Gustavo

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O segredo das mãos de Pedrinho

In 1 on Novembro 11, 2008 at 4:10 am

Em uma terra que não existe, dentro do país imaginário, houve um dia um cotejo inesperado, anonimamente antecipado por um duende malcriado. A esperança foi um presente herdado do dia mágico, do lago parado, do duende calado. Pedrinho e Cristiane tinham se encontrado.

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A grade da janela de Cristiane estava fechada, Pedrinho ficou do lado de fora enfiando a mão para tentar alcançá-la. Já era tarde da noite e a menininha estava dormindo, de tanto trabalho que teve pra limpar a casa e preparar a comida para o banquete de família que estava por vir no dia seguinte. Pedrinho esticou a mão na janela e conseguiu tocar a cama, mas ela dormia para o lado de lá.

Pedrinho se abaixou, catou um graveto e esticou pela janela. Passou no cabelo de Cristiane. Ela deve ter pensado que fosse um mosquito porque se coçou e tremeu todinha. Na agitação da noite, a menina se descobriu. Pedrinho pegou o graveto e puxou de volta a coberta para mantê-la aquecida. Ela virou-se para o o outro lado da cama e ficou bem perto de Pedrinho. Ele viu o rosto angelical da menina dormindo e lembrou-se daquela mesma manhã que gastou ao lado dela de mãos dadas correndo pelo lado de fora da casa, estavam buscando alguma coisa, não sabiam o que, mas estavam juntos. Pedrinho admirou o rostinho da garota e viu o luar tocar o rosto e tingir de prata os cabelos macios. Ele levou a mão até a cabeça dela e acariciou seus cabelos.

Foi então que a palma de sua mão começou a coçar. Pedrinho então fechou a janela em silêncio para que Cristiane não pegasse frio e fechou as mãos. Algo tinha aparecido alí. Ele olhou com muita atenção e fechou a mão formando uma concha com um pequeno buraco para que pudesse colocar o olho e ver o que tinha aparecido. Não queria que aquilo que estava alí dentro de suas mãos escapasse de maneira nenhuma. Ele não sabia nem dizer qual era o nome daquilo que tinha aparecido bem na covinha que se forma no centro da mão quando ela está fechada, mas era alguma coisa bem bonita que ele guardou e não quis mostrar para ninguém.

Pedrinho saiu correndo pelo matagal com as mãos fechadas, tendo como luz apenas o luar, quase tropeçou algumas vezes nas raízes grossas das árvores gigantescas e teve que se cuidar para não cair de rosto no chão. Com as mãos fechadas não poderia se apoiar em nada. Passou pelas sombras e ouviu o zunido dos morcegos, o uivo dos vira latas, o sussurro da brisa que fazia côcegas nas folhas que farfalhavam alvoroçadas.

Pedrinho encontrou a beira de um lago e sentou-se em sua borda. Descalçou-se da botina apertada e deixou que os dedos dos pés afundassem na lama gelada. Um sapo a espreita deu um salto para longe dos pés de pedrinho e coaxou curioso. Pedrinho escondeu a mão do sapo e não deixou que ele visse o segredo que havia alí guardado. Do lado de cá um vagalume tentou iluminar o segredo em suas mãos, mas Pedrinho guardou bem fechado as mãos fechadas próximo da barriga curvando-se, e não deixou que ninguém visse. Foram todos embora, deixaram Pedrinho e o lago manso. Pedrinho gastava horas observando o que havia de tão especial dentro de suas mãos, e de vez em quando descansava observando a lua refletida no lago. Com o passar das horas a lua e sua voz melodiosa voz noturna escapou-se do céu, só.

Pedrinho já estava cansado quando o sol surgiu, mas continuou sentado quase querendo chorar, porque não sabia o que estava sentindo nem guardando entre as mãos. Apesar de sentado, quieto e livre de perigos, era como se estivesse caindo do céu, e subindo de novo, uma aventura humana que vivia pela primeira vez. Mal sabia dizer, mas se ficasse parado, esse sentimento misterioso, do segredo guardado, quase dava pra ver.

Cristiane viu de longe pela manhã Pedrinho curvado na beira do lago ao pé de uma árvore sem folhas e correu para abraçá-lo:
“Oi Pedrinho”, ela disse, “Vamos correr mais um pouco no quintal atrás da minha casa?”
“Agora eu não posso. Eu achei um troço, tá aqui guardadado, eu não posso abrir a mão, porque esse troço pode escapar, ou sei lá. Você pode achar feio e querer jogar fora. Sei lá o que pode acontecer se eu abrir a mão”. Pedrinho queria esconder as mãos de Cristiane, mas ao mesmo tempo estava satisfeito com a companhia dela. Queria que ela ficasse por alí e não fosse mais embora. Ele disfarçou que escondia algo, mas ela percebeu, e tentou ver o que estava alí dentro. Ele escondeu as mãos fechadas do outro lado.

Cristiane ficou curiossa e insistiu para que ele abrisse, Pedrinho não quis e se jogou no lago, com as mãos estendidas para que a água não vazasse pelas frestas dos dedos e molhasse o segredo. Pedrinho enxarcou a prórpia roupa e pensou na bronca que levaria da mãe quando voltasse para casa. Cristiane não teve coragem de entrar na lagoa. Era muito cedo e estava muito frio, o sol era apenas um pré-adolescente boiando no céu tão cheio de incertezas quanto ao resto do dia, quanto ao resto da vida, assim como os dois jovens banhados por sua luz à beira do lago. Pedrinho chegou mais perto de Cristiane, ficando com água até a barriga.

“Eu não posso mostrar pra você. Na verdade, o que eu tenho aqui, é pra você, mas pode ser que você não entenda. Vai que você joga fora, vai que você não gosta. Vai que você nem liga!”
“ahhh. Eu vou gostar sim, me mostra, me mostra”, e ela estava morta de curiosidade. Nunca se viu aquela garota tão alvoroçada logo depois do café da manhã. Geralmente falava devagar, tinha preguiça de comer o pão e demorava pra sair da cama, só ia virar gente lá pra depois das onze horas quando o galo já tinha desistido de cantar.

E Pedrinho não quis. Cristiane falou que se ele não quisesse abrir as mãos, então ela iria brincar sozinha lá no quintal, e ia deixa-lo molhado e sozinho dentro da lagoa. Pedrinho estava incorformado. Criou coragem e caminhou lentamente na direção dela. Manteve as mãos fechadas esticadas de frente para ela. “Abre logo! Quero ver o que tem aí dentro”. Os dedos de Pedrinho estavam cerrados com força e aos poucos foram ficando frouxos. Sua pele estava enrugada por causa da água fria que invadiu até os poros enchendo-os de umidade. Pedrinho tremia de frio e fazia um barulho engraçado ao respirar, o ar de sua boca saia em forma de fumaça. Cristiane deu um beijo na boca dele que encheu de calor o coração, e os dedos foram enfraquecendo até abrirem-se por completo revelando o que havia de tão precioso escondido entre as mãos de Pedrinho, e não havia nada.

“Ei. Você me enganou. Não tinha nada”.
“Tinha sim. Eu juro que tinha”
“Então o que é que tinha?”
“Nâo sei.”
“Como era?”
“Não sei.”
“De que tamanho era?”
“Não sei.”
“De que cor era?”
“Não sei.”
“Era alguma coisa?”
“Era.”
“O que?”
“Não sei.”
“ahhhh. Para com isso Pedrinho. Tchau, eu vou brincar”.

E Cristiane saiu correndo, deixou Pedrinho com os pés ainda chafurdados no lodo, com as mãos vazias, os ombros caídos e o corpo molhado. Pedrinho olhou para o céu, olhou para a lagoa, nem ele pode compreender o que viu por tanto tempo entre próprios dedos. Nem ele entende, foi alguma coisa mágica, quase sem explicação.

Naquela mesma noite a janela de Cristiane estava fechada com uma cortina. Pedrinho dormia cansado, com o coração abalado. Numa clareira, em meio à mata, havia uma fogueira e um duende sentado. Um sorriso de bochecha a bochecha, claramente no rosto estampado. O duende cupido, insensato e piadista, divertido e analista, deixou para Cristiane um coração sonolento e para o garoto um motor velho e descalibrado que no peito bate no compasso errado, no ritmo varado do tempo escorrido, do segredo revelado, do mistério encerrado, do amor não correspondido.

 O segredo perdendo o brilho, a vida ficando sem graça.

IESB marca presença no segundo Perro Loco

In 1 on Novembro 10, 2008 at 4:18 am

A segunda edição do Perro Loco - Festival de cinema universitário latino americano - realizado na Univesidade Federal de Goiania entre os dias 4 e 9 de novembro teve 186 obras inscritas entre ficções, documentários e animações. Representando o Distrito Federal houveram 4 filmes inscritos: Coletivo Planalto, Coletivo Desconstrução, Xuxu vou me mandar e Club Silêncio.

 

Coletivo Planalto, o meu filme (Leia-se Gustavo Serrate), e produção de Rodrigo Luiz Martins e Eurico Martins, é um video arte criado para experimentar a linguagem visual e narrativa. Não há uma história com início, meio e fim, não há uma história definida. O video dura 3h42 segundos com a imagem de uma poltrona de ônibus sendo observada num plano objetivo, em dado momento o observador tem “pensamentos dourados”, recorda da praia, que está tão distante de seu cotidiano brasiliense, seco e entediante. Não há uma compreensão intelectual para o filme, não há o que entender. É um filme para se assistir e interpretar como quiser. Uma das espectadoras do filme afirmou: “Não entendi muito bem. Acho que faltou contexto”, e outro expectador perguntou: “Qual era a sacada da praia?”. A resposta é: Não existe uma sacada no filme. Não há necessidade de um gran finale, trata-se apenas de uma experimentação audiovisual. Para ser bem sincero, confesso que fiquei surpreso quando recebí a notícia de que o filme fora aceito no festival, afinal eu havia enviado outros dois filmes, e apenas o filme experimental, com a narrativa menos “coerente”, foi justamente o selecionado para a mostra competitiva.

Vários realizadores e espectadores “curiosos” estiveram presentes nas exibições, houve debate com os realizadores (do qual não participei, pois perdi a hora) e votação do público para os melhores filmes. Viajei patrocinado pelo IESB, onde estudo jornalismo para a mostra do dia 8 ( sábado ). Os filmes mais relevantes da mostra competitiva que pude assistir foram: “Minha tia, meu primo”, da Universidade Estácio de Sá, Rio de janeiro. O filme fala sobre a tia de um video maker, uma figura bem engraçada e peculiar, que mora sozinha e tem como única companhia um canário dentro de uma gaiola que segundo ela foi um presente de Deus. “Ele entrou um dia e eu fechei todas as janelas. Como todas lojas estavam fechadas, no outro dia eu comprei uma gaiola e agora ele é meu filho”, diz a Tia. O que me chamou a atenção foi a espontaneidade da Tia, que já sonhou em ser atriz de cinema, e tinha a boca suja sem ser vulgar e sempre com bom humor. Muitas vezes ela pedia para que ele parasse de filmar, mas ele prosseguia filmando. Talvez se ele não a conhecesse tão bem não teria essa ousadia. Outro filme interessante foi o Nipon 96 – Después do Ruido, da Pontificia Universidad Católica del Perú. O filme narra uma invasão terrorista na embaixada do Japão que durou mais de 150 dias. A narrativa é criada de forma particular pois não enfoca apenas o drama dos reféns, mas toca num ponto crucial dos direitos humanos quando ressalta o ponto de vista dos terroristas e de suas famílias. Os terroristas foram todos assassinados após o incidente e suas mães choram até hoje, e cobram justiça “Eles também são humanos”, dizia uma das mães. Falar do ponto de vista do terrorista é uma escolha pouco usual para o cinema e o jornalismo.

Às 21h, houve o show “Palco Viramundo”, com seis bandas: Umbando (GO), Johnny Alfredo e seus Neurônios (GO / MG), Los Muertos Vivientes (ES),Club Silêncio (DF), Diego de Moraes e o Sindicato(GO) e Porcas Borboletas (MG). As duas últimas bandas: Diego de Moraes e o Sindicato e Porcas Borboletas destacam-se pela originalidade e energia no palco. Diego de Moaes tem letras extremamente criativas e quebra o preconceito que há sobre Goiania, de que lá gostam apenas de música serteneja. A banca toca Rock mas incorpora até um bandolim em sua apresentação. Porcas Borboletas, de Minas, me fez lembrar da força colossal dos Titãs em início de carreira, um dos vocalistas é cheio de movimentos performáticos que destacam a banda no palco. No final do show o vocalista parece morrer, de tanta energia que gastou, despenca do palco e cai fingindo-se de morto no meio da multidão. Detalhe é que horas mais tarde ele veio paquerar uma menina que estava conversando comigo e ficou intimidado, provavelmente pensado que ela fosse minha namorada. Os sons de Goiania e Minas Gerais me surpreenderam.

