Direção: Michael Haneke
Elenco: Isabelle Huppert, Annie Girardot

Filmes e música são parentes próximos e boa música não se mede pela forma como se tocam nas teclas de um piano, mas sim pela forma como se trata o silêncio entre as notas, e o silêncio neste filme é congelante.
A Professora de Piano dedilha assuntos delicados de forma seca. Se assistirmos esta obra do alto do pedestal de nossa moralidade é certo que sairemos ofendidos, com a consciência abalada, porém, como obra cinematográfica, o filme é ousado e provocador.
O espectador adentra sem pressa na privacidade da professora de piano, uma mulher ríspida e triste. Adentra em sua vida, descobrindo que ela é também uma mulher reprimida sexualmente, e consequentemente pervertida. Descobrímos aos poucos as causas dessa repressão. Na faixa dos 30 para 40 anos a protagonista ainda vive com sua mãe, uma mulher possessiva. Ela se envolve em um caso sexual com um de seus alunos e acaba estranhamente apaixonada, mas aqui não existem inocentes, somente culpados.
O enfadonho dia da professora de piano se mostra diferente do que esperávamos quando o contraste se torna evidente. O arquetipo da figura recatada de uma professora de piano soa como uma personagem dos anos vinte, mas o contexto da história sugere uma grande quebra do arquétipo da civilidade pudorada quando a professora visita uma locadora de videos pornográficos procurando por prazer, ela enfrenta a humilhação de esperar por uma vaga numa cabine de videos eróticos.
Aos poucos a professora revela mais e mais hábitos íntimos sempre perversos e doentios, mas é mantido em momento uma distância da vulgaridade.
A história fala sobre perversão, mas não somente sobre isso, talvez sobre a incapacidade, ou a incompatibilidade das diversas formas de amor se é que ainda existe algum amor quando o sexo invade os hábitos pessoais de uma pessoa até lhe tornar uma caricatura disforme de sí mesmo, sempre disfarçada sobre uma fachada impecável de mulher recatada.
O filme é uma corajosa empreitada, tem a força de uma estocada no peito e se mantém poderoso da sequência de abertura até os créditos finais. É uma ópera trágica na qual a música é especial e atinge acordes profundos, mas é o silêncio quem nos diz tudo.



