Gustavo

Posts de Junho, 2008

Não é por mim que você procura

In ficção on Junho 30, 2008 at 5:59 pm

O tempo é onisciente

Curitiba, 12 de setembro de 2005.
Sentado no banco de uma das verdejantes praças curitibanas, Aurélio arremessa migalhas aos pombos que se amontoam. Aurélio carrega óculos redondos de armação metálica sobre sua face severa, cheia de rugas. Na cabeça branca um elegante chapéu preto disfarça sua calvicie, os sapatos impecáveis foram lustrados ontem por um desses garotos de rua que muitas vezes ameaçam o cliente em troca de trabalho.

Aurélio observa a movimentação curitibana, seus jovens enfeitados com roupas de brechós, roupas que poderiam muito bem ter pertencido à um contemporâneo de Aurélio estão hoje ditando a moda para a juventude. Nas ruas apertadas, nos becos estreitos, dezenas de artistas de rua, apaixonados, modistas, skinheads, punks, sonhadores, loucos varridos passam sempre cheios de vida, mas Aurélio já está cansado. As pernas bambeiam, precisa ficar sentado alimentando os ratos voadores, que após alimentados com as migalhas de Aurélio e de outros velhos, subirão no ponto mais alto da catedral para cagar as ruas modelo da cidade fria.

Um outro velho aproxima-se de Aurélio e senta-se exatamente ao seu lado. É o ceifador, de costas curvadas, atento como uma coruja, vigoroso como uma locomotiva. Estão lado a lado na praça de curitiba, respectivamente a morte e o vivedor, e proseiam.

AURÉLIO:
Você nunca se atrasa não é?

CEIFADOR:
Não Aurélio. Nesse trabalho a pontualidade é a regra de ouro.

AURÉLIO:
Certo… certo. Mas não sou eu. Não é por mim que ce ta procurando.

CEIFADOR
…Ahh Aurélio, ainda bem que você não perdeu seu senso de humor. Como conseguiu? Como conseguiu chegar no ponto mais crítico da sua vida sem perder o dom de fazer piadas?

AURÉLIO:
Olha aqui meu amigo. Não sei quem você pensa que é, mas esse aqui não é nem de perto o momento mais crítico da minha vida.

CEIFADOR:
Então você pode me contar qual foi o momento mais crítico da sua vida?

AURÉLIO:
Você não entende nada de vida. Você só vem aqui pra ceifar e colher, mas olha… vou te dizer… a morte não é grande coisa perto do que pode acontecer numa vida só.

CEIFADOR:
Mas você sempre foi tão solitário. De onde vem esse apego pela vida?

AURÉLIO:
Noite passada eu passei acordado. A vida me derrotou. Tive amores… esperanças… alegrias, mas sempre apanhava e apanhava. Tudo me foi tirado com a mesma pressa que me foi dado. Só o que tenho desde o início é esta velha vontade… esta teimosia… desde o início. Confesso que já pensei em desistir. Mas se não fiz isso, foi por ser teimoso. Esta velha vontade é a única que não me abandona… Não é hoje meu dia. Não depois de ter me dado conta do quanto minha vida fez sentido, de ter entendido como foi bom ser vivedor.

CEIFADOR:
Aurélio. Não quero te tirar esperanças, mas é meu trabalho. Eu preciso cobrar isso de você, não importa aonde você vá ou no que você acredite.

O ceifador tira um cigarro de palha de dentro do bolso.

CEIFADOR:
Aceita um cigarro?

AURÉLIO (pegando o cigarro):
Hoje eu vou aceitar. Nunca dei uma tragada na vida e olha só quem veio me oferecer tabaco.

Aurélio não sabe fumar direito, não tem estilo e nem muito menos a capacidade de tragar corretamente.

CEIFADOR:
Faça assim…

O ceifador dá um trago na fumaça e cospe as rajadas de ar fumegante para fora, desenha curvas no ar. Aos poucos Aurélio vai pegando o jeito, o vento, até então invisível, se torna aparente quando tenta atravessar a fumaça cinzenta.

AURÉLIO:
Quando eu era mais novo, eu não acreditava em nada. Nem em Deus, nem na vida e nem na morte. Eu me achava imortal e a vida as vezes era pesada. Se você tivesse me aparecido naquela época eu riria da sua cara. Mas agora, com esse corpo velho e essa osteosporose já dá até pra adivinhar qual vai ser minha aparência quando meus ossos estiverem virando pó. Fico pensando como vou ficar ridículo morrendo nessa praça, as pessoas vão me carregar, a minha boca vai ficar aberta. Será que eu vou babar? tomara que não. Tomara que eu não me borre todo, que nem fez o Borges antes do ataque no coração. Eu não queria ir ainda, nem muito menos assim. me diz um negócio…

CEIFADOR:
Pergunte Aurélio.

AURÉLIO:
Você não pode abrir uma excessão pra mim? Me libera da dívida que tenho com você.

O ceifador lança um riso desalentador.

CEIFADOR:
Aurélio. A dívida que você tem não é comigo. Sou apenas o cobrador.

