Gustavo

Posts de Maio, 2008

O trivial redime

In Sem-categoria on Maio 28, 2008 at 1:26 pm

A morte de uma mãe, uma família sem rumo

Os três filhos de Neguinho ainda não compreendiam a realidade fatal, o acidente violento do dia anterior levou embora a vida de sua mãe. Viviam perto de Sobradinho em uma casa simples e aconchegante, quadros com fotos penduradas na parede, os cômodos tinham poucos móveis e as panelas eram velhas, mas a vida, apesar de corrida era boa. Apenas um dos filhos frequenta a escola, os outros dois são muito novos. Neguinho, o viúvo, estava calado e sério no funeral ocorrido dentro de casa.

O acidente terrível que matou esmagada a mãe de família, teve consequências políticas, foi o estopim de uma crise maior. A bomba explodiu, 940 veículos de transporte pirata foram apreendidos no Distrito Federal, hoje, em Brasília, cobrar por passagem aos passageiros de qualquer veículo não autorizado para o transporte coletivo é crime. O transporte na cidade era crítico pela quantidade de acidentes, a maior parte deles causados pela truculência dos motoristas de transporte pirata, hoje o transporte é crítico pela falta de transporte público “legal” suficiente para atender a quantidade de gente. O transporte pirata surgiu por pura necessidade, é uma consequência da má administração brasiliense no que se refere ao transporte público.

Durante o velório a tampa do caixão ficou lacrada, Neguinho observou a madeira sem vidrinho, o rosto da esposa havia sido destruído no acidente, só restaram algumas fotos velhas de lembrança. A maior parte da família está no Piauí mas eles fizeram muitos amigos por aqui, havia choro e soluços. Alguém chamou Neguinho lá fora e o consolou “Agora você precisa ter força Neguinho. Fé em Deus e toca a vida pra frente!”. Neguinho confirmou que teria fé e demonstrou até um pouco de ânimo. Foi abraçado com força pelos amigos da água que chegaram num carro grande e barulhento. “Amigos da água” porque Neguinho e seus amigos eram proprietários de caminhões Pipa, faziam entregas para curar a seca de Brasília. Ao menos era a sensação dele “os caminhões pipa servem para curar a seca”. É claro que essa sensação não está tão correta. Os caminhões Pipa tiram água de um lençol freático e abastecem a piscina de algum boa vida, ou o jardim de uma madame, geralmente na margem rica da cidade. Algumas vezes os moradores de alguma região humilde fazem uma vaquinha e chamam um caminhão pipa de 10 mil litros para encher uma série de caixas d´água, “esse é o mais trabalhoso de todos”, pensava Neguinho, “dá um trabalho do cão subir no teto, passar de uma casa pra outra e colocar a mangueira pra encher as caixas d´agua. E gasta mais diesel, porque precisa ligar a bomba para á água ter força pra subir”.

Abraçado com os amigos, fizeram uma oração cristã todos juntos. Neguinho e sua esposa frequentavam a Igreja Universal do Reino de Deus nos domingos de noite. Os filhos iam junto. “Era sempre uma lavagem na alma”, acreditavam todos da família. Na igreja um funcionário “de Deus” punha as mãos sobre a cabeça dos fiéis mais sucetíveis a dominação psicológica e começava a balançar a sua cabeça descontroladamente, enquanto isso um pastor Charlatão gritava e lamuriáva-se do alto do palco, fazendo preces, amaldiçoando o pobre diabo que sempre leva a culpa dos nossos delitos. Aquela zona “celestial” causa uma confusão na cabeça de alguns fieis, eles entram em transe e o coletivo se impressiona com a experiência miraculosa. Era assim todos os domingos, e às vezes às quartas e nas sextas.

“O acidente foi tão feio”, alguém comentou durante o velório. Tiveram cuidado para que nenhum dos filhos ouvisse, “a lotação corria a toda velocidade e quando fez uma curva virou para o lado esquerdo e foi caindo de ladinho. Ela (a esposa de neguinho) se desesperou e tentou pular pela janela, metado do corpo ficou para fora, ela ficou prensada entre a van e o asfalto. A coitada morreu na hora”. Formou-se uma pequena multidão de curiosos em torno dos detalhes do acidente, algum curioso perguntou “será que ela sofreu muito?”, as pessoas queriam saber, “Não. Ela morreu na hora”, disse o mais sabido. Havia uma macha de sangue evidente no aslfato negro. Quando Neguinho se aproximou eles mudaram de assunto em um gesto de respeito. Alguém que estava quieto começou a chorar de verdade.

