Gustavo

Posts de Abril, 2008

Mulheres pagãs e a poesia

In Sem-categoria on Abril 27, 2008 at 3:38 pm


Um curta metragem essencialmente feminino e extremamente sensual, “Copo de Leite” é um poema visual. Flerta com o paganismo Celta com seus ritos realizados ao ar livre. São três mulheres conectadas pela música, pela água do mar, pela água doce e por um copo de leite. Todas se banham e se satisfazem dessa forma. O som do mar e da flauta, junto aos pensamentos inquietos são constantes, embrenhando-se aos ruídos urbanos, as três mulheres, em sua solidão, estão conectadas.

“O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em sí não existe”

COPO DE LEITE
Direção: William Cubits Capela
Elenco Hermila Guedes, Karen Black, Keira Myiata

Produção Sergio Oliveira, Elaine Olinda Soares Fotografia Jane Malaquias, Pedro Urano Roteiro Jura Direção de Arte Renata Pinheiro Montagem Karen Barros Música Bernardo Vieira Trilha Sonora Bernardo Vieira, Erasto Vasconcelos

ASSISTA O CURTA:
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=2617#

Longa de terror será lançado em Brasília

In Sem categoria on Abril 16, 2008 at 3:07 am


O Distrito Federal está vivendo um pesadelo, a cidade foi invadida por Zumbis, os responsáveis pela invasão são Tiago Belotti, na direção e Rodrigo Luis Martins na produção, e claro, uma horda de Zumbis brasilienses. O longa independente de terror “A Capital dos Mortos” será lançado no dia 2 de Maio em Brasília e percorrerá o Brasil em festivais e mostras de cinema.

O filme virou febre na cidade, febre no orkut e nos jornais, já foram publicadas várias matérias e entrevistas sobre o filme em jornais locais, no G1 (jornal online da Globo) e entrevistas feitas para uma radio da faculdade federal de Brasília. A seguir uma entrevista realizada por Kamila Pacheco, do jornal Na Prática, IESB, com Tiago Belotti e Rodrigo Luis Martins.

Uma profecia de Dom Bosco nunca antes revelada. Além de sonhar com a construção de Brasília, foi-lhe revelado que os humanos estavam prestes a serem testados, e que a nova capital seria o cenário desse teste. É a partir desse tema – ficcional – que o filme independente A Capital dos Mortos ganha corpo. Produzido por Rodrigo Luiz Martins e sob direção de Tiago Belotti, o filme ganha destaque por ser o primeiro longa-metragem sobre zumbis produzido no Centro-oeste. Desde 1992, Tiago tinha a idéia de fazer um filme desse sub-gênero e a idéia de fazer A Capital surgiu em 2006.

Os produtores audiovisuais contam como foi fundamental a colaboração voluntária do público, falam sobre o “repúdio” ao título de trash, sobre a inércia cultural que paira sobre Brasília, além da divergência entre os entrevistados sobre a possibilidade do filme parar na Internet.


E vocês consideram o filme como um terror trash?

Tiago – Trash é tão ruim que fica bom. A gente não queria fazer um filme trash, tivemos vários cuidados, como a busca do elenco de atores profissionais. Alguns podem classificar o filme como trash, pelo fato de ser independente. Mas A Capital dos Mortos é um filme ambicioso, com vários ângulos, diálogos elaborados, mudança de cenários – coisa que não ocorre no trash. Não acho que A Capital é trash.

E a divulgação das filmagens, se deu de que forma?

Rodrigo – O Orkut e o MSN foram os principais canais para divulgar as filmagens. Veio gente até de Santos para participar. A divulgação aconteceu no boca-a-boca e quem participou está ansioso para ver o resultado desse projeto totalmente independente. Na imprensa, foi mais noticiado no Sudeste que em Brasília. Quando A Capital começou a se popularizar, várias outras produções apareceram. É tudo por causa da Internet.

E se o filme parar na Internet, nos sites de downloads ou no You Tube?