AURÉLIO:
Quem é seu patrão então? Fala com ele… seja Deus ou Diabo, acho que você pode dar um jeito.

O ceifador puxa um relógio de bolso antigo, preso por uma cordinha enferrujada. Os ponteiros correm religiosamente.

CEIFADOR:
Sua dívida não é com nenhum desses dois. Sua dívida é com este sujeito aqui. É este aqui quem dá as ordens.

Existem algumas coisas que Aurélio gostaria de ter dito, mas precisou se conformar. Quando o braço do ceifador tocou o ombro de Aurélio, o hálito gelado não foi capaz de concretizar em palavras os seus últimos pensamentos.

O grupo de pombos alçou vôo e Aurélio se viu por trás da revoada, as cores já não eram mais cinzentas. De costas para a praça Aurélio alçou um vôo ainda mais alto do que os pombos, e dalí partiu, nunca mais olhou para trás.

Idylliu

In Egotrip on Junho 25, 2008 at 8:30 pm

A sensação de que o tempo não existe

Caiu sobre brasília o sol do fim de tarde. O momento que os pintores, fotógrafos e cineastas chamam de hora mágica. Quando toda fotografia sai bonita. Um cobertor de sol alaranjado paira sobre tudo para tingir a vida, enche os olhos.

Os pássaros entrelaçam-se no céu em vôos curtos de um poste ao outro, de uma árvore à um alpendre, confundiram-se. Pairaram de asas ora abertas, ora fechadas. Os pássaros, acostumados pardais ou foragidos sabiás, sobrevoaram o casal de namorados, que de mãos dadas observavam a vida passando, o mavioso canto diário. Sentiu-se o tempo tão devagar. Mas o relógio nasceu para desmentir as ilusões, o tempo passa sim e passa depressa. “Você me dá a sensação de que não existe o tempo”, foi o que ele quis dizer a ela. Quem dera ele tivesse dito, mas a mecânica da curiosa modernidade impulsiona os ponteiros “Responsabilidade, pressa, ação”, diz o relógio a cada tic, a cada tac. Não há tempo para os namorados, viventes por natureza despreocupados.

O riso das crianças, o cheiro de terra molhada, a pipoca doce, nesta tarde comemorou-se o aniversário de uma cidade satélite. O palhaço incitou as crianças a cantar parabéns àquela cidade que ano-a-ano tomava novas formas. Asfaltos foram traçados, casas e edifícios foram erguidos. Vem ligeira esta modernidade de poeira suspensa e concreto recente, é triste porque rouba o tempo e o espaço do casal de namorados. A chegada desta dinâmica urbana é bem vinda por aqui, mas fica na memória a lembrança da época idílica, quando o tempo era só mais um detalhe.

Ele, o namorado, quis levá-la para passear, quis dançar ao som das engrenagens urbanas, do canto dos ventos voadores. E dançaram de mãos dadas no estranho ritmo de dos que andam sem destino. Quando ela parou de andar o sol laranja banhava o seu rosto e ele a beijou gratuitamente, quis dizer tantas coisinhas, significavam demais. Mas tinha o tempo, o dinheiro, a modernidade, ele não conseguiu dizer, havia um peso em seu peito, o peso de lembrar que entre os sonhos e a vida real há um abismo perigoso, em muitos casos fatal.

Independente dos perigos da vida urbana, capitalista e apressada ele sentiu-se bem por ela existir, pelo breve passeio. A hora passou, o celular tocou, ele se foi e a saudade ficou.

Para minhha querida neguinha companheira: Fulô.

O bom ladrão

In ficção on Junho 21, 2008 at 3:49 am

O verdadeiro canalha sabe encontrar boas desculpas para fazer o que faz

Quando Ricardo observou aquele senhorzinho bem vestido na frente da paróquia carregando uma maleta na mão, logo viu que se tratava de um alvo fácil. Ricardo permaneceu do outro lado da rua, sentado na parada de ônibus. O senhorzinho bem vestido andava de um lado para o outro, esperava por uma carona, talvez. Já era noite, a rua silenciosa, ao lado de Ricardo o vendedor de churrasquinho conversava amenidades com outros dois sujeitos. Dentro da paróquia alguns fiéis prestavam contas de suas dívidas de fé. Assaltar aquele senhorzinho em frente à paróquia seria azar na certa, precisava esperar o momento certo.

O senhorzinho inquieto largava a maleta no chão, consultava as horas. Olhava para os lados mas a rua estava vazia, nem um ônibus, nem um carro. A sensação de solidão e insegurança das ruas noturnas pode assustar alguns, mas para tipos como Ricardo, predadores urbanos, este tipo de ambiente é não apenas conveniente, mas agradável. A insegurança é uma parente relativa à liberdade.