As crianças ainda não entendiam nada daquilo muito bem. O filho mais novo quis jogar bola mas o vizinho da casa ao lado não permitiu, é da nossa cultura não permitir nenhum sinal de felicidade enquanto se dá o rito da morte.

Neguinho acordou no dia seguinte e não encontrou a esposa. Na cozinha a louça estava suja. Os cachorros não estavam alimentados. As crianças dormiam. As janelas fechadas.

Neguinho vendeu o caminhão para um colega de profissão, a casa e as poucas coisas que tinha além disso e partiu para o Piauí, não se teve mais notícias dele por aqui. Na cidade cada peça tem sua função, o caminhão Pipa, do colega de Neguinho, se encarregou do trabalho de lavar a mancha do asfalto, despiu a rua de seu traje vermelho.

A igreja universal perdeu alguns membros, os ricos e classe-média perderam um serviçal, o trânsito perdeu uma passageira e a família perdeu uma mãe e uma esposa.

Amém.

Filas e crise para a população brasiliense

In jornalismo on Maio 26, 2008 at 4:59 am

Vários anos de fila para quem espera conseguir um abatimento no preço do lote

22 de Maio de 2008. Uma enorme fila gerou tensão no Setor Comercial Sul na última quinta-feira em frente à Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (SEDUMA). O novo programa habitacional do Governo do Distrito Federal pretende beneficiar 152 mil pessoas com a chance de uma moradia. Ao contrário do que pensam muitos dos que estão na fila, não haverá doação de lotes. “O programa não dá lotes, dá a chance de construir sua casa com abatimento nos preços do lote”, afirma Ronaldo Francesco, assessor da diretoria de cooperativismo da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (CODHAB). Os candidatos serão deverão apresentar os documentos requeridos pela CODHAB, até o momento não há possibilidades de parcelamentos no valor mas a Codhab está trabalhando para facilitar a compra dos lotes. Os convocados não poderão receber mais do que 12 salários mínimos, nem ser proprietários de imóveis no DF.

A população que espera conseguir o abatimento no valor dos lotes através do programa habitacional do DF deverá suportar mais dois anos nas filas: são 76 mil famílias beneficiadas pelo programa e o governo pretende atender a todos até 2010. O programa é baseado na lei Nº3.877/06 que dispõe sobre a política habitacional do Distrito Federal. O objetivo do programa é reduzir o déficit habitacional do DF.

A falta de informação e o contingente insuficiente no atendimento geram filas enormes em frente ao edifício. Na segunda portaria da SEDUMA, até pessoas em busca de outras informações são barradas pelos interessados na questão da política habitacional. Foi o caso de Maria Clara*, ela tentou passar consultar qual seria seu saldo devedor, mas não a deixaram passar. Acreditavam que ela estivesse mentindo para furar a fila. Maria Clara foi embora sem atendimento.

A população, irritada pela espera, não permite sequer a entrada dos jornalistas. A equipe do Na Prática tentou conseguir informações da coordenadora do setor que está responsável por atender os beneficiados pelo programa de habitação. O jornalista foi impedido pelas vaias da população, “peça a credencial dele”, disse um homem. Estudantes de jornalismo não tem credencial.

Houve tensão entre as pessoas, a calçada foi ocupada, os transeuntes buscavam passagens alternativas e até os mendigos foram forçados a encontrar lugares mais calmos para dormir.

Segundo Ronaldo Francesco, é preciso preencher uma série de requisitos para conseguir um lote através desse programa habitacional; o principal é morar em Brasília há mais de 30 anos, segundo o edital de convocação no site da CODHAB. Existem critérios aplicados que podem reduzir ou aumentar a pontuação, decidindo a quantidade de tempo que levará para que o cidadão seja atendido. Uma pessoa com muitos filhos, maior tempo de inscrição, pobre e com mais tempo de moradia em Brasília acumula mais pontos e será atendido com mais agilidade. Novas inscrições serão aceitas apenas após o atendimento de toda a lista de 152 mil pessoas.

Maria Élcia mora em Samambaia e faz parte de uma cooperativa de trabalhadores. “Estou em Brasília desde 1969 e nunca tive nada!”, explica. Ela pagou R$500 para entrar na cooperativa da qual não cita o nome e ainda paga R$20 todo mês. Maria Élcia diz ter assistido no programa Balanço Geral da TV Record que o governador José Roberto Arruda doaria os terrenos para a população carente e agora está preocupada com a nova informação de que não haverá doações, apenas abatimento nos preços. “Posso conseguir encaixar no Riacho Fundo, mas o lote custa R$80 mil, se não tiver o dinheiro a vista não ganho o lote”. Ronaldo Francesco, assessor da diretoria da CODHAB explica que a decisão não vem dele, mas de seus superiores, “eu próprio, trabalho aqui, sou filho de Brasília, tenho mais de 30 anos na cidade e não vou receber nada”, afirma.