Tiago – Quem quiser prestigiar o filme, deve comprar o DVD. Mas não adianta se preocupar com o inevitável. Se o filme se der bem, vamos investir nos próximos filmes, pois a idéia é fazer uma trilogia com A Capital. O filme parar na Internet é algo que não tem como reverter, é esperar pra ver.

Rodrigo – Se tiver o interesse de piratear é um indicativo de que o filme é interessante e acaba por ter uma divulgação maior. O interesse da pessoa já é valido, que é o que leva a pessoa a baixar da Internet. Nós temos a pretensão de legendar o filme e mandar para o exterior. Quanto mais gente do mundo assistir, melhor.

O filme se passa em Brasília, palco de vários escândalos políticos. Existe a tentativa de passar alguma mensagem ou a finalidade do filme é entreter?

Tiago – Brasília tem a melhor fotografia do Brasil para cinema. É uma cidade planejada, ampla. É um filme de zumbis brasiliense com ação, suspense e terror. Quem assistir vai perceber que o filme faz leves sátiras e que uma mensagem que pode ser tirada do filme é que a paciência com o homem terminou e agora ele deverá sofrer as conseqüências. Existe uma mistura de fatores reais com ficção e dentro desse enredo, Brasília seria uma cidade construída com a função de absolver ou castigar os homens.

Rodrigo – Fazem parte da mitologia de Brasília as profecias de Dom Bosco. E o filme buscou fundamentar a história dentro dessas profecias. A mitologia, nesse caso, é um elemento essencial do filme.


Como foi essa colaboração do público durante as filmagens?

Tiago – A maioria era de desconhecidos. Algumas pessoas ajudaram na produção do filme, na maquiagem, teve gente que se machucou e se entregava de verdade ao projeto. A banda de death metal Device cedeu 4 músicas, o Murilo Ribeiro, maquiador, ajudou nas próteses, o Renan Fersy ajudou na trilha sonora. E todas essas pessoas foram voluntárias. Muitos eram amigos, fãs de zumbi, apreciadores de cinema. Essas pessoas queriam fazer parte de uma coisa inédita e por isso rolou um esforço coletivo.

Rodrigo – Os figurantes apareciam em 15, 20, 30 pessoas. Na primeira filmagem, apareceram mais de 40 zumbis. Isso mostra que existe uma demanda por esse tipo de filme. Faltam produtores para esse gênero. Em Brasília eu sinto falta dessa produção. O Afonso Brazza é uma referência em ficção que sofria dos mesmos problemas que a gente sofre: falta de lugar para exibir, fazia filme com baixo orçamento, independentes. Os figurantes dos filmes do Brazza ficaram perdidos depois que ele morreu. O cinema dele aproximava a arte do cinema do povo e talvez as produções tragam essa proximidade com a população.

O Mágico moderno do cinema

In Sem categoria on Abril 16, 2008 at 1:45 am

O primeiro curta metragem (oficial) do cineasta e diretor de clipes francês Michel Gondry se chama “A carta” (La lettre). Gondry nasceu em Versailles, na França, e tem uma mente brilhante, seus clipes tornaram-se clássicos da MTV, e os comerciais são inesquecíveis por suas idéias inusitadas e criativas de uma engenhosidade invejável. Quando se uniu ao outro genial Charlie Kaufman, realizou o filme que o tornou famoso, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, mas antes disso já dirigia pequenas pérolas em videoclipes para artistas diversos, entre eles Björk, Chemical Brothers, White Stripes, Beck, entre outros.

Ao assistir um DVD coletânea dos trabalhos comerciais e não comerciais de Gondry, é possível se ter uma noção de como funciona sua mente, ele visualiza esquemas e transforma esses esquemas em decupagem para por em prática. Os resultados são manipulações impressionantes das possibilidades cinematográficas, em efeitos visuais, falsa perspectiva, truques de câmera, são visualmente magníficos. A imagem, para Gondry, é fundamental. Gondry é o mágico moderno do cinema, engana os olhos.

