Gustavo

Posts de Outubro, 2008

Ed

In 1 on Outubro 31, 2008 at 4:21 pm

O Ed é uma figura aqui do trabalho. Ele vive andando de um lado para o outro, trabalha no suporte de atendimento aos jornalistas, carrega coisas, comunica, faz este tipo de trabalho.

O que é peculiar sobre essa figura é o fato de que ele não chama ninguém pelo nome. Eu cumprimento: “E aí Ed!”, e ele “Fala Jorginho”, detalhe que meu nome é Gustavo. Ele chama as mulheres de Isa, Regina, Bete, e os homens ele chama de Miguel, Jorginho, Marco. É uma boa desculpa para não decorar o nome de ninguém, aí outro dia um jornalista o cumprimento e ele o chamou pelo nome: “E aí Irlam!”. E eu falei, “Oh Ed! O Irlam tu chama pelo nome né?”, e ele respondeu “É que o Irlam tem mais de 30 anos de casa!”. E sai rindo.

De vez em quando ele passa cantando. Todo mundo rí. É uma figura.

Hoje o Ed veio todo elegante, de roupa preta combinando com a cor da pele. Toda hora ele vai em direção a janela e fica observando, observando. Quase não trabalha.

Dos dois um, ou o Ed está esperando a hora do exame de fezes, ou está apaixonado!

AHUahuuahHUA

Alvejado

In 1 on Outubro 28, 2008 at 5:11 pm

Algo me alvejou, ai! Olha o sangueiro irmão.
Segura que… eu vou cair.

Cambaleou, cambaleou. De onde veio a pedra?

Já era bem noitinha e o povo lá de casa já tinha ligado pro celular “Volta pra casa cedo Gustavo”. “Volta pra casa Gu”, era o que eu queria ouvir. Só ela me chamava assim. Preciso dela, essa pedra me deixou assim, abalado. Tem sangue por todo o lado. Não vou voltar para casa nesse estado, de barba mal feita, de mente ébria, de pés suados, de roupa social.

Linda, me segura aqui, que eu to escorregando, meu peito parece que tá afundando, tá difícil respirar, enxergar. Tem um rastro por onde passo, é vermelho. To tão cansado, não quero voltar para casa hoje a noite, quero ficar contigo. Amanhecer na sua cama, como naquela época. Desculpa se fui embora sem avisar, eu gostava de você, mas na época não dava. Não dava. Tive que ir. E fui. Depois você sumiu, nunca mais me respondeu. Não te tiro a razão, eu também sumi.

Volta pra cá. Quero beijar a carne farta da tua boca, do teu corpo. Lembra daquele vestido preto que você usava quando eu te busquei na festa da casa da sua vó? Queria te ver com ele de novo. Você suspirava quando eu te beijava com mais força. Será que você ainda guardou um suspiro daquele pra mim?

Já é madrugada, mas não me importo, vou te acordar. Quando você ouvir dois gritos meio soprados na janela da sua kit, me atenda, quando ouvir duas batidas meio esquecidas na porta do seu apartamento, me atenda. Só espero que você não esteja com ninguém… que não esteja com ninguém, porque eu preciso dos cuidados da melhor e mais bonita enfeirmeira da face da terra.

To sangrando, me socorre.

Um entrevistador, duas gatinhas

In 1 on Outubro 28, 2008 at 1:13 pm

Um entrevistador, duas “gatinhas”.

Bom dia garotas.
Ai. Bom dia. Tudo de bom seu programa.
Show mesmo. Adorei.

Fiquei sabendo que vocês foram a uma festa ontem a noite. Como foi?
Foi tudo de bom. Só tinha gente bonita. Eu olhava para um lado, olhava para o outro, cheio de gente bonita.
E o DJ amiga? Tudo de bom! Ele deu uma piscada pra mim, eu fiquei lá bombando na pista de dança.

O que vocês fazem da vida meninas?
Balada, balada, muita balada.
A gente estuda também né amiga. A gente faz amigos, a gente namora, a gente vai ao cinema. Tudo o que as pessoas normais fazem.

E vocês se acham especiais em relação as outras pessoas?
Ah. Nós somos especiais, somos animadas, somos gente boa e sabemos nos divertir.
É verdade, acho que a vida é pra viver, e a gente sabe viver, a gente tá em todas, né amiga?

Qual foi o dia mais especial na vida de vocês?
Acho que foi a minha festa de quinze anos. Foi inesquecível. Tudo de bom.
É amiga, a festa de 15 anos foi mesmo, fui até pra walt disney.

Garotas. Estou ficando sem perguntas. Vamos fazer um intervalo?
Ok.
Tudo certo migo.

(apresentador sai, ficam as garotas com a câmera ligada)

Ei miga. E aquele negócio no seu pé? Já saiu?
Ainda não. Ja lavei com força mas não sai.
Eu trouxe uma pinça aqui. Quer tirar?
Deixa a sala esvaziar.
Tá.

(a sala esvazia)

Pronto. Tira o sapato amiga.

