Gustavo

O cineasta deve fazer o filme que precisa fazer

In Sem categoria on Fevereiro 25, 2008 at 8:41 pm

Entrevista com o jornalista e cineasta Pernambucano Kleber Mendonça Filho, sobre sua vida e pensamento intimamente ligados ao cinema

Por Gustavo Serrate

Pernambuco é o berço de muitos artistas destacados por sua simplicidade e impacto. O medo de que o avante cultural fosse apenas um espasmo temporário passou, já fazem mais de 10 anos desde o início da explosão cultural pernambucana. Kleber Mendonça é um cidadão de Recife, o cineasta é reconhecido desde 2003 por seus curta-metragens e lança-se agora na produção de dois novos longas. A identidade de Kleber Mendonça está presente em todos os seus filmes, e um traço marcante é a abertura da obra para diversas interpretações. No processo criativo do curta Vinil Verde, inspirado em um conto do folclore Russo, Kleber descobriu a própria motivação para a feitura do filme, “eu estava colocando para fora as coisas que senti durante a morte da minha mãe”, mas o curta é sujeito a toda sorte de interpretações “houve quem dissesse que o curta falasse sobre a proibição da maconha (…)”, e sobre o Eletrodoméstica “(…)na França disseram que foi uma releitura do Romance Madame Bovary”. São várias as interpretações, e o talento do realizador é perceptível, Kleber aponta caminhos àqueles que não possuem talento, mas possuem bom senso, e observa a existência de castas na produção cinematográfica, castas que estão caindo com a popularização do cinema digital.

Kleber Mendonça Filho é cineasta e jornalista especializado em crítica para cinema. Trabalha como crítico profissional de cinema para o Jornal do Comércio e alimenta seu site especializado em cinema, Cinemascópio, há mais de 9 anos e está em reformulação. Dirigiu diversos curtas premiados no Brasil e no exterior: A menina do Algodão (2002), Vinil Verde (2004), Eletrodoméstica (2005), Noite de Sexta, manhã de sábado (2007). Kleber ruma agora para a carreira de longa-metragens com o lançamento de seu primeiro longa, o documentário: Crítico, sobre “ver e fazer filmes”, segundo suas palavras. O cineasta prepara a produção de um novo ficção-documental chamado Recife Frio, uma alegoria para fenômenos sociais e psicológicos que ocorrem em Recife.

(entrevista bruta, realizada por telefone e sem cortes)

Gostaria que falasse um pouco sobre seus projetos em andamento e futuras idéias.
Bom, eu, to conseguindo manter um ritmo desde 2003, um filme por ano. Teve a menina do algodão, Vinil Verde, Eletrodoméstica. Aí eu to fazendo atualmente um curta que ganhou um prêmio na Petrobras que se chama “Recife Frio”.

É ficção ou documental?
É os dois na verdade. É um falso documentário. Na melhor das hipóteses ele vai parecer um documentário bem verdadeiro, pelo absurdo do tema, as pessoas vão entender que não é um documentário, mas ele se comporta exatamente como um documentário. O filme é sobre uma mudança que acontece no clima de Recife, ele passa a ser uma cidade fria em vez de uma cidade tropical. No filme a idéia é fazer um documentário de uma TV francesa sobre essa cidade do Brasil que deixou de ser tropical e tornou-se fria.

Transformando a realidade em ficção.
É mas, muita coisa do filme são observações bem reais sobre o que eu acho que está acontecendo no Recife hoje em dia. Não tão em questões climáticas, mas em questões urbanísticas, etc, mas esse é o filme que estou fazendo atualmente, eu imagino que ele fique pronto ainda esse ano, espero. Mas antes desse filme eu terminei um documentário de longa-metragem chamado O CRÍTICO, que reune nove anos de entrevistas que eu fiz no Brasil e fora do Brasil sobre Críticos.

