Gustavo

Posts de Março, 2008

Curta Superpoderes

In Sem categoria on Março 31, 2008 at 12:15 pm


A superprodução de um curta-metragem

Cinema é uma arte para super-heróis. Esse pensamento passou pela minha cabeça algumas vezes durante as gravações do meu curta-metragem mais recente, “Superpoderes”. O projeto, selecionado pelo Festival Cultura Inglesa, de quem recebeu patrocínio para ser realizado em mídia digital, contou com o apoio da Academia Internacional de Cinema.
Da AIC veio também boa parte da equipe, de diversas gerações dos programas anuais e intensivos. Uma grande vantagem, por serem pessoas que se conhecem e já trabalharam juntas em outros projetos. Da primeira turma de alunos formados pela AIC, eu (diretora e roteirista) e Janaina Assis (que irá se encarregar das animações e efeitos especiais). Da segunda turma, Tatiane Alencar (editora, agora fazendo seu trabalho na montagem do material recém-captado) e Mariá Gonçalves (responsável pelo som direto e posteriormente pela mixagem). Da terceira turma, Rodrigo Falcon (diretor de fotografia). E a diretora de arte (Sheila Zago), antiga coordenadora de comunicação da Academia Internacional de Cinema. O produtor (Thiago Daher) e a assistente de direção (minha irmã Karen Kreutz), ambos ex-alunos de cursos intensivos. Por fim, o ator protagonista (Victor Ribeiro), também aluno do programa anual de cinema e grande entusiasta da arte cinematográfica.
O roteiro foi inspirado em um conto do escritor britânico H.G. Wells e, seguindo um dos parâmetros do Festival Cultura Inglesa, voltado ao público jovem. “The Man Who Could Work Miracles” conta a história de George Fotheringay, um homem que não acredita em milagres até o momento em que começa a realizá-los. Meu curta-metragem aborda o universo fantástico do conto, mas trazendo o personagem ao século 21, na pele do office-boy Jorge, uma espécie de super-herói adolescente.
Ao descobrir que pode fazer coisas acontecerem apenas pelo poder da vontade, sua primeira reação é de descrença. Um pouco assustado, mas gradativamente animado com as possibilidades, Jorge tenta fazer bom uso de suas novas habilidades. Ele acaba percebendo que lidar com o poder não é tão simples quanto parece.
Para essa livre adaptação, usei como referência visual o universo das histórias em quadrinhos e dos desenhos animados. O mundo quase surreal do protagonista é retratado num tom predominantemente sépia, mas ganha cores fortes na medida em que os poderes do herói começam a se manifestar. Com bom humor, as situações do roteiro se encadeiam num crescendo da euforia de Jorge e seus amigos até emergir uma questão fundamental: de que vale o poder quando não se sabe o que fazer com ele?
Transformar em imagens o que parece tão simples no papel foi meu maior desafio. Foram cinco dias de trabalho árduo, após quase um mês de pré-produção (período no qual foram realizados castings, visitas a locações, reuniões com a equipe técnica, escolha do equipamento e da câmera – uma Panasonic DVX 100 cedida pela AIC, e acordos de parcerias/apoios para o filme). Mas não importa como sejam os preparativos, a execução é sempre muito mais intensa.
No primeiro dia de gravação, cenas em um bar na região da Vila Leopoldina (Atol Bar). Atrasos para retirada dos equipamentos e montagem da luz, muitos planos complexos com travelling, diversos atores e figurantes. Necessidade de adaptar o cronograma. No dia seguinte, ao contrário do planejado, teríamos que voltar para lá.
Segundo dia, garoa e um resfriado que não poderia ser mais inconveniente. Mais cenas no bar, e infelizmente não conseguimos captar todas elas. Uma das atrizes não poderia comparecer. Mas a manhã foi produtiva – em quantidade, gravamos o dobro do que havia sido feito no dia anterior, primeiro pela facilidade dos planos e segundo pelo maior entrosamento da equipe. No começo sempre é preciso “esquentar os motores”, mesmo quando os profissionais envolvidos já se conhecem.
Ainda no segundo dia, a equipe se deslocou do bar para a próxima locação no período da tarde – um apartamento na Rua Augusta. Ótimo para a direção de arte, mas de dimensões um pouco limitadas para a fotografia. Uma parte dos equipamentos foi para lá, outra teve que ir direto para a locação do dia seguinte. Todos conseguiram se espremer no pequeno espaço do apartamento e realizar um bom trabalho, o que parece regra quando se trata de cinema: quanto mais difíceis as circunstâncias ou situações, mais as pessoas dão de si mesmas para que o esforço valha a pena.