“Esse almofadinha precisa sair daí”, pensou Ricardo. Enquanto isso o vendedor de churrasco conversava com a boca cheia sobre sua amante prostituta. Um cão simpático estava parado de olhos cravados no churrasco, estimulando a própria saliva, deixou a língua pendurada. A conversa do churrasqueiro não era das mais cultas:
“Eu vou dizer pra ela que assumo a penca de filhos que tiver. Vou tirar ela daquela vida. Quando eu ia no putero, ela me dizia que se eu fosse homem e sustentasse ela, pagasse comida e uma casa, seria mulher minha, ia ficar comigo só. Ia trepar sem camisinha. Mas na época que eu conhecí, eu era casado, aí eu falei que não dava, eu tinha mulher e uma filha. Agora minha filha tá crescida já”
“E a sua mulher?”, perguntou o outro sujeito curioso.
“A mulher já morreu de desgosto faz é tempo”, finalizou o vendedor de churrasco.
O cão simpático, quando inventava de uivar por um pouco de comida levava um “sai pra lá”, mas voltava logo em seguida. O estamago de Ricardo, assim como o do cãozinho já roncava bastante, mas nada de comer antes de terminar o “trampo”.

Enquanto isso o senhorzinho conversava ao telefone, parecia enfezado. Após a conversa pelo celular ele entrou na paróquia. Ricardo se apressou, levantou da cadeira da parada de ônibus e seguiu o homem. Antes de entrar, esfregou as mãos uma contra a outra, respirou fundo, estava tão frio que o vapor exalou pela boca. Um sorriso sádico se revelou, o prazer da caça.

Dentro da igreja Ricardo sentou algumas cadeiras após o senhorzinho da maleta. A paróquia estava quase vazia. O senhorzinho buscava uma posição para se prostar de joelhos. Ricardo puxou um espelho, fingiu pentear os cabelos ao observar se o senhorzinho já estava de olhos fechados para rezar. Por o que estaria rezando? O que havia dentro da maleta? O conteúdo, tanto da válise quanto do coração, permaneceriam no mistério.

Ricardo olhou para frente e a imagem de Jesus Cristo crucificado o observava. Os punhos pregados à cruz, sentiu culpa. “To dentro da igreja querendo roubar um cara, sou um canalha mesmo”, pensou. Olhou pelo espelho novamente, o senhorinho já havia fechado os olhos. A maleta sozinha ao seu lado. “Oh pai, tenha piedade, ele tá dando muita sopa”, pensou Ricardo. Mas a imagem de Jesus o deixou constrangido, resolveu fazer uma pequena oração.

“Jesus, pega leve comigo aí. To precisando de uma grana e tu já sabe bem disso! Tú tá ligado que eu to mais quebrado que espelho de feioso. Olha, eu prometo que vou voltar a comparecer às missas, tu sabe que eu sou religioso, que eu gosto desse lugar aqui, mas sabe coméquié né? Preciso viver o presente. Vamos dizer assim, que eu vivo pelo presente, e essa maletinha do engravatado que eu vou pegar e ele não vai perceber é uma oferenda que eu faço ao teu pai, o Deus. Ele é onipresente né? Então ele é do agora também! Vamos entender esse roubo não como um roubo, mas como uma missa pelo tempo presente! Pode ser assim? Tu aceita essas condições? Se não aceitar, me dá um sinal, vou esperar, pode ser qualquer coisa, uma pomba voando, um trovão, qualquer coisa. Se não tiver sinal, aí eu vou lá e celebro a missa pelo tempo presente! Combinado? Tá certo, depois não vai reclamar hein! Tu já perdoou um ladrão uma vez, você pode me perdoar também.”

Ricardo terminou a oração e aguardou por um sinal divino que o impedisse de cometer o furto. Marcou 30 segundos no relógio. “Não vou esperar demais também né? Vou dar uma colher de chá, se o cara sair em 30 segundos eu vou embora sem roubar”. Os trinta segundos foram os mais demorados que Ricardo já passou. Ficou encasquetado tentando descobrir o que tinha dentro daquela maleta, temia que o homem fosse embora, mas no fim dos 30 segundos Jesus não deu nenhum sinal divino. O senhorzinho ainda rezava de olhos fechads, nenhuma santa chorou sangue, nenhuma luz celestial pousou dos céus, e não choveu.

“É Jesus! Quem cala consente!”, pensou Ricardo. Se levantou calmamente, andou em passos astutos, o silêncio abençoado da igreja não ouviu nenhum de seus ossos estralar. Esticou o braço, retirou a maleta do lugar com toda a cautela e saiu pela porta da igreja. O senhorzinho permaneceu rezando, de olhos selados e fé azarada. “Talvez ele esteja pedindo um alívio na vida, eu to aliviando o peso dele carregando a maleta!”, pensou ricardo rindo por dentro.

Quando varou a porta da igreja o estômago já estava reclamando, um ronco agudo e dissonante alertou para a fome. Ricardo atravessou a pista numa calma esquiva, foi até o vendedor de churrasquinho e pediu dois churrascos no espeto. Passou farinha, girou no molho. Tirou a carne toda de um dos espetos e jogou no chão para alimentar o cão simpático.

Caminhou para longe, pelos becos de São Sebastião que só ele conhecia. Comia espeto de churrasco de carne de terceira, com uma mala na mão, um amigo cão e a consciência tranquila.