Você se formou em jornalismo nessa época?
Não, me formei em jornalismo em 92, nos anos 90 eu fiz muito video, mas eu me cansei da pouca exposição que o video tinha na época, e eu acho que de lá pra cá houve uma melhoria com o digital. O digital ganhou uma certa nobreza em relação à película. Mas aí eu de fato cansei nos anos 90, aí eu dei uma parada, em 97 eu fui escrever sobre cinema no jornal do comércio, e aí me dediquei entre 97 à 2002 cem por cento à jornalismo na área de cinema como crítico. Em 2002 quando o digital já tinha se petrificado, eu partí pra uma nova fase das coisas, e de lá pra cá eu tenho tido bons resultados e muito mais exposição do que eu tive nos anos 90 com o video.
O digital me permitiu a fazer em casa o que eu antes fazia com apoio super complicado. A menina do Algodão, que você viu, foi feito por mim e por Daniel Bandeira, a equipe tinha duas pessoas, ele inclusive é o ator do filme, mas ele fez a montagem comigo, tinha uma câmera de 1ccd, e é um filme extremamente simples, mas era um filme dimensionado para ser o que ele é. Tem a simplicidade, mas isso funciona a fazer dele.

Aliás, o que marca os seus filmes é essa simplicidade.
Eu acho que eu tenho um interesse muito grande pela concepção da idéia do filme. Eu sempre me pergunto se uma determinada idéia vale a pena todo o trabalho de fazer um filme, algumas idéias elas são muito simples, mas mesmo simples elas se seguram. Eu acho que essa coisa, a concepção do roteiro e o conflito humano é uma coisa que me interessa muito.

E como é a sua busca para encontrar a próxima história?
Até agora eu acho que… eu não tive um filme que não fosse assim, mas todos os meus filmes que fiz até agora, e o longa que estou escrevendo agora, são muito pessoais. Então são observações muito pessoais minhas sobre aspectos que estão sempre muito por perto. Significa que eu faço filmes monotemáticos, eu acho que você como pessoa, você pode ser afetado, você pode ser marcado por vários aspectos diferentes da vida. Por exemplo a Menina do Algodão é um filme sobre um medo muito infantil, e uma experiência de medo que eu já tive quando eu estava no primário numa escola, era uma idéia, uma lenda urbana de que no banheiro tinha uma menina morta, e isso, na época, eu e meus amigos esperávamos horas pra fazer xixi em casa, pra você ter uma idéia do medo que isso era. E de alguma maneira você cresce, fica adulto e ainda lembra daquele medo.
O ser humano sempre vai ter medo, e aí eu achei que era uma idéia boa pra fazer um filme de gênero, que é muito raro no Brasil na verdade. Um filme de gênero muito brasileiro, sem castelos na transilvânia, nem serial killers como nos Estados Unidos. Um filme bem simples, feito aqui no Recife. E Vinil Verde também é um filme que segue um pouco, mas é um pouco mais complexo. O menina do algodão é muito simples, ele é aquilo.
A idéia do Vinil Verde foi o seguinte, uma amiga Ucraniana, que eu terminei fazendo o Noite de Sexta (manhã de sábado) com ela, ela viu o Menina do Algodão e imediatamente ela falou “me lembra várias histórias que eu ouvia quando era criança, na escola na Ucrânia”. E aí ela achou um site onde tinha uma antologia de histórias para criança, e ela lembrava muito dessa que era fantástica, e conseguiu ler exatamente a versão correta da história, porque na cabeça dela já tinha variado muito, e aí ela leu a história das luvas verdes, que é uma história essencialmente sobre a perda da inocência, o amadurecimento de uma criança e aí quando eu ouvi a história eu achei incrivelmente forte, muito dentro dessa idéia da fábula Russa, porque a fábula Russa é extremamente dura, ela é muito poética, e ela tem uma verdade que assusta. Acho que é um pouco da própria alma Russa, você lê a literatura Russa, é uma literatura que choca muitas vezes, mas ela choca com a beleza, ela não choca com táticas vulgares, o choque vem através da beleza. Isso é uma coisa notável na literatura, nas fábulas russas. Eu achei que eu teria que fazer um filme que honrasse essa atmosfera, essa filosofia do choque, é forte, mas ao mesmo tempo é muito bonito, e eu acho que é aí que o filme chama a atenção de muita gente, porque o Vinil Verde, embora o eletrodomésticas seja tecnicamente um filme mais bem sucedido, mas eu acho que o Vinil Verde é um filme mais amado.