Acabamos tarde no segundo dia, começamos cedo no terceiro. A locação, uma casa com diversas obras de arte e objetos que eu temia serem danificados. Felizmente, a equipe tomou todos os cuidados possíveis nesse sentido. Infelizmente, a fiação elétrica antiga da casa fez com que ficássemos sem luz em duas ocasiões, causando um temor ainda maior de que não pudéssemos completar a programação do dia. Anoitecia quando saímos de lá, com um peso a menos sobre os ombros e um excelente material na fita.
O quarto dia das gravações seria somente de externas. Garoa fina e frio em São Paulo quando saímos de casa, eu e boa parte da equipe que se hospedou comigo. Encontramos o restante da equipe e o elenco na frente da Academia Internacional de Cinema, e foi onde montamos nossa base de espera. A chuva precisava parar, pelo menos um pouco, ou diminuir de intensidade. Gravamos uma cena, esperamos mais um pouco, fomos para baixo do Minhocão e gravamos outra, enquanto ainda garoava. Voltamos para Higienópolis e o tempo chuvoso finalmente deu uma trégua. Terminamos tudo o que tínhamos planejado no fim da tarde. Aproveitamos o tempo “livre” para resolver problemas de produção e principalmente prever os que ainda surgiriam, durante a pós-produção.
O quinto e último dia no set teve um sabor agridoce. E já começou com imprevistos. Era um domingo, trânsito calmo, mas uma ponte de acesso à região do bar (onde gravaríamos as derradeiras cenas que faltavam) estava bloqueada. Pegamos outro caminho, atrasamos um pouco e depois compensamos trabalhando mais rápido. As cenas foram externas, na frente do bar (fachada e rua). O tempo colaborou, tínhamos tudo pronto ao meio-dia, corremos para a locação seguinte.
Mais uma vez na Academia Internacional de Cinema, mas agora dentro do prédio, que usaríamos como cenário de um bingo/cassino. Enquanto a equipe de arte preparava os objetos de cena e figurinos, eu gravava alguns planos na porta de entrada com a fotografia, som e atores. Quando passamos para as internas, a tarde já chegava ao fim e foi preciso adaptar muito de minha decupagem para o que poderíamos executar naquele momento. Os últimos planos do dia, e também do filme (ou, como falamos de brincadeira, “take embora”), foram demorados e desgastantes, até porque todos já estavam bastante cansados depois de quase uma semana imersos na captação das imagens.
Mas fechamos as gravações. Alguns membros da equipe, que não moravam em São Paulo, foram embora ainda naquele dia. O clima de despedida se estendeu também às pessoas, causou uma certa depressão pós-filme. Nada que as preocupações referentes à devolução dos equipamentos não pudessem me fazer esquecer. Além disso, ainda tínhamos que prestar contas com a Cultura Inglesa, montar as imagens capturadas e finalizar da melhor forma para que o trabalho estivesse completo.
Atualmente, o “Superpoderes” encontra-se em fase de edição. Em breve teremos o primeiro corte, depois será feita a mixagem de som, inserção das animações e efeitos especiais, criação de uma trilha sonora original. Entregaremos o DVD à coordenação do Festival até o final de abril, e a exibição do curta acontecerá às 21h do dia 6 de maio, na sede da Cultura Inglesa em São Paulo (Rua Ferreira de Araújo, 741, Pinheiros).
Sob o ponto de vista da direção, percebi que ainda estou aprendendo. É importante ter conhecimento e experiências anteriores, o que não me faltou enquanto estudei cinema na AIC (e foi o que me ajudou quando as coisas no set não aconteceram conforme o planejado). Também é importante a escolha da equipe, o que aconteceu de forma natural pelo networking que eu já havia formado, e resultou em uma boa execução do que eu imaginei durante a criação do roteiro. Mas a coisa mais importante talvez seja simplesmente usar os erros e problemas como uma forma de crescer na profissão, não desistir no meio do caminho, ter ânimo para continuar até o final. E só descansar quando o filme estiver pronto, no DVD.
Para quem ainda está em início de carreira, essa é a parte que exige mais esforço, mas também a que trará maiores recompensas futuras. Basta perceber que hoje em dia o cinema está ao alcance de qualquer um que possua criatividade e força de vontade. Nem é preciso ter superpoderes para conseguir… mas até que ajudaria um pouco se a gente tivesse.