Júri Oficial do festival, formado pela jornalista e produtora audiovisual Márcia Deretti, pelos cineastas Cláudio Assis, Guilherme Sarmiento e Hans Bremer e pelo professor e diretor Carlos Cipriano, premiaram os oito filmes vencedores no domingo (9): Tiempo y Dolor (Pontificia Universidad Católica del Perú, Peru, 2006, Ficção), de Jorge Luis Gonzáles recebeu o prêmio por Domínio de linguagem. Inevitable (Pontificia Universidad Católica del Perú, Peru, 2005, Ficção), de Ivan D’Onadio Muñoz, recebeu o prêmio por Experimentação de linguagem. Emiterio (Universidad Nacional de Córdoba, Argentina, 2006, Documentário), de Diego Seppi e Jose Tabarelli, recebeu o prêmio de Expressão cultural. Hiato (Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Brasil, 2008, Documentário), de Vladimir Seixas, recebeu o prêmio de Melhor documentário. Corpo Frio (Universidade Federal do Ceará, Brasil, 2008, Animação), de André dias, recebeu o prêmio de Melhor animação. O Brilho dos Meus Olhos (Universidade Federal Fluminense, Brasil, 2006, Ficção), de Allan Ribeiro, recebeu o prêmio de Melhor ficção. Espuma e Osso (Universidade Federal do Ceará, Brasil, 2007, Ficção), de Gustavo Parente e Ticiano Monteiro, recebeu o prêmio especial do júri. Mesa de Bar (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil, 2008, Ficção), de Pedro Nora e Tiago Ribeiro também recebeu o prêmio especial do Juri.

Perro Loco mostrou-se um festival coerente em sua proposta, de festival voltado para o público universitário, com muitos filmes em vários dias de exibição e uma festa a altura com boas músicas, uma boa oportunidade para troca de informações entre estudantes e cineastas.

Assista Coletivo Planalto, o curta seleciona para este Perro Loco:

Vila dos sonhadores

In 1 on Novembro 3, 2008 at 3:34 am

Tudo começou no orkut com uma comunidade chamada “Vila dos Sonhadores”, na época em que eu frequentava o emaranhado das teias sociais, eu não encontrava nenhuma comunidade realmente interessante e inaugurei esta para falar de coisas corriqueiras para quem enxerga poesia em todo lugar, e para quem quer aprender a enxergar. A comunidade foi um sucesso na época, não faço idéia de como está hoje. O mote era:

“Vá embora. Estou tentando morrer. Estou farto do mundo e o mundo farto de mim. Agora só há lógica e razão, ciência e progresso…Leis da hidráulica, leis sociodinâmicas. Leis disso e daquilo outro. Não há lugar para ciclopes de três pernas… dos mares do sul. Nem lugar para magnólias… e mares de vinho. E nem para mim. E estou muito cansado… Adeus.”

O curta Vila dos sonhadores foi uma idéia de manter a simplicidade, de não me preocupar com uma narrativa tradicional, mas com a experimentação das sensações infantis, da forma como uma criança solitária vê o mundo. Eu queria muito mais fazer um curta que evocasse as sensações que eu sentí na minha infância do que um curta realista com uma história didática. Não há muito o que se “entender” desse filme. É um curta para se assistir sem muita preocupação intelectual. A idéia é entrar no unviverso da criança que quer colocar seu ursinho de pelúcia para voar, e que pelo menos na imaginação dele, consegue.

O urso do filme deve ter um ano a mais que eu. Tenho várias fotos de moleque andando abraçado com ele. O curta foi exibido no Perro Loco, um festival de Goiania e no Festival de Curtas do IESB, onde recebeu menção honrosa.

As almas, o ladrão e o sertanejo

In 1 on Novembro 3, 2008 at 2:12 am

Este conto eu não vivi, não presenciei, no entanto sei, pode bem ter sido verdade.

Dizem que a alma não nasce conosco, nasce sim quando se chora pela primeira vez. Aquele que nasceu sem chorar não ganhou alma ainda, há o caso da criança que segurou o choro até os quatro anos quando criou coragem e chorou pela primeira vez, só a partir daí foi capaz de sentir as emoções humanas em sua infinitude.

Quando a esposa de Aderaldo estava para dar a luz, morreu no parto junto com a criança em seu ventre. A criança já chorava mas engasgou com o sangue da hemorragia ainda dentro da mãe. A parideira inexperiente desmaiou no parto. Aderaldo só pode rezar e pedir a Deus que poupasse a vida das duas garotas: da mulher que amou e da pequena criança que estava para nascer e que um dia se tornaria adulta e bela como a mãe. Deus não poupou naquele momento o coração de nenhuma das duas, mas no momento do parto mal sucedido, uma vaca do rebanho da fazenda, ao lado de casa estava prestes a dar a luz. As duas almas recém libertas ainda vagavam pelas redondezas e foram absorvidas pelo choro do bezerro bebê.

Deus deve ter costurado as duas almas,  a da mãe e da filha, porque quando o bezerro berrou, Aderaldo sentiu uma leveza no coração que lhe poupou de maiores sofrimentos. Não foi a toa, aquele novilho foi das vacas o mais bem alimentado, banhado, e bem cuidado. Com o passar dos anos Aderaldo dedicou o amor a cuidar da vaca que cresceu saudável com duas almas costuradas, a de mãe e filha. Aderaldo sentia isso, sabia disso. Nunca contou para ninguém. Todos no entanto estranharam que não estivesse de luto.

Com o passar dos anos Aderaldo sentia a solidão da cama vazia, da falta de coragem e habilidade para conhecer uma nova mulher, da vontade de cuidar do bebê chorão que nem nasceu, de ver correr e crescer a criança que seria sua filha. A falta de vontade de acordar pelas manhãs fez a riqueza da fazenda de Aderaldo minguar aos poucos. Vendia seu rebanho para quem pagasse melhor, e a mata ao redor da fazenda ganhando tamanho, utilizava apenas uma estrada atravessada de dia a dia para comprar as provisões na feira da cidade, dormia muito e quase nunca sentia saudade, acreditava de verdade que suas duas garotas estavam atrás daqueles olhos rotundos, profundos, volumosos e negros da vaca crescida, só não se podiam comunicar.

Aderaldo recebia poucas visitas, todo fim de semana havia uma festa na cidade, um forró bom com rabeca sanfona e zambumba, mas Indira, a cunhada de Aderaldo, viúva de seu irmão, sentia-se sozinha demais ao ouvir aquela música feliz, ela lembrava-se do marido morto há alguns anos por uma doença de peito, infarto talvez.  Indira esperava o dia de festa para visitar Aderaldo, falavam das boas coisas do passado quando andavam todos juntos, Aderaldo, sua esposa, o irmão de Aderaldo e Indira a esposa de seu irmão. O pai de Aderaldo foi um violeiro dos bons, cheio de histórias e de modinhas para colorir as noites sertanejas. Indira, assim como Aderaldo, depois de inviuvada ficou solitária, sem amor. Vinha portanto conversar com o cunhado, não apenas para matar saudades, mas a sede. Quando já ficava tarde para que ela fosse embora, e a tarde chegava de propósito, Aderaldo a convidava “você pode dormir aqui se quiser, se meu irmão fosse vivo talvez não dava permissão, mas ele já está bem longe agora.”, e Indira sempre aceitava depois de reclamar da distância e de uma dor nos pés.

Dormiam juntos na mesma cama e faziam amor, cada um com sua própria saudade. Encontravam na carne do outro a paz para os próximos sete dias da semana. Acordavam juntos pela manhã e juntos gozavam com a expressão bonita de prazer. Suados, secavam-se nos lençois, com o vento da janela aberta com a cortina faceira esvoaçada. Levantavam com o berro do galo, com o cheiro de leite, com a vontade do pão.

A falta de disposição de Aderaldo para cuidar da fazenda fizera aos poucos a pobreza chegar. Notava-se em seus rosto algumas rugas do tempo. A vaca de alma costurada estava saudável, pastava todas as manhãs e fornecia o leite matinal. O pão era comprado na feira da cidade, as frutas poucas eram da horta cada vez mais reduzida. Apesar da tristeza diária, o coração do homem do campo ainda batia muito vivo, bebia todas as tarde um chá erva cidreira. Acalentar as mãos com a caneca quente aquece junto o coração como o abraço da pessoa querida. Tinha pensamentos dourados durante o chá do fim de tarde.

A cidade certa vez enfrentou uma seca que levou muita gente a miséria, apareceram uns tipos viajantes bem estranhos, chegados de longe. A pobreza de Aderaldo ainda não significava fome.

Indira convenceu Aderaldo de que ele deveria aprender a ler, apenas porque ela já tinha se engajado na empreitada, mas era envergonhada de sentar nas cadeiras das crianças, queria alguém para acompanhá-la. Além disso, como todo dia de forró ela e Aderaldo viam-se longe da festa como amantes, surgiu a afeição.

Aderaldo aceitou a proposta mal sabe-se porque, ele não era muito de sair, não era dado à coisas novas, mas a necessidade de conhecer as letras, de saber que “l e i t e” se escreve assim, “t r a b a l h o” assado, e “a m o r ” de outro jeito ainda mais simples mas na verdade era na prática um tanto complicado; tudo isso serviu de justificativa pra aprender a ler e quiçá escrever.

Deixava a fazenda sozinha todas as manhãs e quando ficava muito tarde, ele próprio dormia na casa de Indira, amavam-se e dormiam abraçados, quando desuniam-se durante a noite as mãos continuavam dadas. Aderaldo ganhou afeição com Indira e perdeu parte de sua obsessão com a vaca, mas ainda preocupava-se bastante.

Ligeiro era o peregrino mais novo na cidade. Carregava uma pequena maleta de couro marrom e quinas metálicas, um chapéu de palha, roupas surradas, um paletó cinza amarrotado e um cinto apertado com fivela de ouro. As botinas tinham línguas, mas não tinham sapateiros nem dinheiro para o conserto. A fome de ligeiro aumentava, o ronco da barriga implorava. Roubava um pão deixado quase de propósito pelo padeiro toda manhã. Se Ligeiro soubesse que não precisava roubar, bastava apenas pedir, não teria essa coragem. Tinha vergonha de pedir. Também tinha vergonha de roubar, mas quem rouba, rouba sozinho, e com o passar dos anos o ladrão aprende a engolir a vergonha de sí mesmo. A dignidade para alguns é apenas uma fachada, assim era para Ligeiro. Uma vergonha atrás da outra, acostumou-se a não morrer de fome, engolia a própria vergonha.

Ligeiro vagava a esmo pelas estradas pisoteadas, sujando de poeira as botas arregaçada até que descobriu a vaca de alma costurada. Quando Aderaldo ia assistir aulas de alfabetização na escola das crianças durante a tarde, Ligeiro corria para a fazendinha e roubava todo o leite das tetas volumosas da única vaca de Aderaldo. E como era bom o leite, e as frutas, e toda aquela tranquilidade de roubar escondido. Mas chegou um dia que Ligeiro quis carne, sangue e fartura.

Ligeiro gastou uma semana inteira pensando no jantar de anos atrás quando o pai matou um boi para festejar o aniversário de casamento da filha mais velha. A carne deu para tanta gente e a festa foi tão feliz que o gosto da carne nunca saiu de sua boca. E durante os sonhos Ligeiro salivava de fome da carne. Aquela vaca vistosa era mais gorda do que qualquer habitante da cidade. Só havia gente de poucas carnes na cidade, gente paupérrima naquele tempo magro. E Ligeiro sentiu raiva até do egoísmo de Aderaldo. Como podia um homem só guardar tanta carne para sí só, em troco de um copo de leite, de uma companhia bovina? Para a sorte de Ligeiro, Aderaldo já não gastava muito tempo na própria fazenda, vivia os encantos do amor sob outro teto. A oportunidade faz o ladrão, para o ladrão já feito a oportunidade é quando ocorre o roubo mais puro e sem culpa.

Foi na quinta-feira depois de uma semana inteira de desejos de carne que Ligeiro aproximou-se da fazenda e sob a luz de um lampião catou o machado de cortar lenha. A vaca com seu hálito de grama, que nunca passou por um arrepio de perigo nem percebeu o machado estendido sob seu pescoço. O machado levantado pelos braços fracos de Ligeiro tiveram peso suficiente para partir a carne do pescoço da vaca em dois nacos suculentos. A cabeça pendeu para um lado quando a força do aço abriu os nervos e estourou a coluna vertebral até expor as veias mais salientes, o sangue jorrou com força e transformou a terra em lama. Ligeiro procurou sua faca de estimação e fez um rasgo no pescoço da vaca que ajudou-a a morrer. E a vaca de alma costurada liberou o cheiro de ferro do sangue, morreu tentando debater-se.

