Gustavo

A vida é grande

In 1 on Setembro 22, 2008 at 3:57 pm

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais dor que eu

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará
Berimbau – (Badden Powell)

A água da lagoa estava quente e o chão cheio de lodo. Já chegando o fim de tarde, o sol se punha mansinho, uma gaivota se assustou comigo, imagino o que ela deve ter pensado ao me ver: um homem pára o carro no meio da estrada, atravessa o matagal, pula a cerca, tira a roupa e pula de cueca na lagoa. Se assustou no mínimo a coitada gaivota.

Viajei para esquecer um amor que passou. Para me lembrar de quem sou e de como posso ser completo estando sozinho ou acompanhado. E boiando na lagoa eu pensei:

A vida é grande. Quero arrumar logo uma grana pra fazer uma viagem memorável pela america latina. Quero ir embora, parar em uma festinha de uma cidade e me apaixonar por uma indígena descendente, daí quero prosseguir sem apego para a próxima cidade e me envolver em uma aventura de vida ou morte armado apenas com uma faca na mão. Quero que meu carro estrague e que eu seja obrigado a seguir a pé, de mochilão, fumar cachimbo para o frio não me pegar, ficar escondido dentro de uma propriedade privada, roubar frutas, correr descalço, escapar ileso e voltar (se é que voltarei) cheio de histórias e com a sensação de ter reconquistado a vida.

A vida é grande, na cidade ela se torna pequena. Na cidade a vida não tem tanto valor porque a vida é explorada, na cidade somos ferramentas de um complexo sistema que nos diz a cada estocada metalica: “Você vive para servir”. Na cidade você é um serviçal, e é claro que isso é muito pouco para qualquer um. Um serviçal não tem amor próprio, por isso, quando um serviçal encontra o amor em outra pessoa ele se sente no paraíso, como nunca se sentiu consigo mesmo. O serviçal passa a acreditar que o único amor possível é o amor de outra pessoa. Mal sabe ele que o amor é gratuito, que o amor deve ser dado e não cobrado. O amor deve partir sem intenção de receber. O amor não é apenas romântico, mas fraternal. O amor romântico, quando acaba, não significa o fim do mundo, é apenas o fim de uma história, uma pequena história dentro do mar de vidas urbanas no qual estamos imersos. Eu estava sofrendo por amor, em meu microcosmo isso pareceu ser o final de todas as minhas expectativas. Certamente que passar por isso é triste, é uma dor, mas a tristeza faz parte da vida, e estou vivendo. Se não tivesse essa dor, melhor era tudo se acabar.

De dentro da lagoa sentí meu corpo esfriar. Saí com rapidez, meus pés estavam sujos de barro e meu corpo pingando. A beirada da lagoa tinha marcada na lama os cascos dos pés dos bois que vieram beber água no dia anterior. Enfiei o meu pé dentro de uma das pegadas e senti a energia da terra.

Quando saí dalí, eu não era mais o mesmo. Tinha um sorriso gigante estampado no meu rosto.

  1. Olá cineasta, mudou de endereço! Já tinha visitado antes, muito bom!
    Bela imagem a dessa praça!

    Abraço!

  2. Ops, esqueci de me identificar. Fiz o comentário acima.

  3. Oi, cineasta. Sou a Lúcia, a do livro que você está resenhando e do blog nadanonada. Vim te visitar, também, e encontrei o belo texto do Egotrip. Adorei, e ainda me senti compreendida, consolada pelas suas palavras. Sim, quando um amor acaba e a gente fica pensando que o mundo também acabou, dói, até que a gente compreenda que o que acabou foi uma das histórias, mas não a nossa história… Virei leitora, também. Só que não me lembro como fiz para colocar aqueles blogs linkados ao meu. Alguns já até acabaram! Quando voltar para casa, vou ver se consigo umas aulas de blog :) E aí vou, com toda certeza, te linkar. Até breve! Ah, não deixe de me avisar quando sair a resenha, tá? Beijo L

  4. belo texto, revigorante, nos enche de entusiasmo e uma possivel coragem… o que nos prenden dentão… vamos lá!

  5. há… vou lendo aos poucos, gosto de ir degistando as palavras, sem comelas com pressa…

    abraço !!