pela vida dela” e nada mais. Rogério por sua vez já começava a entender que não era amor que ele tinha por ela, era obsessão infantil. Amor era uma coisa que ainda faltava descobrir.

Olhando a cidade ficar pra trás pela janela do ônibus Rogério se deu conta da Jornada espiritual que estava prestes a enfrentar e todos os outros probleminhas pareciam minúsculos. O chefe com as piadas sarcásticas e a mania chata de cutucar o nariz. A briga boba que teve ao xingar um motorista grosseiro. A voz que levantou pra uma funcionária idiota da cafeteria que lhe rendeu certa dose culpa. A apatia de esquecer de ligar para os velhos amigos. O sapato que apertava o dedão e lhe deixava de mal humor. O Amor não correspondido. Todos problemas agora não eram problemas, eram coisas cinzas passando pela janela dando lugar a percepção de que seu pai, seu velho pai o estava esperando enfermo numa cama prestes a morrer. Rogério sabia que quando chegasse em Belo Horizonte não ia mais encontrar o velho pai que lhe ensinou a ser homem, aquele paizão com quem teve uma crise de risos na primeira vez que entrou em um carro quando ainda era moleque, nem muito menos vai encontrar uma voz que lhe confortasse quando não soubesse o que fazer. O pai estava em estado terminal, sofrendo de mal de Alzheimer. Rogério tremia de medo só de pensar no pai forte deitado, agora velho e senil, numa cama fria e insensível de um hospital. A notícia da doença já era datada mas só agora, sozinho confortável na poltrona do ônibus que uma lágrima sincera lhe escorreu pelo rosto.

__Meu pai tá morrendo.

Apertou a mão no peito como se pudesse confortar o próprio coração e abaixou a cabeça engolindo o choro. Nada tão natural quanto a morte, nada tão difícil de aceitar quanto uma coisa naturalmente infalível.

Acordou no dia seguinte em Belo Horizonte. A verdade é que na cabeça dele a história poderia acabar alí mesmo. Queria que fosse mais um de seus contos onde ele não tinha a responsabilidade de terminar a história no final, podia manipular o texto e acabar onde bem entendesse, não precisava passar pelo processo de maturação do personagem nem assumir que é preciso passar com coragem pela parte mais difícil. Podia encerrar um texto pela metade e dizer que era uma escolha de linguagem ou dar um final conclusivo estilístico. Mas agora a história era crua, tava acontecendo. Não era a caneta dele num papel. Era uma viagem para ver o pai em estado terminal. Não era uma frase de efeito que traria algum conforto. O pior ainda estava por vir. Ele como humano, mais do que como escritor precisava de maturidade pra aguentar viver (mais do que escrever) esta história até o final…

Rosto virado pra fantasia

In ficção on Abril 12, 2007 at 3:33 am

__Psss Psss
__Que?
__Vem aqui.
__Ir aí? Pra que?
__Vem cá moço.
__Que que foi?
__Olha alí!
__Alí aonde?
__Alí oh! A Lua.
__Tá! E daí?
__Ela tá crescente.
__Que isso?
__To pegando em você. Não pode?
__Você nem me conhece.
__Não gostou de mim né? Me achou feia.
__Não! Não! Não é isso! Te achei linda. É que… sei lá. Porque você, sei lá. Eu eu não te achei feia..
__Então vem comigo.
__O que você vai fazer?
__O que você quer que eu faça?
__Olha. Se for pra me cobrar eu não tenho dinheiro, nem muito menos sou desses caras.
__E nem eu sou dessas mulheres. Tá pensando o que? Não vai doer nem vai gastar.
__Porque você resolveu chamar logo… logo eu?
__Você não gostou de ser chamado?
__Gostei. Mas é que… é que eu to preocupado.
__Tá com medo? Ihhhh.
__Não. Não é nada disso.
__To vendo que eu vou ter que esperar por outro.
__Mas você tá esperando pra que? Porque?
__Porque eu quero.
__Quer o que?
__Que você faça…
__Faça o que?
__Você sabe!
__E porque você quer chamar alguém que nem conhece pra te fazer uma coisa dessa?
__Porque é bom.
__Ai meu Deus. Olha o que você fez comigo.
__Tá suando. Que gracinha.
__Se fosse só o suor era tranquilo.
__To vendo o que tá acontecendo. Vem. Entra logo. Vem. Antes que piore.
__Tá bem.
__Isso. Vem comigo.
__Que cheiro gostoso que você tem. Isso nunca aconteceu comigo.
__Eu sei. Vem. Pega em mim.
__Não sei o que tá me dando. Devo estar ficando louco pra fazer uma coisa dessas.
__Eu sei. Eu sei. Continua, não pára.
__Eu to… to estranho.
__Não pára. Fecha essa porta.
__Tá.
__Não, melhor ainda, deixa aberta. Assim o ar entra.
__Tá. Não. É melhor fechar.
__Porque? Tá com vergonha? Vem.
__Por… tô… Vo.
__Vou já te mostrar uma coisa. Quer ver?
__Não. Acho melhor eu sair.
__Vem.
__O que você tá planejando? Me fala.
__O que você tem hein? Que medo é esse? Eu não vou te morder.
__Você é casada? Não pode ser casada tão novinha.
__Que interessa? Eu to te chamando.
__O que você tá fazendo.
__To tirando a calcinha. O que parece?
__Tá passando muita gente lá fora. Eles vão te ver.
__Quem mandou fechar a porta?
__Ei. Peraí. Onde você tá indo.
__To indo pro meu quarto.
__…peraí!
__…
__…
__Aí. Não pega aí assim. Parece que não sabe segurar uma mulher.
__Eu não sei…
__Não sabe? Como assim? Deita aí.
__Eu não sei segurar uma mulher.
__Não sabe? Vai dizer que você é?
__Sou. Admito, sou virgem.
__Então é por isso que tá todo medrosinho.
__ehh
__Fica tranquilo. Eu tambem sou virgem.
__O que? ce tá fazendo isso sem saber então?
__É. Me ajuda. Senão não dá certo.
__Como?
__Me ajuda.
__To tentando.
__Isso.
__aahh
__deixa que eu faço o resto.
__tá apertado. Tá apertado demais.
__quer que eu pare?
__Não. Não. Continua.
__Ainda bem. Bota a mão aqui. Faz a sua parte.
__tá.
__tá bem assim?
__tá.
__isso.
__tá … ótimo.
__isso. isso. isso… isso… isso… isso.

__Lucas! Acorda. Assim não vale! Você terminou e me deixou sozinha…
__Ah. Desculpa… é natural sentir sono.
__Desde quando isso? Você lembra?
__Não.
__Olha pela janela e adivinha.
__O que?
__Olha alí! Olha alí oh!
__Alí o que?
__A lua seu bobo!
__Tá. E daí?
__Tá crescente.

Pau Grande e Sonhos Pequenos

In ficção on Abril 10, 2007 at 2:29 am

Vou ser breve e direto sobre o motivo pelo qual eu te trouxe aqui.

Meu pau é grande e meus sonhos são pequenos.

Eu já fui um sonhador de amplos horizontes. Eu avistava mil possibilidades e meu futuro era um oceano de doces incertezas. Eu boiava nas nuvens com suavidade. Eu era um pássaro, livre intelectualmente, em todos os sentidos.

Mas foi aí que a vida me pegou. Me tragou de jeito e eu perdí a inocência, e a inocência é, simbolicamente, o equivalente às asas que tive um dia para sonhar. Sem ela meus pés estão grudados ao chão e tudo o que posso é observar a dura realidade perpetrar minha carne através dos anos trazendo minhas rugas e cabelos brancos, me tornei um cínico e meu pau cresceu tremendamente. Me tornei um fodedor, minha mente se rebelou para a beleza e explora os conteúdos do sexo sem pudores. Eu me tornei um monstro fodedor.

Sinto falta da minha inocência.

Não fique sem graça, só porque meu pau está estendido sobre esta tábua de carne. Quem está com o cutelo na mão é você!

Eu prometo te deixar ir embora. Aqueles mil reais da sacola serão seus. É verdade!

Eu vou contar até três, e no três e tudo o que quero que você faça é que decepe meu membro monstruoso e estanque meu sangue com esta estopa industrial.

Você não sabe o favor que estará me fazendo. Decepando este pau, você traz de volta ao mundo o anjo que um dia eu fui. Traz a mim a possibilidade de sonhar e livra o mundo de um calhorda safado que hoje eu sou. Inicio minha contagem, não tenha piedade!

(silêncio)(entre olhares)(dúvida)(hesitação)

1…
2…
CLAPT

AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHUUUUUUUUUU!

Vidigal na peleja contra Exu

In ficção on Abril 1, 2007 at 8:35 pm

Absque argento omnia vana
Sem dinheiro, tudo é vão

Não fosse por uma série de agraventes te mataria agora mesmo. Mas não ouse estalar uma junta de seu corpo que juro que disparo sem hesitar esta arma para a tua cabeça de merda.

Disse a Mulher ao Tenente Vidigal. O tenente que não era bobo nem nada só queria escapar alí, mesmo que fosse sem a maleta de dinheiro. Mas a ex-esposa conhecia bem a índole de pilantra do velho marido que lhe maltratou por tantos anos, e que broxava noite após noite, talvez porque seu tesão fosse mais por dinheiro do que por mulheres.

O dinheiro deveria ser uma ferramenta, mas para Vidigal fora uma finalidade. Aquele inveterado adorador de dinheiro era um canalha. Se vocês o conhecessem, caros leitores, tenho todas as certezas de que o odiariam tanto quanto sua ex-esposa, mas nesta história de um narrador e dois personagens, o protagonista é o vilão, portanto não sei se será tão fácil assim matá-lo.

Mas mulher – Disse Vidigal à ex-esposa – Vejo que você tem ódio não somente de mim, mas também do dinheiro. Veja bem que foi o dinheiro quem lhe comprou este vestido e foi este mesmo quem nos uniu no sagrado matrimônio. Não seria sóbrio que pensasse mais um pouco? Que ponderasse antes de sequer apontar esta arma para meu rosto imaculado?

Mas a mulher, frequentadora de terreiros, era uma antena das entidades do candomblé e constantemente atenta a tentativas de persuasão. Filha de Exú, ela poderia se deixar levar pelo espírito arguto do velho Deus Africano.

Rosto Imaculado? - Disse a mulher. – Você parece que passou a tarde sentado no pedregal e depois trocou a cara pela Bunda! De hoje você não passa, seu Muquirana mão de vaca, filho duma quenga manca!

Vidigal se assustou, mas a aura do dinheiro e a fachada impecável deviam ser, de alguma forma, uma espécie de proteção. Divina ou diabólica, fosse o que fosse, vez ou outra funcionava. Apesar de salafrário tira sempre a sorte grande, mesmo em se tratando de assuntos sobrenaturais. O dinheiro é a raiz de todo o mal, e todo o mal deve ser muito forte se quiser perdurar por tantas gerações. O dinheiro é a forma de poder mais eficiente, dinheiro é sinônimo de poder não somente pelo poder em sí, mas pela liberdade que o poder pode trazer. Essa liberdade é uma premissa verdadeira ao menos para aquele que escolheu para sí uma vida urbana e atarefada e está disposto a permanecer assim, pois uma vez na roda fica difícil escapar.

Eu sei o que você quer meu bem. – Disse ele a Ex-Mulher esperando encontrar a velha personalidade mortal debaixo do Orixá controlador que a havia dominado. – Você quer se livrar de mim e ao mesmo tempo não quer. O motivo de me querer longe (ou morto talvez) é o de que eu lhe aprisiono, sou ciumento demais, porém, eu próprio gosto da liberdade nas camas de outras mulheres. É o meu egoísmo que lhe incomoda. O dinheiro é o único motivo de não ter me largado ainda, se eu fosse um pé rapado não teria mais comigo. As noites insossas ao meu lado, reconheço, não são satisfatórias, gasto energia demais fora de casa. Sim, eu admito isso. Mas eu sei que mesmo a mais interesseira das mulheres nada é sem amor. Pois se o homem tem a ambição pelo poder, a ambição das mulheres é o amor. A vaidade é o motivo matriz para ambos os sexos, os meios de se atingi-la é que são diferentes. Pois entenda o que quero fazer. Com este dinheiro contido na maleta eu compro seu amor, em troca ganho a minha liberdade. Entrego a tí, minha ex-esposa, todo o capital de minha fábrica e ponho na tua mão as honrarias que recebí. Fica a teu cargo liderar a empresa. Eu assino todos os papéis que forem necessários para que você me poupe a vida. Com tanto dinheiro você terá a liberdade que quiser, poderá viajar pelo mundo e conhecer novos amantes, novos lugares. Praias tão belas e iguarias maravilhosas. Esquecerá que um dia me amou. E eu terei minha consciência limpa, por ter lhe pagado o sofrimento que lhe causei.

Meia hora após o argumento contundente de Vidigal a mulher estava sobre a mesa, ainda na mesma posição, mas sozinha. Em sua frente os papéis assinados e uma maleta cheia de dinheiro.

Com tanta veemência nas palavras Vidigal conquistou o apreço não somente da mulher, mas também o de Exu. O truque de Vidigal fora rejeitar sua própria ganância para conquistar a verdadeira liberdade. Com tantos credores a sua volta e um processo de falência iminente, sua morte pela mão dos mafiosos da cidade já estava decretada, ao repassar a empresa para o nome da mulher livrara-se do fardo duplo e pesado. O primeiro, do matrimônio sem amor, o segundo do dinheiro aprisionador. Vidigal estava emfim sem nenhum dinheiro no bolso, livre e poderoso como um adolescente que recém abandonou a casa dos pais e que vê o mundo pela frente.

Para um capitalista nato como Vidigal, a culpa é tão presente quanto o tesão. Aparece com uma certa frequência, mas não dura mais do que alguns minutos.

Yorick que o diga

In ficção on Março 25, 2007 at 7:44 pm

Gerar um filho. Dar a chance de nascer a uma criatura. Um sonho e um pesadelo.
Penso logo no pior que há no mundo. As desgraças sem fim que podem recair como uma nuvem chuvosa sobre o azarado que não pediu pra nascer. Penso que estávamos tão contentes no estado logo antes de nascer.

Ao brotarmos de um útero começamos a enfraquecer a ligação com a matéria mais bruta e prima que compõe o universo, é a matéria do NÂO SER, DO NÃO EXISTIR. Há um nome: Silêncio.
No decorrer da vida estamos cada vez mais longe de onde viemos, poluímos a folha branca na qual fomos designados com rabiscos e sujeiras e durante uma vida há muito tempo para se poluir, mas pouco para se apagar os traços negativos de nossa passagem pela terra.
Nos tornarmos o “Ser humano” o “ser vivente”. Com que fim? Queremos voltar. Quanto antes melhor. O ano passado. A década passada foi melhor do que essa. A infância, época ilustre da vida de qualquer um de nós, é pra lá que queremos voltar. Se houver ousadia o suficiente, sonharemos com o estado uterino e nos encolheremos com a cabeça escondida, protegida sobre as pernas dobradas. Se decidirmos sonhar mais longe, será definitivamente com a possibilidade de regressar ao estado do que eramos antes de nos tornarmos qualquer coisa. Sonharemos com o estado do NÃO SER, que precede o NASCER, é lá que quero ficar. No paraíso do completo silêncio.

Ter coragem de copular com um fim que não seja o prazer deveria ser um pecado nos dias de hoje, justamente hoje, dias em que os homens não são homens. Nossa humanidade se raleou, foi coada. Não somos seres de atitudes própias e gratuitas. A lógica e o mecanicismo no qual nos metemos arrasou o prazer da gratuidade e agora somos meros objetos, artifícios urbanos e estatais, escravos da razão. Os homens tem sua ética, moral e espiritualidade regida pelas empresas onde trabalham, pelo país onde vivem, pela raça a qual pertencem, pela cultura e religião na qual nasceram. A natureza visceral foi formalizada, categorizada e anotada em algum catálogo. Somos uma espécie, de uma certa classe que se enquadra numa categoria de uma determinada forma. Estamos tecnocratizados. Englobados dentro de um fichário. Nosso DNA é um arquivo de computador. A tecnologia da carne está banalizada, somos antiquados em relação a contemporaneidade. Somos freiados, barrados e isolados por entre os muros assustadores da “segurança” e do “conforto”.

Por medo de dar a luz a um ser vivente que não saiba viver é que eu penso tanto na dor. Temo que minha criança, minha prole, não seja capaz de enxergar o prazer quase secreto da vida. A beleza está escondida no meio de tanta degradação. Prolificar a raça humana exige uma educação prévia para a alma, pois só é possível viver nesse mundo de dor, agonia e terror quando se for capaz de compreender que é nesse mesmo mundo que existe o êxtase, o amor.

Viver é assustador, é pavoroso, mas tão quanto maravilhoso.

Nascer ou não ser? Eis a questão.

Urbanos Hai Kais

In ficção on Março 19, 2007 at 11:30 pm

Letrinhas miúdas
Unidas caçoam
Do ponto final

***

Abro a janela
A luz da manhã
Cheio de canela

***

A feira das flores
Penso calado
Plantar um Bonsai

***

Rasteira a poeira
Que voa e atravessa
Percurso bonito

***

Passos da moça
Andar tão bonito
Se quebram as folhas

***

Cadarço amarrado
A brisa não entra
Nos dedos dos pés

***

Asinhas batendo
No ar se suspende
Beijando a flor

***

Poema pequeno
Não rima ou ensina
A vida que leva

***

Carros alardam
Aviso sonoro
Início do dia

***

Lua de Mel a qualquer custo

In ficção on Março 17, 2007 at 2:42 am

Havia um espaço entre o casal dentro do carro. Era um dia feliz e desastroso. O Motorista, plebe alienada, dirigia calado, indiferente a aos problemas do mundo. Muitas coisas haviam acontecido.
O casamento foi perfeito
A tia solteira ficou bêbada
O pai da noiva desmaiou
Estavam a caminho da Lua de Mel
Encontraram uma epidemia de zumbis…

Jack pela janela observava os corpos sendo dilacerados na rua por onde surgiam mais e mais zumbis. O som era horrível. Ele encostou a cabeça no vidro.
__Eu nunca tive sorte nessa vida.

A mão de sua doce esposa, Tina, se apoia sobre sua perna e o imenso espaço entre os dois é finalmente atravessado. Os corpos estão enfraquecidos pela desesperança.
__Você não me ama? – Ela diz

Ele se vira para ela com um olhar espantado. O encanto da serenidade não foi sobrepujado pela desgraça do lado de fora dos vidros.
__Claro que sim! Claro que te amo Tina!
__Então porque está dizendo que nunca teve sorte?
__Querida, justamente por isso. Você foi a única coisa boa que aconteceu na minha vida, e agora parece que o mundo está acabando.
__O mundo não vai acabar. Nós vamos sair daqui. Estamos casados. O mundo não importa e nós vamos sim para a nossa sonhada lua de mel.

Os dois se beijam lascivamente, apesar do terror do lado de fora. Sangue é espirrado no vidro e o motorista é obrigado a fazer uma manobra perigosa. O casal apaixonado não deixa de se beijar, e muito pelo contrário, acabam aproveitando o baque da manobra para caírem no banco deitados, abraçados, prontos para consumarem a desvirginação sagrada no banco de trás do carro. Os olhos do motorista, apesar de catatônicos em sua obrigação proletaria, não se contentam e são obrigados a desviar-se para saber o que se passa no banco de trás. O amor, é o que se passa por alí.

A viagem prossegue pelas ruas desertas que no dia anterior, na mesma hora, estariam engarrafadas.

O motorista estaciona de frente para o aeroporto e o casal desce de mãos dadas saindo para o Aeroporto. O motorista em sua obrigação, de acordo com a política da empresa, não esquece:
__Senhor. E as malas?
__Não vamos precisar mais delas.
__Mas senhor… Ainda assim, preciso que me pague.
__Ah! Claro!

Jack volta abrindo sua carteira, tirando de dentro algumas notas de 10 reais.
__10, 20, 30, 40, 50. Acho que é isso. Obrigado.
__Senhor. Seu troco.
__Não precisa. Eu não quero troco.
__È contra as normas da empresa aceitar gorgetas senhor.
__Tá bem. Tá bem.

Enquanto o motorista abre o porta luvas repleto de moedas picadas, Tina, a noiva virginal, tem seu vestido manchado pelo próprio sangue que espirra do dedo que acaba de ser arrancado pela boca putrefata de um zumbi esfomeado.
__AHhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Tina grita.

Jack vê o dedo na esposa na boca do Zumbi, ela corre, distanciando-se. Jack corre em direção a Tina. O zumbi desorientado está indo embora. O motorista estende a mão para fora da janela.
__Senhor! Seu troco.

Jack abraça a esposa. Terá que se contentar em amar uma mulher com um dedo a menos.
__Minha aliança! Ele levou minha aliança!

O motorista buzina. Ele deve ter seus compromissos.
__Senhor! Seu troco!

Jack o ignora e corre na direção do zumbi. A essa altura o dedo da esposa deve estar caindo no estômago decomposto e infuncional da criatura abissal.

O Motorista insiste em buzinar.
__Senhora. Será que poderia pegar o troco? Preciso voltar com o carro para a garagem!
__Que garagem homem? Pelo amor de tudo o que é sagrado. O mundo está acabando e você está pensando em voltar para a garagem? – Ela diz em tom enérgico.
__Se me permite senhora, preciso encontrar meus filhos. Pode pegar seu troco por favor? – O motorista ainda está com a mão estendida para fora da janela, algumas moedas estendidas sobre a palma da mão.

Ela se aproxima, estancando o ferimento do dedo com a outra mão e inspirada pela coragem do motorista pega o troco sem derrubar mais lágrimas. É uma nova época de sofrimento que se aproxima, se não formos fortes agora o que será de nós num futuro próximo?
__Muito obrigado senhora. A qualquer momento, em qualquer lugar, Transporte Pentex. Tenha uma boa tarde.
O motorista arranca seu carro e parte.
A mulher com o troco na mão não chora nem grita de dor, mas o sangue da própria mão já cobriu as moedas.
Jack, completamente ensanguentado mas aparentemente inteiro chega correndo. Está com uma aliança segura firmemente nos dedos. Eles se entreolham e se abraçam. Ele pega a mão da moça e coloca a aliança no dedo saudável, ao lado do dedo arrancado. Estão definitivamente casados.
De mãos dadas partem em direção ao aeroporto, para a suposta Lua de Mel.

O Eclipse Fenomenal

In ficção on Março 5, 2007 at 12:44 am

Quem não olhou para o céu na noite de 3 de Março de 2007 perdeu um evento fantástico, o eclipse lunar.

O eclipse começava a se desvendar no enorme céu Brasiliense, dotado de um campo de visão privilegiado em qualquer direção que se olhe. Eu estava em Taguatinga, uma das cidades satélites de Brasília, e a lua parecia estranha. A princípio pensei que fosse apenas uma Lua Minguante, mas minguava ao extremo e seu pequeno sorriso invertido desaparecia aos poucos para o que foi o momento de total cobertura da lua com a sombra da terra em relação ao sol. No momento seguinte a lua ficou vermelha, esse efeito se dá por causa da refração dos raios solares ao atravessarem a órbita terrestre, que convergem avermelhados sobre a lua.