A carne que Ligeiro comeu teve um gosto especial, gosto de festa com uma diferença: não havia gente para compartilhar, sobraria muita comida, não teve folia, apenas um silêncio misterioso, um pouco de medo e a sensação de culpa, de falta de dignidade de tirar o leite matinal de um homem solitário.

Quando Aderaldo chegou pela manhã e viu a vaca morta desesperou-se. Uma grande parte da carne do lombo havia sido esfaqueada, parte do couro arrancada e a carcaça toda no chão, desperdiçada, assassinada. O chão ainda estava molhado e o sangue ainda pingava das artérias abertas do pescoço, como a água restante de uma mangueira com a torneira fechada.

Aderaldo só podia chorar e chorar, ajoelhado no chão sobre o barro, sobre o sangue que a terra bebeu. Encostou o rosto na terra e seu rosto manchou-se de marrom e vermelho, a cor da terra molhada. Caiu de bruços e gastou duas horas olhando para o céu até que o choro finalmente cessou. Aderalbo percebeu com paz interior que as almas costuradas de sua esposa e filha estavam finalmente livres para diluirem-se pelo infinito do espaço.

Não haviam mais viúvos, não havia mais fome e a chuva abençoada do dia seguinte salvou muitas plantações da miséria, despencou sobre o teto da casa de Indira que agora também era casa de Aderaldo.

Ed

In 1 on Outubro 31, 2008 at 4:21 pm

O Ed é uma figura aqui do trabalho. Ele vive andando de um lado para o outro, trabalha no suporte de atendimento aos jornalistas, carrega coisas, comunica, faz este tipo de trabalho.

O que é peculiar sobre essa figura é o fato de que ele não chama ninguém pelo nome. Eu cumprimento: “E aí Ed!”, e ele “Fala Jorginho”, detalhe que meu nome é Gustavo. Ele chama as mulheres de Isa, Regina, Bete, e os homens ele chama de Miguel, Jorginho, Marco. É uma boa desculpa para não decorar o nome de ninguém, aí outro dia um jornalista o cumprimento e ele o chamou pelo nome: “E aí Irlam!”. E eu falei, “Oh Ed! O Irlam tu chama pelo nome né?”, e ele respondeu “É que o Irlam tem mais de 30 anos de casa!”. E sai rindo.

De vez em quando ele passa cantando. Todo mundo rí. É uma figura.

Hoje o Ed veio todo elegante, de roupa preta combinando com a cor da pele. Toda hora ele vai em direção a janela e fica observando, observando. Quase não trabalha.

Dos dois um, ou o Ed está esperando a hora do exame de fezes, ou está apaixonado!

AHUahuuahHUA

Alvejado

In 1 on Outubro 28, 2008 at 5:11 pm

Algo me alvejou, ai! Olha o sangueiro irmão.
Segura que… eu vou cair.

Cambaleou, cambaleou. De onde veio a pedra?

Já era bem noitinha e o povo lá de casa já tinha ligado pro celular “Volta pra casa cedo Gustavo”. “Volta pra casa Gu”, era o que eu queria ouvir. Só ela me chamava assim. Preciso dela, essa pedra me deixou assim, abalado. Tem sangue por todo o lado. Não vou voltar para casa nesse estado, de barba mal feita, de mente ébria, de pés suados, de roupa social.

Linda, me segura aqui, que eu to escorregando, meu peito parece que tá afundando, tá difícil respirar, enxergar. Tem um rastro por onde passo, é vermelho. To tão cansado, não quero voltar para casa hoje a noite, quero ficar contigo. Amanhecer na sua cama, como naquela época. Desculpa se fui embora sem avisar, eu gostava de você, mas na época não dava. Não dava. Tive que ir. E fui. Depois você sumiu, nunca mais me respondeu. Não te tiro a razão, eu também sumi.

Volta pra cá. Quero beijar a carne farta da tua boca, do teu corpo. Lembra daquele vestido preto que você usava quando eu te busquei na festa da casa da sua vó? Queria te ver com ele de novo. Você suspirava quando eu te beijava com mais força. Será que você ainda guardou um suspiro daquele pra mim?

Já é madrugada, mas não me importo, vou te acordar. Quando você ouvir dois gritos meio soprados na janela da sua kit, me atenda, quando ouvir duas batidas meio esquecidas na porta do seu apartamento, me atenda. Só espero que você não esteja com ninguém… que não esteja com ninguém, porque eu preciso dos cuidados da melhor e mais bonita enfeirmeira da face da terra.

To sangrando, me socorre.

Um entrevistador, duas gatinhas

In 1 on Outubro 28, 2008 at 1:13 pm

Um entrevistador, duas “gatinhas”.

Bom dia garotas.
Ai. Bom dia. Tudo de bom seu programa.
Show mesmo. Adorei.

Fiquei sabendo que vocês foram a uma festa ontem a noite. Como foi?
Foi tudo de bom. Só tinha gente bonita. Eu olhava para um lado, olhava para o outro, cheio de gente bonita.
E o DJ amiga? Tudo de bom! Ele deu uma piscada pra mim, eu fiquei lá bombando na pista de dança.

O que vocês fazem da vida meninas?
Balada, balada, muita balada.
A gente estuda também né amiga. A gente faz amigos, a gente namora, a gente vai ao cinema. Tudo o que as pessoas normais fazem.

E vocês se acham especiais em relação as outras pessoas?
Ah. Nós somos especiais, somos animadas, somos gente boa e sabemos nos divertir.
É verdade, acho que a vida é pra viver, e a gente sabe viver, a gente tá em todas, né amiga?

Qual foi o dia mais especial na vida de vocês?
Acho que foi a minha festa de quinze anos. Foi inesquecível. Tudo de bom.
É amiga, a festa de 15 anos foi mesmo, fui até pra walt disney.

Garotas. Estou ficando sem perguntas. Vamos fazer um intervalo?
Ok.
Tudo certo migo.

(apresentador sai, ficam as garotas com a câmera ligada)

Ei miga. E aquele negócio no seu pé? Já saiu?
Ainda não. Ja lavei com força mas não sai.
Eu trouxe uma pinça aqui. Quer tirar?
Deixa a sala esvaziar.
Tá.

(a sala esvazia)

Pronto. Tira o sapato amiga.

(tira o sapato)

ai. Isso doi.
Espera, não fica mexendo.
Ai.
Tá saindo.
Ai.
Eca. Saiu junto um púzinho muito nojento.
Ai miga, que nojo.
Que isso miga, é só um furinho.
Mas não tá parando de sair o pús… socorro amiga.

( Duas horas depois o hospital atendeu duas garotas desesperadas, o programa nunca foi ao ar)

Mi Casa

In 1 on Outubro 27, 2008 at 5:10 am


Caso o video não abra, acesse por aqui

Direção e edição: Gustavo Serrate

Em junho de 2006 eu estudava cinema em São Paulo e estava passando por uma barra pesadapor lá. Havia acabado um namoro, brigado com a coordenação do local onde eu estudava (e foi uma briga feia) e também tive problemas com a minha equipe de filmagem, porque fui diretor de um projeto realizado por uma “equipe-panela”, ou seja, entrei de gaiato em um projeto apenas para suprir a falta da direção, mas quem estava realmente no comando eram o produtor e a diretora de fotografia, eu fui um mero coadjuvante no set. Por todos esses motivos, São Paulo estava uma merda.

Quando eu cheguei em Brasília para passar as férias, eu estava desesperado, chorão que eu sou, afoguei as mágoas no travesseiro, mas quando dormi de noite tive um sonho incrível. Sonhei que eu chegava na beira de uma praia vazia, era fim de tarde e o sol quase não existia mais. Eu corria em direção ao mar e entrava na água que tinha uma temperatura tão gostosa quanto o meu cobertor. Eu boiava no mar, sorrindo, sendo empurrado de lá para cá pelas ondas. E nesse dia eu me acalmei de todos problemas que passei por lá, e relaxei. Cheguei ao ponto de quase desistir de continuar meus estudos em cinema, porque percebí que minha casa era muito boa, que minha vida aqui era muito tranquila em relação ao que eu passei lá, e que aqui eu tinha minha paz. Mas apesar desse pensamento, esse momento pacífico me ajudou a refletir, é como um livro que lí sobre a arte de parar. É a visão de um padre norte-americano, que sofreu fortes influências do zen budismo e da psicologia moderna para trazer esse pequeno, porém muito útil tratado sobre a importância das pausas em nossa vida. Estas pausas, que podem ser curtíssimas, como um momento de reflexão de alguns segundos, como podem ser longas pausas, como férias na praia, ou pausas como uma noite bem dormida. A lição que o livro trouxe me foi essencial: Parar, para reatar a vida com mais clareza e serenidade.

Este período que passei em Brasília me causou muita criatividade e abertura ao mundo. Comecei a ponderar sobre como minha casa aqui em Brasília era para mim um porto-seguro, sobre a importância da proximidade das pessoas que eu gosto e sobre a importância de saber valorizar tudo isso, de não se esquecer. Foi quando veio a idéia de realizar este curta. Escolhí as pequenas coisas que mais me agradavam, as pequenas particularidades da minha casa em Brasília. Lembrei das cortinas esvoaçantes no quarto dos meus pais, que formavam uma imagem tão bonita da luz do sol refletida na imagem delineada pelo vento invisível, das pequenas bonecas de minha mãe, do meu velho pandeiro, da água do jardim, da pequena estátua de barro que meu tio esculpiu como uma caricatura de mim mesmo, do meu quarto, do varal de pregadores coloridos, tudo isso era a minha casa, a minha Brasília. Infelizmente nunca descobrí quem são os autores das músicas que utilizei no filme, são MP3 da cultura celta, mágicas, oníricas.

Este filme entrou para o festival de curtas do Terraço Shopping com o tema: “O que é brasília para você?”. O curta venceu o terceiro lugar da mostra. Um filme tão simples, me supreendeu que tivesse ganhado algo, já que era um momento tão pessoal e íntimo. O filme marcou um momento importante da minha vida, que foi o momento de renovação. Quando tudo parece perdido, você percebe que ainda é capaz de valorizar as pequenas coisas, descobrir as pequenas pausas e prosseguir com toda a paz, apesar dos momentos de desespero, medo e desilusão.

Quando voltei a São Paulo eu estava pronto para outra, passei a enxergar a cidade com outros olhos e me sentia até mais esperto e com mais energia para lidar com os problemas de lá. Os meus últimos seis meses em São Paulo passaram voando, tão bons que foram. A Talita Antunes, minha ex namorada de São Paulo recentemente teve seu primeiro filho, o moleque puxou os olhos da mãe, pelas fotos que ví, ela está boba de felicidade. E eu por ela.

Recém-libertos (parte 3)

In 1 on Outubro 24, 2008 at 3:23 pm

Fernanda acendia um cigarro atrás do outros. Goiano contava os palitos de fósforo que ela usou para acender um deles, estava nitidamente nervosa. Ele por outro lado, sereno como uma folha outonal. Nos tempos de prisioneiro gastava horas e horas agachado no pátio deixando que o sol banhasse seu corpo, ignorando todos os comparsas criminosos, pensava na vida, em Rio Verde e na estrada gostosa de uma viagem de setembro, lembrava do tempo de criança, das reclamações dos pais “cuidado para não cair e machucar os joelhos”, das disputas de bilocas. Os quatro anos de reclusão realmente o fizeram pensar. Há quem diga que livros de auto-ajuda para nada servem, mas Goiano sabe que o simples fato de ter a audácia de abrir um deles já é um gesto simbólico de: “Estou disposto a me ajudar”. Abriu a bíblia, buscou serenidade, preferia autores contemporâneos, que cuidavam dos problemas urbanos, da modernidade.

“Antes da cadeia eu vivia sempre nervoso, tratava a todos mal e nem me dava conta. Faltava algo em minha vida, um tempo para pensar. O excesso de informações e a falta de tempo para gastar em silêncio, esquecer das responsabilidades me levou a viver assim”, pensou Goiano.

Fernanda levantou-se abruptamente para atender o telefone. Goiano ficou de frente para o cigarro queimando sozinho. Levantou-se da cadeira para observar os retratos. Imaginou o gosto de cigarro na boca dela, ainda assim teve vontade de beija-la. Aproximou-se, e abraçou-a por trás, beijou o seu pescoço enquanto ela falava ao telefone e não esperou que terminasse a ligação. Fizeram amor alí mesmo, jogados sobre o sofá, ela foi obrigada a interromper a conversa.