Deve ter sido dificílimo filmar o Vinil Verde.
Na verdade não tanto, porque em 94 eu fiz um video que entrou nessa leva dos videos pouco vistos chamado “Paz à esta casa”, que é um filme muito curto, tem um minuto e meio, que é sobre a demolição de uma casa. Eu fiz todo com uma seqüência de fotografias animadas e na época do Vinil Verde eu estava influenciado por um filme chamado La Jetée (Chris Marker, 1962), é considerado um dos grandes curtas metragens da história do cinema. E é um filme todo feito com fotografias, é um foto romance, porque o Vinil Verde envolvia elementos fantásticos, principalmente a coisa da mutilação, a escolha óbvia seria evitar o filme normal, com movimentação, até porque teria efeitos especiais, seria difícil, e transformar o filme numa espécie de livro de histórias infantis animadas. Então é muito difícil de fato você arquitetar o filme.

Você decupou tudo em papel?
Eu decupei olhando pelo visor da câmera, no apartamento onde a gente tava filmando. Mas a grande dificuldade desse filme, eu tenho que te dizer que isso veio naturalmente, mas pensando agora, a grande dificuldade do filme é você decidir quais são as imagens importantes. Porque num filme normal você tem imagens a 24 quadros por segundo, no Vinil Verde você tem as vezes 4 imagens por minuto, dependendo da cena. Então você tem sempre ver quais são as imagens importantes e quais você não vai usar, não na montagem, mas na filmagem, isso talvez seja a parte mais difícil do filme. Mas foi um filme muito bonito de fazer com a Verônica e Gabriela, que são mãe e filha. Foi feito no apartamento delas, e é um filme que geralmente ele tem uma resposta, algumas pessoas obviamente não reagem bem porque consideram o filme muito estranho, ou simplesmente não entram, não fazem parte. Mas quem entra geralmente entra e sai bem mexido do filme, é um filme que eu acho que é muito pessoal porque na verdade durante o processo de montagem eu meio que entendi a minha atração pelo filme, e nesse sentido eu entendi que o filme era uma espécie de, eu estava colocando para fora algumas das coisas que eu senti na morte da minha mãe. Então isso foi um processo bem complicado pra mim durante a montagem.

E tem alguma relação com culpa também? A questão da menina que faz algo independente da ordem da mãe.
Essa é a interpretação que cada um tem, mas eu pessoalmente não acho que é um filme tanto sobre a culpa, eu acho que é um filme sobre processos impossíveis de serem mudados. A gente é o que é, e nós não temos como mudar isso. Então a vida faz com que você faça as coisas da maneira como elas são feitas, então por mais que a mãe fale “não faça isso”, a menina vai e faz. Eu acho que é uma questão de processo irreversível da vida, do tempo.
Tem muitas interpretações, outro dia eu recebi um e-mail de um cara dizendo que o filme na verdade era sobre a proibição da maconha. Não sei muito bem o que dizer sobre um e-mail desses (risos), mas se funciona para ele dessa forma.

E sobre as críticas que você recebe. Quais foram as melhores, que te deram uma nova interpretação sobre a sua própria obra?
Eu ouví na França uma interpretação interessante sobre o eletrodoméstica dizendo que era uma revisão do Madame Bovary (Romance clássico de Flaubert, realizado por Claude Chabrol em 1991), e nunca tinha passado isso pela minha cabeça, mas faz total sentido, aliás sentido até de que é uma versão moderna do Madame Bovary, porque o amante dela seria uma maquina. Mas eu não sei, tem críticas inteligentes positivas que são as melhores, tem críticas burras e positivas que são indiferentes, tem críticas inteligentes e negativas e tem críticas negativas que são estúpidas. Teve uma no festival de Brasília que para falar bem do Noite de Sexta, o cara decidiu falar mal do Vinil Verde “dois anos depois de mostrar o trash ridículo Vinil Verde, ele vem agora com um filme realmente bom”, alguma coisa assim. Você não tem nem como repudiar uma crítica dessa porque ela é tão estranha que ela bate e volta. Mas até agora eu tenho que admitir que eu fui bem mimado pela recepção dos meus filmes, as críticas negativas elas foram mais nesse sentido. Porque acho que o grande medo do cineasta é ele ver uma crítica negativa mas ele concorda e ele diz “Caralho. Tirou minha roupa aqui”. Isso até agora não aconteceu não.