A rapsódia do vento

In ficção on Março 25, 2008 at 6:23 am

Uma ode ao vento
Zé Almeida era o chefe do escritório do décimo oitavo andar do edifício. “Mantenham as janelas fechadas”, uma de suas principais recomendações, o sistema imunológico de Zé Almeida é tão forte quanto o seu caráter, um golpe de vento e já se preocupa com pneumonia. Zé foi sempre assim, o chefe chato do décimo oitavo andar, máu hálito, falta de autoconfiança e o péssimo hábito de destratar as outras pessoas. Falavam pelos corredores que ele nunca teve uma mulher, mas a verdade é que ele teve algumas putas, mas a primeira de todas foi a força.

Naquela manhã, um subalterno de tendências anarquistas gastou a manhã toda escrevendo com letras recortadas de revista um poema subversivo. O poema não tinha rimas e o título era “Abram as janelas”. O poema abria com uma introdução, foi xerocado e colado ao lado de cada uma das janelas.

“O velho Baumgartne, meu avô, natural da Austría escreveu, entre várias coisas, um poema sobre os perigos de uma janela fechada. Crescí ouvindo esse poema, sem entender o que significava, mas gostava da sua sonoridade, da forma como ele rimava e da curiosa fonética alemã, tão aspera, mas ainda assim tão bonita. Mesmo sem entender nada, sempre que terminava de declamar o poema, meu avô dizia em português, mantenha abertas as janelas da sua vida. Antes de morrer eu pedí que me traduzísse, linha por linha, para o português, infelizmente o poema veio sem rimas, mas dizia mais ou menos o seguinte:

“Invisível vem o rio. A pequena semente titubeia no alpendre pede para cair. Vem o rio e derruba, traz pra baixo e voa longe, massageia, sacodindo a frágil essência, e enterra com cuidado. Derruba o chapéu. Engana o guardachuva. Do chão, brota cuidadoso, um pedaço da flor. Este rio que recobre, que envolve, precisa de espaço pra correr, é um rio, atravessando o corpo meu e o corpo seu, é invisível quando corre e não existe quando pára. É um mistério, sopro de vida, não se vê. É um rio invisível. O rio corre e serpenteia nos cabelos da ninfeta. O rio empurra, balança a placa, flamula a roupa, empina a pipa, tonteia o falcão e no fim vira tufão, é um rio, de tão forte esse rio, quando passa assusta, levanta a saia. Quando passa por dentro da janela, procura saída na porta ou chaminé, se não há brecha, então pobre do rio, se represa e desmancha, rio nenhum nasceu para ser lago. Quem tem medo de frio não deixa o rio entrar, não deixa o rio sair, nesse rio parado, não vive peixe ou passarinho, só tem poeira velha.”

Zé Almeida, nem precisava dizer, quando viu os poemas nas janelas se enfureceu, arrancou todos os papéis e fez sermão. “o espírito de equipe está emperrado nessa empresa! Isso é uma sabotagem, quando descobrir quem fez isso eu ponho no olho da rua” Foi isso que ele disse. Um dos funcionários questionou “porque não podemos abrir a janela?”. “Mas para que janela se temos ar condicionado?”. “Se quer espírito de equipe”, pensou o neto do Austriaco, “deixe que o vento entre. É ele quem fica entre nós. É o vento quem nos une, quem nos entrelaça. Nenhum homem é uma ilha”. A alma é um sopro, não se entende a alma de alguns mas pode-se senti-la passar, o sopro do rio pelos pêlos eriçados. Se a alma é um sopro, o espírito de equipe é um sopro coletivo, gera vento, cria rios, e rios não ficam represados em escritórios, rios precisam de janelas abertas. São os rios invisíveis que trasnportam a liberdade, sem rios caudalosos, o naufrágio é o final.

