Gustavo

Nem todos os goianos são radioativos

In ficção on Maio 21, 2008 at 1:17 am

Atenção: Este texto pode conter sentenças preconceituosas. Texto originalmente escrito em 22/09/2007

O acidente isolado com o Césio 137, e os constantes acidentes de trânsito são fatores de preconceito para com os goianos.

Não demorou mais do que três horas para percorrer o trajeto Brasília – Goiania dentro de um ônibus semi congelado. Com umidade relativa do ar em 5%, Gufo calculou que a rachadura de seus lábios e a dor em suas narinas foram causadas pelo ar condicionado constante.

O ônibus chegou às onze horas na noite em Goiania. Gufo pagou um motoboy para levá-lo à casa de uma parente, lá ele dormiria como uma pedra. O motoqueiro do moto táxi acelerou sem dó. O capacete que Gufo foi obrigado a colocar parecia estar subindo de seu rosto. Gufo preocupado em se prender na garupa da moto ficou com medo de que ao puxar o capacete de volta para o rosto. Vendo a cidade passar através do capacete eu pensei que se eu caísse da moto, que andava em alta velocidade, meus braços quebrariam, minhas pernas se estilhaçariam, mas ao menos minha cabeça continuaria intacta, quem sabe né? Coisas da vida.
__O capacete tá caindo! – gritou
__Coloca a viseira! – respondeu o motoboy com outro grito, enquanto acelerava.

A moto enfiou o bico na traseira de um ônibus. Gufo esperou que fosse feita a perigosa ultrapassagem e arriscou tirar uma das mãos da garupa para tampar a viseira. Se lembrou dos boatos que rodam em Brasília sobre o fato de que os Goianos são péssimos motoristas. Em Brasília quando alguém faz uma cagada no trânsito, os Brasilienses chamam essa cagada de Goianada, é um dos preconceitos existentes sobre a cidade de goiania, um bairrismo evidente. Conseguiu criar coragem de tampar a viseira, o capacete parou de quase cair.

Chegou na casa da tia às onze e meia. Conversou com sua tia até as duas da madrugada. Gostava da tia, só não suportava o sotaque. Os goianos também tem a fama de serem ingênuos, até abobados as vezes, mas a tia já havia viajado bastante, morou em outras cidades, não compartilhava do provincianismo do Goiás.

No outro dia Gufo visitou a Faculdade Federal para participar da palestra sobre “Dinâmica Econônica”. Gufo não sabia exatamente do que se tratava isso, mas o chefe do gabinete lá em brasília disse que seria bom que ele participasse. Folga do trabalho com aprovação do chefe, ótimo. “Tomara que não seja uma palestra muito chata” – pensou Gufo enquanto esperava sua hora. O calor rachava sua cabeça.

No dia seguinte a palestra estava entediante, mas Gufo precisou esperar até o fim para assinar uma maldita lista de presença, depois disso ele desceu para almoçar. Teve que andar por algumas quadras passeando pelas agradáveis e silenciosas ruas Goianas. A Goiania dos fins de semana parece ser uma cidade pós apocaliptica. As ruas estão vazias, todos goianos combinam de ficar em casa, “fazendo o que, não sei!” pensou Gufo “Bando de bicho do mato” conclui. Goiania foi palco de um acidente com material radioativo há muitos anos atrás, quase foi mesmo palco de um apocalipse.

Gufo continuou andando, sozinho na rua, quis conhecer a cidade pacata, deserta. Gosta de ver as folhas das árvores balançando com o vento, em Brasília não há tanto vento, “não sei porque”, pensou Gufo, “vento é um negócio tão bonito, porque a gente não vê, mas ele afeta as coisas mesmo assim”.

E então, virando a rua duas almas goianas apareceram. Uma passeata de Goianos protestava com cartazes. A imprensa tirando fotos, câmeras de TV, crianças em volta e cartazes. Muitos cartazes! Exigiam direitos iguais. Queriam o fim do preconceito. Gufo lembrou de ter visto, na hora do almoço, uma notícia sobre a passeata contra o preconceito, pró respeito aos goianos.

Na época do acidente radioativo com césio-137 no Instituto Goiano de radioterapia (13 de setembro de 1987) um grupo de artistas goianos saiu da cidade e foi de viagem para vender seus artesanatos em uma feira do Rio de Janeiro. A intrépida polícia carioca tentou impedir a entrada dos Goianos na cidade. Levaram os coitados para a delegacia sob suspeita de emissão de radiação. Dizem por aí que a pessoa contaminada com radiação infectará as próximas três gerações de sua prole.

Os policiais cariocas impediram a entrada dos artistas Goianos, mas depois de ir para a DP os artistas conseguiram uma autorização da justiça para vender legalmente na feira do Rio de Janeiro. Os guardas cariocas que são tão malandros como qualquer malandro, deixaram que os Goianos fossem a feira, mas mandaram que instalassem sua barraca de fora, mas os guardas não esperavam pelo que aconteceu, a barraca dos goianos, por estar do lado de fora, na porta de entrada, foi a mais visitada da feira. Venderam uma série de estatuetas de artesanato que hoje enfeitam estantes de casas do rio de janeiro.

Não se sabe se houve ionização de gases, fluorescências ou partículas atravessando corpos solidos nas casas dos compradores das obras artísticas. Até o cantor Fagner Montes se pronunciou contra o preconceito que os Goianos sofreram na época. As pessoas não aceitavam goianos em hotéis, eles não podiam viajar. Ficaram isolados, em quarentena. De uma coisa eu sei, o fato dirigirem mal não foi culpa da radiação, os goianos já faziam goianadas no trânsito antes de qualquer desastre radioativo!

Apesar de tudo, e brincadeiras a parte, a experiência em goiania foi boa para quebrar estereótipos. Agora eu sei que nem todos são radioativos, a maioria dos goianos são pessoas de bem, comprometidos com a civilidade e isso é um bom sinal para o mundo. Apesar das barbeiragens, do calor infernal e do sotaque, os goianos são gente boa, tem mulheres bonitas e ruas agradáveis.

  1. Aquele acidente foi altamente traumático! Eu me lembro bem, sempre tive pavor de radiação, e as pessoas iam ficando deformadas! Parecia um filme de terror.

    E a musiquinha “eu amo Goiânia, Goiânia me ama”?

  2. Adoro andar de moto, mas morro de medo. Toda vez que ando com um amigo meu ele sempre aperto tanto a barriga dele que deve doer. ueahuae.

    :*