Vivo no infindo impasse entre a maravilha e o terror de ser um individuo. Há vezes em que a angústia vêm sem dizer. Quando nos falta fé, ficamos vulneráveis.
Quando cocei o nariz no trabalho comecei a sangrar loucamente. Pingou na mesa branquinha e me assustei quando ví que tava saindo do nariz, passei o dedo por cima e ví o mel vermelho na minha mão, era pouco sangue, mas brotava com uma facilidade que me deu medo porque lembrei de uma história que minha mãe sempre contava.
Era uma menina, do bairro da minha mãe quando era criança. Vizinha eu acho. A menina teve uma espinha bem no nariz, ela coçou e começou a sair sangue. Não tinha hospital por perto e a mãe dela não se preocupou em ir ao médico, achou que era um sanguinho a toa. O sangramento não parava. Ela manteve o nariz sangrando, só estancando com papel. Vinte e quatro horas depois a menina estava morta. Minha mãe, que era adolescente ficou sabendo disso em casa e cresceu com essa história. Eu achava que ela contava isso só pra impressionar, pra que eu não coçasse o nariz.

Fui ao banheiro tentando chamar o mínimo de atenção, mas só a forma brusca como me levantei foi o suficiente pra que ohassem na minha direção, mas ninguém chegou a ver o sangue. Lavei na pia, me olhei no espelho, e uma gota rapidamente saia do nariz e pingava no branco límpido do mármore. Passei papel, deixei o papel seco em cima do sangramento. Tirava e o sangue ainda brotando. Saí.
__Meu nariz tá sangrando. Não quer parar de sangrar.
__Você já teve isso antes? – Perguntou a patroa.
__Não. Nunca.
__Coloca gelo. Tem na sala alí do lado.
Os outros funcionários estavam me olhando assustados. Peguei o gelo, com uma certa dificuldade, acho que até quebrei o plástico da geladeira. Botei o gelo no nariz e o sangue pingando junto com a água que derretia do gelo. Tirei o gelo. Mais sangue.
Descí do trabalho. Atravessei a rua e entrei no shopping tampando o nariz com um papel branco, empapuçado de sangue, passei por toda aquela gente, deviam achar que eu tinha levado um murro. Entrei na farmácia. Esperei uma pequena fila ser atendida, segurando o papel no meu nariz.
__Meu nariz tá sangrando. Vocês fazem curativo?
__Não, mas a brigada dos bombeiros no segundo andar faz.
Ví que o bandaid era muito caro, resolví subir. Chegando na brigada, a porta estava trancada. Bati uma vez. Demorou um pouco, destrancaram a porta por dentro. Assim que entrei, uma cena um tanto estranha, uma garota, bem bonita por sinal, estava sentada na mesa, ela tinha um decote imenso, nem levantou o rosto, manteve o olhar como estava. As mãos dela estavam estendidas sobre a mesa, do outro lado da mesa um bombeiro acariciava os pulsos dela. A sala tinha um clima pesado, calorento. Entrei na sala e expliquei a situação.
__Lima. Ainda tem bandaid aí? – Disse o bombeiro levantando a voz sobre a cortina azul.
__Vou olhar. – Respondeu o tal do lima, do outro lado da sala.
Fiquei olhando para o bombeiro que conversava com a menina. Dois homens trancados dentro de uma sala com uma mulher que mais parece um monumento ao sexo, no mínimo suspeito. Pela forma como eles estão, a garota deve ser namorada do baixinho, mas e o Lima? Será que ele fica com as casquinhas? Ou ele deixa a menina namorar com o colega enquanto faz vista grossa? De tanto que reparei na situação, ligeiramente constrangedora, o bombeiro baixinho que estava com a menina me falou:
__Vai alí atrás que ele vai fazer um curativo nisso aí.
Obedecí. O lima era um bombeiro de uns dois metros de altura. “Essa menina aí… vai levar a dupla…”, mas ao mesmo tempo que eu queria pensar com humor, eu pensava também com agonia. Bate um desespero quando você não consegue parar de sangrar, você sente que está indo embora. Lembro de uma vez, quando ví um cara baleado. A camisa branca dele se enegreceu com o vermelho noturno, fiquei sabendo que ele morreu. O sangue sai, a gente vai embora.
Passou alcool na ponta de um algodão.
__Isso aí que você está com sangue demais. Tá na hora de ir ao hemocentro.
__Pois é. Mas to é preocupado, porque não pára. Minha coagulação tá ruim.
__É assim mesmo. Mas olha, nós estamos sem bandaid, pressiona esse algodão contra o nariz e compra um na farmácia. Vai tirando os excessos de sangue e passa o bandaid por cima.
__Tá beleza.
Fui saindo da sala reparando na garota sozinha com os dois. Que clima tenso. Assim que saí, a porta se trancou atrás de mim. Descí a escada rolante, os consumidores passaram me observando com um algodão tampando o minúsculo ferimento do nariz do qual saia tanto sangue que já tingia o algodão. Que engraçado ser notado dessa forma. Lí uma entrevista com um antropólogo porto alegrense dizendo que os centros de convergência das cidades não eram mais as indústrias e sim os shoppings. Ele falava sobre o policentrismo.
O policentrismo significa que o consumo, a comunicação e também a cultura têm agora uma importância às vezes maior do que aquela da produção. E que, em particular o consumo, que é baseado sobre esse tipo de shopping-center, mas não somente shopping-centers, também parques temáticos, desenvolve um tipo de público que não é mais o público homogêneo, massificado, da era industrial. É um público muito mais pluralizado, ou podemos dizer, públicos. Esses públicos gostam de performar o lado do consumo. Então, o consumo, o shopping-center tem uma importância que mais ou menos é igual a que tinha a fábrica no passado.
Com o algodão sobre o nariz, reparando nos olhares suspeitos e curiosos, sentí-me como um forasteiro do policentro. Discordo desse filósofo, esse tal MASSIMO CANEVACCI, provavelmente ele é um classe média de pompa, por isso tem tanta tendência a pensar no shopping como centro de convergência, é lá que ele compra os seus pijamas. Para mim, shoppings tem mais o aspecto de matadouros hipnóticos. Você enfia sua cabeça numa loja e consome roupas e artigos diversos, sobe alguns andares carregado por um impulso misterioso consumista, olha algumas besteiras, chega no último andar e consome sua refeição. Seu dinheiro, como se fosse sua cabeça é decepado inutilmente. Eu fazia o caminho do posto, escapava ferido daquele centro, o sangue manchando o chão, marca simbólica de que se pode perder a vida para o consumismo. Prefiro pensar que as feiras, os centros comerciais ao ar livre são os verdadeiros policentros convergentes. Os bancos das praças lotados ao meio dia, as paradas de ônibus, as ruas repletas, a lanchonete da esquina. Lá você tem um céu sobre a sua cabeça, e quando dá tempo de parar, você discute, observa e transforma. No shopping tudo é concreto, tudo é feito com a intenção de prender o seu olhar, você fica perdido, não há pensamento sendo feito no shopping, no shopping tudo é produto pré fabricado, embalado, tudo tem um preço, até seus olhos e sua atenção.
Quando dei por mim já estava com um bandaid no nariz, o sangramento felizmente havia cessado e eu estava fora daquele matadouro, com uma boa desculpa para passear na rua e pensar com mais clareza “mas que dia burlesco”.
Fiz o sinal da cruz e voltei para a minha média vidinha, ostentava um ferimento.