Gustavo

Posts de 2008

O segredo das mãos de Pedrinho

In 1 on Novembro 11, 2008 at 4:10 am

Em uma terra que não existe, dentro do país imaginário, houve um dia um cotejo inesperado, anonimamente antecipado por um duende malcriado. A esperança foi um presente herdado do dia mágico, do lago parado, do duende calado. Pedrinho e Cristiane tinham se encontrado.

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A grade da janela de Cristiane estava fechada, Pedrinho ficou do lado de fora enfiando a mão para tentar alcançá-la. Já era tarde da noite e a menininha estava dormindo, de tanto trabalho que teve pra limpar a casa e preparar a comida para o banquete de família que estava por vir no dia seguinte. Pedrinho esticou a mão na janela e conseguiu tocar a cama, mas ela dormia para o lado de lá.

Pedrinho se abaixou, catou um graveto e esticou pela janela. Passou no cabelo de Cristiane. Ela deve ter pensado que fosse um mosquito porque se coçou e tremeu todinha. Na agitação da noite, a menina se descobriu. Pedrinho pegou o graveto e puxou de volta a coberta para mantê-la aquecida. Ela virou-se para o o outro lado da cama e ficou bem perto de Pedrinho. Ele viu o rosto angelical da menina dormindo e lembrou-se daquela mesma manhã que gastou ao lado dela de mãos dadas correndo pelo lado de fora da casa, estavam buscando alguma coisa, não sabiam o que, mas estavam juntos. Pedrinho admirou o rostinho da garota e viu o luar tocar o rosto e tingir de prata os cabelos macios. Ele levou a mão até a cabeça dela e acariciou seus cabelos.

Foi então que a palma de sua mão começou a coçar. Pedrinho então fechou a janela em silêncio para que Cristiane não pegasse frio e fechou as mãos. Algo tinha aparecido alí. Ele olhou com muita atenção e fechou a mão formando uma concha com um pequeno buraco para que pudesse colocar o olho e ver o que tinha aparecido. Não queria que aquilo que estava alí dentro de suas mãos escapasse de maneira nenhuma. Ele não sabia nem dizer qual era o nome daquilo que tinha aparecido bem na covinha que se forma no centro da mão quando ela está fechada, mas era alguma coisa bem bonita que ele guardou e não quis mostrar para ninguém.

Pedrinho saiu correndo pelo matagal com as mãos fechadas, tendo como luz apenas o luar, quase tropeçou algumas vezes nas raízes grossas das árvores gigantescas e teve que se cuidar para não cair de rosto no chão. Com as mãos fechadas não poderia se apoiar em nada. Passou pelas sombras e ouviu o zunido dos morcegos, o uivo dos vira latas, o sussurro da brisa que fazia côcegas nas folhas que farfalhavam alvoroçadas.

Pedrinho encontrou a beira de um lago e sentou-se em sua borda. Descalçou-se da botina apertada e deixou que os dedos dos pés afundassem na lama gelada. Um sapo a espreita deu um salto para longe dos pés de pedrinho e coaxou curioso. Pedrinho escondeu a mão do sapo e não deixou que ele visse o segredo que havia alí guardado. Do lado de cá um vagalume tentou iluminar o segredo em suas mãos, mas Pedrinho guardou bem fechado as mãos fechadas próximo da barriga curvando-se, e não deixou que ninguém visse. Foram todos embora, deixaram Pedrinho e o lago manso. Pedrinho gastava horas observando o que havia de tão especial dentro de suas mãos, e de vez em quando descansava observando a lua refletida no lago. Com o passar das horas a lua e sua voz melodiosa voz noturna escapou-se do céu, só.

Pedrinho já estava cansado quando o sol surgiu, mas continuou sentado quase querendo chorar, porque não sabia o que estava sentindo nem guardando entre as mãos. Apesar de sentado, quieto e livre de perigos, era como se estivesse caindo do céu, e subindo de novo, uma aventura humana que vivia pela primeira vez. Mal sabia dizer, mas se ficasse parado, esse sentimento misterioso, do segredo guardado, quase dava pra ver.

Cristiane viu de longe pela manhã Pedrinho curvado na beira do lago ao pé de uma árvore sem folhas e correu para abraçá-lo:
“Oi Pedrinho”, ela disse, “Vamos correr mais um pouco no quintal atrás da minha casa?”
“Agora eu não posso. Eu achei um troço, tá aqui guardadado, eu não posso abrir a mão, porque esse troço pode escapar, ou sei lá. Você pode achar feio e querer jogar fora. Sei lá o que pode acontecer se eu abrir a mão”. Pedrinho queria esconder as mãos de Cristiane, mas ao mesmo tempo estava satisfeito com a companhia dela. Queria que ela ficasse por alí e não fosse mais embora. Ele disfarçou que escondia algo, mas ela percebeu, e tentou ver o que estava alí dentro. Ele escondeu as mãos fechadas do outro lado.

Cristiane ficou curiossa e insistiu para que ele abrisse, Pedrinho não quis e se jogou no lago, com as mãos estendidas para que a água não vazasse pelas frestas dos dedos e molhasse o segredo. Pedrinho enxarcou a prórpia roupa e pensou na bronca que levaria da mãe quando voltasse para casa. Cristiane não teve coragem de entrar na lagoa. Era muito cedo e estava muito frio, o sol era apenas um pré-adolescente boiando no céu tão cheio de incertezas quanto ao resto do dia, quanto ao resto da vida, assim como os dois jovens banhados por sua luz à beira do lago. Pedrinho chegou mais perto de Cristiane, ficando com água até a barriga.

“Eu não posso mostrar pra você. Na verdade, o que eu tenho aqui, é pra você, mas pode ser que você não entenda. Vai que você joga fora, vai que você não gosta. Vai que você nem liga!”
“ahhh. Eu vou gostar sim, me mostra, me mostra”, e ela estava morta de curiosidade. Nunca se viu aquela garota tão alvoroçada logo depois do café da manhã. Geralmente falava devagar, tinha preguiça de comer o pão e demorava pra sair da cama, só ia virar gente lá pra depois das onze horas quando o galo já tinha desistido de cantar.

E Pedrinho não quis. Cristiane falou que se ele não quisesse abrir as mãos, então ela iria brincar sozinha lá no quintal, e ia deixa-lo molhado e sozinho dentro da lagoa. Pedrinho estava incorformado. Criou coragem e caminhou lentamente na direção dela. Manteve as mãos fechadas esticadas de frente para ela. “Abre logo! Quero ver o que tem aí dentro”. Os dedos de Pedrinho estavam cerrados com força e aos poucos foram ficando frouxos. Sua pele estava enrugada por causa da água fria que invadiu até os poros enchendo-os de umidade. Pedrinho tremia de frio e fazia um barulho engraçado ao respirar, o ar de sua boca saia em forma de fumaça. Cristiane deu um beijo na boca dele que encheu de calor o coração, e os dedos foram enfraquecendo até abrirem-se por completo revelando o que havia de tão precioso escondido entre as mãos de Pedrinho, e não havia nada.

“Ei. Você me enganou. Não tinha nada”.
“Tinha sim. Eu juro que tinha”
“Então o que é que tinha?”
“Nâo sei.”
“Como era?”
“Não sei.”
“De que tamanho era?”
“Não sei.”
“De que cor era?”
“Não sei.”
“Era alguma coisa?”
“Era.”
“O que?”
“Não sei.”
“ahhhh. Para com isso Pedrinho. Tchau, eu vou brincar”.

E Cristiane saiu correndo, deixou Pedrinho com os pés ainda chafurdados no lodo, com as mãos vazias, os ombros caídos e o corpo molhado. Pedrinho olhou para o céu, olhou para a lagoa, nem ele pode compreender o que viu por tanto tempo entre próprios dedos. Nem ele entende, foi alguma coisa mágica, quase sem explicação.

Naquela mesma noite a janela de Cristiane estava fechada com uma cortina. Pedrinho dormia cansado, com o coração abalado. Numa clareira, em meio à mata, havia uma fogueira e um duende sentado. Um sorriso de bochecha a bochecha, claramente no rosto estampado. O duende cupido, insensato e piadista, divertido e analista, deixou para Cristiane um coração sonolento e para o garoto um motor velho e descalibrado que no peito bate no compasso errado, no ritmo varado do tempo escorrido, do segredo revelado, do mistério encerrado, do amor não correspondido.

 O segredo perdendo o brilho, a vida ficando sem graça.

IESB marca presença no segundo Perro Loco

In 1 on Novembro 10, 2008 at 4:18 am

A segunda edição do Perro Loco - Festival de cinema universitário latino americano - realizado na Univesidade Federal de Goiania entre os dias 4 e 9 de novembro teve 186 obras inscritas entre ficções, documentários e animações. Representando o Distrito Federal houveram 4 filmes inscritos: Coletivo Planalto, Coletivo Desconstrução, Xuxu vou me mandar e Club Silêncio.

 

Coletivo Planalto, o meu filme (Leia-se Gustavo Serrate), e produção de Rodrigo Luiz Martins e Eurico Martins, é um video arte criado para experimentar a linguagem visual e narrativa. Não há uma história com início, meio e fim, não há uma história definida. O video dura 3h42 segundos com a imagem de uma poltrona de ônibus sendo observada num plano objetivo, em dado momento o observador tem “pensamentos dourados”, recorda da praia, que está tão distante de seu cotidiano brasiliense, seco e entediante. Não há uma compreensão intelectual para o filme, não há o que entender. É um filme para se assistir e interpretar como quiser. Uma das espectadoras do filme afirmou: “Não entendi muito bem. Acho que faltou contexto”, e outro expectador perguntou: “Qual era a sacada da praia?”. A resposta é: Não existe uma sacada no filme. Não há necessidade de um gran finale, trata-se apenas de uma experimentação audiovisual. Para ser bem sincero, confesso que fiquei surpreso quando recebí a notícia de que o filme fora aceito no festival, afinal eu havia enviado outros dois filmes, e apenas o filme experimental, com a narrativa menos “coerente”, foi justamente o selecionado para a mostra competitiva.

Vários realizadores e espectadores “curiosos” estiveram presentes nas exibições, houve debate com os realizadores (do qual não participei, pois perdi a hora) e votação do público para os melhores filmes. Viajei patrocinado pelo IESB, onde estudo jornalismo para a mostra do dia 8 ( sábado ). Os filmes mais relevantes da mostra competitiva que pude assistir foram: “Minha tia, meu primo”, da Universidade Estácio de Sá, Rio de janeiro. O filme fala sobre a tia de um video maker, uma figura bem engraçada e peculiar, que mora sozinha e tem como única companhia um canário dentro de uma gaiola que segundo ela foi um presente de Deus. “Ele entrou um dia e eu fechei todas as janelas. Como todas lojas estavam fechadas, no outro dia eu comprei uma gaiola e agora ele é meu filho”, diz a Tia. O que me chamou a atenção foi a espontaneidade da Tia, que já sonhou em ser atriz de cinema, e tinha a boca suja sem ser vulgar e sempre com bom humor. Muitas vezes ela pedia para que ele parasse de filmar, mas ele prosseguia filmando. Talvez se ele não a conhecesse tão bem não teria essa ousadia. Outro filme interessante foi o Nipon 96 – Después do Ruido, da Pontificia Universidad Católica del Perú. O filme narra uma invasão terrorista na embaixada do Japão que durou mais de 150 dias. A narrativa é criada de forma particular pois não enfoca apenas o drama dos reféns, mas toca num ponto crucial dos direitos humanos quando ressalta o ponto de vista dos terroristas e de suas famílias. Os terroristas foram todos assassinados após o incidente e suas mães choram até hoje, e cobram justiça “Eles também são humanos”, dizia uma das mães. Falar do ponto de vista do terrorista é uma escolha pouco usual para o cinema e o jornalismo.

Às 21h, houve o show “Palco Viramundo”, com seis bandas: Umbando (GO), Johnny Alfredo e seus Neurônios (GO / MG), Los Muertos Vivientes (ES),Club Silêncio (DF), Diego de Moraes e o Sindicato(GO) e Porcas Borboletas (MG). As duas últimas bandas: Diego de Moraes e o Sindicato e Porcas Borboletas destacam-se pela originalidade e energia no palco. Diego de Moaes tem letras extremamente criativas e quebra o preconceito que há sobre Goiania, de que lá gostam apenas de música serteneja. A banca toca Rock mas incorpora até um bandolim em sua apresentação. Porcas Borboletas, de Minas, me fez lembrar da força colossal dos Titãs em início de carreira, um dos vocalistas é cheio de movimentos performáticos que destacam a banda no palco. No final do show o vocalista parece morrer, de tanta energia que gastou, despenca do palco e cai fingindo-se de morto no meio da multidão. Detalhe é que horas mais tarde ele veio paquerar uma menina que estava conversando comigo e ficou intimidado, provavelmente pensado que ela fosse minha namorada. Os sons de Goiania e Minas Gerais me surpreenderam.

Júri Oficial do festival, formado pela jornalista e produtora audiovisual Márcia Deretti, pelos cineastas Cláudio Assis, Guilherme Sarmiento e Hans Bremer e pelo professor e diretor Carlos Cipriano, premiaram os oito filmes vencedores no domingo (9): Tiempo y Dolor (Pontificia Universidad Católica del Perú, Peru, 2006, Ficção), de Jorge Luis Gonzáles recebeu o prêmio por Domínio de linguagem. Inevitable (Pontificia Universidad Católica del Perú, Peru, 2005, Ficção), de Ivan D’Onadio Muñoz, recebeu o prêmio por Experimentação de linguagem. Emiterio (Universidad Nacional de Córdoba, Argentina, 2006, Documentário), de Diego Seppi e Jose Tabarelli, recebeu o prêmio de Expressão cultural. Hiato (Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Brasil, 2008, Documentário), de Vladimir Seixas, recebeu o prêmio de Melhor documentário. Corpo Frio (Universidade Federal do Ceará, Brasil, 2008, Animação), de André dias, recebeu o prêmio de Melhor animação. O Brilho dos Meus Olhos (Universidade Federal Fluminense, Brasil, 2006, Ficção), de Allan Ribeiro, recebeu o prêmio de Melhor ficção. Espuma e Osso (Universidade Federal do Ceará, Brasil, 2007, Ficção), de Gustavo Parente e Ticiano Monteiro, recebeu o prêmio especial do júri. Mesa de Bar (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil, 2008, Ficção), de Pedro Nora e Tiago Ribeiro também recebeu o prêmio especial do Juri.

Perro Loco mostrou-se um festival coerente em sua proposta, de festival voltado para o público universitário, com muitos filmes em vários dias de exibição e uma festa a altura com boas músicas, uma boa oportunidade para troca de informações entre estudantes e cineastas.

Assista Coletivo Planalto, o curta seleciona para este Perro Loco:

Vila dos sonhadores

In 1 on Novembro 3, 2008 at 3:34 am

Tudo começou no orkut com uma comunidade chamada “Vila dos Sonhadores”, na época em que eu frequentava o emaranhado das teias sociais, eu não encontrava nenhuma comunidade realmente interessante e inaugurei esta para falar de coisas corriqueiras para quem enxerga poesia em todo lugar, e para quem quer aprender a enxergar. A comunidade foi um sucesso na época, não faço idéia de como está hoje. O mote era:

“Vá embora. Estou tentando morrer. Estou farto do mundo e o mundo farto de mim. Agora só há lógica e razão, ciência e progresso…Leis da hidráulica, leis sociodinâmicas. Leis disso e daquilo outro. Não há lugar para ciclopes de três pernas… dos mares do sul. Nem lugar para magnólias… e mares de vinho. E nem para mim. E estou muito cansado… Adeus.”