(tira o sapato)

ai. Isso doi.
Espera, não fica mexendo.
Ai.
Tá saindo.
Ai.
Eca. Saiu junto um púzinho muito nojento.
Ai miga, que nojo.
Que isso miga, é só um furinho.
Mas não tá parando de sair o pús… socorro amiga.

( Duas horas depois o hospital atendeu duas garotas desesperadas, o programa nunca foi ao ar)

Mi Casa

In 1 on Outubro 27, 2008 at 5:10 am


Caso o video não abra, acesse por aqui

Direção e edição: Gustavo Serrate

Em junho de 2006 eu estudava cinema em São Paulo e estava passando por uma barra pesadapor lá. Havia acabado um namoro, brigado com a coordenação do local onde eu estudava (e foi uma briga feia) e também tive problemas com a minha equipe de filmagem, porque fui diretor de um projeto realizado por uma “equipe-panela”, ou seja, entrei de gaiato em um projeto apenas para suprir a falta da direção, mas quem estava realmente no comando eram o produtor e a diretora de fotografia, eu fui um mero coadjuvante no set. Por todos esses motivos, São Paulo estava uma merda.

Quando eu cheguei em Brasília para passar as férias, eu estava desesperado, chorão que eu sou, afoguei as mágoas no travesseiro, mas quando dormi de noite tive um sonho incrível. Sonhei que eu chegava na beira de uma praia vazia, era fim de tarde e o sol quase não existia mais. Eu corria em direção ao mar e entrava na água que tinha uma temperatura tão gostosa quanto o meu cobertor. Eu boiava no mar, sorrindo, sendo empurrado de lá para cá pelas ondas. E nesse dia eu me acalmei de todos problemas que passei por lá, e relaxei. Cheguei ao ponto de quase desistir de continuar meus estudos em cinema, porque percebí que minha casa era muito boa, que minha vida aqui era muito tranquila em relação ao que eu passei lá, e que aqui eu tinha minha paz. Mas apesar desse pensamento, esse momento pacífico me ajudou a refletir, é como um livro que lí sobre a arte de parar. É a visão de um padre norte-americano, que sofreu fortes influências do zen budismo e da psicologia moderna para trazer esse pequeno, porém muito útil tratado sobre a importância das pausas em nossa vida. Estas pausas, que podem ser curtíssimas, como um momento de reflexão de alguns segundos, como podem ser longas pausas, como férias na praia, ou pausas como uma noite bem dormida. A lição que o livro trouxe me foi essencial: Parar, para reatar a vida com mais clareza e serenidade.

Este período que passei em Brasília me causou muita criatividade e abertura ao mundo. Comecei a ponderar sobre como minha casa aqui em Brasília era para mim um porto-seguro, sobre a importância da proximidade das pessoas que eu gosto e sobre a importância de saber valorizar tudo isso, de não se esquecer. Foi quando veio a idéia de realizar este curta. Escolhí as pequenas coisas que mais me agradavam, as pequenas particularidades da minha casa em Brasília. Lembrei das cortinas esvoaçantes no quarto dos meus pais, que formavam uma imagem tão bonita da luz do sol refletida na imagem delineada pelo vento invisível, das pequenas bonecas de minha mãe, do meu velho pandeiro, da água do jardim, da pequena estátua de barro que meu tio esculpiu como uma caricatura de mim mesmo, do meu quarto, do varal de pregadores coloridos, tudo isso era a minha casa, a minha Brasília. Infelizmente nunca descobrí quem são os autores das músicas que utilizei no filme, são MP3 da cultura celta, mágicas, oníricas.

Este filme entrou para o festival de curtas do Terraço Shopping com o tema: “O que é brasília para você?”. O curta venceu o terceiro lugar da mostra. Um filme tão simples, me supreendeu que tivesse ganhado algo, já que era um momento tão pessoal e íntimo. O filme marcou um momento importante da minha vida, que foi o momento de renovação. Quando tudo parece perdido, você percebe que ainda é capaz de valorizar as pequenas coisas, descobrir as pequenas pausas e prosseguir com toda a paz, apesar dos momentos de desespero, medo e desilusão.

Quando voltei a São Paulo eu estava pronto para outra, passei a enxergar a cidade com outros olhos e me sentia até mais esperto e com mais energia para lidar com os problemas de lá. Os meus últimos seis meses em São Paulo passaram voando, tão bons que foram. A Talita Antunes, minha ex namorada de São Paulo recentemente teve seu primeiro filho, o moleque puxou os olhos da mãe, pelas fotos que ví, ela está boba de felicidade. E eu por ela.

Recém-libertos (parte 3)

In 1 on Outubro 24, 2008 at 3:23 pm

Fernanda acendia um cigarro atrás do outros. Goiano contava os palitos de fósforo que ela usou para acender um deles, estava nitidamente nervosa. Ele por outro lado, sereno como uma folha outonal. Nos tempos de prisioneiro gastava horas e horas agachado no pátio deixando que o sol banhasse seu corpo, ignorando todos os comparsas criminosos, pensava na vida, em Rio Verde e na estrada gostosa de uma viagem de setembro, lembrava do tempo de criança, das reclamações dos pais “cuidado para não cair e machucar os joelhos”, das disputas de bilocas. Os quatro anos de reclusão realmente o fizeram pensar. Há quem diga que livros de auto-ajuda para nada servem, mas Goiano sabe que o simples fato de ter a audácia de abrir um deles já é um gesto simbólico de: “Estou disposto a me ajudar”. Abriu a bíblia, buscou serenidade, preferia autores contemporâneos, que cuidavam dos problemas urbanos, da modernidade.

