O tempo é onisciente
Curitiba, 12 de setembro de 2005.
Sentado no banco de uma das verdejantes praças curitibanas, Aurélio arremessa migalhas aos pombos que se amontoam. Aurélio carrega óculos redondos de armação metálica sobre sua face severa, cheia de rugas. Na cabeça branca um elegante chapéu preto disfarça sua calvicie, os sapatos impecáveis foram lustrados ontem por um desses garotos de rua que muitas vezes ameaçam o cliente em troca de trabalho.
Aurélio observa a movimentação curitibana, seus jovens enfeitados com roupas de brechós, roupas que poderiam muito bem ter pertencido à um contemporâneo de Aurélio estão hoje ditando a moda para a juventude. Nas ruas apertadas, nos becos estreitos, dezenas de artistas de rua, apaixonados, modistas, skinheads, punks, sonhadores, loucos varridos passam sempre cheios de vida, mas Aurélio já está cansado. As pernas bambeiam, precisa ficar sentado alimentando os ratos voadores, que após alimentados com as migalhas de Aurélio e de outros velhos, subirão no ponto mais alto da catedral para cagar as ruas modelo da cidade fria.
Um outro velho aproxima-se de Aurélio e senta-se exatamente ao seu lado. É o ceifador, de costas curvadas, atento como uma coruja, vigoroso como uma locomotiva. Estão lado a lado na praça de curitiba, respectivamente a morte e o vivedor, e proseiam.
AURÉLIO:
Você nunca se atrasa não é?
CEIFADOR:
Não Aurélio. Nesse trabalho a pontualidade é a regra de ouro.
AURÉLIO:
Certo… certo. Mas não sou eu. Não é por mim que ce ta procurando.
CEIFADOR
…Ahh Aurélio, ainda bem que você não perdeu seu senso de humor. Como conseguiu? Como conseguiu chegar no ponto mais crítico da sua vida sem perder o dom de fazer piadas?
AURÉLIO:
Olha aqui meu amigo. Não sei quem você pensa que é, mas esse aqui não é nem de perto o momento mais crítico da minha vida.
CEIFADOR:
Então você pode me contar qual foi o momento mais crítico da sua vida?
AURÉLIO:
Você não entende nada de vida. Você só vem aqui pra ceifar e colher, mas olha… vou te dizer… a morte não é grande coisa perto do que pode acontecer numa vida só.
CEIFADOR:
Mas você sempre foi tão solitário. De onde vem esse apego pela vida?
AURÉLIO:
Noite passada eu passei acordado. A vida me derrotou. Tive amores… esperanças… alegrias, mas sempre apanhava e apanhava. Tudo me foi tirado com a mesma pressa que me foi dado. Só o que tenho desde o início é esta velha vontade… esta teimosia… desde o início. Confesso que já pensei em desistir. Mas se não fiz isso, foi por ser teimoso. Esta velha vontade é a única que não me abandona… Não é hoje meu dia. Não depois de ter me dado conta do quanto minha vida fez sentido, de ter entendido como foi bom ser vivedor.
CEIFADOR:
Aurélio. Não quero te tirar esperanças, mas é meu trabalho. Eu preciso cobrar isso de você, não importa aonde você vá ou no que você acredite.
O ceifador tira um cigarro de palha de dentro do bolso.
CEIFADOR:
Aceita um cigarro?
AURÉLIO (pegando o cigarro):
Hoje eu vou aceitar. Nunca dei uma tragada na vida e olha só quem veio me oferecer tabaco.
Aurélio não sabe fumar direito, não tem estilo e nem muito menos a capacidade de tragar corretamente.
CEIFADOR:
Faça assim…
O ceifador dá um trago na fumaça e cospe as rajadas de ar fumegante para fora, desenha curvas no ar. Aos poucos Aurélio vai pegando o jeito, o vento, até então invisível, se torna aparente quando tenta atravessar a fumaça cinzenta.
AURÉLIO:
Quando eu era mais novo, eu não acreditava em nada. Nem em Deus, nem na vida e nem na morte. Eu me achava imortal e a vida as vezes era pesada. Se você tivesse me aparecido naquela época eu riria da sua cara. Mas agora, com esse corpo velho e essa osteosporose já dá até pra adivinhar qual vai ser minha aparência quando meus ossos estiverem virando pó. Fico pensando como vou ficar ridículo morrendo nessa praça, as pessoas vão me carregar, a minha boca vai ficar aberta. Será que eu vou babar? tomara que não. Tomara que eu não me borre todo, que nem fez o Borges antes do ataque no coração. Eu não queria ir ainda, nem muito menos assim. me diz um negócio…
CEIFADOR:
Pergunte Aurélio.
AURÉLIO:
Você não pode abrir uma excessão pra mim? Me libera da dívida que tenho com você.
O ceifador lança um riso desalentador.
CEIFADOR:
Aurélio. A dívida que você tem não é comigo. Sou apenas o cobrador.
AURÉLIO:
Quem é seu patrão então? Fala com ele… seja Deus ou Diabo, acho que você pode dar um jeito.
O ceifador puxa um relógio de bolso antigo, preso por uma cordinha enferrujada. Os ponteiros correm religiosamente.
CEIFADOR:
Sua dívida não é com nenhum desses dois. Sua dívida é com este sujeito aqui. É este aqui quem dá as ordens.
Existem algumas coisas que Aurélio gostaria de ter dito, mas precisou se conformar. Quando o braço do ceifador tocou o ombro de Aurélio, o hálito gelado não foi capaz de concretizar em palavras os seus últimos pensamentos.
O grupo de pombos alçou vôo e Aurélio se viu por trás da revoada, as cores já não eram mais cinzentas. De costas para a praça Aurélio alçou um vôo ainda mais alto do que os pombos, e dalí partiu, nunca mais olhou para trás.






