Na região centro sul de Belo Horizonte há uma praça chamada liberdade. Na praça acontecem eventos culturais, artistas demonstram suas habilidades, senhoras passeiam e casais se apalpam. Os índices de criminalidade são baixíssimos, ainda assim um programa moralista mineiro chamado “olho vivo” instalou 5 câmeras vigilantes em pontos estratégicos para observar a movimentação. A essência da Praça da liberdade está em contradição, como poderão, um casal mineiro, praticar das diversões secretas do amor? Onde poderá o cão da senhora que mora alí perto defecar em privacidade? Como o louco homem solitário se sentirá realmente livre para gesticular sozinho? Os ladrões que se danem.
O paradoxo é comum em Belo Horizonte, afinal nos altos e baixos morros onde está erigida a cidade não se vê beleza e nem muito menos horizonte, e agora os olhos do grande irmão cerceiam a espontenidade que ainda resta na vida mineira.
Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem
Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará
Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar
Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais dor que eu
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará Berimbau – (Badden Powell)
A água da lagoa estava quente e o chão cheio de lodo. Já chegando o fim de tarde, o sol se punha mansinho, uma gaivota se assustou comigo, imagino o que ela deve ter pensado ao me ver: um homem pára o carro no meio da estrada, atravessa o matagal, pula a cerca, tira a roupa e pula de cueca na lagoa. Se assustou no mínimo a coitada gaivota.
Viajei para esquecer um amor que passou. Para me lembrar de quem sou e de como posso ser completo estando sozinho ou acompanhado. E boiando na lagoa eu pensei:
A vida é grande. Quero arrumar logo uma grana pra fazer uma viagem memorável pela america latina. Quero ir embora, parar em uma festinha de uma cidade e me apaixonar por uma indígena descendente, daí quero prosseguir sem apego para a próxima cidade e me envolver em uma aventura de vida ou morte armado apenas com uma faca na mão. Quero que meu carro estrague e que eu seja obrigado a seguir a pé, de mochilão, fumar cachimbo para o frio não me pegar, ficar escondido dentro de uma propriedade privada, roubar frutas, correr descalço, escapar ileso e voltar (se é que voltarei) cheio de histórias e com a sensação de ter reconquistado a vida.
A vida é grande, na cidade ela se torna pequena. Na cidade a vida não tem tanto valor porque a vida é explorada, na cidade somos ferramentas de um complexo sistema que nos diz a cada estocada metalica: “Você vive para servir”. Na cidade você é um serviçal, e é claro que isso é muito pouco para qualquer um. Um serviçal não tem amor próprio, por isso, quando um serviçal encontra o amor em outra pessoa ele se sente no paraíso, como nunca se sentiu consigo mesmo. O serviçal passa a acreditar que o único amor possível é o amor de outra pessoa. Mal sabe ele que o amor é gratuito, que o amor deve ser dado e não cobrado. O amor deve partir sem intenção de receber. O amor não é apenas romântico, mas fraternal. O amor romântico, quando acaba, não significa o fim do mundo, é apenas o fim de uma história, uma pequena história dentro do mar de vidas urbanas no qual estamos imersos. Eu estava sofrendo por amor, em meu microcosmo isso pareceu ser o final de todas as minhas expectativas. Certamente que passar por isso é triste, é uma dor, mas a tristeza faz parte da vida, e estou vivendo. Se não tivesse essa dor, melhor era tudo se acabar.
De dentro da lagoa sentí meu corpo esfriar. Saí com rapidez, meus pés estavam sujos de barro e meu corpo pingando. A beirada da lagoa tinha marcada na lama os cascos dos pés dos bois que vieram beber água no dia anterior. Enfiei o meu pé dentro de uma das pegadas e senti a energia da terra.
Quando saí dalí, eu não era mais o mesmo. Tinha um sorriso gigante estampado no meu rosto.
E houve aquele dia em que eu me ví como já havia me visto duas vezes atrás, e inocentemente achei que fosse amor, mas era uma doença. Havia me projetado em outra existência, sugando dela a energia que não fui capaz de sentir em mim… por um breve momento eu me perdí de mim mesmo.
