Gustavo

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Idylliu

In Egotrip on Junho 25, 2008 at 8:30 pm

A sensação de que o tempo não existe

Caiu sobre brasília o sol do fim de tarde. O momento que os pintores, fotógrafos e cineastas chamam de hora mágica. Quando toda fotografia sai bonita. Um cobertor de sol alaranjado paira sobre tudo para tingir a vida, enche os olhos.

Os pássaros entrelaçam-se no céu em vôos curtos de um poste ao outro, de uma árvore à um alpendre, confundiram-se. Pairaram de asas ora abertas, ora fechadas. Os pássaros, acostumados pardais ou foragidos sabiás, sobrevoaram o casal de namorados, que de mãos dadas observavam a vida passando, o mavioso canto diário. Sentiu-se o tempo tão devagar. Mas o relógio nasceu para desmentir as ilusões, o tempo passa sim e passa depressa. “Você me dá a sensação de que não existe o tempo”, foi o que ele quis dizer a ela. Quem dera ele tivesse dito, mas a mecânica da curiosa modernidade impulsiona os ponteiros “Responsabilidade, pressa, ação”, diz o relógio a cada tic, a cada tac. Não há tempo para os namorados, viventes por natureza despreocupados.

O riso das crianças, o cheiro de terra molhada, a pipoca doce, nesta tarde comemorou-se o aniversário de uma cidade satélite. O palhaço incitou as crianças a cantar parabéns àquela cidade que ano-a-ano tomava novas formas. Asfaltos foram traçados, casas e edifícios foram erguidos. Vem ligeira esta modernidade de poeira suspensa e concreto recente, é triste porque rouba o tempo e o espaço do casal de namorados. A chegada desta dinâmica urbana é bem vinda por aqui, mas fica na memória a lembrança da época idílica, quando o tempo era só mais um detalhe.

Ele, o namorado, quis levá-la para passear, quis dançar ao som das engrenagens urbanas, do canto dos ventos voadores. E dançaram de mãos dadas no estranho ritmo de dos que andam sem destino. Quando ela parou de andar o sol laranja banhava o seu rosto e ele a beijou gratuitamente, quis dizer tantas coisinhas, significavam demais. Mas tinha o tempo, o dinheiro, a modernidade, ele não conseguiu dizer, havia um peso em seu peito, o peso de lembrar que entre os sonhos e a vida real há um abismo perigoso, em muitos casos fatal.

Independente dos perigos da vida urbana, capitalista e apressada ele sentiu-se bem por ela existir, pelo breve passeio. A hora passou, o celular tocou, ele se foi e a saudade ficou.

Para minhha querida neguinha companheira: Fulô.

Estranho dia, e comiseração

In Egotrip, ficção on Janeiro 17, 2008 at 7:16 pm

Era um dia complicado, dor de cabeça, mal humor, calor. Eu confesso, estava a ponto de chorar. Digno de comiseração. A empregada da minha casa veio passando mal, isso foi há um mês, e chegou febril e mesmo assim realizamos todas as ações, não reparei que ela estava doente, eu devia estar num dia daqueles, de correria, mas ela suava como um porco que acabou de trepar. Eu não reparei. Tudo bem, isso foi há um mês.
Hoje eu acordei de mal humor, tive um pesadelo terrível, sonhei que um sujeito invadia a minha casa, sequestrava duas mulheres que estavam comigo e me prendia. Ele me torturava arrancando uma das minhas orelhas, me fazia implorar pela vida, eu ficava com o rosto colado no chão e com os olhos arregalados esperando pelo pior. Em certo momento eu conseguia escapar e fugia correndo, alucinado, fechava o portão da casa e olhava para trás, ele, o antagonista, ainda não tinha me visto, porém já tinha percebido que eu havia escapado. Eu entrava num matagal e dalí prosseguia para um pedregulho, para me esconder. O maldito vinha andando. Eu achava que estava bem escondido, mas ele vinha exatamente na minha direção. Eu fugia para dentro de uma casa e encontrava uma faca que usava para perfurar a barriga do criminoso e fazer um corte em seu rosto. E então eu saia desse local, mas o criminoso ainda estava vivo e vinha andando atrás de mim, e então eu era obrigado a cortar o pescoço dele para que morresse. Eu saia, sem querer assistir a miséria daquele homem, sofrendo com a garganta cortada diante de mim. Eu voltava para minha casa e encontrava o meu cachorro, que é o cachorro que possuo na vida real. O cachoro me atacava, era o espírito do assassino que estava incorporado no meu cão! Ele me mordia, arrancava grandes nacos da minha carne, e num certo momento ele falava, com sua voz canina, que iria me destruir, completamente, porque me odiava. E então eu parava e discutia, dizia que por mais que ele me odiasse, eu nada poderia fazer, porque não sabia sequer qual era a razão do ódio que ele tinha por mim, e pedia desculpas caso eu tivesse feito algo em meu passado que o irritasse. Mas ele não me dizia nada, não explicava o porquê do ódio, eu, por não me lembrar de motivo algum, assumi que fosse um ódio gratuito. Mas aí então o demônio saia do corpo de meu cachorro e me deixava finalmente em paz, severamente danificado, psicológica e fisicamente, eu acordei, debilitado na manhã de hoje. A casa estava vazia, tive que alimentar os pássaros e os cachorros.
Olhei a caixa de correio e lá estava uma carta que eu abrí com cuidado para não estragar demais o envelope. Qual não foi minha surpresa ao saber que a minha empregada estava me ameaçando. Ela queria me processar pelo meu descaso como empregador, por tê-la feito trabalhar num dia de febre, e que isso lhe causara grandes aflições à saúde e ao psicológico dela. Quase rí, estariamos ambos tendo maus dias, em dias diferentes. A carta me deixou ainda mais abalado do que o pesadelo, ou talvez da mesma forma, não sei dizer.

