Gustavo

Posts de Janeiro, 2008

A Boca da fé

In ficção on Janeiro 28, 2008 at 6:12 pm

Os dentes são a fé e Deus é o Dentista
Cara. Minha teoria sobre a fé do Cristão é a seguinte. Deus é como um dentista, os dentes são a fé e o dono da fé é o Cristão. O Cristão só cuida dos próprios dentes porque ele morre de medo de encarar o dentista. Os cáries são as máculas dos pecados nos dentes da fé. Os doces são as tentações que destroem a fé. Os dentes brancos e corretos são exemplos de fé, santidades bucais.
Quando Deus corrige as máculas da alma, ele causa dor, muita dor. O Cristão fica exposto de boca aberta, diante de seu Deus, é uma provação!
Perder os dentes seria algo como cair nas brasas do inferno, você nunca mais terá acesso as tentações, tomará sopa para o resto da sua vida!

Entendeu a parada boca murcha ?

Naja

In ficção on Janeiro 25, 2008 at 4:52 pm

Já estava bêbado, mas parei em um boteco para beber mais e ouvir forró de terceira
Lastimável o meu estado. Completamente bêbado, cheio de olheiras, com o pé sujo de chutar latas de lixo e pisar nas poças de pós chuva. Sentei na mesa e pedí uma cerveja mas não quis ficar sentado, fui para dentro do boteco. Fiquei perto da Jukebox, de uma seleção musical de extremo mal gosto. De costas para a muvuca impregnada de suor eu bebi a minha cerveja e fiquei observando de longe uma mulher mal cuidada, mas bonita. O cabelo embaraçado e a maquiagem barata disfarçavam a beleza natural daquela mulher, habitante da sargeta.

Olhava para ela de longe e ela se aproximou com o rebolado dengoso, deixei que o meu quadril se encostasse no dela. Eu podia estar no fundo do poço, mas ainda estava melhor do que qualquer pé rapado daquele bar.

_Qual é seu nome? – perguntei.
_Por aqui me chamam de Naja.
_mas esse é seu nome?
_Não interesa. Vem cá.

Mesmo sem saber dançar me engalfinhei com aquela mulher e saímos balançando pelo bar, esbarrando em todo mundo. Acabamos a cerveja e saímos do bar sob o olhar malicioso e invejoso dos que já estavam alí há algum tempo, esperando brecha daquela mulher.

_Para onde estamos indo?
_Para o “Cereja´s”, fica perto da minha casa. Eu conheço todo mundo por lá.

Saímos andando, bêbados esbarrando um no outro. Passamos em frente ao lugar onde eu morava.

_Espera. Vou entrar para escovar o dente e já volto.

Enquanto eu abria o cadeado da minha porta ela me puxou.

_Não. Vamos para o cereja´s
_Só quero escovar o dente, minha boca está com um gosto ruim.
_Se eu não vou escovar o dente você também não vai. É justo né?
_certo.

Tá certo, ela sabia o que eu estava fazendo. Eu realmente queria escovar os dentes, mas no fundo o que eu queria mesmo era traze-la para o meu quarto, o matadouro. Ela foi esperta em me puxar. Continuamos atravessando as ruas sujas, o sol nascendo coloria de cor bonita aquela feiura toda, misturada com miséria e gente suja. Ela começou a me contar sobre um caso de amor, que se transformou em um caso de ódio. Um ex-namorado humilhou ela em frente da família dela e ainda ficou lhe devendo 300 reais.

_Eu quero matar ele! Eu juro que vou me vingar! O que ele fez comigo ninguém mais faz!
_Que isso. não é pra tanto!
_Eu vou matar ele! Eu mato mesmo! Eu mato com a minha mão.

Fiquei assustado, mas estava tão bêbado que abracei ela enquanto andavamos, como um amigão dos velhos tempos.

_Não tem porque você fazer isso. Ignora esse cara. Pensa no tanto de coisas boas que você vai deixar de fazer se fizer uma coisa ruim com esse cara? Você vai pra cadeia! Vai sujar sua vida em troco de quê ? De trezentos contos e de um cara que é um verdadeiro bosta! Esquece essa idéia!
_Eu não.
_Poxa. To te pedindo de coração aqui. Esquece esse assunto. Faz isso por mim.

Eu não costumo dizer essas coisas, acho engraçado até essa minha última frase, mas eu estava realmente muito bêbado, e saiu. Ela parou, pensou, também estava muito bêbada.

_Sabia que eu to gostando da sua presença aqui?