E em relação ao “Noite de Sexta, Manhã de Sábado”, gostaria de saber sobre essa mudança total de linguagem em relação aos seus outros filmes, que eram mais formalistas, e neste caso é bem mais livre.
É porque cada filme exige uma linguagem. Uma noite de sexta exigiu uma outra linguagem por ter sido feito… é um filme muito feito, literalmente nas carreiras, no susto, e não tinha como estudar os enquadramentos, tinha que fazer de uma maneira muito intuitiva, e de fato muita gente ficou espantada com o Noite de sexta por ser um filme completamente diferente. Além disso ele é um filme de amor, então outras pessoas acharam estranho, porque supostamente uma pessoa que trabalha com sarcasmo, e uma certa acidez, e agora um filme mais doce, digamos assim. Mas é um filme doce com um final bem amargo também.

As pessoas já devem esperar uma continuidade de seus trabalhos anteriores.
É, mas a continuidade, ela vem na obra, não vem a cada trabalho, você pode negar às pessoas o que elas estão esperando, eu acho isso muito bom também. Há uma certa expectativa, e essa expectativa tem que ser satisfeita num nível de qualidade, e não no nível temático, e o Recife Frio mesmo vai ser diferente de todos os filmes, mas o longa de ficção ele provavelmente vai estar mais perto do eletrodoméstica. Eu adoraria fazer um longa de ficção diferente desses todos, mas o que tá entrando na minha cabeça agora é voltar para esse universo do Recife.

E essa questão dessa narrativa que não é tradicional, ela segue o acaso.
Isso é um problema, não um problema para o filme pronto, mas um problema prático para o realizado que está submetendo o roteiro para um edital, por exemplo. O eletrodoméstica passou 8 anos no inferno dos editais sem nunca ser selecionado. Uma vez eu tive o retorno de uma pessoa que estava em um edital (não ela assumindo nenhuma culpa pelo filme não ter sido selecionado, mas ela me repassando o que falaram) “eles disseram que não acontecia nada no filme”. Isso para um roteiro é um pouco complicado, você fazer um roteiro que não tem uma história, sabe, uma história que numa sinopse você queira ver aquele filme, que é o mais normal. Mas infelizmente eu tenho um pouco de medo do longa nesse sentido porque o longa são observações da vida numa vizinhança de classe média, então, eu até acho que as observações são interessantes, mas eu não sei se a norma dos editais vai passar como algo interessante, isso é um problema.

E você acha que o caminho do cinema é nessa direção da narrativa que escapa da narrativa clássica?
Eu não sei, o cinema é muito grande, tem muita gente fazendo muita coisa. Mas eu tava agora trabalhando na cobertura, como crítico, do festival de Berlim, e sendo bem seco, ví uns cinco filmes Brasileiros em Berlim, três eram filmes de favela e o Tropa de Elite que é um filme de favela ganhou um Leão de Ouro. Tropa de Elite, antes do Urso de Ouro, Tropa de Elite já era um dos filmes brasileiros mais importantes dessa década, junto com Cidade de Deus que é outro filme de favela. Sem entrar nas qualidades individuais de cada filme, me parece que há uma movimentação, pelo menos no sentido de mercado, de valorizar, cada vez mais filmes feitos onde os realizadores não tenham o nível pessoal deles, ou seja, os realizadores brasileiros que fazem cinema não moram em favelas, mas de alguma maneira eles fazem filmes muito bem sucedidos de favela. Eu a princípio não faria um filme numa favela, por eu não ter a experiência pessoal da favela. Eu teria muita preocupação de fazer um filme onde eu mesmo criticaria o que eu estivesse vendo. Então eu faço filmes ao meu redor, e o meu longa deve ser isso, e os curtas com certeza foram até agora, e de alguma maneira eles tem funcionado, eu espero que existam partes suficientes do cinema brasileiro para que existam filmes super bem produzidos sobre favela e filmes super bem produzidos pessoais, e documentários e comédias. Eu espero que cada um tenha a chance de fazer seu filme, e o filme pronto, que cada filme seja devidamente valorizado, dependendo do valor dele.