Estava celebrada a missa pelo tempo presente, o padre? Um ladrão.

John Cage Messe pour le temps Présent
http://www.youtube.com/watch?v=qlSX50pXVto

Aos socialmente bem adaptados

In Sem categoria on Junho 18, 2008 at 1:00 pm

Não é necessariamente sadio estar bem adaptado à uma realidade doente

O trabalho é o laboratório perfeito para a prática de crueldades. Os subordinados são cobaias pagas para agir, se comportar e ser conforme ditam as “normas” de cada empresa. Uma empresa tem sua personalidade, e o indivíduo precisa abdicar da sua própria para se conectar à filosofia empresarial. Para isso servem as gravatas atadas ao pescoço, não há metáfora mais clara para coleira ou forca. Os sapatos desconfortáveis, a calça penicante e a roupa social.

A indumentária do assalariado é um atentado ao espírito humano, livre de nascença. Porém, tanto entre os humanos como entre os cães, existem os facilmente domesticáveis e os que conservam sua agressividade. Fica vivo o seu instinto e sua alma, o que faz respectivamente dos cães, cães, e dos homens, homens.

Tanto nas empresas como nos canis, alguns se sobressaem aos olhos dos “superiores” quando demonstram profunda obediência e conformidade com a situação inalterada, o status quo. A ausência de personalidade e instinto cotuma agradar o opressor.

Os funcionários amestrados são reconhecidos no mundo empresarial, sua docilidade é recompensada com biscoitos, no caso dos cães, e com confiança e promoções, no caso do funcionário. Conquistam posições invejáveis no “MERCADO DE TRABALHO”, pois nunca se põem a frente de seus “absolutos superiores” que os conduzem a base do cabresto, ou da coleira da gravata.

O resultado desse esforço de obediência na vida de um ser-humano é a devoção quase espiritual ao seu ambiente de trabalho. Existe agora o fenômeno dos concursos, tido por muitos como a opção mais viável de uma vida repleta e abundante. O concurseiro é um ser-humano comprometido em estudar várias horas por dia, a colecionar apostilas de direito, português, informática, e a livrar-se de sua vida social em troca de um trabalho bem remunerado, mesmo que não vá necessariamente de encontro com suas potencialidades e perícias. O concurseiro sabe que não precisa se preocupar em gostar de seu trabalho, o dinheiro será a recompensa pelo sofrimento. Há uma vantagem entre os concurseiros, estão protegidos por leis que conferem segurança em sua posição, só são despedidos quando cometem um erro muito grande.

No caso do funcionário não concursado é ainda pior. O “superior” sente-se no direito de tratar o subordinado como lacaio. A competição acirrada leva os cães amestrados a competir pelo poder com grunhidos de puxa-saquismo, miados em alguns casos. O puxa-saco é submisso ao seu “superior”, e desconta sua frustração de não ser o dono do poder submetendo o subordinado a ele a situações degradantes. Parecem tão poderosos, mas quem os conhece sabe bem que foi de tanto uivar o chefinho que ganharam o cargo que tem. “Você com uma arma na mão é um bicho feroz! Sem ela anda rebolando e até muda de voz”, como diria o sambista pernambucano, embaixador dos morros cariocas, Bezerra da Silva.

Essa corja insegura de capatazes, puxa-sacos nativos do conglomerado empresarial, apresentam todas as características físicas de um homem escurraçado, medroso, mas tentam se impor com crueldade para demonstrar a falsa segurança. No latim a palavra idiota significa, um homem de alma curta, o funcionário bem adaptado é um homem que trocou sua alma pela cobiça, pela mesquinharia, está portanto, podre por dentro. Tem uma postura arrogante, aspereza e não tem nenhum senso de humor além do sarcasmo corrosivo. Aliás, sarcasmo corrosivo é uma redundância. Se o bom humor é esperança, o sarcasmo é a corrupção da esperança.

É possível visualizar um estereótipo do funcionário arrogante e frustrado, satisfeito com a orgia do abuso do poder ao abusar de seus subordinados: Carrega a cruz da auto-afirmação, um ar de autoridade artificial; Tem as sobrancelhas bem feitas, possivelmente utiliza uma pinça para este trabalho; Usa um paletó impecável, pendurado a maior parte do tempo em um cabide; os fiapos remanescentes em sua cabeça levam horas em frente a um espelho para serem rigorosamente penteados, segue a estratégia militar, faz com os cabelos no terreno da careca uma estratégia de guerra para encobrir áreas de defesa debilitada. Um verdadeiro estrategista capilar.

Se cabe aos amigos o papel de animar as horas ruins, aos inimigos cabe o papel do desafio, cabe a ele, o patrão estereotipado o papel de fomentar a fúria do funcionário de espírito livre. De removê-lo da apatia para ação subversiva, um passo em falso é sempre desculpa para uma ferroada do capataz.

Os poderosos não são tão firmes como uma rocha. Quanto maior o poder (e o valor que se dá à ele) tanto maior será o medo de perder. Aquele que não sabe administrar o poder seguirá como regra mais básica a máxima: Quantidade de poder é diretamente proporcional a solidão, ao vazio na alma. A ausência de uma espiritualidade individual se resume em uma busca vazia por poder, sexo e consumo.