Ela me repetiu isso umas três vezes enquanto caminhavamos. O sol batia no nosso rosto, o dia estava bom, mas o sono já começava a incomodar. E aí eu comecei a pensar em Deus e nas coisas que ele faz, e comecei a imaginar que o senso de moral definitivamente não foi uma das invenções desse nosso Deus. Deus é bom, mas a maneira dele, se ele tivesse mesmo um senso de moral ele me castigaria por estar bêbado, mas vejam bem, eu estou bêbado nesse momento, pregando para essa garota cheia de ódio e rancor uma mensagem de amor: Perdôe o seu próximo. Eu estou na sarjeta e mesmo assim posso fazer algo de bom. Me desculpem mas os Cristãos estão errados, eles não sabem do que estão falando. Ser um certinho hipócrita não é sinal de presença do divino.

Chegamos no tal “ceraja´s”, mais um boteco meia boca. Naja chegou cumprimentando todo mundo.

_Eu moro alí!

Ela me apontou um apartamento caindo aos pedaços e já foi pedindo outra cerveja. Um velhinho com traços de boçal ficava nos fazendo rir com sua maneira engraçada de falar. Ele abraçava a Naja a todo momento e olhava para mim com uma cara divertida. Os outros bêbados, amanheceram descendo a cachaça, mas todos tinham algo de bom no olhar, infelizmente estavam numa posição ruim. Eu não queria acabar como eles. A Naja repetiu que a minha presença estava fazendo a ela muito bem, e que ela já tinha desistido de matar o cara. Achei graça.

_Eu tenho que ir agora.

Eu deixei meu copo de cerveja pela metade. Ela foi comigo até a porta do bar.

_Me dá um beijo. – Eu pedi.
_Não. Pra que?
_Quero te beijar. Eu vim até aqui com você pra te beijar.

Ela não pareceu incomodada. Ela me deu um beijo bem pequeno, um selinho, lábios com lábios, mas o bom foi saber que o dia estava começando bem.

Quando virei a esquina ela ainda estava se despedindo.
Nunca mais ví a Naja.

Estranho dia, e comiseração

In Egotrip, ficção on Janeiro 17, 2008 at 7:16 pm

Era um dia complicado, dor de cabeça, mal humor, calor. Eu confesso, estava a ponto de chorar. Digno de comiseração. A empregada da minha casa veio passando mal, isso foi há um mês, e chegou febril e mesmo assim realizamos todas as ações, não reparei que ela estava doente, eu devia estar num dia daqueles, de correria, mas ela suava como um porco que acabou de trepar. Eu não reparei. Tudo bem, isso foi há um mês.
Hoje eu acordei de mal humor, tive um pesadelo terrível, sonhei que um sujeito invadia a minha casa, sequestrava duas mulheres que estavam comigo e me prendia. Ele me torturava arrancando uma das minhas orelhas, me fazia implorar pela vida, eu ficava com o rosto colado no chão e com os olhos arregalados esperando pelo pior. Em certo momento eu conseguia escapar e fugia correndo, alucinado, fechava o portão da casa e olhava para trás, ele, o antagonista, ainda não tinha me visto, porém já tinha percebido que eu havia escapado. Eu entrava num matagal e dalí prosseguia para um pedregulho, para me esconder. O maldito vinha andando. Eu achava que estava bem escondido, mas ele vinha exatamente na minha direção. Eu fugia para dentro de uma casa e encontrava uma faca que usava para perfurar a barriga do criminoso e fazer um corte em seu rosto. E então eu saia desse local, mas o criminoso ainda estava vivo e vinha andando atrás de mim, e então eu era obrigado a cortar o pescoço dele para que morresse. Eu saia, sem querer assistir a miséria daquele homem, sofrendo com a garganta cortada diante de mim. Eu voltava para minha casa e encontrava o meu cachorro, que é o cachorro que possuo na vida real. O cachoro me atacava, era o espírito do assassino que estava incorporado no meu cão! Ele me mordia, arrancava grandes nacos da minha carne, e num certo momento ele falava, com sua voz canina, que iria me destruir, completamente, porque me odiava. E então eu parava e discutia, dizia que por mais que ele me odiasse, eu nada poderia fazer, porque não sabia sequer qual era a razão do ódio que ele tinha por mim, e pedia desculpas caso eu tivesse feito algo em meu passado que o irritasse. Mas ele não me dizia nada, não explicava o porquê do ódio, eu, por não me lembrar de motivo algum, assumi que fosse um ódio gratuito. Mas aí então o demônio saia do corpo de meu cachorro e me deixava finalmente em paz, severamente danificado, psicológica e fisicamente, eu acordei, debilitado na manhã de hoje. A casa estava vazia, tive que alimentar os pássaros e os cachorros.
Olhei a caixa de correio e lá estava uma carta que eu abrí com cuidado para não estragar demais o envelope. Qual não foi minha surpresa ao saber que a minha empregada estava me ameaçando. Ela queria me processar pelo meu descaso como empregador, por tê-la feito trabalhar num dia de febre, e que isso lhe causara grandes aflições à saúde e ao psicológico dela. Quase rí, estariamos ambos tendo maus dias, em dias diferentes. A carta me deixou ainda mais abalado do que o pesadelo, ou talvez da mesma forma, não sei dizer.