E você começando a fazer longas, pretende voltar ao curta-metragem?
Essa é uma pergunta boa porque eu sempre me pergunto porque gente como Jorge Furtado, Beto Brant que surgiram no curta metragem e passaram para o longa, nunca mais voltaram para o curta. E antes eu tinha uma defesa, e até criticava ou via isso com maus olhos, mas hoje eu entendo como funciona, porque uma coisa que você só entende quando você percorre todas as hierarquias do audiovisual, e quando você não percorre você não entende isso, porque você não consegue sentir isso, é que de fato existe uma série de castas, classes, dentro do audiovisual. É como eu te falei, nos anos 90 eu fiz video e ninguém viu. Aí na década de 2000 eu faço curta em 35mm e todo mundo vê, só que nada se compara a se ter um longa metragem em termos de exposição, porque os meus filmes são super bem sucedidos, mas eles ainda ficam presos no gueto do curta metragem, passa só no Canal Brasil, ou seja, dentro do universo do curta metragem eles extrapolaram, foram para fora do Brasil em dezenas de festivais, mas dentro do universo do curta. Mas nada disso se compara à exposição que se pode ter com o longa metragem. É como se fosse uma droga que faz com que o cineasta não queira mais voltar para o curta, porque o curta, é o que eu disse, não se compara em termos de retorno, e satisfação pessoal de ter seu trabalho visto. Isso que eu to começando a entender agora, isso é complicado para um cineasta porque fazer um filme é muito difícil. Você precisa de muito tempo e dedicação e se você ficar num curta metragem durante 6 ou 7 meses e de repente ele não será visto. Agora, ao mesmo tempo que eu falo isso, o Eletrodoméstica e o Vinil Verde tiveram muito mais exposição do que vários longas, isso é triste, quer dizer, é bom pra mim, mas é triste pra muitos diretores. Mas de qualquer maneira, mas não sei responder se uma vez fazendo longa, eu vou voltar ao curta, eu espero que sim.

Qual você acha que é a importância de se fazer o curta metragem?
Bom, curta metragem é bem mais acessível do que um longa, com a tecnologia você pode. Informalmente há uma noção que eu não acho errada, de que é interessante você fazer curtas até para exercitar seja lá que talento você tem. E caso você não tenha talento, e tenha bom senso, o que obviamente não acontece (riso) é interessante você dizer “ok, eu não tenho talento, vou partir para produção, ou para fazer qualquer outra coisa”. Mas o curta metragem ele cresce como um, ele pra mim é tão importante quanto um longa, mas existe uma hierarquia de não ver as coisas assim. Então tem que ser prático. É claro, aquele filme que eu falei, o La Jeteé, é um filme mais conhecido do que milhares de longas que tem por aí, é um filme importantíssimo. Pra mim alguns longas deveriam abrir para alguns curtas. Mas tem o outro lado, o lado de hierarquia.

E qual a sua ligação com a Russia? Tem alguma raiz de lá?
Não não. Mas eu amo o cinema russo, a literatura Russa. Tem um casal chamado Elem Klimov e Larisa Shepitko, por acaso eles eram um casal, mas separadamente fizeram filmes maravilhosos, me interesso muito. O Elem fez um filme chamado Vá e veja (Come and See – 1985) é um filme, cada pessoa que viu esse filme, meio que… virou pedra. É impressionante. É um filme de guerra que acabou com todos os filmes de guerra que eu já tinha visto antes. Esse cara é uma influência bem forte, embora eu até me sinta constrangido de dizer que um dia eu vou fazer algum filme que seja dois por cento do filme que ele fez. É claro, Tarkovski, que faz parte do imaginário de todos os estudantes de cinema, o Eisenstein. A Larissa fez um outro filme em 76 e ganhou o Urso de Ouro em Berlim, A ascensão. Também realmente especial. Mas é um cinema que tem algo de muito especial, tem um filme chamado, Quando voam as cegonhas, do Mikhail Kalatosov, é um filme de 58, tem em DVD no Brasil inclusive. Incrível o filme.