Nas paredes do SEDUMA há uma lista com os contemplados pelo programa de habitação. A população contemplada aguardará nas filas até 2010 por um atendimento. Para Ronaldo Francesco, a desobediência civil pode ser uma tática mais profícua, “o cara que invade é tratado a pão de ló pelo estado. Quem fica pacificamente na fila, espera por vários anos”.
*nome fictício

A queda

In jornalismo on Maio 23, 2008 at 5:13 pm

O registro fotográfico da queda de uma mulher e sua afilhada renderam notoriedade ao fotógrafo Stanley Jordan

Em 1975 o fotógrafo Stanley Forman estava próximo há um apartamento que pegava fogo em Boston, ele fotografou o momento exato em que a escadaria de incêndio se soltou. Diana Bryant, de 19 anos, e sua afilhada de dois anos, Tiare Jones caíram com a escada. A afilhada Tiare sobreviveu ao acidente.

A foto repercurtiu na imprensa e gerou muita discussão, o fotógrafo foi criticado por invadir a privacidade das pessoas, mas a foto rendeu frutos, as autoridades de Boston reescreveram leis relacionadas à segurança das saídas de emergência.

A seguir o depoimento do fotógrafo Stanley Forman

“Foi no dia 22 de julho de 1975. Estava quase na hora de eu deixar o escritório do Boston Herald depois do expediente.

Recebemos uma ligação sobre um incêndio em uma das áreas mais antigas da cidade com prédios de estilo Vitoriano. Eu fui até o local e corri até a parte de trás do prédio, porque os bombeiros estavam gritando que precisavam de um caminhão com escada para resgatar as pessoas que estavam presas na escada de incêndio do edifício.

Quando olhei para cima, havia uma mulher e uma criança na escada de emergência, e elas estavam se debruçando para tentar escapar do calor do fogo que estava atrás delas.

Enquanto isso, um bombeiro chamado Bob O’Neil escalou a parte da frente do prédio até o telhado e viu as duas na escada de incêndio. Ele se abaixou na direção da escada para resgatá-las.

Eu fiquei em uma posição em que eu pudesse fotografar o que eu achava ser uma operação rotineira de resgate. Uma escada de um caminhão foi acionada para retirá-las do prédio. Elas estavam a uma altura de 15 metros. O’Neil disse a Diana que ele subiria na escada do caminhão e pediu que ela entregasse a criança a ele.

O’Neil estava quase chegando à escada do caminhão quando a escada de incêndio cedeu.

Eu estava fotografando quando elas caíram. Depois, eu virei de costas. Eu entendi o que estava acontecendo e não queria vê-las no chão. Eu ainda me lembro do momento em que virei o corpo. Eu tremia.

Depois fiquei sabendo que não teria visto as duas atingirem o chão porque elas caíram atrás de uma cerca onde se encontravam os lixos. Quando finalmente me virei, eu não as vi, mas vi o bombeiro pendurado à escada do caminhão com uma mão, como um macaco, se segurando com muita força. Ele conseguiu voltar depois, com segurança, para o topo do prédio.

Segundo os bombeiros, a mulher amorteceu a queda da criança. Diana morreu na noite daquele mesmo dia.

Naquele momento, eu não sabia que a imagem teria um impacto tão grande. Quando eu comecei a olhar os negativos, eu voltei as minhas atenções para as cenas do resgate, quando as duas ainda estavam agarradas uma à outra. Eu nem olhei para essa fotografia, porque eu não sabia exatamente o que eu tinha conseguido registrar. Eu sabia que havia fotografado as duas durante a queda, mas eu só percebi a grandeza da tragédia depois que eu revelei o filme.

A imagem foi publicada primeiro pelo Boston Herald e depois em jornais de todo o mundo. Houve muito debate sobre a publicação de uma cena tão horrível.

Nunca fiquei incomodado pela controvérsia. Quando penso sobre a publicação da fotografia, não acredito que foi assim horrível. A mulher, no momento da imagem, não estava morta; nós não mostramos uma pessoa morta na primeira página do jornal. Ela morreu, sim, o que é uma coisa horrível. Mas não achei que a escolha de publicar a foto foi ruim, mas eu sou o fotógrafo, eu tenho uma certa inclinação nesse caso.

