Os olhinhos infantis já não enganam mais ninguém tantas foram as vezes que mentiram em rios de lágrimas, não se sabe de onde vinham. Eram sempre fartas as choradeiras, mas não derramou uma gota quando soube o motivo da prisão: ROUBO!
Completou cinco anos no inferno imundo que é a penitenciária papuda, detido por furto qualificado. Ao sair, foi lhe dada uma camisa branca, chinelas e uma bermuda, estava muito frio e a ventania estava forte. Haviam outros dois recém-libertos no pátio esperando apenas que ele saísse. Não há condução para os presos, na maioria dos casos ninguém da família está na porta da prisão no dia da soltura, então o caminho para a rodoviária é longo, e tinham que fazer a pé. Se dessem sorte conseguiriam carona de algum motorista generoso.
No caminho, os prisioneiros conversavam, apesar de habitarem alas diferentes do mesmo complexo, apenas um dele manteve-se completamente calado durante longo período. O assassino do grupo puxou papo com o ladrão.
-Que foi que tu fez?
-Roubei um carro de um bodinho. Me ferrei. Tinha uma blitz, o pai dele era militar.
-Mas que azar da porra.
-Pois é.
-Tu já tem pra onde ir?
-Tenho não. Quer dizer… na verdade eu tenho, só não sei se vou ser aceito de volta.
-Pois é cara, nem eu nem o cumpadí alí temos onde ficar. Tu acha que pode arrumar um abrigo pra gente?
-Olha… não sei se consigo nem pra mim…
-Que que tem? Tá me achando sujo só porque sou preto?
-Não é isso porra. Sou meio preto também merda.
-Tu é merda de moreno rapá! Qual o problema de ficar na tua casa?
-Não é minha casa, esse é o problema!
-É casa de quem?
-Da minha ex mina.
-Ah. Foda-se. Pede pra ela arrumar um colchãozinho.
-Que colchão, não tem colchão lá não.
O assassino ficou olhando para o ladrão, estava puto. O estuprador permaneceu em silêncio.
- Olha alí! Vamo pedir uma cervejinha alí, ver se os caras são sangue bom.
E foram. O assassino sentou-se na mesa com arrogância, os outros dois permaneceram de pé.
- Rola uma cervejinha aí véi ?
O garçom passou o pano na mesa calado, limpou os pingos de cerveja e restos de comida que ainda estavam alí por cima.
- To falando contigo. tu ouviu?
- Tranquilo, vou trazer uma lata e vocês dividem.
O garçom sai.
-Dividem nada! Eu que sentei. Eu que pedi. Eu que cobrei. Eu que ganhei. Eu vou tomar sozinho.
O estuprador se aproximou.
- Um gole cara. Um gole. To há anos sem sentir o gosto da cevada.
- Vai implorar? Vai lamber minha pica? Não né? Então nem adianta insistir.
O garçom trouxe a cerveja e puxou duas cadeiras para o ladrão e para o estuprador. Sentaram-se e esperaram que o assassino tomasse sua cerveja. E ele apreciou o gosto com um prazer nítido, lentamente, saboreando, permitindo que a cevada se fizesse sentir em todas as extremidades da boca e da língua, deixou que o líquido percorresse a garganta vagarosamente e cada golada representava uma comemoração de liberdade. Quando já estava no final, e os últimos goles estavam ficando quentes, deixou um dedo de cerveja dentro do copo e se levantou.
- Pra não dizer que sou otário.
O estuprador pegou a cerveja com pressa.
- Calma, tem pouco, mas vou deixar para você.
Bebericou vagarosamente. A boca suada encostou na abertura da latinha e o ladrão perdeu a vontade de provar da liberdade.
- Tu foi pra cadeia porque?
- Atentado violento ao pudor.
- E o que é isso? Ficou peladão na rua?
- Não. Claro que não. Comi a filha do meu patrão. Aposto que ela gozou! EHEHeh
- Isso é estupro! Dá trinta anos!
- Mas meu advogado foi bonzinho e eu peguei só seis.
- O que teu advogado fez?
- Ele foi esperto ! O sacana usou a constituição! Foi a própria lei que me salvou. Eu comí só o cú dela, isso se enquadra em atentado violento ao pudor. Se eu tivesse comido a buceta, aí era estupro. Se ela tivesse menos de 18 eu tava fudido, mas já era uma égua crescida.
Enquanto isso o assassino tentava conseguir de graça um espeto de churrasco ameaçando discretamente o trabalhador. Conseguiu um espeto com pouca carne e muita gordura. Dessa vez foi generoso e deixou dois pedaços, um para cada “amigo”. Tinha uma dor de barriga insistente que ganhou com as marmitas indigestas do presídio. O estuprador deixou um gole para o ladrão, que não teve coragem de tomar. “Esse nem o santo quer”, pensou.
Saíram os três, rumo a rodoviária. O ladrão sentia-se sem esperança, sem prospecção, sem fé. Deixou o passo vagaroso, permitiu que os dois outros caminhassem à sua frente até ficarem distantes, mas eles sempre o esperavam.
Duas horas mais tarde estavam os três na rodoviária. O assassino quis mijar.
- Eu vou num banheiro descente pela primeira vez ! Faz tanto tempo que nem me lembro.
Para ele o banheiro da rodoviária era descente em comparação ao banheiro que frequentava regularmente. Só o fato de não ter que expor o pinto para um bando de gente já tornava a coisa respeitável, quase de família. Apesar do chão sujo, do cheiro, da gente louca, da pocilga que era aquilo, parecia o céu. É como dizem: Pra quem saiu do inferno, o esgoto é paraíso.
O ladrão aproveitou a brecha. Enquanto o assassino mijava e o estuprador acalentava os próprios braços debaixo da camisa no frio maldito da noite seca, escapou pela escada, se enfiou pelas ruas brasilienses e perdeu-se no escuro. Passou a noite dormindo em uma viela e acordou com o tropel sapatos engraxados passando às pressas no setor comercial. Levantou-se e viu no reflexo do espelho um mendigo em potencial. “Só se eu desistir”, pensou, “só chega a esse estado quem desistiu de tudo”. Observou um sujeito ao seu lado, dormiu da mesma maneira, a diferença entre os dois é que pela manhã ele estava de pé, o colega de sargeta não.
Lembrou-se de Goiás, Rio Verde. Sentiu remorso de ter deixado tanta coisa para trás, a casa quente, o acalento familiar, o cheiro de barro perto da lagoa, a labuta vagarosa mas compensativa, a vida de filho e estudante, o amor dos irmãos, as graças da vida. Haverá de lavar muitos carros para voltar para a terrinha, não tantos quanto os moradores de rua que vieram do nordeste, até mesmo porque muitos donos de carro confiam suas chaves ao lavador. E no caso deste lavador, uma chave de carro e um tanque cheio de gasolina são suficientes para cair fora daqui.
(continua…)