Fui ao restaurante almoçar, não havia mais comida congelada em casa, e um homem de porte atlético discutia suas teorias fascistas com um outro sujeito, provavelmente seu irmão, que ouvia tudo calado, apenas comendo, sem muito gosto. Explicava ao colega que os gordos são animais, e que são sujos como são os pervertidos sexuais, pois o pensamento em comida do gordo é luxuriante, seus hábitos alimentares são bestiais e sua aparência rotunda, uma blasfêmia. O ideal grego de beleza, quase nazista. Mas para o meu espanto, na mesma mesa em que ele estava sentado comendo se sentou uma mulher gorda, ela era enorme, e era realmente feia, e comia voraz, a comida caia pelas bordas do prato, e ela repetia. Enquanto isso o sujeito atlético olhava com reprovação “Está vendo só! É o que eu estou dizendo”. Por algum motivo senti raiva de todos presentes naquela mesa, não pareciam humanos, pareciam ter sido unidos por um trágico destino, falando em Grécia, por um ato de crueldade dos Deuses. Porque estariam juntos, alí naquele momento, um homem que odeia gordos, com um antipático, com uma gorda tremenda? Mas o odiador de gordos se humanizou quando me disse: “Quando eu era como você! Eu pensava como você, e tudo o que os outros diziam parecia não me fazer sentido! Mas eu tive alguém para me educar, e vou educar você! Pára de comer essa comida agora!” Ela queria repetir o prato, mas ele não deixava.

Eu contemplava os dois brigando enquanto pensava que não havia fundamento algum na dramaturgia da vida cotidiana.

MOMENTU

In Sem-categoria on Janeiro 12, 2008 at 6:18 pm

Eu sou daqueles que pára quieto, pareço distante
O que eu to fazendo é observar o contexto, entender a situação como um todo. Eu sinto o cheiro, observo as roupas, as relações humanas, as expressões, procuro encontrar e decifrar os aspectos que compõem o MOMENTUM, decupando-os mentalmente num embaralhado sistema de edição mental analisando a possibilidade de uma remontagem, de uma manipulação, de uma reconstrução, de uma dramaturgia inserida, ou apenas de uma reprodução quase fotográfica, jornalistica, daquele instante embaralhado no tempo. Uma recontextualização das diversas partes reunidas na ordem que eu escolherei.

O MOMENTUM reorganizado é escrito, filmado, desenhado, falado e assim é expressa a sua essência. Por mais que a sequência esteja alterada, seja na ordem cronológica, na direção dos olhares, na percepção dos sentimentos ou no drama humano em sí, ainda assim é uma sequência, uma nova sequência equivalente ao momento vivido, a vida esculpida.

E assim eu passo os meus dias, reconstruindo a vida, alimentando a alma.

Menino Explosão e a nota baixa

In ficção on Janeiro 11, 2008 at 2:23 am

Lições anarquistas do menino explosão
Menino explosão e a nota baixa (001)

Oi, :-)

Eu sou o menino explosão. Algumas coisas que me incomodam, eu acabo explodindo com as técnicas que eu aprendí :) Eu tenho esse péssimo hábito de explodir as coisas. hehehe. Eu sei. É falta de educação, mas poxa vida. Eu sou uma criança e as bombas me dão uma sensação de ser mais poderoso que os adultos autoritários.

Uma vez minha professora tinha pedido pra eu trazer um trabalho mas eu não trouxe, aí ela ficou me enchendo o saco e baixou minha nota. Eu fiquei triste e quase chorei. Mas aí eu resolví me vingar. Eu pedí pra ir no banheiro. Em vez de ir no banheiro eu fui na piscina e peguei um pouco de cloro granulado (20 a 50g). Depois fui na cantina e pedí a mesma quantidade de açucar (20 a 50g). Arrumei uma garrafa de refrigerante (dois litros). Só achei a garrafa de plástico. Se eu resolvesse usar a de vidro poderia fazer um belo estrago porque o vidro se espalha e voa em alta velocidade para todas as direções causando danos enormes a qualquer coisa que esteja no caminho. Aí eu peguei a garrafa, coloquei o cloro primeiro, depois fiz uma mistura (separadamente) de água (mas com açucar (mas tambem poderia usar leite) e joguei lá dentro. A quantidade de água que eu usei tomou mais ou menos 1/4 da garrafa, é uma boa quantidade. Aí eu agitei a garrafa rapidinho e voltei pra sala como se nada tivesse acontecido. Minha Bomba de cloro estava engatilhada.