Patrões, puxa-sacos, engravatados, descolados e toda essa corja de bem adaptados socialmente à uma realidade doente, os seres mais baixos da modernidade.

Do que a alma precisa?

In ficção on Junho 17, 2008 at 4:13 am

Ajoelhou-se como já não fazia há muitos anos

Me ajuda a fazer a coisa certa. Quando a gente tá com a cabeça triste, ou afundada em nervosismo, é difícil escolher a coisa certa. Me ajuda. Eu sei que passei um tempo sem acreditar em você, sem trocar uma palavra contigo, depois passei a olhar com raiva para você, e confesso que ainda não perdí a mania de praguejar. Mas nessa vida eu queria um pouco do direito, de ser um cara bom, de não fazer mais as merdas que eu fiz, de poder amar e ser amado, de dar o valor que minha família merece, de não trair a mim mesmo fazendo coisas que não são do meu feitio. Me dá o poder de ser eu mesmo com toda a força, de saber suportar os meus momentos de fraqueza. Me dá paz e sabedoria, porque depois do tempo que eu passei longe de você, às vezes fica tão difícil conseguir essas coisas todas, que a sensação que dá, é que a gente tem que reaprender tudo de novo.

Foram as coisas que ele disse, com os olhos fechados, cabeça virada para o teto, apoiado sobre os joelhos e os dedos das mãos entrelaçados, com os punhos unidos. Chorava por algo, a antecipação de um futuro sofrimento talvez, lembrou-se de “não vos preocupar com o dia de amanhã”, desistiu de chorar. Pensou em como deveria estar engraçado o seu rosto todo encolhido de tristeza, e sorriu. Sorriu porque já não queria mais chorar para a vida, não queria mais observar a vida com amargura, não queria desejar o mal para às pessoas que lhe fizeram mal. Queria sorrir, e queria de volta o sorriso da vida.

Tanta coisa estava de mudança, os móveis fora do lugar, os papéis fora da gaveta, a cabeça e o coração dobrados por uma garota que instalou uma flor em seu coração.

Dizem que quando nós estamos muito felizes, nós ficamos tristes só de saber que aquela felicidade pode um dia acabar. Por isso estava tão abatido, horas antes daquela conversa sincera. Tanta gente com problemas bem piores do que o seu, tanta gente com coragem para lutar, porque ele sadio não haveria de ter. A tristeza quando vêm e se instala pode ser uma doença grave, a falta de saúde da alma é corrosiva. Mas como alimentar a alma? Do que a alma precisa?

Sem sarcasmo nenhum, no dia seguinte ele tomou uma única e gostosa cerveja sozinho, degustou a cevada. Caminhou com a mente alerta pelas ruas lotadas observando toda a multidão de trabalhadores, o exército de funcionários diários da enorme cidade. A modernidade é bonita enquanto dura. Manteve-se numa direção, observando o entardecer. Não tinha dinheiro para o cinema, mas não se importou, observou o espetáculo gratuito e esperou que acabasse. A tristeza, como o sol, se queimou no horizonte.

A tensão entre afirmação e negação da arte

In Sem categoria on Junho 14, 2008 at 2:42 pm

Quais são os limites da arte? O que é arte?
São perguntas não respondidas, respostas que não temos, mas certos tipos de “arte” soam como charlatanismo. Não querendo desmerecer este tipo de arte, visto que um charlatão precisa ser um verdadeiro artista para conseguir sua credibilidade.

O curta “Sem Título“, dirigido por Caio Polesi em 2004, trata de um homem servido como exposição, preso à linha branca do limite exposição para ser observado, avaliado e questionado em seu valor artístico como existente ocupante de um espaço. O filme nos faz ponderar sobre como podemos ser ridículos ao avaliar uma obra de arte completamente subjetiva, coisa típica da época moderna em que vivemos, quando os valores de arte se tornam cada vez mais abstratos e indefinidos. Para avaliar a arte o espectador busca suas entranhas mais intelectuais para falar pura “água” sobre o que enxerga alí com os olhos da razão, mas será que o observador da arte se sente realmente tocado pelo que vê? Para se observar algo com os olhos da razão é preciso coerência, mas as obras são incoerentes. Além de sua incoerência, as obras muitas vezes não falam com o coração do espectador, portanto, que valor existe na arte contemporânea se ela não é capaz de tocar o coração e nem a mente do espectador? Não existe tal valor na maioria dos casos, ainda assim, a mente se ocupa de atribuir um valor para tudo que vê, por mais abstrato que seja o objeto.