Enquanto relaxavam no momento pós-coito, Goiano contou a Fernanda: “Hoje acordei com esse sonho… eu estava aqui na sua casa. Estava no sofá, esperando você, mas eu não te via. Você não aparecia. E hoje, depois do sonho, eu estou aqui, e você está aqui, mas parece a mesma coisa. Eu sei que quando for embora por aquela porta não vou querer voltar, porque eu sei que você não voltou. Eu já sabia disso há muito tempo desde que ví a forma como você tinha sua face lisa e sem sentimentos ao saber que eu iria embora… para a cadeia. Em ví em seu rosto cinza que não havia amor algum alí. E hoje, depois desse sonho, foi um estalo para mim. Foram quatro anos na cadeia pensando em você e em apenas um dia da minha vida eu resolvo que sou eu quem não te quero mais”.

Fernanda estava realmente sem sentimentos, mas ouvir aquilo a deixou indignada: ”Você não ama ninguém! Você gosta de sofrer. Você se apaixona e aos poucos vai dirigindo seu amor para o fim, como se fosse inevitável, mas é você quem torna tudo inevitável, porque você não quer uma mulher ao seu lado, você quer uma musa, com quem possa sonhar a distância enquanto divide seu tempo com outras garotas! E quando a imagem da sua musa começa a ir embora da sua cabeça você precisa arranjar outra musa para abastecer suas idéias imbecis por mais alguns anos! Você acha que eu não te conheço? Eu não guardo nada de você, nem as suas cartas e eu realmente não demonstrei sentimentos porque não havia o que dizer, agora saia da minha casa”.

Satisfeito em sua tristeza, Goiano saiu e permaneceu absorto na parada de ônibus, quando Criolo e Jaiminho se aproximaram. Goiano olhou para baixo e meneou a cabeça ao perceber a presença dos colegas.

- Quem é vivo sempre aparece. – Disse Criolo coçando a barba.

Criolo sentou-se ao lado de Goiano e Jaiminho aproximou-se dele, agachou e encarou-o frente-a-frente. Jaiminho agarrou o queixo de Goiano e apertou com força pressionando a cabeça dele para trás, encostanda-a contra a parede da parada de ônibus.

- Porque fugiu da gente? – perguntou Criolo.

A boca de Goiano apertada pelos dedos tensos de Jaiminho pronunciou a resposta com um som ridículo.

- Eu não fugí, eu só perdí vocês de vista.
- Eu não fugí, eu só perdi vocês de vista – Criolo repetiu a voz imitando a patética dificuldade de falar.

Goiano tentou balançar a cabeça para escapar das mãos dementes de Jaiminho, mas ele não deixou e Criolo pressionou seu braço e encostou a boca nojenta no ouvido de Goiano.

- Tá achando que vai escapar da gente é vadiazinha? Tu deixou a gente numa pior! Sabe o que aconteceu naquela noite? A gente apanhou da polícia, dormiu na rua. Tivemos que dormir abraçadinhos né Jaiminho?

Jaiminho soltou uma gargalhada histérica. Uma mulher que aproximava-se da parada de ônibus deu meia volta e tomou outro caminho. Jaiminho puxou a cabeça de Goiano e o arremessou contra o chão. Goiano caiu deitado. Criolo se levantou e apoiou o pé sobre a sua têmpora. O rosto de Goiano ficou colado ao chão.

- Bota a língua pra fora filha da puta! – Gritou Jaiminho com sua irritante voz aguda – Bota a linguinha pra fora seu merda! Tava na casa da namoradinha né? Acho que você vai ter que compartilhar a diversão seu sacana!

- Cala boca! – Criolo tinha alguma ligação espiritual com Jaiminho, se é que existia alma dentro de qualquer um dos dois, apesar disso detestava os seus excessos. Como criminoso, Criolo sempre foi comedido, sabia ponderar suas ações e sempre foi prático, nunca passional. Jaiminho por sua vez respondia plenamente aos instintos, podia surtar a qualquer momento. Criolo visava benefícios a longo prazo, Jaiminho gosta do momento.

Criolo aproximou-se de Goiano e o fez beijar o chão com a língua. Jaiminho ria como uma hiena, esfregando as mãos sem esconder o prazer.

Recém-libertos (parte 2)

In 1 on Outubro 23, 2008 at 9:17 pm

Permaneceu dia após dia na labuta urbana, arrumou um pano velho, um balde rachado e uma estopa seca. Gastou suas tardes enxugando os carros da classe média. Aos poucos perdeu a mentalidade de ladrão e foi sendo conhecido na rua como “Goiano”, era assim que todo mundo o chamava, e ninguém sabia de sua história, de onde veio, nem muito menos que fora prisioneiro da papuda.

“Hoje eu tenho dinheiro, eu vou lá”. Goiano pegou a grana economizada na base da dureza. Comprou uma bermuda maneira e uma camisa estampada na feira do setor comercial sul de Brasília. Tem roupas baratas iguais as roupas da loja, só que o nome é diferente. Não muda nada, só o selo. Pra ele não faz diferença. Arrumou um perfume emprestado com um colega de trabalho vaidoso e pegou o último ônibus antes do pôr-do-sol. Não percebeu, mas entraram na sua cola os dois “amigos” de cadeia, o assassino e o estuprador, que também ganharam nomes: Criolo e Jaiminho respectivamente. Criolo, o assassino, tinha uma cara encrispada de tanta raiva que já sentiu na vida. Na cadeia vivia querendo matar todo mundo, qualquer intriga era desculpa pra cravar uma ponta nas tripas de alguém, mas fora da cana amorteceu levemente as feições, nem só por isso tornou-se gentil. Jaiminho, o estuprador, conseguiu atravessar quase incólume os anos atrozes de cadeia, foi violado apenas duas vezes mas há quem diga que ele gostou. Não chega a ser um retardado, mas é um homem socialmente inadaptado: “Nascí para currar”, costuma dizer.

Viajaram os três juntos, Goiano não sabia da presença dos “cumpadres” tão perdido estava nos pensamentos de rever sua ex-namorada.

Desceu na parada de ônibus que já havia descido tantas vezes e o coração disparou. Paralisado quase suou, uma sensação estranha se instalou em sua mente. Era um misto de esperança com desejo, mas também havia aí o medo da rejeição. Apesar disso decidiu não pensar em nada de ruim, assumiu que ela o aceitaria de volta e um mundo novo de possibilidades se abriu em sua cabeça. Foi como ter renascido um novo homem repleto de prospecções, de riqueza espiritual e humana, com vontade de trabalhar, de se tornar alguém de valor dentro da sociedade corrupta. Se tornaria um homem bom, caso fosse aceito. Caso contrário, iria embora vivendo como sempre viveu, como um eterno errante solitário. Torceria para nunca mais reve-la, para que se apagassem até as boas recordações, pois sempre viu uma semelhança natural entre o passado e o cemitério. Goiano é um homem de vida, por isso vive irresponsavelmente o agora.

A porta da casa já estava fechada, a mãe de Fernanda, a ex namorada de Goiano, tinha medo daquela cidade. Tocou a campainha e ela apareceu. Fernanda usava um short curto, um top branco, o umbigo aparecendo. Os cabelos dela pretinhos e lisos escorriam pelo pescoço. Os olhos apertados, levemente esverdeados e o jeito manhoso. “É bonita exatamente como eu lembrava”, pensou Goiano. Ele tentava adivinhar o que se passava na cabeça da garota.

Minutos depois estavam os dois sentados na mesa de café da casa dela conversando baixinho, como que se reconhecendo. O rosto de Goiano estava diferente, homem feito que o inferno da cadeia esculpiu, duro como pedra, se contasse tudo o que viu causaria medo em Fernanda. Ela tinha a risada gostosa, mas hoje não estava para rir. Tinha a mania de apoiar-se nos joelhos dele para beija-lo com o nariz, mas hoje não estava para carinhos. A moça também mudou, também cresceu e foi-se embora bastante coisa daquela menina que ele conheceu, ainda assim estava alí, admirado com tudo de novo.

Do lado de fora dois criminosos já punidos e liberados pela sociedade estavam com os ânimos afoitos: “humilhar o ex-colega. Ingrato. Ingrato”, pensava Criolo.

(continua…)

Recém-libertos (parte 1)

In 1 on Outubro 22, 2008 at 3:20 am

Os olhinhos infantis já não enganam mais ninguém tantas foram as vezes que mentiram em rios de lágrimas, não se sabe de onde vinham. Eram sempre fartas as choradeiras, mas não derramou uma gota quando soube o motivo da prisão: ROUBO!

Completou cinco anos no inferno imundo que é a penitenciária papuda, detido por furto qualificado. Ao sair, foi lhe dada uma camisa branca, chinelas e uma bermuda, estava muito frio e a ventania estava forte. Haviam outros dois recém-libertos no pátio esperando apenas que ele saísse. Não há condução para os presos, na maioria dos casos ninguém da família está na porta da prisão no dia da soltura, então o caminho para a rodoviária é longo, e tinham que fazer a pé. Se dessem sorte conseguiriam carona de algum motorista generoso.

No caminho, os prisioneiros conversavam, apesar de habitarem alas diferentes do mesmo complexo, apenas um dele manteve-se completamente calado durante longo período. O assassino do grupo puxou papo com o ladrão.

-Que foi que tu fez?
-Roubei um carro de um bodinho. Me ferrei. Tinha uma blitz, o pai dele era militar.
-Mas que azar da porra.
-Pois é.
-Tu já tem pra onde ir?
-Tenho não. Quer dizer… na verdade eu tenho, só não sei se vou ser aceito de volta.
-Pois é cara, nem eu nem o cumpadí alí temos onde ficar. Tu acha que pode arrumar um abrigo pra gente?
-Olha… não sei se consigo nem pra mim…
-Que que tem? Tá me achando sujo só porque sou preto?
-Não é isso porra. Sou meio preto também merda.
-Tu é merda de moreno rapá! Qual o problema de ficar na tua casa?
-Não é minha casa, esse é o problema!
-É casa de quem?
-Da minha ex mina.
-Ah. Foda-se. Pede pra ela arrumar um colchãozinho.
-Que colchão, não tem colchão lá não.

O assassino ficou olhando para o ladrão, estava puto. O estuprador permaneceu em silêncio.

- Olha alí! Vamo pedir uma cervejinha alí, ver se os caras são sangue bom.

E foram. O assassino sentou-se na mesa com arrogância, os outros dois permaneceram de pé.

- Rola uma cervejinha aí véi ?

O garçom passou o pano na mesa calado, limpou os pingos de cerveja e restos de comida que ainda estavam alí por cima.

- To falando contigo. tu ouviu?
- Tranquilo, vou trazer uma lata e vocês dividem.

O garçom sai.

-Dividem nada! Eu que sentei. Eu que pedi. Eu que cobrei. Eu que ganhei. Eu vou tomar sozinho.

O estuprador se aproximou.

- Um gole cara. Um gole. To há anos sem sentir o gosto da cevada.
- Vai implorar? Vai lamber minha pica? Não né? Então nem adianta insistir.

O garçom trouxe a cerveja e puxou duas cadeiras para o ladrão e para o estuprador. Sentaram-se e esperaram que o assassino tomasse sua cerveja. E ele apreciou o gosto com um prazer nítido, lentamente, saboreando, permitindo que a cevada se fizesse sentir em todas as extremidades da boca e da língua, deixou que o líquido percorresse a garganta vagarosamente e cada golada representava uma comemoração de liberdade. Quando já estava no final, e os últimos goles estavam ficando quentes, deixou um dedo de cerveja dentro do copo e se levantou.

- Pra não dizer que sou otário.

O estuprador pegou a cerveja com pressa.

- Calma, tem pouco, mas vou deixar para você.

Bebericou vagarosamente. A boca suada encostou na abertura da latinha e o ladrão perdeu a vontade de provar da liberdade.

- Tu foi pra cadeia porque?
- Atentado violento ao pudor.
- E o que é isso? Ficou peladão na rua?
- Não. Claro que não. Comi a filha do meu patrão. Aposto que ela gozou! EHEHeh
- Isso é estupro! Dá trinta anos!
- Mas meu advogado foi bonzinho e eu peguei só seis.
- O que teu advogado fez?
- Ele foi esperto ! O sacana usou a constituição! Foi a própria lei que me salvou. Eu comí só o cú dela, isso se enquadra em atentado violento ao pudor. Se eu tivesse comido a buceta, aí era estupro. Se ela tivesse menos de 18 eu tava fudido, mas já era uma égua crescida.

Enquanto isso o assassino tentava conseguir de graça um espeto de churrasco ameaçando discretamente o trabalhador. Conseguiu um espeto com pouca carne e muita gordura. Dessa vez foi generoso e deixou dois pedaços, um para cada “amigo”. Tinha uma dor de barriga insistente que ganhou com as marmitas indigestas do presídio. O estuprador deixou um gole para o ladrão, que não teve coragem de tomar. “Esse nem o santo quer”, pensou.

Saíram os três, rumo a rodoviária. O ladrão sentia-se sem esperança, sem prospecção, sem fé. Deixou o passo vagaroso, permitiu que os dois outros caminhassem à sua frente até ficarem distantes, mas eles sempre o esperavam.

