Gustavo

Posts de Novembro, 2008

O segredo das mãos de Pedrinho

In 1 on Novembro 11, 2008 at 4:10 am

Em uma terra que não existe, dentro do país imaginário, houve um dia um cotejo inesperado, anonimamente antecipado por um duende malcriado. A esperança foi um presente herdado do dia mágico, do lago parado, do duende calado. Pedrinho e Cristiane tinham se encontrado.

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A grade da janela de Cristiane estava fechada, Pedrinho ficou do lado de fora enfiando a mão para tentar alcançá-la. Já era tarde da noite e a menininha estava dormindo, de tanto trabalho que teve pra limpar a casa e preparar a comida para o banquete de família que estava por vir no dia seguinte. Pedrinho esticou a mão na janela e conseguiu tocar a cama, mas ela dormia para o lado de lá.

Pedrinho se abaixou, catou um graveto e esticou pela janela. Passou no cabelo de Cristiane. Ela deve ter pensado que fosse um mosquito porque se coçou e tremeu todinha. Na agitação da noite, a menina se descobriu. Pedrinho pegou o graveto e puxou de volta a coberta para mantê-la aquecida. Ela virou-se para o o outro lado da cama e ficou bem perto de Pedrinho. Ele viu o rosto angelical da menina dormindo e lembrou-se daquela mesma manhã que gastou ao lado dela de mãos dadas correndo pelo lado de fora da casa, estavam buscando alguma coisa, não sabiam o que, mas estavam juntos. Pedrinho admirou o rostinho da garota e viu o luar tocar o rosto e tingir de prata os cabelos macios. Ele levou a mão até a cabeça dela e acariciou seus cabelos.

Foi então que a palma de sua mão começou a coçar. Pedrinho então fechou a janela em silêncio para que Cristiane não pegasse frio e fechou as mãos. Algo tinha aparecido alí. Ele olhou com muita atenção e fechou a mão formando uma concha com um pequeno buraco para que pudesse colocar o olho e ver o que tinha aparecido. Não queria que aquilo que estava alí dentro de suas mãos escapasse de maneira nenhuma. Ele não sabia nem dizer qual era o nome daquilo que tinha aparecido bem na covinha que se forma no centro da mão quando ela está fechada, mas era alguma coisa bem bonita que ele guardou e não quis mostrar para ninguém.

Pedrinho saiu correndo pelo matagal com as mãos fechadas, tendo como luz apenas o luar, quase tropeçou algumas vezes nas raízes grossas das árvores gigantescas e teve que se cuidar para não cair de rosto no chão. Com as mãos fechadas não poderia se apoiar em nada. Passou pelas sombras e ouviu o zunido dos morcegos, o uivo dos vira latas, o sussurro da brisa que fazia côcegas nas folhas que farfalhavam alvoroçadas.

Pedrinho encontrou a beira de um lago e sentou-se em sua borda. Descalçou-se da botina apertada e deixou que os dedos dos pés afundassem na lama gelada. Um sapo a espreita deu um salto para longe dos pés de pedrinho e coaxou curioso. Pedrinho escondeu a mão do sapo e não deixou que ele visse o segredo que havia alí guardado. Do lado de cá um vagalume tentou iluminar o segredo em suas mãos, mas Pedrinho guardou bem fechado as mãos fechadas próximo da barriga curvando-se, e não deixou que ninguém visse. Foram todos embora, deixaram Pedrinho e o lago manso. Pedrinho gastava horas observando o que havia de tão especial dentro de suas mãos, e de vez em quando descansava observando a lua refletida no lago. Com o passar das horas a lua e sua voz melodiosa voz noturna escapou-se do céu, só.

Pedrinho já estava cansado quando o sol surgiu, mas continuou sentado quase querendo chorar, porque não sabia o que estava sentindo nem guardando entre as mãos. Apesar de sentado, quieto e livre de perigos, era como se estivesse caindo do céu, e subindo de novo, uma aventura humana que vivia pela primeira vez. Mal sabia dizer, mas se ficasse parado, esse sentimento misterioso, do segredo guardado, quase dava pra ver.