Na hora que eu sentei na cadeira, a garrafa demorou um pouco para explodir mas isso é normal, a reação não é rápida, por isso é melhor não voltar, mesmo que ache que vai dar errado. Alguns segundos intermináveis se passaram e a garrafa explodiu. KABUM ! A minha professora deu um grito tão alto que eu achei que ela ia morrer do coração.

Ela olhou para mim com uma certa suspeita. Eu olhei de volta com um sorrisinho educado. As minhas notas não aumentaram mas acho que ela entendeu o recado porque apesar de ter ido mal em todas as provas eu passei de ano numa boa. Ela foi esperta, porque sabe que o carro dela seria o próximo alvo caso meus pais soubessem de alguma coisa ;-)

Das próximas vezes vou contar algumas das minhas experiências com outras bombas :) Você sabia que para fazer napalm é a coisa mais fácil do mundo? Um dos ingredientes pode ser suco de laranja. Legal né? :-D

Será que ele voou?

In ficção on Janeiro 5, 2008 at 1:51 pm

Augusto tomava cerveja e ouvia mpb num barzinho a beiramar quando da telha cai um pássaro, direto no chão. Ele se aproxima e segura o pequeno filhote, cheio de pulgas, que mal sabe piar, está abrindo a boca pedindo por minhocas.
Augusto jura de pés juntos que tentou colocar o passarinho de volta no seu ninho escondido no teto do bar, mas esse rebelde voltava a cair. A solução foi leva-lo para casa, embrulha-lo com jornais e isopor e amassar um pouco de goiaba e maracujá para alimentar o bichinho.

No dia seguinte Augusto acordou tarde, foi direto olhar o embrulho do passarinho, não estava mais lá. Maria é o nome da empregada da casa, ela fala num tom monocórdio e lento, e as vezes quando você diz alguma coisa ela responde automaticamente, como se não tivesse entendido nada, mas responde do mesmo jeito.

_Maria! Você viu um passarinho aqui?

Maria se aproxima, faz uma cara de sonsa e responde no monotom, lentamente.

_Que passarinho?

Augusto imaginou: Essa mulher jogou fora o embrulho com o passarinho e nem sequer viu que ele estava lá dentro.

_Maria, é porque ontem eu encontrei um passarinho que fugiu do ninho e decidi abriga-lo aqui em casa. Eu deixei ele guardado aqui.
_Num embrulho de isopor?
_ISSO!
_Será que ele voou?

Como assim será que ele voou? Pensou Augusto, que tipo de pergunta é essa?
_Não Maria. Ele era bem filhote, as penas estavam se formando. Além do mais ele estava preso.

Maria ficou calada, como se estivesse engolindo a culpa. Aquela cara de sonsa.
_Vem cá. -Ela disse.

Augusto foi atrás de Maria, percorreram a cozinha, saíram de casa. O sol rachava lá fora. Maria apontou um toco de madeira e o passarinho estava estirado, duro como uma pedra debaixo do calor do sol quente. Augusto olhou para o bichinho, Maria pegou nele sem nenhum cuidado, e fez o pescocinho inerte se mover. Augusto sentiu uma fisgada no coração, era de família, quando viam um animal doente tinham que cuidar, e o peso da responsabilidade doia porque geralmente o animal morria.

_Maria. Quando você tirou ele da caixa ele já estava morto?
_Ahhh. Já.
_Já estava morto? Tem certeza?
_Ahhh. Estava quase morto.

Que raiva Augusto sentiu. Pensamentos infames, “eu podia pega a bicicleta dela e esconder em algum canto. “Augusto, aonde está minha bicicleta?” ela perguntaria. “Será que ela não saiu andando?”, e então a levaria em direção a bicicleta e a roda estaria quebrada, “Augusto, a roda já estava quebrada antes?”, e Augusto responderia “Ahhh.Estava quase quebrada”.

Maria jogou o bichinho morto na lixeira, Augusto ficou parado em frente ao toco de madeira ensolarado.

Aquela mentecapta, Maria.

ilustração: Garden and Birds Nest – Maria Eva