Duas horas mais tarde estavam os três na rodoviária. O assassino quis mijar.

- Eu vou num banheiro descente pela primeira vez ! Faz tanto tempo que nem me lembro.

Para ele o banheiro da rodoviária era descente em comparação ao banheiro que frequentava regularmente. Só o fato de não ter que expor o pinto para um bando de gente já tornava a coisa respeitável, quase de família. Apesar do chão sujo, do cheiro, da gente louca, da pocilga que era aquilo, parecia o céu. É como dizem: Pra quem saiu do inferno, o esgoto é paraíso.

O ladrão aproveitou a brecha. Enquanto o assassino mijava e o estuprador acalentava os próprios braços debaixo da camisa no frio maldito da noite seca, escapou pela escada, se enfiou pelas ruas brasilienses e perdeu-se no escuro. Passou a noite dormindo em uma viela e acordou com o tropel sapatos engraxados passando às pressas no setor comercial. Levantou-se e viu no reflexo do espelho um mendigo em potencial. “Só se eu desistir”, pensou, “só chega a esse estado quem desistiu de tudo”. Observou um sujeito ao seu lado, dormiu da mesma maneira, a diferença entre os dois é que pela manhã ele estava de pé, o colega de sargeta não.

Lembrou-se de Goiás, Rio Verde. Sentiu remorso de ter deixado tanta coisa para trás, a casa quente, o acalento familiar, o cheiro de barro perto da lagoa, a labuta vagarosa mas compensativa, a vida de filho e estudante, o amor dos irmãos, as graças da vida. Haverá de lavar muitos carros para voltar para a terrinha, não tantos quanto os moradores de rua que vieram do nordeste, até mesmo porque muitos donos de carro confiam suas chaves ao lavador. E no caso deste lavador, uma chave de carro e um tanque cheio de gasolina são suficientes para cair fora daqui.

(continua…)

Menino

In 1 on Outubro 17, 2008 at 4:27 pm

O menino aos trotes e a vida dizendo pra parar de correr, pois tu pode cair e até se ferir se pro chão não olhar; Vê se olha direito, não tem porque se apressar, o tamanho do passo diz é a vida e não tu. Olha a menininha, tá sozinha chorando sem ninguém pra abraçar, dê um beijo faceiro, no rosto corado, no pescoço rosado nos lábios macios na doçura do mel. Seja bom menininho, não vá se enfezar, por os pés pelas mãos e cansa-la de ti, ela é tão bonitinha, mas também tem espinhos, pra quem não sabe lidar. Deixa o sangue escorrer, deixa ela falar, engula a dor, fique quieto, pois a flor que machuca só não pode murchar; Pega a enxada, ara o campo, e não vá se assanhar com menina bonita na janela a cantar; Te cuida menino, o sinhô tá chamando é hora de almoçar, o trabalho. A barriga tá cheia, mais labua amanhã, pro ano que vem não faltar. O joelho doendo, é idade chegando, hora de espreguiçar já são sete da noite; Um sorriso, um soluço um descanso tu tem, é de se merecer; Manda um abraço pra gente que tu fez de amigo, pra quem ficou no caminho, pra quem já disparou. Pra quem anda contigo, estica a tua mão, um afago no coro, beijo no coração; Não se deixe esquecer, faça de boa vontade, ouça com atenção, o sonzinho das águas rasinhas da vida, soprando de leve, empurrando o ponteiro, passando sem parar . Peça a deus, oh menino, pra te acompanhar, para abençoar, os seus entes queridos, não se deixe odiar pelos erros que fez, deixa ela saber que tu errou por amor, que não tinha intenção de tirar dor da flor. Saiba logo menino, a vida é assim, com seus altos e baixos, sem tempo pra tentar; limpe agora suas botas, pra voltar a sujar, lave-se seu menino, com as águas do mar, reacorde e acenda o seu bom coração.

Curta”Homicida é!” no Festival de Brasília

In 1 on Outubro 15, 2008 at 3:54 pm

O curta-metragem “Homicida é!”, do qual sou diretor e roteirista, foi selecionado para participar do 41º Festival de Brasília na mostra 16mm. Ótima notícia. Parabéns a todos da produção, elenco e pós.

O Festival acontece no período entre 18 a 25 de novembro de 2008. O festival recebeu 238 inscrições, sendo 81 deles filmes em 16mm. A mostra dos filmes em 16mm ocorre na Sala Martins Penna do Teatro Nacional Claudio Santoro entre os dias 20 e 24 de novembro.

Abaixo segue a lista dos filmes selecionados para a competição de 16mm:

1. 2+2=5, de Gui Campos, 7min, DF
2. 32 Mastigadas: 16N e 16S, de Maria Vitória Canesin, 13min, DF
3. A Menina Espantalho, de Cássio Pereira dos Santos, 13min, DF
4. Alice, de Edqard Boggiss e Miguel Przewodowski, 20min, RJ
5. Canosa One, de Fellipe Gamarano Barbosa, 18min, RJ
6. Cidade do Tesouro, de Célio Franceschet, 18min, SP
7. Cotidiano, de Renato Jevoux, 14min, RJ
8. Depois das Nove, de Allan Ribeiro, 15min, RJ
9. Depois de Tudo, de Rafael Saar, 12min, RJ
10. Disfarça e Chora, de Robson Graia, 10min30, DF
11. Homicida É, de Gustavo Serrate, 25min, DF
12. Incarcânu A Tiortina, de Tau Tourinho e Gabriel Lopes Pontes, BA
13. Landau 66, de Fernando Sanches, 11min51, SP
14. Mãe, de Luiz Antônio Pereira, 15min, RJ
15. Marcelo Bousada, quem?, de Denilson Félix, 39min, DF
16. Maridos, Amantes e Pisantes, de Angelo Defanti, 12min, RJ
17. Medo do Escuro, de Cauê Brandão, 17min, DF
18. Memórias Finais da República de Fardas, de Gabriel F. Marinho, 35min, DF
19. Minha Tia, Meu Primo, de Douglas Soares, 9min10, RJ
20. Na trilha das guerreiras, de William Alves, 40min, DF
21. Nada Consta 2: Malditos Robôs, de Santiago Dellape e Davi Matos, 15min, DF
22. Nello’s, de André Ristum, 26min, SP
23. Nem marcha Nem chouta, de Helvécio Marins Jr., 8min, MG
24. O Beijo da Meia Noite, de Jefferson Matoso, 14min, DF
25. O Caipira e o Chupa-Cabras, de Joelson Miranda Santos, 12min, GO
26. O que há de ficar, de Felipe Continentino, 14min50, RJ
27. O Rapto da Lua, de Fábio Escovedo e Vinicius Pereira, 19min05, RJ
28. O Velho Guerreiro não Morrerá – O Cangaceiro de Lima Barreto 50 Anos Depois, de Paulo Duarte, 20min, SP
29. Ouroboro, de Maurício Antonângelo, 17min, SC
30. Poesia do Barro, de Adriana Gomes, 40min, DF
31. Raul de Xangô, de Érico Cazarré, Henrique Siqueira, Marieta Cazarré, 17min, DF
32. Tira-gosto de Poeta, de Danielle Araújo, 24min40, DF
33. V.I.D.A., de Geison Ferreira e Vinícius Zinn, 22min30, SP
34. Varenick com vatapá, de Marcelo Szykman, 18min, SP

Saiba mais sobre o filme

Tarot

In 1 on Outubro 9, 2008 at 3:57 am

Agora que a razão se mostrou favorável aos seus argumentos, é muito importante se cuidar para que a rigidez não tome conta das palavras e atitudes. Quando a razão estiver do seu lado, pratique a compaixão e o perdão. 

1º carta – Ás de Paus – O impulso vital afirmativo

O Ás de Paus representa força criadora, potencia sexual e luminosidade.

2º carta – Ás de Espadas – Discordâncias benéficas

Neste arcano a coroa e a espada representam sabedoria e força intelectual que penetra e compreende tudo.

3º carta – Rainha de Espadas – Ressentimento e ressecamento emocional

Este arcano transmite a idéia de controle das emoções, talvez à custa da afetividade. Risco de amargura.

4º carta - Cavaleiro de Paus – Aventurar-se é preciso!

Este arcano revela força impulsiva, capacidade de imposição, jovialidade.

5º carta - O Mundo – Sucesso, enfim!

A figura deste arcano XXI do Tarot representa a alegria de viver. Revela também plenitude, renovação e abertura de novos processos.

6º carta – 7 de Ouros – Dar um tempo para aperfeiçoar-se

O arcano VII do naipe de Ouros traduz sentimentos de fracasso, enfraquecimento e perecimento, que precisam ser superados.

 

personare

Diversão na terça-feira

In 1 on Outubro 7, 2008 at 8:35 pm

Terça deveriam inventar um programa legal pra se fazer. “Terça feira é o pior dia”, acabou de dizer a Bianca, minha colega de bancada aqui no trabalho. Precisamos de um pouco de festa, de diversão, de música para sacudir a camada de músculos flácidos que recobrem o esqueleto de um típico urbanoide, leia-se: ser-humano habitante da cidade e que não pratica exercícios por conta de sua rotina.

Na cidade viramos deslumbrados com tudo o que promete um raio fugaz de êxtase, procuramos drogas, festas, prazer e nada nos satisfaz, nossa vida enclausurada limita os horizontes, causa tédio, depressões e quando não, suicídios. Por isso é renovador viajar para a praia, contemplar a extensão do mundo, se sentir pequeno. Sentir-se pequeno é essencial para sentir-se bem, constata-se que a dimensão de nossos problemetos-urbanóides é risível diante do todo.

Na cidade acontecem coisas todos os dias e todos os dias os jornais noticiam o que aconteceu, o que acontece e o que irá acontecer. Os cidadãos estão ludibriados com a crença de que a cidade é o centro do mundo e que tudo o que alí acontece é importante para o resto do mundo. Chamo isso de alienação, perdemos de vista a extensão do mundo.

Para que nos conformemos com nossa existência miseravelmente omissa, egocentrica e cerceada pela falta de visão, a cerveja é ilusão, a balada nos acalma, o hedonismo anima. Viajar é preciso, mas quem pode fazer isso no meio da semana em plena terça-feira? Vamos dançar break e girar o corpo, forró e cheirar um cangote, tango e nos seduzir, a dança (incluindo aí capoeira, sexo, e êxtases religioso) é a maior possibilidade humana dentro da cidade.

Divirtamo-nos nesse mundinho miúdo que se acha tão importante, porque a diversão é a única coisa verdadeira e importante nessa vida. É o que farei.

Poemeto do cheiro de fulô

In 1 on Outubro 7, 2008 at 2:19 pm

Eu não te tenho.
Tu não me tem.
Quando tu quer,
eu quero além!

No sonho me perco
em teu cheiro, fulô,
de peles despidas,
o seu seio e amor.

Quando tu vai,
eu vivo até bem.
Quando tu vem,
eu vivo tão bem.

Oração da Serenidade

In 1 on Outubro 7, 2008 at 1:30 am

concedei-me
Serenidade para aceitar as coisas
que não posso modificar,
Coragem para modificar aquelas que posso,
e Sabedoria para perceber a diferença.
Ámen.

- Reihold Niebuhr

Mulher e parafuso

In 1 on Outubro 1, 2008 at 2:33 pm

 

Eram seis da manhã quando Cristovam acordou. Seu relógio biológico está perfeitamente sincronizado  com o tempo do o despertador, programado para alguns minutos após. isso não quer dizer que a noite foi bem dormida. A casa de Cristovam está passando por uma reforma, as janelas estão sem vidro e ele precisou se agasalhar bem para atravessar a noite.

Cristovam se levantou, seus músculos estavam cansados, faziam algumas semanas que ele não tinha tempo para praticar esporte algum e a noite passada bebeu cerveja além da conta. Era pra ser no máximo duas cervejinhas, mas foram cinco garrafas, é claro que ele não bebeu sozinho, mas a mania de beber cerveja como se fosse água o levou a tomar mais que todo mundo. Antes de dormir bebeu dois copos d´agua e comeu uma banana, mas não adiantou, acordou com essa dorzinha de cabeça miserável.

Há uma tarefa para hoje, Cristovam é jornalista e precisa descer a São Sebastião para entrevistar os motoristas de ônibus. Pegou uma câmera, foi de microonibus e fez algumas imagens. Os motoristas não quiseram gravar entrevista por medo de demissão, mas conversaram informalmente. O contrato dos coitados vence em um mês, uma nova empresa vai coordenar o transporte mas até agora não deu sinal de que irá recontratá-los. Fora isso as condições de trabalho são complicadas, o tempo que eles deveriam trabalhar por dia é de 6 horas com duas horas extras em alguns dias. As horas extras não são pagas e eles sempre trabalham muito mais do que seis horas, alguns trabalham onze horas, outros trabalham até 20 horas e em muitos casos o motorista precisa tomar arrebites para se manter acordado e atento ao trânsito. A empresa ainda diz que o motorista que bater o carro vai demitido na hora. Não é uma vida fácil. Quando Cristovam chegou os motoristas ficaram alvoroçados, queriam contar dos problemas, mas sem se expor. Alguns desconfiaram que ele fosse um fiscal, teve que mostrar o seu crachá de identificação. Na verdade muitos motoristas já não tem mais do que temer, eles tem a certeza de que não serão recontratados pela nova empresa.