Outra questão interessante é a forma como os artistas de exposição muitas vezes desumanizam sua arte, tornando-a fria e insípida. Lembro de um caso de uma apresentação de artes cênicas da Universidade de Brasília (UnB) na qual uma atriz expoente fazia um discurso pseudo-feminista (talvez na verdade femista), e enquanto discursava, várias galinhas estavam empoleiradas a espera da artista. A artista escolhia uma galinha e a carregava no colo, acariciava a sua cabeça e então torcia-lhe o pescoço até arrancar a sua cabeça, o público ficava estupefato, alguns saiam chocados, ainda assim no final da peça a atriz era aplaudida. Que artista era aquela? Qual seria o significado da sua obra? Qual a relação da galinha degolada com o seu discurso? Até onde vai a licença poética do artista em relação à moral?

O que o artista contemporâneo muitas vezes nos passa é a sensação de que ele próprio nunca pensou muito bem a respeito da sua obra, afinal, todo artista deveria saber da enorme responsabilidade que tem em suas mãos ao criar qualquer tipo de arte, pois a arte influencia, modula opiniões, e portanto deve ser coerente com seu propósito, mesmo que seu propósito seja a pura imagem do caos. Na verdade, supostamente devemos entender que a arte deva ter um propósito. Um valor que está sendo quebrado com a arte moderna da total desconstrução.

A arte encontra tal apoio no charlatanismo que chega ao ponto de a total negação da arte ser aplaudida como tal. Estranho mesmo não é o artista moderno, que cria suas obras sem pensar, afinal o artista moderno parece enfim com seu propósito de ser “O homem que não diz nada”. O que é verdadeiramente estranho é o comportamento do público moderno que aplaude qualquer coisa que lhe deixe em dúvida “Devo aplaudir ou não?”, na dúvida, faça o politicamente correto, ou ao menos vá com a maioria.

Assista o curta
http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?Cod=3332&exib=5937

MOSTRA BRASIL CANDANGO

In Sem-categoria on Junho 13, 2008 at 6:40 am

MOSTRA BRASIL CANDANGO – ANO III

Há exatamente três anos o Distrito Federal ganhava um Projeto Cultural que transformaria os finais de semana de suas Cidades e do Entorno: A Mostra de Cinema Brasil Candango, projeto assinado pelo Instituto Latinoamerica, com o apoio do Ministério da Cultura, e patrocínio da Petrobras

Um ônibus, um caminhão, um projetor, cadeiras, som e uma grande tela… receita simples, mas a mistura certa para fazer nascer mais alegria, mais inclusão social, mais sonhos, MAIS CIDADANIA. É o Cinema ao alcance de todos.

Em 2008, a Mostra volta a colocar o pé na estrada levando a sétima arte à comunidades carentes de alternativas culturais. Desta vez, rompendo os limites do DF e alcançando cidades de Goiás e Minas.

Serão 67 exibições em 22 localidades. Os locais serão escolhidos entre escolas, ginásios, praças e logradouros públicos. Espera-se atingir um público superior a 50 mil pessoas. Além disso, serão realizadas oficinas de vídeo, onde estudantes da rede pública produzirão filmes sobre a realidade local os quais serão exibidos na própria comunidade e ofertados para exibição na rede pública de Televisão.

A Mostra Brasil Candango – Ano III começou na Praça dos Estados na Candangolândia -DF, no dia 15 de Maio, sempre iniciando as 19 horas.

programação completa no site:

http://www.mostrabrasil.org.br/

Gesse, o pensador que recicla idéias

In jornalismo on Junho 12, 2008 at 5:07 pm

Gesse é um cidadão de mente inquieta, acorda às três da manhã para pensar nas invenções mecânicas que costuma criar

Em uma casa humilde de poucos aposentos, decoração rústica e muita parafernália mecânica em São Sebastião vive Gessé Bizerra, nascido na década de 1960 em Taguatinga. É um cidadão de mente inquieta, dado a invenções engenhosas. Costuma acordar às três horas da manhã para ficar pensando em soluções para os problemas que requerem suas habilidades. Gesse acredita que seu talento para mecânica é nato. “Uns gostam de pintura, outros gostam de escrever. A mecânica é natural para mim”, conta. As criações de Gesse, de forma geral, servem para reduzir a quantidade de esforço aplicado para realizar trabalhos. Desenvolveu, por exemplo, uma bomba de sucção de água de cisternas que é acionada pisando sobre uma manivela, sem eletricidade ou gasolina. Desenvolveu também um macaco hidráulico que funciona com um motor de limpador de pára-brisa.

Apesar de suas criações Gesse não se considera um inventor, diz possuir a visão apurada para encontrar novas utilidades para as coisas que já existem. “Sou um pensador, eu reciclo idéias”, conta.

O interesse por mecânica vem da infância. Desde pequenos, Gesse e seus irmãos observavam os caminhões pesados passando pela rodovia Fernão Dias (BR-381), em Belo Horizonte, onde morava com a família na época. “Era uma paixão que eu tinha por aquelas máquinas”, diz. Quando jovem, o pai de Gesse comprou um trator Ford 8BR Diesel, ele e os irmãos desmontaram e montaram o caminhão que até os amigos mecânicos da Petrobras tinham receio de mexer. Geraldo Bizerra, pai de Gesse, incentivava o desenvolvimento de sua inteligência, havia um laço forte entre eles, Gesse foi o sexto de oito filhos. “Eu me dava muito bem com meu pai porquê ele era meio pá virada que nem eu”, conta.