O curta Vila dos sonhadores foi uma idéia de manter a simplicidade, de não me preocupar com uma narrativa tradicional, mas com a experimentação das sensações infantis, da forma como uma criança solitária vê o mundo. Eu queria muito mais fazer um curta que evocasse as sensações que eu sentí na minha infância do que um curta realista com uma história didática. Não há muito o que se “entender” desse filme. É um curta para se assistir sem muita preocupação intelectual. A idéia é entrar no unviverso da criança que quer colocar seu ursinho de pelúcia para voar, e que pelo menos na imaginação dele, consegue.

O urso do filme deve ter um ano a mais que eu. Tenho várias fotos de moleque andando abraçado com ele. O curta foi exibido no Perro Loco, um festival de Goiania e no Festival de Curtas do IESB, onde recebeu menção honrosa.

As almas, o ladrão e o sertanejo

In 1 on Novembro 3, 2008 at 2:12 am

Este conto eu não vivi, não presenciei, no entanto sei, pode bem ter sido verdade.

Dizem que a alma não nasce conosco, nasce sim quando se chora pela primeira vez. Aquele que nasceu sem chorar não ganhou alma ainda, há o caso da criança que segurou o choro até os quatro anos quando criou coragem e chorou pela primeira vez, só a partir daí foi capaz de sentir as emoções humanas em sua infinitude.

Quando a esposa de Aderaldo estava para dar a luz, morreu no parto junto com a criança em seu ventre. A criança já chorava mas engasgou com o sangue da hemorragia ainda dentro da mãe. A parideira inexperiente desmaiou no parto. Aderaldo só pode rezar e pedir a Deus que poupasse a vida das duas garotas: da mulher que amou e da pequena criança que estava para nascer e que um dia se tornaria adulta e bela como a mãe. Deus não poupou naquele momento o coração de nenhuma das duas, mas no momento do parto mal sucedido, uma vaca do rebanho da fazenda, ao lado de casa estava prestes a dar a luz. As duas almas recém libertas ainda vagavam pelas redondezas e foram absorvidas pelo choro do bezerro bebê.

Deus deve ter costurado as duas almas,  a da mãe e da filha, porque quando o bezerro berrou, Aderaldo sentiu uma leveza no coração que lhe poupou de maiores sofrimentos. Não foi a toa, aquele novilho foi das vacas o mais bem alimentado, banhado, e bem cuidado. Com o passar dos anos Aderaldo dedicou o amor a cuidar da vaca que cresceu saudável com duas almas costuradas, a de mãe e filha. Aderaldo sentia isso, sabia disso. Nunca contou para ninguém. Todos no entanto estranharam que não estivesse de luto.

Com o passar dos anos Aderaldo sentia a solidão da cama vazia, da falta de coragem e habilidade para conhecer uma nova mulher, da vontade de cuidar do bebê chorão que nem nasceu, de ver correr e crescer a criança que seria sua filha. A falta de vontade de acordar pelas manhãs fez a riqueza da fazenda de Aderaldo minguar aos poucos. Vendia seu rebanho para quem pagasse melhor, e a mata ao redor da fazenda ganhando tamanho, utilizava apenas uma estrada atravessada de dia a dia para comprar as provisões na feira da cidade, dormia muito e quase nunca sentia saudade, acreditava de verdade que suas duas garotas estavam atrás daqueles olhos rotundos, profundos, volumosos e negros da vaca crescida, só não se podiam comunicar.

Aderaldo recebia poucas visitas, todo fim de semana havia uma festa na cidade, um forró bom com rabeca sanfona e zambumba, mas Indira, a cunhada de Aderaldo, viúva de seu irmão, sentia-se sozinha demais ao ouvir aquela música feliz, ela lembrava-se do marido morto há alguns anos por uma doença de peito, infarto talvez.  Indira esperava o dia de festa para visitar Aderaldo, falavam das boas coisas do passado quando andavam todos juntos, Aderaldo, sua esposa, o irmão de Aderaldo e Indira a esposa de seu irmão. O pai de Aderaldo foi um violeiro dos bons, cheio de histórias e de modinhas para colorir as noites sertanejas. Indira, assim como Aderaldo, depois de inviuvada ficou solitária, sem amor. Vinha portanto conversar com o cunhado, não apenas para matar saudades, mas a sede. Quando já ficava tarde para que ela fosse embora, e a tarde chegava de propósito, Aderaldo a convidava “você pode dormir aqui se quiser, se meu irmão fosse vivo talvez não dava permissão, mas ele já está bem longe agora.”, e Indira sempre aceitava depois de reclamar da distância e de uma dor nos pés.

Dormiam juntos na mesma cama e faziam amor, cada um com sua própria saudade. Encontravam na carne do outro a paz para os próximos sete dias da semana. Acordavam juntos pela manhã e juntos gozavam com a expressão bonita de prazer. Suados, secavam-se nos lençois, com o vento da janela aberta com a cortina faceira esvoaçada. Levantavam com o berro do galo, com o cheiro de leite, com a vontade do pão.

A falta de disposição de Aderaldo para cuidar da fazenda fizera aos poucos a pobreza chegar. Notava-se em seus rosto algumas rugas do tempo. A vaca de alma costurada estava saudável, pastava todas as manhãs e fornecia o leite matinal. O pão era comprado na feira da cidade, as frutas poucas eram da horta cada vez mais reduzida. Apesar da tristeza diária, o coração do homem do campo ainda batia muito vivo, bebia todas as tarde um chá erva cidreira. Acalentar as mãos com a caneca quente aquece junto o coração como o abraço da pessoa querida. Tinha pensamentos dourados durante o chá do fim de tarde.

A cidade certa vez enfrentou uma seca que levou muita gente a miséria, apareceram uns tipos viajantes bem estranhos, chegados de longe. A pobreza de Aderaldo ainda não significava fome.

Indira convenceu Aderaldo de que ele deveria aprender a ler, apenas porque ela já tinha se engajado na empreitada, mas era envergonhada de sentar nas cadeiras das crianças, queria alguém para acompanhá-la. Além disso, como todo dia de forró ela e Aderaldo viam-se longe da festa como amantes, surgiu a afeição.

Aderaldo aceitou a proposta mal sabe-se porque, ele não era muito de sair, não era dado à coisas novas, mas a necessidade de conhecer as letras, de saber que “l e i t e” se escreve assim, “t r a b a l h o” assado, e “a m o r ” de outro jeito ainda mais simples mas na verdade era na prática um tanto complicado; tudo isso serviu de justificativa pra aprender a ler e quiçá escrever.

Deixava a fazenda sozinha todas as manhãs e quando ficava muito tarde, ele próprio dormia na casa de Indira, amavam-se e dormiam abraçados, quando desuniam-se durante a noite as mãos continuavam dadas. Aderaldo ganhou afeição com Indira e perdeu parte de sua obsessão com a vaca, mas ainda preocupava-se bastante.

Ligeiro era o peregrino mais novo na cidade. Carregava uma pequena maleta de couro marrom e quinas metálicas, um chapéu de palha, roupas surradas, um paletó cinza amarrotado e um cinto apertado com fivela de ouro. As botinas tinham línguas, mas não tinham sapateiros nem dinheiro para o conserto. A fome de ligeiro aumentava, o ronco da barriga implorava. Roubava um pão deixado quase de propósito pelo padeiro toda manhã. Se Ligeiro soubesse que não precisava roubar, bastava apenas pedir, não teria essa coragem. Tinha vergonha de pedir. Também tinha vergonha de roubar, mas quem rouba, rouba sozinho, e com o passar dos anos o ladrão aprende a engolir a vergonha de sí mesmo. A dignidade para alguns é apenas uma fachada, assim era para Ligeiro. Uma vergonha atrás da outra, acostumou-se a não morrer de fome, engolia a própria vergonha.

Ligeiro vagava a esmo pelas estradas pisoteadas, sujando de poeira as botas arregaçada até que descobriu a vaca de alma costurada. Quando Aderaldo ia assistir aulas de alfabetização na escola das crianças durante a tarde, Ligeiro corria para a fazendinha e roubava todo o leite das tetas volumosas da única vaca de Aderaldo. E como era bom o leite, e as frutas, e toda aquela tranquilidade de roubar escondido. Mas chegou um dia que Ligeiro quis carne, sangue e fartura.

Ligeiro gastou uma semana inteira pensando no jantar de anos atrás quando o pai matou um boi para festejar o aniversário de casamento da filha mais velha. A carne deu para tanta gente e a festa foi tão feliz que o gosto da carne nunca saiu de sua boca. E durante os sonhos Ligeiro salivava de fome da carne. Aquela vaca vistosa era mais gorda do que qualquer habitante da cidade. Só havia gente de poucas carnes na cidade, gente paupérrima naquele tempo magro. E Ligeiro sentiu raiva até do egoísmo de Aderaldo. Como podia um homem só guardar tanta carne para sí só, em troco de um copo de leite, de uma companhia bovina? Para a sorte de Ligeiro, Aderaldo já não gastava muito tempo na própria fazenda, vivia os encantos do amor sob outro teto. A oportunidade faz o ladrão, para o ladrão já feito a oportunidade é quando ocorre o roubo mais puro e sem culpa.

Foi na quinta-feira depois de uma semana inteira de desejos de carne que Ligeiro aproximou-se da fazenda e sob a luz de um lampião catou o machado de cortar lenha. A vaca com seu hálito de grama, que nunca passou por um arrepio de perigo nem percebeu o machado estendido sob seu pescoço. O machado levantado pelos braços fracos de Ligeiro tiveram peso suficiente para partir a carne do pescoço da vaca em dois nacos suculentos. A cabeça pendeu para um lado quando a força do aço abriu os nervos e estourou a coluna vertebral até expor as veias mais salientes, o sangue jorrou com força e transformou a terra em lama. Ligeiro procurou sua faca de estimação e fez um rasgo no pescoço da vaca que ajudou-a a morrer. E a vaca de alma costurada liberou o cheiro de ferro do sangue, morreu tentando debater-se.

A carne que Ligeiro comeu teve um gosto especial, gosto de festa com uma diferença: não havia gente para compartilhar, sobraria muita comida, não teve folia, apenas um silêncio misterioso, um pouco de medo e a sensação de culpa, de falta de dignidade de tirar o leite matinal de um homem solitário.

Quando Aderaldo chegou pela manhã e viu a vaca morta desesperou-se. Uma grande parte da carne do lombo havia sido esfaqueada, parte do couro arrancada e a carcaça toda no chão, desperdiçada, assassinada. O chão ainda estava molhado e o sangue ainda pingava das artérias abertas do pescoço, como a água restante de uma mangueira com a torneira fechada.

Aderaldo só podia chorar e chorar, ajoelhado no chão sobre o barro, sobre o sangue que a terra bebeu. Encostou o rosto na terra e seu rosto manchou-se de marrom e vermelho, a cor da terra molhada. Caiu de bruços e gastou duas horas olhando para o céu até que o choro finalmente cessou. Aderalbo percebeu com paz interior que as almas costuradas de sua esposa e filha estavam finalmente livres para diluirem-se pelo infinito do espaço.

Não haviam mais viúvos, não havia mais fome e a chuva abençoada do dia seguinte salvou muitas plantações da miséria, despencou sobre o teto da casa de Indira que agora também era casa de Aderaldo.

Ed

In 1 on Outubro 31, 2008 at 4:21 pm

O Ed é uma figura aqui do trabalho. Ele vive andando de um lado para o outro, trabalha no suporte de atendimento aos jornalistas, carrega coisas, comunica, faz este tipo de trabalho.

O que é peculiar sobre essa figura é o fato de que ele não chama ninguém pelo nome. Eu cumprimento: “E aí Ed!”, e ele “Fala Jorginho”, detalhe que meu nome é Gustavo. Ele chama as mulheres de Isa, Regina, Bete, e os homens ele chama de Miguel, Jorginho, Marco. É uma boa desculpa para não decorar o nome de ninguém, aí outro dia um jornalista o cumprimento e ele o chamou pelo nome: “E aí Irlam!”. E eu falei, “Oh Ed! O Irlam tu chama pelo nome né?”, e ele respondeu “É que o Irlam tem mais de 30 anos de casa!”. E sai rindo.

De vez em quando ele passa cantando. Todo mundo rí. É uma figura.

Hoje o Ed veio todo elegante, de roupa preta combinando com a cor da pele. Toda hora ele vai em direção a janela e fica observando, observando. Quase não trabalha.

Dos dois um, ou o Ed está esperando a hora do exame de fezes, ou está apaixonado!

AHUahuuahHUA

Alvejado

In 1 on Outubro 28, 2008 at 5:11 pm

Algo me alvejou, ai! Olha o sangueiro irmão.
Segura que… eu vou cair.

Cambaleou, cambaleou. De onde veio a pedra?

Já era bem noitinha e o povo lá de casa já tinha ligado pro celular “Volta pra casa cedo Gustavo”. “Volta pra casa Gu”, era o que eu queria ouvir. Só ela me chamava assim. Preciso dela, essa pedra me deixou assim, abalado. Tem sangue por todo o lado. Não vou voltar para casa nesse estado, de barba mal feita, de mente ébria, de pés suados, de roupa social.

Linda, me segura aqui, que eu to escorregando, meu peito parece que tá afundando, tá difícil respirar, enxergar. Tem um rastro por onde passo, é vermelho. To tão cansado, não quero voltar para casa hoje a noite, quero ficar contigo. Amanhecer na sua cama, como naquela época. Desculpa se fui embora sem avisar, eu gostava de você, mas na época não dava. Não dava. Tive que ir. E fui. Depois você sumiu, nunca mais me respondeu. Não te tiro a razão, eu também sumi.

Volta pra cá. Quero beijar a carne farta da tua boca, do teu corpo. Lembra daquele vestido preto que você usava quando eu te busquei na festa da casa da sua vó? Queria te ver com ele de novo. Você suspirava quando eu te beijava com mais força. Será que você ainda guardou um suspiro daquele pra mim?

Já é madrugada, mas não me importo, vou te acordar. Quando você ouvir dois gritos meio soprados na janela da sua kit, me atenda, quando ouvir duas batidas meio esquecidas na porta do seu apartamento, me atenda. Só espero que você não esteja com ninguém… que não esteja com ninguém, porque eu preciso dos cuidados da melhor e mais bonita enfeirmeira da face da terra.

To sangrando, me socorre.

Um entrevistador, duas gatinhas

In 1 on Outubro 28, 2008 at 1:13 pm

Um entrevistador, duas “gatinhas”.

Bom dia garotas.
Ai. Bom dia. Tudo de bom seu programa.
Show mesmo. Adorei.

Fiquei sabendo que vocês foram a uma festa ontem a noite. Como foi?
Foi tudo de bom. Só tinha gente bonita. Eu olhava para um lado, olhava para o outro, cheio de gente bonita.
E o DJ amiga? Tudo de bom! Ele deu uma piscada pra mim, eu fiquei lá bombando na pista de dança.