Sempre que existem histórias sobre incêndio ou tragédias como a que aconteceu devido ao furacão em Nova Orleans, elas fazem as pessoas ficarem mais atentas.

Minha fotografia fez com que as pessoas saíssem de casa e checassem as escadas de incêndio, além de reivindicar mudanças na lei. Ela também foi usada em panfletos sobre segurança em caso de fogo por muitos anos.

Trinta anos depois, é bom saber que eu fiz a coisa certa. Eu nunca vi uma imagem como aquela desde então. Eu já vi fotos que gostaria de ter feito, mas nunca vi nada tão dramático como aquilo.

Quando se diz que uma fotografia vale por mil palavras, essa certamente vale por 10 mil.”

(fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/)

A professora de Piano

In cinema on Maio 23, 2008 at 2:56 pm

Direção: Michael Haneke
Elenco: Isabelle Huppert, Annie Girardot


Filmes e música são parentes próximos e boa música não se mede pela forma como se tocam nas teclas de um piano, mas sim pela forma como se trata o silêncio entre as notas, e o silêncio neste filme é congelante.

A Professora de Piano dedilha assuntos delicados de forma seca. Se assistirmos esta obra do alto do pedestal de nossa moralidade é certo que sairemos ofendidos, com a consciência abalada, porém, como obra cinematográfica, o filme é ousado e provocador.

O espectador adentra sem pressa na privacidade da professora de piano, uma mulher ríspida e triste. Adentra em sua vida, descobrindo que ela é também uma mulher reprimida sexualmente, e consequentemente pervertida. Descobrímos aos poucos as causas dessa repressão. Na faixa dos 30 para 40 anos a protagonista ainda vive com sua mãe, uma mulher possessiva. Ela se envolve em um caso sexual com um de seus alunos e acaba estranhamente apaixonada, mas aqui não existem inocentes, somente culpados.

O enfadonho dia da professora de piano se mostra diferente do que esperávamos quando o contraste se torna evidente. O arquetipo da figura recatada de uma professora de piano soa como uma personagem dos anos vinte, mas o contexto da história sugere uma grande quebra do arquétipo da civilidade pudorada quando a professora visita uma locadora de videos pornográficos procurando por prazer, ela enfrenta a humilhação de esperar por uma vaga numa cabine de videos eróticos.

Aos poucos a professora revela mais e mais hábitos íntimos sempre perversos e doentios, mas é mantido em momento uma distância da vulgaridade.

A história fala sobre perversão, mas não somente sobre isso, talvez sobre a incapacidade, ou a incompatibilidade das diversas formas de amor se é que ainda existe algum amor quando o sexo invade os hábitos pessoais de uma pessoa até lhe tornar uma caricatura disforme de sí mesmo, sempre disfarçada sobre uma fachada impecável de mulher recatada.

O filme é uma corajosa empreitada, tem a força de uma estocada no peito e se mantém poderoso da sequência de abertura até os créditos finais. É uma ópera trágica na qual a música é especial e atinge acordes profundos, mas é o silêncio quem nos diz tudo.

A Capital dos Mortos

In cinema, jornalismo on Maio 22, 2008 at 2:47 pm

O longa metragem, A Capital dos Mortos ressucitou os mortos vivos de Brasília

Foram 27 meses de produção do filme longa-metragem independente sobre uma invasão de Zumbis em Brasília, realizado na raça e na coragem na base do cinema digital, sem quase nenhum dinheiro. Os responsáveis pela loucura: Tiago Belotti, Rodrigo Luiz Martins e uma série de cúmplices, que trabalharam na produção, no elenco e figurando como zumbis.

A estréia oficial do filme ocorreu no dia 2 de Maio no Cine Brasília e lotou o cinema, teve gente que ficou sentada nas escadas, o estacionamento estava lotado, muitos alí participaram do filme e queriam ver o resultado na tela. E o filme foi bom, o público riu, se assustou e vibrou com o filme que acontece em ação ininterrupta.

A Capital tem o primeiro mérito que é a coragem de sua equipe de produzir sem dinheiro, isso mostra que idependente da existência de paternalismos estatais, existe gente que segura o cinema na raça, mostra também como os cineastas de Brasília são capazes de sair do marasmo, criando momentos de fervura cultural na cidade das longas distâncias, e por último, demonstra a espontaneidade da criação brasiliense, assim como a criação audiovisual recifense.