Esse efeito é comum. Perceba, por exemplo, que a luz do sol, ao atravessar um copo d´agua fica turva e aponta em outra direção.

O momento mais interessante do eclipse, sem sombra de dúvidas (perdoem-me pelo trocadilho infame) foi a parte em que o fogo começou a brotar por trás da lua e as chamas consumiram todo o céu. As nuvens evaporaram e de subito todo o Brasil ficou espantado pois Deus em pessoa apareceu no céu, na verdade essa é uma questão muito discutida pois alguns afirmam que não era Deus, mas sim o Lúcifer passando-se por Deus. Por trás da Lua Deus estava com suas mãos gigantes e no auge do eclipse lunar pudemos vê-lo completamente e ele esfregava uma mão sobre a outra e uma gargalhada estranha e entorpecedora ecoou pelas ruas da cidade. Gargalhava como um louco Gwahahaahahahahahahha e todos os cidadãos observavam estupefatos o fenômeno supreendente no céu Brasileiro. Alguns questionam se não foi o poder do consciente coletivo Brasileiro que é composto em sua maioria por Cristãos. Mas alí estava, Deus no céu, atrás da lua gargalhando ensandecidamente. No fim do Eclipse Deus desapareceu e ficaram apenas os comentários nas TVs, Radios e jornais. Os murmurinhos da população alardeavam por todos os cantos a chegada do fim do mundo mas estava tudo pacato novamente, como sempre foi. A lua brilhava como sempre brilhou e tudo estava em sua mais perfeita e monótona realidade. Não houve eclipse mais impressionante neste ou em outro milênio qualquer.

____________
MUDANDO DE ASSUNTO…
errata:
“A religião é o ópio do povo” É muito comum atribuirmos essa frase a Karl Marx e é verdade que foi ele quem disse, mas fora de seu contexto ela não faz o mesmo sentido.

“Religião é o murmúrio da criatura oprimida, um coração para um mundo cruel e uma alma para um mundo insensível. É o ópio do povo.”

VIDE BULA

In ficção on Fevereiro 10, 2007 at 2:21 am
Na vida de um homem há sempre um momento em que ele se depara com situações complicadas, de difícil resolução, fica difícil seguir adiante a não ser que você tenha em mãos um manual, instruções por escrito, desenhadas ou uma…

BULA
( É importante ressaltar que as informações são cumulativas )
Como assistir este documentário:
Retire o o seu “Digital Video Disc” (DVD) de dentro do compartimento de segurança plástico e insira-o na tampa de seu DVD PLAYER (para maiores instruções sobre o uso adequado consulte o fabricante de acordo com a marca de seu aparelho).
Selecione a linguagem com a qual está mais familiarizado no menu de idiomas.
Pressione o Botão play de seu controle remoto e tenha uma boa diversão.
Instruções para sorrir
Erga os músculos da face elevando as pontas de seus lábios até formar uma concavidade com a boca, semelhante ao formato de uma lua minguante, porém na posição horizontal, com as pontas apontadas na direção do céu.
Aponte as pontas da concavidade para o chão caso deseje exprimir tristeza labial.
Instruções para Dirigir seu carro
Utilizando as chaves entre pela porta do motorista e sente-se de frente para o volante. Espere que os outros passageiros entrem dentro do carro.
Acione a ignição com a mesma chave que utilizou para abrir a porta.
Pressione o pedal da embreagem (o primeiro pedal da esquerda para a direita) , com o pé pressionando a embreagem utilize sua mão direita para passar a primeira marcha. Solte a embreagem na mesma medida que utiliza o pé direito para pressionar o pedal do acelerador (o último pedal da esquerda para a direita). No momento em que o pedal da embreagem for solto (sempre com suavidade) e o pedal do acelerador estiver pressionado seu carro estará em movimento. Utilize o freio em necessidade de breque e repita o processo para passar as outras marchas.
Instruções para suicídio rápido indolor
Cadarços de sapato não são tão eficientes quanto os laços de um bom casaco de Lã.
Utilize os braços de um casaco de lã (sem nenhuma pessoa inclusa, caso contrário será homicídio) e perfaça um nó folgado com seu pescoço incluído dentro do laço.
Sub Instrução – Nó de Escota
Variação do Nó direito, serve para unir dois cabos de diâmetros diferentes. Também possibilita maior confiabilidade, pois pode ser duplo. Veja nas fotos os detalhes para fazê-lo.
1.Faça um laço com um cabo e passe o outro por dentro

2. Passe um cabo por trás do outro

3.Cruze o cabo pela entrada do laço
4.Puxe o cabo para apertar
Uma opção é dar duas voltas para aumentar a segurança
(continuação…)
Aperte o laço sobre seu pescoço e espere pela inconsciência.
A ausência de sentido em sua vida foi finalmente compensada pela ausência de um indivíduo em sua vida. A coerência enfim.
Em caso de desistência desafrouxar o nó antes do colapso.
“Se você perdeu alguma etapa desse curso,envie para nós um cheque no valor 200 Reais e receba em casa sua apostila grátis”

Processo de Criação de um Filme

In ficção on Janeiro 10, 2007 at 8:11 pm

Podia colocar em alguma parte do roteiro uma mulher tirando a roupa, pra dar um pouco de sensualidade. Logo depois podia colocar um carro explodindo, pra dar um pouco de ação, e em seguida colocar um cara escondido atrás de uma pilastra pra dar um pouco de suspense, e atrás desse cara podia colocar uma placa escrito “suspeito” pra dar um pouco de humor e depois podia colocar a mulher que estava tirando a roupa chorando sozinha no quarto pra dar um pouco de Drama.

FIM

Pronto. Já temos uma história. Vamos filmar.

Simulei desmaio em dois casamentos

In ficção on Janeiro 9, 2007 at 6:19 am

O primeiro casamento em que eu simulei o desmaio foi no meu, quando eu ia casar com uma mulher que estava grávida e eu nem sabia que era o pai. Quando eu estava no altar eu desmaiei.

De qualquer modo acabei casando com ela porque me obrigaram e eu reparei que desmaiar novamente não iria adiantar, até porque ela achou que eu tinha desmaiado de tanto que eu gostava dela. (Foi um desmaio falso perfeito, me orgulho disso)

A segunda vez que desmaiei foi quando minha amante se casou e me convidou para o casamento. Eu fiquei sabendo que ela e o novo esposo se mudariam para uma cidade do méxico, então quando o padre perguntou aquela famosa frase do “Se alguém tem algo contra fale agora ou cale-se para sempre” eu simplesmente desmaiei. Todos vieram me socorrer, inclusive ela, e quando eu ouvi a voz dela eu abri o olho rapidamente e dei uma piscadela pra mim. Ela entendeu que eu tinha arruinado o casamento dela de propósito.
Felizmente o casamento teve de ser adiado e o noivo dela acabou a largando por algum motivo que eu não conheço e para minha sorte agora eu tenho a minha esposa, de quem eu não gosto, e a minha amante, que eu amo.

Num Mundo de Zumbis

In ficção on Janeiro 5, 2007 at 9:14 am

Não se sabe exatamente se é virose, bactéria ou simplesmente psicológico, mas a praga dos zumbis é definitivamente contagiosa.
Quase tão contagiosa quanto gripe, talvez mais contagiosa que bocejo.

Mas a verdade é que se você se prevenir você estará seguro:
- Ao transar com zumbis, use camisinha
- Evite ficar debaixo das axilas de zumbis em ônibus lotados
- Mantenha distância segura dos dentes dessas criaturas
- Não aceite transfusão de Zumbis

O que não é proibido:
- Abraço
- Beijo
- Cocegas
- Ferimentos por contusão

ATENÇÃO
Passeata de Zumbis em prol do saneamento básico adequado.
Eu tenho certeza que essa recente epidemia de zumbis ocorre devido às precárias condições de saneamento básico aos quais grande parte da população Brasiliense está exposta.
O povo vive na porqueira, é muito natural que se tornem zumbis.

DEPOIMENTO:
O meu tio uma vez caiu numa pocilga da fazenda dele. Quando morreu, horas depois devido a uma infecção generalizada, virou zumbi.

Enquanto isso na câmara dos deputados residem os sobreviventes, trancafiados do lado de dentro. Lutando pela sobrevivência no poder agarrados aos seus miraculosos salários, que os mantém desintoxicados e seguros da epidemia de zumbis.

Ps.: 1/4 da população Brasiliense não possui saneamento básico adequado

A pior característica dos Zumbis
- Eles não obedecem filas. Acho isso detestável nos Zumbis.

SOLE HAI KAI

In ficção on Dezembro 25, 2006 at 4:03 pm

Ninguém do meu lado
Transpasso Acompanhado
Da rua cinza. Do céu calado.

Escape do Edifício

In ficção on Dezembro 13, 2006 at 4:04 pm

Augusto tinha pressa de encontrar uma coisa que havia perdido há muito mas não sabia por onde começar a procura.
Pedir ajuda? As pessoas precisavam ser muito pacientes com ele porque uma pessoa sem alma é uma pessoa estranha e sem magnetismo. Como ser amado se não se tem uma alma? So é permitido o direito de ser amado àquele que possui uma alma verdadeira.
Augusto teria que continuar procurando sozinho sua própria essência, talvez sua busca durasse o resto de sua vida. Talvez não, talvez ele encontrasse no meio do caminho.
Augusto tentou procurar sua alma no lugar onde havia perdido mas ela não estava lá e ficou clara a mais valiosa de todas as lições: Certas coisas não estão onde foram perdidas… Você as carrega consigo sem saber e só encontra quando está sob a luz.

Caiu nas terras sombrias, as rajadas de sol desidratavam sua pele. Cabelos abafavam o sol e pelos hirtos sobressaiam-se pelos poros buscando uma gota de suor para que pudessem respirar.
Buscava energia para o próximo passo, adiante da pegada que já deixou para trás. Estava longe da estrada e desejando que sua terra descansasse em paz, estava morta para ele.

A Justiça Sacana
__ Cara! Acho que você não tá entendendo a moral da história! O negócio é o seguinte. Ou você se fode ou eu me fodo! E eu não vou me foder por tua causa. Eu sou escolhido de Deus. Simplesmente isso.
Porque? A arma tá na mão de quem? Na minha ou na sua? Deus me escolheu, colocou a arma na minha mão porque quem se fode hoje é você. E Deus no fim das contas não é justo, porque se fosse justo tinha uma arma na sua mão também, mas olhando por outro lado ele é justo porque tem uma arma na minha mão, mas o dinheiro tá no seu bolso, mas é claro que tem ainda o terceiro lado de que no fim das contas tanto a arma vai estar na minha mão quanto o dinheiro vai estar no meu bolso. Deus não é justo, era o que eu pensava quando eu via vocês ricaços erguendo pesos naquela academiazinha de bosta, vocês pagavam mais de 500 reais pra levantar peso. Eu recebia trezentos reais pra levantar peso, erguer concreto e construir muros. Onde tem justiça nisso? Eu pensava. Deus não é justo. Mas aí eu pensei que Deus é justo porque ele me deu livre arbítrio e com esse livro arbítrio eu comprei essa arma, bem interessante, porque agora mesmo com todo o teu dinheiro no bolso é você quem tá se borrando de medo.

Tirei férias,
Fui pra longe da Babilônia
do edifício ou da torre de Babel
Nomeie o colosso como quiser
Um dia ou esse monstro ou se levanta
ou vai ao chão

A Cigarra na selva capitalista

In ficção on Dezembro 13, 2006 at 4:16 am

Acordou onze horas da manhã, cara de sono, preguiça. Foi ao banheiro, escovou os dentes, estava sem fome para tomar café da manhã. Resolveu esperar o almoço.
Saiu na rua, São Paulo, cidade grande, centro do caos, a teia das relações comerciais e no vórtice do centro, a cigarra, com seu rosto amassado pelo colchão confortável está passeando por entre as formigas trabalhadoras.
A cigarra sente vergonha de sua condição de vagabundo, desocupado. Enquanto todos estão carregando papéis, levando informações, pagando, creditando, comprando, a cigarra está apenas passeando.
A cigarra pensa que precisa arrumar um emprego antes da chegada do inverno, caso contrário irá passar fome e congelar.
Não é moralidade ou pretensão, é a segunda e inegável natureza. Assim como as árvores, assim como a terra e o mar, a economia está viva e se move sozinha. Mesmo os marginais estão inclusos aí dentro, tanto na primeira e natural natureza, quanto na segunda e artificial econômica natureza.

Sabotando o Edifício

In ficção on Dezembro 11, 2006 at 6:38 pm


Quem foi que apertou a minha campainha e saiu correndo ontem a noite?
Se pego esse moleque. Há duas semanas atrás tacaram uma pedra na minha janela, tinha um recado na pedra mas a letra era um garrancho de tão má caligrafia que não pude distinguir aquelas palavras de pinturas rupestres.
Retornei a pedra para o lugar de onde veio, na volta, coitada, acertei sem querer a cabeça de uma velhinha que passava na rua. Ví a coitada no chão já com ares de queixosa com a cabeça sangrando, reclamava que eu havia machucado sua pobre cabecinha.

Eu tentei explicar que havia sido sem querer que lhe acertei aquela pedra e ela me disse que eu não precisava mentir, mas depois foi ela quem se desculpou pois também disse que foi sem querer que ela havia acertado minha pobre janelinha.

Um dia de minah kitnet ouví risadas maquiavélicas. Diziam mais ou menos a seguinte frase:
__Bwahahaha Gwauhauahau.

Astolfo está sentado na sua poltrona preferida, lendo seu livro de poemas de Fernando Pessoa. Ele começa a cochilar.
Após alguns minutos de onirismo, Astolfo acorda e percebe que está chovendo, um tremendo temporal. Ele deixa seu livro na estante e resolve tomar um banho.
Enquanto sobe as escadas e pensa no seu maravilhoso banho, ele escuta um barulho vindo do banheiro. Chegando ao banheiro, ele nota que a janela está aberta. Corre, então até a janela, só que não percebe que o chão está todo molhado. Escorrega e bate a cabeça com força no chão. Astolfo fica desacordado de cara pra privada, enquanto sua vida esvai-se pela cabeça e deixa o chão com uma mistura de sangue e água.

Procurando um filme clássico? Difícil de encontrar? Porque não procura na locadora do edifício? Eles tem de tudo lá. É uma compilação enorme, são quatro ambientes de DVDs e VHSs, uma compilação que vem sendo montada desde 1962.

John Mayall and the BlueBreakers estavam tocando ontem no saguão 3S do edifício, foi uma festa e tanto, pessoas por todos os lados tentavam entender o que estava realmente acontecendo, o produtor claro, trancava as portas para impedir os visitantes que chegavam pois tamanha felicidade não era comum naquele edifício e era por isso que qualquer festa sofria sempre do mesmo grave problema de super lotação.

O som da gaita chiando, raspando seu agudos afiados entrelaçados com a guitarra guerreira e os vocais apressados escapavam pelas frestas e percorriam os corredores, invisíveis para as câmeras de vigilância percorriam dentro das salas de trabalho e vazavam nos ouvidos incautos dos rotineiros escritórios e as ondas sonoras reverberavam dentro das caixolas hipnotizadas trazendo-as para fora de seu trabalho fazendo as pernas tremerem e as mãos batucarem, logo toda e qualquer criatura imersa em trabalho estava desconcentrada da tarefa procurando o buraco por onde saia aquele som louco de uma festa desconhecida, a famosa festa secreta do saguão que de secreta nada teve.

Ahhh. Quem não foi perdeu.

Pensei que eu estava acordado mas era apenas um sonho que me fazia perpetrar por aquele caminho mais uma vez.
Meus seguidores já encontravam-se desesperançosos visto que é natural do ser humano perder toda e qualquer crença naquele que escolhe um caminho que parece que sempre induz ao erro. Se ao menos eles pudessem ver as coisas como eu vejo compreenderiam que o erro não se dá por causa do caminho errado que escolhemos mas sim pela falta da fé que eles tinham em mim.

O edifício está ruindo

In ficção on Dezembro 9, 2006 at 1:16 am

O que limeira perdeu…
Limeira,
Um funcionário do trigésimo quinto andar estava prestes a se suicidar, e realmente iria virar pasta no asfalto, mas no momento em que se equilibrava no parapeito para o salto colossal lembrou se aonde estava uma coisa que tinha perdido há tempos. naquele dia Limeira não pegou o elevador, desceu de escada os trinta andares e chegando em casa ele abriu uma gavetinha discreta em sua mesa de apostas (uma mesa de jogar baralho que tinha em casa) e encontrou a “pequena senha” que seus amigos da época de infância haviam criado para destacar os integrantes do “GRUPO”. Esta senha lhe conferia não só o direito de ser um membro privilegiado do grupo, mas também de ter o direito há um vínculo eterno de amizade.

E foi aí então que limeira se deu conta do que havia perdido. Não havia sido a senha. Ele tinha perdido os vínculos verdadeiros, estava cercado de amizades passageiras que durariam apenas o tempo em que seus contatos fossem úteis. Ele não tinha mais amigos, tinha apenas contatos e era isso o que o estava matando. Mas agora limeira tinha uma senha, uma senha que lhe conferia um privilégio especial o de ter amigos até hoje, quarenta e cinco anos depois da infância inesquecível.

19/05/2006 12:11 Disse um deles,
(habitantes das escadarias do setor de puteiros, setor conhecido pelo nome ZONAS ERÓGENAS, localizado nas pequenas portinholas na escadaria do terceiro andar do edifício)

O Hai Kai parece fácil
Não é
Meditando vai

Jornalistas covardes

Ví que coragem era uma virtude incomum entre os jornalistas do Jornal diário que era produzido e circulava pelo edifício.
Qualquer matéria que acontecesse do lado de fora era simplesmente ignorada. O jornal do edifício falava apenas sobre o próprio edifício e os habitantes daquele edifício viviam as regras do edifício chegando ao ponto de confundir-se e até amedrontar-se ao serem chocados de frente com um desafio real do mundo exterior. A concha estava fechada. Era como se tudo fosse o que alí acontecia, criaram uma série de barreiras psicológicas para evitar quaisquer desafios e até mesmo os próprios jornalistas buscavam argumentos para evitar sair do edifício. Entre os mais comuns:
“Está muito frio lá fora!”
“Vai ser impossível fazer essa matéria!”
“O texto é muito grande, eu não vou decorar (pra fazer em ambiente hostil (que é lá fora))”
E por aí iam uma série das desculpas mais esfarrapadas que já se viu.
Um dia eu perguntei: Afinal! Vocês são jornalistas ou ratos? Para que serviu todo o aprendizado e técnica que tiveram até agora? Para ficarem com medo do desafio? Quer dizer que depois de aprender o básico querem estacionar no básico? Estão com medo de produzir algo de verdade? Querem ficar batendo tecla em cima das reportagens quadradas que vocês fazem aqui dentro? Porque não ousam? Porque não correm o risco de errar?

Mas até eu confesso que não tinha coragem de sair lá fora para ver as coisas. E custou muito até que certo dia eu saí temeroso pela porta da frente. Chamava o edifício sempre de edifício pois nunca havia saido para saber o que dizia a placa com seu verdadeiro nome. No dia que criei a coragem para sair da rua compreendí que o edifício se chamava aic.

O EDIFÍCIO

In ficção on Dezembro 8, 2006 at 6:15 am

O edifício era tão alto, mas tão alto que estavam contratando cineastas para exibirem seus curtas no elevador

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Subir seus degraus era doloroso e os mais altos andares eram crias de maratonistas, jogadores de futebol. As mulheres… ahhh as mulheres do último andar, como eram desejadas por suas pernas bem torneadas.

E todo o dia gastavam horas subindo escadas. Horas para subir e horas para descer, mal podiam trabalhar.

Ahhh… O edifício. Como tenho recordações boas daquela época, até mesmo porque eu trabalhava no primeiro andar onde era muito movimentado o dia inteiro e não tinha o inconveniente de subir escadas durante horas ou pegar elevador lotado.

Houve quem quisesse instalar um metrô horizontal mas a idéia não vingou. Os engenheiros eram estúpidos demais para criar bancos adaptaveis, ou vagões em forma de elevador, por isso afirmaram que seu medo era o de que os passageiros cairiam de suas poltronas, ou não conseguiriam se apoiar na horizontal por muito tempo. É um bom motivo para que os trens e metrôs permaneçam deitados, sim eu vos digo, é um bom motivo.

Ahhh o Edifício… Quantas recordações. Quantas recordações eu tenho daquele edifício. Em breve lhes contarei de mais momentos que tive por alí, alguns hilariantes, outros românticos, tive até momentos de ação, mas suspense e medo nunca vivi alí, afinal nunca subí no quinquagésimo oitavo andar.

Ahhh… O quinquagésimo oitavo andar, como era temido. Alguns nem sequer ousavam subir até tal altura, e havia, entre os mais temerosos, aqueles que não ousavam nem sequer citar o temido andar, ou mesmo apertar o botão do elevador do “QUINQUAGÉSIMO OITAVO ANDAR” Sinto calafrios percorrendo as pernas a coluna cervical num espaço mais curto do que o ponteiro de um relógio leva para percorrer 1/4 de segundo, até hoje sinto estes calafrios repentinos ao me referir aquele andar maldito e de desgraças. Ahhh como eu temia o quinquagésimo oitavo andar.

17/05/2006 10:12 Putz. O pcc invadiu o terceiro andar do edifício e fuzilou a mulher do coronel Josué. O josué por sua vez foi pego horas depois e fuzilado dentro de sua casa.

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Uma vez subí no décimo quarto andar para comprar uma coxinha que já estava ficando famosa. A lanchonete do Zuzuca ficou famosa rápido por causa de seus salgados excelentes e com recheios especiais e sobretudo preços baratos, havia quem descece do optagésimo andar pra vir na lanchonete.

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Se você conhecesse pessoalmente o Josué não ia acha-lo tão interessante assim. É um dos mais mal educados sujeitos que eu já ví. Tem mania, no almoço, de comer com as mãos, e no final, se a comida estiver gordurosa ele lambe os dedos sem o menor pudor. Além do fato de que é um mentiroso de marca maior. Na verdade não sei se é mentiroso mas os casos absurdos que ele conta são bem improváveis.

Provavelmente em algum lugar devem haver algumas qualidades sobre ele. Eu, infelizmente não consigo pensar em nenhuma nesse momento.

Com licença, estão precisando de mim no setor gráfico para reparar uma maquina de prensar bíblias no septagésimo andar. Vou demorar algumas horas no elevador por isso preciso preparar minha comida, a próxima viagem está marcada para as 17:40. Droga, não dá tempo de preparar marmita. Sorte que devo ter alguns iogurtes de frutas campestres, isso e a barra de cereais vão me manter abastecido tempo o suficiente para viagem, se eu tiver sorte não vou precisar usar o banheiro do elevador pois meu intestino tem funcionado plenamente nos últimos dias. Tomara que dessa vez os estagiários da ala da burocracia existencial não peguem a mesma viagem que eu. São uns chatos.

Aos Leitores, sonhadores.