Após o longo sermão, no qual Zé Almeida muito falava, e os funcionários apenas escutavam, foram todos juntos para o elevador. Sem cochichos pois o chefe estava perto. Algum gripado e espirrou. O espirro pairou e quando a porta se abriu, o vento carregou a umidade viral para a faringe do Zé Almeida, que chegou em casa com as janelas fechadas respirou o ar viciado de sua casa poeirenta e solitária. Nenhuma boa mulher aguentaria viver alí dentro com as janelas fechadas. Zé Almeida se masturbava muito, as vezes contratava algumas putas e conservava as janelas fechadas para manter o cheiro de sexo do lado de dentro do quarto. O cheiro durava até apodrecer, e impregnava a pele do Zé Almeida.

No outro dia trovoava. O nariz de Zé estava cheio de meleca seca e a garganta de catarro. Ardendo com a passagem da saliva. O vento lá fora trepidava, carregava os fios, ameaçou faltar luz. A chuva soando forte. Zé Almeida saiu de casa atrasado, atravessou o percurso diário, parei em frente o semáforo, percebeu a confusão, carros desordenados. Os semáforos sem sinalização, piscavam em amarelo constante, tudo isso porque o vento carregou uma nuvem cheia de água que maltratou a estação de energia, que por sua vez desestabilizou toda a cidade informatizada, mesmo com janelas fechadas os computadores encheram de água, e não havia por onde sair. Água represada.

Zé Almeida atravessou a pista, os carros estavam loucos, por causa dos sinais que estavam loucos, por culpa da central que estava louca, por culpa da chuva que estava louca, por culpa do vento, que afirmou em trovoadas, que era o dono da razão.
O atropelamento de Zé Almeida na Avenida Principal não pode ser evitado.
Naquele dia todas as janelas do décimo oitavo andar do amanheceram abertas pela força do rio invisível. Foi varrida a poeira e o mal humor. Ficaram boatos de que Zé Almeida não teve forças para proferir sua última palavra antes de morrer, só fez uma coisa, soprou.

Caderninho

In ficção on Março 24, 2008 at 5:16 am

Perdi o caderninho
Foi sumiço que levou
Tão bem foi escondido
No limbo se atracou

Aonde estará o caderno?
Terá alguém o roubado?
E fúteis escritos anotado?
Ai do caderninho, sindo tanto

Havia escrito um poeminha
Mas não quis que ela lesse
Trancafiei intimamente, selei
Ela veio, não leu. Nem eu

Aonde estaria o caderninho?
Quantas letras desperdiçadas
Quantas lembranças no oblívio
Perder a memória é perder a senha

Revirei o quarto, tudo no chão
Escancarei gaveta a gaveta
Arrombei os outros quartos
Dedilhei palavras chave

Tantas páginas lhe faltavam
Me dei por vencido então
Com desapego eu aceitei
O triste fim do caderninho

Foram-se as noites
E logo após um banho
Bem no meio das cuecas
Apanhei-te cadernhinho

Diamante e ouro

In ficção on Março 18, 2008 at 12:50 am

Inspirado pela música Diamond and Gold de Tom Waits

Um…
dois…
três…
Um…
dois…
três…
um…
Cavando e cavando
cavando e cavando
um…
dois…

A arma de Murilo Estorpenico apontada sincera e tremulamente hesitante para a frágil nuca do pobre Lirinha escavador. E lirinha cavando e cavando. Suor escorre às testas de ambos os homens. Uma gota desliza cuidadosa pela fronte direita do rosto enrugado de Murilo, aguardando a delimitação da cova. Várias gotas cachoeiram da testa de lirinha…
cavando…
cavando…

Murilo, equipado com seu guardachuva, terno de linho, está elegantemente posicionado, um dos braços estendidos, o dedo no gatilho. As duas bolsas no chão.
um…
dois…
Cavando e cavando
Cavando e cavando

A pá escava e retira a areia do buraco, abrindo o inevitável caminho do homem, a cova. O buraco sempre esteve alí, só foi necessário que alguém tirasse de dentro toda a terra. Foi a pá que, cavando, tratou de concretizar o potencial buraco no inevitável caminho do homem.

um…
dois…
três…
Sete palmos completos. Lirinha descansa sobre a pá, limpa com a mão a água da testa, desidratação.

Blam. Dispara a pistola de murilo. Os miolos de Lirinha voam pelo ar. Lirinha e a pá caem juntos no chão, quase abraçados, mas a cova ainda está vazia.

Murilo recolhe as duas sacolas, diamante e ouro. Pesadas sacolas, o fardo da vida, a riqueza material.