La Lettre é um curta pelo qual tenho muito apreço, trata-se de uma história simples, despretensiosa, não abusa de efeitos visuais, ainda assim a imagem é um elemento fundamental. A espontaneidade dos atores de Gondry se deve a sua capacidade, como diretor de atores de estar aberto à improvisos e de buscar a naturalidade. Apesar de seus complexos esquemas, há uma flexibilidade para idéias surgidas no momento da produção. “É preciso estar aberto para captar coisas da vida real, e entre as tomadas, quando a câmera está ligada, é quando os atores são mais eles mesmos”, diz Gondry em uma entrevista. Apesar da improvisação, Gondry é um old school no cinema, desde pequeno filmava com uma câmera Super 8, dada pelos pais, desse aprendizado ganhou grande prática e familiaridade com as possibilidades do aparelho. Muito diferente do cinema digital, que te dá a liberdade de filmar o que se quiser a hora que quiser, filmando em película há sempre uma responsabilidade para se captar o momento certo.

La Lettre é um curta sobre Stephane, um garoto tímido que vive provavelmente o seu primeiro amor, e talvez por causa disso, um amor completamente platônico. O lado fantástico da direção de Gondry entra no filme como o sonho metafórico de Stephane, no qual ele se vê obrigado a tomar alguma atitude para com Aurelie, a garota de quem ele gosta. Apesar do sentimento de inadequação, ele é pressionado pelo irmão Jerome e pelos outros “mais velhos” a tomar uma atitude. É um curta bonito, recheado de momentos de silêncio e diálogos naturais e triviais como devem ser. É um curta sobre a juventude, muito possivelmente uma autobiografia de um adulto que ainda pensa com a inexperiência de uma criança que acaba de ingressar nos jogos do mundo adulto.

O que mais me chama mais atenção na obra de Gondry é a sua capacidade de transformar situações completamente absurdas, que deveriam soar esdrúxulas, em poesia verdadeira, confirmo minha tese, de que Gondry pensa como uma criança, e daí o motivo de sua assinatura inconfundível.

Assista o curta metragem La Lettre do diretor Michel Gondry

Sangria desatada

In ficção on Abril 13, 2008 at 6:42 am

Vivo no infindo impasse entre a maravilha e o terror de ser um individuo. Há vezes em que a angústia vêm sem dizer. Quando nos falta fé, ficamos vulneráveis.

Quando cocei o nariz no trabalho comecei a sangrar loucamente. Pingou na mesa branquinha e me assustei quando ví que tava saindo do nariz, passei o dedo por cima e ví o mel vermelho na minha mão, era pouco sangue, mas brotava com uma facilidade que me deu medo porque lembrei de uma história que minha mãe sempre contava.

Era uma menina, do bairro da minha mãe quando era criança. Vizinha eu acho. A menina teve uma espinha bem no nariz, ela coçou e começou a sair sangue. Não tinha hospital por perto e a mãe dela não se preocupou em ir ao médico, achou que era um sanguinho a toa. O sangramento não parava. Ela manteve o nariz sangrando, só estancando com papel. Vinte e quatro horas depois a menina estava morta. Minha mãe, que era adolescente ficou sabendo disso em casa e cresceu com essa história. Eu achava que ela contava isso só pra impressionar, pra que eu não coçasse o nariz.

Fui ao banheiro tentando chamar o mínimo de atenção, mas só a forma brusca como me levantei foi o suficiente pra que ohassem na minha direção, mas ninguém chegou a ver o sangue. Lavei na pia, me olhei no espelho, e uma gota rapidamente saia do nariz e pingava no branco límpido do mármore. Passei papel, deixei o papel seco em cima do sangramento. Tirava e o sangue ainda brotando. Saí.
__Meu nariz tá sangrando. Não quer parar de sangrar.
__Você já teve isso antes? – Perguntou a patroa.
__Não. Nunca.
__Coloca gelo. Tem na sala alí do lado.

Os outros funcionários estavam me olhando assustados. Peguei o gelo, com uma certa dificuldade, acho que até quebrei o plástico da geladeira. Botei o gelo no nariz e o sangue pingando junto com a água que derretia do gelo. Tirei o gelo. Mais sangue.

