Gustavo

Posts de Agosto, 2008

Sonho

In 1 on Agosto 30, 2008 at 7:13 am

Tive um pesadelo na noite passada, foi estranho. Eu andava por uma galeria escura com várias lojas de música entre outras coisas. Eu podia ouvir o som dos instrumentos musicais sendo afinados dentro das lojas. As paredes da galeria eram de um material frio e avermelhado. De uma das lojas vinha um cheiro muito forte, parecia charuto, eu vi uma mulher velha curvada e estranha saindo de lá de dentro com um sorriso no rosto. Eu corri para fora da galeria atravessando uma portinhola que dava para uma escadaria mas ela me acompanhou. Ela sentou na calçada da portinhola e eu perdi o medo. A velha segurava um charuto com uma das mãos, tinha um nariz enorme, quase disforme, uma cara enrugada e havia um machucado estranho na perna dela, era um buraco seco e profundo. Falei com ela:

“Você é uma entidade?”
“Sou meu filho, quer saber alguma coisa?”
“Você se sente bem nessa sua condição?”
“Sim meu filho, mas nem sempre, algumas vezes quero sair daqui, quero ajudar as pessoas, mas minha condição fisica é muito ruim… eu não sou capaz. Tenho que ficar aqui o dia inteiro”, os olhos dela se encheram de lágrimas. Tive a nítida impressão de que ela estava presa naquele corpo idoso.

“Não sei o que fazer com o que estou sentindo. Não sei como agir. Você pode me ajudar?”, eu disse para mudar de assunto, mas minha declaração era sincera. Eu esperava receber um conselho dela. Mas ela apenas deu uma baforada na minha cara.

“Não sinta medo. E não volte a ser o menino levado que você era por causa de medo. Todo mundo sente medo. Não vire um metido a besta para esconder o medo. Não se torne safado para ficar seguro. Aceite a incerteza”.

Ficamos calados. Ela permaneceu sentada fumando na calçada, eu observei o machucado seco na perna dela, era um ferimento consideravelmente grande e parecia que ela estava oca por dentro. Ela ja estava voltando a rir, achando engraçado a minha curiosidade. Quebrei o silêncio:

“Eu estou perdido, não sei onde é a minha casa… você pode me  ajudar a encontrar?”

Ela deu outra baforada de fumaça de charuto na minha cara. “Sua casa é onde você a faz.”

A baforada de cigarro me bloqueou a visão e aos poucos eu fui acordando, sentindo que meu coração ficará em paz quando eu estiver em casa, e minha casa é longe daqui.

Redenção

In 1 on Agosto 26, 2008 at 10:41 pm

Um homem desesperado não pode mais chorar, mas ainda ora

Peço força, senhor

Estou saindo de um entre os piores dias da minha vida, mas ainda estou imerso neles até os joelhos. Sinto o peso sobre meus ombros ao caminhar, sinto como cada passo é difícil. Tudo o que faço só piora as coisas, me tornei um monstro, perdí a mulher que eu amava de tal maneira que não há mais volta. Ela me odeia e com toda a razão.

O amor dela me segurou longe das más escolhas, mas agora já não tenho mais essa alegria. E percebo que minhas atitudes estão piorando. Senhor, não me permita entrar em depressão, estou dentro do poço, mas me segure, não me permita descer até o fundo. Não me permita cometer os mesmos erros do passado e guie as minhas escolhas porque tudo que fiz por impulso me jogou para mais longe dos meus objetivos.

Porque é tão difícil ser um homem bom?

Senhor, abençoe a garota que eu amei e perdí, abençoe a família dela, abençoe os meus amigos que me mostraram como é bom viver mesmo estando só, abençoe os meus pais por me proverem sustento e por me presentearem com paciência e amor constante.

Me abençoe por favor, não me permita descer a um nível abaixo do qual eu estou.

Amém.