In ficção on Dezembro 2, 2006 at 3:21 am


Caros leitores, se algum fio de inteligência perdura em suas cabeças ( e se me perdoam pela arrogância com que vos trato ) creio que é seu dever como cidadão pensante o de se perguntar por qual motivo os criadores criam.
O que leva um homem a se tornar um artista?
Pois bem, em verdade vos digo que pretendo responder pela classe, mas estarei aberto a novas respostas que com o tempo possam surgir.
E a verdade é que, nós artistas estamos acordados sonhando vocês próprios. Assim como vocês, costumamos nos fazer perguntas, e a mais clássica delas é a dúvida constante: Teremos nós nascido no tempo certo? A resposta a nossa própria pergunta é sim, que nascemos no tempo certo, mas estamos no tempo errado, pois o ritmo é constante ao passo de que o mundo se acelera, e vos digo que sofremos muito por isso, pois essa adaptação, se não nos é impossível, e ao menos ardilosa. Mas a verdade ainda mais profunda é a de que nossas almas já nasceram muito antes de nossos corpos e perduraram através das gerações, e durante este periodo atemporal estivemos enxergando a humanidade sob a mesma ótica dos anjos.
E os anjos, caros leitores, nada mais são do que artistas que completaram seu ciclo e acordaram completamente, para que vocês, jovens habitantes destas terras sagradas, pudessem vislumbrar a condição de sonhadores. E observem que estão na verdade montados sobre o tempo, cavalgando, sendo carregados com os olhos fechados dentro de pequenos berços confortáveis, e quem guia a carroça, meus senhores, somos nós, os anjos e os artistas.

Como me tornei um Cabra

In ficção on Novembro 25, 2006 at 8:55 pm

Seria uma manhã como outra qualquer, não fossem os gritos desesperados que me acordaram. Entrecortaram as vozes de homens meio hienas meio macacos, e o chiado de um jegue furioso. Olhei pela janela do meu quarto e dois dos homens armados carregavam suas baionetas com pólvora, assim que terminaram o serviço dispararam contra um pequeno grupo de pessoas que passava correndo. Dois caíram.

Um outro grupo de bandidos se sucedeu, montados em seus cavalos eles entraram no meu prédio forçando a porta da frente e eu não sabia o que fazer. Deitei na cama novamente temendo que um daqueles homens de chapéus estranhos me vissem. Eles falavam muito rápido, mal se podia entender o que diziam. Era um sotaque nordestino, na certa que era um sotaque nordestino, mas eles agiam como Indios, suas roupas eram pesadas e cheias de poeira, e a crueldade, não eram humanos. Não demorou para que a porta fosse arrombada a chutes. Minha mãe passou direto pela porta do meu quarto para saber o que estava acontecendo. E então ela soltou um grito e passou novamente, correndo na direção oposta. Um dos homens passou pela porta e parou, olhou direto nos meus olhos e seus dentes arreganhados soltaram mais um daqueles risos de hiena. Eu tranquei a respiração achando que assim ele não ia fazer nada comigo, e não fez, foi fazer à minha mãe, usou da liberdade da baderna para estuprá-la, gritava que ela era uma quenga safada e ela pedia socorro. Eu, um garoto de onze anos não tinha idéia do que deveria fazer. Fiquei escondido atrás da minha porta ouvindo os gritos de mamãe. Outro do bando passou pela porta e eu ouví a respiração bufante, farejando. Um cão de caça, sujo e maltratado, tinha raiva. Acertou um passo no meu quarto e parou na porta enquanto minha mãe berrava no quarto ao lado e então voltou para participar do estupro da Quenga minha mãe. O momento me obrigou a descer as escadas, ficar longe. Várias portas estavam abertas, havia sangue na parede e o Seu Antônio estava com o peito estourado, de boca aberta morto no chão. Vários gritos de mulheres berrando comO loucas. Posso jurar que de dentro de um dos apartamentos uma das mulheres gemia de prazer e eu parei para olhar, um dos cangaceiros estava pressionando a cabeça do marido dela contra a parede para que ele visse tudo, com um trabuco apontado para sua cabeça.

Descendo as escadas parei onde o vidro estava manchado de sangue. Me escondi debaixo das escadas enquanto algumas pessoas passaram gritando, elas levaram tiros nas costas e calaram de imediato. Dois dos monstros armados gargalhavam logo atrás, suas pistolas fumegavam e seus dentes brilhavam com um sorriso arregaçado nas bochechas. E enquanto um deles pisava sobre a mão de uma das vítimas que ainda estava viva eu sai debaixo da escada e corrí para fora do prédio. Os gritos por todos os cantos não me freavam, as lamúrias inúteis não tinham mais resposta, quem pudesse fugir que fugisse. Meu próprio rosto estava sujo com o sangue de outra pessoa.

Eu corrí para a igreja e procurei a porta da frente, um abrigo seguro no qual pudesse me esconder e de dentro da igreja um garoto com a cabeça e as roupas empapadas de sangue saia chorando e pedindo ajuda. Os risos de hienas já saiam de lá de dentro. Fugi do menino que pedia claramente a minha ajuda.

Em um campo aberto um dos cabras veio com seu cavalo e me alcançou facilmente. Ele carregava grandes sacos em sua mão e arremessou um deles perto de mim. Em caí para trás, de dentro do saco uma cobra saltou sobre mim. Eu consegui me desvencilhar, mas não foi o suficiente pois o outro saco ele acertou aberto exatamente sobre a minha cabeça e me prendeu alí dentro. As risadas ecoavam pela rua, sobrepujando os gritos de lamúria.

Ele ergueu o saco e colocou meu peso sobre o cavalo. Uma cobra me fazia companhia dentro do saco, a cabeça da cobra estava imobilizada exatamente entre meu indicador e meu polegar opositor para que não pudesse me morder, fui eu quem a mordeu.

Horas mais tarde quando o grupo de cangaceiros abriu o saco e me encontrou vivo com a cobra prensada nos meus dedos e sua carne sendo devorada pelos meus dentes em nome da sobrevivência ele me chamou a sair pelo nome “Dedos-de-Cobra”. Foi assim que me tornei um cabra, um cangaceiro.

Brincadeira só de adulto

In ficção on Novembro 13, 2006 at 8:51 pm

Interfone Toca. Homem atende.

__Abriu?

Homem vai até a sala onde seu filho está brincando.

__Filho. A Mamãe viajou e a amiga dela veio pra brincar comigo, mas eu quero que você vá dormir e não conte pra mamãe que amiga dela veio. Tá certo?
__Porque não pode contar pra mamãe?
__Porque… ela ia ficar brava, porque a amiga dela veio pra brincar comigo e ela ficou de fora.
__Ah tá. Ela ia ficar com inveja porque não brincou né?
__É. Isso. Tá bem filho, agora vai dormir que a minha amiga já está quase chegando.
__Ah pai, mas eu também quero brincar.
__Não filho! Não pode!
__ Porque não pode?
__Essa brincadeira é um jogo que tem regras, e a regra é: Só para adultos. Criança não brinca dessa brincadeira. É contra as regras.
__Ahhhhhh não! Então vamos brincar de alguma brincadeira que eu posso brincar.

Campainha toca. Pai leva o filho pra cama à força.

__Não! Eu quero brincar! Eu quero brincar.

Filho fica trancado no quarto gritando que quer brincar. O pai atende a porta.

__Olá.
__Oi.
__Você chegou rápido.Vamos entrando. Aceita um vinho, um suco?
__Não, obrigada. Se importa se eu fumar aqui.
__Bem… eh… pode… pode fumar. Faz o seguinte, fuma na janela.
__EU QUERO BRINCAR EU QUERO BRINCAR!
__Que isso? É a voz do Pedrinho?
__É. Ele não quis viajar.
__Assim não dá. Assim eu vou ficar com a consciência pesada. Não dá.
__Claro que dá, a gente dá um jeito. Olha. Viu só? Ele já parou. Foi dormir.

O silêncio se faz. Alguma conversa, alguma lábia, algum tempo se passam e eles estão no quarto tirando as roupas.Pedrinho aparece na porta.

__Como é essa brincadeira?
__Pedrinho! Como… Como você saiu do quarto?
__Ai meu Deus. Preciso ir. Tchau.
__Não, espera um pouco.
__Em outra hora a gente se fala. Beijo.
__Beijo. Tchau.

A mulher recolhe suas roupas e sai.

__Já acabaram a brincadeira pai?
__Já filho. Sua mãe ganhou por W.O.

Assim falou o Neonazista (2)

In ficção on Novembro 7, 2006 at 3:30 pm

Cuspir nos Idosos

Os homens e mulheres mais provectos muitas vezes costumam adquirir hábitos desagradáveis como usar fraldas, dizer bobagens sem nexo ou ficar reclamando das dores nas costas o dia inteiro. Estes são os famigerados e irritantes idosos, ou em outros termos Velhos e Anciões.
Eu não tinha nada contra eles até esta bela manhã (a mesma manhã nublada em que eu decidi escrever este manifesto), um idoso, aproveitando-se de sua condição veio grosseiramente entrando na fila do supermercado empurrando um carrinho sobre um dos cidadãos sem nenhuma cortesia. O cidadão ficou estupefato e logo em seguida o velho colocou suas três garrafas de água na minha frente sem me pedir permissão, apenas alertou: “Preferência dos idosos meu filho”. E eu sem reação deixei o velho bastardo passar na minha frente. Minutos após, quando o velho saiu do supermercado a raiva preencheu os vasos sanguíneos de minha testa conduzindo o sangue quente, causando ao mesmo tempo uma suadeira e meus olhos arregalados o observaram partir.
Mas não é só por isso, na cidade de São Paulo costumo pegar o metrô quase todos os dias e as velhinhas idosas são as primeiras a entrar apontando seus cotovelos em todas as direções para conseguir um lugar afável sobre a multidão. Certa vez uma delas me fez perder o ar quando acertou em cheio um dos lobos do pulmão e logo após, como se nada tivesse acontecido sustentou o próprio corpo contra o meu usando-me de travesseiro para que a pressa do metro não a derrubasse. Se reclamo a velhota está pronta à agressão verbal. Esta categoria é o nóxio urbano, habituado a condição de verme, explora sua vantagem confortável de sugar o sangue querendo extrair toda regalia que puder.
Quando saí do supermercado eis que ocorreu uma coincidência das maiores, o mesmo velho que havia roubado o meu lugar na fila estava precisando de ajuda para abrir o portão de sua casa pois o sistema elétrico havia emperrado e se há um Deus misericordioso é este que está acima de nós pois ele não me reconheceu e eu tive a chance de me oferecer para ajuda-lo, o maldito nem me agradeceu pela ajuda, já foi me pedindo para puxar o portão e eu sorridente preparei um bolo de saliva misturado com a secreção mucosa de minhas vias respiratórias e numa única cusparada acertei-lhe a fronte. O rosto do velho ficou lambrecado com o mel verde-amarelado gutural. A partir desse dia eu adquiri o saudável hábito de cuspir nos idosos. Já fui tolerante demais, estes malditos querem passar por cima de nós, educados e polidos jovens.
Eu cuspo nos idosos e vou te dizer mais, só estou buscando um bom motivo para não cuspir também nos mendigos e aleijados, vamos ver o que o tempo tem a dizer em defesa desses desgraçados!

Ps.: É óbvio que o texto é uma sátira e que todos nós sabemos que a condição do idoso no Brasil não é de explorador e sim de explorado e que é mal agradecido pela própria nação sendo obrigado, mesmo depois de se aposentar a gastar suas horas que deveriam ser horas de descanso em filas implorando por uma ninharia que o governo reluta em distribuir, permeando o caminho de burocracia e outros empecilhos.

O garoto que nunca viu o céu

In ficção on Novembro 5, 2006 at 1:00 am

Pedrinho nasceu com um torcicolo dos grandes. Na saída do tubo progenitor de sua doce e carinhosa mãe ele teve um probleminha…
Seus primos o chamavam de mula teimosa porque ele era realmente teimoso. O apelido veio quando visitaram a fazenda em um outono qualquer e toda a família estava reunida. A mula da fazendo até então era uma mula como outra qualquer mas decidiu sair de lá de qualquer jeito. A mula tentou pela cerca e se machucou, depois tentou sair pela porta principal, mas havia um sistema no chão pelo qual os pés cascudos não passavam e ela caiu e quebrou a perna. Ficou conhecida como a mula teimosa. Era proibida sair da fazenda por ser uma mula, mas ainda assim ela quis fugir e se deu mal.
O problema de Pedrinho era querer ver o céu apesar de seu torcicolo natural de nascença. Tentava de todos os jeitos mas sempre dava um jeito de se machucar. Os primos diziam: __Pra quer olhar pro céu Pedrinho? O céu é azul, tem umas nuvens brancas e fora isso não tem nada de mais. Grande coisa.
Pedrinho batia o pé e dizia que queria ver o tal céu de que tanto lhe falavam e de tanto insistir virou um dos caçoados, agora não só de pescocinho (seu antigo apelido) mas foi caçoado por ser teimoso como a lua.
Por sempre olhar para o chão devido ao torcicolo constante e de nascença ele tinha um contato muito próximo com os cadarços, de tanto olhar para os próprios pés desenvolveu os meios mais habilidosos de se dar um nó no cadarço, podia atar e desatar qualquer nó de marinheiro.
Foi até seu armário e tirou os cadarços de todos os sapatos velhos. Criou um sistema de cordas e montou uma pequena estrutura na maior árvore da fazenda.
Enquanto isso a mula teimosa matutava um jeito de escapar da fazenda, observando as ovelhas ela aprendeu que pular a cerca era questão de boas panturrilhas e um pouco de habilidade de salto.
Juntos pela vontade bolaram, cada um a sós, seu plano tremendo, tanto a mula quanto pedrinho.
João criou um sistema pelo qual se pendurou na árvore de cabeça para baixo e pela primeira vez viu o céu enquanto a mula escapava saltitando pela cerca.
Os primos viram que pedrinho, desde então nunca foi o mesmo e a mula nunca mais foi encontrada, mas aqueles que a viram passar sabiam que ela estava definitivamente feliz e livre como haveria de ser qualquer mula nascida sem as rédeas.
Os primos descobriram que Pedrinho não era teimoso, não, não era. A Mula era livre e Pedrinho um sonhador.

http://www.flickr.com/photos/fracturedacetabulum/page2/

Hai Kais de Manhã

In ficção on Novembro 3, 2006 at 10:35 pm

Letrinhas miúdas
Unidas caçoam
Do ponto final

Abro a Janela
A luz da Manhã
Cheiro de Canela

A feira das flores
Penso calado
Plantar um Bonsai

Passos de moça
Andar tão bonita
Mal quebram as folhas

Cadarço amarrado
A brisa não entra
Nos dedos dos pés

Linhas certeiras
Caneta rabisca
Poema hai kai

Asinhas batendo
No ar se suspende
Beijando a flor

Tola e dura
Prisão detratora
Ao sonhador não segura

Poema pequeno
Não rima ou ensina
A vida se vive

O sol ensaiando
Desafio nublado
A trégua das nuvens

Falta algo ao copiador

In ficção on Outubro 31, 2006 at 2:20 am


Vi e copiei.
Segui a fórmula de sucesso do original. O sucesso é uma equação matemática. Mas a verdade é que o resultado da fórmula de sucesso, por melhor e mais milimétricamente calculado que fosse, não se comparava a grosseria agradável de se olhar para a originalidade angelical.
Estava faltando a essência. Faltava-lhe o cheiro da verdadeira tinta pintada a dedo pela mesma mão que escolheu frutas frescas na feira arejada para o café da manhã e que entre todas selecionou um pêssego suculento e alguns pedaços de cheiro verde para acompanhar o almoço que viria mais tarde. O gosto desse dia bonito estava impresso na pintura verdadeira, mas não estava na minha cópia pois meu dia, o de imitador, imitava tudo menos o verdadeiro motivo pelo qual aquele quadro havia sido pintado.
Obedecer a fórmula não se mostrou o plano mais eficiente. Faltava-me o cheiro de um café saboroso pela manhã e a saliva na boca esperando pelo almoço do repartido meio dia. Faltava-me o desejo sedento da morena ainda mais suculenta e vistosa que o pêssego. Faltava o sopro do vento matutino e a música urbana preenchendo os pincéis não apenas de tinta mas de verdadeira vontade de pintar. Falta algo ao copiador…
E era o cheiro.

O ESPÍRITO NOTÍVAGO

In ficção on Outubro 26, 2006 at 5:17 pm


São três horas da tarde. Três horas da tarde.

O tempo reserva boas surpresas para aquele que espera. Eu estou esperando, esperando e os ponteiros pesados adicionam quilos por hora a cada sessenta estocadas do tempo no meu saco do descanso.
A guerra contra a insônia é uma batalha dura, os fracos caem no primeiro travesseiro, uma cama macia ou até mesmo um assento de pedra da praça da esquina da rua podem ser uma tentação fatal para aquele sonolento caranguejo se arrastando pelas ruas com as puãs levantadas segurando-se nas nuvens escorregadias, ele não quer sonhar, não ainda. O insone precisa sonhar e sonhar bem, mas precisa sonha na hora certa, caso contrário o insone vara a madrugada. Sozinho durante a madrugada o insone se culpa, ele se culpa por ser solitário, ele se culpa pois o mundo tem um ritmo. Todos dançam no mesmo ritmo mas o insone não sabe dançar, não aprendeu a balançar o quadril. Enquanto todos acordem sacolejando de manhã o insone começa a babar no seu travesseiro.
Ah o insone, o triste insone, tudo o que ele quer é dormir. Dormir bem, um sono, deem um sono de esmola ao insone, o insone quer o sono.

Mas hoje é o dia em que o espírito do insone está em prova. A alma. A alma é algo étereo, tem a ver com fôlego, com ar, a palavra deriva das mesmas raizes, o insone tem os pulmões cheios de ar e tampou as narinas, precisa aguentar um dia inteiro apenas com o ar que tem nos pulmões. Precisa provar para sí mesmo que tem fôlego, precisa provar para sí mesmo que ele tem uma alma assim como todas as outras pessoas.

É por possuir um espírito forte que o insone não cede ao sono na hora errada, ele resiste ao travesseiro. Só vai dormir na hora certa. O insone vai dormir de noite junto com todos os outros sonolentos da madrugada. O insone quer dormir, quer fazer como todos fazem a noite, esticar as pernas, se cobrir com o cobertor, babar no travesseiro e pôr a alma pra viajar de férias.

O insone quer o sono.

O Homem do Omelete

In ficção on Outubro 19, 2006 at 4:51 pm

Em São Paulo o sabor da comida, de acordo com a média aritmética de um bolso quase vazio, razoável. Costumo visitar um restaurante que prepara um omelete acima de razoável dentro da conjunto de restaurantes que conheço.

Quando me sinto de bom humor tem duas coisas que gosto de comer, chocolate ou omelete. Portanto a doceria e este restaurante costumam me receber no meu melhor estado de espírito. Sempre entro alí de bom humor, às vezes com um pouco de preguiça, mas tranqüilo. Há outro fato peculiar sobre mim quando estou de bom humor, começo a ter idéias aos montes, nesses dias ando com caderno e caneta sobre o braço. Quando eu não levo o caderno e caneta eu peço emprestada uma caneta ao caixa e anoto as idéias em um pedaço de guardanapo. Após um tempo com este hábito percebi que a garçonete me observava atentamente movida por uma espécie de curiosidade enquanto eu escrevia.
Ao pedir o omelete eu pedia sempre acompanhado por uma porção de feijão. O omelete vem apenas com batata frita e arroz. Não sou o maior fã de feijão, mas é essencial que num almoço brasileiro esteja presente este pequeno companheiro do arroz para contribuir com seu ferro na corrente sanguínea de um cidadão bem nutrido. E no meu caso, como o de todos os magros, há sempre o risco de desaparecimento, desintegração. Nós magros já somos esquecidos com facilidade, nossa existência beira a inexistência. Temos um secreto complexo de querer comer muito sem nunca engordar. É a sina do magro. Nesse hábito de pedir feijão antes das refeições chegou um ponto em que eu não precisava mais pedir a porção extra, ela já trazia o prato sob medida com meu feijão extra.
Lembro de uma vez em que precisei acordar muito cedo e passei em frente ao restaurante quando eles estavam abrindo para o Café da manhã. Eu não ia entrar mas resolvi parar e conversar com a garçonete que me reconheceu no ato. Descobri que eu virara uma lenda no restaurante, os garçons apostavam sobre qual seria a minha profissão e tentavam adivinhar o que estaria eu escrevendo nos meus papéis. Lendas pitorescas percorriam o imaginário dos funcionários. Perguntavam-se que notas eu estaria tomando em meus papéis, estaria planejando um assalto? Seria um fiscal sanitário? Ou um espião da rede de restaurantes alheia em busca da receita do omelete? O meu hábito de pedir sempre omelete com um prato extra de feijão era, para eles, um tanto quanto suspeito. Eu fui evasivo e não expliquei muito acerca dos meus motivos e da minha personalidade, decidi deixar que o mistério se prorrogasse.
Depois de muito tempo ausente resolvi comer o meu costumeiro omelete. Quando me sentei para fazer o pedido já não era mais a mesma garçonete que atendia os clientes. A nova garçonete era uma novata bem diferente da anterior. Me sentei bem humorado com o caderno sobre o braço. A nova garçonete veio me atender, eu pedi o famigerado omelete. Ela parou imediatamente. Me encarou nos olhos durante cinco exatos segundos em um silêncio estupefato. O rosto da moça adquiriu uma expressão que em câmera lenta se transformava num olhar de camaradagem, de compreensão. Eu fiquei sem jeito, não entendia o porque de toda aquela cena. Os olhos da nova moça brilhavam. Eu não saberia distinguir que olhar era aquele, talvez fosse o mesmo olhar que fazem as mulheres ao descobrir que seu marido volta vivo da guerra, ou talvez não fosse nada disso, eu nunca fui um marido e nem muito menos fui ou voltei da guerra, levando estes detalhes em consideração, como haveria eu de reconhecer tal olhar?
Sem dizer uma palavra a nova garçonete anotou o meu pedido cuidadosamente: Um Omelete com uma porção extra de feijão.
Ela nunca me viu antes, mas deduziu através das histórias misteriosas que circulam o submundo dos funcionários mal pagos de restaurantes de terceira categoria. Todas aquelas histórias eram verdadeiras. O peculiar mistério sem resposta do Homem do Omelete não era apenas uma lenda. Era verdade.

A CARTA E O DIÁLOGO

In ficção on Outubro 18, 2006 at 10:55 pm

A CARTA QUE PROCEDE O DIÁLOGO

Não sei o que se passa, mas desde que te encontrei na bienal que ando meio estranho. Você reparou com certeza…
Eu tava suando!
Eu nunca me sentí muito confortável na sua presença, não por não gostar, mas porque você tem uma energia pessoal muito forte e nas poucas vezes que a gente conversou foram sempre assuntos formais ou banais. Não sei o que é, mas te associo às personagens das histórias em quadrinhos eróticas do Milo Manara, seu corpo, sua aparência, seus trejeitos, parece à mim como “A mulher” sexualmente utópica. Foi alguma idealização maluca a que eu cheguei por algum motivo, uma FORMA, da qual você saiu ou na qual você se encaixa.