O que vocês fazem da vida meninas?
Balada, balada, muita balada.
A gente estuda também né amiga. A gente faz amigos, a gente namora, a gente vai ao cinema. Tudo o que as pessoas normais fazem.

E vocês se acham especiais em relação as outras pessoas?
Ah. Nós somos especiais, somos animadas, somos gente boa e sabemos nos divertir.
É verdade, acho que a vida é pra viver, e a gente sabe viver, a gente tá em todas, né amiga?

Qual foi o dia mais especial na vida de vocês?
Acho que foi a minha festa de quinze anos. Foi inesquecível. Tudo de bom.
É amiga, a festa de 15 anos foi mesmo, fui até pra walt disney.

Garotas. Estou ficando sem perguntas. Vamos fazer um intervalo?
Ok.
Tudo certo migo.

(apresentador sai, ficam as garotas com a câmera ligada)

Ei miga. E aquele negócio no seu pé? Já saiu?
Ainda não. Ja lavei com força mas não sai.
Eu trouxe uma pinça aqui. Quer tirar?
Deixa a sala esvaziar.
Tá.

(a sala esvazia)

Pronto. Tira o sapato amiga.

(tira o sapato)

ai. Isso doi.
Espera, não fica mexendo.
Ai.
Tá saindo.
Ai.
Eca. Saiu junto um púzinho muito nojento.
Ai miga, que nojo.
Que isso miga, é só um furinho.
Mas não tá parando de sair o pús… socorro amiga.

( Duas horas depois o hospital atendeu duas garotas desesperadas, o programa nunca foi ao ar)

Mi Casa

In 1 on Outubro 27, 2008 at 5:10 am


Caso o video não abra, acesse por aqui

Direção e edição: Gustavo Serrate

Em junho de 2006 eu estudava cinema em São Paulo e estava passando por uma barra pesadapor lá. Havia acabado um namoro, brigado com a coordenação do local onde eu estudava (e foi uma briga feia) e também tive problemas com a minha equipe de filmagem, porque fui diretor de um projeto realizado por uma “equipe-panela”, ou seja, entrei de gaiato em um projeto apenas para suprir a falta da direção, mas quem estava realmente no comando eram o produtor e a diretora de fotografia, eu fui um mero coadjuvante no set. Por todos esses motivos, São Paulo estava uma merda.

Quando eu cheguei em Brasília para passar as férias, eu estava desesperado, chorão que eu sou, afoguei as mágoas no travesseiro, mas quando dormi de noite tive um sonho incrível. Sonhei que eu chegava na beira de uma praia vazia, era fim de tarde e o sol quase não existia mais. Eu corria em direção ao mar e entrava na água que tinha uma temperatura tão gostosa quanto o meu cobertor. Eu boiava no mar, sorrindo, sendo empurrado de lá para cá pelas ondas. E nesse dia eu me acalmei de todos problemas que passei por lá, e relaxei. Cheguei ao ponto de quase desistir de continuar meus estudos em cinema, porque percebí que minha casa era muito boa, que minha vida aqui era muito tranquila em relação ao que eu passei lá, e que aqui eu tinha minha paz. Mas apesar desse pensamento, esse momento pacífico me ajudou a refletir, é como um livro que lí sobre a arte de parar. É a visão de um padre norte-americano, que sofreu fortes influências do zen budismo e da psicologia moderna para trazer esse pequeno, porém muito útil tratado sobre a importância das pausas em nossa vida. Estas pausas, que podem ser curtíssimas, como um momento de reflexão de alguns segundos, como podem ser longas pausas, como férias na praia, ou pausas como uma noite bem dormida. A lição que o livro trouxe me foi essencial: Parar, para reatar a vida com mais clareza e serenidade.

Este período que passei em Brasília me causou muita criatividade e abertura ao mundo. Comecei a ponderar sobre como minha casa aqui em Brasília era para mim um porto-seguro, sobre a importância da proximidade das pessoas que eu gosto e sobre a importância de saber valorizar tudo isso, de não se esquecer. Foi quando veio a idéia de realizar este curta. Escolhí as pequenas coisas que mais me agradavam, as pequenas particularidades da minha casa em Brasília. Lembrei das cortinas esvoaçantes no quarto dos meus pais, que formavam uma imagem tão bonita da luz do sol refletida na imagem delineada pelo vento invisível, das pequenas bonecas de minha mãe, do meu velho pandeiro, da água do jardim, da pequena estátua de barro que meu tio esculpiu como uma caricatura de mim mesmo, do meu quarto, do varal de pregadores coloridos, tudo isso era a minha casa, a minha Brasília. Infelizmente nunca descobrí quem são os autores das músicas que utilizei no filme, são MP3 da cultura celta, mágicas, oníricas.

Este filme entrou para o festival de curtas do Terraço Shopping com o tema: “O que é brasília para você?”. O curta venceu o terceiro lugar da mostra. Um filme tão simples, me supreendeu que tivesse ganhado algo, já que era um momento tão pessoal e íntimo. O filme marcou um momento importante da minha vida, que foi o momento de renovação. Quando tudo parece perdido, você percebe que ainda é capaz de valorizar as pequenas coisas, descobrir as pequenas pausas e prosseguir com toda a paz, apesar dos momentos de desespero, medo e desilusão.

Quando voltei a São Paulo eu estava pronto para outra, passei a enxergar a cidade com outros olhos e me sentia até mais esperto e com mais energia para lidar com os problemas de lá. Os meus últimos seis meses em São Paulo passaram voando, tão bons que foram. A Talita Antunes, minha ex namorada de São Paulo recentemente teve seu primeiro filho, o moleque puxou os olhos da mãe, pelas fotos que ví, ela está boba de felicidade. E eu por ela.

Recém-libertos (parte 3)

In 1 on Outubro 24, 2008 at 3:23 pm

Fernanda acendia um cigarro atrás do outros. Goiano contava os palitos de fósforo que ela usou para acender um deles, estava nitidamente nervosa. Ele por outro lado, sereno como uma folha outonal. Nos tempos de prisioneiro gastava horas e horas agachado no pátio deixando que o sol banhasse seu corpo, ignorando todos os comparsas criminosos, pensava na vida, em Rio Verde e na estrada gostosa de uma viagem de setembro, lembrava do tempo de criança, das reclamações dos pais “cuidado para não cair e machucar os joelhos”, das disputas de bilocas. Os quatro anos de reclusão realmente o fizeram pensar. Há quem diga que livros de auto-ajuda para nada servem, mas Goiano sabe que o simples fato de ter a audácia de abrir um deles já é um gesto simbólico de: “Estou disposto a me ajudar”. Abriu a bíblia, buscou serenidade, preferia autores contemporâneos, que cuidavam dos problemas urbanos, da modernidade.

“Antes da cadeia eu vivia sempre nervoso, tratava a todos mal e nem me dava conta. Faltava algo em minha vida, um tempo para pensar. O excesso de informações e a falta de tempo para gastar em silêncio, esquecer das responsabilidades me levou a viver assim”, pensou Goiano.

Fernanda levantou-se abruptamente para atender o telefone. Goiano ficou de frente para o cigarro queimando sozinho. Levantou-se da cadeira para observar os retratos. Imaginou o gosto de cigarro na boca dela, ainda assim teve vontade de beija-la. Aproximou-se, e abraçou-a por trás, beijou o seu pescoço enquanto ela falava ao telefone e não esperou que terminasse a ligação. Fizeram amor alí mesmo, jogados sobre o sofá, ela foi obrigada a interromper a conversa.

Enquanto relaxavam no momento pós-coito, Goiano contou a Fernanda: “Hoje acordei com esse sonho… eu estava aqui na sua casa. Estava no sofá, esperando você, mas eu não te via. Você não aparecia. E hoje, depois do sonho, eu estou aqui, e você está aqui, mas parece a mesma coisa. Eu sei que quando for embora por aquela porta não vou querer voltar, porque eu sei que você não voltou. Eu já sabia disso há muito tempo desde que ví a forma como você tinha sua face lisa e sem sentimentos ao saber que eu iria embora… para a cadeia. Em ví em seu rosto cinza que não havia amor algum alí. E hoje, depois desse sonho, foi um estalo para mim. Foram quatro anos na cadeia pensando em você e em apenas um dia da minha vida eu resolvo que sou eu quem não te quero mais”.

Fernanda estava realmente sem sentimentos, mas ouvir aquilo a deixou indignada: ”Você não ama ninguém! Você gosta de sofrer. Você se apaixona e aos poucos vai dirigindo seu amor para o fim, como se fosse inevitável, mas é você quem torna tudo inevitável, porque você não quer uma mulher ao seu lado, você quer uma musa, com quem possa sonhar a distância enquanto divide seu tempo com outras garotas! E quando a imagem da sua musa começa a ir embora da sua cabeça você precisa arranjar outra musa para abastecer suas idéias imbecis por mais alguns anos! Você acha que eu não te conheço? Eu não guardo nada de você, nem as suas cartas e eu realmente não demonstrei sentimentos porque não havia o que dizer, agora saia da minha casa”.

Satisfeito em sua tristeza, Goiano saiu e permaneceu absorto na parada de ônibus, quando Criolo e Jaiminho se aproximaram. Goiano olhou para baixo e meneou a cabeça ao perceber a presença dos colegas.

- Quem é vivo sempre aparece. – Disse Criolo coçando a barba.

Criolo sentou-se ao lado de Goiano e Jaiminho aproximou-se dele, agachou e encarou-o frente-a-frente. Jaiminho agarrou o queixo de Goiano e apertou com força pressionando a cabeça dele para trás, encostanda-a contra a parede da parada de ônibus.

- Porque fugiu da gente? – perguntou Criolo.

A boca de Goiano apertada pelos dedos tensos de Jaiminho pronunciou a resposta com um som ridículo.

- Eu não fugí, eu só perdí vocês de vista.
- Eu não fugí, eu só perdi vocês de vista – Criolo repetiu a voz imitando a patética dificuldade de falar.

Goiano tentou balançar a cabeça para escapar das mãos dementes de Jaiminho, mas ele não deixou e Criolo pressionou seu braço e encostou a boca nojenta no ouvido de Goiano.

- Tá achando que vai escapar da gente é vadiazinha? Tu deixou a gente numa pior! Sabe o que aconteceu naquela noite? A gente apanhou da polícia, dormiu na rua. Tivemos que dormir abraçadinhos né Jaiminho?

Jaiminho soltou uma gargalhada histérica. Uma mulher que aproximava-se da parada de ônibus deu meia volta e tomou outro caminho. Jaiminho puxou a cabeça de Goiano e o arremessou contra o chão. Goiano caiu deitado. Criolo se levantou e apoiou o pé sobre a sua têmpora. O rosto de Goiano ficou colado ao chão.

- Bota a língua pra fora filha da puta! – Gritou Jaiminho com sua irritante voz aguda – Bota a linguinha pra fora seu merda! Tava na casa da namoradinha né? Acho que você vai ter que compartilhar a diversão seu sacana!

- Cala boca! – Criolo tinha alguma ligação espiritual com Jaiminho, se é que existia alma dentro de qualquer um dos dois, apesar disso detestava os seus excessos. Como criminoso, Criolo sempre foi comedido, sabia ponderar suas ações e sempre foi prático, nunca passional. Jaiminho por sua vez respondia plenamente aos instintos, podia surtar a qualquer momento. Criolo visava benefícios a longo prazo, Jaiminho gosta do momento.

Criolo aproximou-se de Goiano e o fez beijar o chão com a língua. Jaiminho ria como uma hiena, esfregando as mãos sem esconder o prazer.

Recém-libertos (parte 2)

In 1 on Outubro 23, 2008 at 9:17 pm

Permaneceu dia após dia na labuta urbana, arrumou um pano velho, um balde rachado e uma estopa seca. Gastou suas tardes enxugando os carros da classe média. Aos poucos perdeu a mentalidade de ladrão e foi sendo conhecido na rua como “Goiano”, era assim que todo mundo o chamava, e ninguém sabia de sua história, de onde veio, nem muito menos que fora prisioneiro da papuda.

“Hoje eu tenho dinheiro, eu vou lá”. Goiano pegou a grana economizada na base da dureza. Comprou uma bermuda maneira e uma camisa estampada na feira do setor comercial sul de Brasília. Tem roupas baratas iguais as roupas da loja, só que o nome é diferente. Não muda nada, só o selo. Pra ele não faz diferença. Arrumou um perfume emprestado com um colega de trabalho vaidoso e pegou o último ônibus antes do pôr-do-sol. Não percebeu, mas entraram na sua cola os dois “amigos” de cadeia, o assassino e o estuprador, que também ganharam nomes: Criolo e Jaiminho respectivamente. Criolo, o assassino, tinha uma cara encrispada de tanta raiva que já sentiu na vida. Na cadeia vivia querendo matar todo mundo, qualquer intriga era desculpa pra cravar uma ponta nas tripas de alguém, mas fora da cana amorteceu levemente as feições, nem só por isso tornou-se gentil. Jaiminho, o estuprador, conseguiu atravessar quase incólume os anos atrozes de cadeia, foi violado apenas duas vezes mas há quem diga que ele gostou. Não chega a ser um retardado, mas é um homem socialmente inadaptado: “Nascí para currar”, costuma dizer.

Viajaram os três juntos, Goiano não sabia da presença dos “cumpadres” tão perdido estava nos pensamentos de rever sua ex-namorada.

Desceu na parada de ônibus que já havia descido tantas vezes e o coração disparou. Paralisado quase suou, uma sensação estranha se instalou em sua mente. Era um misto de esperança com desejo, mas também havia aí o medo da rejeição. Apesar disso decidiu não pensar em nada de ruim, assumiu que ela o aceitaria de volta e um mundo novo de possibilidades se abriu em sua cabeça. Foi como ter renascido um novo homem repleto de prospecções, de riqueza espiritual e humana, com vontade de trabalhar, de se tornar alguém de valor dentro da sociedade corrupta. Se tornaria um homem bom, caso fosse aceito. Caso contrário, iria embora vivendo como sempre viveu, como um eterno errante solitário. Torceria para nunca mais reve-la, para que se apagassem até as boas recordações, pois sempre viu uma semelhança natural entre o passado e o cemitério. Goiano é um homem de vida, por isso vive irresponsavelmente o agora.

A porta da casa já estava fechada, a mãe de Fernanda, a ex namorada de Goiano, tinha medo daquela cidade. Tocou a campainha e ela apareceu. Fernanda usava um short curto, um top branco, o umbigo aparecendo. Os cabelos dela pretinhos e lisos escorriam pelo pescoço. Os olhos apertados, levemente esverdeados e o jeito manhoso. “É bonita exatamente como eu lembrava”, pensou Goiano. Ele tentava adivinhar o que se passava na cabeça da garota.

Minutos depois estavam os dois sentados na mesa de café da casa dela conversando baixinho, como que se reconhecendo. O rosto de Goiano estava diferente, homem feito que o inferno da cadeia esculpiu, duro como pedra, se contasse tudo o que viu causaria medo em Fernanda. Ela tinha a risada gostosa, mas hoje não estava para rir. Tinha a mania de apoiar-se nos joelhos dele para beija-lo com o nariz, mas hoje não estava para carinhos. A moça também mudou, também cresceu e foi-se embora bastante coisa daquela menina que ele conheceu, ainda assim estava alí, admirado com tudo de novo.