Depois de concluir as entrevistas Cristovam foi embora, cansado, com preguiça, um mal humor que surgiu do nada. “Hoje não quero falar com ninguém”, pensou. Na viagem de ônibus, à caminho da redação do jornal, começou a lembrar de algumas questões dolorosas, questões afetivas que não deveriam mais incomodar, afinal, o que não tem resolução, resolvido está. Como sempre, problemas com mulher. A vida lhe pareceu estranha, estes pensamentos fantasmas sobre uma coisa que não existe mais poderiam simplesmente desaparecer para sempre! Faria bem.

Cristovam observou algumas pessoas dentro do ônibus, todas tão cheias de problemas, mas com sorrisos estampados. “Como podem esbanjar tanto bom humor?”, sentiu uma certa inveja. Sentiu vontade de uma vida mansa, sem problemas amorosos, morando em uma casinha pequena e aconchegante com uma rede para descansar, fora da cidade talvez. A casa teria portas por todos os lados, janelas grandes, flores e samambaias e uma arquitetura planejada para que o vento pudesse correr livremente. O quintal teria árvores frutíferas e perto do muro, lá no final do terreno, construiria um pequeno quarto com um computador, muitos livros, uma escrivaninha, canetas e apetrechos para quando quisesse escrever e desenvolver idéias, ou simplesmente passar a noite acordado assistindo filmes antigos. Seria uma casa planejada para a hospitalidade. Esse sonho tão pequeno mas tão distante…

Atravessou a cidade com este pensamento dourado.

Gostaria de ter pensado em algo mais importante, como por exemplo a sua função como jornalista vigilante da cidadania. Cristovam gosta da idéia de se sentir um justiceiro das “pequenas” causas, digo pequenas porque às causas do povo ninguém dá atentção, ninguém olha pelo populacho. Diante dos sofrimentos do mundo, dos profundos problemas que as pessoas enfrentam todos os dias o problema de Cristovam soou imensa futilidade. As pessoas gostam de grandiosidade, mas a vida verdadeira, a vida espontânea acontece nas miúdezas, os grandes personagens muitas vezes nascem e morrem anônimos, não são artistas, não são políticos, não são empresários, são nossos vizinhos, parentes, amigos, desconhecidos.

Dentro das redações há brigas de egos e as histórias pessoais muitas vezes interferem na vontade de escrever, Cristovam não quer que isso aconteça. Lembrou-se de que as questões afetivas não podem interferir no seu trabalho, não se pode misturar mulher com parafuso.

Três contradições

In 1 on Setembro 25, 2008 at 5:08 pm

Na região centro sul de Belo Horizonte há uma praça chamada liberdade. Na praça acontecem eventos culturais, artistas demonstram suas habilidades, senhoras passeiam e casais se apalpam. Os índices de criminalidade são baixíssimos, ainda assim um programa moralista mineiro chamado “olho vivo” instalou 5 câmeras vigilantes em pontos estratégicos para observar a movimentação. A essência da Praça da liberdade está em contradição, como poderão, um casal mineiro, praticar das diversões secretas do amor? Onde poderá o cão da senhora que mora alí perto defecar em privacidade? Como o louco homem solitário se sentirá realmente livre para gesticular sozinho? Os ladrões que se danem. 

O paradoxo é comum em Belo Horizonte, afinal nos altos e baixos morros onde está erigida a cidade não se vê beleza e nem muito menos horizonte, e agora os olhos do grande irmão cerceiam a espontenidade que ainda resta na vida mineira.

http://www.webbusca.com.br/pagam/belo_horizonte/tn_praca_liberdade_4.jpg

Praça da liberdade

A vida é grande

In 1 on Setembro 22, 2008 at 3:57 pm

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais dor que eu

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará
Berimbau – (Badden Powell)

A água da lagoa estava quente e o chão cheio de lodo. Já chegando o fim de tarde, o sol se punha mansinho, uma gaivota se assustou comigo, imagino o que ela deve ter pensado ao me ver: um homem pára o carro no meio da estrada, atravessa o matagal, pula a cerca, tira a roupa e pula de cueca na lagoa. Se assustou no mínimo a coitada gaivota.

Viajei para esquecer um amor que passou. Para me lembrar de quem sou e de como posso ser completo estando sozinho ou acompanhado. E boiando na lagoa eu pensei:

A vida é grande. Quero arrumar logo uma grana pra fazer uma viagem memorável pela america latina. Quero ir embora, parar em uma festinha de uma cidade e me apaixonar por uma indígena descendente, daí quero prosseguir sem apego para a próxima cidade e me envolver em uma aventura de vida ou morte armado apenas com uma faca na mão. Quero que meu carro estrague e que eu seja obrigado a seguir a pé, de mochilão, fumar cachimbo para o frio não me pegar, ficar escondido dentro de uma propriedade privada, roubar frutas, correr descalço, escapar ileso e voltar (se é que voltarei) cheio de histórias e com a sensação de ter reconquistado a vida.

A vida é grande, na cidade ela se torna pequena. Na cidade a vida não tem tanto valor porque a vida é explorada, na cidade somos ferramentas de um complexo sistema que nos diz a cada estocada metalica: “Você vive para servir”. Na cidade você é um serviçal, e é claro que isso é muito pouco para qualquer um. Um serviçal não tem amor próprio, por isso, quando um serviçal encontra o amor em outra pessoa ele se sente no paraíso, como nunca se sentiu consigo mesmo. O serviçal passa a acreditar que o único amor possível é o amor de outra pessoa. Mal sabe ele que o amor é gratuito, que o amor deve ser dado e não cobrado. O amor deve partir sem intenção de receber. O amor não é apenas romântico, mas fraternal. O amor romântico, quando acaba, não significa o fim do mundo, é apenas o fim de uma história, uma pequena história dentro do mar de vidas urbanas no qual estamos imersos. Eu estava sofrendo por amor, em meu microcosmo isso pareceu ser o final de todas as minhas expectativas. Certamente que passar por isso é triste, é uma dor, mas a tristeza faz parte da vida, e estou vivendo. Se não tivesse essa dor, melhor era tudo se acabar.

De dentro da lagoa sentí meu corpo esfriar. Saí com rapidez, meus pés estavam sujos de barro e meu corpo pingando. A beirada da lagoa tinha marcada na lama os cascos dos pés dos bois que vieram beber água no dia anterior. Enfiei o meu pé dentro de uma das pegadas e senti a energia da terra.

Quando saí dalí, eu não era mais o mesmo. Tinha um sorriso gigante estampado no meu rosto.

A Rainha de paus!

In 1 on Setembro 12, 2008 at 2:24 am

E houve aquele dia em que eu me ví como já havia me visto duas vezes atrás, e inocentemente achei que fosse amor, mas era uma doença. Havia me projetado em outra existência, sugando dela a energia que não fui capaz de sentir em mim… por um breve momento eu me perdí de mim mesmo.

Estou quatro anos mais próximo da minha morte desde a última vez que me sentí tão vivo, mas cá estou. Amanhã a noite carregarei a mim mesmo para longe daqui, há um único e eterno amor nesta vida, e está diante do espelho todos os dias, esquecido, ignorado. Mantenha-se fiel a sí mesmo, é a condição para o triunfo! Foi o que a rainha de paus, escolhida por puro acaso, me disse.

Diálogo (ou a falta dele)

In 1 on Setembro 8, 2008 at 7:15 am

Oi
Oi
Você tá aí?
To. E você, como tá?
To bem. Que tal nos encontrarmos.
Amanhã?
Agora.
Amanhã.
Ok.
Oi.
Oi.
Tudo bem?
Tudo ótimo. e contigo?
Tá melhorando.
E agora?
Agora eu te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
To tão feliz que não consigo assimilar.
Fica tranquilo. Se deixa levar.
Ok. To indo com a maré, mas é estranho lidar com isso.
Eu sei. Me dá a mão.
Segura forte.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Eu também.
Eu também.

Você me ama?
Eu? Você sabe que sim. Isso não deveria nem ser perguntado.
Muito menos repetido tantas vezes.
Desculpa a dúvida. Não fica assim impaciente.
Tudo bem. Eu te entendo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
As vezes isso cansa sabia?
Ah. Tá. Foi mal. Acho que exagerei.
Tudo bem.
Oi.

Oi.
…Ah. Oi.
Como tá?
To bem.
Eu to bem também.
Oi.


Tchau.
O que? Tá me dando tchau?
Preciso ir.
Porque? É melhor conversarmos sobre isso com mais calma.
Você quer ficar aqui?
Não sei. Vamos resolver depois.
Não, tenho que saber agora.
Vamos nos encontrar amanhã então?
Vamos.
Oi.

Cadê você?
To aqui.
Porque não veio?
Não lembrei.
Ah tá.








Oi.
O que quer?
Ah. Conversar.
Tá. Oi.
É assim é?
É. Porque?
Então tá. Tchau.
Tchau.


Eu te amo. Eu te amo. Por favor.
Oi.
Desculpa. Preciso ir.
Tá.


Oi.
Me deixa em paz.
Porque?
Porque sim.
Tá.


Adeus.
Ah. Então é assim é?
É.
Então tá! Adeus!
Adeus. Tchau.




Oi.
Vai pro inferno.
Vai você!


Você não quis dizer isso né?
Não. Claro que não.
Queria te ver amanhã.
Ok. Pode ser. Agora não dá, to bêbado.
Bêbado é?
É. Demais.
Ok. Até amanhã.
Oi.


Desculpa. Não deu pra ir ontem.
Tudo bem.
Bom. É isso né?
É.
Vamos parar de nos falar.
Vamos.
ok.
ok.

Oi.








Oi.
Oi.
Senti sua falta.
Eu também.
Era muito bom estar contigo.
Também gostava de estar contigo.
O que vai ser de hoje?

É. A vida é assim né?
É. Coisas da vida.
Não quero te magoar.
Se você me magoar, a responsabilidade não é sua, é minha. Eu só me magoo se me deixar magoar.
É verdade.
Foi muito bom o tempo que tivemos juntos.
Também gostei.
Quem sabe um dia né?
É. Quem sabe?
Preciso ir.
Te levo até lá.
Tá. É perigoso o caminho.
Eu sei. Pode contar comigo quando precisar.
Você também.
Me beija.
Acho melhor não.
Vai.
Ok

Tchau.
Tchau.



































Palavra Capital: Beirute

In 1 on Setembro 6, 2008 at 2:51 pm

Palavra Capital é a nova categoria de contos ficionais calcados na realidade documentada pelas lentes visuais do cineasta 81. Tratam-se de contos de até 15 linhas (word, times new roman 12) sobre acontecimentos tipicamente brasilienses. Minha intensão é de publica-los futuramente em algum veículo de grande porte.

Beirute é um sanduíche feito de pão sírio, rosbife, peito de peru defumado ou presunto e outros complementos, mas em Brasília Beirute é o nome de um bar na Asa Sul e Asa Norte frequentado por glbts, artistas, jornalistas e outras pessoas de cabeça supostamente esclarecida. Na última quinta feira um homem branco de fala articulada vestido como mochileiro veio pedir esmolas naquele bar. Explicou como é triste essa situação e que sente muita vergonha por fazê-lo, mas ele tem um filho com intolerância a lactose e precisa comprar um leite de dezesseis reais feito a base de soja. Não precisou de muita explicação, ele conseguiu quatorze reais em apenas uma mesa. Horas mais cedo uma mulher de aspecto sujo com sotaque nordestino carregando um filho no colo chegou na porta do bar. Ela mal sabia se o filho tinha algum tipo de doença, nunca foi ao médico, mas precisava de dinheiro para matar a fome: a doença humana constante. Estava suja, não falava com clareza. O garçom não permitiu que ela entrasse no beirute.

Canto de Ossanha

In 1 on Setembro 4, 2008 at 5:56 pm

Vinicius de Moraes

Composição: Vinicius de Moraes / Baden Powell

-”O canto da mais difí­cil e mais misteriosa das deusas do candomblé baiano aquela que sabe tudo sobre as ervas sobre a alquimia do amor”

O homem que diz “dou”
Não dá
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz “vou”
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz “sou”
Não é!
Porque quem é mesmo “é”
Não sou!
O homem que diz “tou”
Não tá!
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor…

Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!…

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor…

Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha
Não vá!
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr’o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer…

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!…

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor…

Num ap de curitiba

In 1 on Setembro 3, 2008 at 12:39 am

O meu quarto era um cúbilo de poucos metros quadrados, um pensionato mal habitado de estudantes e velhos solitários em cima de um pensionato. A rotatividade do pessoal mais jovem era alta, só os mais velhos e que ficavam alí por um longo período. Não pensei que morar naquele local por um ano mudaria tanto a minha forma de pensar.