E eu sempre travei os contatos contigo tentando esconder isso, uma espécie de contenção do desejo. Não é uma atração romântica, não é amor platônico, é contenção de desejo mesmo, tesão contido.

Não sei como isso vai soar, se é idiota ou vulgar, mas eu tinha que falar que a vontade que eu tive naquela hora foi de te agarrar alí no meio de todo mundo. Eu estava saindo da sala escura e topei com você entrando, queria te levar lá pra dentro. Quando eu te abracei, por te reconhecer queria era puxar você mas a preocupação social em fazer algo estranho e pior ainda a preocupação de ser rejeitado me fazem agir como um ser humano normal agiria, te cumprimentei e mantive a formalidade. Fiquei me contendo pra ficar numa boa, fiquei numa boa mas me passei por idiota e só de escrever essas coisas to me achando idiota pela segunda vez.

É isso.

O DIÁLOGO QUE PRECEDE A CARTA

__Opa. Você por aqui?
__Marina! Há quanto tempo!?
__Oi! E aí!? O que você está vendo aí?
__Essa parte da exposição são uns videos de um pessoal que fica se abraçando sem nenhum motivo aparente.
__Legal. Você já viu a sala das lâmpadas?
__Já. Você já viu as fotos tiradas na Africa? Parece que é outro mundo, outra época.
__E aí? Como tá lá na faculdade?
__Tá bem. Tá uma correria danada. É o finalzinho já, o pessoal tá desesperado. Estão tentando conseguir dinheiro pra investir no projeto.
__E você acha que eles vão conseguir?
__Acho difícil porque tá muito em cima da hora.
__É. Lá é sempre assim. Por isso eu saí de lá. Não dá pra ficar investindo dinheiro do próprio bolso, tá na hora de ganhar dinheiro.
__Pois é.
__Pois é.
__E aí, o que você anda fazendo?
__Ah. Eu me desliguei um pouco dessa área. Agora to fazendo uns comerciais aí, trabalho para agências, modelo. To pensando em ir para Barcelona.
__Barcelona? É mesmo? Fazer o que lá?
__Modelo né. Vou tentar carreira de modelo lá. Vou para estudar e trabalhar.
__Poxa, bacana. Lá é o lugar pra essas coisas. Eu te ví outro dia numa propaganda do jornal local, estava passando na rua e ví um cartaz seu.
__É mesmo? Aonde foi?
__Foi perto da estação vergueiro. Lá no centro cultural.
__Foi bom você ter me avisado. Eu nem estava sabendo disso, eles precisam me pagar porque eles disseram que a circulação já havia acabado e o pagamento é de acordo com o tempo de circulação. Mas e aí, a foto estava boa?
__Você estava linda.
__Que bom.
__É.
__E você. O que vai fazer quando terminar a faculdade?
__Eu ainda não sei. To pensando se volto pra Brasília e termino algumas coisas que tenho pra fazer por lá. Na verdade eu não queria ir embora de São Paulo…
__Você tá suando?
__É… t… tá meio calor aqui dentro.
__Eu to achando meio frio.
__É… sei lá. Eu tenho dessas as vezes.
__Quando fica nervoso?
__N… não. Eu não to nervoso.
__Tudo bem. Bom, Gustavo, preciso ir, estou com alguns amigos e eles devem estar me procurando.
__T… tá bem.
__Tchau.
__Tchau.
__Que foi?
__Eu não posso te deixar ir!
__O que foi?
__Não! Antes… antes eu quero te falar.
__Que foi Gustavo?
__Eu sempre travei esses contatos contigo. Esses contatos formais. Sempre que a gente conversa são essas bobeiras que pra mim não interessam. Eu to sempre tentando esconder algo que tá contido aqui.
__Que isso Gustavo? Do que você tá falando? Você tá apaixonado por mim? É isso?
__Não Marina. Antes fosse isso, não quero soar vulgar ou idiota, mas eu tenho que falar. Sempre que te encontro, sempre que te dou esses dois beijinhos e te abraço e encosto na sua pele a vontade que eu tenho é de te agarrar, seja onde for, na frente de todo mundo mesmo. Minha preocupação com o social e pior ainda, com a possibilidade de você me rejeitar me deixam nesse estado. Eu to parecendo um idiota, suando na sua frente. Sabe o que é isso Marina? Sabe o que é isso?
__O que?
__Tesão contido! Tesão contido! Eu te acho uma das mulheres mais gostosas da face da terra. Parece uma personagem das histórias eróticas do Milo Manara. A mulher sexualmente utópica! É isso que eu acho que você é! Isso não é um amor platônico que eu tenho por você, não é que eu sofro romanticamente nem fico uivando pra lua. É tesão contido. Que merda. Eu tinha que dizer tudo isso, eu tava me sentindo um idiota formal, tava suando. Devo estar parecendo ainda mais idiota agora.
__Sabe. Eu não acho isso de todo o ruim.
__Não?
__Não.
__Iss…
__Eu acho ótimo, porque se eu desperto esse tipo de desejo nas pessoas é sinal de que vou fazer sucesso na minha carreira como modelo. Os homens sentem esse desejo carnal por mim. Eles querem realmente me pegar e bombar dentro de mim. É ótimo saber que você sente isso por mim, obrigada por me dizer essas coisas. Você me dá confiança de saber que eu to no caminho certo indo pra Barcelona pra estudar e pra trabalhar.
__Então eu ac…
__Calma Gustavo. Não me agarra. Eu não disse que você podia. Eu só quis dizer que foi bom você ter dito essas coisas. Pensa bem. Se você me possuir aqui agora, se você sentir como eu sou por dentro a graça toda se dissipa. A graça tá na fantasia que você tem por mim. A graça está em você achar que eu sou a mulher utópica e inalcansável. Se você me pega do jeito que imagina e transa comigo aqui dentro dessa exposição eu não sou mais um ideal a ser atingido, eu sou como uma outra qualquer. Eu não quero ser uma outra qualquer para ninguém, a pior coisa do mundo é ser uma qualquer.
__Mas Marina…
__Eu já disse. Me larga Gustavo. Eu não transo com homens. Adoro que eles fiquem me desejando. Adoro saber o que eles gostariam de fazer comigo, mas eu só transo com mulheres. E não fique triste por estar se achando um idiota, todos homens são idiotas, você não é diferente. Agora preciso ir. Tchau Gu. Beijo e obrigada.
__Mas…
__Me larga Gustavo, tenho que ir.
__Marina…
__Tchau.

Eu tenho seu nome aqui anotado

In ficção on Setembro 25, 2006 at 12:02 am


Eu tenho seu nome aqui anotado no meu caderno.
Tenho várias listas no meu caderno, sou fã de listas, tenho pouca memória e esse é o motivo pelo qual faço listas, para não esquecer das coisas importantes. Só anoto coisas importantes no meu caderno. Preciso de uma lista para cada aspecto da minha vida porque minha moralidade é mutável, se eu não me centrar nas lembranças sou um ser mutante desprovido de centro, não tenho um guia que me indica o caminho a ser seguido. Escolho o que estiver a frente sem julgamentos. Meu carderno faz o papel da parte do meu cérebro que nunca se desenvolveu que faz menção a moralidade e aos passos éticos, filosóficos e políticos que eu deveria adotar para ser um homem comum, eu não sou um homem comum. Não que eu seja um sujo imoral, acontece apenas de não me lembrar nunca dos princípios básicos sobre como reger cada passo de minha vida. Por um lado sou livre, por outro estou a mercê do acaso.
Você ouve a corneta soar ao fundo? Eu deixei tocando para você, é um cd antigo de músicas lacrimosas, lacrimosas porque fazem chorar e você merece perdão, mas não sou eu quem vai lhe redimir, porque no meu caderno, na lista de vingança, seu nome está escrito.

Não leve para o lado pessoal. Eu nem me lembro o motivo, mas se está anotado… bem, se está anotado deve haver algum motivo, um bom motivo.

Trilha sonora recomendada:
You Cant Do That on Stage Anymore
FRANK ZAPPA

CAUSO 01 – Banheiro

In ficção on Setembro 22, 2006 at 7:09 pm


O banheiro masculino é consideravelmente limpo, não é o banheiro mais limpo e impecável que você já viu, mas é o tipo do banheiro que uma pessoa bem instruída e de hábitos saudáveis consideraria grande possibilidade de usar um assento no caso de uma emergência intestinal.

É um banheiro espaçoso, o ar que circula em seu interior é de qualidade satisfatória, não completmanete inodoro pois pode-se sentir o leve aroma dos produtos de limpeza, que por sua vez já são aromatizados com perfumes desde a fabricação.

De dentro de um dos três toaletes presentes no banheiro sai a garota, uma estudante de 16 anos carregando os cadernos nos braços cruzados sobre o peito. Ela usa formidáveis trancinhas nos cabelos e um aparelho odontológico que lhe confere um aspecto duplamente juvenil, seu rosto cheio de sardas e seus cabelos vermelhos são apenas redundâncias em relação ao seu nome, Rubia.
Logo depois sai de dentro do mesmo toalete o professor astigmata, na casa dos quarenta, terno batido, calça social e uma aparência genuinamente intelectual de quem já viajou quando jovem para as ilhas de galapagos e gaba-se disso até hoje. O professor traja os olhos com seus óculos de grau num gesto automático.

Rubia pára na porta do banheiro e espera o professor lavar as mãos, outro gesto automático para uma pessoa de higiene saudável.

“Ainda há aspectos a ponderar sobre a lição de hoje Rubia.” – Ele comenta com o semblante intelectual inalterado.

“Eu sei.” – Responde a aluna olhando para a porta, parece ansiosa.

O professor termina a assepsia e deixa que ela saia na frente de acordo com seus preceitos cavalheiristicos. Os pais da aluna a esperam do lado de fora. A mãe tem as sardas e o pai é Ruivo, o resultado imediato do amálgama é Rubia, além de dois infanto juvenis, adoráveis gêmeos que ainda não chegaram na fase escolar.

O pai de Rubia cumprimenta o professor e olha para a filha, está orgulhoso de sua menina.

“Como foi a aula hoje professor?” – Pergunta o pai abrindo um sorriso amistoso.

Enquanto isso a mãe de Rubia recebe seus cadernos. Rubia tem o dia inteiro pela frente e já está fazendo planos de se encontrar com suas amigas para se divertir com coisas de meninas.

“Rubia é uma garota esmerada, percebe-se isso através de seu empenho”, responde o ilustre professor, “Encontrei alguns pormenores que precisam ser desenvolvidos e trabalhados com afinco, porém para a idade dela são problemas naturais. Todos os erros de procedimento serão corrigidos, isso eu garanto.”

Rubia e sua mãe se entreolham felizes, mas uma mãe nunca está satisfeita e quer que sua filha esteja sempre a frente. “Rubia, você precisa estudar em casa. Eu nunca entendí dessas coisas, então é melhor que seu pai te ensine quando voltar do trabalho. Vai ter que estudar pelo menos uma hora por dia de dever de casa!”

“Mas mãe…” Responde Rubia chateada porque é uma hora preciosa que ela poderia gastar assistindo TV ou simplesmente decidindo o que faria na próxima hora.

“Rubia! O que eu disse? Vai estudar e pronto!” A categoria com que a mãe encerra ao assunto demonstra como funciona a hierarquia dentro da família, o professor percebe que ela está crescendo em um lar clássico e é benquista pelos pais.

Rubia despede-se com um aceno ao professor. Os pais cumprimentam o professor e partem. Rubia está contente, hoje é dia de almoçar no MacDonalds.

O professor volta para o banheiro masculino e espera pelo próximo estudante em seu acento.

—–

Cheerleadres americanas foram presas por transarem em banheiro público. (Entre elas)
http://www.derekbrown.ca/archives/panthers.jpg

Esse banheiro público era um lugar para se descansar. As pessoas podias vir e relaxar, ouvir música ao vivo enquanto descarregavam o conteúdo de seus intestinos.
http://community.iexplore.com/photogallery/displayFeaturePhoto.asp?ID=73704

Estava ouvindo no Jô Soares outro dia sobre uma mulher que estudou antigos hábitos estranhos e descobriu que na idade média haviam lugares na Inglaterra onde o momento matinal de defecação real era um momento social em que as pessoas vinham até o castelo para assistir o rei fazer coco. elas conversavam entre sí, contavam as novidades, riam e discutiam assuntos políticos enquanto o rei estava sentado em seu “trono”.

Preciso ir

In ficção on Setembro 17, 2006 at 1:37 am

Você estava de boias, eu fui justo e não te derrubei, mas roubei um beijo teu, você nem viu. Pensei te convidar pra descer da bóia mas sou um pouco de inseguro, você não me dizia nem mostrava se gostava era do fundo, do céu ou da superfície. Fiquei um pouco de solitário, a despeito não é por causa de ausência sua que vivo de solidão triste. Minha própria companhia a mim agrada.

Você é previsível e o espanto é saber que o evidente era verdade. Pode ignorar mas minha cabeça vez ou outra salta à superfície para te ver boiando. Não guardei nenhum estoque de oxigênio ou lágrimas para você, não reservei cotas de saudade ou sofrimento. Até porque não se chora debaixo da água. Os estoques são restritos para as companhias de coração. Não insisto nem te abordo uma outra vez nem tento outro beijo roubado, boie a vontade fingindo que não existo. Inflada na superfície, do alto de sua bóia achando que eu sou um destes peixes que vai e vem.

Enquanto isso o tempo faz sua parte porque eu tenho uma pedra amarrada no tornozelo que me leva pra longe de tí.

Estava na Coca Cola

In ficção on Setembro 15, 2006 at 9:31 pm

11:00
A única coisa que ele tomou naquela festasinha sem graça foi uma Coca Cola, nada mais, mas talvez tivesse sido o bastante. Passou pelo meio da muvuca e de saco cheio daquela bagunça infernal que a maioria das pessoas costuma chamar de diversão ele abriu caminho até seu carro e chegou todo suado. Meia hora depois ele já estava em casa, seco do suor mas fedendo. Estava tão cansado que nem se preocupou em se lavar ou escovar os dentes, mergulhou na cama e tirou um bom sono.

2:58
Um estranho pesadelo toma conta de sua criação, não são palavras que podem distinguir o que ele está sentindo. Um gosto estranho na boca, um cheiro estranho parece trepassar cada um de seus poros, uma sensação nauseante o leva a se perceber dentro de uma espécie de uma caixa de sapatos gigante que está se dobrando e fechando toda, cada vez as paredes estão mais próximas e o gosto e o cheiro estão cada vez mais insuportáveis. Pense no pior gosto que jamais sentiu na vida, pense no pior cheiro que jamais sentiu na vida, agora imagine que você começa a acreditar que estes cheiros estão presos em você e que provavelmente nunca mais abandonarão os seus sentidos. Foi dessa sensação que ele acordou desesperado para se livrar. O suicídio lhe pareceu a o opção mais feliz, levantou-se rapidamente da cama. Estava acordado sem entender porque estava sentindo todas aquelas coisas. Foi a coca cola, só pode ter sido. Desceu as escadas meio inseguro com cuidado para não acordar seus pais. Não estava entendendo o que estava acontecendo direito, estava com medo de ficar louco, de ficar daquele jeito pra sempre. Nunca sentiu uma coisa assim.

3:05
Bebeu um copo d’agua, comeu um doce, a tal realidade agora parecia mais nítida novamente. Percebeu suas roupas sujas fedendo e subiu pra tomar um banho quente. Debaixo do chuveiro se deu conta de que acabara de sofrer uma espécie de crise de pânico. Estes episódios são comuns em pessoas que estão passando por crises psicológicas de estresse, é uma espécie de estopim da mente, ela perde o fio da meada e o medo a invade. Teve uma amiga que passou por isso. O vizinho dela tinha morrido uns dias antes, ela estava aparentemente bem, mas então ela teve um acesso de medo uns dias depois, um medo inexplicável que era tão assustador, mas tão assustador que ela simplesmente sentiu medo de sentir aquele mesmo medo novamente. Para a sorte ele sabia do que se tratava, quase não havia porque se desesperar… Talvez o único motivo pelo qual ele quisesse se desesperar era o de que ele não tinha nenhum colo sob o qual pudesse chorar. A última garota que ele amou nunca entenderia nada disso. Ela o achava um fraco. Ele queria desabafar mas não gostaria de confiar nela, afinal ela acha um fraco todo aquele que chora.

Se ele chorasse no colo dela pedindo por um pouco de abrigo enquanto está mal da cabeça ela pararia instantâneamente e diria “O que está havendo?” com uma cara de tédio no rosto como quem diz “Você está grandinho demais pra alguém cuidar de você”. Mas ele só precisava daquele momento. As lágrimas o ajudaram a ficar mais tranquilo e a possibilidade de estar ficando louco agora eram pequenas. Não estava mais fedendo, foram alucinações dos sentidos, mas ainda assim jogou as roupas num canto.

Voltou para a cama abriu a mochila. Encontrou um pequeno saco plástico todo bem embrulhado e de lá tirou dois comprimidos intocados. Guardava um pra sí e um pra outra pessoa mas não tinha com quem tomar. Na verdade ele nem nunca sequer tomou um daqueles, ele tinha comprado duas pastilhas de ecstasy simplesmente pra impressionar alguém. Pra impressionar ela, que nem pensava nele, mas que certamente gostaria de ficar com ele se descobríssem coisas em comum, como se divertir usando drogas, quase como forma artificial de fazer uma manutenção do seu relacionamento ele comprou a bala, mesmo sabendo que não tinha tanta vontade de tomar.

3:45
Quando olhou para a própria mão estava apertando uma das pastilhas. Guardou-a novamente dentro da sacolinha.Não queria tomar nada daquilo, as coisas já haviam voltado a ser como deveriam ser. Ele já estava razoavelmente ciente de que tinha sido apenas um pesadelo exagerado, talvez nem tivessem colocado nada na coca cola, talvez fosse só um exagero na imaginação. Enfim, estava prestes a dormir. Os dois comprimidos ele guardaria pra outra pessoa. Pra alguma pessoa que merecesse, e se essa pessoa realmente merecesse, de verdade de verdade, talvez ele nem precisasse mais usar um dos comprimidos para se sentir feliz, talvez ele se sentisse feliz em amassar com os dedos o comprimido e jogar tudo no lixo, porque para falar a verdade não era de uma viagem muito louca e divertida que ele estava precisado. Era de uma pessoa com quem contar de verdade.

6:22
Guardou as pastilhas e foi dormir.

A carreira do bom aluno

In ficção on Setembro 8, 2006 at 3:37 pm


Comecei cedo com minha carreira.
Hoje eu vendo Bíblias, na escola eu vendia revistas playboy. Lembro bem do dia em que levei algumas revistas para vender e estava fazendo meu marketing lá na sala anunciando meus produtos aos maiores punheteiros, mas algum espírito de porco acabou descobrindo o material ilícito na minha mochila, ele esperou que eu saísse para o intervalo, no qual eu sempre demorava pois ficava jogando basquete e acabava me atrasando.
O que aconteceu é que durante o tempo em que eu estava lá no intervalo jogando basquete um maldito pegou as revistas da minha mochila e espalhou pela sala, os pôsteres abertos, mulheres peladas com seus belos corpos amostra numa sala de aula da oitava série (ano este inclusive que eu me lembro de ter sido reprovado), o que aconteceu meus caros amigos, é que eu entrei na sala e observando aquelas obscenidades na parede fiquei logo nervoso. Todos riam da minha cara ao entrar e descobrir meus produtos expostos, comecei a recolher as revistas e guarda-las na minha mochila, mas a professora chegou a tempo de ver o conteúdo das mesmas e imediatamente me mandou para a direção, eu tentei explicar que não fui eu quem havia aberto as revistas mas ela não ouviu, “Já para a direção”.
Na direção esperei um longo tempo até falar com a diretora, na época eu aguentava muitas ofensas calado e o que aconteceu é que ela me ofendeu gravemente ao dizer que eu levaria uma suspensão de três dias para pensar melhor. Ela argumentou que não estava me suspendendo pelo conteúdo das revistas, mas sim por estar “VENDENDO” em sala, o que era terminantemente proibido de acordo com o manual do bom aluno. Coisa que eu nunca fui.

Verborragia sagaz de um Sequaz Além Terra

In ficção on Setembro 6, 2006 at 9:03 pm

Infelizmente digo coisas sobre as quais não posso me responsabilizar, as palavras despejadas em jorros gulturais são emulsões descontroladas e a mim não pertencem, a sagacidade verbal nunca é lisongeira mas o emissor sente-se privilegiado de ser o escolhido sagaz, só deve tomar precaução para não se deixar levar pela vaidade e arrogância, penduricalhos comumente associados a esta habilidade nata. É uma pena que muitos dos que lêem o que há de escrito ou que ouvem o que há de ser dito por um sequaz além terra, que é apenas um outro nome para os donos da sagacidade verborrágica (assim como Shakespeare foi um dia, porém com muito mais mérito e estilo do que qualquer um de nós), sentem-se ofendidos, mas a ofensa é parte integrante das palavras dirigidas a alguém pois se alguém sente-se bem com algo que foi dito sempre haverá outrem para desdizer-lhe ou simplesmente para sentir um mal estar com as mesmas palavras, soem como soem, signifiquem o que signifiquem, propaguem-se como houverem de se propagar, sempre haverá a eterna antítese, qualidade naturalmente humana, impossível de se extirpar.
Já não posso dizer que sou o único de minha época possuidor deste dom, que muitas vezes não é um dom mas uma maldição visto que o dono desta habilidade não é dono de seus pensamentos de forma que está aberto para a nuvem de idéias que não pertencem a sua mente, tudo o que lhe pertence é seu estilo, a forma como ele expressa as idéias, a individualidade é um pertence seu e instrasferível, os pensamentos por outro lado não são propriedades de ninguém, não são como terra que pode ser limitada, não são como dinheiro que pode ser dividido, não são como posses que podem ser tomadas, sua mente é apenas catalisadora das informações abstratas que vagam pelo cosmo, organiza em sequência lógica os pensamentos desconexos que lhe surgem a princípio como sensações que são causadas sempre por eventos exteriores que são responsáveis pelo balançar da folha espiritual, e que segundo a teoria do caos há de se propagar e este farfalhar torna-se um turbilhão mental que desencadeia a verborragia sagaz.
Grand Master Flash, Fela Kuti, Chico Science e toda a nação zumbi, eu tenho certeza eles já foram sagazes um dia!

O mar e o amor

In ficção on Setembro 2, 2006 at 2:39 am

Amor bom é como morar perto do mar. Você pode ir a praia quando quiser mas não precisa estar lá o tempo todo, mesmo de longe poderá saber que as ondas permanecem chicoteando a areia.

Ouço meu coração. Quantas batidas esse guerreiro ainda aguenta? No silêncio da cama quente vibra desde o dedão até a ponta da cabeça. Aguenta firme, velho sofredor, porque ainda resta corda pela frente.

Às três da madrugada, o notepad ofusca os olhos sob as olheiras refletidas num caco de espelho. A barba mal feita e a pele já esboça as verrugas da idade. O insone tem a mente agitada, lhe rouba a juventude.

