Gustavo

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A professora de Piano

In cinema on Maio 23, 2008 at 2:56 pm

Direção: Michael Haneke
Elenco: Isabelle Huppert, Annie Girardot


Filmes e música são parentes próximos e boa música não se mede pela forma como se tocam nas teclas de um piano, mas sim pela forma como se trata o silêncio entre as notas, e o silêncio neste filme é congelante.

A Professora de Piano dedilha assuntos delicados de forma seca. Se assistirmos esta obra do alto do pedestal de nossa moralidade é certo que sairemos ofendidos, com a consciência abalada, porém, como obra cinematográfica, o filme é ousado e provocador.

O espectador adentra sem pressa na privacidade da professora de piano, uma mulher ríspida e triste. Adentra em sua vida, descobrindo que ela é também uma mulher reprimida sexualmente, e consequentemente pervertida. Descobrímos aos poucos as causas dessa repressão. Na faixa dos 30 para 40 anos a protagonista ainda vive com sua mãe, uma mulher possessiva. Ela se envolve em um caso sexual com um de seus alunos e acaba estranhamente apaixonada, mas aqui não existem inocentes, somente culpados.

O enfadonho dia da professora de piano se mostra diferente do que esperávamos quando o contraste se torna evidente. O arquetipo da figura recatada de uma professora de piano soa como uma personagem dos anos vinte, mas o contexto da história sugere uma grande quebra do arquétipo da civilidade pudorada quando a professora visita uma locadora de videos pornográficos procurando por prazer, ela enfrenta a humilhação de esperar por uma vaga numa cabine de videos eróticos.

Aos poucos a professora revela mais e mais hábitos íntimos sempre perversos e doentios, mas é mantido em momento uma distância da vulgaridade.

A história fala sobre perversão, mas não somente sobre isso, talvez sobre a incapacidade, ou a incompatibilidade das diversas formas de amor se é que ainda existe algum amor quando o sexo invade os hábitos pessoais de uma pessoa até lhe tornar uma caricatura disforme de sí mesmo, sempre disfarçada sobre uma fachada impecável de mulher recatada.

O filme é uma corajosa empreitada, tem a força de uma estocada no peito e se mantém poderoso da sequência de abertura até os créditos finais. É uma ópera trágica na qual a música é especial e atinge acordes profundos, mas é o silêncio quem nos diz tudo.

A Capital dos Mortos

In cinema, jornalismo on Maio 22, 2008 at 2:47 pm

O longa metragem, A Capital dos Mortos ressucitou os mortos vivos de Brasília

Foram 27 meses de produção do filme longa-metragem independente sobre uma invasão de Zumbis em Brasília, realizado na raça e na coragem na base do cinema digital, sem quase nenhum dinheiro. Os responsáveis pela loucura: Tiago Belotti, Rodrigo Luiz Martins e uma série de cúmplices, que trabalharam na produção, no elenco e figurando como zumbis.

A estréia oficial do filme ocorreu no dia 2 de Maio no Cine Brasília e lotou o cinema, teve gente que ficou sentada nas escadas, o estacionamento estava lotado, muitos alí participaram do filme e queriam ver o resultado na tela. E o filme foi bom, o público riu, se assustou e vibrou com o filme que acontece em ação ininterrupta.

A Capital tem o primeiro mérito que é a coragem de sua equipe de produzir sem dinheiro, isso mostra que idependente da existência de paternalismos estatais, existe gente que segura o cinema na raça, mostra também como os cineastas de Brasília são capazes de sair do marasmo, criando momentos de fervura cultural na cidade das longas distâncias, e por último, demonstra a espontaneidade da criação brasiliense, assim como a criação audiovisual recifense.

O segundo mérito do filme é a sua despretensão e a capacidade de fazer graça dentro de um clima de filme que não é necessariamente cômico, o filme é uma boa diversão, melhor do que muita coisa que existe na TV. Como produto de entretenimento A Capital dos Mortos realiza seus objetivos, tem a capacidade de não permitir a dispersão de um público adaptado a era da velocidade, diverte sem vulgaridade e se aguenta no ritmo constante do início ao fim.

O terceiro mérito do filme é o carisma que ele ganhou na Capital, a comunidade do orkut possui cerca de 1500 membros que discutiram durante e após a produção sobre as cenas gravadas, sobre as possibilidades de continuações e supõem o que fariam se realmente houvesse uma invasão de zumbis. Os cúmplices do filme participaram da produção fielmente, enchendo o rosto de maquiagem, contribuíram para a realização e deram a força que uma equipe sem dinheiro, à mercê do acaso, precisa para realizar uma produção tão gigantesca.

Brasiliense ou não, assistir à A Capital dos Mortos é preciso.

Visite o site www.acapitaldosmortos.blogspot.com

O Olho que tudo vê

In cinema on Junho 11, 2007 at 8:07 am

Você está sentado. Silêncio. Sua própria respiração contida, sibilando ao passo de outra respiração dentro da mesma sala. Nos intervalos das duas respirações apenas um frio e pavoroso silêncio.
Seus olhos se abrem.

As paredes de aço maciço brilham vigorosamente. É tão perfeito. A inquietação no crescendo com o chiado da OUTRA respiração praticamente em sintonia com a sua própria. Você quer ter tudo mas não pode.

Um guardião Burlesco apoiado sobre três manoplas que sustentam o peso de seu grande corpo redondo de apenas um olho, que tudo vê. Respira, imóvel, estático, como se você não existisse. O ciclope, guardião do cofre metálico.

Se saísse de seu topor poderia facilmente erguer as imensas manoplas esmagando seu frágil crânio como casca de ovo, espremendo sua massa encefálica, os olhos seriam empurrados para fora de saus órbitas pela presão interna e seu cérebro implodiria, despejado como gosma através de suas narinas. O medo desse monstro torna gélida até a tua entranha. Ele fareja o medo.

Apesar do medo interno o farsante pode dissimular seu odor. Se por um segundo titubear o disfarce será arruinado. Se quer ser um bom farsante, precisa enganar até a sí mesmo. Precisa viver sua própria mentira.

Isto se chama verdadeira atuação. Assim funciona o jogo eterno entre câmera e ator. A câmera de cinema é o olho que tudo vê. A menor hesitação será captada e impressa num fotograma com precisão.

A câmera, para aquele que não entende seu poder, pode ser o maior inimigo do ator.
Nunca fita-la diretamente nos olhos, sob o preço de se tornar pedra. É preciso encarar a vida através do prisma dos olhos de um personagem ficcional para manter-se a salvo.

Só depois de aprender este fato o ator poderá enfim completar seu ritual frente a este olho e fugir deste cofre para ser ovacionado com olhos de sinceridade gratuita e de agradecimento do público por sua excelente performance.

Pois o ciclope guardião, longe de matar, eterniza os verdadeiros atores.