Descí do trabalho. Atravessei a rua e entrei no shopping tampando o nariz com um papel branco, empapuçado de sangue, passei por toda aquela gente, deviam achar que eu tinha levado um murro. Entrei na farmácia. Esperei uma pequena fila ser atendida, segurando o papel no meu nariz.
__Meu nariz tá sangrando. Vocês fazem curativo?
__Não, mas a brigada dos bombeiros no segundo andar faz.

Ví que o bandaid era muito caro, resolví subir. Chegando na brigada, a porta estava trancada. Bati uma vez. Demorou um pouco, destrancaram a porta por dentro. Assim que entrei, uma cena um tanto estranha, uma garota, bem bonita por sinal, estava sentada na mesa, ela tinha um decote imenso, nem levantou o rosto, manteve o olhar como estava. As mãos dela estavam estendidas sobre a mesa, do outro lado da mesa um bombeiro acariciava os pulsos dela. A sala tinha um clima pesado, calorento. Entrei na sala e expliquei a situação.
__Lima. Ainda tem bandaid aí? – Disse o bombeiro levantando a voz sobre a cortina azul.
__Vou olhar. – Respondeu o tal do lima, do outro lado da sala.

Fiquei olhando para o bombeiro que conversava com a menina. Dois homens trancados dentro de uma sala com uma mulher que mais parece um monumento ao sexo, no mínimo suspeito. Pela forma como eles estão, a garota deve ser namorada do baixinho, mas e o Lima? Será que ele fica com as casquinhas? Ou ele deixa a menina namorar com o colega enquanto faz vista grossa? De tanto que reparei na situação, ligeiramente constrangedora, o bombeiro baixinho que estava com a menina me falou:
__Vai alí atrás que ele vai fazer um curativo nisso aí.

Obedecí. O lima era um bombeiro de uns dois metros de altura. “Essa menina aí… vai levar a dupla…”, mas ao mesmo tempo que eu queria pensar com humor, eu pensava também com agonia. Bate um desespero quando você não consegue parar de sangrar, você sente que está indo embora. Lembro de uma vez, quando ví um cara baleado. A camisa branca dele se enegreceu com o vermelho noturno, fiquei sabendo que ele morreu. O sangue sai, a gente vai embora.

Passou alcool na ponta de um algodão.
__Isso aí que você está com sangue demais. Tá na hora de ir ao hemocentro.
__Pois é. Mas to é preocupado, porque não pára. Minha coagulação tá ruim.
__É assim mesmo. Mas olha, nós estamos sem bandaid, pressiona esse algodão contra o nariz e compra um na farmácia. Vai tirando os excessos de sangue e passa o bandaid por cima.
__Tá beleza.

Fui saindo da sala reparando na garota sozinha com os dois. Que clima tenso. Assim que saí, a porta se trancou atrás de mim. Descí a escada rolante, os consumidores passaram me observando com um algodão tampando o minúsculo ferimento do nariz do qual saia tanto sangue que já tingia o algodão. Que engraçado ser notado dessa forma. Lí uma entrevista com um antropólogo porto alegrense dizendo que os centros de convergência das cidades não eram mais as indústrias e sim os shoppings. Ele falava sobre o policentrismo.

O policentrismo significa que o consumo, a comunicação e também a cultura têm agora uma importância às vezes maior do que aquela da produção. E que, em particular o consumo, que é baseado sobre esse tipo de shopping-center, mas não somente shopping-centers, também parques temáticos, desenvolve um tipo de público que não é mais o público homogêneo, massificado, da era industrial. É um público muito mais pluralizado, ou podemos dizer, públicos. Esses públicos gostam de performar o lado do consumo. Então, o consumo, o shopping-center tem uma importância que mais ou menos é igual a que tinha a fábrica no passado.