Hoje minha fulô morreu

In 1 on Agosto 24, 2008 at 5:21 pm

Tenho um jardim na frente de casa. Ele esteve árido por anos até que um dia nasceu uma tímida fulô. Vendo aquela única flor no meu jardim, passei a regá-la e a cuidar melhor da minha terra, procurando todos os nutrientes necessários para que a Fulô crescece confortável.

Manuseei a Fulô e com minhas mãos brutas eu a machuquei. Derrubei suas pétalas. Continuei a regá-la com medo de que morresse, mas acabei afolgando a minha fulô e piorando sua situação.

Ela foi morrendo e chegou um momento que tentei tocá-la para saber se tudo ainda estava bem, mas ela me feriu com seus espinhos. Tudo o que eu fazia só piorava a situação e da última vez que tentei regá-la para que ela se esforçasse para viver, eu a matei.

Nunca foi minha intenção matar a minha Fulô. Eu fui um jardineiro sem habilidade, na minha ânsia por fazê-la mais forte. Meus dedos estavam feridos pelos seus espinhos, mas eu já não me importava mais, a Fulô tem sua beleza por causa do perigo e da fragilidade que representa. Esta Fulô foi especial, mas agora eu percebí tristemente que não há mais volta.

A dor de ter um jardim vazio é não apenas no coração mas física. Sinto muita dor, mas já não sofro mais. Eu pensei nos erros que cometí com ela e pensei que não deixarei mais de alimentar a terra pois não quero mais ver meu jardim vazio, darei espaço para que outra Fulô possa brotar e da próxima vez a tratarei com os cuidados que aprendi nessa triste lição.

http://janalago.blogspot.com/

Uma em um milhão

In 1 on Agosto 22, 2008 at 3:52 am

 O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar, ir aonde quiser, Ame-o e deixe-o Brincar, correr, cansar e dormir em paz, O seu amor, Ame-o e deixe-o Ser o que ele é
Gilberto Gil

 Gustavo é um cara gente boa. O problema é que as vezes é meio grosseiro, desajeitado. Mas não é por mal.

Um dia Gustavo arrumou uma namorada, o nome dela: Janaína. “É uma em um milhão”, ele costumava dizer. Ele se apaixonou pela garota. Eles conversavam sobre todos os assuntos mas quando ela perguntava sobre os sentimentos dele a resposta era sempre a mesma: “Não sei. Não consigo falar disso”. Gustavo ficava travado, não conseguia expressar as emoções.

Os homens passam a vida toda reprimindo os sentimentos, mas acreditem garotas, isso não é ruim, faz parte da natureza masculina. Talvez antes de morrer os homens desabafem tudo numa bica só, mas por enquanto, deixe como está.

Janaína cometeu o erro de incitar Gustavo a falar de seus sentimentos. “Você é minha prioridade. Eu só saio daqui quando você falar”, ela dizia. Demorou mas um dia essa pressão psicológica surtiu efeito. Gustavo se sentiu confortável e abriu o coração para Janaína. Ele falou de tudo que estava lá dentro, e enquanto seus sentimentos eram expurgados os olhos vermelhos marejados eram observandos por Janaína, ela foi compreensiva.

Depois do longo discusso sentimental que Gustavo fez ao abrir seu coração, ele encerrou: “Mas eu te amo, do fundo do meu coração. Só que odeio chorar na frente dos outros, me sinto fraco, idiota”. Pra falar a verdade, era assim mesmo que ele estava parecendo: Fraco e idiota. Mas Janaína foi uma boa companheira: “Você não é fraco. A maioria das pessoas não tem coragem de se abrir desse jeito. Você nunca foi tão sincero comigo quanto agora”. Gustavo parecia um pinto molhado. Limpou as lágrimas no canto dos olhos e se sentiu aliviado. “Ela é uma em um milhão”, pensou.

Entre os Cheyenes, uma tribo Indigena Norte Americana,  extinta durante a colonização Norte Americana existe uma frase da sabedoria popular sobre isso: “Nascemos sós e morremos sós, guarde consigo os frutos da emoção. Ninguém nunca os irá compreender da mesma forma que você”.

