Gustavo

Archive for Julho 2008

Descarado egotrip

In Sem-categoria on Julho 28, 2008 at 1:24 am

Não é conto, não é ficção, é introspecção

Eu estava dentro de um ônibus ontem a noite, eram dez horas. O ônibus demorou bastante a chegar. Tive tempo de me observar refletido no espelho, como estava pensando, como estava pensando, como minha cabeça estava cheia de coisas, a maioria delas inúteis. Achei que devia me calar um pouco, agir com dignidade e me permitir agir pensando menos. Agir conforme manda a minha espontaneidade, e não medindo cada ação.

 A inspiração ainda não voltou. Os contos ainda não fluem pelos meus dedos, a ficção parece ter me abandonado, mas meus interesses estão vivos. Eu estou vivo, amo o cinema, amo a capoeira, amo escrever e todas as coisas que faço, são minhas paixões, preciso continuar a alimenta-las, minhas paixões me mantem vivo, me sinto mal e vazio quando elas parecem ter se distanciado de mim, mesmo que eu as queira tão perto. Um homem que nasce com uma tarefa nunca será completo enquanto não a exercer.

Me sinto momentaneamente distante de mim mesmo. Que seja uma crise, que depois da crise meus dedos voltem a metralhar meu teclado, que minhas digitais destruam os teclados, lápis e canetas de tanto escrever, que minha mente se exploda de idéias. Que minhas pernas voem no céu e no chão com todas as rasteiras que eu puder traçar, que meus pensamentos explodam em imagens impressas pela luz. Que minhas paixões me mantenham vivo com vontade de sair cedo da cama no dia seguinte. Que meu tempo nunca seja morto.

Vivo das idéias, me alimento das idéias, no dia que pararem de fluir terei morrido para o mundo. Que eu morra antes do fim das idéias, assim espero.

Menos um vivente

In Sem-categoria on Julho 11, 2008 at 10:54 pm

A festa de ciranda não parou depois que Luiz levou uma facada no bucho, ninguém viu, ninguém ouviu

Luiz teve sua atenção atraída pelo nome “Festa de Ciranda” estampada num cartaz do Espaço Cultural de Brasília. Nesta cidade de poucas opções a festa de ciranda é a alternativa extravagante, promessa de diversão. Todos aqueles tambores e todas àquelas pessoas dispostas a pular, à celebrar a vida, a tocar os pandeiros e suar os corpos, festejando na contramão.

 O sonho de Luiz um dia foi fugir de casa para tornar-se perdido mas feliz, sem compromissos em fazer dinheiro trabalhando num escritório tão limpo que enjoa, queria sujar os sapatos nesse mundão tão grande, queria viajar tão longe quanto às estradas permitissem, além das estradas se pudesse. Luiz quis a festa como quem quis um dia uma vida de passarinho. O tempo é quem dá o tempo, e assim esperou pela data, eram dois dias apenas.

Dois dias depois despontou pela porta de entrada da festa com jeito de quem já vai encontrar um lugar para chamar de casa. Gente de todo tipo, de toda a laia e estirpe cantava, bebia, beijava e dançava. Era o som da rabeca e o som dos tambores, eram as vozes populares com sua rouquidão e às vezes até a pura e bela desafinada, a beleza da imperfeição.

Comemoraram de mãos dadas formando uma grande ciranda, trumpetes e batuques, pulistas e saltantes, vivedores. Luiz entrou na roda pegando na mão da morena jambo, uniu-se ao êxtase coletivo serpenteando em ciranda constante. A rabeca comia os ouvidos, aguçava, penetrava, saqueava e bombardeava com esguia agudeza.

Enquanto isso Limeira passava debaixo dos braços dados dos que dançavam na multidão, procurava por um homem de casaco verde com quem tinha umas contas a acertar. O motivo da peleja era grande coisa, envolvia grana, envolvia mulher, envolvia honradez. “Se esse cabra me ver primeiro é ele quem me mata, tenho que ficar bem abaixado no meio dessa gente toda, com o punhal agarrado na mão”, pensava Limeira. Limeira passava por baixo dos braços festejantes, mal o notavam.

Por um azar qualquer, Luiz, pobre coitado, tinha a altura, o peso e a cor do casaco iguais aos do alvo procurado por Limeira para fazer “justiça pessoal”, como ele chamaria. Limeira se aproximou do casaco verde, se tivesse parado para ver o rosto do dono de casaco perceberia que Luiz não era o alvo da peleja, era sim um vivente qualquer no meio de toda a massa brasiliense.

Limeira tirou a faca do cinto e enfiou três vezes no bucho de Luiz, as tripas foram vomitadas da barriga para o chão. Triste de Luiz, triste de Limeira. Quando Luiz soltou um grito abafado pela voz do tambor, Limeira percebeu ter atacado a presa errada. Triste de Limeira, triste de Luiz.

Luiz largou as mãos de seus companheiros cirandeiros, que no calor da dança não o notaram ferido. Ele fechou os braços em torno do ferimento na barriga estancando o sangueiro. Enquanto isso Limeira escapava, largando a faca ensanguentada no chão, parou na barraca e deu uma golada na cachaça, saiu sem pagar, suas mãos com sangue morno, até os pulsos. Desapareceu na pista arrependido de matar o homem errado, decidido a esquecer sua vigança, a deixar de matar qualquer homem por qualquer motivo que fosse, “uma vida não se tira por vontade de outra vida, quem sou eu para tirar um vida? Sou um maldito”, e assim se condenou por toda a vida, nunca mais, dalí em diante, olhou um cristão no fundo dos olhos. Nunca mais, por toda a vida, dormiu tranquilo, durantes as noites suas mãos estavam sempre mornas de sangue de um homem, inocente ou culpado, era sangue de gente…

…e sangue de gente, por gente não se tira.

Luiz a essa altura já estava do outro lado da festa, com o bucho quase todo do lado avesso, deixou um rastro de sangue no caminho por onde passou, foi morrer lá atrás do palco, onde o som do tambor já estava distante, não crepitava na poeira do chão. O coração não seguiu o compasso por muito tempo, aos poucos fraquejou. Parou de bater.

Morreu pensando na viagem que estava prestes a fazer, na terra dos violentos morreu mais um vivente sonhador, de alma um passarinho, pôde finalmente voar.