Uma das figuras do pensionato era a Rogéria, uma depressiva quarentona que gostava de chorar quando estavam todos felizes. Quando estavamos cantando, bebendo e fazendo festa ela se punha a relembrar de um ex-marido que a abandonou. Eu a aconselhava: “Rogéria, sofrer, todos sofremos, mas prolongar esse sofrimento te faz um mal do caralho! A dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Você pode continuar sofrendo por muitos anos se quiser, mas a escolha é sua. Tristeza todos sentimos, isso é sinal de que estamos vivos, por isso, deixe a tristeza invadi-la, permita que ela vá embora quando for o tempo”. Mas a Rogéria não queria ouvir formas de vencer aquilo, estava acostumada ao sofrimento, gostava de ver as pessoas sentindo pena dela. Eu me cansei de aconselhar a Rogéria, então toda vez que nos reuniamos para festejar, a Rogéria ia para um canto e ficava chorando.

Outro caso engraçado era o Luciano, um Japonês estiloso que gostava de rock melancólico. Ele parecia livre de qualquer emoção, tinha um semblante sério e de vez em quando soltava um riso para alguma coisa engraçada que alguém dizia, mas normalmente era quieto e calado. Era magrelo até o osso, vivia 23 horas por dia na internet, e ainda assim conseguia arrumar umas namoradas bonitas, eu tentava entender porque, mas é que ele era um cara muito estiloso, fumava com muito estilo e carisma, mas não tinha muito a dizer. É como diria Machado de Assís: “As mulheres tem uma queda pelos tolos”.

Uma vez um circo chegou a cidade, do circo, pousaram no pensionato um casal de namorados. O Aírton era um palhaço, e a Maíra uma loira maluca e gostosa que tinha fugido de Florianópolis porque se apaixonou pelo palhaço. Os dois viviam juntos e sempre brigando. O palhaço era gente boa, era bem menor que a Maíra, namorada dele. Tempos depois eu soube que Maíra tinha uma filha, e que tinha abandonado a responsabilidade da vida em Floripa pra viver como passarinho, largou até o namorado de lá. “E o palhaço o que é? Ladrão de mulher”. Tempos depois o circo foi embora da cidade e Maíra ficou. A Dona Vanda que tomava conta do pensionato me alertou: “Cuidado com essa mulher. Ela não é boa bisca não!”, eu disse que tudo bem Dona Vanda. Acho que ela pensava que eu era um rapaz muito correto. Lembro de uma noite que deixei a porta do meu quarto entre-aberta e saí para buscar algo na geladeira coletiva, a Maíra entrou pela fresta e se escondeu lá dentro como quem queria me dar um susto. O susto não foi grande, mas passamos a noite nos pegando. Na hora de dormir, em vez de ir para o quarto dela, Maíra tomou meu cobertor e me deixou com pouco espaço na cama. Acho que ela quis namorar comigo porque se sentiu ofendida quando no outro dia eu não tinha nem mais vontade de olhar na cara dela. Não que ela tivesse feito algo de errado, mas eu não estava afim dela. Essas coisas acontecem.

Uma vez eu estava deitado na minha cama ouvindo Frank Zappa quando ouví dois pipocos do lado de fora. Olhei pela janela e não vi nada, olhei novamente e ví um homem vindo na direção da churrascaria que ficava embaixo do nosso pensionato. “Eu levei um tiro! Eu levei um tiro!”, ele dizia. A mancha vermelha na camisa dele se estendia, os dois assaltantes saíram correndo com a bicicleta roubada. Ele caiu no chão perto do bar. Alguém ligou para os bombeiros que demoraram a chegar. Dias depois eu soube por uma nota no jornal que o rapaz havia morrido. Me lembro de alguém que havia se aproximado, segurou nas mãos dele e disse: “Vai ficar tudo bem”. Mas o olhar dele já estava tão distante, eu não acreditei naquilo, mas espero que ele tenha acreditado.

Um outro momento marcante em curitiba foi quando eu estava terminando de ler um livro, quase desligado quando passei os olhos por uma frase: COELUM NON ANIMUM MUTANT QUI TRANS MARE CURRANT, a frase era do filósofo, pensador e poeta Romano Quintus Horatius Flaccus, Horácio, nascido 65 anos antes de Cristo. Busquei o significado da frase no rodapé: “Os que atravessam o mar mudam o céu acima deles mas não as suas almas”. Nesse momento uma sensação estranha e indescritível se apoderou de mim. Um frio tremendo tomou conta do meu corpo e eu comecei a tremer, foi como se Deus me iluminasse por um breve momento e eu me dei conta do motivo de minha estadia em Curitiba. Este ano que estive por lá, estudando, foi na verdade um ano de fuga. Foi um momento da minha vida em que eu quis ser outra pessoa, mas quando lí aquela frase percebí que eu nunca poderia escapar de mim mesmo: “aonde quer que você esteja, lá estará você”, a frase é irônica, mas também muito inteligente. Não se pode escapar de sí mesmo. Foi o ápice do aprendizado de minha jornada, um ano depois morei em São Paulo e também tive muitos insights, mas nada se comparou a este.

Recordo com saudosismo do clima frio de curitiba, da chuva constante, do vento atravessando as estreitas ruas bem planejadas, das meninas bonitas, da Isabel com quem eu jogava basquete, por quem eu me apaixonei, mas que nunca nos demos muito bem fora das quadras. Dos professores, das aulas de cinema, dos amigos da banda wandula com quem fiz alguns passeios tanto musicais quanto geográficos, do amigo André com quem bebí muita cerveja, do amigo Sandro para quem falei sobre Duque: o cão louco voador e de quem ouví muito sobre animés e conversei sobre cinema, das rodas de break debaixo do shopping Itália, das cervejas geladas no shopping Curitiba, dos palhaços com quem trabalhei no Shopping Estação, da inspiração friorenta que me levaram a escrever o meu pequeno conto sobre uma pequena menina que se perdia durante a noite na cidade. O ano em curitiba passou rápido, rápido demais. Fui embora sem olhar para trás.

 

Este video foi realizado em um dos momentos de ócio no meu quartículo de Curitiba.

Este outro video eu fiz para os amigos da banda Wandula

Sonho

In 1 on Agosto 30, 2008 at 7:13 am

Tive um pesadelo na noite passada, foi estranho. Eu andava por uma galeria escura com várias lojas de música entre outras coisas. Eu podia ouvir o som dos instrumentos musicais sendo afinados dentro das lojas. As paredes da galeria eram de um material frio e avermelhado. De uma das lojas vinha um cheiro muito forte, parecia charuto, eu vi uma mulher velha curvada e estranha saindo de lá de dentro com um sorriso no rosto. Eu corri para fora da galeria atravessando uma portinhola que dava para uma escadaria mas ela me acompanhou. Ela sentou na calçada da portinhola e eu perdi o medo. A velha segurava um charuto com uma das mãos, tinha um nariz enorme, quase disforme, uma cara enrugada e havia um machucado estranho na perna dela, era um buraco seco e profundo. Falei com ela:

“Você é uma entidade?”
“Sou meu filho, quer saber alguma coisa?”
“Você se sente bem nessa sua condição?”
“Sim meu filho, mas nem sempre, algumas vezes quero sair daqui, quero ajudar as pessoas, mas minha condição fisica é muito ruim… eu não sou capaz. Tenho que ficar aqui o dia inteiro”, os olhos dela se encheram de lágrimas. Tive a nítida impressão de que ela estava presa naquele corpo idoso.

“Não sei o que fazer com o que estou sentindo. Não sei como agir. Você pode me ajudar?”, eu disse para mudar de assunto, mas minha declaração era sincera. Eu esperava receber um conselho dela. Mas ela apenas deu uma baforada na minha cara.

“Não sinta medo. E não volte a ser o menino levado que você era por causa de medo. Todo mundo sente medo. Não vire um metido a besta para esconder o medo. Não se torne safado para ficar seguro. Aceite a incerteza”.

Ficamos calados. Ela permaneceu sentada fumando na calçada, eu observei o machucado seco na perna dela, era um ferimento consideravelmente grande e parecia que ela estava oca por dentro. Ela ja estava voltando a rir, achando engraçado a minha curiosidade. Quebrei o silêncio:

“Eu estou perdido, não sei onde é a minha casa… você pode me  ajudar a encontrar?”

Ela deu outra baforada de fumaça de charuto na minha cara. “Sua casa é onde você a faz.”

A baforada de cigarro me bloqueou a visão e aos poucos eu fui acordando, sentindo que meu coração ficará em paz quando eu estiver em casa, e minha casa é longe daqui.

Redenção

In 1 on Agosto 26, 2008 at 10:41 pm

Um homem desesperado não pode mais chorar, mas ainda ora

Peço força, senhor

Estou saindo de um entre os piores dias da minha vida, mas ainda estou imerso neles até os joelhos. Sinto o peso sobre meus ombros ao caminhar, sinto como cada passo é difícil. Tudo o que faço só piora as coisas, me tornei um monstro, perdí a mulher que eu amava de tal maneira que não há mais volta. Ela me odeia e com toda a razão.

O amor dela me segurou longe das más escolhas, mas agora já não tenho mais essa alegria. E percebo que minhas atitudes estão piorando. Senhor, não me permita entrar em depressão, estou dentro do poço, mas me segure, não me permita descer até o fundo. Não me permita cometer os mesmos erros do passado e guie as minhas escolhas porque tudo que fiz por impulso me jogou para mais longe dos meus objetivos.

Porque é tão difícil ser um homem bom?

Senhor, abençoe a garota que eu amei e perdí, abençoe a família dela, abençoe os meus amigos que me mostraram como é bom viver mesmo estando só, abençoe os meus pais por me proverem sustento e por me presentearem com paciência e amor constante.

Me abençoe por favor, não me permita descer a um nível abaixo do qual eu estou.

Amém.

Hoje minha fulô morreu

In 1 on Agosto 24, 2008 at 5:21 pm

Tenho um jardim na frente de casa. Ele esteve árido por anos até que um dia nasceu uma tímida fulô. Vendo aquela única flor no meu jardim, passei a regá-la e a cuidar melhor da minha terra, procurando todos os nutrientes necessários para que a Fulô crescece confortável.

Manuseei a Fulô e com minhas mãos brutas eu a machuquei. Derrubei suas pétalas. Continuei a regá-la com medo de que morresse, mas acabei afolgando a minha fulô e piorando sua situação.

Ela foi morrendo e chegou um momento que tentei tocá-la para saber se tudo ainda estava bem, mas ela me feriu com seus espinhos. Tudo o que eu fazia só piorava a situação e da última vez que tentei regá-la para que ela se esforçasse para viver, eu a matei.

Nunca foi minha intenção matar a minha Fulô. Eu fui um jardineiro sem habilidade, na minha ânsia por fazê-la mais forte. Meus dedos estavam feridos pelos seus espinhos, mas eu já não me importava mais, a Fulô tem sua beleza por causa do perigo e da fragilidade que representa. Esta Fulô foi especial, mas agora eu percebí tristemente que não há mais volta.

A dor de ter um jardim vazio é não apenas no coração mas física. Sinto muita dor, mas já não sofro mais. Eu pensei nos erros que cometí com ela e pensei que não deixarei mais de alimentar a terra pois não quero mais ver meu jardim vazio, darei espaço para que outra Fulô possa brotar e da próxima vez a tratarei com os cuidados que aprendi nessa triste lição.

http://janalago.blogspot.com/

Uma em um milhão

In 1 on Agosto 22, 2008 at 3:52 am

 O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar, ir aonde quiser, Ame-o e deixe-o Brincar, correr, cansar e dormir em paz, O seu amor, Ame-o e deixe-o Ser o que ele é
Gilberto Gil

 Gustavo é um cara gente boa. O problema é que as vezes é meio grosseiro, desajeitado. Mas não é por mal.

Um dia Gustavo arrumou uma namorada, o nome dela: Janaína. “É uma em um milhão”, ele costumava dizer. Ele se apaixonou pela garota. Eles conversavam sobre todos os assuntos mas quando ela perguntava sobre os sentimentos dele a resposta era sempre a mesma: “Não sei. Não consigo falar disso”. Gustavo ficava travado, não conseguia expressar as emoções.

Os homens passam a vida toda reprimindo os sentimentos, mas acreditem garotas, isso não é ruim, faz parte da natureza masculina. Talvez antes de morrer os homens desabafem tudo numa bica só, mas por enquanto, deixe como está.