Às pessoas que cruzaram a minha vida, um brinde! Aos que ainda estão nela, um abraço.

São quase como hai kais
Os poemas inspirados
Em sentimentos reais

Coisas Descosturadas

In ficção on Agosto 31, 2006 at 11:16 pm


Na estação de metrô Brigadeiro trabalha toda uma família. O segurança é irmão do cobrador de passagens que por sua vez é filho do responsável pela gerência que é casado com a encarregada pela manutenção. É uma família de cabelos claros, louros. Há uma garata negra que trabalha no outro guichê, ela é filha adotiva.


Não entendo as mulheres. Talvez as únicas mulheres que eu entenda nesse mundo sejam a minha mãe e a minha avó. Eu consigo olhar pra elas e dizer se estão tristes ou felizes, se estão cansadas ou tranquilas. Posso dizer um monte de coisas só de olhar pra uma delas. Já a minha irmã, por exemplo, quando pequeno e via um programa na TV eu ficava observando a reação dela, eu nunca sabia dizer se ela tinha gostado ou odiado. É um completo mistério. Se elas não me dizem o que estão pensando não sou eu o mais indicado a advinhar o que se passa.


A dor de cabeça é uma coisa que vem com a poluição e o barulho. Você sai de casa, numa boa, andando sempre com um pé atrás do outro do mesmo jeito que faz em qualquer outro dia, aí vem um abusado e buzina por buzinar, muitas vezes sem motivo, dez milhões de outros abusados acham que tem o direito de espirrar fumaça pelos fundilhos (do carro). É por isso que eu pego ônibus, metrô, ando a pé ou de bicicleta, não quero causar nos outros uma baita dor de cabeça.


A felicidade e a tristeza são coisas que nós criamos. Não existem tais conceitos na natureza, um coelho não é feliz ou triste, ele é só um coelho e tudo o que tem a fazer é pular, talvez imitando um canguru, se é que ele já viu um. Um coelho é assim porque ele faz o que tem que fazer, pular. Quem faz o que tem que fazer está tranquilo, não chamo isso de felicidade, nem o contrário de tristeza porque tais conceitos são invenções. Mas se você quiser dizer que existe felicidade então eu vou te dizer uma coisa, só é triste quem não faz o que nasceu pra fazer.

Ainda não é a hora de dormir

In ficção on Agosto 26, 2006 at 1:19 am


A primeira hora depois de acordado é o leme do dia, e o dia foi uma luta que deu lugar a uma tarde pesada, os quilômetros de vento em cima dos meus ombros pesaram pedregulhos e as pálpebras, ah as pálpebras, estas me caiam como se amarradas por pedras ou amarradas em meus sapatos e a cada passo um dos olhos era forçado a se fechar. Imagine então qual não foi minha tarde quando me dei conta de que precisava atravessa-la incólume pelas forças de Morfeu, não podia ceder ao sono. Resistir até o momento final para dormir no horário certo, se dormisse enquanto a tarde ainda se sustenia seria um erro fatal que me levaria a encontrar o dia seguinte em desnudo na plenitude da madrugada, eu não gosto de encontrar o dia no momento em que ele está mais frágil, o período da concepção do dia, de seu nascimento, é a madrugada, deve-se respeitar esse momento com a mais sagrada das orações, a oração do sono.
Aguardo a minha cama ansioso, pelo momento em que poderei parar de lutar contra o sono para enfim obedece-lo numa queda para a noite que num abraço vigoroso me adormece.

Impaciência

In ficção on Agosto 24, 2006 at 12:20 am

A impaciência não só me persegue, mas me custa.
Me persegue nos dias que precedem as noites (de insônia).
Me custa as pessoas por quem sinto apreço.

A impaciência me faz ser impulsivo e ignorante.
Uma ação as cegas e estou acabado.
Ignoro todo o bom senso do qual fui dotado.

Eu sou famoso

In ficção on Agosto 17, 2006 at 6:39 pm

Eu sou famoso e você provavelmente me conhece. Ser famoso é um luxo para poucos, a fama equivale ao sangue azul, a fama é necessidade social de alguma forma de aristocracia, e Aristocracia vem do Grego “Aristos”, superlativo de “Agathós” [‘bom’], quer dizer os melhores dentre todos. As pessoas gostam de olhar pro céu e ver as estrelas, isso faz com que sintam seus pés no chão.

Num dia qualquer, eu me dirigia para casa e veio um sujeito até mim, olhando nos meus olhos pediu uma informação. Estávamos em frente ao prédio dos estúdios colossais onde trabalho quase todos os dias. Ele com certeza me reconheceu, você me reconheceria se me visse, afinal, eu sou famoso.

Ele me perguntou:
__Amigo. Você que trabalha aí, pode me dizer para quem eu envio este roteiro? Eu escrevi isso, mas não quero enviar se não for para a pessoa certa e quero ter a certeza de que vai ser lido. Imagino que você deve conhecer a pessoa certa.

É claro que eu conhecia a pessoa certa. Eu conheço todas as pessoas certas. Não convivo entre os medíocres, sou uma bóia que pratica nado de barriga entre a nata glamourosa.
Ele parece impaciente e estava prestes a sair, eu estupefato, por não ter me pedido autógrafo nem ter feito nenhuma pergunta ridícula, como costumam fazer os fãs.

__Vem cá. Qual é seu nome? – Perguntei, sob a suspeita que debaixo daquele cabelo feio residia uma cuca fabulosa.
__Eu posso te fazer uma pergunta primeiro?

Pronto! Lá vem. Eu sabia que ele ia estragar tudo. Os bons estão todos do lado de dentro, este sujeito vai estragar a minha expectativa com uma pergunta medíocre, reflexo da existência inútil que ele insiste em perdurar.

__Como você agüenta essa vida?
__Que vida? – Admito que a pergunta me deixou confuso.
__A vida de famoso ora bolas!
__Como eu agüento? Eu agüento sorrindo!
__É exatamente disso que falo. Você precisa sorrir mesmo sabendo que as pessoas não estão realmente falando com você. Enquanto falam contigo, pensam na maravilha que é poder falar com você. A verdade é que você não conversa com ninguém, apenas é alvo de uma atenção completamente artificial com a qual os fãs são ilusórios, você cria uma sensação de si próprio como sendo importante pelo fato de que tem todas as atenções e isso bagunça toda a sua espiritualidade. A minha pergunta é como você suporta ser famoso sabendo que os fãs controlam sua mente e sua alma. Afinal, se não fosse por eles quem você seria? Você não é ninguém sem os seus fãs, eles pelo contrário seriam pessoas muito melhores se você não existisse, pois nesse caso estariam se preocupando com coisas bem mais úteis do que verificar fofocas em revistas ou na internet sobre o que você anda fazendo. Quando um fã acaba de falar com você ele não está mais pensando em você, ele está pensando no fato de “como foi bom falar com ele!”. Veja bem, eles pensam em você em terceira pessoa, não existe intimidade. Você não acrescenta nada ao mundo deles, apenas uma excitação pueril. Eles vão usar este momento “mágico”que tiveram ao seu lado como forma de se gabar para as outras pessoas. O que importa é o status que estar ao seu lado proporciona. A fama que você exala é mais importante do que você próprio. Os fãs param ao seu lado para tirar fotos ou pedir autógrafos por um motivo, roubam assim o brilho que eles acreditam existir em você. A cada clique fotográfico, a cada letra de sua rubrica num pedaço de guardanapo improvisado e a cada sorriso tolo você está mais banalizado. O mais iludido no final das contas não é o fã por acreditar que o ídolo é especial, é o ídolo por acreditar em si próprio como Deus. Os fãs consomem, o ídolo é consumido. Como você consegue manter-se vivo sabendo que para todos você não passa de um símbolo, não é uma alma, mas uma marca? Como consegue?

Como não houve resposta da minha parte ele foi embora carregando seu roteiro na mão.

O único e eficaz blefe de Josias (1)

In ficção on Agosto 16, 2006 at 3:13 am

(Parte 1 de 8)

Josias nunca foi muito bom em administrar recursos nem em manter próximas as pessoas. Sua mãe o aconselhou mesmo depois de adulto, mas ele insistia em não aprender, não é que faltasse entendimento, faltava vontade. No interior de São Paulo, onde vivia, seus trabalhos eram manuais e pesados, passava dias na colheita, dias nas construções, cada vez um trabalho diferente, mas para falar a verdade ele não era muito de trabalhar. E sua mãe insistia que homem de bem é trabalhador. Josias nunca esteve muito preocupado em ser homem de bem, nunca esteve muito preocupado em ser coisa nenhuma nessa vida. Não se pode dizer que estava contente com sua condição, mas também não estava descontente, estava simplesmente levando o que tinha que levar, quase que como uma dessas coisas que já que não tem jeito a gente leva de qualquer jeito.

Josias conheceu Rosa, uma moça de boa procedência, não era lá a moça mais bonita da cidade mas no dia em que ela dançou com Josias numa quermesse não demorou muito para que as coisas acontecessem. Josias não fez força nenhuma, as coisas simplesmente aconteceram e dentro de dois meses, mais por vontade dela do que pela vontade dele, acabaram se noivando.

Quando estavam prestes a se casar, e isso já era quase um ano depois, Rosa já estava conhecendo bem quem era o tal Josias, sujeito lento, satisfeito com o que a vida lhe provinha, não tinha nada demais, era um zero a esquerda que tinha dado uma certa sorte na vida, pois não fazia força pra conseguir nada, mesmo assim conseguia algumas coisas na pura sorte ou sabe-se lá como. Josias não se esforçava nem pra comprar um presente para o dia dos namorados, nem muito menos para trabalhar e deixar de receber a mesada da mãe dele.

(continua…)

Da necessidade de arejar-se

In ficção on Agosto 6, 2006 at 1:43 am

__Fê, Tô saindo.
__Tá saindo? Vai me deixar aqui sozinha? E eu como é que fico?
__Você fica cuidando dela ué! Ontem você saiu, hoje é minha vez!
__Eu sei droga. Mas você é homem. Você dá conta se tiver algum problema.
__Que problema? Você fez tudo certinho né? Trancou a porta, fechou com cadeado, colocou o pano pra tampar, fez tudo do jeito que sempre faz né?
__Fiz, claro, mas e se der alguma coisa errado? Não me garanto sozinha. Eu nunca fiquei sozinha aqui antes.
__Eu sei Fê, mas eu já to aqui há muito tempo. Chega! Me dá uma pausa, eu não to aguentando mais ficar enfurnado nesse cubículo 24 horas por dia cuidando dessa bosta.
__E por causa disso joga o abacaxi na minha mão é?
__Ontem você jogou na minha.
__Mas eu tenho medo…
__Tem medo de que? Quem manda aqui é você! Nós já ligamos, já fizemos a oferta, agora é só ficar tranquila, amanhã vamos ligar de novo pra saber a resposta deles.
__E se eles negarem… Vai piorar tudo.
__Olha ! Não se esquenta com os problemas de amanhã. Eles não vão negar. Garanto que eles tem coração e estão apavorados com a situação, eles não vão negar. Hoje vamos relaxar porque daqui há dois dias nós estaremos ricos e vamos poder voar pra bem longe daqui.
__Ahh. Não sei. To preocupada ainda.
__Fê! Não esquenta. Olha, me escuta, to saindo. Preciso arejar a cabeça, ando muito estressado ultimamente.
__E se ela sair de lá? E se ela tentar alguma gracinha?
__Ela não vai tentar nada. Mas se tentar é fácil. Pega a arma e atira nela porra! Tchau. Fui.

Ela estava agradecida

In ficção on Agosto 2, 2006 at 6:18 am

Eu não conseguia entender aquele sorriso ridículo no rosto dela. Tinha acabado de apanhar do namorado filha da puta e eu alí querendo proteger a desgraçada do canalha, mas ela não parecia triste nem desesperada, estava com um olhar mais misterioso que o da maldita Monalisa.

Não sei porque diabos venho me meter num problema desses, quanto mais você percebe que uma pessoa precisa de ajuda menos a pessoa quer ajuda e o pior, cospe na gratuidade do teu ato. Sim, foi um ato gratuito. Eu não estava interessado nela nem em nada que ela tinha, mas eu sabia que o canalha ia bater nela hoje.

Como eu sabia?

Ele joga sinuca no boteco em baixo do meu apartamento. É incrível como aquele pessoalzinho aguenta ficar lá dentro daquele forno bebendo cerveja, jogando sinuca e falando merda de manhã até a madrugada. Já perdí a conta de todas as vezes que essa corja me acordou com gritaria de briga ou discussão. De manhã geralmente o motivo da zona são piadas e gargalhadas eufóricas. Entre os risos dos bêbados (que a essa altura eu já considerava imbecis) estava o de um frequentador memorável, o namorado da garota. Ele punha chifres nela até não poder mais, mas no dia em que ela o transformou no unicórnio do bar ele não gargalhou como fazia todas as madrugadas.

Dos esbravejos, da cachaça e da raiva eu concluí uma coisa, que essa mistura não ia fazer bem. Se fosse só pro intestino desse canalha eu não estaria preocupado. O intestino dele é problema unicamente do vaso sanitário, mas bater na guria que me tirou da fossa e teve paciência de jó comigo na época em que eu tava com a cabeça sob o pé do diabo, não, ele não pode bater nela.

Foi por isso que depois de três meses sem nenhum contato eu fui bater na porta dela. Tadinha, quando ví o rosto estava todo cheio de hematomas, não estava chorando mas tava mais do que claro que tinha sofrido bastante. As coisas dela derrubadas pelo chão, eu tava disposto a fazer bom uso do meu taco de baseball, porque jogar baseball nunca foi meu forte, então eu iria derrubar uma cabeça.

Ela não quis que eu fosse atrás do sujeito, eu não precisava rachar o coco dele. Ela disse que finalmente tinha encontrado o homem que preenchia o coração dela. Ela disse ainda que precisava de alguém forte e que esse alguém era ele, o canalha. Não era exatamente da força dele que ela precisava, ela queria se livrar da responsabilidade de tomar decisões. Ela disse, ela disse, ela disse. Eu já to de saco cheio só de pensar em tudo o que ela me disse, aquela cara rocha já estava se tornando patética pra mim. Não esbravejei, afinal a paciência que ela teve comigo merece gratidão, mas eu tava vermelho. Paguei a gratidão calando meu bico. Estamos quites, já que ela quer assim.

Ela que foi tão forte e agora tava contente com o papel de mulher de malandro. Ele o ordenhador, e ela a vaca. Foi aí que eu entendí o que significava aquele sorriso cretino no rosto dela…

Ela tava agradecida!

O quadro em questão se chama Enigmatic Smile after a gunshot o nome da personagem do quadro é Monalisa Tarantino e foi desenhada por Leandro Mazetto

Moleque levado

In ficção on Julho 31, 2006 at 5:54 am

Eu sou da primeira série. Na escola, na hora do recreio todo dia eu vou pra roda de ferro e coloco areia no meio pra ver se enferruja, nunca enferrujou mas faz barulho de enferrujado. Aí todo mundo fica reclamando porque eu vou estragar o brinquedo mas eu não tô nem aí.
Na hora de voltar pra sala de aula quando bate o sinal todo mundo tem que voltar de mãos dadas, aí eu cuspo na minha mão pra não ter que dar mão pra ninguém. A professora não gosta e manda eu lavar a mão, aí eu limpo a mão na camisa.
Quando eu encontrei uma mosca no banheiro ela tava meio morta, aí eu peguei meu estojo de lápis e tinha um espaço sobrando, aquele espaço virou a casinha da mosca, um espacinho pequeno, cabia uma borracha lá dentro. Depois de uns dias quando a mosca morreu de fome eu guardei ela dentro de um cubo de gelo na geladeira e botei uma borracha na casa da mosca, chamei o nome da borracha de mosca, pena que ela se apagou.
Aí teve também o dia que o porteiro tava na frente da escola e eu tava esperando minha mãe há muito tempo, eu segurei minha garrafa de suco pra ela não sacudir e passei correndo. Eu ouví o porteiro brigando comigo mas ele não conseguiu me alcançar, eu voltei sozinho pra casa. Eles achavam que eu não sabia o caminho mas eu sabia. HAahha. Enganei todo mundo. Foi legal.

Diálogo entre dois charlatães

In ficção on Julho 30, 2006 at 3:39 pm

__ Cansei de ser charlatão. Mas ainda admiro os charlatães de verdade. Eu era só um charlatão charlatão. Admiro os verdadeiros charlatões

__Compreendo. Mas você sabe… Fala o que não é ser e diz o que jamais falará que será.

__Sim. Talvez essa seja apenas uma das armadilhas da mente e talvez essa minha tentativa de não ser charlatão seja apenas uma auto sabotagem para que eu não conte aos outros que na verdade sou um charlatão.

__Coisa típica de um charlatão.

__Típica. Tenho que tomar cuidado porque minha mente parece que está ganhando vida própria.

__Deixe de charlatanices.

__Já deixei.

__Vou abrir um parênteses (O mais engraçado num tópico entre dois charlatães é que tudo parece mentira. Só não fecho o parenteses porque você não passa de um charlatão.

__As vezes a coisa mais aburdamente inacreditável pode ser verdade no mundo dos charlatões. Pequenos Charles, já nascem vestidos para mentir.

__Se eu fosse um professor de história charlatãoiria começar a dizer que os charlatões surgiram de um grupo de rebeldes que formaram um povoado depois da revolução francesa. Todos rebentos de charlote d’ monde.

__Com base em que diria isso?

__Com base no fato de que cada charlatão tem uma versão diferente para esta mesma história.

__Mas a única certeza que temos é que essa história de alguma maneira foi verídica, senão, de onde teriam surgido os charlatães ?

__Alguns dizem que vieram dos calhordas.

__Sim, mas na verdade os calhordas tem uma estreita relação com os charlatães, mas há uma tenue linha que separa os dois. Assimo como existe entre a maçonaria e a Rosa Cruz. Na verdade essa linha é bem visível para quem a conhece de perto. Para quem não conhece bem, não dá pra perceber.

__Qual a diferença básica entre os dois?

__O Modus operandi. Fora isso os calhordas costumam ser mais violentos e menos discretos que os charlatães. Sim. Em algum ponto da história eles se divergiram. Assim como aconteceu com os mulçumanos, durante a morte de seu profeta Maomé, surgiram os Xiitas e os Sunitas. Pontos de vista diferente sobre um mesmo princípio.

__E foi uma morte misteriosa a morte do profeta dos charlatões não foi?

__Uma morte cada vez mais misteriosa, e torna-se mais misteriosa de acordo com a forma que é difundida de boca a boca, como no famoso jogo do telefone sem fio.

__Como assim?

__A informação não tem mais a via principal, mas ainda carrega a mesma essência. Os charlatães distorcem os fatos, mas a essência é a mesma.

__A história que eu ouví dizer é que ele foi enforcado pela tromba de um elefante furioso.

_Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos eu não acreditaria.

__Incrível, eu também estava lá, eu e meu grande amigo primeiro ministro da maldavia.

__Tem certeza ? Era você que usava um turbante ?

__Nâo. Este era meu pai.

__O homem do turbante era seu pai?

__Meu e seu. Ele era seu pai também.

__Uma pena que não é mais.

__Não é mais? Porque?

__Porque eu o matei, achando que ele não era meu pai.

__Uma pena. Uma pena.

__

O Senhor do tempo perdeu a hora

In ficção on Julho 27, 2006 at 7:24 pm

O quarto do senhor do tempo é hermeticamente fechado. Não vaza um milésimo pra fora ou pra dentro. Ontem de madrugada ele abriu a câmara de descompressão e saiu pra fazer um negócio que ele já não fazia há anos, ou há dias, ou a alguns segundos (bem, isso não importa muito pra ele), saiu pra passear.

De volta ao mundo dos passantes ele começou a sentir aquela velha pressa nas calçadas. Confuso do que deveria fazer (e confusão não é uma coisa muito comum para ele) resolveu beber um pouco daquela cerveja dourada brilhando num bar de quinta categoria da esquina, a cerveja era dourada e a garrafa envolta por uma fina camada de gelo.

Não é todo dia que se vê uma cerveja dessas, para o senhor do tempo qualquer dia é dia mas hoje em dia esse tipo de dia é sempre dia especial, esses dias em que se vê uma cerveja com uma fina camada de gelo, coisa rara de se achar. É um fenômeno extremamente difícil de se acontecer, a cerveja precisa estar na temperatura corretíssima, nem um grau a menos, nem um grau a mais, para que o gelo se forme em torno do casco da cerveja mas não congele o líquido mágico, que se mantem no ponto máximo de “gelidez” antes de efetivamente se congelar. Óbvio que se o garçom for um tanto ignorante com relação a cervejas, ele vai estragar a mágica daquele fenômeno na garrafa, ele vai botar o dedão em cima do gelo e isso vai estragar não só a beleza do espetáculo da cevada engarrafada como também a temperatura cuidadosamente mantida. É curioso que os donos dos mais bem sucedidos bares da cidade tentam exaustivamente repetir este fenômeno mas raramente conseguem, aliás, quase nunca. Por algum motivo esse tipo de fenômeno costuma acontecer sem problemas nos freezeres mais baratos, velhos, oxidados e em estado de mau funcionamento da cidade. Naqueles bares de paredes de azulejo e de frequentadores de aparências não tão agradáveis que só sabem comentar sobre a mulher que já perderam há cinco anos, que é motivo do seu alcoolismo e lamentam-se até hoje por ela não voltar, eles sentem um ódio imenso daquela mulher mas secretamente, entre uma cerveja e outra admitem que a amam e é por causa desse momentinho que ele saboreia o prazer de sofrer. Clientes estranhos os que frequentam esse bar no qual o senhor do tempo veio se meter avidamente em busca do liquido dourado que não era mijo mas era cevada.

Por algum motivo, talvez ela tenha achado que ele fosse Rico, a prostituta que frequentava o motel que ficava localizado num pequeno espaço no andar de cima do bar da cerveja perfeita, chegou perto do senhor do tempo e o paquerou. Ele, já exposto aos riscos do mundo dos vivos, dentro de uma rápida conversa sentiu uma leve ereção que já não sentia há milênios, para ele o tempo não importa, mas sentiu-se velho por causa disso, e dentro de algumas cervejas, afinal não vamos falar em tempo perto do senhor do tempo, ele estava saindo com ela de mãos dadas e abrindo sua câmara hermética temporal para um passeio nas curvas femininas, que ele planejava perfazer nas próximas horas da madrugada.

O passeio foi um tanto inesquecível, não me atrevo a comentar sobre a beleza da senhorita pois não se deve comentar acerca de assuntos desagradáveis, mas atrevo-me a falar que o rebolado dela era o de quem não tem problemas em dançar forró e que aliás, o forró talvez fosse pouco, talvez fosse uma dançarina de lambada ou talvez até mais, talvez fosse uma… meu deus… uma dançarina do ventre. Aquelas antigas senhoritas que enfeitiçavam os homens e faziam com que se… com que se… ahhhh, um orgasmo está vindo em ritmo acelerado e vejo-o obstruir o brilho de uma ponta do tunel para atravessar em explosão até o outro lado dentro de alguns instantes (mais uma vez eu aqui mencionando o tempo)… com que se… com que se… com que se esquececem do tempo. E foi o que aconteceu, porque depois daquele ventre encaixando-se por debaixo das túnicas já desnudadas do senhor do tempo, e aliás lembrei de um fato curioso, a garota tinha covinhas logo acima das nadegas e a curva das costas dela terminavam no meio das costas…

O homem do tempo acabou-se. Chegou ao fim do túnel e pasmem… Perdeu a hora.