Desse dia em diante Gustavo sentiu que poderia liberar todas as suas mágoas e emoções reprimidas no colo atencioso de Janaína e sem perceber foi se tornando um tedioso sentimental. A roupa ficava amarrotada de tanto choro, colo e soluços. Durante a noite dormia como um bebê contente.

Janaína gostava da idéia no início, mas aos poucos foi enjoado daquela melação e quase virou o homem da relação aconselhando seu amado e o tratando com severidade constantemente: “Não é sou eu. Tem muita gente que te ama além de mim”. Mas Gustavo gostou da história e se tornou um chorão assumido. Janaína já não aguentava mais tantas confissões e lágrimas. Com tanta melação, ela passou a evita-lo aos poucos, as vezes sem querer ela desligava o celular na cara dele, dormia até tarde para não visita-lo de manhã nos finais de semana. Distanciou-se.

Gustavo percebeu como a comunicação ficou difícil e um dia ligou com aquele ar de palerma que adquiriu, depois que começou a ficar sentimental demais:
“Oi amor”
“Oi”.
“To com saudade da minha neguinha”
“Mas nós nos vimos anteontem”
“Eu sei, mas tenho saudade daquele seu jeitinho carinhoso de quando te conhecí…”
“Ah não Gustavo! Você é muito dramático, dá licença que eu tenho muita coisa para fazer. Vou desligar”.

E desligou.

Gustavo ficou paralisado: “Mas eu fui tão compreensivo e atencioso com ela”. Foi quando ele levou um tapa na cara de sí mesmo.

“Cala boca seu tanga frouxa!” era o outro eu não sentimental de Gustavo, com olheiras profundas de tanto ficar esquecido no escuro.
“Você está virando um frouxo! Um pé no saco. Você tem noção que eu já não entro em ação há uns dois meses? Agora é só chororô, sentimento e frescura. To afim de sair da gaiola, to cheio desse fru-fru. Para de chorar porque quando você liberou suas emoções, você reprimiu seu instinto masculino. Um homem não pode gastar horas pensando sobre um sentimento, um homem precisa agir. Sem pensar se isso vai magoar alguém, ou se pode ter prejuizos dramáticos. As mulheres são assim, e por isso gostamos delas, nós somos o contra-peso. Agora deixe de ser covarde. Da próxima vez que for chorar, pare! Procure algo de útil para fazer, vá arrumar o telhado, vá levantar peso, vá trepar, ler alguma coisa, gargalhar ou tomar cerveja, mas não se deixe inebriar pela lissergia emocional. Você é o que você faz, e não o que você sente. Muitos homens nessa vida deixaram de agir, de construir de criar para se lamentarem como maricas. Não seja um deles. Você que está aí sentado! Levante-se! Há um lider dentro de você! Faça o falar!”

E blam. O tapa na cara foi um estalo para Gustavo.

No outro dia Gustavo procurou sua namorada. Ela estava cansada, desencantada e disse que não queria mais nada com ele. Gustavo saiu da casa dela chateado, mas assim é a vida. Ainda assim, ao sair ele sabia “ela é uma em um milhão, é duro perdê-la”, mas era tarde demais.

Fora isso, a dignidade não tem preço. Ele poderia implorar para reatar o laço entre os dois, mas se ela não quer por vontade própria, então talvez nunca tenha existido um laço, ou talvez fosse fraco demais.

“A única coisa que eu posso dizer é que eu quero você. Mas eu tenho minha maneira e não permitirei me modificar novamente, independente da sua decisão”, disse Gustavo esperando por uma resposta. Ela não disse sim ou não. Ele presumiu que estavam acabados.

Gustavo saiu. Quisera ele ter ficado.

“Uma em um milhão”, ele pensou.

O seu erro, Gustavo, não foi chorar demais, foi se apegar, ao invés de apenas amar.