Murilo posiciona-se em frente a cova cavada pelo defundo Lirinha. Aponta a arma para a própria cabeça.

um…
dois..
blam…

Murilo estira-se de botas batidas, corpo rijo, olhos fechados, testa furada.
Terno de linho.
Diamante e ouro.
A cova ocupada.

A entrevista que não fiz

In ficção on Março 13, 2008 at 1:42 am

Toda vez que essa pessoa passa eu tenho mil perguntas a fazer, mas não é assim que funciona, certas perguntas nunca serão feitas. Porém a ficção anda comigo.

Você lembra de tudo?
Lembro sim, mas é como se eu não estivesse lá na hora. Eu lembro de cada detalhe, mas não parecia que estava fazendo aquilo, é como se estivesse desligado.

Teve algum prazer?
Não. Não foi prazer, eu não tava sentindo nada. Não. Tava não. Eu gostava dela, eu ainda gosto, como eu gostaria de fazer isso? Não, não, não teve nada disso.

E como você fez?
Eu estrangulei ela com as mãos, apertei a traqueia dela, senti um ossinho estralar no meu pescoço e ela ficou toda mole no meu braço, eu deixei ela cair com cuidado pra não se machucar, mas ela já tava morta. Eu deitei e fiquei um tempão olhando pro teto, a janela tava aberta e a brisa tava boa.

Você sente remorso?
Não sei distinguir o que é isso. É que nem queimação de estomago, todo mundo fala que sente, e tem remédios pra isso, mas se eu sentisse eu nem saberia dizer o que é, não sei dizer qual a diferença entre uma queimação de estômago e outra dor de estomago qualquer. Os meus sentimentos são confusos assim, eu não sei a diferença entre o remorso e outra emoção qualquer, é tudo embaralhado.

No outro dia após o crime ele tentou fugir, tentou escapar da cidade, pelo que eu soube o pai deu uma ajuda, mas demorou demais, foi pego quando estava cruzando a entrada do próximo estado. Foi preso, dentro da cadeia não consigo imaginar o que pode ter acontecido a ele, mas esta história não é sobre o que se passou com ele, e sim sobre como ele se sente em relação ao mundo após ter cometido um ato tão digno de arrependimento, e tão distante da redenção, o homicídio.

Da última vez que o ví, ele estava na rodoviária às 11h da noite. O ônibus chegou e a fila se desfez em uma massa humana entupindo a porta de entrada do ônibus, um homem tomou as dores das pessoas que esperavam na fila e alinhou-se a porta, começou a gritar “ninguém vai furar fila comigo aqui não!” Ele olhou pra mim, “você não estava na fila! Você não vai entrar! Não vai!”, eu recuei, era muita gente, foi quando ví o cara, o tal, o “entrevistado”, era um dos mais calmos da fila, todos alvoroçados, menos ele, aliás, ele sempre teve a fama de calmo. Esperava diante da fila com uma paciência tremenda, eu pensava sobre o que aquele sujeito poderia estar pensando. Sobre a impossibilidade de tomar uma ação como qualquer outra pessoa, o simples pensamento de tomar uma atitude violenta diante de uma fila bagunçada pode ser suficiente para desencadear lembranças do dia maldito em que se atreveu a tocar no pescoço de sua namorada com um intuito sinistro. Aquele cara, ele não está mais na cadeia, está solto, mas solto não quer dizer livre, pois imagino que a luta interna sejá constante, para o resto de sua vida lembrará que a mulher que o amou não está mais nesse mundo, e a culpa é toda dele.

Entre os homens não há piedade.
Que Deus tenha.

Amiga dos EUA

In Sem-categoria on Março 12, 2008 at 6:20 pm

Uma amiga de internet com quem converso me pediu uma descrição
Escrevo em português, mas não respeito a gramática
Moro com meus pais, mas gosto mesmo é de morar só
Leve inclinação anarquista, mas tenho personalidade autoritária
Eu tenho 26, mas todo mundo acha que tenho 20.
Morei lá no Paraná, em Curitiba, por um ano, depois morei em São Paulo mais um ano, mas sou Brasiliense mesmo.
1,83m
Moreno claro, se eu ficar nú na frente de um papel pardo, fico camuflado.
Tambem queria saber de música, mas não sei, até toco um pandeiro e finjo que toco gaita, mas não engano muita gente.
Não sou pai. Rss Sou solteiro de nascença.
Também gosto de sol, mas nesse exato momento que estou te escrevendo o céu tá cinza, chovendo um pouquinho e meus pés estão molhados.