A manivelinha na parede do quarto do senhor do tempo pela primeira vez desde que se criou o tempo, e acreditem, isso já faz muito tempo, não havia sido alimentada pela força propulsora do Senhor do Tempo. O trabalho dele era muito simples… Todo dia (de acordo com a métrica do calendário especial cotado especialmente para ele por algum ser de características superiores) ele deveria dar três voltas na manivela. Este e simplesmente esse era o seu trabalho, não precisava mais fazer nada, nem precisava ser sábio, uma característica que se espera de um senhor do tempo, mas esse negócio de sabedoria é lenda, ao menos para ele. Ele conseguiu o emprego numa mamata, quando o universo que começamos estava prestes a ser iniciado ele já tinha seus contatos encaminhados e acabou por entrar nessa boca através de um “quem indica”, emprego fácil, nem um pouco trabalhoso e as horas de trabalho eram simplesmente desimportantes levando em conta o próprio trabalho.

E agora o Senhor do tempo acordava e percebia o erro que havia cometido. Não havia rodado as três habituais voltas necessárias a manivela para que desencadeassem o funcionamento regular diário de todo o universo. O universo havia entrado em estado de trabalho nulo, todo e qualquer movimento fora desabilitado, congelado, cessado.

E o dilema do Senhor do Tempo era o seguinte, assim que desse a corda na manivela o senhor mór, responsável pela administração geral do universo, perceberia que ele havia esquecido de girar a manivela, e então o despediria.

Deveria o senhor do tempo girar a manivela e correr o risco de perder seu emprego?

As curvas da senhorita em sua cama e seu rebolado diziam que não. A eternidade era promissora com aquela duas covinhas lascivas. O senhor do tempo guardou o universo sem movimento dentro de uma pequena pérola e presenteou sua recém conhecida amada e ela se maravilhou com o presente, nunca antes tinha ganhado um universo congelado na vida, e os dois juntos passaram a eternidade sem maiores preocupações.

A liberdade do leopardo mimado

In ficção on Julho 21, 2006 at 3:52 pm

Por entre os becos de imensuráveis edifícios deslizava aos relances o leopardo solitário. Trumpetes e saxofones instauravam o funk de sua trilha sonora e os postes e carros arborizavam o cenário de sua caçada.

O Leopardo foragido de sua jaula soava a todos comovente por seu primeiro vislumbre de liberdade.

Infelizmente a confortável vida de prisioneiro nunca o ensinou a caçar. O conforto, mais do que as grades, aprisionou seu espírito selvagem. Era diferente de seu colega de cela, um leopardo selvagem que fora capturado e posteriormente degredado a cativo sem nunca ter cometido nenhum crime, ao menos sob o ponto de vista das leis da natureza. Este seu companheiro de cela, um selvagem, nunca cedeu ao conforto da pequena jaula de onde as pessoas o observavam a distância segura. Ele se mostrava irritável com os visitantes humanos e se fosse jogado alimento dentro do cárcere, não esperava que a comida viesse até sua boca, esgueirava-se como se estivesse em vasto território e num salto que nenhum dos nascidos em cativeiro sabiam perfazer, o selvagem abocanhava sua presa com tremenda ferocidade, sacudindo a cabeça com todo o ódio necessário para que a presa não tivesse mais forças para escapar. A confortável vida de prisioneiro fazia com que todos os outros leopardos nascidos alí apenas observassem a fúria de seu colega selvagem pois eles sabiam que a comida viria sem esforço todo dia na mesma hora sem falha. O Leopardo Mimado não conseguia entender porque o Leopardo selvagem agia daquela maneira, mas não era questão de conseguir a comida ou não, era sobre manter-se vivo e alerta. Uma vez que um Leopardo cede a qualidade de domesticado perde toda sua força vital e morre, mesmo estando vivo.

Hoje, num dia clara de céu azulo leopardo selvagem estava morto, fora abatido durante a fuga, mas o leopardo domesticado milagrosamente havia escapado de seus perseguidores armados e estava livre e ciente de sua própria inabilidade com a selvageria. Mas pretendia encarar a floresta, precisava encontrar a sí mesmo dentro do instinto até então inativo. Uma floresta sem árvores, sem elefantes e sem lagos para se banhar, adverso a tudo estavam as fontes das praças públicas, os carros metálicos e as presas que por sua vez eram mais fáceis de ser capturadas do que o mais lento dos herbívoros da savana. Sim, haviam muitas presas fáceis com quem poderia praticar suas habilidades para desenvolver aos poucos a selvageria necessária para se habitar uma cidade.

Na cidade ou na selva as leis são as mesmas. A cidade ou a selva não espera pelos fracos, aquele que não aprende a caçar vira refeição. A tendência natural da cidade ou da selva é a de deglutir sem se enfastiar todo e qualquer tolo que atreva-se a parar para um breve cochilo. A cidade, assim como a selva tem vida própria e são os maiores predadores, suas garras são o tempo, os quais elas dominam com agilidade maestral e cravam em suas presas sem perdão, porém o jovem leopardo mimado estava ao menos temporariamente imune ao tempo. Um dos axiomas das garras do tempo é que ele não é capaz de penetrar na carne da juventude, mas dê tempo ao tempo e a carne se torna frágil. Mesmo a fragilidade do tempo é compensada pelo próprio tempo.

As hienas escarnecedoras estão atrás do lixo espreitando os mimados forasteiros que vieram de terras tranquilas. Elas reconhecem a inocência e a pureza, e não há gosto melhor do que o da carne inocente para quem está acostumado a engolir restos de carcaça. Os risos ecoam pelos becos sombrios a cada tolo que cai nas suas garras. Alguns morrem de sede, outros morrem pelo cansaço e outros por caírem nas armadilhas dos predadores mais repulsivos que habitam as cidades e as savanas.

O sono triste que tomou conta do Leopardo durante as primeiras horas de estadia na cidade foi o suficiente para que alguém lhe cravasse os dentes furiosos no tapete perfeito que era sua pele. Um selvagem nunca perde a atenção, por instinto está a todo tempo plenamente arguto. O orgulho retardado do ex-prisioneiro demorou para agir, de início o pobre leopardo mimado sentiu-se triste pois em seu sono inocente ele nunca esperou ser atacado. Acreditava que podia confiar em tudo e em todos. Na floresta ou na cidade não se confia em ninguém.

A mordida da Hiena em sua pele macia lhe causou enorme estrago e de longe se ouviram as gargalhadas sarcásticas. A humilhação aos poucos cedeu lugar ao ódio, e a ferocidade é o primeiro e mais seguro indicador que o instinto de uma fera está para surgir.

Após dias na selva de pedra o leopardo mimado já está esfomeado, cansado e abatido a mercê dos urubus e hienas da cidade. Já se passou o fervor inicial da primeira experiência de liberdade e agora tudo o que lhe resta é a necessidade constante de sobrevivência.

A raiva chegou definitivamente atrasada mas ainda era-se em tempo de perceber que quem devia ditar as regras na selva de pedra era ele, o predador. Tinha presas e devia usa-las para rasgar, cortar e mastigar. Tinha músculos e devia usá-los para correr, pular e agarrar. Tinha garras e devia usa-las para prender, cortar e fincar. Tinha inteligência e devia usá-la para planejar, sobreviver e atacar.

A cicatriz em suas costas ainda não estava completamente curada e a cicatriz em seu orgulho era a que mais doia, sangrava-lhe as ventas. Eram lembretes do instinto adormecido do Leopardo, que aos poucos, estava deixando de ser mimado e estava se tornando selvagem.

A vingança do leopardo já está planejada e o pescoço da Hiena vai em breve sentir o crivar dos caninos de um verdadeiro “Phantera Pardus” enfurecido.

http://en.wikipedia.org/wiki/Leopard

Minguantes

In ficção on Julho 12, 2006 at 7:24 pm

Ítalo andava cabisbaixo ultimamente, sentia-se só. Havia muito o que fazer mas não havia a quem procurar para se fazer junto. Ítalo não era exatamente um misantropo, ele na verdade queria fazer parte dos risos, choros e da furia coletiva mas simplesmente não sabia como se integrar. Percebia em quase todos os rostos uma cortesia remota. Uma educação reservada. Mas ele sentia falta mesmo era do calor com o qual todos se comunicavam, mas que para ele não sobrava nunca.

Talvez lhe houvessem roubado a alma, ou talvez ela estivesse simplesmente muito bem escondida. As pessoas só conseguem gargalhar ou odiar honestamente quando sentem a fricção de suas almas umas com as outras, é o atrito da humanidade que Ítalo queria encontrar, ou pelo menos esperava que as pessoas encontrassem nele, caso ele próprio não fosse capaz.

A última festa foi um desastre social tremendo mas depois de algumas cervejas foi capaz de capturar a atenção de uma garota por tempo suficiente para se sentir espontâneo e feliz novamente. Mas a atenção dela não durou o tempo necessário para que sua alma saltasse para fora do corpo em contentamento e logo Ítalo estava mais uma vez só.

Detestava auto piedade, obviamente não queria viver para sempre assim e estava tentando buscar soluções para se livrar desse problema, a pergunta era COMO? Se ao menos as pessoas lhe dissessem o que há de errado seria mais fácil, mas na afabilidade das pessoas havia um medo, uma distância, a falta de intimidade. Por falta de intimidade ninguem dizia a verdade que ele precisava ouvir. Um cheque matte? Uma equação sem resposta? A verdade é que este senhor inepto social precisava da paciência das pessoas, só com muito tempo ele poderia se ajustar. Uma pena que na bolsa de valores das virtudes a paciência não esteja em alta cotação dentro do território urbano.

E foi pensando sobre isso que Ítalo abriu as portas do edifício no qual morava, um cafofo de janelas empoeiradas, e saiu caminhando pensativo sobre o que poderia estar tão errado. Qual seria o ponto fundamental da coisa toda? Ouviu dizer que as pessoas abertas a novas experiências eram mais extrovertidas, mas não era exatamente timidez o problema, era calor, era tempero. Sentiu-se parvo por pensar nisso. Se ele fosse uma refeição que refeição seria? Será que seria algo sem graça? Será que seria uma espécie de comida de avião? Sem gosto, sem sabor? Ou seria um fruto de casca grossa insípida? Pode ser que as pessoas estivessem lhe provando apenas a casca, esquecendo de procurar o que havia de valioso. Quando o coco despencasse do coqueiro sobre uma pedra pontiaguda e se quebrasse numa rachadura reveladora toda a água saltaria para fora, uma revelação do que carregava todo o tempo dentro de sí, toda a alma que nunca fora antes vista ou sequer imaginada.

Por um instante isso o fez se sentir bem. Era apenas um casca grossa, nada de errado. Com as mãos dentro dos bolsos passeou por aquela avenida lotada numa noite fria de outono. Ladrilhos povoados por milhões carregando sacolas, indo e vindo, trazendo e levando, andando e vendendo, eram tantos e ele no meio em passo lento, sem a pressa típica de um cidadão. Foi uma noite triste aquela na qual Ítalo e a lua minguaram juntos.

Texto para o 30 Concurso Maldito
Da comunidade Blogueiros Malditos

A fumaça do seu cigarro e a minha bolha de sabão

In ficção on Julho 12, 2006 at 2:38 pm

As tuas baforadas de ar poluído entram dentro das bolhas de sabão que eu fiz com um arame, água e detergente.

Dá pra ver a diferença clara entre eu e você. Dá pra ver onde eu quero chegar claramente e dá pra ver que você se espalha pra todos os cantos e parece não querer chegar a lugar nenhum.

Estas são as propriedades da fumaça e da bolha de sabão. A fumaça se espalha em entropia constante, há uma tendência a desordem em sua natureza, a bolha, pelo contrário nasce do caos e procura a harmonia e apesar da vibração, procura o formato perfeito e tudo o que quer é subir.

Mas a bolha é cordial e dentro dela pode carregar a fumaça para subirem juntas. Isso, claro, se o ar impregnado da fumaça não estourar a força da bolha de sabão.
Música recomendada para acompanha este texto:
Coffin For Head Of State – Part 2
Autor: Fela Kuti

<a href=”javascript:Popuptocar(‘http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.php?opcao=umcd&nomeplaylist=002105-2Best_Best_Of_Fela_Kuti_Vol._2′)”>

Bubble-in-a-Bubble, by Hubble




No centro da Buble Nebula (Nebula Bolha), a 100 mil anos luz na constelação de cassiopéia, é uma estrela que produz uma espécie de “ventania” de partículas carregadas que percorrem o espaço a 7 milhões de quilômetros por hora. Conforme estas partículas se movimentam elas se confrontam com materiais instelares mais densos e formam estas bolhas visíveis.

O aspecto singular de uma simples queda

In ficção on Julho 5, 2006 at 3:42 am

O aspecto singular de uma simples queda

Era uma descida muito lisa, achei que dava pra descer na boa. Tava tão confiante com as minhas habilidades recém adquiridas no skate que eu comecei a olhar pra lua. Como ela tava linda. As pedrinhas começaram a tilintar e quando eu olhei pra pista sentí aquela sensação de câmera lenta. A ondulação do asfalto mal formado estava há uns dois metros na minha frente e eu andava há uns 60Km/h. Calcula na regra de três que você vai descobrir X é igual a Sessenta mil metros dividido por dois metros. O resultado da equação (X) é igual ao tempo que eu tiVe para pensar. É por isso que eu não questiono o Einstein, o tempo é relativo, afinal aquele momentinho mínimo foi suficiente pra eu pensar em muita coisa, entre elas que no momento seguinte eu me daria muito muito mal. Penso que o tempo é tão relativo que o instante antes da morte pode se tornar infinito e aí cada um cria o seu céu e o seu inferno num instante congelado no tempo apenas para ele. Para todo o resto do mundo o tempo passa mas aquele último instante do sujeito foi infinito em sua duração.

Assim que passei pela ondulação não fui capaz de manter meu pé fixado no skate e minhas pernas foram jogadas para cima, o skate voou longe e eu só via o céu. A lua realmente tava linda, com certeza naquela hora ela tava olhando para mim, eu era o centro das atenções do universo na minha quedinha insignificante. É num susto que a nossa alma pula pra fora e aí o universo pode enxergar o que tem dentro de você de verdade. Minha alma deu um salto tão grande que quase beijou a lua, aquela lua cheia. O próximo momento foi muito vago porque eu batí no chão com o corpo e a força da gravidade, que é a mesma que mantem a lua virada pra mim, fez minha cabeça bater no asfalto e meu corpo quicar pra fora da pista. O destino é engraçado, foi ele quem me fez cair estatelado mas também foi ele quem me fez quicar pra um canto seguro fora da pista evitando que um carro em alta velocidade me atropelasse. Foi como se ele me dissesse que isso é pra deixar de ser teimoso.

Quando abrí os olhos haviam algumas pessoas em minha volta. Foram eles quem me contaram que eu quiquei para fora da pista porque se eles não me contassem eu juraria que foram eles quem me carregaram. Tentaram falar comigo e eu tentei responder, não me lembro se foi uma comunicação bem sucedida mas minutos após estava uma ambulância iluminando de vermelho o local sem postes. Lembro de ter pedido para checar minhas costelas porque tinha lembrado uma história assustadora sobre a possibilidade de uma costela fraturada perfurar o pulmão.

O sujeito disse que estava tudo bem. Meu pescoço foi imobilizado e eu fui colocado numa maca na contagem de três. Me colocaram dentro da ambulância e eu perdí meu breve contato com a lua.

Nunca mais andei de skate.

JUSTIÇA SACANA

In ficção on Julho 5, 2006 at 3:35 am

__ Cara! Acho que você não tá entendendo a moral da história! O negócio é o seguinte. Ou você se fode ou eu me fodo! E eu não vou me foder por sua causa. Eu sou escolhido de Deus. Simplesmente isso.
Porque? A arma tá na mão de quem? Na minha ou na sua? Deus me escolheu, colocou a arma na minha mão porque quem se fode hoje é você. E Deus no fim das contas não é justo, porque se fosse justo tinha uma arma na sua mão também, mas olhando por outro lado ele é justo porque tem uma arma na minha mão, mas o dinheiro tá no seu bolso, mas é claro que tem ainda o terceiro lado de que no fim das contas tanto a arma vai estar na minha mão quanto o dinheiro vai estar no meu bolso. Deus não é justo, era o que eu pensava quando eu via vocês ricaços erguendo pesos naquela academiazinha de bosta, vocês pagavam mais de 500 reais pra levantar peso. Eu recebia trezentos reais pra levantar peso, erguer concreto e construir muros. Onde tem justiça nisso? Eu pensava. Deus não é justo. Mas aí eu pensei que Deus é justo porque ele me deu livre arbítrio e com esse livro arbítrio eu comprei essa arma, bem interessante, porque agora mesmo com todo o teu dinheiro no bolso é você quem tá se borrando de medo.

Ainda vivo

In ficção on Julho 5, 2006 at 3:31 am

Senhor Gustavo, mostre seus dentes
Vamos ver quantos ainda lhe restam
Vamos ver se ainda aguenta mais um soco forte na boca e umas pancadas no estômago, tua coragem tá esverdeando?

Rapaz é melhor ficar acordado porque falta muito pra tú aguentar, não sou cordial e misericórdia nunca foi uma palavra frequente no meu vocabulário.
Esta é a última vez que vou alertar para que fortaleça suas bases, são três as minhas qualidades como lutador e as suas desvantagens são enormes, o tempo está contra tí, a sede está contra tí e a tua própria má vontade.
Toma um banho de água fria, abre estes olhos sonolentos e prepara-te porque amanhã tem mais uma surra das belas e se tua cabeça não permanece erguida vai ser difícil você revidar um soco da vida, este saco de pancadas que te perturba pelo único motivo de que as vezes você esquece como revidar e abaixa os ombros e no impulso da queda inevitalvelmente exercido pela gravidade teu corpo vai ao chão e tua força de vontade fica dilacerada, auto piedade invade tua alma e teu impulso criativo vai pro brejo. Que os tambores te dêem força porque o próximo murro vem na tua direção.

Tenho medo do que vem após a curva

In ficção on Junho 12, 2006 at 2:03 am

Neste momento que não é nem noite nem dia pergunto-me se ela gosta mesmo de mim e ao mesmo tempo sinto medo de que goste.

Prevejo um futuro agradável e ao mesmo tempo tenho medo de vivê-lo.

Se não fosse por todo este medo, derrapar perigosamente nas estradas do destino seria uma tarefa e não um prazer, seria enfadonho e não regozijante, seria gelado e não humano.

O GRANDE PLANO

In ficção on Junho 2, 2006 at 12:51 am

O grande plano está em andamento. Eu sei que você não estará lá apenas porque não pode porque desde que suas pernas foram arrancadas você não pode mais fugir da polícia, mas fique calmo, vingaremos você!

Quando nosso exército estiver em formaçãoseremos infinitos durante uma noite e será a noite mais incrível que São Paulo já viveu.

Os cidadãos absortos com brilho nos olhos através de suas janelas gradeadas assistirão nossa chegada triunfal. Estamos na ativa em prol de Éris.

Pedra pela janela

In ficção on Maio 29, 2006 at 1:31 pm

Quem foi que apertou a minha campainha e saiu correndo ontem a noite?
Se pego esse moleque. Há duas semanas atrás tacaram uma pedra na minha janela, tinha um recado na pedra mas a letra era um garrancho de tão má caligrafia que não pude distinguir aquelas palavras de pinturas rupestres.
Retornei a pedra para o lugar de onde veio, na volta, coitada, acertei sem querer a cabeça de uma velhinha que passava na rua. Ví a coitada no chão já com ares de queixosa com a cabeça sangrando, reclamava que eu havia machucado sua pobre cabecinha.

Eu tentei explicar que havia sido sem querer que lhe acertei aquela pedra e ela me disse que eu não precisava mentir, mas depois foi ela quem se desculpou pois também disse que foi sem querer que ela havia acertado minha pobre janelinha.

O pobre roteirista pobre

In ficção on Maio 25, 2006 at 4:09 pm

Lacerdinha decidiu enveredar seus esforços em prol de buscar alguma verdade na escrita. Leu, escreveu e aprendeu até que por fim descobriu no cinema uma grande paixão. Tornou-se roteirista de cinema.

O que Lacerdinha não sabia é que cineasta é sinônimo de desempregado. Lacerdinha se viu numa pior, no fundo do poço, no fundo do buraco, auto estima corrompida, fundo do bolso esticado sendo que lá dentro, nem mesmo debaixo das teias de aranha haviam trocados pra comprar o pão do dia seguinte. Não tinha dinheiro para comprar papel higiênico e sentiu medo de chegar ao ponto de ter que limpar a bunda com os próprios roteiros.

Lacerdinha estava pobre, sem mulher, sem filme e sem dinheiro. Sua recente tristeza com a “escolha errada” lhe fazia pensar em sí mesmo como um estúpido, como alguém que quis viver sempre como um passarinho, pousando de galho em galho e sobrevivendo feliz preocupando apenas em catar alguns restos de comida para poder assobiar no dia seguinte. Lacerdinha lembrou da história de Waldécio, um colega seu que trabalhava no sexagésimo terceiro andar do edifício. Waldécio também gostava de viver como passarinho, vivia assobiando sempre feliz, fora no passado um artista mambembe, trabalhava em empregos diversos que não lhe podassem a liberdade. Waldécio só descobriu que não era passarinho quando, num dia de fossa e sem assobios, saltou do sexagésimo terceiro andar e não voou.

Lacerdinha, pobre e infeliz não queria terminar como Waldécio. Desistira de pensar em sí próprio como um passarinho, não queria voar, até mesmo porque isso de querer voar é pra quem não tem medo de altura.

Lacerdinha queria amadurecer, queria crescer, ser um adulto, chega de complexo de Peter Pan. Era hora de assumir seu lugar no mundo com qualidades e defeitos. Botar a cara a tapa. Numa certa madrugada olhou seu reflexo refletido num espelho enferrujado de seu quarto pequeno e sujo. Não queria ver a sí mesmo como um sujeito deprimido com a vida. Decidiu que não queria terminar a vida sem dinheiro pra comprar papel higiênico tendo que limpar a bunda com os próprios roteiros.

Calçou seu sapato e se assustou com a barata que saiu de dentro antes de ser esmagada, se não fosse por aquela meia lisinha ela teria virado creme.

Lacerdinha partiu. Foi buscar. Não se sabe exatamente para onde partiu, nem o que foi buscar, mas ele nunca mais voltou.

http://history.wisc.edu/sommerville/367/367images/von-ostade-beggar.jpg

A mulher e o gaitista tenebroso

In ficção on Maio 21, 2006 at 1:43 am

Há uma lenda de uma mulher que ansiava pelo orgasmo perfeito, para tal feito foi buscar isso lendo os anúncios do CONSERTA-SE GAITAS. Procurou o endereço e visitou o profissional da gaita no quadragésimo quarto andar do edifício tenaz.