Juão e o fuminho

In 1 on Agosto 19, 2008 at 1:14 pm

Era uma noite ociosa quando Zé apresentou o fuminho ao Juão. O Zé falou, “fuma sem medo”. Juão ficou receoso, deu algumas tragadas e a fumaça coçou a garganta. Tossiu. “Isso é ruim!”, disse Juão. “Calma que o efeito não bateu ainda”, disse Zé.
Juão esperou acontecer alguma coisa, mas tudo estava do mesmo jeito. “Não vai bater”, disse. “Calma”, respondeu Zé.

Bateu. Quando Juão virou a cabeça sentiu que a imagem em seu cérebro parecia chegar com um atraso. Juão e Zé se levantaram e caminharam em silêncio pela rua, nada precisava ser dito. Para Juão era uma experiência nova. Juão perdeu o interesse pela maioria das outras coisas, andava pela rua e a sensação era de que o tempo não era o mesmo. A rua que Juão já atravessou centenas de vezes parecia maior agora, e para chegar ao fim da rua o tempo prolongava-se. Os faróis de um carro acendiam lá na frente e Juão olhava. Olhava para baixo, quando achava que os faróis já estaria bem próximos, eles ainda estavam distantes.

A vida de Juão acabara de mudar. Estava apaixonado pelo fuminho.

Dalí por diante os interesses de Juão foram perdendo a graça, tomados pelo interesse no fuminho.  Juão treinava circo, fazia malabares todo dia para aprimorar a técnica. Ele também estudava geografia, paixão antiga. Mas depois de se apaixonar pelo fuminho todas outras paixões pareceram acinzentadas. É como se a vida real de Juão tivesse sido suprimida pelo prazer de viver com o fuminho. Um vício.

Era bom estar com o fuminho na mente, mas Juão sentia-se culpado. Tantas coisas para fazer e só pensava no fuminho. A personalidade de Juão passou a ser modificada pelos efeitos do fuminho.

Chegou um momento que Juão não aguentou. Fizera muitas concessões em sua vida por causa do fuminho, estava na hora de recuperar sua personalidade pois o fuminho não dava retorno.

Parou de consumir, parou de comprar, não queria mais chegar perto do cheiro do fuminho, pois era muito tentador. O fuminho, como objeto inanimado que é, não chamou por Juão, mas ele ainda sentia a tentação “Preciso do meu fuminho”. Mas resistiu, resistiu. E um dia não havia mais fuminho na vida de Juão. Bastaria fazer uma ligação e pedir que Zé trouxesse o fuminho, mas para Juão, não é não.

Sobrou um vazio estranho no lugar do peito onde ficava o fuminho. Leva tempo para preencher um rombo desses. Quando você abandona suas paixões em troca de algo e retira esse algo da sua vida, sobra só o espaço vazio. Juão entendeu que se algo entra em sua vida, este algo não deve suprimir suas outras paixões nem sua individualidade. É preciso haver uma coexistência entre todas as paixões, sem que se abdique da própria individualidade em troca de uma nova paixão, como por exemplo o fuminho.

Juão nunca mais fumou.

Hienas – Rufião

In 1 on Agosto 15, 2008 at 10:43 pm

Rufião é o ladrãozinho meia boca que foi preso por um crime que não cometeu. Chegou em Brasília sem grandes planos mas será arrebatado pelo destino para cumprir uma missão maior de puro charlatanismo.

A série “Os Hienas” é o projeto de uma série sobre uma dupla de charlatães picaretas, desenvolvida em capítulos aqui neste blog. Read the rest of this entry »

O colapso

In 1 on Agosto 14, 2008 at 3:36 pm

5h15

Ele está acordado?
Bem… parece que sim. Os olhos pelo menos estão abertos, a boca também. Está em silêncio total, parece até que morreu. A boca encostada contra o chão, as narinas respirando terra…
Parece que está em choque.
Se estivesse em choque estaria gritando.
Ele viu muitas coisas ruins, qualquer um no lugar dele ficaria desse jeito.
Conheço muita gente que não ficaria do mesmo jeito.
Calma, dêem espaço. Ele está querendo levantar.
Parece bem. Atordoado, os olhos profundos, mas está bem.
A circulação está normal, os olhos estão vagamente perdidos, há sintomas de muito estresse, mas tudo bem.