Cristiane viu de longe pela manhã Pedrinho curvado na beira do lago ao pé de uma árvore sem folhas e correu para abraçá-lo:
“Oi Pedrinho”, ela disse, “Vamos correr mais um pouco no quintal atrás da minha casa?”
“Agora eu não posso. Eu achei um troço, tá aqui guardadado, eu não posso abrir a mão, porque esse troço pode escapar, ou sei lá. Você pode achar feio e querer jogar fora. Sei lá o que pode acontecer se eu abrir a mão”. Pedrinho queria esconder as mãos de Cristiane, mas ao mesmo tempo estava satisfeito com a companhia dela. Queria que ela ficasse por alí e não fosse mais embora. Ele disfarçou que escondia algo, mas ela percebeu, e tentou ver o que estava alí dentro. Ele escondeu as mãos fechadas do outro lado.

Cristiane ficou curiossa e insistiu para que ele abrisse, Pedrinho não quis e se jogou no lago, com as mãos estendidas para que a água não vazasse pelas frestas dos dedos e molhasse o segredo. Pedrinho enxarcou a prórpia roupa e pensou na bronca que levaria da mãe quando voltasse para casa. Cristiane não teve coragem de entrar na lagoa. Era muito cedo e estava muito frio, o sol era apenas um pré-adolescente boiando no céu tão cheio de incertezas quanto ao resto do dia, quanto ao resto da vida, assim como os dois jovens banhados por sua luz à beira do lago. Pedrinho chegou mais perto de Cristiane, ficando com água até a barriga.

“Eu não posso mostrar pra você. Na verdade, o que eu tenho aqui, é pra você, mas pode ser que você não entenda. Vai que você joga fora, vai que você não gosta. Vai que você nem liga!”
“ahhh. Eu vou gostar sim, me mostra, me mostra”, e ela estava morta de curiosidade. Nunca se viu aquela garota tão alvoroçada logo depois do café da manhã. Geralmente falava devagar, tinha preguiça de comer o pão e demorava pra sair da cama, só ia virar gente lá pra depois das onze horas quando o galo já tinha desistido de cantar.

E Pedrinho não quis. Cristiane falou que se ele não quisesse abrir as mãos, então ela iria brincar sozinha lá no quintal, e ia deixa-lo molhado e sozinho dentro da lagoa. Pedrinho estava incorformado. Criou coragem e caminhou lentamente na direção dela. Manteve as mãos fechadas esticadas de frente para ela. “Abre logo! Quero ver o que tem aí dentro”. Os dedos de Pedrinho estavam cerrados com força e aos poucos foram ficando frouxos. Sua pele estava enrugada por causa da água fria que invadiu até os poros enchendo-os de umidade. Pedrinho tremia de frio e fazia um barulho engraçado ao respirar, o ar de sua boca saia em forma de fumaça. Cristiane deu um beijo na boca dele que encheu de calor o coração, e os dedos foram enfraquecendo até abrirem-se por completo revelando o que havia de tão precioso escondido entre as mãos de Pedrinho, e não havia nada.

“Ei. Você me enganou. Não tinha nada”.
“Tinha sim. Eu juro que tinha”
“Então o que é que tinha?”
“Nâo sei.”
“Como era?”
“Não sei.”
“De que tamanho era?”
“Não sei.”
“De que cor era?”
“Não sei.”
“Era alguma coisa?”
“Era.”
“O que?”
“Não sei.”
“ahhhh. Para com isso Pedrinho. Tchau, eu vou brincar”.

E Cristiane saiu correndo, deixou Pedrinho com os pés ainda chafurdados no lodo, com as mãos vazias, os ombros caídos e o corpo molhado. Pedrinho olhou para o céu, olhou para a lagoa, nem ele pode compreender o que viu por tanto tempo entre próprios dedos. Nem ele entende, foi alguma coisa mágica, quase sem explicação.