Janaína cometeu o erro de incitar Gustavo a falar de seus sentimentos. “Você é minha prioridade. Eu só saio daqui quando você falar”, ela dizia. Demorou mas um dia essa pressão psicológica surtiu efeito. Gustavo se sentiu confortável e abriu o coração para Janaína. Ele falou de tudo que estava lá dentro, e enquanto seus sentimentos eram expurgados os olhos vermelhos marejados eram observandos por Janaína, ela foi compreensiva.

Depois do longo discusso sentimental que Gustavo fez ao abrir seu coração, ele encerrou: “Mas eu te amo, do fundo do meu coração. Só que odeio chorar na frente dos outros, me sinto fraco, idiota”. Pra falar a verdade, era assim mesmo que ele estava parecendo: Fraco e idiota. Mas Janaína foi uma boa companheira: “Você não é fraco. A maioria das pessoas não tem coragem de se abrir desse jeito. Você nunca foi tão sincero comigo quanto agora”. Gustavo parecia um pinto molhado. Limpou as lágrimas no canto dos olhos e se sentiu aliviado. “Ela é uma em um milhão”, pensou.

Entre os Cheyenes, uma tribo Indigena Norte Americana,  extinta durante a colonização Norte Americana existe uma frase da sabedoria popular sobre isso: “Nascemos sós e morremos sós, guarde consigo os frutos da emoção. Ninguém nunca os irá compreender da mesma forma que você”.

Desse dia em diante Gustavo sentiu que poderia liberar todas as suas mágoas e emoções reprimidas no colo atencioso de Janaína e sem perceber foi se tornando um tedioso sentimental. A roupa ficava amarrotada de tanto choro, colo e soluços. Durante a noite dormia como um bebê contente.

Janaína gostava da idéia no início, mas aos poucos foi enjoado daquela melação e quase virou o homem da relação aconselhando seu amado e o tratando com severidade constantemente: “Não é sou eu. Tem muita gente que te ama além de mim”. Mas Gustavo gostou da história e se tornou um chorão assumido. Janaína já não aguentava mais tantas confissões e lágrimas. Com tanta melação, ela passou a evita-lo aos poucos, as vezes sem querer ela desligava o celular na cara dele, dormia até tarde para não visita-lo de manhã nos finais de semana. Distanciou-se.

Gustavo percebeu como a comunicação ficou difícil e um dia ligou com aquele ar de palerma que adquiriu, depois que começou a ficar sentimental demais:
“Oi amor”
“Oi”.
“To com saudade da minha neguinha”
“Mas nós nos vimos anteontem”
“Eu sei, mas tenho saudade daquele seu jeitinho carinhoso de quando te conhecí…”
“Ah não Gustavo! Você é muito dramático, dá licença que eu tenho muita coisa para fazer. Vou desligar”.

E desligou.

Gustavo ficou paralisado: “Mas eu fui tão compreensivo e atencioso com ela”. Foi quando ele levou um tapa na cara de sí mesmo.

“Cala boca seu tanga frouxa!” era o outro eu não sentimental de Gustavo, com olheiras profundas de tanto ficar esquecido no escuro.
“Você está virando um frouxo! Um pé no saco. Você tem noção que eu já não entro em ação há uns dois meses? Agora é só chororô, sentimento e frescura. To afim de sair da gaiola, to cheio desse fru-fru. Para de chorar porque quando você liberou suas emoções, você reprimiu seu instinto masculino. Um homem não pode gastar horas pensando sobre um sentimento, um homem precisa agir. Sem pensar se isso vai magoar alguém, ou se pode ter prejuizos dramáticos. As mulheres são assim, e por isso gostamos delas, nós somos o contra-peso. Agora deixe de ser covarde. Da próxima vez que for chorar, pare! Procure algo de útil para fazer, vá arrumar o telhado, vá levantar peso, vá trepar, ler alguma coisa, gargalhar ou tomar cerveja, mas não se deixe inebriar pela lissergia emocional. Você é o que você faz, e não o que você sente. Muitos homens nessa vida deixaram de agir, de construir de criar para se lamentarem como maricas. Não seja um deles. Você que está aí sentado! Levante-se! Há um lider dentro de você! Faça o falar!”

E blam. O tapa na cara foi um estalo para Gustavo.

No outro dia Gustavo procurou sua namorada. Ela estava cansada, desencantada e disse que não queria mais nada com ele. Gustavo saiu da casa dela chateado, mas assim é a vida. Ainda assim, ao sair ele sabia “ela é uma em um milhão, é duro perdê-la”, mas era tarde demais.

Fora isso, a dignidade não tem preço. Ele poderia implorar para reatar o laço entre os dois, mas se ela não quer por vontade própria, então talvez nunca tenha existido um laço, ou talvez fosse fraco demais.

“A única coisa que eu posso dizer é que eu quero você. Mas eu tenho minha maneira e não permitirei me modificar novamente, independente da sua decisão”, disse Gustavo esperando por uma resposta. Ela não disse sim ou não. Ele presumiu que estavam acabados.

Gustavo saiu. Quisera ele ter ficado.

“Uma em um milhão”, ele pensou.

O seu erro, Gustavo, não foi chorar demais, foi se apegar, ao invés de apenas amar.

Juão e o fuminho

In 1 on Agosto 19, 2008 at 1:14 pm

Era uma noite ociosa quando Zé apresentou o fuminho ao Juão. O Zé falou, “fuma sem medo”. Juão ficou receoso, deu algumas tragadas e a fumaça coçou a garganta. Tossiu. “Isso é ruim!”, disse Juão. “Calma que o efeito não bateu ainda”, disse Zé.
Juão esperou acontecer alguma coisa, mas tudo estava do mesmo jeito. “Não vai bater”, disse. “Calma”, respondeu Zé.

Bateu. Quando Juão virou a cabeça sentiu que a imagem em seu cérebro parecia chegar com um atraso. Juão e Zé se levantaram e caminharam em silêncio pela rua, nada precisava ser dito. Para Juão era uma experiência nova. Juão perdeu o interesse pela maioria das outras coisas, andava pela rua e a sensação era de que o tempo não era o mesmo. A rua que Juão já atravessou centenas de vezes parecia maior agora, e para chegar ao fim da rua o tempo prolongava-se. Os faróis de um carro acendiam lá na frente e Juão olhava. Olhava para baixo, quando achava que os faróis já estaria bem próximos, eles ainda estavam distantes.

A vida de Juão acabara de mudar. Estava apaixonado pelo fuminho.

Dalí por diante os interesses de Juão foram perdendo a graça, tomados pelo interesse no fuminho.  Juão treinava circo, fazia malabares todo dia para aprimorar a técnica. Ele também estudava geografia, paixão antiga. Mas depois de se apaixonar pelo fuminho todas outras paixões pareceram acinzentadas. É como se a vida real de Juão tivesse sido suprimida pelo prazer de viver com o fuminho. Um vício.

Era bom estar com o fuminho na mente, mas Juão sentia-se culpado. Tantas coisas para fazer e só pensava no fuminho. A personalidade de Juão passou a ser modificada pelos efeitos do fuminho.

Chegou um momento que Juão não aguentou. Fizera muitas concessões em sua vida por causa do fuminho, estava na hora de recuperar sua personalidade pois o fuminho não dava retorno.

Parou de consumir, parou de comprar, não queria mais chegar perto do cheiro do fuminho, pois era muito tentador. O fuminho, como objeto inanimado que é, não chamou por Juão, mas ele ainda sentia a tentação “Preciso do meu fuminho”. Mas resistiu, resistiu. E um dia não havia mais fuminho na vida de Juão. Bastaria fazer uma ligação e pedir que Zé trouxesse o fuminho, mas para Juão, não é não.

Sobrou um vazio estranho no lugar do peito onde ficava o fuminho. Leva tempo para preencher um rombo desses. Quando você abandona suas paixões em troca de algo e retira esse algo da sua vida, sobra só o espaço vazio. Juão entendeu que se algo entra em sua vida, este algo não deve suprimir suas outras paixões nem sua individualidade. É preciso haver uma coexistência entre todas as paixões, sem que se abdique da própria individualidade em troca de uma nova paixão, como por exemplo o fuminho.

Juão nunca mais fumou.

Hienas – Rufião

In 1 on Agosto 15, 2008 at 10:43 pm

Rufião é o ladrãozinho meia boca que foi preso por um crime que não cometeu. Chegou em Brasília sem grandes planos mas será arrebatado pelo destino para cumprir uma missão maior de puro charlatanismo.

A série “Os Hienas” é o projeto de uma série sobre uma dupla de charlatães picaretas, desenvolvida em capítulos aqui neste blog. Read the rest of this entry »

O colapso

In 1 on Agosto 14, 2008 at 3:36 pm

5h15

Ele está acordado?
Bem… parece que sim. Os olhos pelo menos estão abertos, a boca também. Está em silêncio total, parece até que morreu. A boca encostada contra o chão, as narinas respirando terra…
Parece que está em choque.
Se estivesse em choque estaria gritando.
Ele viu muitas coisas ruins, qualquer um no lugar dele ficaria desse jeito.
Conheço muita gente que não ficaria do mesmo jeito.
Calma, dêem espaço. Ele está querendo levantar.
Parece bem. Atordoado, os olhos profundos, mas está bem.
A circulação está normal, os olhos estão vagamente perdidos, há sintomas de muito estresse, mas tudo bem.

13h30

Há quantas horas ele está andando?
Desde que começou a levantar, faça as contas.
O que foi que ele disse aquela hora? A língua parecia enrolada, eu não entendi nada.
Ele disse algo sobre morrer aos poucos. Sobre estar morto.
Acho que ele completou o que ele disse há alguns dias atrás.
Não me lembro. O que foi?
Ele disse que a cada vez que ele aceita a morte, ele morre mais um pouco.
Ele é muito calado, não é muito de falar. Mas quando falou aquele dia, nem parecia que era ele quem estava falando, parecia ser outra pessoa falando através dele.
A capacidade humana tem limites. Ele passou por maus bocados.
Não perca seu tempo, registre tudo. Capte as pálpebras e os cílios dele, observe como estão tremendo.
É como se ele fosse levado por uma vontade que não é dele.
Anote isso por favor.

19h00

Chequem a pulsação de novo.
Ele não avisou que ia fazer isso? Ele só caiu?
Sim. Ele caiu e ficou aí, do mesmo jeito que estava hoje de madrugada. Parou e caiu.
Está tudo bem?
Parece que está tudo bem. Eu nunca ví um homem nesse estado. Mas em termos físicos, ele está bem.
Vamos deixa-lo aí? Com a boca virada para o chão, olhos abertos, descansando desse jeito?
Definitivamente isso não é normal, mas nossas instruções são para que fiquemos atentos, apenas observando. Não devemos interferir em nada.
Muito bem. Vamos sentar e esperar. Revezaremos, um deverá ficar sempre acordado para quando ele levantar.

3h47

Não mudou de posição desde ontem a noite. As narinas e os lábios estão secos.
Estou preocupado.
Não fique. Deixe-o.
Não há ninguém para dizer o que devemos ou não fazer. O certo para mim neste momento é interferir.
Se você interferir, destruirá o projeto, eu não deixarei que faça isso.
Concordo. Devemos manter a calma e a paciência e observar apenas. A ciência precisa de objetividade e imparcialidade.
Não se distancie.
Me deixe em paz.
Não se preocupe, ele vai aprender com o tempo a se acalmar. Deixe ele.
Não. O comportamento dele pode colocar o projeto em risco.
O que está fazendo?
Me deixe.
O que está fazendo?
Rezando pela alma deste homem.
Você me disse que ele era ateu.
Foi o que ele me disse durante a entrevista.
Devemos tomar mais cuidado durante as entrevistas. Devemos ser mais criteriosos.
Isso não acontecerá novamente.

5h11

O que há?
Ele está quieto demais, os olhos estão vítreos, perdidos na superfície do rosto.
Não estou sentindo a respiração dele.
Rápido, cheque os pulsos.
Não há pulso. Ele faleceu.
Quando foi que aconteceu?
Não sei imediatamente, ele está assim nessa mesma posição há horas, eu perdí o momento exato.
Você ficou preocupado, sua cabeça se perdeu em devaneios, as instruções eram para que registrassemos o momento exato do óbito, caso ocorresse.
Foi muito sutil. Eu não enxerguei a passagem.
Você acha que a câmera captou a passagem?
Não tenho certeza. Ele não emitiu expressão alguma. Apenas morreu.
Mas será possível sentir através das imagens o momento de passagem entre a vida e a morte?
Não sei.
Parece que perdemos um bom tempo com este aqui, para nada.
Recolham suas coisas. Não há mais motivos para estarmos aqui.
Registre o horário de encerramento das nossas atividades por favor.
Cinco horas da manhã e quinze minutos, completaram-se exatas 24 horas depois do colapso.