Para o azar dela o consertador de gaitas não era gaitista, logo ele não foi capaz de executar a perícia da gaita entre as pernas da moça para lhe causar o orgasmo perfeito, porém ele deu a ela um endereço do melhor gaitista do mundo. No entanto ele a preveniu de que se ela pedisse ao gaitista tenebroso por tal favor sua alma seria o preço em troca do orgasmo.

O endereço não era tão distante e ela estava feliz por encontrar facilmente a casa do perito nas artes labiais, da língua e do sopra e puxa e etc. Era uma casa abandonada e lá dentro nada mais nada menos do que o próprio Satanás tocava sua gaita, os acordes sublimes hipnotizaram a moça e ela entrou na casa apesar do medo.

Esta mulher nunca mais foi vista mas pessoas costumam dizer que mesmo a casa estando vazia durante as noites é possível ouvir os gemidos de prazer daquela que foi condenada a passar a eternidade condenada ao inferno num orgasmo multiplo e infinito.

O Cão escorraçado

In ficção on Maio 19, 2006 at 4:13 pm

O cão escorraçado quando vê o amor se sente amedrontado. Um cão que já sofreu apanhou e foi maltratado e hoje eriça os pelos e arreganha os dentes para quem quer que se aproxime.

O Cão amedrontado perdeu a confiança e vai lhe morder a mão se não agir com cautela.

Para domesticar o cão amedrontado é preciso antes de tudo lhe oferecer comida, de longe, e aos poucos tentar uma aproximação. Se um carinho for tentado, será recebido com rosnados. Rosnados que na verdade consentem, mas que aos poucos cessará, timidamente.

É mesmo difícil cuidar de um cão amedrontado. É muito mais fácil enxotá-lo, escorraça-lo mais uma vez. Uma pedra na mão é garantia de que ele vai embora com o rabo entre as pernas. Mas acredite, o cão escurraçado, apesar de sua rabugice e aparente indocilidade só espera que o amor tenha uma mão que o acalente, que compreenda que ele pode ser melhor. Tudo o que é preciso é que esta mão acalentadora seja paciente.

Pronuncia-se o Rei sobre o desbraçado

In ficção on Abril 14, 2006 at 5:46 pm

Pensem a respeito de Reggio que perdeu seus braços quando ainda era um garotinho, num acidente na guilhotina que seu pai estava fabricanto para mim. Reggio, o desbraçado, como é conhecido está sempre encostado em uma árvore ou em uma parede áspera. É alí que ele fica por horas durante o curso dos sóis e luas que sobrevoam dia após dia o nosso império pois só assim um homem sem braços pode ser feliz.

O caso dele se aplica a mim. Sou um Rei mas preciso de beleza para ser feliz, assim como o homem sem braços precisa satisfazer sua coceira nas costas, a minha coceira se chama vaidade.

Me digam, como pode um homem reinar sem ser belo?

Este é o motivo pelo qual me utilizo deste traje tão belo, mas tão belo que só mesmo os inteligentes são capazes de enxergar. Só com um traje de tal beleza posso me sentir suficientemente satisfeito e confiante para governar.

É por motivo de minha beleza colossal e consequentemente realeza tirânica que ordeno a toda plebe que se curve diante de minha presença pois sou o sinônimo de perfeição divina quando estiver com meu cetro dentro deste traje real.

Curvem-se.

O filme favorito de Pedro Juan

In ficção on Abril 6, 2006 at 1:24 am

__Licença. – eu pedi

Ela descruzou as pernas e eu passei. Sentei do lado dela havendo outros dois lugares vagos adiante.

__Meu filme favorito esse…

Eu comentei sem olhar para o lado, mas claramente falando com ela.

__Gosto muito desse filme e desse diretor. – completei

A verdade é que eu não estava me sentindo muito confortável. Estava me sentindo o sujeito mais chato da face da terra e sem nada pra dizer. Talvez sentindo isso porque sabia que era o que ela estava provavelmente pensando ao meu respeito.

__Qual é seu nome hein?

Ela olhou meio de lado e voltou a ver o filme. Eu aproximei meu rosto do dela e perguntei quase sussurrando.

__Qual é seu nome?

Minha preocupação é que ela pensasse que eu era alguma espécie de tarado. Não que eu não seja, claro que eu sou, mas que ela pensasse que eu sou um tarado perigoso que forçaria ela a fazer alguma coisa.

Ela se virou parecendo chateada.

__Que?
__Seu nome. Posso saber?
__Depois do filme.
__Só depois?
__…

Ela ficou olhando para a frente. Cruzou as pernas e virou pro lado afastando-se de mim com os braços guardando a bolsa. Fiquei esperando o final do filme. Meu deus que filme chato e interminável. O que aquele diretor tinha na cabeça pra filmar um troço tão demorado?

Quando o filme terminou eu confesso que estava meio chapado. Fiquei hipnotizado. Nem tinha prestado atenção. Já tinha visto aquele filme tantas vezes que toda e qualquer informação que pudesse ser abstraída dele já havia se fundido a minha cabeça bloqueando minha passagem intelectual para novas percepções sobre aquela história. Em um resumo do que eu sentia pelo filme: ESTAVA DE SACO CHEIO.

Depois de uma longa espera o filme terminou. E qual não foi a minha raiva quando ela se apressou em descruzar as pernas e se levantar virando as costas para mim sem que me desse tempo de falar nada.

Fiquei sentadinho esperano passar os créditos. Queria saber direitinho o nome de todo mundo que participou daquela droga de filme pra xingar todo mundo, desde o diretor até o sub assistente de contra regra.

Ao meu lado uma outra garota também esperava o final do filme junto comigo. Eu nem havia reparado nela. Ela se levantou e passou por mim.

__Oi.

Ela passou direto. Sem responder.

Que merda de filme!

O último vôo de Heliot

In ficção on Março 31, 2006 at 8:53 pm

Um bando de patos ergue vôo a beira de um espelho para o céu.

O vento das asas dos patos balança a água do lago causando nela pequenas ondulações, deixando assim de ser um espelho perfeito para o céu.

De dentro do mato uma estratégia ardilosa acontece. É de lá que sai o tiro da espingarda que atinge um dos patos.

O pato cai dentro da água e é capturado morto por um cão de caça que entrega o pato orgulhoso ao caçador.

Se o caçador soubesse as peripécias pelas quais Heliot o pato já passou, nunca teria disparado aquele tiro em sua direção. Talvez no máximo, teria apontado em outro pato, mas agora era tarde. Heliot já virara banquete de uma mesa farta.

Lembrança de mochileiro

In ficção on Março 23, 2006 at 6:36 pm

A manhã era muito escura. Me lembro de ter acordado com todas as esperanças apontadas para o que viria logo mais. Não que eu esperasse por muito, mas era muito chão que me esperava.

Saí de casa logo cedo com uma mochila gigante nas costas. Ninguém sabia que estava prestes a me mandar para Recife fazendo paradas ocasionais por cantos diversos. Não tinha onde ficar mas para ser verdadeiro o destino não é exatamente a parte mais importante, a parte mais importante da viagem é a própria viagem.

Na parada de ônibus devo ter me dado conta de que devia ter levado meu cachimbo com tabaco porque o frio congelava meu nariz, mas eu estava coberto por uma toca e um casaco enorme esperando para ser um passageiro.

Uma gotícula de sereno se juntou com outras várias e uma gota completa caiu num percurso que acompanhei com cuidado meticuloso e curiosidade de quem pouco sabe a respeito de qualquer do mundo esparramando-se no chão. Se por um segundo eu observasse a mim mesmo do lado de fora saberia que já havia começado a viagem.

Quando o ônibus parou eu me acomodei e como se faz em toda viagem antes do sol nascer encostei a cabeça no vidro e a cidade foi diminuindo, dando lugar ao sol nascente que brotava no milharal.

E foi aí que eu me esquecí do que deixava pra trás e comecei a pensar no que vinha pela frente porque quem não tem para quem voltar não tem motivo para se preocupar.

Bons tempos aqueles.

Eu queria mas não posso…

In ficção on Março 21, 2006 at 11:44 pm

É muito foda agir como se nada tivesse acontecido. Você simplesmente não quer responder porque me fez ir até lá a toa e eu não posso ignorar isso. Nossa, como eu penso em te ver as vezes, mas seria uma afronta a mim mesmo fazer isso, um desrespeito comigo mesmo. Se você ao menos me respondesse porque. Me desse alguns bons motivos. Mas não, você age como se fosse uma coisa banal. Eu queria dizer que te amo… Mas como eu vou dizer que amo uma mulher que nunca sequer ví pessoalmente. Como eu vou dizer uma coisa dessas pra uma pessoa que faz uma coisa dessas comigo e ainda age como se fosse natural. Eu queria, mas não posso.

Eu sou o vendedor de Bíblias

In ficção on Março 13, 2006 at 8:20 pm

Eu sou o vendedor de Bíblias
Não tenho amigos ou intimidade. Sou um andarilho. Faço minhas paradas apenas por dinheiro e não encontrei outro sentido no mundo além da sobrevivência. Por mais idealistas que sejam nossos sonhos, se questionados não respondem por sí sozinhos, precisam de argumentos vazios e falácias.
Eu vendo Bíblias, vendo falácias e motivos para que você e sua família encontrem algum sentido nessa bagunça toda.

Eu posso ser o que tiver de ser, mas ao menos tenho bom senso no meio de tantas ovelhas perdidas.

Sou como um pastor com a palavra de conforto, mesmo adimitindo que não acredito nela, sei de seu poder, e por isso não deixo de prega-la a todos que querem me ouvir.

RUI VÊ A CIDADE

In ficção on Março 3, 2006 at 2:49 am


Rui procurou uma saída dalí mas não havia. Estava cercado de prédios de janelas azuis e transparentes, sujas, novas ou velhas. Seus sapatos apertados e as calças já incomodavam por causa do calor que lhe fazia suar e o suor em contato com o tecido pesava a calça. Tentou olhar para o alto mas os prédios quase cobriam sua visão, se conseguiu achar uma ponta de céu foi muita coisa. O espaço que os prédios forma de sua crista é pequeno o suficiente para que caiam poucas gotas da chuva acida, consequência direta do movimento que se faz aqui debaixo.
Carros, automóveis, motos e metrôs, com seus faróis como olhos traçavam destinos por 4 caminhos diferentes e Rui do cruzamento se inspirou a sorrir e sussurou num breve suspiro que a cidade respira.
Juntou os pés e pôs se a andar com uma nova visão sobre aqueles prédios vigorosos que mantinham-se eretos nos cursos das décadas como árvores de pedra nesta savana de metal.
Antes, Rui, pensava na cidade como um perigo, uma ameaça, mas agora Rui começava a entender que a cidade é um organismo vivo.
A cidade e seus habitantes, fossem eles feitos de metal, concreto, carne ou plástico, formavam um conjunto em constante movimento que tinha vida própria. Uma segunda natureza estava formada alí e quem sabe não fosse da mesma maneira que a antiga geração natural se formou? Quem não garante que a carne, num passado remoto, tenha sido a tecnologia vigente de primórdios desconhecidos?
E Rui entendeu que a cidade não era tão má assim. Seus veios são o asfalto por onde circulam os glóbulos que são os carros, transportando trabalho durante o dia e repondo os nutrientes e as energias durante a noite para abastecer a carne e os músculos que são os prédios.
A cidade, germinada a partir de um modelo rústico de aldeia tornou-se um gigante que se funde em concreto carne e metal e que um dia se levantará com vida propria e caminhará como um titã pela face da terra e todas as cidades tramarão juntas uma nova tecnologia, assim como foi feito no passado, quando seres antigos e microscópicos tramaram a tecnologia da carne e inventaram a nós, os humanos.
Mas Rui já chegava perto do metrô a uma altura dessa. Viajou para casa sentado no banco cinza, o banco reservado para idosos e deficientes. Nem se deu conta disso, mas foi o caminho inteiro pensando que ele era parte integrante desse todo colossal.

VALÉRIA VÊ A CIDADE

Corra Valéria. Pule para fora dessa janela porque o ônibus está esperando parado. O motorista risonho não espera muito e nãó é todo dia que se tem transporte para a avenida papoulas, mas lembre de se agasalhar e leve dinheiro, afinal, a viagem de ida é de graça, mas para voltar você precisa do bilhete. E foi o que ela fez, fugiu pela janela sem avisar a mãe. Elas haviam brigado há alguns minutos atrás e Valéria ainda estava com raiva, para ser sincero ela queria mesmo é fugir.
Foi com um agasalho e pisou fora de casa, a noite na rua ventava gostoso e o vestido de seda balançava fugindo e tocando a pele macia da jovem Valéria.
De dentro do ônibus com destino a Avenida Papoulas Valéria viu a cidade enorme crescer a sua frente, acabara de entrar nas avenidas principais e a essa hora da noite ninguém estava acordado.
Um passeio secreto enquanto todos dormiam. Valéria iria se divertir um bocado naquela noite.

A ROUPA DO REI

In ficção on Março 1, 2006 at 2:31 am

Sou o tecelão vigarista trabalhando arduamente em teares de linhas inodoras, insípidas, invisíveis e intocáveis.

O que tenho a venda é um completo traje real tão esplêndido que somente os mais inteligentes e argutos são capazes de enxergar.

Qual rei quererá os trajes que tenho para vender e qual será a carapuça mais adequada para sua máscara real do bom gosto, da inteligência e da divindade que a plebe incauta, estúpida e crédula enxerga em sua imagem imaculada ?

Descomensurado

In ficção on Fevereiro 22, 2006 at 8:45 pm

O rádio me acordou tocando Beat It do Michael Jackson como fazia todas as manhãs. Desde Thriller que eu já sabia que ele seria meu artista preferido pelo resto da vida. Qual não foi meu espanto quando tentei abrir os olhos e algo de imenso estava tampando meu olho esquerdo. Meu olho estava lá, mas algo o estava bloqueando. Minha primeira sensação foi de medo, mas me lembrei de uma outra vez, quando acordei sem sentir meu braço, ele estava mole, sem movimentos, eu o beliscava e não doia. Fiquei com tanto medo naquela manhã que quase chorei, depois os movimentos começaram a voltar e eu me toquei que haia dormido sobre o braço e o sangue ficara com a passagem obstruída. Mas o incomodo no olho parecia aumentar e então me levantei, sem nem sequer engolir um gole de água me olhei no espelho e lá estava um baita narigão que me brotava na face como uma raiz torta que brotara deformada. Estava monstruoso e repleto de veias esverdeadas que se alastravam por ele. Espalhava-se pelo meu rosto. Passei a mão levemente sobre a pele e o sentí pulsar e o inchaço aumentou, bloqueando desta vez meus dois olhos. Gritei, e como gritei, mas não parava de nascer, retorcer e contorcer como uma cobra em agonia ele crescia, do que se alimentava eu não sei mas devia ser de ar porque durante as horas que se seguiram seu tamanho se multiplicou tomando conta de todo meu apartamento. Os dias se passaram, eu já não conseguia mais me levantar, estava praticamente esmagado contra o chão e meu nariz protuberante torto como um galho já descia pelas janelas, derramando sua carne por toda a cidade que se alastrou pelas ruas, eu não me lembro de ter sentido fome alguma, nem muito menos dor. Do rádio ligado de meu apartamento eu ouvia os noticiários alertando sobre a imensa massa de carne que se espalhara por entre as ruas da cidade e que não parava de crescer. Ao menos servia de alimento para aqueles que não tinham o que comer, fiquei sabendo que algumas pessoas iam com facas e até serras para destacar grandes bifes de meu nariz gigante e alimentar suas famílias mas eu não me incomodei de forma alguma, apesar de ser o meu nariz que eles estavam comendo, não me faziam mal por que não me causavam dor.

A moral dessa história é que se alguma coisa vem para o bem, por mais que incomode, deixe-a crescer.

O que vejo de minha cama voadora

In ficção on Fevereiro 20, 2006 at 11:58 pm

“Vejo primeiro um mar de possibilidades
De acertos buracos e até inverdades”

Meu cachorro já não mais latia e eu sentia isso forte porque foi a primeira noite que eu não ouvia um ruído sequer senão o dos grilos.
Estava acostumado a dormir com a barulheira, gostava até. Mas quando o Duque foi embora o barulho foi com ele, e com o barulho a minha felicidade.

Mas não demorou até que as minhas pálpebras piscassem e minha janela se abrisse, numa decolagem perfeita ví do alto a boba vila boba, algumas janelas acesas, alguns olhares e surpresas por ver uma cama tão alta voando e um sonhador eu seu cume imaginando.

Quanta coisa se pode ver daqui de cima, da pra ver onde o horizonte se encerra, dá pra ver que o mundo é redondo e pelo jeito o Duque já está dando a volta porque não o vejo daqui.

Mais uma noite de vigília, divertida vigília esta de voar com minha cama, o perigo é deixar cair os lençois mas mantenho todos bem presos, faço uma dobra e estendo os pés por cima, nada voa, só balança, até meus cabelos curtos.

Daqui do alto a visão é tão boa. Que parece que nem eu nem a cama voadora queremos mais descer, mas o Duque vai latir, e como um navegador que já há muito só vê mar, vou gritar que já a vista ele está.

Coração Seco Buceta Molhada

In ficção on Fevereiro 15, 2006 at 11:56 pm

Como pode?
Foi a pergunta que eu fiz quando cheguei na cidade.
Mal tinha pisado na terrinha e já tava sentindo os efeitos dos gases tóxicos e da poluição visual, sonora e do ar que invadia meus orgãos sensoriais tampando meus poros, lacrimejando meus poros e cobrindo de pus protetor minha alma.
Pensei que ela seria a minha salvação…
Mas não foi.
Como pode um coração tão seco ter uma buceta tão molhada?
É a pergunta que eu me faço porque acho que nunca atingi o coração dela de verdade, o máximo que eu atingi foi um hymen rompido há anos por algum namorado malvado do qual ela tenta se vingar até hoje…
E desconta em mim.

Pra quem nasceu depois

In ficção on Fevereiro 8, 2006 at 2:11 pm

Era difícil nasce naquela época porque nem sabia o que tava se passando ao seu redor. Tinha gente matando seus tio, tinha gente querendo te comer a carne viva. Eles tratava a gente mal e nós nem sabia o porque disso, vez ou outra a gente levava chicotada e minha mãe explicava que tinhamos que agradecer a Oshun mãe do candomblé porque a tempos atrás era pior ainda. Mas isso que eu não entendia. Só porque era pior antes então quer dizer que a gente tinha que aceitar como tava?
Era ruim quando quase todo dia aquele fi da puta me chamava de criolo fedido, me batia com o mesmo chicote que batia no cavalo e maltratava minha mãe. Botava a gente pra trabalhar nos canavial. A maioria de nós nem entendia pra que tudo aquilo, mas era cana de açucar. Cana de açucar é ouro! E a gente só recebia as migalha, isso quando recebia alguma coisa porque se o patrão fi da puta ficava bravo por algum motivo a gente não recebia nada. O desgraçado era mal, tão mal que não dava conta do mulherão que tinha, no dia que aquela pomba gira entrou no rabo dela ela quis abrir as pernas pra um dos que trabalhava com a gente lá na casa dela e o patrão descobriu, naquele dia não teve miséria de pagamento não, mas eu vou te contar que teve morte e fogueira, e não foi um só não, queimaram vários.
Como eu vou dizer que não odeio só o patrão falando com aquele sotaque nojento de portugal, mas odeio tambem o nosso povo porque a gente falava a mesma língua deles, a gente aceita essa coisa toda calado. Vai pergunta pros indio se eles aceitaram essa safadeza? Quando botaram eles pra trabalhar a força que nem a gente os indio se revoltaro e só falto o dono das terra chorá de medo porque naquele dia teve sangue pra todo lado. O cagão e o chicote dele ficaro escondido no armário até acaba a desgraça toda e só depois ele saiu, querendo ainda dar uma de machão. Minha mãe que contou isso, falo que foi antes daquela puta da princesa isabel que todo mundo tinha de queridinha mas eu vo dize mesmo que ela é uma puta porque não sabia de merda nenhuma e que pode até de ter assinado a droga da lei, mas ela não se preocupou no que continuava acontecendo. Tem gente que diz que ela resolveu um problemão. Que problemão? A gente passa fome toda semana. Meu irmão tá doente e eu já não sei o que fazer. Isso aqui é pior que uma floresta as vezes. Fico pensando porque é que eu continuo. Pra merda com esses fi de puta, eu posso ter nascido agora que eles falam que é uma época melhor, talvez eu possa até estar reclamando de boca cheia que nem diz minha mãe. Mas eu fico me perguntando se a gente nunca tivesse saído de lá de onde a gente veio. Será que a merda ia ser tão grande ?


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Conto para o 16 concurso maldito
A: A INGENUIDADE

Ingênuo: 1; sem malícia, franco; 2. Inocente, puro, singelo; 3.Indivíduo ingênuo; 4.Filho de escrava nascido após a lei da emancipação.

No caminho pegamos o desvio

In ficção on Janeiro 23, 2006 at 4:46 pm

Estavamos voltando das férias, eu no banco de trás, como na época eu era muito pequeno ficava em pé no banco olhando para os carros indo e vindo.
No caminho meu pai resolveu pegar um atalho de terra e acabamos descobrindo uma praia nova que não conhecíamos. Resolvemos parar e depois até pensamos em ir embora mas não dava mais, era impossível, não conseguiamos sair daquele paraíso. Resolvemos ficar um dia, dois, três, e assim foi até o quinto dia.
É uma praia completamente deserta, no tempo em que estivemos lá não vimos uma pessoa sequer, mas o mais engraçado é que todo dia, depois que voltavamos da praia a mesa estava posta e farta. Não entendemos se alguém estava fazendo isso por nós, mas por algum motivo (que não é do nosso costume) nos aproveitamos dessa “comida grátis”.
Passamos cinco dias na praia deserta, mas como por lá o tempo passa mais devagar se passaram apenas 2 horas para o resto do mundo. Foi muito legal. Não me esqueço daquele dia.

Gato Zé

In ficção on Janeiro 23, 2006 at 2:50 am

Gato Zé
Escalava o muro da escolinha todo dia. Tinha um aluno que era louco para pega-lo e matratá-lo e era de praxe o gato Zé sair todo dia as pressas para não levar uma pedrada.
Uma vez o gato Zé comeu o lanche de um aluno e pegaram ele. Colocaram o Gato Zé dentro de um pequeno Canil onde dormia uma pitbull, a cachorra nem percebeu o Gato Zé porque ele foi muito rápido em fugir de lá. Gato Zé é esperto demais para aqueles trouxas. Tanto é que até hoje ele pula o muro da escola e devora os lanches das crianças incautas na hora do recreio e até hoje nunca levou uma pedrada. Nunca mesmo.

A INQUESTIONÁVEL PERFEIÇÃO DO MAIOR ASSALTO A JOALHERIAS JAMAIS REALIZADO

In ficção on Janeiro 12, 2006 at 7:19 pm

Se tudo não tivesse ocorrido como o planejado ele e seus capangas agora estariam presos.