Naquela mesma noite a janela de Cristiane estava fechada com uma cortina. Pedrinho dormia cansado, com o coração abalado. Numa clareira, em meio à mata, havia uma fogueira e um duende sentado. Um sorriso de bochecha a bochecha, claramente no rosto estampado. O duende cupido, insensato e piadista, divertido e analista, deixou para Cristiane um coração sonolento e para o garoto um motor velho e descalibrado que no peito bate no compasso errado, no ritmo varado do tempo escorrido, do segredo revelado, do mistério encerrado, do amor não correspondido.

 O segredo perdendo o brilho, a vida ficando sem graça.

IESB marca presença no segundo Perro Loco

In 1 on Novembro 10, 2008 at 4:18 am

A segunda edição do Perro Loco - Festival de cinema universitário latino americano - realizado na Univesidade Federal de Goiania entre os dias 4 e 9 de novembro teve 186 obras inscritas entre ficções, documentários e animações. Representando o Distrito Federal houveram 4 filmes inscritos: Coletivo Planalto, Coletivo Desconstrução, Xuxu vou me mandar e Club Silêncio.

 

Coletivo Planalto, o meu filme (Leia-se Gustavo Serrate), e produção de Rodrigo Luiz Martins e Eurico Martins, é um video arte criado para experimentar a linguagem visual e narrativa. Não há uma história com início, meio e fim, não há uma história definida. O video dura 3h42 segundos com a imagem de uma poltrona de ônibus sendo observada num plano objetivo, em dado momento o observador tem “pensamentos dourados”, recorda da praia, que está tão distante de seu cotidiano brasiliense, seco e entediante. Não há uma compreensão intelectual para o filme, não há o que entender. É um filme para se assistir e interpretar como quiser. Uma das espectadoras do filme afirmou: “Não entendi muito bem. Acho que faltou contexto”, e outro expectador perguntou: “Qual era a sacada da praia?”. A resposta é: Não existe uma sacada no filme. Não há necessidade de um gran finale, trata-se apenas de uma experimentação audiovisual. Para ser bem sincero, confesso que fiquei surpreso quando recebí a notícia de que o filme fora aceito no festival, afinal eu havia enviado outros dois filmes, e apenas o filme experimental, com a narrativa menos “coerente”, foi justamente o selecionado para a mostra competitiva.

Vários realizadores e espectadores “curiosos” estiveram presentes nas exibições, houve debate com os realizadores (do qual não participei, pois perdi a hora) e votação do público para os melhores filmes. Viajei patrocinado pelo IESB, onde estudo jornalismo para a mostra do dia 8 ( sábado ). Os filmes mais relevantes da mostra competitiva que pude assistir foram: “Minha tia, meu primo”, da Universidade Estácio de Sá, Rio de janeiro. O filme fala sobre a tia de um video maker, uma figura bem engraçada e peculiar, que mora sozinha e tem como única companhia um canário dentro de uma gaiola que segundo ela foi um presente de Deus. “Ele entrou um dia e eu fechei todas as janelas. Como todas lojas estavam fechadas, no outro dia eu comprei uma gaiola e agora ele é meu filho”, diz a Tia. O que me chamou a atenção foi a espontaneidade da Tia, que já sonhou em ser atriz de cinema, e tinha a boca suja sem ser vulgar e sempre com bom humor. Muitas vezes ela pedia para que ele parasse de filmar, mas ele prosseguia filmando. Talvez se ele não a conhecesse tão bem não teria essa ousadia. Outro filme interessante foi o Nipon 96 – Después do Ruido, da Pontificia Universidad Católica del Perú. O filme narra uma invasão terrorista na embaixada do Japão que durou mais de 150 dias. A narrativa é criada de forma particular pois não enfoca apenas o drama dos reféns, mas toca num ponto crucial dos direitos humanos quando ressalta o ponto de vista dos terroristas e de suas famílias. Os terroristas foram todos assassinados após o incidente e suas mães choram até hoje, e cobram justiça “Eles também são humanos”, dizia uma das mães. Falar do ponto de vista do terrorista é uma escolha pouco usual para o cinema e o jornalismo.