Do lado de fora dois criminosos já punidos e liberados pela sociedade estavam com os ânimos afoitos: “humilhar o ex-colega. Ingrato. Ingrato”, pensava Criolo.

(continua…)

Recém-libertos (parte 1)

In 1 on Outubro 22, 2008 at 3:20 am

Os olhinhos infantis já não enganam mais ninguém tantas foram as vezes que mentiram em rios de lágrimas, não se sabe de onde vinham. Eram sempre fartas as choradeiras, mas não derramou uma gota quando soube o motivo da prisão: ROUBO!

Completou cinco anos no inferno imundo que é a penitenciária papuda, detido por furto qualificado. Ao sair, foi lhe dada uma camisa branca, chinelas e uma bermuda, estava muito frio e a ventania estava forte. Haviam outros dois recém-libertos no pátio esperando apenas que ele saísse. Não há condução para os presos, na maioria dos casos ninguém da família está na porta da prisão no dia da soltura, então o caminho para a rodoviária é longo, e tinham que fazer a pé. Se dessem sorte conseguiriam carona de algum motorista generoso.

No caminho, os prisioneiros conversavam, apesar de habitarem alas diferentes do mesmo complexo, apenas um dele manteve-se completamente calado durante longo período. O assassino do grupo puxou papo com o ladrão.

-Que foi que tu fez?
-Roubei um carro de um bodinho. Me ferrei. Tinha uma blitz, o pai dele era militar.
-Mas que azar da porra.
-Pois é.
-Tu já tem pra onde ir?
-Tenho não. Quer dizer… na verdade eu tenho, só não sei se vou ser aceito de volta.
-Pois é cara, nem eu nem o cumpadí alí temos onde ficar. Tu acha que pode arrumar um abrigo pra gente?
-Olha… não sei se consigo nem pra mim…
-Que que tem? Tá me achando sujo só porque sou preto?
-Não é isso porra. Sou meio preto também merda.
-Tu é merda de moreno rapá! Qual o problema de ficar na tua casa?
-Não é minha casa, esse é o problema!
-É casa de quem?
-Da minha ex mina.
-Ah. Foda-se. Pede pra ela arrumar um colchãozinho.
-Que colchão, não tem colchão lá não.

O assassino ficou olhando para o ladrão, estava puto. O estuprador permaneceu em silêncio.

- Olha alí! Vamo pedir uma cervejinha alí, ver se os caras são sangue bom.

E foram. O assassino sentou-se na mesa com arrogância, os outros dois permaneceram de pé.

- Rola uma cervejinha aí véi ?

O garçom passou o pano na mesa calado, limpou os pingos de cerveja e restos de comida que ainda estavam alí por cima.

- To falando contigo. tu ouviu?
- Tranquilo, vou trazer uma lata e vocês dividem.

O garçom sai.

-Dividem nada! Eu que sentei. Eu que pedi. Eu que cobrei. Eu que ganhei. Eu vou tomar sozinho.

O estuprador se aproximou.

- Um gole cara. Um gole. To há anos sem sentir o gosto da cevada.
- Vai implorar? Vai lamber minha pica? Não né? Então nem adianta insistir.

O garçom trouxe a cerveja e puxou duas cadeiras para o ladrão e para o estuprador. Sentaram-se e esperaram que o assassino tomasse sua cerveja. E ele apreciou o gosto com um prazer nítido, lentamente, saboreando, permitindo que a cevada se fizesse sentir em todas as extremidades da boca e da língua, deixou que o líquido percorresse a garganta vagarosamente e cada golada representava uma comemoração de liberdade. Quando já estava no final, e os últimos goles estavam ficando quentes, deixou um dedo de cerveja dentro do copo e se levantou.

- Pra não dizer que sou otário.

O estuprador pegou a cerveja com pressa.

- Calma, tem pouco, mas vou deixar para você.

Bebericou vagarosamente. A boca suada encostou na abertura da latinha e o ladrão perdeu a vontade de provar da liberdade.

- Tu foi pra cadeia porque?
- Atentado violento ao pudor.
- E o que é isso? Ficou peladão na rua?
- Não. Claro que não. Comi a filha do meu patrão. Aposto que ela gozou! EHEHeh
- Isso é estupro! Dá trinta anos!
- Mas meu advogado foi bonzinho e eu peguei só seis.
- O que teu advogado fez?
- Ele foi esperto ! O sacana usou a constituição! Foi a própria lei que me salvou. Eu comí só o cú dela, isso se enquadra em atentado violento ao pudor. Se eu tivesse comido a buceta, aí era estupro. Se ela tivesse menos de 18 eu tava fudido, mas já era uma égua crescida.

Enquanto isso o assassino tentava conseguir de graça um espeto de churrasco ameaçando discretamente o trabalhador. Conseguiu um espeto com pouca carne e muita gordura. Dessa vez foi generoso e deixou dois pedaços, um para cada “amigo”. Tinha uma dor de barriga insistente que ganhou com as marmitas indigestas do presídio. O estuprador deixou um gole para o ladrão, que não teve coragem de tomar. “Esse nem o santo quer”, pensou.

Saíram os três, rumo a rodoviária. O ladrão sentia-se sem esperança, sem prospecção, sem fé. Deixou o passo vagaroso, permitiu que os dois outros caminhassem à sua frente até ficarem distantes, mas eles sempre o esperavam.

Duas horas mais tarde estavam os três na rodoviária. O assassino quis mijar.

- Eu vou num banheiro descente pela primeira vez ! Faz tanto tempo que nem me lembro.

Para ele o banheiro da rodoviária era descente em comparação ao banheiro que frequentava regularmente. Só o fato de não ter que expor o pinto para um bando de gente já tornava a coisa respeitável, quase de família. Apesar do chão sujo, do cheiro, da gente louca, da pocilga que era aquilo, parecia o céu. É como dizem: Pra quem saiu do inferno, o esgoto é paraíso.

O ladrão aproveitou a brecha. Enquanto o assassino mijava e o estuprador acalentava os próprios braços debaixo da camisa no frio maldito da noite seca, escapou pela escada, se enfiou pelas ruas brasilienses e perdeu-se no escuro. Passou a noite dormindo em uma viela e acordou com o tropel sapatos engraxados passando às pressas no setor comercial. Levantou-se e viu no reflexo do espelho um mendigo em potencial. “Só se eu desistir”, pensou, “só chega a esse estado quem desistiu de tudo”. Observou um sujeito ao seu lado, dormiu da mesma maneira, a diferença entre os dois é que pela manhã ele estava de pé, o colega de sargeta não.

Lembrou-se de Goiás, Rio Verde. Sentiu remorso de ter deixado tanta coisa para trás, a casa quente, o acalento familiar, o cheiro de barro perto da lagoa, a labuta vagarosa mas compensativa, a vida de filho e estudante, o amor dos irmãos, as graças da vida. Haverá de lavar muitos carros para voltar para a terrinha, não tantos quanto os moradores de rua que vieram do nordeste, até mesmo porque muitos donos de carro confiam suas chaves ao lavador. E no caso deste lavador, uma chave de carro e um tanque cheio de gasolina são suficientes para cair fora daqui.

(continua…)

Menino

In 1 on Outubro 17, 2008 at 4:27 pm

O menino aos trotes e a vida dizendo pra parar de correr, pois tu pode cair e até se ferir se pro chão não olhar; Vê se olha direito, não tem porque se apressar, o tamanho do passo diz é a vida e não tu. Olha a menininha, tá sozinha chorando sem ninguém pra abraçar, dê um beijo faceiro, no rosto corado, no pescoço rosado nos lábios macios na doçura do mel. Seja bom menininho, não vá se enfezar, por os pés pelas mãos e cansa-la de ti, ela é tão bonitinha, mas também tem espinhos, pra quem não sabe lidar. Deixa o sangue escorrer, deixa ela falar, engula a dor, fique quieto, pois a flor que machuca só não pode murchar; Pega a enxada, ara o campo, e não vá se assanhar com menina bonita na janela a cantar; Te cuida menino, o sinhô tá chamando é hora de almoçar, o trabalho. A barriga tá cheia, mais labua amanhã, pro ano que vem não faltar. O joelho doendo, é idade chegando, hora de espreguiçar já são sete da noite; Um sorriso, um soluço um descanso tu tem, é de se merecer; Manda um abraço pra gente que tu fez de amigo, pra quem ficou no caminho, pra quem já disparou. Pra quem anda contigo, estica a tua mão, um afago no coro, beijo no coração; Não se deixe esquecer, faça de boa vontade, ouça com atenção, o sonzinho das águas rasinhas da vida, soprando de leve, empurrando o ponteiro, passando sem parar . Peça a deus, oh menino, pra te acompanhar, para abençoar, os seus entes queridos, não se deixe odiar pelos erros que fez, deixa ela saber que tu errou por amor, que não tinha intenção de tirar dor da flor. Saiba logo menino, a vida é assim, com seus altos e baixos, sem tempo pra tentar; limpe agora suas botas, pra voltar a sujar, lave-se seu menino, com as águas do mar, reacorde e acenda o seu bom coração.

Curta”Homicida é!” no Festival de Brasília

In 1 on Outubro 15, 2008 at 3:54 pm

O curta-metragem “Homicida é!”, do qual sou diretor e roteirista, foi selecionado para participar do 41º Festival de Brasília na mostra 16mm. Ótima notícia. Parabéns a todos da produção, elenco e pós.

O Festival acontece no período entre 18 a 25 de novembro de 2008. O festival recebeu 238 inscrições, sendo 81 deles filmes em 16mm. A mostra dos filmes em 16mm ocorre na Sala Martins Penna do Teatro Nacional Claudio Santoro entre os dias 20 e 24 de novembro.

Abaixo segue a lista dos filmes selecionados para a competição de 16mm:

1. 2+2=5, de Gui Campos, 7min, DF
2. 32 Mastigadas: 16N e 16S, de Maria Vitória Canesin, 13min, DF
3. A Menina Espantalho, de Cássio Pereira dos Santos, 13min, DF
4. Alice, de Edqard Boggiss e Miguel Przewodowski, 20min, RJ
5. Canosa One, de Fellipe Gamarano Barbosa, 18min, RJ
6. Cidade do Tesouro, de Célio Franceschet, 18min, SP
7. Cotidiano, de Renato Jevoux, 14min, RJ
8. Depois das Nove, de Allan Ribeiro, 15min, RJ
9. Depois de Tudo, de Rafael Saar, 12min, RJ
10. Disfarça e Chora, de Robson Graia, 10min30, DF
11. Homicida É, de Gustavo Serrate, 25min, DF
12. Incarcânu A Tiortina, de Tau Tourinho e Gabriel Lopes Pontes, BA
13. Landau 66, de Fernando Sanches, 11min51, SP
14. Mãe, de Luiz Antônio Pereira, 15min, RJ
15. Marcelo Bousada, quem?, de Denilson Félix, 39min, DF
16. Maridos, Amantes e Pisantes, de Angelo Defanti, 12min, RJ
17. Medo do Escuro, de Cauê Brandão, 17min, DF
18. Memórias Finais da República de Fardas, de Gabriel F. Marinho, 35min, DF
19. Minha Tia, Meu Primo, de Douglas Soares, 9min10, RJ
20. Na trilha das guerreiras, de William Alves, 40min, DF
21. Nada Consta 2: Malditos Robôs, de Santiago Dellape e Davi Matos, 15min, DF
22. Nello’s, de André Ristum, 26min, SP
23. Nem marcha Nem chouta, de Helvécio Marins Jr., 8min, MG
24. O Beijo da Meia Noite, de Jefferson Matoso, 14min, DF
25. O Caipira e o Chupa-Cabras, de Joelson Miranda Santos, 12min, GO
26. O que há de ficar, de Felipe Continentino, 14min50, RJ
27. O Rapto da Lua, de Fábio Escovedo e Vinicius Pereira, 19min05, RJ
28. O Velho Guerreiro não Morrerá – O Cangaceiro de Lima Barreto 50 Anos Depois, de Paulo Duarte, 20min, SP
29. Ouroboro, de Maurício Antonângelo, 17min, SC
30. Poesia do Barro, de Adriana Gomes, 40min, DF
31. Raul de Xangô, de Érico Cazarré, Henrique Siqueira, Marieta Cazarré, 17min, DF
32. Tira-gosto de Poeta, de Danielle Araújo, 24min40, DF
33. V.I.D.A., de Geison Ferreira e Vinícius Zinn, 22min30, SP
34. Varenick com vatapá, de Marcelo Szykman, 18min, SP

Saiba mais sobre o filme

Tarot

In 1 on Outubro 9, 2008 at 3:57 am

Agora que a razão se mostrou favorável aos seus argumentos, é muito importante se cuidar para que a rigidez não tome conta das palavras e atitudes. Quando a razão estiver do seu lado, pratique a compaixão e o perdão. 

1º carta – Ás de Paus – O impulso vital afirmativo

O Ás de Paus representa força criadora, potencia sexual e luminosidade.

2º carta – Ás de Espadas – Discordâncias benéficas

Neste arcano a coroa e a espada representam sabedoria e força intelectual que penetra e compreende tudo.

3º carta – Rainha de Espadas – Ressentimento e ressecamento emocional

Este arcano transmite a idéia de controle das emoções, talvez à custa da afetividade. Risco de amargura.

4º carta - Cavaleiro de Paus – Aventurar-se é preciso!

Este arcano revela força impulsiva, capacidade de imposição, jovialidade.

5º carta - O Mundo – Sucesso, enfim!

A figura deste arcano XXI do Tarot representa a alegria de viver. Revela também plenitude, renovação e abertura de novos processos.

6º carta – 7 de Ouros – Dar um tempo para aperfeiçoar-se

O arcano VII do naipe de Ouros traduz sentimentos de fracasso, enfraquecimento e perecimento, que precisam ser superados.

 

personare

Diversão na terça-feira

In 1 on Outubro 7, 2008 at 8:35 pm

Terça deveriam inventar um programa legal pra se fazer. “Terça feira é o pior dia”, acabou de dizer a Bianca, minha colega de bancada aqui no trabalho. Precisamos de um pouco de festa, de diversão, de música para sacudir a camada de músculos flácidos que recobrem o esqueleto de um típico urbanoide, leia-se: ser-humano habitante da cidade e que não pratica exercícios por conta de sua rotina.

Na cidade viramos deslumbrados com tudo o que promete um raio fugaz de êxtase, procuramos drogas, festas, prazer e nada nos satisfaz, nossa vida enclausurada limita os horizontes, causa tédio, depressões e quando não, suicídios. Por isso é renovador viajar para a praia, contemplar a extensão do mundo, se sentir pequeno. Sentir-se pequeno é essencial para sentir-se bem, constata-se que a dimensão de nossos problemetos-urbanóides é risível diante do todo.

Na cidade acontecem coisas todos os dias e todos os dias os jornais noticiam o que aconteceu, o que acontece e o que irá acontecer. Os cidadãos estão ludibriados com a crença de que a cidade é o centro do mundo e que tudo o que alí acontece é importante para o resto do mundo. Chamo isso de alienação, perdemos de vista a extensão do mundo.