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Conto participante do 12º Concurso Maldito

O guardador de canetas de Cristal

In ficção on Janeiro 7, 2006 at 12:32 am

Bruno se sentiu culpado quando derrubou o guardador de canetas da diretora.

Ele já tinha sido mandado para aquela sala para ESPERAR QUIETO, mas no tempo em que passou sozinho não conseguiu se aguentar sem mecher nas coisas e o que mais chamou atenção foi aquele guardador de canetas caro que ela mantinha sobre a mesa, tão idiota que ele se sentiu quando derrubou e viu o troço redondo, e caríssimo, rolar sobre a mesa, parecia câmera lenta, estava muito lento, tão lento mas tão lento que dava pra prever exatamente onde iria cair, exatamente na falha do carpete, na parte do chão onde não era macio, mas ainda assim não dava tempo de deter a queda. Bruno bem que tentou mas caiu e se espalhou no chão em mil pedaços e um barulho que até a secretária da escola havia ouvido.
O mais engraçado de tudo, foi que quando a diretora entrou na sala, depois de mais alguns minutos de espera angustiante, ele estava com a cara das mais santas do mundo, agora teria que aguentar uma briga não só por ter enfiado a cara da professora no bolo de aniversário da Joana, sua coleguinha de sala que já tinha completado 9 anos.
Bruno era claramente um exemplo de aluno desajustado, não só porque era bagunceiro, mas convenhamos que um garoto de 19 anos não deveria mais estar na quarta série.

ASTERISCO

In ficção on Janeiro 2, 2006 at 12:58 am

Cabam!
Desabei da cama e nem sabia por onde começar o dia. Acordei amassado perguntando-me uma estranha pergunta de ordem existêncial:
__ASTERISCO ?
Sim, foi a minha primeira palavra naquela manhã. Após tomar meu copo de café apressado segui adiante, sabia que tinha alguma coisa de que precisava saber. A TV alertava ASTERISCO, ASTERISCO e eu alí perdido no medo me aturdia, suei, blasfemei, pequei comigo mesmo e até no banho eu me perguntava:
__ASTERISCO?
Saí de casa a procura de uma resposta, no caminho esbarrei em minha namorada. Veio me visitar. Eu descabelado e mal arrumado, ela tentou me segurar, eu retruquei:
__ASTERISCO?
O chão estava quente, o sol batia forte, meus pés descalços rachavam poeira. O vendedor de frutas me encontrou tentando roubar uma suculenta e macia pêra, ele me bateu com a vassoura e eu caí desgraçado no chão e completo pateta levantei num só passo e já repetí.
__ASTERISCO?
Claro que não. Não podia ter uma pergunta dessas num dia tão quente, claro que não podia ter isso como razão pra roubar uma fruta ou abordar uma pessoa na rua, mas eu não parava.
__ASTERISCO?
__ASTERISCO?
Quando cheguei na praia já estava escuro e então eu deitei na areia e me desliguei. Apesar da sede a água do mar me pareceu salgada e intragável demais quando bateu em meu rosto amarrotado pela manhã.
__ASTERISCO?
Nada me chamou tanta atenção quanto aquela visão. Estava defronte ao meu destino. Pulei no mar e não quis parar de nadar, segui adiante impressionado com o amanhecer. Foi o último e mais belo por do sol que eu já ví. Se é que em algum dia tive tempo de assistir algum pôr do sol, nunca fui muito de diversões baratas.
E antes do sol me ofuscar e das narinas afolgar tive tempo de me preocupar:
__ASTERISCO?

Carinho Maternal

In ficção on Dezembro 25, 2005 at 9:52 am

Estive por muito tempo sentado naquela calçada sobre a chuva tentando escutar o que sairia daquela briga do lado de dentro do mercadinho.

Como era de costume minha mãe saia todo dia muito cedo, fechava os portões de ferro com um cadeado enorme e eu ficava esperando sentado no meio fio até que tudo estivesse trancado e pudessemos voltar para casa. Eu tenho que esperar porque eu sou muito pequeno para ajuda-la mas naquele dia foi diferente. Antes do nosso pequeno mercadinho se fechar, eu já estava varrendo o chão. Era outono e do lado de fora a chuva começava a pisotear o asfalto, pensei que iriamos precisar de alguma proteção para voltarmos para casa secos. Pouco antes de minha mãe pegar as chaves do cadeado um cliente entrou pela porta com o cabelo todo molhado e a roupa respingando e deixou sua jaqueta de lado, ele parecia bravo e antes que dissesse qualquer palavra minha mãe falou: “Augusto, me espere lá fora”, eu tentei explicar que estava chovendo mas ela brigou comigo por ser desobediente. Enquanto eu ia saindo cabisbaixo o homem que entrou tirou um pequeno pacote de dentro da sacola do supermercado e disse que queria reclamar daquela mercadoria.

Já estou todo molhado sentado neste meio fio e eles ainda não saíram. A luz do poste me iluminava e eu perdí meu tempo observando as poças d’agua sendo empurradas pelos pneus dos carros passando. Depois de muita espera saiu o homem fechando o ziper das calças e minha mãe logo atrás penteando os cabelos.

O homem olhou para mim, eu não parei de o encarar, era por causa daquele miserável que eu estava aqui pegando chuva. Minha mãe me viu na chuva e me cobriu com um guarda chuvas. “Nossa filho, você está todo molhado!”, ela estava cuidando de mim, mas ainda olhava o homem indo embora. Eu queria que ela visse como eu estava, e tudo por causa daquele freguês mal educado, mas ela não tirava os olhos dele.

Assim que chegamos em casa eu reclamei daquele sujeito desprezível. Ela disse para que eu não ficasse bravo pois aquilo poderia acontecer mais vezes. Eu retruquei bravo: “COMO ASSIM MÃE? ELE VAI VOLTAR?” E ela somente completou: “Calma filho. Compraremos amanhã um guarda chuvas novo para você!”

A hierarquia dos fodões

In ficção on Dezembro 18, 2005 at 2:15 am

Todo cara fodão quer se parecer com um cara que ele acha mais fodão ainda.

Por exemplo:

Pode ser que um cara fodão queira se parecer com o pai dele, ou pode ser que ele queira se parecer com o Rambo ou o Brutus, ou alguma coisa do tipo.

E os caras mais fodões ainda tambem querem se parecer com um cara que é ainda mais fodão que eles todos. Um guru fodástico ou coisa do tipo, são raríssimos e muitos já morreram em guerras sangrentas.

Mas estes caras mais fodões de tudo, seja o pai do seu pai, ou o rei do Clint Eastwood, ou o Sensei do Rambo, eles tem um sonho.

O sonho deles é dormir fodão e acordar uma flor, ou talvez até uma borboleta. Esse é o destino de todos caras fodões. Eles passam a vida sendo fodões porque eles querem ser um mestre fodástico, mas no final eles só querem virar uma estrelinha ou coisa semelhante.

Isso quem me disse foi um cara que virou bailarina. Juro!

Figura:

http://www.orlandolara.com/Mixed-Media/WebRes/Macho.jpg

O DUENDE DA MANGUEIRA

In ficção on Dezembro 12, 2005 at 6:46 pm

Minha casa ficava perto da praia, logo depois da ponte que passava em cima do Rio Jucu. Todo carnaval era festa naquele lugar, o ´congo´ passava a toda altura com milhares de pessoas tocando tambores atravessando a minha rua até chegar na praia onde as mulheres deixavam aqueles barquinhos que eu gostava tanto mas não podia pegar porque eram presentes para Iemanjá.
Mas daquele carnaval não pude vestir minha famosa fantasia de esqueleto para participar porque eu estava doente. Ficava vendo os dias passarem da janela da minha casa.
Minha mão custou a me deixar saí de lá de dentro, mas no dia que deixou eu não pude passar do quintal e tudo o que havia no quintal eram alguns brinquedos com os quais eu não brincava mais e atravessando o muro estava aquela grande mangueira carregada de frutas ainda verdes.
Eu ficava arremessando pedras nas mangas verdes para que elas caíssem, e depois comia com sal até que num certo dia a pedra que eu arremessei voltou certeira contra a minha cabeça me causando um dolorido. Amarrado a pedra, um recado:
NÃO COMA MINHAS MANGAS!

História Anônima – Parte 3

In ficção on Dezembro 6, 2005 at 5:57 am

Pisou fora de casa e lá estava o carro parado.
Lucas ficou assustado mas acabou seguindo até eles.
Da janela de vidro preto que se abriu uma cara terrível saiu de dentro.
Lucas tinha a tendência de andar com estilo, o ritmo estava nas suas veias. Ele não nasceu para roubar, nasceu para dançar.
O Blues, o Hip Hop, o Soul, o Rock n’ Roll saia de suas veias para ser divulgado em seu jeito de ser, de viver e de pensar.

Esse tipo de demonstração tão ingênua de alegria não deixava o BOCA alegre. O BOCA não aguentava ninguem chamando mais atenção que ele, o BOCA sempre foi o garoto na escola que dava porrada nos garotos legais. Uma vez num jogo de basquete bateu num garoto que tinha entrado na escola só porque o coitado, sem saber, fez uma cesta de três pontos no jogo onde ele era pivô.

O BOCA é o rosto nojento que saiu pela janela do carro e cuspiu fumaça de cigarro na cara do Lucas.

O Lucas, outro coitado, tava feliz por ter acabado de dizer o que queria dizer pra mulher que ele ama. Ele Não é tão burro assim, ele sabe que ela não está caindo de amores por ele, mas ele ainda acredita na possibilidade de um dia ela enxergar nele um cara legal. O que deixa ele triste é o que o BOCA vai falar agora, porque o BOCA tem a habilidade de tocar o ponto fraco das pessoas, e ele faz isso de maldade, não é sem querer não, é de maldade mesmo, e o BOCA conseguiu ferir o coitado do Lucas quando disse:

__Ninguém gosta de Crioulo metido a esperto moleque!

O Lucas ficou calado e o BOCA prosseguiu

__Chega mais moleque!

O Lucas chegou mais e foi aí que o BOCA soltou a fumaçona na cara dele, que nem eu disse lá atrás. O Lucas segurou pra não tossir, ele já tava chateado de ter sido chamado de Crioulo por um cara tão nojento mas não quis dar uma de chorão, o problema é que Lucas ainda é muito novo pra bancar o valentão.

__Já arrumou o teu parceiro rapá?
__Ainda não. O cara que ia com a gente tá viajando.
__Olha aqui o bebezinho de vocês oh…

O BOCA mostrou no banco do carro duas armas. Não era qualquer arma não, eram duas ARMAS, eu não entendo muito bem de armas, mas sei que essas aí podem causar um estrago. Essa é daquele tipo que a bala entra e só faz um buraquinho na entrada, mas o pesado mesmo é a saída, quando ela explode um buraco nas costas do coitado que levou o tiro. Acredite em mim, ninguém quer levar um tiro de uma arma daquela, nem mesmo um pedaço de madeira.

O Lucas se esticou pra ver as armas mas o BOCA não dá prazer pra ninguém por muito tempo e tampou logo com o pano as duas brilhantes.

__É hoje cara! Não vai me chegar na reunião sem um parceiro senão você tá fora do esquema!
__Tá bem.

Lucas só concordou. Não tem muito pra falar com esse tipo de sujeito. O Carro saiu, Lucas deixou eles sumirem e continuou andando. Já não tava mais andando estilosamente que nem antes. O Lucas saiu andando e pensando que o droga do BOCA não devia ser tão metido a fodão assim! Esses caras metidos a fodões sempre querem ser que nem um cara que é ainda mais fodão que eles, que por sua vez quer se parecer com um cara mais foda ainda que por sua vez quer dormir fodão e acordar uma flor. É assim que é a hierarquia dos fodões. Acredite que é verdade.

Os sequazes alem terra

História anônima – Parte 2

In ficção on Dezembro 1, 2005 at 5:11 am

__Alô
__Helena
__Isso são horas de ligar? Achei que era uma notícia ruim.
__Tá dentro da gaveta da geladeira.
__O que?
__A chave do seu carro. Eu escondí lá. Queria fazer piada com você…
__Que piada idiota! E se você não me encontrasse aqui Lucas?
__Como você ia sair sem carro hein espertona?
__Por isso mesmo! Eu ia ser obrigada a ir de ônibus.
__Ihh. Nem tinha pensado nisso. Sorte que eu liguei a tempo né?
__Você nunca pensa em nada.
__Mas eu ia te contar na hora, mas é que eu esquecí.
__Tá bem Lucas. Você só ligou pra isso? To com pressa.
__Na verdade eu só lembrei disso agora quando você disse que…
__Então pra que foi ? Fala logo que eu to com pressa.
__Ah… Eu liguei pra falar que gosto muito de você…
__…Falta do que fazer garoto.
__É mesmo. Vou procurar algo pra fazer. Vou escrever um video-arte que só eu consiga assistir inteiro. Quem sabe assim meus amigos intelectuais me respeitem.
__Olha! Não seja um sacana comigo! Você sabe que cinema é minha paixão e nada tem a ver com meus amigos.
__Paixão nada. Você só faz cinema porque sabe que te dá ingresso VIP pra fama, pra drogas e pra safadezas Helena.
__Olha aqui! São sete horas da manhã! Sete horas! E você liga só pra me ofender? Vai a merda!

Do lado da casa de Helena eu ouço uma voz infantil. Parece uma voz de menininha. Ela tem uma filha muito bonitinha, a Bruna. É um doce, mas só quando está dormindo, quando está acordada a capetinha é a própria filha de Satã! Não sei a quem puxou, o pai é um bunda mole e a mãe é tão quietinha, tão na dela. A menininha tá perguntando alguma coisa pra Helena e eu fico aqui só esperando. Nossa, pra falar com ela é difícil esperar qualquer tempo que seja.

__Voltei Lucas.
__Então Helena, desculpa. Eu não quis te ofender. É que eu tô ativo pra diabo. Tô com insônia.
__Você sempre faz cagada e pede desculpa. Chega uma hora que cansa.
__Você sabe que eu odeio quando me chamam de garoto ou piá. Você que começou.
__Tá bem. Tá bem. Olha. É só isso que você tem pra me dizer? Eu tô com pressa.
__Não. Eu quero dizer que eu gosto muito de você. De verdade.
__Porque você tá todo estranho hoje?
__É porque vai ser um dia infernal. Um dia daqueles. Pode ser que dê tudo muito certo, ou pode ser que termine tudo péssimo.
__Todos os dias são assim Lucas.
__É… …verdade.
__Tenho que ir agora.
__Tchau Helena. Beijo.
__Se cuida.

Geralmente eu não sou assim tão meloso, mas é que hoje vai ser mesmo um dia de cão.

O sonho estranho de hoje

In ficção on Dezembro 1, 2005 at 5:06 am

Já teve um sonho daqueles onde tudo parece estar próximo e distante demais? Tudo ao mesmo tempo. É indescritível mas é assim que é nisso que eu acho que na verdade não é sonho mas pesadelo.

Do meu lado direito uma batida de carros. Uma mulher intacta chorava no colo do marido que tinha marcas de sangue na camisa mas estava bem. Os policiais checavam os estragos nas ferragens. Cada vez mais pela rua viaturas chegavam.

Do meu lado esquerdo um motoqueiro parava sua pequena vespa sobre a grama para paquerar as motonas da vitrine de uma loja de motos de corrida. Ele acabou desistindo depois de algum tempo, severamente frustrado por não poder comprar uma daquelas monstruosas beldades. Saiu em sua motoneta que gritava dolorida pelo asfalto como faz um cavalo rouco quando não quer ser montado.

No meio eu, com uma sacola de supermercado. Eu não fumo mas acho que o vendedor tinha deixado um cigarro lá dentro por engano. Eu sabia que tinha alguma coisa estranha nisso tudo. Foi o cigarro droga. Eu não fumo.

História anônima – Parte 1

In ficção on Novembro 29, 2005 at 4:20 am

O “encontro” é amanhã. A gente combinou pra não ficar falando “assalto, assalto” pra todo mundo ouvir. É claro que eu tô empolgado. Tô empolgado demais e é por isso que eu tô aqui com essa insônia do cão. Toda hora que eu olho pela janela eu to esperando o sol nascer porque só depois que o sol nasce que eu consigo dormir.

Droga, hoje pode ser o último dia do fracasso que foi a minha vida. Imagina o risco que eu vou correr lá dentro. Mas se der tudo certo eu tô feito, vou tirar uma grana boa. Não é lá aquela grana que dá pra vida toda, mas é uma boa grana. De ir preso eu não corro risco. Me mato antes mas não vou preso. Eu poderia dizer um monte de motivos porque eu não vou pra cadeia mas não tô com humor pra isso. Nem muito menos tô com saco pra descrever o monte de motivos pra explicar porque to entediado de levar a vida que eu levo.

Antes da ação quero ligar pra alguém de quem eu gosto, mas tem que ser alguém de quem eu goste de verdade, e só tem uma pessoa em quem eu consigo pensar agora. A hora é ruim mas pode ser a minha última chance.

Tenho que adimitir que esse telefone velho e estiloso não vale a pena. Ele é bonito e tudo, mas pra discar girando a roleta é um porre. A gente demora tanto pra discar que dá tempo pra pensar numa porcaria dessas.



(continua…)

Palavras nas mãos erradas

In ficção on Novembro 26, 2005 at 3:50 am


Titubeios literários cansam minha cabeça
Muita forma pra pouco sentido
Muita estética pra pouco conteúdo

Dedos sôfregos passeiam pelo teclado
As vistas vermelhas de sono
Garganta arranhada pela tosse

Um leitor cruza com um devaneio
Memética automultiplicativa
Nunca cessa a baboseira

É triste saber que não há
Doi muito saber quem se é
Doi mais se tocar do porque

Me perdoem por esta história

In ficção on Novembro 14, 2005 at 10:55 pm

Caros leitores,
Hoje eu tenho uma história para contar que vai deixar alguns chocados, outros poderão revoltar-se contra mim. Mas não assumo o risco sobre ela caso pensem em me processar.

Não é o tipo da história que se ouve todo dia e não fala sobre coisas corriqueiras. Eu mesmo, antes de pensar em contar essa história para alguém, pensei se seria válido repetí-la para mim mesmo pois o que aconteceu foi algo de extra ordinário.
Quando penso na reação das pessoas diante desse ocorrido, não consigo imaginar qual seria.
Digo isso porque as pessoas que estão envolvidas nessa história passaram por coisas difíceis de descrever em brandas palavras… Para contar essa história, por mais suave que se tente fazer, será preciso usar de palavras mais duras e asquerosas que o nosso vocabulário pode permitir. As próprias pessoas que estavam envolvidas nessa coisa tornam-se asquerosas sem querer, pelo simples fato de estarem inseridas nessa situação horrível. É impossível sentir pena, o ódio é a única resposta, mesmo para os mais piedosos.
Esse ocorrido está entre as coisas mais lamentáveis que se possa recair sobre um ser-humano. Não é em toda esquina que se encontra um caso como esses e se você encontrou esse caso nessa esquina terá pouquíssimas chances de um dia encontrar um caso ao menos semelhante porque esse fato é, como dizem os jornalistas, um “Fait Divers”, uma adversidade, algo de bizarro. Nossa própria compreensão tarda em assumir a coragem e a responsabilidade de aceitar esse fato. Creio que na nossa mente, preferiríamos aceitar que essa história nunca aconteceu e que não passa de uma idéia absurda que surgiu na cabeça de algum doente burlesco mas quando nos deparamos com os fatos concretos a mente se fixa em nossa cabeça de modo que só nos resta lamentar pelo ocorrido e tentar esquece-lo para que isso não mude nossas vidas de forma indireta pois depois que se tem o conhecimento de uma coisa dessas nunca mais seremos a pessoa que fomos antes…

Sueño Peligroso

In ficção on Novembro 8, 2005 at 11:59 pm

Existem diversas formas de sono perigoso – pensou consigo – e esta definitivamente não é uma delas. Ele recem acordava de seu sono e por algum motivo um medo tremendo tomava conta de sua pele fazendo com que toda a pelugem pouco desenvolvida da superfície da pele de seus antebraços se levantassem em coro gigantesco.
Você percebe? Acordar as 19:59 minutos e descobrir que a porta de seu quarto está aberta de frente para um monte de pessoas estranhas pode dar a impressão a um sujeito de que ele está passando por um sono perigoso, pois ao acordar a mente do sujeito ainda está confusa, pouco alerta, perdida entre o macio mundo dos sonhos e a dura (e muitas vezes maldita realidade).

Mas perceba, este não é um caso de sono perigoso, mas sim uma percepção, um equívoco daquele pobre homem ao acordar com pressa e ouvir risadas a sua volta. Por sorte, talvez as risadas não fossem para ele e ele percebeu que não havia nada do que se envergonhar.

Mas sim, definitivamente existem outras formas de sono perigoso. Sim, existem.

Veja por exemplo o caso deste homem

Em Calle, na altura na intersecção da Avenida Peru, se pode observar este sujeito, que prefere dormir a cerca das rodas dos veículos, ação que pode ocasionar uma tragédia.
As pessoas que transitam regularmente por este setor asseguram que este indivíduo tem o costume de dormir dessa maneira.
A ficção, senhores leitores, pode ser ainda mais estranha do que a realidade.
Sim. Ela pode.

Para Ana, dormir em frente a TV é um hábito comum que se tornou um pesadelo no dia que ela acordou com a casa infestada pelo fogo corredor que se espalhava com rapidez pelo sofá onde ela dormia. Quando ela acordou metade do seu rosto já estava em estado irrecuperável pelas queimaduras de terceiro grau inflingidas por ele. A casa de Ana debulhava em chamas e o butijão prestes a explodir apitava como um presságio dos minutos de sua morte. Por uma ironia do destino, conta Ana, a TV, sua fiel companheira, fora generosa, ao acorda-la com a imagem de um filme de guerra onde o sujeito acabara de ter metade do rosto explodido por uma granada e saia gritando por causa da dor que lhe fora inflingida. Salvou-se por fim mas cicatriz permanece até hoje para lhe lembrar que o sono pode ser perigoso.

Não é de se assustar tambem que Clara Charf, esposa do guerrilheiro Carlos Marighela já soubesse do risco do sono perigoso. Ele contara que certa vez, durante uma operação diversos amigos dormiram sob a noite da floresta. O grupo de guerrilheiros foi encontrado pelos inimigos e quase todos os 40 guerrilheiros foram pegos de surpresa pelos tiros que perfuraram seus corpos de um lado a outro.

A realidade não é tão macia quanto a ficção, eu repito. Um grupo de 15 homens e mulheres, em travessia da fronteira do méxico para os EUA, foram encontrados, dentro de uma lancha pelo oceano passífico. Sua meta como a de milhões de imigrantes era de fazer a vida nos EUA trabalhando, mas estes tiveram azar. Foram encontrados TODOS dormindo sobre a lancha. O fato é curioso, mas o percurso que eles tiveram que atravessar até alí justifica seu cansaço corporal. A polícia explodiu a lancha e nenhum sobreviveu.

Talvez por causa do mal humor com que Gustavo acaba de acordar de seu sono perigoso, ele tenha sido tão negativista em relação a tudo isso, mas fica o recado:

Durma tranquilo.