A primeira idéia criativa concretizada de Gesse ocorreu na Petrobras, onde trabalhava como ajudante de um caldeireiro na adolescência. O enxofre descia fervendo pelas caldeiras, caía em um espaço e se solidificava com a temperatura ambiente. Os funcionários precisavam utilizar marretas para quebrar o enxofre solidificado em blocos. A idéia de Gesse poupou o trabalho de quebrar o enxofre, economizou tempo e, conseqüentemente, dinheiro da empresa. Ele sugeriu que se instalasse uma placa de aço no formato de um grande prato redondo em um ângulo de 45º, com uma corrente de água jorrando sem interrupção. Quando o enxofre cai sobre a placa de metal ela gira com o peso. A água toca no enxofre e o solidifica em pequenos pedaços. Com o giro da placa o enxofre cai sólido e salpicado no chão. Os funcionários não precisaram mais rachar o enxofre com marretas para colocar os blocos pesados no caminhão, basta recolher o enxofre salpicado com uma pá. Gesse conta que não ganhou nenhum reconhecimento pela sua invenção, no entanto, a placa de aço para salpicar o enxofre foi instalada na maioria das caldeireiras.

Outra das invenções de Gesse é a bomba de sucção de água de cisternas, que tem uma história curiosa. Durante a campanha do Ministério da Saúde para combater o mosquito da dengue, Gesse encontrou um pneu de carrinho de mão cheio de água. Pisou no pneu e a água vôou longe, com toda força. “Você vê um pneu. Eu vejo um diafragma”, conta Gesse. Gesse percebeu que poderia utilizar aquela energia para extrair água de uma cisterna vedando o pneu e instalando um cano para a sucção e outro para a expulsão da água. A bomba que ele projetou funciona com pouco dispêndio de energia, basta acionar a alavanca com o pé. Não necessita de eletricidade ou de gasolina. Na época, Gesse pediu a um amigo que enviasse um e-mail para o programa do Ratinho, do canal SBT, para divulgar sua criação. Não houve resposta.

Gesse trabalha atualmente com um caminhão-pipa em São Sebastião. O caminhão é modificado e personalizado com algumas de suas invenções. O freio de mão tem uma válvula para regular a tensão; sob os bancos, há uma mola que torna a viagem mais confortável; há um filtro de ar para otimizar a potência do motor; a torre do filtro, instalada por Gesse, tem uma tampa para impedir a entrada da água da chuva, feita com uma panela de sua esposa. As rodas foram convertidas de seis para dez parafusos; um aparato que um dia foi um extintor é agora um curioso galão de gasolina para o motor da bomba elétrica.

O pensador que recicla idéias, como Gesse se define, é casado e pai de três filhos, Yasmin Nataly Santos, 9 anos; Arthur Caleb Maia, 8, e Ana Sofia Maia, 5. Ele não quer ver os filhos perdidos ou preocupados com futilidades quando forem adultos, incentiva os filhos ao estudo para almejar objetivos maiores. “Se quiserem, podem ir até pra lua que eu deixo. Só não fiquem de vadiagem por aí”, conta.

Gesse possui vários cursos ministrados pelo Setor de Calderaria da petrobrás nas áreas de tratamento térmico, tubulação industrial, solda e já trabalhou até em plataformas de petróleo em alto mar, mas o que chama atenção em sua personalidade é a ampla gama de interesses que possui. Gesse fala sobre os problemas do consumismo, sobre a miopia do empresário brasileiro, sobre suas experiências com o chá de hoasca quando se perdeu em Paraopeba e sobre uma teoria que está desenvolvendo de que o esgoto ainda vai salvar o mundo, fruto de seu interesse por permacultura.

“A maioria das pessoas tem problema de raciocínio. De pensar, de criar. Henry Ford por exemplo nunca fez faculdade, mas foi um cara revolucionário”, diz Gesse. O empresário estadunidense Henry Ford, pai da marca automobilística Ford, assim como Gesse nunca cursou uma faculdade e deve concordar com Gesse: “Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele”. Gesse não se considera um inventor. “Sou um pensador que recicla idéias”.

Tétano e a cordialidade

In ficção on Junho 8, 2008 at 2:18 pm

Texto originalmente escrito em São Paulo 29/09/2006. Ví um garoto humilhado pelo dono de um carro atingido pela bola de futebol do menino. O que se passou pela cabeça do garoto? Quem se tornou aquele garoto depois da humilhação? ( Tá certo que exagerei um pouco )

Uma forma eficiente de preservar a gentileza

A ameaça pressupõe violência. Meu apelido é Tétano, depois eu explico o porquê. Outro dia eu tava jogando bola perto do carro daquele magrelo careca. Com 16 anos eu não aguentaria nem um tapa na orelha daquele fi-di-puta e foi por isso que me deixou com medo quando chegou pra reclamar. Ainda bem que ele não me acertou tapa nenhum, mas bem que poderia ter acertado. Foi por causa de um chute que eu dei e a bola bateu no carro dele, é claro que não foi um chute pesado, nem tinha espaço pra acertar um chutão, mas a bola bateu no carro e fez barulho. Ele olhou pra porta do carro, olhou pra minha cara e ficou calado, só olhando. “Se acertar a bola no meu carro vai ter seu moleque! To avisando!”, ele disse. Fiquei calado.