Às 21h, houve o show “Palco Viramundo”, com seis bandas: Umbando (GO), Johnny Alfredo e seus Neurônios (GO / MG), Los Muertos Vivientes (ES),Club Silêncio (DF), Diego de Moraes e o Sindicato(GO) e Porcas Borboletas (MG). As duas últimas bandas: Diego de Moraes e o Sindicato e Porcas Borboletas destacam-se pela originalidade e energia no palco. Diego de Moaes tem letras extremamente criativas e quebra o preconceito que há sobre Goiania, de que lá gostam apenas de música serteneja. A banca toca Rock mas incorpora até um bandolim em sua apresentação. Porcas Borboletas, de Minas, me fez lembrar da força colossal dos Titãs em início de carreira, um dos vocalistas é cheio de movimentos performáticos que destacam a banda no palco. No final do show o vocalista parece morrer, de tanta energia que gastou, despenca do palco e cai fingindo-se de morto no meio da multidão. Detalhe é que horas mais tarde ele veio paquerar uma menina que estava conversando comigo e ficou intimidado, provavelmente pensado que ela fosse minha namorada. Os sons de Goiania e Minas Gerais me surpreenderam.

Júri Oficial do festival, formado pela jornalista e produtora audiovisual Márcia Deretti, pelos cineastas Cláudio Assis, Guilherme Sarmiento e Hans Bremer e pelo professor e diretor Carlos Cipriano, premiaram os oito filmes vencedores no domingo (9): Tiempo y Dolor (Pontificia Universidad Católica del Perú, Peru, 2006, Ficção), de Jorge Luis Gonzáles recebeu o prêmio por Domínio de linguagem. Inevitable (Pontificia Universidad Católica del Perú, Peru, 2005, Ficção), de Ivan D’Onadio Muñoz, recebeu o prêmio por Experimentação de linguagem. Emiterio (Universidad Nacional de Córdoba, Argentina, 2006, Documentário), de Diego Seppi e Jose Tabarelli, recebeu o prêmio de Expressão cultural. Hiato (Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Brasil, 2008, Documentário), de Vladimir Seixas, recebeu o prêmio de Melhor documentário. Corpo Frio (Universidade Federal do Ceará, Brasil, 2008, Animação), de André dias, recebeu o prêmio de Melhor animação. O Brilho dos Meus Olhos (Universidade Federal Fluminense, Brasil, 2006, Ficção), de Allan Ribeiro, recebeu o prêmio de Melhor ficção. Espuma e Osso (Universidade Federal do Ceará, Brasil, 2007, Ficção), de Gustavo Parente e Ticiano Monteiro, recebeu o prêmio especial do júri. Mesa de Bar (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil, 2008, Ficção), de Pedro Nora e Tiago Ribeiro também recebeu o prêmio especial do Juri.

Perro Loco mostrou-se um festival coerente em sua proposta, de festival voltado para o público universitário, com muitos filmes em vários dias de exibição e uma festa a altura com boas músicas, uma boa oportunidade para troca de informações entre estudantes e cineastas.

Assista Coletivo Planalto, o curta seleciona para este Perro Loco:

Vila dos sonhadores

In 1 on Novembro 3, 2008 at 3:34 am

Tudo começou no orkut com uma comunidade chamada “Vila dos Sonhadores”, na época em que eu frequentava o emaranhado das teias sociais, eu não encontrava nenhuma comunidade realmente interessante e inaugurei esta para falar de coisas corriqueiras para quem enxerga poesia em todo lugar, e para quem quer aprender a enxergar. A comunidade foi um sucesso na época, não faço idéia de como está hoje. O mote era:

“Vá embora. Estou tentando morrer. Estou farto do mundo e o mundo farto de mim. Agora só há lógica e razão, ciência e progresso…Leis da hidráulica, leis sociodinâmicas. Leis disso e daquilo outro. Não há lugar para ciclopes de três pernas… dos mares do sul. Nem lugar para magnólias… e mares de vinho. E nem para mim. E estou muito cansado… Adeus.”