Para que nos conformemos com nossa existência miseravelmente omissa, egocentrica e cerceada pela falta de visão, a cerveja é ilusão, a balada nos acalma, o hedonismo anima. Viajar é preciso, mas quem pode fazer isso no meio da semana em plena terça-feira? Vamos dançar break e girar o corpo, forró e cheirar um cangote, tango e nos seduzir, a dança (incluindo aí capoeira, sexo, e êxtases religioso) é a maior possibilidade humana dentro da cidade.

Divirtamo-nos nesse mundinho miúdo que se acha tão importante, porque a diversão é a única coisa verdadeira e importante nessa vida. É o que farei.

Poemeto do cheiro de fulô

In 1 on Outubro 7, 2008 at 2:19 pm

Eu não te tenho.
Tu não me tem.
Quando tu quer,
eu quero além!

No sonho me perco
em teu cheiro, fulô,
de peles despidas,
o seu seio e amor.

Quando tu vai,
eu vivo até bem.
Quando tu vem,
eu vivo tão bem.

Oração da Serenidade

In 1 on Outubro 7, 2008 at 1:30 am

concedei-me
Serenidade para aceitar as coisas
que não posso modificar,
Coragem para modificar aquelas que posso,
e Sabedoria para perceber a diferença.
Ámen.

- Reihold Niebuhr

Mulher e parafuso

In 1 on Outubro 1, 2008 at 2:33 pm

 

Eram seis da manhã quando Cristovam acordou. Seu relógio biológico está perfeitamente sincronizado  com o tempo do o despertador, programado para alguns minutos após. isso não quer dizer que a noite foi bem dormida. A casa de Cristovam está passando por uma reforma, as janelas estão sem vidro e ele precisou se agasalhar bem para atravessar a noite.

Cristovam se levantou, seus músculos estavam cansados, faziam algumas semanas que ele não tinha tempo para praticar esporte algum e a noite passada bebeu cerveja além da conta. Era pra ser no máximo duas cervejinhas, mas foram cinco garrafas, é claro que ele não bebeu sozinho, mas a mania de beber cerveja como se fosse água o levou a tomar mais que todo mundo. Antes de dormir bebeu dois copos d´agua e comeu uma banana, mas não adiantou, acordou com essa dorzinha de cabeça miserável.

Há uma tarefa para hoje, Cristovam é jornalista e precisa descer a São Sebastião para entrevistar os motoristas de ônibus. Pegou uma câmera, foi de microonibus e fez algumas imagens. Os motoristas não quiseram gravar entrevista por medo de demissão, mas conversaram informalmente. O contrato dos coitados vence em um mês, uma nova empresa vai coordenar o transporte mas até agora não deu sinal de que irá recontratá-los. Fora isso as condições de trabalho são complicadas, o tempo que eles deveriam trabalhar por dia é de 6 horas com duas horas extras em alguns dias. As horas extras não são pagas e eles sempre trabalham muito mais do que seis horas, alguns trabalham onze horas, outros trabalham até 20 horas e em muitos casos o motorista precisa tomar arrebites para se manter acordado e atento ao trânsito. A empresa ainda diz que o motorista que bater o carro vai demitido na hora. Não é uma vida fácil. Quando Cristovam chegou os motoristas ficaram alvoroçados, queriam contar dos problemas, mas sem se expor. Alguns desconfiaram que ele fosse um fiscal, teve que mostrar o seu crachá de identificação. Na verdade muitos motoristas já não tem mais do que temer, eles tem a certeza de que não serão recontratados pela nova empresa.

Depois de concluir as entrevistas Cristovam foi embora, cansado, com preguiça, um mal humor que surgiu do nada. “Hoje não quero falar com ninguém”, pensou. Na viagem de ônibus, à caminho da redação do jornal, começou a lembrar de algumas questões dolorosas, questões afetivas que não deveriam mais incomodar, afinal, o que não tem resolução, resolvido está. Como sempre, problemas com mulher. A vida lhe pareceu estranha, estes pensamentos fantasmas sobre uma coisa que não existe mais poderiam simplesmente desaparecer para sempre! Faria bem.

Cristovam observou algumas pessoas dentro do ônibus, todas tão cheias de problemas, mas com sorrisos estampados. “Como podem esbanjar tanto bom humor?”, sentiu uma certa inveja. Sentiu vontade de uma vida mansa, sem problemas amorosos, morando em uma casinha pequena e aconchegante com uma rede para descansar, fora da cidade talvez. A casa teria portas por todos os lados, janelas grandes, flores e samambaias e uma arquitetura planejada para que o vento pudesse correr livremente. O quintal teria árvores frutíferas e perto do muro, lá no final do terreno, construiria um pequeno quarto com um computador, muitos livros, uma escrivaninha, canetas e apetrechos para quando quisesse escrever e desenvolver idéias, ou simplesmente passar a noite acordado assistindo filmes antigos. Seria uma casa planejada para a hospitalidade. Esse sonho tão pequeno mas tão distante…

Atravessou a cidade com este pensamento dourado.

Gostaria de ter pensado em algo mais importante, como por exemplo a sua função como jornalista vigilante da cidadania. Cristovam gosta da idéia de se sentir um justiceiro das “pequenas” causas, digo pequenas porque às causas do povo ninguém dá atentção, ninguém olha pelo populacho. Diante dos sofrimentos do mundo, dos profundos problemas que as pessoas enfrentam todos os dias o problema de Cristovam soou imensa futilidade. As pessoas gostam de grandiosidade, mas a vida verdadeira, a vida espontânea acontece nas miúdezas, os grandes personagens muitas vezes nascem e morrem anônimos, não são artistas, não são políticos, não são empresários, são nossos vizinhos, parentes, amigos, desconhecidos.

Dentro das redações há brigas de egos e as histórias pessoais muitas vezes interferem na vontade de escrever, Cristovam não quer que isso aconteça. Lembrou-se de que as questões afetivas não podem interferir no seu trabalho, não se pode misturar mulher com parafuso.

Três contradições

In 1 on Setembro 25, 2008 at 5:08 pm

Na região centro sul de Belo Horizonte há uma praça chamada liberdade. Na praça acontecem eventos culturais, artistas demonstram suas habilidades, senhoras passeiam e casais se apalpam. Os índices de criminalidade são baixíssimos, ainda assim um programa moralista mineiro chamado “olho vivo” instalou 5 câmeras vigilantes em pontos estratégicos para observar a movimentação. A essência da Praça da liberdade está em contradição, como poderão, um casal mineiro, praticar das diversões secretas do amor? Onde poderá o cão da senhora que mora alí perto defecar em privacidade? Como o louco homem solitário se sentirá realmente livre para gesticular sozinho? Os ladrões que se danem. 

O paradoxo é comum em Belo Horizonte, afinal nos altos e baixos morros onde está erigida a cidade não se vê beleza e nem muito menos horizonte, e agora os olhos do grande irmão cerceiam a espontenidade que ainda resta na vida mineira.

http://www.webbusca.com.br/pagam/belo_horizonte/tn_praca_liberdade_4.jpg

Praça da liberdade

A vida é grande

In 1 on Setembro 22, 2008 at 3:57 pm

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais dor que eu

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará
Berimbau – (Badden Powell)

A água da lagoa estava quente e o chão cheio de lodo. Já chegando o fim de tarde, o sol se punha mansinho, uma gaivota se assustou comigo, imagino o que ela deve ter pensado ao me ver: um homem pára o carro no meio da estrada, atravessa o matagal, pula a cerca, tira a roupa e pula de cueca na lagoa. Se assustou no mínimo a coitada gaivota.

Viajei para esquecer um amor que passou. Para me lembrar de quem sou e de como posso ser completo estando sozinho ou acompanhado. E boiando na lagoa eu pensei:

A vida é grande. Quero arrumar logo uma grana pra fazer uma viagem memorável pela america latina. Quero ir embora, parar em uma festinha de uma cidade e me apaixonar por uma indígena descendente, daí quero prosseguir sem apego para a próxima cidade e me envolver em uma aventura de vida ou morte armado apenas com uma faca na mão. Quero que meu carro estrague e que eu seja obrigado a seguir a pé, de mochilão, fumar cachimbo para o frio não me pegar, ficar escondido dentro de uma propriedade privada, roubar frutas, correr descalço, escapar ileso e voltar (se é que voltarei) cheio de histórias e com a sensação de ter reconquistado a vida.

A vida é grande, na cidade ela se torna pequena. Na cidade a vida não tem tanto valor porque a vida é explorada, na cidade somos ferramentas de um complexo sistema que nos diz a cada estocada metalica: “Você vive para servir”. Na cidade você é um serviçal, e é claro que isso é muito pouco para qualquer um. Um serviçal não tem amor próprio, por isso, quando um serviçal encontra o amor em outra pessoa ele se sente no paraíso, como nunca se sentiu consigo mesmo. O serviçal passa a acreditar que o único amor possível é o amor de outra pessoa. Mal sabe ele que o amor é gratuito, que o amor deve ser dado e não cobrado. O amor deve partir sem intenção de receber. O amor não é apenas romântico, mas fraternal. O amor romântico, quando acaba, não significa o fim do mundo, é apenas o fim de uma história, uma pequena história dentro do mar de vidas urbanas no qual estamos imersos. Eu estava sofrendo por amor, em meu microcosmo isso pareceu ser o final de todas as minhas expectativas. Certamente que passar por isso é triste, é uma dor, mas a tristeza faz parte da vida, e estou vivendo. Se não tivesse essa dor, melhor era tudo se acabar.

De dentro da lagoa sentí meu corpo esfriar. Saí com rapidez, meus pés estavam sujos de barro e meu corpo pingando. A beirada da lagoa tinha marcada na lama os cascos dos pés dos bois que vieram beber água no dia anterior. Enfiei o meu pé dentro de uma das pegadas e senti a energia da terra.

Quando saí dalí, eu não era mais o mesmo. Tinha um sorriso gigante estampado no meu rosto.

A Rainha de paus!

In 1 on Setembro 12, 2008 at 2:24 am

E houve aquele dia em que eu me ví como já havia me visto duas vezes atrás, e inocentemente achei que fosse amor, mas era uma doença. Havia me projetado em outra existência, sugando dela a energia que não fui capaz de sentir em mim… por um breve momento eu me perdí de mim mesmo.

Estou quatro anos mais próximo da minha morte desde a última vez que me sentí tão vivo, mas cá estou. Amanhã a noite carregarei a mim mesmo para longe daqui, há um único e eterno amor nesta vida, e está diante do espelho todos os dias, esquecido, ignorado. Mantenha-se fiel a sí mesmo, é a condição para o triunfo! Foi o que a rainha de paus, escolhida por puro acaso, me disse.

Diálogo (ou a falta dele)

In 1 on Setembro 8, 2008 at 7:15 am

Oi
Oi
Você tá aí?
To. E você, como tá?
To bem. Que tal nos encontrarmos.
Amanhã?
Agora.
Amanhã.
Ok.
Oi.
Oi.
Tudo bem?
Tudo ótimo. e contigo?
Tá melhorando.
E agora?
Agora eu te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
To tão feliz que não consigo assimilar.
Fica tranquilo. Se deixa levar.
Ok. To indo com a maré, mas é estranho lidar com isso.
Eu sei. Me dá a mão.
Segura forte.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
Eu também.
Eu também.

Você me ama?
Eu? Você sabe que sim. Isso não deveria nem ser perguntado.
Muito menos repetido tantas vezes.
Desculpa a dúvida. Não fica assim impaciente.
Tudo bem. Eu te entendo.
Te amo.
Te amo.
Te amo.
As vezes isso cansa sabia?
Ah. Tá. Foi mal. Acho que exagerei.
Tudo bem.
Oi.

Oi.
…Ah. Oi.
Como tá?
To bem.
Eu to bem também.
Oi.


Tchau.
O que? Tá me dando tchau?
Preciso ir.
Porque? É melhor conversarmos sobre isso com mais calma.
Você quer ficar aqui?
Não sei. Vamos resolver depois.
Não, tenho que saber agora.
Vamos nos encontrar amanhã então?
Vamos.
Oi.

Cadê você?
To aqui.
Porque não veio?
Não lembrei.
Ah tá.








Oi.
O que quer?
Ah. Conversar.
Tá. Oi.
É assim é?
É. Porque?
Então tá. Tchau.
Tchau.


Eu te amo. Eu te amo. Por favor.
Oi.
Desculpa. Preciso ir.
Tá.


Oi.
Me deixa em paz.
Porque?
Porque sim.
Tá.


Adeus.
Ah. Então é assim é?
É.
Então tá! Adeus!
Adeus. Tchau.




Oi.
Vai pro inferno.
Vai você!


Você não quis dizer isso né?
Não. Claro que não.
Queria te ver amanhã.
Ok. Pode ser. Agora não dá, to bêbado.
Bêbado é?
É. Demais.
Ok. Até amanhã.
Oi.


Desculpa. Não deu pra ir ontem.
Tudo bem.
Bom. É isso né?
É.
Vamos parar de nos falar.
Vamos.
ok.
ok.

Oi.








Oi.
Oi.
Senti sua falta.
Eu também.
Era muito bom estar contigo.
Também gostava de estar contigo.
O que vai ser de hoje?

É. A vida é assim né?
É. Coisas da vida.
Não quero te magoar.
Se você me magoar, a responsabilidade não é sua, é minha. Eu só me magoo se me deixar magoar.
É verdade.
Foi muito bom o tempo que tivemos juntos.
Também gostei.
Quem sabe um dia né?
É. Quem sabe?
Preciso ir.
Te levo até lá.
Tá. É perigoso o caminho.
Eu sei. Pode contar comigo quando precisar.
Você também.
Me beija.
Acho melhor não.
Vai.
Ok

Tchau.
Tchau.



































Palavra Capital: Beirute

In 1 on Setembro 6, 2008 at 2:51 pm

Palavra Capital é a nova categoria de contos ficionais calcados na realidade documentada pelas lentes visuais do cineasta 81. Tratam-se de contos de até 15 linhas (word, times new roman 12) sobre acontecimentos tipicamente brasilienses. Minha intensão é de publica-los futuramente em algum veículo de grande porte.

Beirute é um sanduíche feito de pão sírio, rosbife, peito de peru defumado ou presunto e outros complementos, mas em Brasília Beirute é o nome de um bar na Asa Sul e Asa Norte frequentado por glbts, artistas, jornalistas e outras pessoas de cabeça supostamente esclarecida. Na última quinta feira um homem branco de fala articulada vestido como mochileiro veio pedir esmolas naquele bar. Explicou como é triste essa situação e que sente muita vergonha por fazê-lo, mas ele tem um filho com intolerância a lactose e precisa comprar um leite de dezesseis reais feito a base de soja. Não precisou de muita explicação, ele conseguiu quatorze reais em apenas uma mesa. Horas mais cedo uma mulher de aspecto sujo com sotaque nordestino carregando um filho no colo chegou na porta do bar. Ela mal sabia se o filho tinha algum tipo de doença, nunca foi ao médico, mas precisava de dinheiro para matar a fome: a doença humana constante. Estava suja, não falava com clareza. O garçom não permitiu que ela entrasse no beirute.

