Gustavo

Naja

In ficção on Janeiro 25, 2008 at 4:52 pm

Já estava bêbado, mas parei em um boteco para beber mais e ouvir forró de terceira
Lastimável o meu estado. Completamente bêbado, cheio de olheiras, com o pé sujo de chutar latas de lixo e pisar nas poças de pós chuva. Sentei na mesa e pedí uma cerveja mas não quis ficar sentado, fui para dentro do boteco. Fiquei perto da Jukebox, de uma seleção musical de extremo mal gosto. De costas para a muvuca impregnada de suor eu bebi a minha cerveja e fiquei observando de longe uma mulher mal cuidada, mas bonita. O cabelo embaraçado e a maquiagem barata disfarçavam a beleza natural daquela mulher, habitante da sargeta.

Olhava para ela de longe e ela se aproximou com o rebolado dengoso, deixei que o meu quadril se encostasse no dela. Eu podia estar no fundo do poço, mas ainda estava melhor do que qualquer pé rapado daquele bar.

_Qual é seu nome? – perguntei.
_Por aqui me chamam de Naja.
_mas esse é seu nome?
_Não interesa. Vem cá.

Mesmo sem saber dançar me engalfinhei com aquela mulher e saímos balançando pelo bar, esbarrando em todo mundo. Acabamos a cerveja e saímos do bar sob o olhar malicioso e invejoso dos que já estavam alí há algum tempo, esperando brecha daquela mulher.

_Para onde estamos indo?
_Para o “Cereja´s”, fica perto da minha casa. Eu conheço todo mundo por lá.

Saímos andando, bêbados esbarrando um no outro. Passamos em frente ao lugar onde eu morava.

_Espera. Vou entrar para escovar o dente e já volto.

Enquanto eu abria o cadeado da minha porta ela me puxou.

_Não. Vamos para o cereja´s
_Só quero escovar o dente, minha boca está com um gosto ruim.
_Se eu não vou escovar o dente você também não vai. É justo né?
_certo.

Tá certo, ela sabia o que eu estava fazendo. Eu realmente queria escovar os dentes, mas no fundo o que eu queria mesmo era traze-la para o meu quarto, o matadouro. Ela foi esperta em me puxar. Continuamos atravessando as ruas sujas, o sol nascendo coloria de cor bonita aquela feiura toda, misturada com miséria e gente suja. Ela começou a me contar sobre um caso de amor, que se transformou em um caso de ódio. Um ex-namorado humilhou ela em frente da família dela e ainda ficou lhe devendo 300 reais.

_Eu quero matar ele! Eu juro que vou me vingar! O que ele fez comigo ninguém mais faz!
_Que isso. não é pra tanto!
_Eu vou matar ele! Eu mato mesmo! Eu mato com a minha mão.

Fiquei assustado, mas estava tão bêbado que abracei ela enquanto andavamos, como um amigão dos velhos tempos.

_Não tem porque você fazer isso. Ignora esse cara. Pensa no tanto de coisas boas que você vai deixar de fazer se fizer uma coisa ruim com esse cara? Você vai pra cadeia! Vai sujar sua vida em troco de quê ? De trezentos contos e de um cara que é um verdadeiro bosta! Esquece essa idéia!
_Eu não.
_Poxa. To te pedindo de coração aqui. Esquece esse assunto. Faz isso por mim.

Eu não costumo dizer essas coisas, acho engraçado até essa minha última frase, mas eu estava realmente muito bêbado, e saiu. Ela parou, pensou, também estava muito bêbada.

_Sabia que eu to gostando da sua presença aqui?

Ela me repetiu isso umas três vezes enquanto caminhavamos. O sol batia no nosso rosto, o dia estava bom, mas o sono já começava a incomodar. E aí eu comecei a pensar em Deus e nas coisas que ele faz, e comecei a imaginar que o senso de moral definitivamente não foi uma das invenções desse nosso Deus. Deus é bom, mas a maneira dele, se ele tivesse mesmo um senso de moral ele me castigaria por estar bêbado, mas vejam bem, eu estou bêbado nesse momento, pregando para essa garota cheia de ódio e rancor uma mensagem de amor: Perdôe o seu próximo. Eu estou na sarjeta e mesmo assim posso fazer algo de bom. Me desculpem mas os Cristãos estão errados, eles não sabem do que estão falando. Ser um certinho hipócrita não é sinal de presença do divino.

Chegamos no tal “ceraja´s”, mais um boteco meia boca. Naja chegou cumprimentando todo mundo.

_Eu moro alí!

Ela me apontou um apartamento caindo aos pedaços e já foi pedindo outra cerveja. Um velhinho com traços de boçal ficava nos fazendo rir com sua maneira engraçada de falar. Ele abraçava a Naja a todo momento e olhava para mim com uma cara divertida. Os outros bêbados, amanheceram descendo a cachaça, mas todos tinham algo de bom no olhar, infelizmente estavam numa posição ruim. Eu não queria acabar como eles. A Naja repetiu que a minha presença estava fazendo a ela muito bem, e que ela já tinha desistido de matar o cara. Achei graça.

_Eu tenho que ir agora.

Eu deixei meu copo de cerveja pela metade. Ela foi comigo até a porta do bar.

_Me dá um beijo. – Eu pedi.
_Não. Pra que?
_Quero te beijar. Eu vim até aqui com você pra te beijar.

Ela não pareceu incomodada. Ela me deu um beijo bem pequeno, um selinho, lábios com lábios, mas o bom foi saber que o dia estava começando bem.

Quando virei a esquina ela ainda estava se despedindo.
Nunca mais ví a Naja.

  1. Será a Naja um sonho?

    Pensei que ela fosse se encontrar com o tal ex, mas ainda bem que não

    Obrigada pela visita, volte sempre!

  2. Adorei esta história. Muito bonito vc ter feito bem a Naja e não ter pedido nada em troca…
    Rs…

    Ah, e eu falando como se a história fosse real e fosse sua. Liga não, eu sou assim mesmo!

    Beijos
    Obrigada pelo coment no blog

  3. Será que Naja matou o cara? rsrs

    Belo conto!

    Beijos

  4. Suas críticas são meio vagas, não concorda?

    Na sua última, critica a mim ou ao personagem?

  5. Belo texto.

  6. hah! um texto envolvente, GOSTOSO de ler!!! Que bom encontrar pessoas que gostem de escrever e fazem do pensamento, ação. Ação por palavras.

  7. Isso eu não entendo, mas acontece à vera! Elas nos enrolam, nos fazem acreditar que, no mínimo, ganharemos um beijo, mas acabamos arrancando um sem-graça e só na hora de ir embora! Depois conto uma que aconteceu comigo!

  8. Muito legal esse texto. Ótimo do início ao fim. Muito bem escrito.

    :)

    Inté.

  9. massa gustavo, parece mistura de bukowski com luis fernando verissimo…e outra, cereja`s é ótimo huaihuahuahuahuahuahiua abraço