O segundo mérito do filme é a sua despretensão e a capacidade de fazer graça dentro de um clima de filme que não é necessariamente cômico, o filme é uma boa diversão, melhor do que muita coisa que existe na TV. Como produto de entretenimento A Capital dos Mortos realiza seus objetivos, tem a capacidade de não permitir a dispersão de um público adaptado a era da velocidade, diverte sem vulgaridade e se aguenta no ritmo constante do início ao fim.

O terceiro mérito do filme é o carisma que ele ganhou na Capital, a comunidade do orkut possui cerca de 1500 membros que discutiram durante e após a produção sobre as cenas gravadas, sobre as possibilidades de continuações e supõem o que fariam se realmente houvesse uma invasão de zumbis. Os cúmplices do filme participaram da produção fielmente, enchendo o rosto de maquiagem, contribuíram para a realização e deram a força que uma equipe sem dinheiro, à mercê do acaso, precisa para realizar uma produção tão gigantesca.

Brasiliense ou não, assistir à A Capital dos Mortos é preciso.

Visite o site www.acapitaldosmortos.blogspot.com

Nem todos os goianos são radioativos

In ficção on Maio 21, 2008 at 1:17 am

Atenção: Este texto pode conter sentenças preconceituosas. Texto originalmente escrito em 22/09/2007

O acidente isolado com o Césio 137, e os constantes acidentes de trânsito são fatores de preconceito para com os goianos.

Não demorou mais do que três horas para percorrer o trajeto Brasília – Goiania dentro de um ônibus semi congelado. Com umidade relativa do ar em 5%, Gufo calculou que a rachadura de seus lábios e a dor em suas narinas foram causadas pelo ar condicionado constante.

O ônibus chegou às onze horas na noite em Goiania. Gufo pagou um motoboy para levá-lo à casa de uma parente, lá ele dormiria como uma pedra. O motoqueiro do moto táxi acelerou sem dó. O capacete que Gufo foi obrigado a colocar parecia estar subindo de seu rosto. Gufo preocupado em se prender na garupa da moto ficou com medo de que ao puxar o capacete de volta para o rosto. Vendo a cidade passar através do capacete eu pensei que se eu caísse da moto, que andava em alta velocidade, meus braços quebrariam, minhas pernas se estilhaçariam, mas ao menos minha cabeça continuaria intacta, quem sabe né? Coisas da vida.
__O capacete tá caindo! – gritou
__Coloca a viseira! – respondeu o motoboy com outro grito, enquanto acelerava.

A moto enfiou o bico na traseira de um ônibus. Gufo esperou que fosse feita a perigosa ultrapassagem e arriscou tirar uma das mãos da garupa para tampar a viseira. Se lembrou dos boatos que rodam em Brasília sobre o fato de que os Goianos são péssimos motoristas. Em Brasília quando alguém faz uma cagada no trânsito, os Brasilienses chamam essa cagada de Goianada, é um dos preconceitos existentes sobre a cidade de goiania, um bairrismo evidente. Conseguiu criar coragem de tampar a viseira, o capacete parou de quase cair.

Chegou na casa da tia às onze e meia. Conversou com sua tia até as duas da madrugada. Gostava da tia, só não suportava o sotaque. Os goianos também tem a fama de serem ingênuos, até abobados as vezes, mas a tia já havia viajado bastante, morou em outras cidades, não compartilhava do provincianismo do Goiás.

No outro dia Gufo visitou a Faculdade Federal para participar da palestra sobre “Dinâmica Econônica”. Gufo não sabia exatamente do que se tratava isso, mas o chefe do gabinete lá em brasília disse que seria bom que ele participasse. Folga do trabalho com aprovação do chefe, ótimo. “Tomara que não seja uma palestra muito chata” – pensou Gufo enquanto esperava sua hora. O calor rachava sua cabeça.

No dia seguinte a palestra estava entediante, mas Gufo precisou esperar até o fim para assinar uma maldita lista de presença, depois disso ele desceu para almoçar. Teve que andar por algumas quadras passeando pelas agradáveis e silenciosas ruas Goianas. A Goiania dos fins de semana parece ser uma cidade pós apocaliptica. As ruas estão vazias, todos goianos combinam de ficar em casa, “fazendo o que, não sei!” pensou Gufo “Bando de bicho do mato” conclui. Goiania foi palco de um acidente com material radioativo há muitos anos atrás, quase foi mesmo palco de um apocalipse.

Gufo continuou andando, sozinho na rua, quis conhecer a cidade pacata, deserta. Gosta de ver as folhas das árvores balançando com o vento, em Brasília não há tanto vento, “não sei porque”, pensou Gufo, “vento é um negócio tão bonito, porque a gente não vê, mas ele afeta as coisas mesmo assim”.