Canto de Ossanha

In 1 on Setembro 4, 2008 at 5:56 pm

Vinicius de Moraes

Composição: Vinicius de Moraes / Baden Powell

-”O canto da mais difí­cil e mais misteriosa das deusas do candomblé baiano aquela que sabe tudo sobre as ervas sobre a alquimia do amor”

O homem que diz “dou”
Não dá
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz “vou”
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz “sou”
Não é!
Porque quem é mesmo “é”
Não sou!
O homem que diz “tou”
Não tá!
Porque ninguém tá
Quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha
Traidor!
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor…

Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Não Vou!…

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor…

Amigo sinhô
Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha
Não vá!
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr’o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer…

Vai! Vai! Vai! Vai!
Amar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Sofrer!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Chorar!
Vai! Vai! Vai! Vai!
Dizer!…

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor
Que passou
Não!
Eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor…

Num ap de curitiba

In 1 on Setembro 3, 2008 at 12:39 am

O meu quarto era um cúbilo de poucos metros quadrados, um pensionato mal habitado de estudantes e velhos solitários em cima de um pensionato. A rotatividade do pessoal mais jovem era alta, só os mais velhos e que ficavam alí por um longo período. Não pensei que morar naquele local por um ano mudaria tanto a minha forma de pensar.

Uma das figuras do pensionato era a Rogéria, uma depressiva quarentona que gostava de chorar quando estavam todos felizes. Quando estavamos cantando, bebendo e fazendo festa ela se punha a relembrar de um ex-marido que a abandonou. Eu a aconselhava: “Rogéria, sofrer, todos sofremos, mas prolongar esse sofrimento te faz um mal do caralho! A dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Você pode continuar sofrendo por muitos anos se quiser, mas a escolha é sua. Tristeza todos sentimos, isso é sinal de que estamos vivos, por isso, deixe a tristeza invadi-la, permita que ela vá embora quando for o tempo”. Mas a Rogéria não queria ouvir formas de vencer aquilo, estava acostumada ao sofrimento, gostava de ver as pessoas sentindo pena dela. Eu me cansei de aconselhar a Rogéria, então toda vez que nos reuniamos para festejar, a Rogéria ia para um canto e ficava chorando.

Outro caso engraçado era o Luciano, um Japonês estiloso que gostava de rock melancólico. Ele parecia livre de qualquer emoção, tinha um semblante sério e de vez em quando soltava um riso para alguma coisa engraçada que alguém dizia, mas normalmente era quieto e calado. Era magrelo até o osso, vivia 23 horas por dia na internet, e ainda assim conseguia arrumar umas namoradas bonitas, eu tentava entender porque, mas é que ele era um cara muito estiloso, fumava com muito estilo e carisma, mas não tinha muito a dizer. É como diria Machado de Assís: “As mulheres tem uma queda pelos tolos”.

Uma vez um circo chegou a cidade, do circo, pousaram no pensionato um casal de namorados. O Aírton era um palhaço, e a Maíra uma loira maluca e gostosa que tinha fugido de Florianópolis porque se apaixonou pelo palhaço. Os dois viviam juntos e sempre brigando. O palhaço era gente boa, era bem menor que a Maíra, namorada dele. Tempos depois eu soube que Maíra tinha uma filha, e que tinha abandonado a responsabilidade da vida em Floripa pra viver como passarinho, largou até o namorado de lá. “E o palhaço o que é? Ladrão de mulher”. Tempos depois o circo foi embora da cidade e Maíra ficou. A Dona Vanda que tomava conta do pensionato me alertou: “Cuidado com essa mulher. Ela não é boa bisca não!”, eu disse que tudo bem Dona Vanda. Acho que ela pensava que eu era um rapaz muito correto. Lembro de uma noite que deixei a porta do meu quarto entre-aberta e saí para buscar algo na geladeira coletiva, a Maíra entrou pela fresta e se escondeu lá dentro como quem queria me dar um susto. O susto não foi grande, mas passamos a noite nos pegando. Na hora de dormir, em vez de ir para o quarto dela, Maíra tomou meu cobertor e me deixou com pouco espaço na cama. Acho que ela quis namorar comigo porque se sentiu ofendida quando no outro dia eu não tinha nem mais vontade de olhar na cara dela. Não que ela tivesse feito algo de errado, mas eu não estava afim dela. Essas coisas acontecem.

Uma vez eu estava deitado na minha cama ouvindo Frank Zappa quando ouví dois pipocos do lado de fora. Olhei pela janela e não vi nada, olhei novamente e ví um homem vindo na direção da churrascaria que ficava embaixo do nosso pensionato. “Eu levei um tiro! Eu levei um tiro!”, ele dizia. A mancha vermelha na camisa dele se estendia, os dois assaltantes saíram correndo com a bicicleta roubada. Ele caiu no chão perto do bar. Alguém ligou para os bombeiros que demoraram a chegar. Dias depois eu soube por uma nota no jornal que o rapaz havia morrido. Me lembro de alguém que havia se aproximado, segurou nas mãos dele e disse: “Vai ficar tudo bem”. Mas o olhar dele já estava tão distante, eu não acreditei naquilo, mas espero que ele tenha acreditado.

Um outro momento marcante em curitiba foi quando eu estava terminando de ler um livro, quase desligado quando passei os olhos por uma frase: COELUM NON ANIMUM MUTANT QUI TRANS MARE CURRANT, a frase era do filósofo, pensador e poeta Romano Quintus Horatius Flaccus, Horácio, nascido 65 anos antes de Cristo. Busquei o significado da frase no rodapé: “Os que atravessam o mar mudam o céu acima deles mas não as suas almas”. Nesse momento uma sensação estranha e indescritível se apoderou de mim. Um frio tremendo tomou conta do meu corpo e eu comecei a tremer, foi como se Deus me iluminasse por um breve momento e eu me dei conta do motivo de minha estadia em Curitiba. Este ano que estive por lá, estudando, foi na verdade um ano de fuga. Foi um momento da minha vida em que eu quis ser outra pessoa, mas quando lí aquela frase percebí que eu nunca poderia escapar de mim mesmo: “aonde quer que você esteja, lá estará você”, a frase é irônica, mas também muito inteligente. Não se pode escapar de sí mesmo. Foi o ápice do aprendizado de minha jornada, um ano depois morei em São Paulo e também tive muitos insights, mas nada se comparou a este.

Recordo com saudosismo do clima frio de curitiba, da chuva constante, do vento atravessando as estreitas ruas bem planejadas, das meninas bonitas, da Isabel com quem eu jogava basquete, por quem eu me apaixonei, mas que nunca nos demos muito bem fora das quadras. Dos professores, das aulas de cinema, dos amigos da banda wandula com quem fiz alguns passeios tanto musicais quanto geográficos, do amigo André com quem bebí muita cerveja, do amigo Sandro para quem falei sobre Duque: o cão louco voador e de quem ouví muito sobre animés e conversei sobre cinema, das rodas de break debaixo do shopping Itália, das cervejas geladas no shopping Curitiba, dos palhaços com quem trabalhei no Shopping Estação, da inspiração friorenta que me levaram a escrever o meu pequeno conto sobre uma pequena menina que se perdia durante a noite na cidade. O ano em curitiba passou rápido, rápido demais. Fui embora sem olhar para trás.

 

Este video foi realizado em um dos momentos de ócio no meu quartículo de Curitiba.

Este outro video eu fiz para os amigos da banda Wandula

Sonho

In 1 on Agosto 30, 2008 at 7:13 am

Tive um pesadelo na noite passada, foi estranho. Eu andava por uma galeria escura com várias lojas de música entre outras coisas. Eu podia ouvir o som dos instrumentos musicais sendo afinados dentro das lojas. As paredes da galeria eram de um material frio e avermelhado. De uma das lojas vinha um cheiro muito forte, parecia charuto, eu vi uma mulher velha curvada e estranha saindo de lá de dentro com um sorriso no rosto. Eu corri para fora da galeria atravessando uma portinhola que dava para uma escadaria mas ela me acompanhou. Ela sentou na calçada da portinhola e eu perdi o medo. A velha segurava um charuto com uma das mãos, tinha um nariz enorme, quase disforme, uma cara enrugada e havia um machucado estranho na perna dela, era um buraco seco e profundo. Falei com ela:

“Você é uma entidade?”
“Sou meu filho, quer saber alguma coisa?”
“Você se sente bem nessa sua condição?”
“Sim meu filho, mas nem sempre, algumas vezes quero sair daqui, quero ajudar as pessoas, mas minha condição fisica é muito ruim… eu não sou capaz. Tenho que ficar aqui o dia inteiro”, os olhos dela se encheram de lágrimas. Tive a nítida impressão de que ela estava presa naquele corpo idoso.

“Não sei o que fazer com o que estou sentindo. Não sei como agir. Você pode me ajudar?”, eu disse para mudar de assunto, mas minha declaração era sincera. Eu esperava receber um conselho dela. Mas ela apenas deu uma baforada na minha cara.

“Não sinta medo. E não volte a ser o menino levado que você era por causa de medo. Todo mundo sente medo. Não vire um metido a besta para esconder o medo. Não se torne safado para ficar seguro. Aceite a incerteza”.

Ficamos calados. Ela permaneceu sentada fumando na calçada, eu observei o machucado seco na perna dela, era um ferimento consideravelmente grande e parecia que ela estava oca por dentro. Ela ja estava voltando a rir, achando engraçado a minha curiosidade. Quebrei o silêncio:

“Eu estou perdido, não sei onde é a minha casa… você pode me  ajudar a encontrar?”

Ela deu outra baforada de fumaça de charuto na minha cara. “Sua casa é onde você a faz.”

A baforada de cigarro me bloqueou a visão e aos poucos eu fui acordando, sentindo que meu coração ficará em paz quando eu estiver em casa, e minha casa é longe daqui.

Redenção

In 1 on Agosto 26, 2008 at 10:41 pm

Um homem desesperado não pode mais chorar, mas ainda ora

Peço força, senhor

Estou saindo de um entre os piores dias da minha vida, mas ainda estou imerso neles até os joelhos. Sinto o peso sobre meus ombros ao caminhar, sinto como cada passo é difícil. Tudo o que faço só piora as coisas, me tornei um monstro, perdí a mulher que eu amava de tal maneira que não há mais volta. Ela me odeia e com toda a razão.

O amor dela me segurou longe das más escolhas, mas agora já não tenho mais essa alegria. E percebo que minhas atitudes estão piorando. Senhor, não me permita entrar em depressão, estou dentro do poço, mas me segure, não me permita descer até o fundo. Não me permita cometer os mesmos erros do passado e guie as minhas escolhas porque tudo que fiz por impulso me jogou para mais longe dos meus objetivos.

Porque é tão difícil ser um homem bom?

Senhor, abençoe a garota que eu amei e perdí, abençoe a família dela, abençoe os meus amigos que me mostraram como é bom viver mesmo estando só, abençoe os meus pais por me proverem sustento e por me presentearem com paciência e amor constante.

Me abençoe por favor, não me permita descer a um nível abaixo do qual eu estou.

Amém.

Hoje minha fulô morreu

In 1 on Agosto 24, 2008 at 5:21 pm

Tenho um jardim na frente de casa. Ele esteve árido por anos até que um dia nasceu uma tímida fulô. Vendo aquela única flor no meu jardim, passei a regá-la e a cuidar melhor da minha terra, procurando todos os nutrientes necessários para que a Fulô crescece confortável.

Manuseei a Fulô e com minhas mãos brutas eu a machuquei. Derrubei suas pétalas. Continuei a regá-la com medo de que morresse, mas acabei afolgando a minha fulô e piorando sua situação.

Ela foi morrendo e chegou um momento que tentei tocá-la para saber se tudo ainda estava bem, mas ela me feriu com seus espinhos. Tudo o que eu fazia só piorava a situação e da última vez que tentei regá-la para que ela se esforçasse para viver, eu a matei.

Nunca foi minha intenção matar a minha Fulô. Eu fui um jardineiro sem habilidade, na minha ânsia por fazê-la mais forte. Meus dedos estavam feridos pelos seus espinhos, mas eu já não me importava mais, a Fulô tem sua beleza por causa do perigo e da fragilidade que representa. Esta Fulô foi especial, mas agora eu percebí tristemente que não há mais volta.

A dor de ter um jardim vazio é não apenas no coração mas física. Sinto muita dor, mas já não sofro mais. Eu pensei nos erros que cometí com ela e pensei que não deixarei mais de alimentar a terra pois não quero mais ver meu jardim vazio, darei espaço para que outra Fulô possa brotar e da próxima vez a tratarei com os cuidados que aprendi nessa triste lição.

http://janalago.blogspot.com/

Uma em um milhão

In 1 on Agosto 22, 2008 at 3:52 am

 O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar, ir aonde quiser, Ame-o e deixe-o Brincar, correr, cansar e dormir em paz, O seu amor, Ame-o e deixe-o Ser o que ele é
Gilberto Gil

 Gustavo é um cara gente boa. O problema é que as vezes é meio grosseiro, desajeitado. Mas não é por mal.

Um dia Gustavo arrumou uma namorada, o nome dela: Janaína. “É uma em um milhão”, ele costumava dizer. Ele se apaixonou pela garota. Eles conversavam sobre todos os assuntos mas quando ela perguntava sobre os sentimentos dele a resposta era sempre a mesma: “Não sei. Não consigo falar disso”. Gustavo ficava travado, não conseguia expressar as emoções.

Os homens passam a vida toda reprimindo os sentimentos, mas acreditem garotas, isso não é ruim, faz parte da natureza masculina. Talvez antes de morrer os homens desabafem tudo numa bica só, mas por enquanto, deixe como está.

Janaína cometeu o erro de incitar Gustavo a falar de seus sentimentos. “Você é minha prioridade. Eu só saio daqui quando você falar”, ela dizia. Demorou mas um dia essa pressão psicológica surtiu efeito. Gustavo se sentiu confortável e abriu o coração para Janaína. Ele falou de tudo que estava lá dentro, e enquanto seus sentimentos eram expurgados os olhos vermelhos marejados eram observandos por Janaína, ela foi compreensiva.

Depois do longo discusso sentimental que Gustavo fez ao abrir seu coração, ele encerrou: “Mas eu te amo, do fundo do meu coração. Só que odeio chorar na frente dos outros, me sinto fraco, idiota”. Pra falar a verdade, era assim mesmo que ele estava parecendo: Fraco e idiota. Mas Janaína foi uma boa companheira: “Você não é fraco. A maioria das pessoas não tem coragem de se abrir desse jeito. Você nunca foi tão sincero comigo quanto agora”. Gustavo parecia um pinto molhado. Limpou as lágrimas no canto dos olhos e se sentiu aliviado. “Ela é uma em um milhão”, pensou.

Entre os Cheyenes, uma tribo Indigena Norte Americana,  extinta durante a colonização Norte Americana existe uma frase da sabedoria popular sobre isso: “Nascemos sós e morremos sós, guarde consigo os frutos da emoção. Ninguém nunca os irá compreender da mesma forma que você”.

Desse dia em diante Gustavo sentiu que poderia liberar todas as suas mágoas e emoções reprimidas no colo atencioso de Janaína e sem perceber foi se tornando um tedioso sentimental. A roupa ficava amarrotada de tanto choro, colo e soluços. Durante a noite dormia como um bebê contente.