“Antes da cadeia eu vivia sempre nervoso, tratava a todos mal e nem me dava conta. Faltava algo em minha vida, um tempo para pensar. O excesso de informações e a falta de tempo para gastar em silêncio, esquecer das responsabilidades me levou a viver assim”, pensou Goiano.

Fernanda levantou-se abruptamente para atender o telefone. Goiano ficou de frente para o cigarro queimando sozinho. Levantou-se da cadeira para observar os retratos. Imaginou o gosto de cigarro na boca dela, ainda assim teve vontade de beija-la. Aproximou-se, e abraçou-a por trás, beijou o seu pescoço enquanto ela falava ao telefone e não esperou que terminasse a ligação. Fizeram amor alí mesmo, jogados sobre o sofá, ela foi obrigada a interromper a conversa.

Enquanto relaxavam no momento pós-coito, Goiano contou a Fernanda: “Hoje acordei com esse sonho… eu estava aqui na sua casa. Estava no sofá, esperando você, mas eu não te via. Você não aparecia. E hoje, depois do sonho, eu estou aqui, e você está aqui, mas parece a mesma coisa. Eu sei que quando for embora por aquela porta não vou querer voltar, porque eu sei que você não voltou. Eu já sabia disso há muito tempo desde que ví a forma como você tinha sua face lisa e sem sentimentos ao saber que eu iria embora… para a cadeia. Em ví em seu rosto cinza que não havia amor algum alí. E hoje, depois desse sonho, foi um estalo para mim. Foram quatro anos na cadeia pensando em você e em apenas um dia da minha vida eu resolvo que sou eu quem não te quero mais”.

Fernanda estava realmente sem sentimentos, mas ouvir aquilo a deixou indignada: ”Você não ama ninguém! Você gosta de sofrer. Você se apaixona e aos poucos vai dirigindo seu amor para o fim, como se fosse inevitável, mas é você quem torna tudo inevitável, porque você não quer uma mulher ao seu lado, você quer uma musa, com quem possa sonhar a distância enquanto divide seu tempo com outras garotas! E quando a imagem da sua musa começa a ir embora da sua cabeça você precisa arranjar outra musa para abastecer suas idéias imbecis por mais alguns anos! Você acha que eu não te conheço? Eu não guardo nada de você, nem as suas cartas e eu realmente não demonstrei sentimentos porque não havia o que dizer, agora saia da minha casa”.

Satisfeito em sua tristeza, Goiano saiu e permaneceu absorto na parada de ônibus, quando Criolo e Jaiminho se aproximaram. Goiano olhou para baixo e meneou a cabeça ao perceber a presença dos colegas.

- Quem é vivo sempre aparece. – Disse Criolo coçando a barba.

Criolo sentou-se ao lado de Goiano e Jaiminho aproximou-se dele, agachou e encarou-o frente-a-frente. Jaiminho agarrou o queixo de Goiano e apertou com força pressionando a cabeça dele para trás, encostanda-a contra a parede da parada de ônibus.

- Porque fugiu da gente? – perguntou Criolo.

A boca de Goiano apertada pelos dedos tensos de Jaiminho pronunciou a resposta com um som ridículo.

- Eu não fugí, eu só perdí vocês de vista.
- Eu não fugí, eu só perdi vocês de vista – Criolo repetiu a voz imitando a patética dificuldade de falar.

Goiano tentou balançar a cabeça para escapar das mãos dementes de Jaiminho, mas ele não deixou e Criolo pressionou seu braço e encostou a boca nojenta no ouvido de Goiano.

- Tá achando que vai escapar da gente é vadiazinha? Tu deixou a gente numa pior! Sabe o que aconteceu naquela noite? A gente apanhou da polícia, dormiu na rua. Tivemos que dormir abraçadinhos né Jaiminho?

Jaiminho soltou uma gargalhada histérica. Uma mulher que aproximava-se da parada de ônibus deu meia volta e tomou outro caminho. Jaiminho puxou a cabeça de Goiano e o arremessou contra o chão. Goiano caiu deitado. Criolo se levantou e apoiou o pé sobre a sua têmpora. O rosto de Goiano ficou colado ao chão.

- Bota a língua pra fora filha da puta! – Gritou Jaiminho com sua irritante voz aguda – Bota a linguinha pra fora seu merda! Tava na casa da namoradinha né? Acho que você vai ter que compartilhar a diversão seu sacana!

- Cala boca! – Criolo tinha alguma ligação espiritual com Jaiminho, se é que existia alma dentro de qualquer um dos dois, apesar disso detestava os seus excessos. Como criminoso, Criolo sempre foi comedido, sabia ponderar suas ações e sempre foi prático, nunca passional. Jaiminho por sua vez respondia plenamente aos instintos, podia surtar a qualquer momento. Criolo visava benefícios a longo prazo, Jaiminho gosta do momento.