O cinema Russo é bem diferente, parece ter se desenvolvido paralelamente ao nosso do ocidente.
Mas é isso que aconteceu, na época do comunismo, da união soviética, era um mundo paralelo mesmo. Ao mesmo tempo em que era paralelo, eram filmes absolutamente… não tem nada alienígena no filme, eram filmes sobre gente, filmes humanos, mas a forma de tratar é realmente muito diferente.

E como está a vida cinematográfica aí em Pernambuco?
Tem uma produção bem interessante aqui, o nível de acerto eu acho que é alto, pernambuco está se destacando em festivais. Já são 13 anos dessa nova fase do cinema Pernambucano, começou com Baile Perfumado, e o medo era que fosse um espasmo temporário, porque a história do cinema é feita de ciclos que acabam em no máximo 10 anos. Espera-se que fosse mais um espasmo de Recife, mas eu acho que com a tecnologia digital, está mais que garantido que isso vá continuar, aliás, isso está acontecendo no mundo inteiro, as hierarquias caíram, ou estão caindo. Hoje por exemplo o Daniel Bandeira que fez o Menina do Algodão comigo, apresentou com 25 anos de idade um longa metragem no festival em Brasília. Ele fez um longa com uma câmera digital e 48 mil reais para filmar. Isso até 10 anos atrás seria impossível, e aí Daniel quebrou várias hierarquias. Acho que há 15 anos atrás Daniel chegaria ao longa talvez com 40 anos. Porque submete a edital, aí passa na frente todo mundo que tem mais currículo, aí tem que fazer mais curtas, ganhar mais prêmios, ai quem sabe com 35 ele ganha o prêmio de roteiro pra organizar o filme. E agora isso está acontecendo no mundo inteiro, tem uma leva nova de um bando de fedelhos de 22 e 23 anos. Eu to acompanhando, faço programação de umas salas, a gente exibe muitos curtas, eu recebo DVD pra dar uma olhada na montagem do filme novo, e agora pelo que eu to vendo a coisa vai continuar. Não só continuar, mas está se renovando. Estão fazendo muito filme em cima do folclore, mesmo que seja um folclore pop, Baile Perfumado era folclore pop, mas era folclore. Mas atualmente ainda tem esse pessoal mais velho fazendo essa coisa mais folclórica, e jovens fazendo uma coisa completamente fora dos padrões do que se espera do cinema pernambucano. Os meus filmes mesmo não se encaixam muito nessa coisa do folclore, são filmes mais, sei lá, são pernambucanos.

A impressão que a gente tem aqui de fora é que com a chegada do Manguebeat Recife se revirou totalmente não só na música, mas em todo cenário cultural.
É totalmente coerente isso. A chegada do manguebeat virou a cabeça de todo mundo, porque o manguebeat é normalmente associado à música, mas não é só isso, a partir do momento que surgiu uma banda, essa banda queria fazer um clipe. Aí eram feitas alianças e parcerias, quem tava querendo fazer cinema, ia fazer esse clipe, ai chama neguinho que trabalhava com design pra fazer a capa do disco. Movimentou muito o Recife. Recife tem uma certa aura difícil de definir, mas Recife tem uma bagagem cultural muito grande, muito fértil pra provocar reação. Isso tem funcionado de alguma maneira, tem feito as coisas acontecerem. É como eu falei, eu posso até não gostar de vários filmes, mas reconheço que são filmes sérios que foram feitos por pessoas que estão tentando dizer algo pessoal naquele filme, você vê filmes que a maioria em festival de curta, são filmes que qualquer um poderia ter feito, vem pré formatados, como um template do Corel Draw. Eu acho que a maior qualidade aqui do Recife é que tem filmes que você vê que só poderiam ter sido feitos por aquele cara. E isso, bom ou ruim, é uma coisa que deve ser valorizada.