E então, virando a rua duas almas goianas apareceram. Uma passeata de Goianos protestava com cartazes. A imprensa tirando fotos, câmeras de TV, crianças em volta e cartazes. Muitos cartazes! Exigiam direitos iguais. Queriam o fim do preconceito. Gufo lembrou de ter visto, na hora do almoço, uma notícia sobre a passeata contra o preconceito, pró respeito aos goianos.

Na época do acidente radioativo com césio-137 no Instituto Goiano de radioterapia (13 de setembro de 1987) um grupo de artistas goianos saiu da cidade e foi de viagem para vender seus artesanatos em uma feira do Rio de Janeiro. A intrépida polícia carioca tentou impedir a entrada dos Goianos na cidade. Levaram os coitados para a delegacia sob suspeita de emissão de radiação. Dizem por aí que a pessoa contaminada com radiação infectará as próximas três gerações de sua prole.

Os policiais cariocas impediram a entrada dos artistas Goianos, mas depois de ir para a DP os artistas conseguiram uma autorização da justiça para vender legalmente na feira do Rio de Janeiro. Os guardas cariocas que são tão malandros como qualquer malandro, deixaram que os Goianos fossem a feira, mas mandaram que instalassem sua barraca de fora, mas os guardas não esperavam pelo que aconteceu, a barraca dos goianos, por estar do lado de fora, na porta de entrada, foi a mais visitada da feira. Venderam uma série de estatuetas de artesanato que hoje enfeitam estantes de casas do rio de janeiro.

Não se sabe se houve ionização de gases, fluorescências ou partículas atravessando corpos solidos nas casas dos compradores das obras artísticas. Até o cantor Fagner Montes se pronunciou contra o preconceito que os Goianos sofreram na época. As pessoas não aceitavam goianos em hotéis, eles não podiam viajar. Ficaram isolados, em quarentena. De uma coisa eu sei, o fato dirigirem mal não foi culpa da radiação, os goianos já faziam goianadas no trânsito antes de qualquer desastre radioativo!

Apesar de tudo, e brincadeiras a parte, a experiência em goiania foi boa para quebrar estereótipos. Agora eu sei que nem todos são radioativos, a maioria dos goianos são pessoas de bem, comprometidos com a civilidade e isso é um bom sinal para o mundo. Apesar das barbeiragens, do calor infernal e do sotaque, os goianos são gente boa, tem mulheres bonitas e ruas agradáveis.

Duas irmãs e um cão

In ficção on Maio 15, 2008 at 5:37 pm

São duas irmãs, andam sempre juntas. Uma é a corajosa e a outra é retardada

Quem são elas? Mãe e filha? Não. Óbvio que não, elas tem quase a mesma idade, cerca de uns quarenta anos. No duro, elas são irmãs. Estão todo dia na mesma parada de ônibus, nesse horário das 11h30. Uma delas é a retardada, parece uma criança, e a outra é a corajosa, incuráveis companheiras.

Ouví dizer que a corajosa rejeitou um marido por causa da irmã retardada. Há cinco anos atrás a corajosa namorafa com um tal Bomfim, bom sujeito o rapaz, andava com os cabelos penteados e estudava para se formar engenheiro, hoje deve ser formado já. O Bomfim propôs à irmã corajosa um noivado, depois de algum namoro, notícia feliz, mas havia uma condição, “você precisa internar a sua irmã”, propôs Bomfim.

A irmã corajosa não gostou da condição, ela teve que beber muitos copos d´agua para vencer o nervosismo. “Eu não vou colocar a minha irmãzinha numa casa de loucos, lá não é lugar de gente, eles tratam mal as pessoas”, disse a corajosa. Apesar de triste, continuava corajosa, foi o fim de Bonfim na vida dela. Não tinha tempo para ser vaidosa, os cabelos viviam desgrenhados, mas sempre penteia os cabelos da irmã.

Às vezes a irmã retardada dá muito trabalho. Tem uns chiliques assim do nada, fica irritada e grita, e vou lhe contar, mas mantenha segredo, ainda faz xixi na cama, aos quarenta anos. A corajosa pensou até em se tornar amarga uma vez, você pode compreender. “Eu dou tanto amor pra essa gente, mas para me amar as pessoas querem coisas em troca, pedem condições”. Mas o que fazia da irmã corajosa uma verdadeira corajosa, era a coragem de não ceder, de não amargar, e também a crença de que “não basta ser recebedor do amor, você vai se decepcionar com as pessoas. É preciso ser uma fonte gratuita de amor”.