Criolo aproximou-se de Goiano e o fez beijar o chão com a língua. Jaiminho ria como uma hiena, esfregando as mãos sem esconder o prazer.

Recém-libertos (parte 2)

In 1 on Outubro 23, 2008 at 9:17 pm

Permaneceu dia após dia na labuta urbana, arrumou um pano velho, um balde rachado e uma estopa seca. Gastou suas tardes enxugando os carros da classe média. Aos poucos perdeu a mentalidade de ladrão e foi sendo conhecido na rua como “Goiano”, era assim que todo mundo o chamava, e ninguém sabia de sua história, de onde veio, nem muito menos que fora prisioneiro da papuda.

“Hoje eu tenho dinheiro, eu vou lá”. Goiano pegou a grana economizada na base da dureza. Comprou uma bermuda maneira e uma camisa estampada na feira do setor comercial sul de Brasília. Tem roupas baratas iguais as roupas da loja, só que o nome é diferente. Não muda nada, só o selo. Pra ele não faz diferença. Arrumou um perfume emprestado com um colega de trabalho vaidoso e pegou o último ônibus antes do pôr-do-sol. Não percebeu, mas entraram na sua cola os dois “amigos” de cadeia, o assassino e o estuprador, que também ganharam nomes: Criolo e Jaiminho respectivamente. Criolo, o assassino, tinha uma cara encrispada de tanta raiva que já sentiu na vida. Na cadeia vivia querendo matar todo mundo, qualquer intriga era desculpa pra cravar uma ponta nas tripas de alguém, mas fora da cana amorteceu levemente as feições, nem só por isso tornou-se gentil. Jaiminho, o estuprador, conseguiu atravessar quase incólume os anos atrozes de cadeia, foi violado apenas duas vezes mas há quem diga que ele gostou. Não chega a ser um retardado, mas é um homem socialmente inadaptado: “Nascí para currar”, costuma dizer.

Viajaram os três juntos, Goiano não sabia da presença dos “cumpadres” tão perdido estava nos pensamentos de rever sua ex-namorada.

Desceu na parada de ônibus que já havia descido tantas vezes e o coração disparou. Paralisado quase suou, uma sensação estranha se instalou em sua mente. Era um misto de esperança com desejo, mas também havia aí o medo da rejeição. Apesar disso decidiu não pensar em nada de ruim, assumiu que ela o aceitaria de volta e um mundo novo de possibilidades se abriu em sua cabeça. Foi como ter renascido um novo homem repleto de prospecções, de riqueza espiritual e humana, com vontade de trabalhar, de se tornar alguém de valor dentro da sociedade corrupta. Se tornaria um homem bom, caso fosse aceito. Caso contrário, iria embora vivendo como sempre viveu, como um eterno errante solitário. Torceria para nunca mais reve-la, para que se apagassem até as boas recordações, pois sempre viu uma semelhança natural entre o passado e o cemitério. Goiano é um homem de vida, por isso vive irresponsavelmente o agora.

A porta da casa já estava fechada, a mãe de Fernanda, a ex namorada de Goiano, tinha medo daquela cidade. Tocou a campainha e ela apareceu. Fernanda usava um short curto, um top branco, o umbigo aparecendo. Os cabelos dela pretinhos e lisos escorriam pelo pescoço. Os olhos apertados, levemente esverdeados e o jeito manhoso. “É bonita exatamente como eu lembrava”, pensou Goiano. Ele tentava adivinhar o que se passava na cabeça da garota.

Minutos depois estavam os dois sentados na mesa de café da casa dela conversando baixinho, como que se reconhecendo. O rosto de Goiano estava diferente, homem feito que o inferno da cadeia esculpiu, duro como pedra, se contasse tudo o que viu causaria medo em Fernanda. Ela tinha a risada gostosa, mas hoje não estava para rir. Tinha a mania de apoiar-se nos joelhos dele para beija-lo com o nariz, mas hoje não estava para carinhos. A moça também mudou, também cresceu e foi-se embora bastante coisa daquela menina que ele conheceu, ainda assim estava alí, admirado com tudo de novo.

Do lado de fora dois criminosos já punidos e liberados pela sociedade estavam com os ânimos afoitos: “humilhar o ex-colega. Ingrato. Ingrato”, pensava Criolo.

(continua…)

Recém-libertos (parte 1)

In 1 on Outubro 22, 2008 at 3:20 am

Os olhinhos infantis já não enganam mais ninguém tantas foram as vezes que mentiram em rios de lágrimas, não se sabe de onde vinham. Eram sempre fartas as choradeiras, mas não derramou uma gota quando soube o motivo da prisão: ROUBO!

Completou cinco anos no inferno imundo que é a penitenciária papuda, detido por furto qualificado. Ao sair, foi lhe dada uma camisa branca, chinelas e uma bermuda, estava muito frio e a ventania estava forte. Haviam outros dois recém-libertos no pátio esperando apenas que ele saísse. Não há condução para os presos, na maioria dos casos ninguém da família está na porta da prisão no dia da soltura, então o caminho para a rodoviária é longo, e tinham que fazer a pé. Se dessem sorte conseguiriam carona de algum motorista generoso.

