Josimar é um homem rico, um homem de sorte; Seu defeito é se desculpar demais.

Josimar nasceu pobre, morava com os pais. Conseguiu um bom emprego depois de cursar a faculdade mas gostava mesmo era de cozinha, aprendeu com a mãe (errando bastante) a preparar uns pratos maravilhosos. Mas eram pratos simples, os pratos de Josimar serviriam muito bem para abastecer um público médio, sem muito interesse em sofisticações. Josimar queria mais, queria servir pratos finos aos clientes. A mãe aconselhou: “Josimar, Rico é pão duro! Se quer fazer dinheiro, sirva o pobretão! Esse sim só é pobre porque tem a mão aberta”. E Josimar não aceitou o conselho: “Desculpa mãe. Mas eu tenho que discordar. O rico não tem com que gastar, se você traz novidade o rico gasta e como gasta”. A mãe não precisava que ele pedisse desculpas, mas a cada visita era um pedido novo, por não seguir os conselhos, chegava a enjoar.
Em casa Josimar percebeu que Indira, sua esposa, estava calada tristonha, ela disfarçou o choro. “Porque ela está desse jeito se não lhe fiz nada?” – Talvez Josimar fosse egoísta demais para compreender que sua esposa tinha uma vida própria, que ela possuia “N” motivos para chorar. Emprego, família, amigos, ou até mesmo uma topada no dedão. Mas ela não quis responder, fez rodeios, e Josimar começou a pensar no pior: “Será que ela se cansou?”. Tentou paparicar Indira, mas não adiantou, ela queria ficar só. Josimar pensou consigo que a vida é assim mesmo, que a gente, mesmo vivendo junto, é indivíduo. Na vida a dois não se pode perder esse lado individual, o maior erro de um casal é tentar se tornar um só. Respeitou a individualidade da esposa, mesmo sentindo-se mal por não saber o que se passava, imaginou que no dia seguinte ela já estaria mais calma para conversar. Mesmo assim Josimar chegou na mulher, quando ela estava num cantinho e disse: “Desculpa meu amor. Desculpa se foi algo que eu fiz”. Ela não disse nada, já tinha parado de chorar, mas o silêncio de sua esposa era um mistério para ele. E assim se sentiu, como um bobo, por não saber. “Desculpa amor”, ele disse, e a mulher já cansada disse “Vê se me erra homem! Não posso nem chorar em paz?”
Josimar desceu do prédio chateado com a grosseria, meio puto porque se não tivesse pedido desculpas nada daquilo teria acontecido.Foi aproveitar a tal da solidão voluntária para incrementar seu trabalho no restaurante e teve a idéia derradeira: “Vou vender escargot! Caramujo, isso sim é comida de Rico”. Encomendou caixas e caixar de um caramujo gigante africano.
Semanas depois o caramujo estava a venda no seu restaurante. Alguns pediram o prato e não aprovaram o paladar. “Desculpe pelo transtorno”, dizia Josimar aos clientes insatisfeitos. Ele soube, um mês depois, que alguns dos clientes costumazes que comeram do escargot estavam de cama com febre, mal estar, falta de apetite, náuseas e vômitos. Um dos clientes, que se alimentou do escargot teve dores de cabeça e ficou louco por três dias, não falava coisa com coisa. Os caramujos africanos são vetores de meningite. Tem que rir pra não chorar, mas Josimar fez questão de pedir desculpas com uma visita pessoal a casa de cada um dos clientes, escreveu uma cartinha bem singela na qual dizia “Os desejos de melhora do chef do restaurante”. Não passou uma semana e já tinha três processos na justiça contra seu nome e seu restaurante, os clientes, ao receber o pedido de desculpa se deram conta de quem fora o causador da meningite, coisa que não lhes passaria pela cabeça nunca se não tivessem recebido uma visita de retratação.
Josimar, já emputecido com aqueles caramujos nojentos mandou que se jogassem aquelas caixas longe dali. Liberato, um de seus funcinários mais eficazes colocou o lote de caramujos dentro de um caminhão, e com todo cuidado para não tocar na gosma nojenta, soltou todos no meio do mato, longe dalí. “Obrigado Liberato, e desculpa por esse trabalho todo que eu te dei”, disse Josimar. Liberato, percebendo a vulnerabilidade do patrão, com o pedido de desculpas, interpretou a situação como uma fraqueza e pediu uma grana extra pelo trabalho “fora do expediente”.
Um mês depois os caramujos já estavam aos milhares entrando pelas casas. A população de caramujos cresceu de forma exponencial e as casas foram infestadas pela praga, como não havia predador natural no Brasil para os tais caramujos gigantes Africanos, a tendência é que se proliferem melhor do que coelhos, o ambiente é muito propício.
Um mês depois a situação estava fora de controle, a cidade estava infestada pelos caramujos africanos gigantes, havia uma epidemia nacional de meningite. Josimar chamou a imprensa e contou toda a história. No outro dia sai a notícia no jornal “Dono de restaurante brasiliense se desculpa por infestar a cidade de caramujos”.
O linchamento foi marcado, extra oficialmente para as quatro da tarde do dia seguinte. Por sorte um amigo, muito gente boa comunicou Josimar sobre a fúria da população: “O melhor a fazer agora Josimar, é se esconder! Te conheço há muitos anos e sei que você não fez por mal!”. “Desculpe por te colocar nessa situação Nilson”, disse Josimar, mas Nilson não cobrou nada pela ajuda, disse apenas “Às vezes na vida a gente tem que assumir alguns erros calado Josimar. As vezes na vida nem tem erro, mas tem gente que pede desculpa mesmo assim. Josimar, nessa vida de puro acaso a culpa é dividida entre todo mundo junto. Se você quiser aguentar a culpa nas costas você vai ser sempre esse Josimar perseguido, desrespeitado e maltratado. Sei que a tua intenção é boa ao pedir desculpas, mas na modernidade algumas virtudes são vistas como defeitos. É o seu caso Josimar! A sua virtude deixa todo mundo puto! Pare de pedir desculpas!”.
Josimar pediu ajuda ao governo e foi extraditado junto a sua esposa para a cidade município Benguela, no Oeste de Angola. O governo local ordenou que no avião fossem levados todos os caramujos que pudessem ser coletados. A esposa fez a viagem indignada, assim como toda a tripulação, todos com medo da meningite. Quando pousaram no aeroporto de Benguela, um tanto precário, todos ficaram parados olhando para Josimar, um deles apontou o dedo:
“A culpa é tua! A culpa dessa louca viagem é tua!”. Outro disse “Se eu tiver meningite vou mandar costurar seu rabo!”. E até a esposa reclamou “Meu cabelo está um embaraço! Eu nunca vou me acostumar com esse clima da África”
Josimar observava calado, matutou profundamente sobre qual seria a melhor palavra a se dizer quando todo o peso do mundo está sobre as suas costas. Pensou na possibilidade de reconfortar a todos com uma demonstração de amizade, ou com um suborno. Pensou que pedir desculpas talvez fosse uma boa, mesmo que não ajudasse muito. Mas de que adiantaria? Parece que quanto mais se pede desculpas, mais errado se está. Então ele tomou coragem, engoliu uma dose de ar e disse, com atitude de macho:
“FODA-SE TODO MUNDO!”
Ouvi dizer que depois disso, Indira e Josimar tiveram uma vida gostosa morando na beira da praia de Beguela. Nunca mais comeram caramujo. Só quando o orgulho ficava evidente é que Josimar pedia uma desculpazinha bem miúda, só pra não passar batido.