O curta Vila dos sonhadores foi uma idéia de manter a simplicidade, de não me preocupar com uma narrativa tradicional, mas com a experimentação das sensações infantis, da forma como uma criança solitária vê o mundo. Eu queria muito mais fazer um curta que evocasse as sensações que eu sentí na minha infância do que um curta realista com uma história didática. Não há muito o que se “entender” desse filme. É um curta para se assistir sem muita preocupação intelectual. A idéia é entrar no unviverso da criança que quer colocar seu ursinho de pelúcia para voar, e que pelo menos na imaginação dele, consegue.

O urso do filme deve ter um ano a mais que eu. Tenho várias fotos de moleque andando abraçado com ele. O curta foi exibido no Perro Loco, um festival de Goiania e no Festival de Curtas do IESB, onde recebeu menção honrosa.

As almas, o ladrão e o sertanejo

In 1 on Novembro 3, 2008 at 2:12 am

Este conto eu não vivi, não presenciei, no entanto sei, pode bem ter sido verdade.

Dizem que a alma não nasce conosco, nasce sim quando se chora pela primeira vez. Aquele que nasceu sem chorar não ganhou alma ainda, há o caso da criança que segurou o choro até os quatro anos quando criou coragem e chorou pela primeira vez, só a partir daí foi capaz de sentir as emoções humanas em sua infinitude.

Quando a esposa de Aderaldo estava para dar a luz, morreu no parto junto com a criança em seu ventre. A criança já chorava mas engasgou com o sangue da hemorragia ainda dentro da mãe. A parideira inexperiente desmaiou no parto. Aderaldo só pode rezar e pedir a Deus que poupasse a vida das duas garotas: da mulher que amou e da pequena criança que estava para nascer e que um dia se tornaria adulta e bela como a mãe. Deus não poupou naquele momento o coração de nenhuma das duas, mas no momento do parto mal sucedido, uma vaca do rebanho da fazenda, ao lado de casa estava prestes a dar a luz. As duas almas recém libertas ainda vagavam pelas redondezas e foram absorvidas pelo choro do bezerro bebê.

Deus deve ter costurado as duas almas,  a da mãe e da filha, porque quando o bezerro berrou, Aderaldo sentiu uma leveza no coração que lhe poupou de maiores sofrimentos. Não foi a toa, aquele novilho foi das vacas o mais bem alimentado, banhado, e bem cuidado. Com o passar dos anos Aderaldo dedicou o amor a cuidar da vaca que cresceu saudável com duas almas costuradas, a de mãe e filha. Aderaldo sentia isso, sabia disso. Nunca contou para ninguém. Todos no entanto estranharam que não estivesse de luto.

Com o passar dos anos Aderaldo sentia a solidão da cama vazia, da falta de coragem e habilidade para conhecer uma nova mulher, da vontade de cuidar do bebê chorão que nem nasceu, de ver correr e crescer a criança que seria sua filha. A falta de vontade de acordar pelas manhãs fez a riqueza da fazenda de Aderaldo minguar aos poucos. Vendia seu rebanho para quem pagasse melhor, e a mata ao redor da fazenda ganhando tamanho, utilizava apenas uma estrada atravessada de dia a dia para comprar as provisões na feira da cidade, dormia muito e quase nunca sentia saudade, acreditava de verdade que suas duas garotas estavam atrás daqueles olhos rotundos, profundos, volumosos e negros da vaca crescida, só não se podiam comunicar.