Em busca do banal

In ficção on Março 10, 2008 at 8:29 pm

Tem um banquinho logo ali, vou sentar e prosear

“Não tem nada acontecendo. Não to conseguindo escrever. A impressão que me dá é que o curso de jornalismo tá me deixando com o texto muito metódico” foi o que Jonas estava pensando, sentado em um banquinho da praça do parque da cidade de Brasília.

Ele levantou a cabeça e observou a montanha russa descendo vertiginosamente em direção a pequena quase morte do susto da queda, passageiros gritavam desesperados para no fim entregarem-se ao marasmo da vida do lado de fora dos trilhos. “Quando a gente tá mais seguro nessa vida, aí é que a gente vê como é bom passar medo, perigo e borrar as calças de medo” Jonas estava pensando bastante hoje, mas o quadro da casa dele estava vazio, nem uma pincelada, e eram preciso muitas destas para botar algo na tela, algo que ele pudesse ganhar alguns trocados vendendo na torre de TV.

“Diabo de crise criativa” uma moça passando deixou cair um pedaço de pano, tava molhado o pano e a maquiagem no rosto da moça manchada, “o que será que aconteceu”. Esse porra desse jonas não sabia mais imaginar nem criar bosta nenhuma, só observar.

Jonas agora tinha um papel diferente no mundo, não era mais criar acontecimentos vertiginosos e realizar descidas constantes na montanha Russa, ele tornara-se um fotografo da vida, buscava agora os momentos banais e simples pós montanha russa, e se reparar existem muitos, veja só, a menina que gritava, agora vomita. O garoto que jogou um cuspe pro alto agora foi comer algodão doce. Um monte de coisas acontecendo, a caneta de Jonas já não inventa mais nada, copia e cola, copia e cola, copia e cola. E os momentos mais impressionantes são aqueles próximos do chão, bem longe da montanha russa.

Excelsa morada (1/2)

In ficção on Março 9, 2008 at 9:39 pm

Primeira parte de um antigo conto

Você acorda encostado na quina da parede, sentado. Está usando uma bela calça social e um terno justo ao seu corpo. Suas mãos revestidas com luvas de pano branco e os pés calçados com sapatos caros de bico quadrado. Não entende porque está ali, não lembra seu nome e não tem a mínima informação a seu respeito.
Essa cena lhe parece familiar, no entanto é como se fosse produto de um sonho. O problema é que você nem sequer sabe se existia até minutos antes deste momento. Você se levanta com certa dificuldade, seus músculos estão doloridos como se não se movessem há muito tempo. Seu pescoço dói e as pontas de seus dedos estão pétreas, os olhos custam a se acostumar com a luz da sala.
As paredes da casa são cor-de-rosa, de um plástico resistente, no entanto são finas, seria possível ouvir o que se passa do outro lado, se não houvesse o mais absoluto silêncio. Não existem móveis na sala, somente uma escada, também de plástico. Você pode subir para o próximo andar.
Um porão cor de rosa, você ri, é tudo tão perfeito… e tão falso. Você pensa se aqui as pessoas serão feitas de plástico também, com suas belas aparências, máscaras de plástico. Existe essência sobre o plástico, ou serão todas ocas? Como bonecos?
Você sobe as escadas até o próximo andar, plástico e plástico por todos os lados. O papel de parede é de um adesivo vagabundo, imita a mobília da casa, bidimensional. O cor-de-rosa fino e infinito, super resistente, ânsia de vômito.
Você investiga algumas salas, janelas escuras. Uma misteriosa névoa silenciosa envolve toda a casa, bloqueia as janelas. A frágil porta de entrada está trancada, nem se move. Você se senta em um pequeno sofá de plástico da sala de estar, desproporcional ao seu tamanho, mas suficiente ao seu cansaço.
Como você veio parar aqui? – que estranho referir-se a si mesmo em terceira pessoa.
De onde veio, porque está aqui? Terá alguém lhe empurrado neste maldito lugar com algum propósito? O que há para se fazer? Quais são os seus objetivos aqui? É preciso ficar ou insistir uma saída na porta?
Apesar da familiaridade, sua memória não colabora. Você está completamente esquecido. Se alguém lhe deixou aqui, este alguém não se importa com você. Mas será realmente que “alguém” lhe deixou por aqui? Talvez você tenha chegado por engano. Por acaso.
Big Bang.
As diversas hipóteses lhe dão tempo para descansar o corpo, mas a mente se alardeia. Ficar parado não lhe levará a lugar nenhum, mas apesar de tudo estes pensamentos lhe motivam. Sugerem um objetivo. Acusam a filosofia de doença, uma infindável busca por respostas que se multiplicam em novas perguntas, porém, o fato de erguerem você de um sofá plastificado para encontrar estas respostas já é um bom motivo para se filosofar, talvez a filosofia não valha pelo seu objetivo, mas pela vontade que elas podem criar na alma de um indivíduo, aliás, pela alma que a filosofia lhe cede, a troco da busca. A força de vontade a troco da busca. Da busca sem fim e sem significado. A falta de significado em sua busca não o assusta, não há significado algum em ser o que quer que se seja. Não se pode desprezar a vida baseado no argumento de que ela não possui sentido, seria subordina-la a um conceito humano menor que a própria vida, a razão.