Com o algodão sobre o nariz, reparando nos olhares suspeitos e curiosos, sentí-me como um forasteiro do policentro. Discordo desse filósofo, esse tal MASSIMO CANEVACCI, provavelmente ele é um classe média de pompa, por isso tem tanta tendência a pensar no shopping como centro de convergência, é lá que ele compra os seus pijamas. Para mim, shoppings tem mais o aspecto de matadouros hipnóticos. Você enfia sua cabeça numa loja e consome roupas e artigos diversos, sobe alguns andares carregado por um impulso misterioso consumista, olha algumas besteiras, chega no último andar e consome sua refeição. Seu dinheiro, como se fosse sua cabeça é decepado inutilmente. Eu fazia o caminho do posto, escapava ferido daquele centro, o sangue manchando o chão, marca simbólica de que se pode perder a vida para o consumismo. Prefiro pensar que as feiras, os centros comerciais ao ar livre são os verdadeiros policentros convergentes. Os bancos das praças lotados ao meio dia, as paradas de ônibus, as ruas repletas, a lanchonete da esquina. Lá você tem um céu sobre a sua cabeça, e quando dá tempo de parar, você discute, observa e transforma. No shopping tudo é concreto, tudo é feito com a intenção de prender o seu olhar, você fica perdido, não há pensamento sendo feito no shopping, no shopping tudo é produto pré fabricado, embalado, tudo tem um preço, até seus olhos e sua atenção.

Quando dei por mim já estava com um bandaid no nariz, o sangramento felizmente havia cessado e eu estava fora daquele matadouro, com uma boa desculpa para passear na rua e pensar com mais clareza “mas que dia burlesco”.

Fiz o sinal da cruz e voltei para a minha média vidinha, ostentava um ferimento.

In Sem categoria on Abril 8, 2008 at 5:27 pm

FESTIVAL INTERNACIONAL DE FILMES CURTÍSSIMOS
O Festival Internacional de Filmes Curtíssimos apresenta a seleção de uns cinqüenta filmes vindos de todo o mundo, todos seguindo a mesma regra: não podem ultrapassar três minutos (fora os créditos e título). Todos os gêneros estão presentes: ficção, animação, documentário, experimental. Um concentrado de inventividade e imaginação…
SITE DO FESTIVAL
http://www.filmescurtissimos.com/#
Enviem seus filmes, compareçam ao festival!
Quem tiver um curta de até 3 minutos, pode inscrevê-lo até o dia 24 de abril.
Todas as informações estão no site.

Como seria perfeito

In ficção on Abril 3, 2008 at 1:29 am

Descendente dos povos indígenas, ela era maravilhosa, tanto nos traços faciais quanto no corpo escultural

Como sempre, a maioria das minhas histórias brasilienses ocorrem no trajeto RODOVIÁRIA-CASA. Tinha bebido muita cerveja há uma hora atrás, pois esperava chegar a hora de uma festa que nem aconteceu. Resultado, esperei a toa, mas pelo menos bebí muita cerveja. É claro que eu não estava bêbado, o tempo me ensinou a calibrar a dosagem certa de cerveja para ficar apenas “medicado”. Eu estava com os músculos relaxados, sorriso fácil, mente paciente. O ônibus demorava para chegar quando ela apareceu com uma mini-saia, tão mini que era inevitável olha-la sem percorre-la pelas pernas. Fiquei na fila do ônibus, logo atrás dela, “vou arranjar um lugar para sentar bem do lado dessa garota”. A pele dela era morena jambo, traços faciais característicos dos povos indígenas, e as pernas descobertas tão lindas quanto se pode imaginar, ela tirava os pés do salto, estava inquieta.