Fui ao restaurante almoçar, não havia mais comida congelada em casa, e um homem de porte atlético discutia suas teorias fascistas com um outro sujeito, provavelmente seu irmão, que ouvia tudo calado, apenas comendo, sem muito gosto. Explicava ao colega que os gordos são animais, e que são sujos como são os pervertidos sexuais, pois o pensamento em comida do gordo é luxuriante, seus hábitos alimentares são bestiais e sua aparência rotunda, uma blasfêmia. O ideal grego de beleza, quase nazista. Mas para o meu espanto, na mesma mesa em que ele estava sentado comendo se sentou uma mulher gorda, ela era enorme, e era realmente feia, e comia voraz, a comida caia pelas bordas do prato, e ela repetia. Enquanto isso o sujeito atlético olhava com reprovação “Está vendo só! É o que eu estou dizendo”. Por algum motivo senti raiva de todos presentes naquela mesa, não pareciam humanos, pareciam ter sido unidos por um trágico destino, falando em Grécia, por um ato de crueldade dos Deuses. Porque estariam juntos, alí naquele momento, um homem que odeia gordos, com um antipático, com uma gorda tremenda? Mas o odiador de gordos se humanizou quando me disse: “Quando eu era como você! Eu pensava como você, e tudo o que os outros diziam parecia não me fazer sentido! Mas eu tive alguém para me educar, e vou educar você! Pára de comer essa comida agora!” Ela queria repetir o prato, mas ele não deixava.

Eu contemplava os dois brigando enquanto pensava que não havia fundamento algum na dramaturgia da vida cotidiana.

A batida e o tribunal

In Egotrip, ficção on Dezembro 3, 2007 at 6:16 pm

Há um mês, andando de carro eu entrava em um balão quando fui ultrapassado e batí no outro carro
No mês retrasado fui vítima e autor de uma batida com duplos culpados. Tanto eu, quanto o outro carro envolvido fomos vítimas e autores da batida. Explico aqui com total sinceridade.

Eu transladava de um lado para o outro da cidade, era uma longa viagem. No meio do caminho a pista estava completamente vazia, havia apenas um carro além do meu, olhei no retrovisor, ele estava a direita e atrás. O balão era espaçoso, percebí que eu deveria virar a minha direita, mas que tinha passado na entrada e então resolví fazer o balão para pegar o meu caminho certo. Subitamente, quando olho no retrovisor, o outro carro me ultrapassa pela esquerda na entrada do balão. No momento em que eu percebí a ultrapassagem não havia mais tempo para desviar, e batemos, roda com roda. Ele parou do lado de dentro do balão, eu parei do lado de fora.

Com o homem do outro carro estavam duas pessoas, uma criança de uns oito anos e uma garota de cerca de desesseis anos. Ele saiu do carro e ficou olhando a batida. Eu permaneci um pouco dentro do carro, me culpava pelo acidente. “QUE IDIOTA QUE EU SOU” eu dizia. Abaixei o som, e saí do jeito que estava, sem camisa, o dia estava quente.

Observei a batida, o para choque dele estava danificado, e a parte da roda. O meu carro foi danificado na porta e na parte da roda. Não houveram grandes danos. A colisão não foi tão forte.