Estou quatro anos mais próximo da minha morte desde a última vez que me sentí tão vivo, mas cá estou. Amanhã a noite carregarei a mim mesmo para longe daqui, há um único e eterno amor nesta vida, e está diante do espelho todos os dias, esquecido, ignorado. Mantenha-se fiel a sí mesmo, é a condição para o triunfo! Foi o que a rainha de paus, escolhida por puro acaso, me disse.
Oi
Oi
Você tá aí?
To. E você, como tá?
To bem. Que tal nos encontrarmos.
Amanhã?
Agora.
Amanhã.
Ok.
Oi.
Oi.
Tudo bem?
Tudo ótimo. e contigo?
Tá melhorando.
E agora?
Agora eu te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
To tão feliz que não consigo assimilar.
Fica tranquilo. Se deixa levar.
Ok. To indo com a maré, mas é estranho lidar com isso.
Eu sei. Me dá a mão.
Segura forte.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Eu também.
Eu também.
…
Você me ama?
Eu? Você sabe que sim. Isso não deveria nem ser perguntado.
Muito menos repetido tantas vezes.
Desculpa a dúvida. Não fica assim impaciente.
Tudo bem. Eu te entendo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
As vezes isso cansa sabia?
Ah. Tá. Foi mal. Acho que exagerei.
Tudo bem.
Oi.
…
Oi.
…Ah. Oi.
Como tá?
To bem.
Eu to bem também.
Oi.
…
…
Tchau.
O que? Tá me dando tchau?
Preciso ir.
Porque? É melhor conversarmos sobre isso com mais calma.
Você quer ficar aqui?
Não sei. Vamos resolver depois.
Não, tenho que saber agora.
Vamos nos encontrar amanhã então?
Vamos.
Oi.
…
Cadê você?
To aqui.
Porque não veio?
Não lembrei.
Ah tá.
…
…
…
…
…
…
…
…
Oi.
O que quer?
Ah. Conversar.
Tá. Oi.
É assim é?
É. Porque?
Então tá. Tchau.
Tchau.
…
…
Eu te amo. Eu te amo. Por favor.
Oi.
Desculpa. Preciso ir.
Tá.
…
…
Oi.
Me deixa em paz.
Porque?
Porque sim.
Tá.
…
…
Adeus.
Ah. Então é assim é?
É.
Então tá! Adeus!
Adeus. Tchau.
…
…
…
…
Oi.
Vai pro inferno.
Vai você!
…
…
Você não quis dizer isso né?
Não. Claro que não.
Queria te ver amanhã.
Ok. Pode ser. Agora não dá, to bêbado.
Bêbado é?
É. Demais.
Ok. Até amanhã.
Oi.
…
…
Desculpa. Não deu pra ir ontem.
Tudo bem.
Bom. É isso né?
É.
Vamos parar de nos falar.
Vamos.
ok.
ok.
…
Oi.
…
…
…
…
…
…
…
…
Oi.
Oi.
Senti sua falta.
Eu também.
Era muito bom estar contigo.
Também gostava de estar contigo.
O que vai ser de hoje?
…
É. A vida é assim né?
É. Coisas da vida.
Não quero te magoar.
Se você me magoar, a responsabilidade não é sua, é minha. Eu só me magoo se me deixar magoar.
É verdade.
Foi muito bom o tempo que tivemos juntos.
Também gostei.
Quem sabe um dia né?
É. Quem sabe?
Preciso ir.
Te levo até lá.
Tá. É perigoso o caminho.
Eu sei. Pode contar comigo quando precisar.
Você também.
Me beija.
Acho melhor não.
Vai.
Ok
…
Tchau.
Tchau.
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
…
Palavra Capital é a nova categoria de contos ficionais calcados na realidade documentada pelas lentes visuais do cineasta 81. Tratam-se de contos de até 15 linhas (word, times new roman 12) sobre acontecimentos tipicamente brasilienses. Minha intensão é de publica-los futuramente em algum veículo de grande porte.