Aderaldo recebia poucas visitas, todo fim de semana havia uma festa na cidade, um forró bom com rabeca sanfona e zambumba, mas Indira, a cunhada de Aderaldo, viúva de seu irmão, sentia-se sozinha demais ao ouvir aquela música feliz, ela lembrava-se do marido morto há alguns anos por uma doença de peito, infarto talvez.  Indira esperava o dia de festa para visitar Aderaldo, falavam das boas coisas do passado quando andavam todos juntos, Aderaldo, sua esposa, o irmão de Aderaldo e Indira a esposa de seu irmão. O pai de Aderaldo foi um violeiro dos bons, cheio de histórias e de modinhas para colorir as noites sertanejas. Indira, assim como Aderaldo, depois de inviuvada ficou solitária, sem amor. Vinha portanto conversar com o cunhado, não apenas para matar saudades, mas a sede. Quando já ficava tarde para que ela fosse embora, e a tarde chegava de propósito, Aderaldo a convidava “você pode dormir aqui se quiser, se meu irmão fosse vivo talvez não dava permissão, mas ele já está bem longe agora.”, e Indira sempre aceitava depois de reclamar da distância e de uma dor nos pés.

Dormiam juntos na mesma cama e faziam amor, cada um com sua própria saudade. Encontravam na carne do outro a paz para os próximos sete dias da semana. Acordavam juntos pela manhã e juntos gozavam com a expressão bonita de prazer. Suados, secavam-se nos lençois, com o vento da janela aberta com a cortina faceira esvoaçada. Levantavam com o berro do galo, com o cheiro de leite, com a vontade do pão.

A falta de disposição de Aderaldo para cuidar da fazenda fizera aos poucos a pobreza chegar. Notava-se em seus rosto algumas rugas do tempo. A vaca de alma costurada estava saudável, pastava todas as manhãs e fornecia o leite matinal. O pão era comprado na feira da cidade, as frutas poucas eram da horta cada vez mais reduzida. Apesar da tristeza diária, o coração do homem do campo ainda batia muito vivo, bebia todas as tarde um chá erva cidreira. Acalentar as mãos com a caneca quente aquece junto o coração como o abraço da pessoa querida. Tinha pensamentos dourados durante o chá do fim de tarde.

A cidade certa vez enfrentou uma seca que levou muita gente a miséria, apareceram uns tipos viajantes bem estranhos, chegados de longe. A pobreza de Aderaldo ainda não significava fome.

Indira convenceu Aderaldo de que ele deveria aprender a ler, apenas porque ela já tinha se engajado na empreitada, mas era envergonhada de sentar nas cadeiras das crianças, queria alguém para acompanhá-la. Além disso, como todo dia de forró ela e Aderaldo viam-se longe da festa como amantes, surgiu a afeição.

Aderaldo aceitou a proposta mal sabe-se porque, ele não era muito de sair, não era dado à coisas novas, mas a necessidade de conhecer as letras, de saber que “l e i t e” se escreve assim, “t r a b a l h o” assado, e “a m o r ” de outro jeito ainda mais simples mas na verdade era na prática um tanto complicado; tudo isso serviu de justificativa pra aprender a ler e quiçá escrever.

Deixava a fazenda sozinha todas as manhãs e quando ficava muito tarde, ele próprio dormia na casa de Indira, amavam-se e dormiam abraçados, quando desuniam-se durante a noite as mãos continuavam dadas. Aderaldo ganhou afeição com Indira e perdeu parte de sua obsessão com a vaca, mas ainda preocupava-se bastante.

Ligeiro era o peregrino mais novo na cidade. Carregava uma pequena maleta de couro marrom e quinas metálicas, um chapéu de palha, roupas surradas, um paletó cinza amarrotado e um cinto apertado com fivela de ouro. As botinas tinham línguas, mas não tinham sapateiros nem dinheiro para o conserto. A fome de ligeiro aumentava, o ronco da barriga implorava. Roubava um pão deixado quase de propósito pelo padeiro toda manhã. Se Ligeiro soubesse que não precisava roubar, bastava apenas pedir, não teria essa coragem. Tinha vergonha de pedir. Também tinha vergonha de roubar, mas quem rouba, rouba sozinho, e com o passar dos anos o ladrão aprende a engolir a vergonha de sí mesmo. A dignidade para alguns é apenas uma fachada, assim era para Ligeiro. Uma vergonha atrás da outra, acostumou-se a não morrer de fome, engolia a própria vergonha.