No caminho, os prisioneiros conversavam, apesar de habitarem alas diferentes do mesmo complexo, apenas um dele manteve-se completamente calado durante longo período. O assassino do grupo puxou papo com o ladrão.

-Que foi que tu fez?
-Roubei um carro de um bodinho. Me ferrei. Tinha uma blitz, o pai dele era militar.
-Mas que azar da porra.
-Pois é.
-Tu já tem pra onde ir?
-Tenho não. Quer dizer… na verdade eu tenho, só não sei se vou ser aceito de volta.
-Pois é cara, nem eu nem o cumpadí alí temos onde ficar. Tu acha que pode arrumar um abrigo pra gente?
-Olha… não sei se consigo nem pra mim…
-Que que tem? Tá me achando sujo só porque sou preto?
-Não é isso porra. Sou meio preto também merda.
-Tu é merda de moreno rapá! Qual o problema de ficar na tua casa?
-Não é minha casa, esse é o problema!
-É casa de quem?
-Da minha ex mina.
-Ah. Foda-se. Pede pra ela arrumar um colchãozinho.
-Que colchão, não tem colchão lá não.

O assassino ficou olhando para o ladrão, estava puto. O estuprador permaneceu em silêncio.

- Olha alí! Vamo pedir uma cervejinha alí, ver se os caras são sangue bom.

E foram. O assassino sentou-se na mesa com arrogância, os outros dois permaneceram de pé.

- Rola uma cervejinha aí véi ?

O garçom passou o pano na mesa calado, limpou os pingos de cerveja e restos de comida que ainda estavam alí por cima.

- To falando contigo. tu ouviu?
- Tranquilo, vou trazer uma lata e vocês dividem.

O garçom sai.

-Dividem nada! Eu que sentei. Eu que pedi. Eu que cobrei. Eu que ganhei. Eu vou tomar sozinho.

O estuprador se aproximou.

- Um gole cara. Um gole. To há anos sem sentir o gosto da cevada.
- Vai implorar? Vai lamber minha pica? Não né? Então nem adianta insistir.

O garçom trouxe a cerveja e puxou duas cadeiras para o ladrão e para o estuprador. Sentaram-se e esperaram que o assassino tomasse sua cerveja. E ele apreciou o gosto com um prazer nítido, lentamente, saboreando, permitindo que a cevada se fizesse sentir em todas as extremidades da boca e da língua, deixou que o líquido percorresse a garganta vagarosamente e cada golada representava uma comemoração de liberdade. Quando já estava no final, e os últimos goles estavam ficando quentes, deixou um dedo de cerveja dentro do copo e se levantou.

- Pra não dizer que sou otário.

O estuprador pegou a cerveja com pressa.

- Calma, tem pouco, mas vou deixar para você.

Bebericou vagarosamente. A boca suada encostou na abertura da latinha e o ladrão perdeu a vontade de provar da liberdade.

- Tu foi pra cadeia porque?
- Atentado violento ao pudor.
- E o que é isso? Ficou peladão na rua?
- Não. Claro que não. Comi a filha do meu patrão. Aposto que ela gozou! EHEHeh
- Isso é estupro! Dá trinta anos!
- Mas meu advogado foi bonzinho e eu peguei só seis.
- O que teu advogado fez?
- Ele foi esperto ! O sacana usou a constituição! Foi a própria lei que me salvou. Eu comí só o cú dela, isso se enquadra em atentado violento ao pudor. Se eu tivesse comido a buceta, aí era estupro. Se ela tivesse menos de 18 eu tava fudido, mas já era uma égua crescida.

Enquanto isso o assassino tentava conseguir de graça um espeto de churrasco ameaçando discretamente o trabalhador. Conseguiu um espeto com pouca carne e muita gordura. Dessa vez foi generoso e deixou dois pedaços, um para cada “amigo”. Tinha uma dor de barriga insistente que ganhou com as marmitas indigestas do presídio. O estuprador deixou um gole para o ladrão, que não teve coragem de tomar. “Esse nem o santo quer”, pensou.

Saíram os três, rumo a rodoviária. O ladrão sentia-se sem esperança, sem prospecção, sem fé. Deixou o passo vagaroso, permitiu que os dois outros caminhassem à sua frente até ficarem distantes, mas eles sempre o esperavam.

Duas horas mais tarde estavam os três na rodoviária. O assassino quis mijar.

- Eu vou num banheiro descente pela primeira vez ! Faz tanto tempo que nem me lembro.

Para ele o banheiro da rodoviária era descente em comparação ao banheiro que frequentava regularmente. Só o fato de não ter que expor o pinto para um bando de gente já tornava a coisa respeitável, quase de família. Apesar do chão sujo, do cheiro, da gente louca, da pocilga que era aquilo, parecia o céu. É como dizem: Pra quem saiu do inferno, o esgoto é paraíso.