Conversei com ele calmamente, passei meus dados, nome, rg, endereço, telefone e fui embora nervoso, como se eu fosse o total culpado pelo acidente. Prossegui com minha viagem, a consciência estava pesada. Ainda teria que enfrentar meus pais, eu sou estagiário, ganho um salário de 400 reais, como iria pagar pelo estrago. Combinei com o homem que tratariamos do assunto sem envolver justiça.

Dias depois começamos as negociações por telefone, e a cada vez que ele me ligava cobrando (1300R$ o valor do conserto no carro dele) eu ficava pensativo. Ele me enchia com aquela voz de culpado, e eu pensava melhor sobre a ocasião, e eu entendia “ele me ultrapassou na entrada do balão. Eu estava nervoso e assumi a culpa, mas eu não tive culpa, ele está querendo se aproveitar de mim. Vou reduzir o preço desse pagamento, apenas para evitar problemas com a justiça. Sugerí que ele diminuísse o preço para R$600,00, e ele aceitou sem hesitar. Será que o valor estrago do carro era realmente de 1300R$? Ele não teria aceitado minha oferta tão rapidamente. E mesmo que fosse, e o meu carro que também sofreu com a colisão? Ele poderia ter esperado que eu entrasse no balão e depois me ultrapassado, ele não precisava nem sequer me ultrapasssar, a pista era larga. Havia espaço para os dois carros. Mas ele me ultrapassou, e batemos. Depois que ele me ligou algumas vezes, ele sugeriu que eu vendesse meu computador, me perguntou por quanto eu poderia vender e eu respondí “por 2000R$” e ele disse, “ahhh, é coisa de bacana”. A partir daí eu perdí as estribeiras, fiquei ofendido com o comentário e já estava com raiva, por ter raciocinado que eu não era o culpado da história, e que ele não era vítima. Prorrogamos o acordo até que ele decidiu me levar ao tribunal.

Na audiência conciliatória ele apresentou um depoimento distorcido, dizia mais ou menos que estavamos ambos em baixa velocidade (quase na mesma velocidade), e que eu virei imprudentemente para cima do veículo dele, causando o acidente. Ele sugeriu também que eu estava bêbado no momento, alegou que por eu estar sem camisa, devia estar chumbado. Enfim. Eu fui contra esse depoimento superficial e repleto de omissões. Se ele sabia que tem razão, por que esconder certos fatos ? Aquele que tem razão numa causa quer expor toda a verdade, e não omiti-la.

A seguir, o meu depoimento:

AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO

A 27 de novembro de 2007 às 15h07, na Circunscrição Judiciária de Sobradinho/DF, e na sala de audiências deste Juízo, presentes a MM. Juíza, Dra. CARLA PATRÍCIA FRADE NOGUEIRA LOPES e o Conciliador, Dr. ALINE RADICA DE CARVALHO, à hora designada, foi aberta a audiência de Conciliação nos autos da ação supramencionada. Feito o pregão dentro das formalidades legais, a ele responderam as partes. Tentada a conciliação esta restou infrutífera. A parte autora requereu a juntada de documentos, o que foi deferido pela MM(a). Juíza. Pela parte requerida foi ofertada contestação ORAL, acompanhada de documentos, nos seguintes termos: ” Que a colisão dos veículos foi frente com frente causando dano aos dois veículos, que o requerente foi quem ultrapssou pela esquerda na entrada do balão, sendo que o requerido tentou evitar a colisão sendo que o requerido estava fazendo a curva do balão quando foi ultrapssado em alta velocidade não tendo tempo hábil para tentar desviar do veículo do autor, que o veículo do requerido é que estava em baixa velocidade e do autor em alta velocidade, que diante da situação o requerido por ter ficado nervoso no momento assumiu a culpa no intuito de evitar maiores transtornos, que o acordo de R$ 600,00 (seiscentos reais) divido em duas parcelas foi cancelado devido ao pedido do autor por cheques, sendo que o requerido é estagiário, e que nenhum momento o carro do requerido entrou em discursão, que as acusão de imprudências e culposo não são verdadeiras, o requerido antes da colisão o requerido avistou o requerente pelo retrovisor no qual estava a sua direita e logo após foi ultrapassado pela esquerda na entrada do balão.” Sobre os documentos juntados pelo autor a parte requerida não quis se manifestar. Sobre os documentos juntados pela parte requerida o autor não quis se manifestar. As partes informaram que não possuem mais provas a produzir. Pela MM. juíza foi determinada a conclusão dos autos para sentença. Intimados os presentes. NADA MAIS HAVENDO ENCERROU-SE O PRESENTE TERMO QUE VAI DEVIDAMENTE ASSINADO PELOS PRESENTES..

A próxima audiência ainda não foi marcada. A minha sugestão é que cada um pague pelos danos do seu carro. Vamos ver no que vai dar.