Beirute é um sanduíche feito de pão sírio, rosbife, peito de peru defumado ou presunto e outros complementos, mas em Brasília Beirute é o nome de um bar na Asa Sul e Asa Norte frequentado por glbts, artistas, jornalistas e outras pessoas de cabeça supostamente esclarecida. Na última quinta feira um homem branco de fala articulada vestido como mochileiro veio pedir esmolas naquele bar. Explicou como é triste essa situação e que sente muita vergonha por fazê-lo, mas ele tem um filho com intolerância a lactose e precisa comprar um leite de dezesseis reais feito a base de soja. Não precisou de muita explicação, ele conseguiu quatorze reais em apenas uma mesa. Horas mais cedo uma mulher de aspecto sujo com sotaque nordestino carregando um filho no colo chegou na porta do bar. Ela mal sabia se o filho tinha algum tipo de doença, nunca foi ao médico, mas precisava de dinheiro para matar a fome: a doença humana constante. Estava suja, não falava com clareza. O garçom não permitiu que ela entrasse no beirute.
-”O canto da mais difícil e mais misteriosa das deusas do candomblé baiano aquela que sabe tudo sobre as ervas sobre a alquimia do amor”
O homem que diz “dou”
Não dá
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz “vou”
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz “sou”
Não é!
Porque quem é mesmo “é”
Não sou!
O homem que diz “tou”
Não tá!
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor…
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!…
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor…
Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha
Não vá!
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr’o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer…
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor…
O meu quarto era um cúbilo de poucos metros quadrados, um pensionato mal habitado de estudantes e velhos solitários em cima de um pensionato. A rotatividade do pessoal mais jovem era alta, só os mais velhos e que ficavam alí por um longo período. Não pensei que morar naquele local por um ano mudaria tanto a minha forma de pensar.
Uma das figuras do pensionato era a Rogéria, uma depressiva quarentona que gostava de chorar quando estavam todos felizes. Quando estavamos cantando, bebendo e fazendo festa ela se punha a relembrar de um ex-marido que a abandonou. Eu a aconselhava: “Rogéria, sofrer, todos sofremos, mas prolongar esse sofrimento te faz um mal do caralho! A dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Você pode continuar sofrendo por muitos anos se quiser, mas a escolha é sua. Tristeza todos sentimos, isso é sinal de que estamos vivos, por isso, deixe a tristeza invadi-la, permita que ela vá embora quando for o tempo”. Mas a Rogéria não queria ouvir formas de vencer aquilo, estava acostumada ao sofrimento, gostava de ver as pessoas sentindo pena dela. Eu me cansei de aconselhar a Rogéria, então toda vez que nos reuniamos para festejar, a Rogéria ia para um canto e ficava chorando.
Outro caso engraçado era o Luciano, um Japonês estiloso que gostava de rock melancólico. Ele parecia livre de qualquer emoção, tinha um semblante sério e de vez em quando soltava um riso para alguma coisa engraçada que alguém dizia, mas normalmente era quieto e calado. Era magrelo até o osso, vivia 23 horas por dia na internet, e ainda assim conseguia arrumar umas namoradas bonitas, eu tentava entender porque, mas é que ele era um cara muito estiloso, fumava com muito estilo e carisma, mas não tinha muito a dizer. É como diria Machado de Assís: “As mulheres tem uma queda pelos tolos”.