Numa manhã como qualquer outra lá estavam as duas, como em todas as manhãs, a retardada e a corajosa. A corajosa penteava os cabelos da retardada. A retardada distraída. Basta passar uma borboleta assanhada que a irmã retardada já quer olhar de perto as asinhas batendo “essas borboletas parecem folhas caídas. As folhas se juntam, como duas irmãs, e sobem de novo, pro alto da árvore, uma folha irmã ajuda a outra folha irmã”, pensou a retardada.

Mas o que aconteceu foi um vira-lata perdido passando pela rua. O pobre coitado do cão correndo no meio do asfalto com a língua para fora e no semblante canino um evidente cansaço e desespero “Aonde é a minha casa?”, deveria estar pensando. Os carros buzinando, desviando do cachorro.

A irmã retardada viu a cena e observou de longe. O cachorro passou do outro lado da pista, e ninguém fez o favor de chamar o cachorro para fora da rua. Compadecida, a irmã retardada correu para o meio dos carros na direção do cachorro. Os carros tiveram que brecar, quase causaram um acidente. A irmã corajosa ficou sem reação, boquiaberta, aguardava por um desastre, não teve nem voz para gritar pela irmã.

Por uns instantes os passageiros até pensaram que a retardada fosse morrer. Um carro brecou em cima dela e o motorista gritou “Saia do meio da rua sua retardada imbecil!”, mas ela nem viu o motorista, correu em direção ao cachorro, chamou com um assobio e o acolheu.

O cão baforava linguarudo, assustado, mas agora safo.

Ela voltou para o seu lado da pista e a irmã corajosa brigou com ela “Você não pode andar no meio dos carros, quer morrer?”. Quando o susto passou, olharam juntas para o cachorro e decidiram ficar com ele.

São duas irmãs, andam sempre juntas, uma é corajosa e a outra também.

Valeu pela coragem

In ficção on Maio 14, 2008 at 4:27 am

Um garoto franzino que apanhou muito na quinta série na turma dos repetentes, vinga-se com a esperteza

A sirene tocou e a cambada do ensino primário saiu se acotovelando pelo portão principal sem muita disciplina. Aquele tal de Rafael, que eu odiava, fazia a questão de esbarrar em mim, era meio baixinho e tinha cara de enfezado. Andava acompanhado dos marmanjos repetentes. Era apenas a quinta série, mas tinha marmanjo de até 18 anos, passando dessa idade a diretora não aceitava mais na escola “lugar de delinquente é na rua, não na escola”, dizia a diretora.

A diretora, aliás, era uma mulher inteligente. “Sofrendo e sorrindo”, é como ela dizia que vivia boa parte da população pobre do Brasil. “Aquelas picardias de carnaval, a porcaria de futebol e novela da tv globo, era tudo pra sorrir sofrendo, sentado com a bunda no sofá de chumbo, por isso é melhor que vocês fiquem na escola, aqui dentro sim é lugar de gente”, ela dizia . Nossa escola tinha muitas brigas, ela não impedia a gente de brigar, desde que não fosse dentro da escola “é natural na idade de vocês que se troquem bofetadas, mas façam isso agora, enquanto a bofetada só machuca um pouco, porque se continuarem fazendo isso quando forem mais velhos, não vai ser bofetada, vai ter tiro e facada. Então briguem o que tiverem que brigar agora. Mas briguem a cem metros de distância daqui!”

Na saída do colégio o Rafael me empurrou em direção ao portão de ferro e eu revidei, puxando pelo braço da mochila eu o derrubei no chão e enchi a cara dele de porradas, amassei o rosto do pobre coitado contra o chão. Você não sabe, mas a sensação de socar o rosto de alguém é uma sensação maravilhosa, é a sensação de quem pode tudo, mas não se deve viciar nessa sensação.