Ligeiro vagava a esmo pelas estradas pisoteadas, sujando de poeira as botas arregaçada até que descobriu a vaca de alma costurada. Quando Aderaldo ia assistir aulas de alfabetização na escola das crianças durante a tarde, Ligeiro corria para a fazendinha e roubava todo o leite das tetas volumosas da única vaca de Aderaldo. E como era bom o leite, e as frutas, e toda aquela tranquilidade de roubar escondido. Mas chegou um dia que Ligeiro quis carne, sangue e fartura.

Ligeiro gastou uma semana inteira pensando no jantar de anos atrás quando o pai matou um boi para festejar o aniversário de casamento da filha mais velha. A carne deu para tanta gente e a festa foi tão feliz que o gosto da carne nunca saiu de sua boca. E durante os sonhos Ligeiro salivava de fome da carne. Aquela vaca vistosa era mais gorda do que qualquer habitante da cidade. Só havia gente de poucas carnes na cidade, gente paupérrima naquele tempo magro. E Ligeiro sentiu raiva até do egoísmo de Aderaldo. Como podia um homem só guardar tanta carne para sí só, em troco de um copo de leite, de uma companhia bovina? Para a sorte de Ligeiro, Aderaldo já não gastava muito tempo na própria fazenda, vivia os encantos do amor sob outro teto. A oportunidade faz o ladrão, para o ladrão já feito a oportunidade é quando ocorre o roubo mais puro e sem culpa.

Foi na quinta-feira depois de uma semana inteira de desejos de carne que Ligeiro aproximou-se da fazenda e sob a luz de um lampião catou o machado de cortar lenha. A vaca com seu hálito de grama, que nunca passou por um arrepio de perigo nem percebeu o machado estendido sob seu pescoço. O machado levantado pelos braços fracos de Ligeiro tiveram peso suficiente para partir a carne do pescoço da vaca em dois nacos suculentos. A cabeça pendeu para um lado quando a força do aço abriu os nervos e estourou a coluna vertebral até expor as veias mais salientes, o sangue jorrou com força e transformou a terra em lama. Ligeiro procurou sua faca de estimação e fez um rasgo no pescoço da vaca que ajudou-a a morrer. E a vaca de alma costurada liberou o cheiro de ferro do sangue, morreu tentando debater-se.

A carne que Ligeiro comeu teve um gosto especial, gosto de festa com uma diferença: não havia gente para compartilhar, sobraria muita comida, não teve folia, apenas um silêncio misterioso, um pouco de medo e a sensação de culpa, de falta de dignidade de tirar o leite matinal de um homem solitário.

Quando Aderaldo chegou pela manhã e viu a vaca morta desesperou-se. Uma grande parte da carne do lombo havia sido esfaqueada, parte do couro arrancada e a carcaça toda no chão, desperdiçada, assassinada. O chão ainda estava molhado e o sangue ainda pingava das artérias abertas do pescoço, como a água restante de uma mangueira com a torneira fechada.

Aderaldo só podia chorar e chorar, ajoelhado no chão sobre o barro, sobre o sangue que a terra bebeu. Encostou o rosto na terra e seu rosto manchou-se de marrom e vermelho, a cor da terra molhada. Caiu de bruços e gastou duas horas olhando para o céu até que o choro finalmente cessou. Aderalbo percebeu com paz interior que as almas costuradas de sua esposa e filha estavam finalmente livres para diluirem-se pelo infinito do espaço.

Não haviam mais viúvos, não havia mais fome e a chuva abençoada do dia seguinte salvou muitas plantações da miséria, despencou sobre o teto da casa de Indira que agora também era casa de Aderaldo.