O ladrão aproveitou a brecha. Enquanto o assassino mijava e o estuprador acalentava os próprios braços debaixo da camisa no frio maldito da noite seca, escapou pela escada, se enfiou pelas ruas brasilienses e perdeu-se no escuro. Passou a noite dormindo em uma viela e acordou com o tropel sapatos engraxados passando às pressas no setor comercial. Levantou-se e viu no reflexo do espelho um mendigo em potencial. “Só se eu desistir”, pensou, “só chega a esse estado quem desistiu de tudo”. Observou um sujeito ao seu lado, dormiu da mesma maneira, a diferença entre os dois é que pela manhã ele estava de pé, o colega de sargeta não.

Lembrou-se de Goiás, Rio Verde. Sentiu remorso de ter deixado tanta coisa para trás, a casa quente, o acalento familiar, o cheiro de barro perto da lagoa, a labuta vagarosa mas compensativa, a vida de filho e estudante, o amor dos irmãos, as graças da vida. Haverá de lavar muitos carros para voltar para a terrinha, não tantos quanto os moradores de rua que vieram do nordeste, até mesmo porque muitos donos de carro confiam suas chaves ao lavador. E no caso deste lavador, uma chave de carro e um tanque cheio de gasolina são suficientes para cair fora daqui.

(continua…)

Menino

In 1 on Outubro 17, 2008 at 4:27 pm

O menino aos trotes e a vida dizendo pra parar de correr, pois tu pode cair e até se ferir se pro chão não olhar; Vê se olha direito, não tem porque se apressar, o tamanho do passo diz é a vida e não tu. Olha a menininha, tá sozinha chorando sem ninguém pra abraçar, dê um beijo faceiro, no rosto corado, no pescoço rosado nos lábios macios na doçura do mel. Seja bom menininho, não vá se enfezar, por os pés pelas mãos e cansa-la de ti, ela é tão bonitinha, mas também tem espinhos, pra quem não sabe lidar. Deixa o sangue escorrer, deixa ela falar, engula a dor, fique quieto, pois a flor que machuca só não pode murchar; Pega a enxada, ara o campo, e não vá se assanhar com menina bonita na janela a cantar; Te cuida menino, o sinhô tá chamando é hora de almoçar, o trabalho. A barriga tá cheia, mais labua amanhã, pro ano que vem não faltar. O joelho doendo, é idade chegando, hora de espreguiçar já são sete da noite; Um sorriso, um soluço um descanso tu tem, é de se merecer; Manda um abraço pra gente que tu fez de amigo, pra quem ficou no caminho, pra quem já disparou. Pra quem anda contigo, estica a tua mão, um afago no coro, beijo no coração; Não se deixe esquecer, faça de boa vontade, ouça com atenção, o sonzinho das águas rasinhas da vida, soprando de leve, empurrando o ponteiro, passando sem parar . Peça a deus, oh menino, pra te acompanhar, para abençoar, os seus entes queridos, não se deixe odiar pelos erros que fez, deixa ela saber que tu errou por amor, que não tinha intenção de tirar dor da flor. Saiba logo menino, a vida é assim, com seus altos e baixos, sem tempo pra tentar; limpe agora suas botas, pra voltar a sujar, lave-se seu menino, com as águas do mar, reacorde e acenda o seu bom coração.

Curta”Homicida é!” no Festival de Brasília

In 1 on Outubro 15, 2008 at 3:54 pm

O curta-metragem “Homicida é!”, do qual sou diretor e roteirista, foi selecionado para participar do 41º Festival de Brasília na mostra 16mm. Ótima notícia. Parabéns a todos da produção, elenco e pós.

O Festival acontece no período entre 18 a 25 de novembro de 2008. O festival recebeu 238 inscrições, sendo 81 deles filmes em 16mm. A mostra dos filmes em 16mm ocorre na Sala Martins Penna do Teatro Nacional Claudio Santoro entre os dias 20 e 24 de novembro.

Abaixo segue a lista dos filmes selecionados para a competição de 16mm:

1. 2+2=5, de Gui Campos, 7min, DF
2. 32 Mastigadas: 16N e 16S, de Maria Vitória Canesin, 13min, DF
3. A Menina Espantalho, de Cássio Pereira dos Santos, 13min, DF
4. Alice, de Edqard Boggiss e Miguel Przewodowski, 20min, RJ
5. Canosa One, de Fellipe Gamarano Barbosa, 18min, RJ
6. Cidade do Tesouro, de Célio Franceschet, 18min, SP
7. Cotidiano, de Renato Jevoux, 14min, RJ
8. Depois das Nove, de Allan Ribeiro, 15min, RJ
9. Depois de Tudo, de Rafael Saar, 12min, RJ
10. Disfarça e Chora, de Robson Graia, 10min30, DF
11. Homicida É, de Gustavo Serrate, 25min, DF
12. Incarcânu A Tiortina, de Tau Tourinho e Gabriel Lopes Pontes, BA
13. Landau 66, de Fernando Sanches, 11min51, SP
14. Mãe, de Luiz Antônio Pereira, 15min, RJ
15. Marcelo Bousada, quem?, de Denilson Félix, 39min, DF
16. Maridos, Amantes e Pisantes, de Angelo Defanti, 12min, RJ
17. Medo do Escuro, de Cauê Brandão, 17min, DF
18. Memórias Finais da República de Fardas, de Gabriel F. Marinho, 35min, DF
19. Minha Tia, Meu Primo, de Douglas Soares, 9min10, RJ
20. Na trilha das guerreiras, de William Alves, 40min, DF
21. Nada Consta 2: Malditos Robôs, de Santiago Dellape e Davi Matos, 15min, DF
22. Nello’s, de André Ristum, 26min, SP
23. Nem marcha Nem chouta, de Helvécio Marins Jr., 8min, MG
24. O Beijo da Meia Noite, de Jefferson Matoso, 14min, DF
25. O Caipira e o Chupa-Cabras, de Joelson Miranda Santos, 12min, GO
26. O que há de ficar, de Felipe Continentino, 14min50, RJ
27. O Rapto da Lua, de Fábio Escovedo e Vinicius Pereira, 19min05, RJ
28. O Velho Guerreiro não Morrerá – O Cangaceiro de Lima Barreto 50 Anos Depois, de Paulo Duarte, 20min, SP
29. Ouroboro, de Maurício Antonângelo, 17min, SC
30. Poesia do Barro, de Adriana Gomes, 40min, DF
31. Raul de Xangô, de Érico Cazarré, Henrique Siqueira, Marieta Cazarré, 17min, DF
32. Tira-gosto de Poeta, de Danielle Araújo, 24min40, DF
33. V.I.D.A., de Geison Ferreira e Vinícius Zinn, 22min30, SP
34. Varenick com vatapá, de Marcelo Szykman, 18min, SP

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Tarot

In 1 on Outubro 9, 2008 at 3:57 am

Agora que a razão se mostrou favorável aos seus argumentos, é muito importante se cuidar para que a rigidez não tome conta das palavras e atitudes. Quando a razão estiver do seu lado, pratique a compaixão e o perdão. 

1º carta – Ás de Paus – O impulso vital afirmativo

O Ás de Paus representa força criadora, potencia sexual e luminosidade.

2º carta – Ás de Espadas – Discordâncias benéficas

Neste arcano a coroa e a espada representam sabedoria e força intelectual que penetra e compreende tudo.

3º carta – Rainha de Espadas – Ressentimento e ressecamento emocional

Este arcano transmite a idéia de controle das emoções, talvez à custa da afetividade. Risco de amargura.

4º carta - Cavaleiro de Paus – Aventurar-se é preciso!

Este arcano revela força impulsiva, capacidade de imposição, jovialidade.

5º carta - O Mundo – Sucesso, enfim!

A figura deste arcano XXI do Tarot representa a alegria de viver. Revela também plenitude, renovação e abertura de novos processos.

6º carta – 7 de Ouros – Dar um tempo para aperfeiçoar-se

O arcano VII do naipe de Ouros traduz sentimentos de fracasso, enfraquecimento e perecimento, que precisam ser superados.

 

personare

Diversão na terça-feira

In 1 on Outubro 7, 2008 at 8:35 pm

Terça deveriam inventar um programa legal pra se fazer. “Terça feira é o pior dia”, acabou de dizer a Bianca, minha colega de bancada aqui no trabalho. Precisamos de um pouco de festa, de diversão, de música para sacudir a camada de músculos flácidos que recobrem o esqueleto de um típico urbanoide, leia-se: ser-humano habitante da cidade e que não pratica exercícios por conta de sua rotina.

Na cidade viramos deslumbrados com tudo o que promete um raio fugaz de êxtase, procuramos drogas, festas, prazer e nada nos satisfaz, nossa vida enclausurada limita os horizontes, causa tédio, depressões e quando não, suicídios. Por isso é renovador viajar para a praia, contemplar a extensão do mundo, se sentir pequeno. Sentir-se pequeno é essencial para sentir-se bem, constata-se que a dimensão de nossos problemetos-urbanóides é risível diante do todo.

Na cidade acontecem coisas todos os dias e todos os dias os jornais noticiam o que aconteceu, o que acontece e o que irá acontecer. Os cidadãos estão ludibriados com a crença de que a cidade é o centro do mundo e que tudo o que alí acontece é importante para o resto do mundo. Chamo isso de alienação, perdemos de vista a extensão do mundo.

Para que nos conformemos com nossa existência miseravelmente omissa, egocentrica e cerceada pela falta de visão, a cerveja é ilusão, a balada nos acalma, o hedonismo anima. Viajar é preciso, mas quem pode fazer isso no meio da semana em plena terça-feira? Vamos dançar break e girar o corpo, forró e cheirar um cangote, tango e nos seduzir, a dança (incluindo aí capoeira, sexo, e êxtases religioso) é a maior possibilidade humana dentro da cidade.

Divirtamo-nos nesse mundinho miúdo que se acha tão importante, porque a diversão é a única coisa verdadeira e importante nessa vida. É o que farei.

Poemeto do cheiro de fulô

In 1 on Outubro 7, 2008 at 2:19 pm

Eu não te tenho.
Tu não me tem.
Quando tu quer,
eu quero além!

No sonho me perco
em teu cheiro, fulô,
de peles despidas,
o seu seio e amor.