Não foi um aviso cordial, foi um aviso grosseiro que me fez pensar que assim que ele fosse embora eu voltaria a jogar bola no carro dele, quase sem querer. Ele não é meu pai pra me mandar ficar calado, se meus amigos estivessem aqui eles iam virar pra mim e perguntar “Tétano, você vai deixar ele falar assim com você?”

Preparei uma bicuda e fiquei pronto pra chutar a bola com o dedão para amassar a lataria do retardado. Entrou um frio de medo na minha cabeça e comecei a imaginar um monte de coisas:

“O magrelo rabugento ia aparecer e me acertar uma murranca desgraçada. Eu cairia direto no chão, não dá pra desobedecer a lei da gravidade. Depois ele bicaria as minhas costelas, com a mesma força que eu biquei a bola de futebol. Meus rins ficariam esmigalhados dentro da minha barriga. Aí ele ia me levantar com uma mão só, primeiro ia me dar mais uns tapas na cara, só por diversão. A raiva dele viraria piada e ia me encher de socos, como se eu fosse uma almofada. Um dos golpes esmagaria a minha goela. No final eu estaria triturado. Ele me arremessaria no meio do lixo, cheio de cacos de vidro, eu cairia sem poder fazer nada, abraçado com a minha bola de futebol. Quando chegasse a ambulância eu já estaria delirando, naquele estado que vem antes da morte, quando a pessoa já não tem mais jeito, e fica tentando encontrar uma fagulha de vida através da frestinha que resta nos olhos. Ele teria fugido no carro, não tinha ninguém por perto pra testemunhar, e se alguém chegou a ver isso, ficou tão chocado com a tragédia que não teve nem cabeça pra lembrar do rosto do sujeito. O pessoal só pensaria “Tadinho do Tétano, tava querendo jogar bola em paz, o sujeito foi lá e deu uma pisa na cabeça dele”, ia ser muito triste na hora do meu enterro”.

É claro que isso era tudo a minha imaginação do que ele poderia fazer comigo depois de uma ameaça daquela. Nem meu pai me chama de moleque. Ainda bem que eu sou muito esperto e conseguí imaginar todas as possibilidades. Decidí parar o meu jogo de futebol perto do carro. Não queria acertar uma bola quase sem querer no carro dele, porque eu até gosto da minha vida, eu faço um monte de coisas: falto muita aula, jogo muita bola, jogo videogame e abro passarinhos com canivete pra ver o coraçãozinho bater. Depois eu fecho o peito do passarinho com uma linha de costura pra ele poder voltar a voar. É claro que eu esquento a agulha de costura no fogo, porque senão o passarinho pode pegar tétano. Aliás, foi assim que eu ganhei esse apelido.

Eu comecei a pensar como eu tava com raiva daquele Magrelo rabugento. Deu vontade de fazer com ele o que eu faço com o passarinho. Abriria o peito dele com um facão, aí depois de ver o coração dele eu fecharia e costuraria tudo com agulha, mas eu não colocaria a agulha no fogo, porque queria que ele pegasse tétano pra morrer. Minha raiva tava longe de acabar, e da raiva pro ódio o passo é curtinho, do tamanho de um passo de minhoca.

Ví que o sujeito não ia voltar, ele tinha saído há um tempão, o sol já tava descendo e a rua ficou vazia. Peguei uma pedra de brita e risquei uma frase no carro dele: “Você não é meu pai!”, aí eu assinei em letras bem pequenas “Ass: Tétano”. O engraçado é que se eu tivesse tanta concentração para os estudos quanto eu tenho para as maldades eu seria o melhor aluno na sala. Mas cada um é para o que nasce.

Depois desse dia eu mudei a minha cabeça. Já me sentia adulto. Esse dia mudou minha vida toda. Eu não precisei mais ter medo das pessoas agressivas, porque no instante seguinte eu seria capaz de pagar com vingança para me livrar da ojeriza de ser humilhado sem poder dar o troco.

É por isso que trato as pessoas bem, trato todo mundo como gostaria de ser tratado. Sei que num julgamento honesto, ninguém escapa ao chicote, mas trato as pessoas como se fossem nobres, entidades divinas e não suporto grosseria. Um fato assustador é que eu posso ser qualquer um e este qualquer um pode topar com você hoje ou amanhã na esquina de qualquer cidade, de qualquer lugar, em qualquer horário. Ele pode ter ferro de furar, de bater, ou de atirar, seja qual for o ferro que ele tiver, sua vida pode sair crivada, terrivelmente prejudicada.

Então se você só funciona na base do cabresto, fique atento ao constante exercício de cordialidade urbana porque o que não leva jeito para o respeito entra macio pela goela, mas desliza rasgando na garganta.

Sejam cordiais.