Os dias se passam, o silêncio é propício a evolução de seus pensamentos, às novas perguntas que lhe surgem, e a loucura que a inexistência de respostas podem causar.
Dois dias depois e você está morrendo de fome. É necessário explorar partes da casa que ainda não ousou explorar. Terá que subir a sinistra escada de plástico revestida com papel adesivo de estampa de madeira para descobrir algo por lá.

São diversos corredores, mobília falsa, papel de parede, lugares fechados. Um belo jardim de flores sem vida. Você precisa de comida, mas teme que seja falsa também.
Você se lembra das frutas de plástico, daquelas que as donas de casa usam para enfeitar a mesa de jantar. O motivo? Elas não morrem, não apodrecem, mas também não alimentam. Você costuma chamá-las de pequenas hipocrisias. É assim que começa a hipocrisia humana, aceitando pequenas frutas de plástico sobre suas mesas, e aos poucos, quando menos se percebe as hipocrisias já estão enormes, sem controle, é falta de amor. Não há nada a se sorver de vida nem de saber, de uma fruta de plástico. São tóxicas.
Você não se lembra de nenhuma experiência antes de aparecer nesta casa, mas estranhamente conhece os hábitos da vida comum, as frutas de plástico. Em um esforço mental você tenta associar as frutas de plástico a qualquer outra lembrança, tenta encontrar as suas próprias hipocrisias. Qual foi a última vez que disse eu te amo quando na verdade queria estar com outra pessoa? Essa seria uma hipocrisia e tanto, serviria de base para que se lembrasse de todo o resto de sua vida. Mas não lembra, nem disso. As pequenas hipocrisias cegam aos poucos tudo o que significa alguma coisa em sua vida.
Sua sensação é a de nunca ter existido. Os flashbacks de vagas lembranças são sempre impessoais, de um passado que não parece ter sido o seu, mas sim um passado coletivo, comum a todos nós.
Você só está na casa há três dias, mas é como se fosse a eternidade. As horas não passam no relógio de plástico.
Cada novo pedaço da casa que você conhece lhe traz a sensação de já o haver conhecido previamente, a surpresa do novo não existe. Você pensa que irá se surpreender com o próximo aposento, mas é sempre a mesma sensação:
“Eu já estive aqui.”
Apatia.
Esta “quase lembrança”, esta sensação de já ter passado por isso antes lhe causa um desapego, seus olhos não escondem o tédio. O tédio lastimável das pessoas indiferentes, um olhar elegante, blasé, tão imperceptivelmente triste.
Procurando por algo no sótão da casa nada encontra alem de um quarto vazio que dá para o teto inclinado 45 graus sobre a sua cabeça. O quarto tem cheiro de coisa nova. Presente de dia das crianças. Sempre que você compra algo novo (não que tenha lembrado de algo que já comprou) você se lembra desse cheiro de coisa nova. E lembra-se que gostava desse cheiro, mas agora a história é outra, esse cheiro de coisa nova está em você, em sua casa. Embrulho no estômago.
(continua…)

Excelsa morada (2/2)

In ficção on Março 9, 2008 at 9:39 pm

(…continuação)