Só para finalizar, o que você tem a dizer para essa fornada de jovens que está chegando com o cinema digital? Talvez um conselho que você gostaria de ter ouvido quando estava começando.
Eu acho que cada um tem que fazer o filme que… eu acho inclusive que estamos superando uma certa frase, dez anos atrás eu ouví, numa reunião uma coisa pavorosa, naquela época eu já tinha noção de quão pavorosa foi aquela coisa que eu ouví. O cara estava falando que ele tinha um roteiro que era sobre a paixão que ele tinha pela prima dele, mas ele na verdade ia colocar no próxima edital um roteiro sobre Maracatú porque disseram que tinha mais chance de ganhar, e eu achei isso pavoroso, eu falei pra ele “não faça isso não, eu quero ver o filme sobre a sua prima”, maracatú já tem quarenta outros documentários aí na televisão, é muito improvável que você vá acrescentar qualquer coisa de novo em relação a isso. Eu acho que cada um tem que fazer o filme que precisa fazer, sem pensar nas modas e nas tendências e nas questões de editais. Eu acho que isso está acabando aqui no Recife, pelo menos na coisa dos editais. Em 97 eu fiz um filme chamado enjaulado, e era um filme totalmente urbano, mas as pessoas reclamaram que em vez de fazer um filme de folclore eu vou fazer um filme em apartamento. Ou seja, eu não acho que hoje em dia eu ouviria uma coisa dessas, o panorama já está muito mais diversificado, você tem filmes de interior você tem Baixio das Bestas… mas aí é que tá, o Baixio das Bestas e Baile Perfumado são filmes de interior, rurais, mas não são só isso, são outra coisa. E aí tem alguma coisa aí que dá um twist, que faz o filme interessante. Mas de qualquer forma a diversidade está muito saudável aqui e foi conquistada ao pouco, ao longo desses dez anos.

Trailer – CRÍTICO

Assista os curtas

ELETRODOMÉSTICA
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=3293

VINIL VERDE
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1999

A MENINA DO ALGODÃO
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1447

  1. …eu n�o quero mudar nada com meus filmes mas quero ficar com a sensa�o de que realiz�-los foi �timo.valeu a pena. eu penso isso…

  2. o trailer do Crítico já é uma bela produção audiovisual.

  3. Eu adorei o blog! =O
    \\o

  4. Sou de Recife sim! =] E conheço o Kléber Mendonça, mas não pessoalmente. hehe
    Não, assim, faculdade DE cinema não. Até porque aqui ainda tá pra abrir na federal e tal, só tem numa particular aqui, que inclusive ele tava fazendo alguma coisa pra faculdade um dia desses que eu soube.. Mas eu sou louca, apaixonada por cinema e assim, minhas pretenções são todas nessa área. Tu faz cinema? =D

    Sobre o texto, eu penso nisso constantemente. Velhice. Me deprime ao ponto de eu nem ter vontade de criar rugas ou minhas mãos começarem a tremer sabe? Acho que é porque eu não quero ocupar ninguém por ser uma velha e não conseguir mais me movimentar. Sei lá. oO

    Mas é isso, a gente pode trocar algumas idéias.
    beijos.
    ;*

  5. siiiiiim, já ia esquecendo.
    eu já vi teu outro blog, inclusive vi primeiro que esse. =D
    Já tá até linkado no meu blog, esse também. Eu só ainda não parei pra ler o outro. Mas vou fazer isso, com certeza.
    \\o

    xêru.
    ;*

  6. Entrevista boa hein vei!
    Prática jornalística pulsante :)

  7. Curtas são bons,adoro.Valeu o comentário lá!

  8. Nossa seu blog é fabuloso, acho mto importante a valorização do cinema principalmente quando se trata do brasileiro. Curtas geralmente me agradam mto. Gostei mesmo do seu blog.
    Abraços

  9. Ola, que post grande hein! Estou passando rapidinho, mas volto, viu?
    Eu vim mesmo foi te agradecer pela visita no meu cantinho e dizer que eu coloquei novas fotos no meu blog de fotos: http://www.falandodefotos.blogspot.com
    Fique à vontade para voltar a me visitar, sera sempre bom te ver por la.
    Desejo-lhe uma excelente semana!
    Um abraço,
    Liz

  10. Oi, Gustavo!
    Escrevi uma matéria para a seção da AIC na Revista Zoom e coloquei no meu blog. Posso postar aqui também?
    Beijos!