Uma vez um circo chegou a cidade, do circo, pousaram no pensionato um casal de namorados. O Aírton era um palhaço, e a Maíra uma loira maluca e gostosa que tinha fugido de Florianópolis porque se apaixonou pelo palhaço. Os dois viviam juntos e sempre brigando. O palhaço era gente boa, era bem menor que a Maíra, namorada dele. Tempos depois eu soube que Maíra tinha uma filha, e que tinha abandonado a responsabilidade da vida em Floripa pra viver como passarinho, largou até o namorado de lá. “E o palhaço o que é? Ladrão de mulher”. Tempos depois o circo foi embora da cidade e Maíra ficou. A Dona Vanda que tomava conta do pensionato me alertou: “Cuidado com essa mulher. Ela não é boa bisca não!”, eu disse que tudo bem Dona Vanda. Acho que ela pensava que eu era um rapaz muito correto. Lembro de uma noite que deixei a porta do meu quarto entre-aberta e saí para buscar algo na geladeira coletiva, a Maíra entrou pela fresta e se escondeu lá dentro como quem queria me dar um susto. O susto não foi grande, mas passamos a noite nos pegando. Na hora de dormir, em vez de ir para o quarto dela, Maíra tomou meu cobertor e me deixou com pouco espaço na cama. Acho que ela quis namorar comigo porque se sentiu ofendida quando no outro dia eu não tinha nem mais vontade de olhar na cara dela. Não que ela tivesse feito algo de errado, mas eu não estava afim dela. Essas coisas acontecem.
Uma vez eu estava deitado na minha cama ouvindo Frank Zappa quando ouví dois pipocos do lado de fora. Olhei pela janela e não vi nada, olhei novamente e ví um homem vindo na direção da churrascaria que ficava embaixo do nosso pensionato. “Eu levei um tiro! Eu levei um tiro!”, ele dizia. A mancha vermelha na camisa dele se estendia, os dois assaltantes saíram correndo com a bicicleta roubada. Ele caiu no chão perto do bar. Alguém ligou para os bombeiros que demoraram a chegar. Dias depois eu soube por uma nota no jornal que o rapaz havia morrido. Me lembro de alguém que havia se aproximado, segurou nas mãos dele e disse: “Vai ficar tudo bem”. Mas o olhar dele já estava tão distante, eu não acreditei naquilo, mas espero que ele tenha acreditado.
Um outro momento marcante em curitiba foi quando eu estava terminando de ler um livro, quase desligado quando passei os olhos por uma frase: COELUM NON ANIMUM MUTANT QUI TRANS MARE CURRANT, a frase era do filósofo, pensador e poeta Romano Quintus Horatius Flaccus, Horácio, nascido 65 anos antes de Cristo. Busquei o significado da frase no rodapé: “Os que atravessam o mar mudam o céu acima deles mas não as suas almas”. Nesse momento uma sensação estranha e indescritível se apoderou de mim. Um frio tremendo tomou conta do meu corpo e eu comecei a tremer, foi como se Deus me iluminasse por um breve momento e eu me dei conta do motivo de minha estadia em Curitiba. Este ano que estive por lá, estudando, foi na verdade um ano de fuga. Foi um momento da minha vida em que eu quis ser outra pessoa, mas quando lí aquela frase percebí que eu nunca poderia escapar de mim mesmo: “aonde quer que você esteja, lá estará você”, a frase é irônica, mas também muito inteligente. Não se pode escapar de sí mesmo. Foi o ápice do aprendizado de minha jornada, um ano depois morei em São Paulo e também tive muitos insights, mas nada se comparou a este.
Recordo com saudosismo do clima frio de curitiba, da chuva constante, do vento atravessando as estreitas ruas bem planejadas, das meninas bonitas, da Isabel com quem eu jogava basquete, por quem eu me apaixonei, mas que nunca nos demos muito bem fora das quadras. Dos professores, das aulas de cinema, dos amigos da banda wandula com quem fiz alguns passeios tanto musicais quanto geográficos, do amigo André com quem bebí muita cerveja, do amigo Sandro para quem falei sobre Duque: o cão louco voador e de quem ouví muito sobre animés e conversei sobre cinema, das rodas de break debaixo do shopping Itália, das cervejas geladas no shopping Curitiba, dos palhaços com quem trabalhei no Shopping Estação, da inspiração friorenta que me levaram a escrever o meu pequeno conto sobre uma pequena menina que se perdia durante a noite na cidade. O ano em curitiba passou rápido, rápido demais. Fui embora sem olhar para trás.
Este video foi realizado em um dos momentos de ócio no meu quartículo de Curitiba.
Este outro video eu fiz para os amigos da banda Wandula