Quando tu vai,
eu vivo até bem.
Quando tu vem,
eu vivo tão bem.

Oração da Serenidade

In 1 on Outubro 7, 2008 at 1:30 am

concedei-me
Serenidade para aceitar as coisas
que não posso modificar,
Coragem para modificar aquelas que posso,
e Sabedoria para perceber a diferença.
Ámen.

- Reihold Niebuhr

Mulher e parafuso

In 1 on Outubro 1, 2008 at 2:33 pm

 

Eram seis da manhã quando Cristovam acordou. Seu relógio biológico está perfeitamente sincronizado  com o tempo do o despertador, programado para alguns minutos após. isso não quer dizer que a noite foi bem dormida. A casa de Cristovam está passando por uma reforma, as janelas estão sem vidro e ele precisou se agasalhar bem para atravessar a noite.

Cristovam se levantou, seus músculos estavam cansados, faziam algumas semanas que ele não tinha tempo para praticar esporte algum e a noite passada bebeu cerveja além da conta. Era pra ser no máximo duas cervejinhas, mas foram cinco garrafas, é claro que ele não bebeu sozinho, mas a mania de beber cerveja como se fosse água o levou a tomar mais que todo mundo. Antes de dormir bebeu dois copos d´agua e comeu uma banana, mas não adiantou, acordou com essa dorzinha de cabeça miserável.

Há uma tarefa para hoje, Cristovam é jornalista e precisa descer a São Sebastião para entrevistar os motoristas de ônibus. Pegou uma câmera, foi de microonibus e fez algumas imagens. Os motoristas não quiseram gravar entrevista por medo de demissão, mas conversaram informalmente. O contrato dos coitados vence em um mês, uma nova empresa vai coordenar o transporte mas até agora não deu sinal de que irá recontratá-los. Fora isso as condições de trabalho são complicadas, o tempo que eles deveriam trabalhar por dia é de 6 horas com duas horas extras em alguns dias. As horas extras não são pagas e eles sempre trabalham muito mais do que seis horas, alguns trabalham onze horas, outros trabalham até 20 horas e em muitos casos o motorista precisa tomar arrebites para se manter acordado e atento ao trânsito. A empresa ainda diz que o motorista que bater o carro vai demitido na hora. Não é uma vida fácil. Quando Cristovam chegou os motoristas ficaram alvoroçados, queriam contar dos problemas, mas sem se expor. Alguns desconfiaram que ele fosse um fiscal, teve que mostrar o seu crachá de identificação. Na verdade muitos motoristas já não tem mais do que temer, eles tem a certeza de que não serão recontratados pela nova empresa.

Depois de concluir as entrevistas Cristovam foi embora, cansado, com preguiça, um mal humor que surgiu do nada. “Hoje não quero falar com ninguém”, pensou. Na viagem de ônibus, à caminho da redação do jornal, começou a lembrar de algumas questões dolorosas, questões afetivas que não deveriam mais incomodar, afinal, o que não tem resolução, resolvido está. Como sempre, problemas com mulher. A vida lhe pareceu estranha, estes pensamentos fantasmas sobre uma coisa que não existe mais poderiam simplesmente desaparecer para sempre! Faria bem.

Cristovam observou algumas pessoas dentro do ônibus, todas tão cheias de problemas, mas com sorrisos estampados. “Como podem esbanjar tanto bom humor?”, sentiu uma certa inveja. Sentiu vontade de uma vida mansa, sem problemas amorosos, morando em uma casinha pequena e aconchegante com uma rede para descansar, fora da cidade talvez. A casa teria portas por todos os lados, janelas grandes, flores e samambaias e uma arquitetura planejada para que o vento pudesse correr livremente. O quintal teria árvores frutíferas e perto do muro, lá no final do terreno, construiria um pequeno quarto com um computador, muitos livros, uma escrivaninha, canetas e apetrechos para quando quisesse escrever e desenvolver idéias, ou simplesmente passar a noite acordado assistindo filmes antigos. Seria uma casa planejada para a hospitalidade. Esse sonho tão pequeno mas tão distante…

Atravessou a cidade com este pensamento dourado.

Gostaria de ter pensado em algo mais importante, como por exemplo a sua função como jornalista vigilante da cidadania. Cristovam gosta da idéia de se sentir um justiceiro das “pequenas” causas, digo pequenas porque às causas do povo ninguém dá atentção, ninguém olha pelo populacho. Diante dos sofrimentos do mundo, dos profundos problemas que as pessoas enfrentam todos os dias o problema de Cristovam soou imensa futilidade. As pessoas gostam de grandiosidade, mas a vida verdadeira, a vida espontânea acontece nas miúdezas, os grandes personagens muitas vezes nascem e morrem anônimos, não são artistas, não são políticos, não são empresários, são nossos vizinhos, parentes, amigos, desconhecidos.

Dentro das redações há brigas de egos e as histórias pessoais muitas vezes interferem na vontade de escrever, Cristovam não quer que isso aconteça. Lembrou-se de que as questões afetivas não podem interferir no seu trabalho, não se pode misturar mulher com parafuso.