Fazendo um parêntese, lembro de uma história que aconteceu lá em casa, minha irmã criava dois lagartos exatamente iguais, um dia um deles fugiu e passou a viver no quintal de casa enquanto o outro permaneceu no aquário. Por duas semanas o lagarto ficou desaparecido, mas um belo dia ela encontrou o lagarto foragido no quintal e o colocou de volta no aquário. A diferença básica entre os lagartos era a selvageria, a coragem, a agressividade. Quando jogavam um inseto no aquário, o lagarto do aquário esperava que o inseto passasse por perto para capturá-lo, o lagarto selvagem ia a caça, caminhando matreiro, espreitando a presa. Eu imagino o medo que aquele lagarto passou quando estava sozinho no quintal, depois de grande eu aprendí que a solidão e o isolamento podem ensinar um monte de coisas para a gente e uma delas é que agressividade não significa violência. No meu futuro, muitos anos depois da quinta série um professor da faculdade olhou para a minha prova corrigida e disse “Uma nota mediocre para um aluno mediocre”, eu poderia ter socado o rosto daquele homem, mas eu me calei e deixei que ele me encarasse como um aluno mediocre. Naquela mesma noite gastei horas pensando na sensação. Não era humilhação, mas eu torcia para que um dia eu surpreendesse aquele professor com algum ato de verdadeira importância. Uma prova de faculdade, uma derrota na vida não prova o valor de um homem. Foi o que pensei, se eu tivesse socado o rosto dele, ou ofendido sua integridade moral, por mais que eu saísse impune as consequências psicológicas seriam desastrosas, eu teria admitido a mediocridade, por causa de uma ridícula prova de faculdade.

Voltando à quinta série, decidimos deixar de brigar na porta de saída da escola por respeito à diretora. Quando me encontrei com o tal pirralho e nojento Rafael, havia uma pequena platéia para assistir a nossa briga. Todos da platéia eram os amigos repetentes do Rafael, marmanjos de 16 a 18 anos. Lembro quando ele começou a estralar os ombros em sinal de que já estava se preparando para a luta, eu o puxei pela camisa e soquei seu rosto já ferido. Achei ótima a forma como tirei aquele sorriso de esperto da cara dele. Os marmanjos deixaram que eu acertasse alguns bons murros até que me seguraram.
“Vamos fazer conforme as regras. Conte até 3 e no três lutem!”
Eles me seguraram com força, e contaram até três. Quando a contagem chegou ao fim o marmanjo que me segurava pelos ombros, me empurrou com força na direção do idiota Rafael, e ele acertou um murro em cheio no meu rosto. Minha visão se apagou e uma penumbra preta me desequilibrou. Eu caí de joelhos no chão e todos eles saíram abraçados e sorrindo. Eu voltei para casa humilhado, com os joelhos ralados e com um murro no meio da minha cara.

No outro dia de escola eles acreditavam que eu estaria tão moralmente rebaixado que poderiam me tratar como quisessem. O Rafael chegou em mim com um empurrão e eu disse “O que foi sua putinha?” (eu tinha treinado por horas na frente do espelho a forma como eu falaria com ele, mas as conversas nunca vão no rumo que a gente planeja). “Como é que é que você me chamou? Repete”, os amigos dele estavam atentos. Eu não tinha coragem de falar, mas eu disse “Você ouviu o que eu disse!”.
“Então repete que eu quero ver se você é homem!”
Eu estava com medo, admito, mas sem demonstrar eu simplesmente dei as costas e sai, eles me chamaram de covarde. Foi quando o Rafael disse “Eu sei onde é a sua casa! Eu posso te quebrar de porrada de novo a hora que eu quiser”.

Eu virei para ele com uma calma heróica e disse “Pode tentar quando quiser, mas da próxima vez que tentar é bom que você me mate, senão eu vou atrás de você, e vou cobrar vingança”. Ficaram em silêncio, até riram, mas não esconderam a preocupação.

Naquela noite eu dormí tão bem que você não pode me imaginar. Eu lembro que naquela época minha mãe ainda me obrigava a frequentar a igreja, e antes de dormir eu tinha feito uma oração. Deitado no travesseiro eu sorrí pro teto como se estivesse falando com deus, pisquei para ele num tom de camaradagem e pensei na coragem súbita, sabendo que ele poderia me entender eu disse “Valeu pela coragem, Amém”.

Um americano progressista

In jornalismo on Maio 13, 2008 at 2:58 am

Aí estava alguém decidido a acabar com a guerra do Vietnã. E ele seria eleito. Mas ele foi assassinado. Eu nunca me recuperei disso. Isso me fez sentir que há uma violência cega e imbecil nesse país que pode impedir qualquer coisa verdadeiramente iluminada e progressista. Bobby Kennedy era uma figura extraordinária. Eu releio seus discursos e é difícil acreditar, ele era um homem que falava sobre a insignificância do Produto Interno Bruto. O produto interno Bruto não diz nada sobre a força de nossas famílias, sobre a qualidade de nossa arte. Você consegue imaginar como alguém estava concorrendo para a presidência falando coisas como essa?

Mark Kurlansky, autor de “1968- O ano que abalou o mundo”, falando sobre Bobby Kennedy