Janaína gostava da idéia no início, mas aos poucos foi enjoado daquela melação e quase virou o homem da relação aconselhando seu amado e o tratando com severidade constantemente: “Não é sou eu. Tem muita gente que te ama além de mim”. Mas Gustavo gostou da história e se tornou um chorão assumido. Janaína já não aguentava mais tantas confissões e lágrimas. Com tanta melação, ela passou a evita-lo aos poucos, as vezes sem querer ela desligava o celular na cara dele, dormia até tarde para não visita-lo de manhã nos finais de semana. Distanciou-se.

Gustavo percebeu como a comunicação ficou difícil e um dia ligou com aquele ar de palerma que adquiriu, depois que começou a ficar sentimental demais:
“Oi amor”
“Oi”.
“To com saudade da minha neguinha”
“Mas nós nos vimos anteontem”
“Eu sei, mas tenho saudade daquele seu jeitinho carinhoso de quando te conhecí…”
“Ah não Gustavo! Você é muito dramático, dá licença que eu tenho muita coisa para fazer. Vou desligar”.

E desligou.

Gustavo ficou paralisado: “Mas eu fui tão compreensivo e atencioso com ela”. Foi quando ele levou um tapa na cara de sí mesmo.

“Cala boca seu tanga frouxa!” era o outro eu não sentimental de Gustavo, com olheiras profundas de tanto ficar esquecido no escuro.
“Você está virando um frouxo! Um pé no saco. Você tem noção que eu já não entro em ação há uns dois meses? Agora é só chororô, sentimento e frescura. To afim de sair da gaiola, to cheio desse fru-fru. Para de chorar porque quando você liberou suas emoções, você reprimiu seu instinto masculino. Um homem não pode gastar horas pensando sobre um sentimento, um homem precisa agir. Sem pensar se isso vai magoar alguém, ou se pode ter prejuizos dramáticos. As mulheres são assim, e por isso gostamos delas, nós somos o contra-peso. Agora deixe de ser covarde. Da próxima vez que for chorar, pare! Procure algo de útil para fazer, vá arrumar o telhado, vá levantar peso, vá trepar, ler alguma coisa, gargalhar ou tomar cerveja, mas não se deixe inebriar pela lissergia emocional. Você é o que você faz, e não o que você sente. Muitos homens nessa vida deixaram de agir, de construir de criar para se lamentarem como maricas. Não seja um deles. Você que está aí sentado! Levante-se! Há um lider dentro de você! Faça o falar!”

E blam. O tapa na cara foi um estalo para Gustavo.

No outro dia Gustavo procurou sua namorada. Ela estava cansada, desencantada e disse que não queria mais nada com ele. Gustavo saiu da casa dela chateado, mas assim é a vida. Ainda assim, ao sair ele sabia “ela é uma em um milhão, é duro perdê-la”, mas era tarde demais.

Fora isso, a dignidade não tem preço. Ele poderia implorar para reatar o laço entre os dois, mas se ela não quer por vontade própria, então talvez nunca tenha existido um laço, ou talvez fosse fraco demais.

“A única coisa que eu posso dizer é que eu quero você. Mas eu tenho minha maneira e não permitirei me modificar novamente, independente da sua decisão”, disse Gustavo esperando por uma resposta. Ela não disse sim ou não. Ele presumiu que estavam acabados.

Gustavo saiu. Quisera ele ter ficado.

“Uma em um milhão”, ele pensou.

O seu erro, Gustavo, não foi chorar demais, foi se apegar, ao invés de apenas amar.

Juão e o fuminho

In 1 on Agosto 19, 2008 at 1:14 pm

Era uma noite ociosa quando Zé apresentou o fuminho ao Juão. O Zé falou, “fuma sem medo”. Juão ficou receoso, deu algumas tragadas e a fumaça coçou a garganta. Tossiu. “Isso é ruim!”, disse Juão. “Calma que o efeito não bateu ainda”, disse Zé.
Juão esperou acontecer alguma coisa, mas tudo estava do mesmo jeito. “Não vai bater”, disse. “Calma”, respondeu Zé.

Bateu. Quando Juão virou a cabeça sentiu que a imagem em seu cérebro parecia chegar com um atraso. Juão e Zé se levantaram e caminharam em silêncio pela rua, nada precisava ser dito. Para Juão era uma experiência nova. Juão perdeu o interesse pela maioria das outras coisas, andava pela rua e a sensação era de que o tempo não era o mesmo. A rua que Juão já atravessou centenas de vezes parecia maior agora, e para chegar ao fim da rua o tempo prolongava-se. Os faróis de um carro acendiam lá na frente e Juão olhava. Olhava para baixo, quando achava que os faróis já estaria bem próximos, eles ainda estavam distantes.

A vida de Juão acabara de mudar. Estava apaixonado pelo fuminho.

Dalí por diante os interesses de Juão foram perdendo a graça, tomados pelo interesse no fuminho.  Juão treinava circo, fazia malabares todo dia para aprimorar a técnica. Ele também estudava geografia, paixão antiga. Mas depois de se apaixonar pelo fuminho todas outras paixões pareceram acinzentadas. É como se a vida real de Juão tivesse sido suprimida pelo prazer de viver com o fuminho. Um vício.

Era bom estar com o fuminho na mente, mas Juão sentia-se culpado. Tantas coisas para fazer e só pensava no fuminho. A personalidade de Juão passou a ser modificada pelos efeitos do fuminho.

Chegou um momento que Juão não aguentou. Fizera muitas concessões em sua vida por causa do fuminho, estava na hora de recuperar sua personalidade pois o fuminho não dava retorno.

Parou de consumir, parou de comprar, não queria mais chegar perto do cheiro do fuminho, pois era muito tentador. O fuminho, como objeto inanimado que é, não chamou por Juão, mas ele ainda sentia a tentação “Preciso do meu fuminho”. Mas resistiu, resistiu. E um dia não havia mais fuminho na vida de Juão. Bastaria fazer uma ligação e pedir que Zé trouxesse o fuminho, mas para Juão, não é não.

Sobrou um vazio estranho no lugar do peito onde ficava o fuminho. Leva tempo para preencher um rombo desses. Quando você abandona suas paixões em troca de algo e retira esse algo da sua vida, sobra só o espaço vazio. Juão entendeu que se algo entra em sua vida, este algo não deve suprimir suas outras paixões nem sua individualidade. É preciso haver uma coexistência entre todas as paixões, sem que se abdique da própria individualidade em troca de uma nova paixão, como por exemplo o fuminho.

Juão nunca mais fumou.

Hienas – Rufião

In 1 on Agosto 15, 2008 at 10:43 pm

Rufião é o ladrãozinho meia boca que foi preso por um crime que não cometeu. Chegou em Brasília sem grandes planos mas será arrebatado pelo destino para cumprir uma missão maior de puro charlatanismo.

A série “Os Hienas” é o projeto de uma série sobre uma dupla de charlatães picaretas, desenvolvida em capítulos aqui neste blog. Read the rest of this entry »

O colapso

In 1 on Agosto 14, 2008 at 3:36 pm

5h15

Ele está acordado?
Bem… parece que sim. Os olhos pelo menos estão abertos, a boca também. Está em silêncio total, parece até que morreu. A boca encostada contra o chão, as narinas respirando terra…
Parece que está em choque.
Se estivesse em choque estaria gritando.
Ele viu muitas coisas ruins, qualquer um no lugar dele ficaria desse jeito.
Conheço muita gente que não ficaria do mesmo jeito.
Calma, dêem espaço. Ele está querendo levantar.
Parece bem. Atordoado, os olhos profundos, mas está bem.
A circulação está normal, os olhos estão vagamente perdidos, há sintomas de muito estresse, mas tudo bem.

13h30

Há quantas horas ele está andando?
Desde que começou a levantar, faça as contas.
O que foi que ele disse aquela hora? A língua parecia enrolada, eu não entendi nada.
Ele disse algo sobre morrer aos poucos. Sobre estar morto.
Acho que ele completou o que ele disse há alguns dias atrás.
Não me lembro. O que foi?
Ele disse que a cada vez que ele aceita a morte, ele morre mais um pouco.
Ele é muito calado, não é muito de falar. Mas quando falou aquele dia, nem parecia que era ele quem estava falando, parecia ser outra pessoa falando através dele.
A capacidade humana tem limites. Ele passou por maus bocados.
Não perca seu tempo, registre tudo. Capte as pálpebras e os cílios dele, observe como estão tremendo.
É como se ele fosse levado por uma vontade que não é dele.
Anote isso por favor.

19h00

Chequem a pulsação de novo.
Ele não avisou que ia fazer isso? Ele só caiu?
Sim. Ele caiu e ficou aí, do mesmo jeito que estava hoje de madrugada. Parou e caiu.
Está tudo bem?
Parece que está tudo bem. Eu nunca ví um homem nesse estado. Mas em termos físicos, ele está bem.
Vamos deixa-lo aí? Com a boca virada para o chão, olhos abertos, descansando desse jeito?
Definitivamente isso não é normal, mas nossas instruções são para que fiquemos atentos, apenas observando. Não devemos interferir em nada.
Muito bem. Vamos sentar e esperar. Revezaremos, um deverá ficar sempre acordado para quando ele levantar.

3h47

Não mudou de posição desde ontem a noite. As narinas e os lábios estão secos.
Estou preocupado.
Não fique. Deixe-o.
Não há ninguém para dizer o que devemos ou não fazer. O certo para mim neste momento é interferir.
Se você interferir, destruirá o projeto, eu não deixarei que faça isso.
Concordo. Devemos manter a calma e a paciência e observar apenas. A ciência precisa de objetividade e imparcialidade.
Não se distancie.
Me deixe em paz.
Não se preocupe, ele vai aprender com o tempo a se acalmar. Deixe ele.
Não. O comportamento dele pode colocar o projeto em risco.
O que está fazendo?
Me deixe.
O que está fazendo?
Rezando pela alma deste homem.
Você me disse que ele era ateu.
Foi o que ele me disse durante a entrevista.
Devemos tomar mais cuidado durante as entrevistas. Devemos ser mais criteriosos.
Isso não acontecerá novamente.

5h11

O que há?
Ele está quieto demais, os olhos estão vítreos, perdidos na superfície do rosto.
Não estou sentindo a respiração dele.
Rápido, cheque os pulsos.
Não há pulso. Ele faleceu.
Quando foi que aconteceu?
Não sei imediatamente, ele está assim nessa mesma posição há horas, eu perdí o momento exato.
Você ficou preocupado, sua cabeça se perdeu em devaneios, as instruções eram para que registrassemos o momento exato do óbito, caso ocorresse.
Foi muito sutil. Eu não enxerguei a passagem.
Você acha que a câmera captou a passagem?
Não tenho certeza. Ele não emitiu expressão alguma. Apenas morreu.
Mas será possível sentir através das imagens o momento de passagem entre a vida e a morte?
Não sei.
Parece que perdemos um bom tempo com este aqui, para nada.
Recolham suas coisas. Não há mais motivos para estarmos aqui.
Registre o horário de encerramento das nossas atividades por favor.
Cinco horas da manhã e quinze minutos, completaram-se exatas 24 horas depois do colapso.

Hienas – Sabugo

In ficção on Agosto 5, 2008 at 4:50 pm

Sabugo é um dos personagens da série “Os Hienas” que será desenvolvida em episódios daqui por diante neste blog.

Sabugo é o homem da cabeça mirabolante.

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Desculpa daqui, desculpa alí

In Sem-categoria on Agosto 3, 2008 at 6:42 am

Josimar é um homem rico, um homem de sorte; Seu defeito é se desculpar demais.

 benguela_praia

Josimar nasceu pobre, morava com os pais. Conseguiu um bom emprego depois de cursar a faculdade mas gostava mesmo era de cozinha, aprendeu com a mãe (errando bastante) a preparar uns pratos maravilhosos. Mas eram pratos simples, os pratos de Josimar serviriam muito bem para abastecer um público médio, sem muito interesse em sofisticações. Josimar queria mais, queria servir pratos finos aos clientes. A mãe aconselhou: “Josimar, Rico é pão duro! Se quer fazer dinheiro, sirva o pobretão! Esse sim só é pobre porque tem a mão aberta”. E Josimar não aceitou o conselho: “Desculpa mãe. Mas eu tenho que discordar. O rico não tem com que gastar, se você traz novidade o rico gasta e como gasta”. A mãe não precisava que ele pedisse desculpas, mas a cada visita era um pedido novo, por não seguir os conselhos, chegava a enjoar.

Em casa Josimar percebeu que Indira, sua esposa, estava calada tristonha, ela disfarçou o choro. “Porque ela está desse jeito se não lhe fiz nada?” – Talvez Josimar fosse egoísta demais para compreender que sua esposa tinha uma vida própria, que ela possuia “N” motivos para chorar. Emprego, família, amigos, ou até mesmo uma topada no dedão. Mas ela não quis responder, fez rodeios, e Josimar começou a pensar no pior: “Será que ela se cansou?”. Tentou paparicar Indira, mas não adiantou, ela queria ficar só. Josimar pensou consigo que a vida é assim mesmo, que a gente, mesmo vivendo junto, é indivíduo. Na vida a dois não se pode perder esse lado individual, o maior erro de um casal é tentar se tornar um só. Respeitou a individualidade da esposa, mesmo sentindo-se mal por não saber o que se passava, imaginou que no dia seguinte ela já estaria mais calma para conversar. Mesmo assim Josimar chegou na mulher, quando ela estava num cantinho e disse: “Desculpa meu amor. Desculpa se foi algo que eu fiz”. Ela não disse nada, já tinha parado de chorar, mas o silêncio de sua esposa era um mistério para ele. E assim se sentiu, como um bobo, por não saber. “Desculpa amor”, ele disse, e a mulher já cansada disse “Vê se me erra homem! Não posso nem chorar em paz?”

Josimar desceu do prédio chateado com a grosseria, meio puto porque se não tivesse pedido desculpas nada daquilo teria acontecido.Foi aproveitar a tal da solidão voluntária para incrementar seu trabalho no restaurante e teve a idéia derradeira: “Vou vender escargot! Caramujo, isso sim é comida de Rico”. Encomendou caixas e caixar de um caramujo gigante africano.

Semanas depois o caramujo estava a venda no seu restaurante. Alguns pediram o prato e não aprovaram o paladar. “Desculpe pelo transtorno”, dizia Josimar aos clientes insatisfeitos. Ele soube, um mês depois, que alguns dos clientes costumazes que comeram do escargot estavam de cama com febre, mal estar, falta de apetite, náuseas e vômitos. Um dos clientes, que se alimentou do escargot teve dores de cabeça e ficou louco por três dias, não falava coisa com coisa. Os caramujos africanos são vetores de meningite. Tem que rir pra não chorar, mas Josimar fez questão de pedir desculpas com uma visita pessoal a casa de cada um dos clientes, escreveu uma cartinha bem singela na qual dizia “Os desejos de melhora do chef do restaurante”.  Não passou uma semana e já tinha três processos na justiça contra seu nome e seu restaurante, os clientes, ao receber o pedido de desculpa se deram conta de quem fora o causador da meningite, coisa que não lhes passaria pela cabeça nunca se não tivessem recebido uma visita de retratação.