13h30

Há quantas horas ele está andando?
Desde que começou a levantar, faça as contas.
O que foi que ele disse aquela hora? A língua parecia enrolada, eu não entendi nada.
Ele disse algo sobre morrer aos poucos. Sobre estar morto.
Acho que ele completou o que ele disse há alguns dias atrás.
Não me lembro. O que foi?
Ele disse que a cada vez que ele aceita a morte, ele morre mais um pouco.
Ele é muito calado, não é muito de falar. Mas quando falou aquele dia, nem parecia que era ele quem estava falando, parecia ser outra pessoa falando através dele.
A capacidade humana tem limites. Ele passou por maus bocados.
Não perca seu tempo, registre tudo. Capte as pálpebras e os cílios dele, observe como estão tremendo.
É como se ele fosse levado por uma vontade que não é dele.
Anote isso por favor.

19h00

Chequem a pulsação de novo.
Ele não avisou que ia fazer isso? Ele só caiu?
Sim. Ele caiu e ficou aí, do mesmo jeito que estava hoje de madrugada. Parou e caiu.
Está tudo bem?
Parece que está tudo bem. Eu nunca ví um homem nesse estado. Mas em termos físicos, ele está bem.
Vamos deixa-lo aí? Com a boca virada para o chão, olhos abertos, descansando desse jeito?
Definitivamente isso não é normal, mas nossas instruções são para que fiquemos atentos, apenas observando. Não devemos interferir em nada.
Muito bem. Vamos sentar e esperar. Revezaremos, um deverá ficar sempre acordado para quando ele levantar.

3h47

Não mudou de posição desde ontem a noite. As narinas e os lábios estão secos.
Estou preocupado.
Não fique. Deixe-o.
Não há ninguém para dizer o que devemos ou não fazer. O certo para mim neste momento é interferir.
Se você interferir, destruirá o projeto, eu não deixarei que faça isso.
Concordo. Devemos manter a calma e a paciência e observar apenas. A ciência precisa de objetividade e imparcialidade.
Não se distancie.
Me deixe em paz.
Não se preocupe, ele vai aprender com o tempo a se acalmar. Deixe ele.
Não. O comportamento dele pode colocar o projeto em risco.
O que está fazendo?
Me deixe.
O que está fazendo?
Rezando pela alma deste homem.
Você me disse que ele era ateu.
Foi o que ele me disse durante a entrevista.
Devemos tomar mais cuidado durante as entrevistas. Devemos ser mais criteriosos.
Isso não acontecerá novamente.

5h11

O que há?
Ele está quieto demais, os olhos estão vítreos, perdidos na superfície do rosto.
Não estou sentindo a respiração dele.
Rápido, cheque os pulsos.
Não há pulso. Ele faleceu.
Quando foi que aconteceu?
Não sei imediatamente, ele está assim nessa mesma posição há horas, eu perdí o momento exato.
Você ficou preocupado, sua cabeça se perdeu em devaneios, as instruções eram para que registrassemos o momento exato do óbito, caso ocorresse.
Foi muito sutil. Eu não enxerguei a passagem.
Você acha que a câmera captou a passagem?
Não tenho certeza. Ele não emitiu expressão alguma. Apenas morreu.
Mas será possível sentir através das imagens o momento de passagem entre a vida e a morte?
Não sei.
Parece que perdemos um bom tempo com este aqui, para nada.
Recolham suas coisas. Não há mais motivos para estarmos aqui.
Registre o horário de encerramento das nossas atividades por favor.
Cinco horas da manhã e quinze minutos, completaram-se exatas 24 horas depois do colapso.

Hienas – Sabugo

In ficção on Agosto 5, 2008 at 4:50 pm

Sabugo é um dos personagens da série “Os Hienas” que será desenvolvida em episódios daqui por diante neste blog.