Segunda parte de um antigo conto

Dois dias na casa e nada.
Você perde o resto do seu segundo dia na casa tentando encontrar algo para comer ou para beber. A sensação de fome e sede é enorme, mas depois de dois dias sem comer, a fome passa como se nunca tivesse existido. Depois de algumas horas você dorme no sótão da casa e tem alguns sonhos estranhos. Havia alguém dentro da casa. Essa mulher viveu com você por muitos anos e nunca abriu a boca para expressar um sentimento real. Eram muitos “eu te amo” ditos a força, por obrigação, necessidade de convívio civilizado. Você se lembra de estar feliz. De achar estar feliz. Você acorda com a sensação de calor, mas não está suado.
Tudo a sua volta parece falso. Você mora numa casa de plástico.
Existe algum propósito?
Cheiro de novo, belos estofados de plástico, desconfortáveis como pedra, e bela arte em um quadro falso.Desesperado, você corre, desce a escadaria. Não há comida ou saída. A porta do térreo cede facilmente, você está do lado de fora. Tudo está escuro.

Você anda na penumbra e esbarra na parede de papel. Um material resistente, diversas camadas de papel. Tateando pela parede você busca por uma saída. Após alguns minutos, desiste de achar saídas e tenta criar a sua própria. Começa a rasgar o papel da parede, por ser muito espesso e ter várias camadas suas unhas se quebram. Seu desespero é maior do que qualquer preocupação com unhas. Como um rato, você cava.
Você se lembra de ter criado aquele pequeno ratinho que escapou de sua caixa de papelão? Se lembra de como ele fugiu e se escondeu por vários dias atrás da pia do armário do banheiro? O papo dele estava enorme, cheio de comida que ele havia conservado para a fuga. Quando sair deste lugar você não estará tão indefeso quanto o rato. Mas a pessoa que fez isso pagará. Você não admite ser enjaulado. Vingança!
Apenas por um milagre você ainda está vivo.
Esqueça. Não há o que cavar. Você sobe novamente para o ponto mais alto da casa, o teto inclinado em 45 graus. Uma luz podia ser vista através da parede.
Essa luz, a mesma luz que iluminava a casa toda. Pelo fato de que toda a casa era feita de plástico a luz ultrapassava cada parede deixando toda a casa esguiamente iluminada. No segundo andar uma das janelas lhe dá acesso ao teto da casa, tirando forças não se sabe de onde você escala a casa pelo lado de fora. O pensamento de escapar lhe move o corpo, não há medo nem hesitação.
Pulando para cima do telhado da casa, você sobe até o alto. A estranha parede de papel que fazia a volta por toda a casa fecha-se em cima de você como se fosse uma grande caixa envolvendo a casa. Subindo para o topo do telhado, você pode alcançar a pequena abertura que existe em cima da caixa. O lugar de onde emana tanta luz. E com enorme esforço, você passa para o lado de fora da caixa, escapando por fim do terror que ali está contido.
Uma pessoa mais fraca enlouqueceria com tanto sacrifício, mas o terror do lado de dentro da caixa abissal nada se compara ao que existe do lado de fora. Uma voz aguda e estridente ameaça seus tímpanos.
__ Você escapou. Andou vendo coisas que não devia! Agora é hora de descansar um pouco. Depois disso eu te coloco dentro da caixa novamente.
Uma gigante mão infantil lhe segura pela cintura, levando-o até uma plataforma vinte metros sobre o chão. Nesta plataforma está sentada a mesma mulher com quem sonhou, empalidecida, plastificada. Eu te amo. Inexpressiva. Pernas estiradas. Os olhos mortos, focam no infinito.
A mão que lhe carregou, entorta o seu corpo, aplicando-lhe força sobre o abdômen para que fique curvado, com as pernas esticadas. Você é obrigado a sentar-se alinhavado perfeitamente à mulher de seu sonho. A mulher dos seus sonhos.
Você quer falar com ela, mas não é possível. Seus pensamentos emborrachados sentem dificuldades de propagação no hemisfério mental.
A paz está de volta. Os pensamentos inquietantes já se foram. Não há lembranças, somente esta estranha calma que conforta.
Sua curta existência se encerra com as despedidas de boa noite da dona da abissal mão infantil. Você tem certeza que amanhã seu mundo encantado recomeça, assim que a voz divina voltar da escola.
Quando Deus vier brincar com você.