Entrando no ônibus, não havia lugar do lado dela. Eu abrí minha revista e comecei a ler algo sobre a evolução das espécies segundo Darwin e outros desses loucos, uma matéria interessante, apontando sobre a forma como utilizaram as teorias Darwinianas como ideologia e pretexto para se cometer massacres genocidas, quando Darwin não apoiava nenhuma ligação de seus estudos científicos com a maldita velha cegueta, a ideologia. Um trecho da matéria me chamou a atenção:

“O macho pode multiplicar seus genes disseminando suas numerosas células sexuais a esmo, ao passo que a fêmea fica restrita a uma fecundação de cada vez. É como se os machos se especializassem em produzir filhotes, as fêmeas em garantir que eles sobrevivam. Richard Dawkings, o evolucionista, tentou realizar estudos de contabilidade evolutiva das espécies com simulações que chegaram aos seguintes resultados: Se 5/6 das fêmeas fossem tímidas e 5/8 dos machos fossem fiéis, esta espécie seria evolutivamente estável. Mais tarde, após numerosos estudos Dawkins reformulou seus pensamentos, “nenhum arranjo seria estável, as proporções flutuariam intermitentemente. O comportamento dos amantes oscila como a lua”, e acrescentou, “ninguém precisa de equações diferenciais para perceber isso”.”

Me sentindo na responsabilidade de macho da espécie, em busca da devida proliferação dos meus genes para evoluir e perdurar, puxei papo com a garota.

“Qual é seu nome?”
“Luciana… porque?” ela respondeu com timidez, o que é um bom sinal, em termos de visão evolutiva.
“Por nada, fiquei curioso. Mas me diz, você tem alguma ascendência Indígena?”

Ela estava meio desconfiada, mas respondeu:
“Porque?” Pequena pausa. A timidez deu lugar a um sorriso, ainda um pouco tímido, mas acolhedor. “Tenho sim, minha avó era India”
“E você é de Brasília?”
“Não. Sou de Maranhão.”

Apaixonei, adoro garotas de fora, de forma geral, o genes das brasilienses estão devidamente programados para a frescura, e à chatice. Eu, como bom procriador, pretendo disseminar meus genes buscando uma diversificação da espécie, missigenação é a chave da sobrevivência.

“E me diz… O que você faz no seu tempo livre aqui em Brasília?”

Ela já estava toda sorridente, era tão linda, eu fiquei reparando nos olhinhos dela.

“Só tenho tempo livre nos domingos, porque trabalho todos os dias, e no domingo eu cuido do meu filho”.

Opa.

“E você é solteira?”
“Não, sou casada.”

Opa.

Houve um longo silêncio. O desejo de procriação havia encontrado uma barreira e o silêncio foi a única resposta plausível que eu conseguí encontrar. Me recostei na minha cadeira, não sabia o que dizer.

“E aí? A curiosidade já passou?”
“Pra falar a verdade ainda não. Tenho muita curiosidade, mas você é casada, eu não posso ser muito curioso.”

Ela riu. Como gosto das garotas de sorriso fácil, se fosse uma brasiliense essa conversa nem teria acontecido. Então, apesar do entrave, eu me sentí feliz, e disse a ela

“Sabe o que seria perfeito?”
“…”
“Seria perfeito se você não fosse casada, e eu te perguntasse pra onde você vai hoje, e você me respondesse que vai para a casa da sua mãe, pois mora sozinha com ela, mas que só vai porque é obrigada, porque você teve uma briga com ela e nem queria voltar pra casa. E ai eu diria o seguinte, eu diria que não tem problema, pois se você quisesse você poderia dormir na minha casa numa boa, eu deixava você ligar para a sua mãe para avisar para ela. E aí, depois desse dia nós passariamos a frequentar um a casa do outro, e quando menos percebessemos, já estariamos namorando.”

Ela ficou surpresa olhando para mim, ela não sabia se devia rir e acabou ficando calada. Percebí que as outras pessoas do ônibus estavam olhando para mim, curiosos com a conversa, mas isso não me preocupou porque eu estava inspirado.

“Pena que as coisas não são mais perfeitas como a gente as vezes gostaria que fossem.”

Puxei a cordinha do ônibus e antes de descer, apertei a mão dela, estava suada de nervosismo. Eu descí do ônibus e fui para casa pensando no cinismo darwinista, e no quanto ele provavelmente deve estar certo com sua teoria evolutiva.
Procriemos.
O amor, se existisse, seria perfeito, mas ele é apenas uma desculpa delirante para a pesada verdade genética.
Perduremos.