Sabugo é o homem da cabeça mirabolante.

Read the rest of this entry »

Desculpa daqui, desculpa alí

In Sem-categoria on Agosto 3, 2008 at 6:42 am

Josimar é um homem rico, um homem de sorte; Seu defeito é se desculpar demais.

 benguela_praia

Josimar nasceu pobre, morava com os pais. Conseguiu um bom emprego depois de cursar a faculdade mas gostava mesmo era de cozinha, aprendeu com a mãe (errando bastante) a preparar uns pratos maravilhosos. Mas eram pratos simples, os pratos de Josimar serviriam muito bem para abastecer um público médio, sem muito interesse em sofisticações. Josimar queria mais, queria servir pratos finos aos clientes. A mãe aconselhou: “Josimar, Rico é pão duro! Se quer fazer dinheiro, sirva o pobretão! Esse sim só é pobre porque tem a mão aberta”. E Josimar não aceitou o conselho: “Desculpa mãe. Mas eu tenho que discordar. O rico não tem com que gastar, se você traz novidade o rico gasta e como gasta”. A mãe não precisava que ele pedisse desculpas, mas a cada visita era um pedido novo, por não seguir os conselhos, chegava a enjoar.

Em casa Josimar percebeu que Indira, sua esposa, estava calada tristonha, ela disfarçou o choro. “Porque ela está desse jeito se não lhe fiz nada?” – Talvez Josimar fosse egoísta demais para compreender que sua esposa tinha uma vida própria, que ela possuia “N” motivos para chorar. Emprego, família, amigos, ou até mesmo uma topada no dedão. Mas ela não quis responder, fez rodeios, e Josimar começou a pensar no pior: “Será que ela se cansou?”. Tentou paparicar Indira, mas não adiantou, ela queria ficar só. Josimar pensou consigo que a vida é assim mesmo, que a gente, mesmo vivendo junto, é indivíduo. Na vida a dois não se pode perder esse lado individual, o maior erro de um casal é tentar se tornar um só. Respeitou a individualidade da esposa, mesmo sentindo-se mal por não saber o que se passava, imaginou que no dia seguinte ela já estaria mais calma para conversar. Mesmo assim Josimar chegou na mulher, quando ela estava num cantinho e disse: “Desculpa meu amor. Desculpa se foi algo que eu fiz”. Ela não disse nada, já tinha parado de chorar, mas o silêncio de sua esposa era um mistério para ele. E assim se sentiu, como um bobo, por não saber. “Desculpa amor”, ele disse, e a mulher já cansada disse “Vê se me erra homem! Não posso nem chorar em paz?”

Josimar desceu do prédio chateado com a grosseria, meio puto porque se não tivesse pedido desculpas nada daquilo teria acontecido.Foi aproveitar a tal da solidão voluntária para incrementar seu trabalho no restaurante e teve a idéia derradeira: “Vou vender escargot! Caramujo, isso sim é comida de Rico”. Encomendou caixas e caixar de um caramujo gigante africano.

Semanas depois o caramujo estava a venda no seu restaurante. Alguns pediram o prato e não aprovaram o paladar. “Desculpe pelo transtorno”, dizia Josimar aos clientes insatisfeitos. Ele soube, um mês depois, que alguns dos clientes costumazes que comeram do escargot estavam de cama com febre, mal estar, falta de apetite, náuseas e vômitos. Um dos clientes, que se alimentou do escargot teve dores de cabeça e ficou louco por três dias, não falava coisa com coisa. Os caramujos africanos são vetores de meningite. Tem que rir pra não chorar, mas Josimar fez questão de pedir desculpas com uma visita pessoal a casa de cada um dos clientes, escreveu uma cartinha bem singela na qual dizia “Os desejos de melhora do chef do restaurante”.  Não passou uma semana e já tinha três processos na justiça contra seu nome e seu restaurante, os clientes, ao receber o pedido de desculpa se deram conta de quem fora o causador da meningite, coisa que não lhes passaria pela cabeça nunca se não tivessem recebido uma visita de retratação.

Josimar, já emputecido com aqueles caramujos nojentos mandou que se jogassem aquelas caixas longe dali. Liberato, um de seus funcinários mais eficazes colocou o lote de caramujos dentro de um caminhão, e com todo cuidado para não tocar na gosma nojenta, soltou todos no meio do mato, longe dalí. “Obrigado Liberato, e desculpa por esse trabalho todo que eu te dei”, disse Josimar. Liberato, percebendo a vulnerabilidade do patrão, com o pedido de desculpas, interpretou a situação como uma fraqueza e pediu uma grana extra pelo trabalho “fora do expediente”.

Um mês depois os caramujos já estavam aos milhares entrando pelas casas. A população de caramujos cresceu de forma exponencial e as casas foram infestadas pela praga, como não havia predador natural no Brasil para os tais caramujos gigantes Africanos, a tendência é que se proliferem melhor do que coelhos, o ambiente é muito propício.

Um mês depois a situação estava fora de controle, a cidade estava infestada pelos caramujos africanos gigantes, havia uma epidemia nacional de meningite. Josimar chamou a imprensa e contou toda a história. No outro dia sai a notícia no jornal “Dono de restaurante brasiliense se desculpa por infestar a cidade de caramujos”.

O linchamento foi marcado, extra oficialmente para as quatro da tarde do dia seguinte. Por sorte um amigo, muito gente boa comunicou Josimar sobre a fúria da população: “O melhor a fazer agora Josimar, é se esconder! Te conheço há muitos anos e sei que você não fez por mal!”. “Desculpe por te colocar nessa situação Nilson”, disse Josimar, mas Nilson não cobrou nada pela ajuda, disse apenas “Às vezes na vida a gente tem que assumir alguns erros calado Josimar. As vezes na vida nem tem erro, mas tem gente que pede desculpa mesmo assim. Josimar, nessa vida de puro acaso a culpa é dividida entre todo mundo junto. Se você quiser aguentar a culpa nas costas você vai ser sempre esse Josimar perseguido, desrespeitado e maltratado. Sei que a tua intenção é boa ao pedir desculpas, mas na modernidade algumas virtudes são vistas como defeitos. É o seu caso Josimar! A sua virtude deixa todo mundo puto! Pare de pedir desculpas!”.

Josimar pediu ajuda ao governo e foi extraditado junto a sua esposa para a cidade município Benguela, no Oeste de Angola. O governo local ordenou que no avião fossem levados todos os caramujos que pudessem ser coletados. A esposa fez a viagem indignada, assim como toda a tripulação, todos com medo da meningite. Quando pousaram no aeroporto de Benguela, um tanto precário, todos ficaram parados olhando para Josimar, um deles apontou o dedo:
“A culpa é tua! A culpa dessa louca viagem é tua!”. Outro disse “Se eu tiver meningite vou mandar costurar seu rabo!”. E até a esposa reclamou “Meu cabelo está um embaraço! Eu nunca vou me acostumar com esse clima da África”

Josimar observava calado, matutou profundamente sobre qual seria a melhor palavra a se dizer quando todo o peso do mundo está sobre as suas costas. Pensou na possibilidade de reconfortar a todos com uma demonstração de amizade, ou com um suborno. Pensou que pedir desculpas talvez fosse uma boa, mesmo que não ajudasse muito. Mas de que adiantaria? Parece que quanto mais se pede desculpas, mais errado se está. Então ele tomou coragem, engoliu uma dose de ar e disse, com atitude de macho:

“FODA-SE TODO MUNDO!”

Ouvi dizer que depois disso, Indira e Josimar tiveram uma vida gostosa morando na beira da praia de Beguela. Nunca mais comeram caramujo. Só quando o orgulho ficava evidente é que Josimar pedia uma desculpazinha bem miúda, só pra não passar batido.