Josimar, já emputecido com aqueles caramujos nojentos mandou que se jogassem aquelas caixas longe dali. Liberato, um de seus funcinários mais eficazes colocou o lote de caramujos dentro de um caminhão, e com todo cuidado para não tocar na gosma nojenta, soltou todos no meio do mato, longe dalí. “Obrigado Liberato, e desculpa por esse trabalho todo que eu te dei”, disse Josimar. Liberato, percebendo a vulnerabilidade do patrão, com o pedido de desculpas, interpretou a situação como uma fraqueza e pediu uma grana extra pelo trabalho “fora do expediente”.

Um mês depois os caramujos já estavam aos milhares entrando pelas casas. A população de caramujos cresceu de forma exponencial e as casas foram infestadas pela praga, como não havia predador natural no Brasil para os tais caramujos gigantes Africanos, a tendência é que se proliferem melhor do que coelhos, o ambiente é muito propício.

Um mês depois a situação estava fora de controle, a cidade estava infestada pelos caramujos africanos gigantes, havia uma epidemia nacional de meningite. Josimar chamou a imprensa e contou toda a história. No outro dia sai a notícia no jornal “Dono de restaurante brasiliense se desculpa por infestar a cidade de caramujos”.

O linchamento foi marcado, extra oficialmente para as quatro da tarde do dia seguinte. Por sorte um amigo, muito gente boa comunicou Josimar sobre a fúria da população: “O melhor a fazer agora Josimar, é se esconder! Te conheço há muitos anos e sei que você não fez por mal!”. “Desculpe por te colocar nessa situação Nilson”, disse Josimar, mas Nilson não cobrou nada pela ajuda, disse apenas “Às vezes na vida a gente tem que assumir alguns erros calado Josimar. As vezes na vida nem tem erro, mas tem gente que pede desculpa mesmo assim. Josimar, nessa vida de puro acaso a culpa é dividida entre todo mundo junto. Se você quiser aguentar a culpa nas costas você vai ser sempre esse Josimar perseguido, desrespeitado e maltratado. Sei que a tua intenção é boa ao pedir desculpas, mas na modernidade algumas virtudes são vistas como defeitos. É o seu caso Josimar! A sua virtude deixa todo mundo puto! Pare de pedir desculpas!”.

Josimar pediu ajuda ao governo e foi extraditado junto a sua esposa para a cidade município Benguela, no Oeste de Angola. O governo local ordenou que no avião fossem levados todos os caramujos que pudessem ser coletados. A esposa fez a viagem indignada, assim como toda a tripulação, todos com medo da meningite. Quando pousaram no aeroporto de Benguela, um tanto precário, todos ficaram parados olhando para Josimar, um deles apontou o dedo:
“A culpa é tua! A culpa dessa louca viagem é tua!”. Outro disse “Se eu tiver meningite vou mandar costurar seu rabo!”. E até a esposa reclamou “Meu cabelo está um embaraço! Eu nunca vou me acostumar com esse clima da África”

Josimar observava calado, matutou profundamente sobre qual seria a melhor palavra a se dizer quando todo o peso do mundo está sobre as suas costas. Pensou na possibilidade de reconfortar a todos com uma demonstração de amizade, ou com um suborno. Pensou que pedir desculpas talvez fosse uma boa, mesmo que não ajudasse muito. Mas de que adiantaria? Parece que quanto mais se pede desculpas, mais errado se está. Então ele tomou coragem, engoliu uma dose de ar e disse, com atitude de macho:

“FODA-SE TODO MUNDO!”

Ouvi dizer que depois disso, Indira e Josimar tiveram uma vida gostosa morando na beira da praia de Beguela. Nunca mais comeram caramujo. Só quando o orgulho ficava evidente é que Josimar pedia uma desculpazinha bem miúda, só pra não passar batido.

Descarado egotrip

In Sem-categoria on Julho 28, 2008 at 1:24 am

Não é conto, não é ficção, é introspecção

Eu estava dentro de um ônibus ontem a noite, eram dez horas. O ônibus demorou bastante a chegar. Tive tempo de me observar refletido no espelho, como estava pensando, como estava pensando, como minha cabeça estava cheia de coisas, a maioria delas inúteis. Achei que devia me calar um pouco, agir com dignidade e me permitir agir pensando menos. Agir conforme manda a minha espontaneidade, e não medindo cada ação.

 A inspiração ainda não voltou. Os contos ainda não fluem pelos meus dedos, a ficção parece ter me abandonado, mas meus interesses estão vivos. Eu estou vivo, amo o cinema, amo a capoeira, amo escrever e todas as coisas que faço, são minhas paixões, preciso continuar a alimenta-las, minhas paixões me mantem vivo, me sinto mal e vazio quando elas parecem ter se distanciado de mim, mesmo que eu as queira tão perto. Um homem que nasce com uma tarefa nunca será completo enquanto não a exercer.

Me sinto momentaneamente distante de mim mesmo. Que seja uma crise, que depois da crise meus dedos voltem a metralhar meu teclado, que minhas digitais destruam os teclados, lápis e canetas de tanto escrever, que minha mente se exploda de idéias. Que minhas pernas voem no céu e no chão com todas as rasteiras que eu puder traçar, que meus pensamentos explodam em imagens impressas pela luz. Que minhas paixões me mantenham vivo com vontade de sair cedo da cama no dia seguinte. Que meu tempo nunca seja morto.

Vivo das idéias, me alimento das idéias, no dia que pararem de fluir terei morrido para o mundo. Que eu morra antes do fim das idéias, assim espero.

Menos um vivente

In Sem-categoria on Julho 11, 2008 at 10:54 pm

A festa de ciranda não parou depois que Luiz levou uma facada no bucho, ninguém viu, ninguém ouviu

Luiz teve sua atenção atraída pelo nome “Festa de Ciranda” estampada num cartaz do Espaço Cultural de Brasília. Nesta cidade de poucas opções a festa de ciranda é a alternativa extravagante, promessa de diversão. Todos aqueles tambores e todas àquelas pessoas dispostas a pular, à celebrar a vida, a tocar os pandeiros e suar os corpos, festejando na contramão.

 O sonho de Luiz um dia foi fugir de casa para tornar-se perdido mas feliz, sem compromissos em fazer dinheiro trabalhando num escritório tão limpo que enjoa, queria sujar os sapatos nesse mundão tão grande, queria viajar tão longe quanto às estradas permitissem, além das estradas se pudesse. Luiz quis a festa como quem quis um dia uma vida de passarinho. O tempo é quem dá o tempo, e assim esperou pela data, eram dois dias apenas.

Dois dias depois despontou pela porta de entrada da festa com jeito de quem já vai encontrar um lugar para chamar de casa. Gente de todo tipo, de toda a laia e estirpe cantava, bebia, beijava e dançava. Era o som da rabeca e o som dos tambores, eram as vozes populares com sua rouquidão e às vezes até a pura e bela desafinada, a beleza da imperfeição.

Comemoraram de mãos dadas formando uma grande ciranda, trumpetes e batuques, pulistas e saltantes, vivedores. Luiz entrou na roda pegando na mão da morena jambo, uniu-se ao êxtase coletivo serpenteando em ciranda constante. A rabeca comia os ouvidos, aguçava, penetrava, saqueava e bombardeava com esguia agudeza.

Enquanto isso Limeira passava debaixo dos braços dados dos que dançavam na multidão, procurava por um homem de casaco verde com quem tinha umas contas a acertar. O motivo da peleja era grande coisa, envolvia grana, envolvia mulher, envolvia honradez. “Se esse cabra me ver primeiro é ele quem me mata, tenho que ficar bem abaixado no meio dessa gente toda, com o punhal agarrado na mão”, pensava Limeira. Limeira passava por baixo dos braços festejantes, mal o notavam.

Por um azar qualquer, Luiz, pobre coitado, tinha a altura, o peso e a cor do casaco iguais aos do alvo procurado por Limeira para fazer “justiça pessoal”, como ele chamaria. Limeira se aproximou do casaco verde, se tivesse parado para ver o rosto do dono de casaco perceberia que Luiz não era o alvo da peleja, era sim um vivente qualquer no meio de toda a massa brasiliense.

Limeira tirou a faca do cinto e enfiou três vezes no bucho de Luiz, as tripas foram vomitadas da barriga para o chão. Triste de Luiz, triste de Limeira. Quando Luiz soltou um grito abafado pela voz do tambor, Limeira percebeu ter atacado a presa errada. Triste de Limeira, triste de Luiz.

Luiz largou as mãos de seus companheiros cirandeiros, que no calor da dança não o notaram ferido. Ele fechou os braços em torno do ferimento na barriga estancando o sangueiro. Enquanto isso Limeira escapava, largando a faca ensanguentada no chão, parou na barraca e deu uma golada na cachaça, saiu sem pagar, suas mãos com sangue morno, até os pulsos. Desapareceu na pista arrependido de matar o homem errado, decidido a esquecer sua vigança, a deixar de matar qualquer homem por qualquer motivo que fosse, “uma vida não se tira por vontade de outra vida, quem sou eu para tirar um vida? Sou um maldito”, e assim se condenou por toda a vida, nunca mais, dalí em diante, olhou um cristão no fundo dos olhos. Nunca mais, por toda a vida, dormiu tranquilo, durantes as noites suas mãos estavam sempre mornas de sangue de um homem, inocente ou culpado, era sangue de gente…

…e sangue de gente, por gente não se tira.

Luiz a essa altura já estava do outro lado da festa, com o bucho quase todo do lado avesso, deixou um rastro de sangue no caminho por onde passou, foi morrer lá atrás do palco, onde o som do tambor já estava distante, não crepitava na poeira do chão. O coração não seguiu o compasso por muito tempo, aos poucos fraquejou. Parou de bater.

Morreu pensando na viagem que estava prestes a fazer, na terra dos violentos morreu mais um vivente sonhador, de alma um passarinho, pôde finalmente voar.

Não é por mim que você procura

In ficção on Junho 30, 2008 at 5:59 pm

O tempo é onisciente

Curitiba, 12 de setembro de 2005.
Sentado no banco de uma das verdejantes praças curitibanas, Aurélio arremessa migalhas aos pombos que se amontoam. Aurélio carrega óculos redondos de armação metálica sobre sua face severa, cheia de rugas. Na cabeça branca um elegante chapéu preto disfarça sua calvicie, os sapatos impecáveis foram lustrados ontem por um desses garotos de rua que muitas vezes ameaçam o cliente em troca de trabalho.

Aurélio observa a movimentação curitibana, seus jovens enfeitados com roupas de brechós, roupas que poderiam muito bem ter pertencido à um contemporâneo de Aurélio estão hoje ditando a moda para a juventude. Nas ruas apertadas, nos becos estreitos, dezenas de artistas de rua, apaixonados, modistas, skinheads, punks, sonhadores, loucos varridos passam sempre cheios de vida, mas Aurélio já está cansado. As pernas bambeiam, precisa ficar sentado alimentando os ratos voadores, que após alimentados com as migalhas de Aurélio e de outros velhos, subirão no ponto mais alto da catedral para cagar as ruas modelo da cidade fria.

Um outro velho aproxima-se de Aurélio e senta-se exatamente ao seu lado. É o ceifador, de costas curvadas, atento como uma coruja, vigoroso como uma locomotiva. Estão lado a lado na praça de curitiba, respectivamente a morte e o vivedor, e proseiam.

AURÉLIO:
Você nunca se atrasa não é?

CEIFADOR:
Não Aurélio. Nesse trabalho a pontualidade é a regra de ouro.

AURÉLIO:
Certo… certo. Mas não sou eu. Não é por mim que ce ta procurando.

CEIFADOR
…Ahh Aurélio, ainda bem que você não perdeu seu senso de humor. Como conseguiu? Como conseguiu chegar no ponto mais crítico da sua vida sem perder o dom de fazer piadas?

AURÉLIO:
Olha aqui meu amigo. Não sei quem você pensa que é, mas esse aqui não é nem de perto o momento mais crítico da minha vida.

CEIFADOR:
Então você pode me contar qual foi o momento mais crítico da sua vida?

AURÉLIO:
Você não entende nada de vida. Você só vem aqui pra ceifar e colher, mas olha… vou te dizer… a morte não é grande coisa perto do que pode acontecer numa vida só.

CEIFADOR:
Mas você sempre foi tão solitário. De onde vem esse apego pela vida?

AURÉLIO:
Noite passada eu passei acordado. A vida me derrotou. Tive amores… esperanças… alegrias, mas sempre apanhava e apanhava. Tudo me foi tirado com a mesma pressa que me foi dado. Só o que tenho desde o início é esta velha vontade… esta teimosia… desde o início. Confesso que já pensei em desistir. Mas se não fiz isso, foi por ser teimoso. Esta velha vontade é a única que não me abandona… Não é hoje meu dia. Não depois de ter me dado conta do quanto minha vida fez sentido, de ter entendido como foi bom ser vivedor.

CEIFADOR:
Aurélio. Não quero te tirar esperanças, mas é meu trabalho. Eu preciso cobrar isso de você, não importa aonde você vá ou no que você acredite.

O ceifador tira um cigarro de palha de dentro do bolso.

CEIFADOR:
Aceita um cigarro?

AURÉLIO (pegando o cigarro):
Hoje eu vou aceitar. Nunca dei uma tragada na vida e olha só quem veio me oferecer tabaco.

Aurélio não sabe fumar direito, não tem estilo e nem muito menos a capacidade de tragar corretamente.

CEIFADOR:
Faça assim…

O ceifador dá um trago na fumaça e cospe as rajadas de ar fumegante para fora, desenha curvas no ar. Aos poucos Aurélio vai pegando o jeito, o vento, até então invisível, se torna aparente quando tenta atravessar a fumaça cinzenta.

AURÉLIO:
Quando eu era mais novo, eu não acreditava em nada. Nem em Deus, nem na vida e nem na morte. Eu me achava imortal e a vida as vezes era pesada. Se você tivesse me aparecido naquela época eu riria da sua cara. Mas agora, com esse corpo velho e essa osteosporose já dá até pra adivinhar qual vai ser minha aparência quando meus ossos estiverem virando pó. Fico pensando como vou ficar ridículo morrendo nessa praça, as pessoas vão me carregar, a minha boca vai ficar aberta. Será que eu vou babar? tomara que não. Tomara que eu não me borre todo, que nem fez o Borges antes do ataque no coração. Eu não queria ir ainda, nem muito menos assim. me diz um negócio…

CEIFADOR:
Pergunte Aurélio.

AURÉLIO:
Você não pode abrir uma excessão pra mim? Me libera da dívida que tenho com você.

O ceifador lança um riso desalentador.

CEIFADOR:
Aurélio. A dívida que você tem não é comigo. Sou apenas o cobrador.

AURÉLIO:
Quem é seu patrão então? Fala com ele… seja Deus ou Diabo, acho que você pode dar um jeito.

O ceifador puxa um relógio de bolso antigo, preso por uma cordinha enferrujada. Os ponteiros correm religiosamente.

CEIFADOR:
Sua dívida não é com nenhum desses dois. Sua dívida é com este sujeito aqui. É este aqui quem dá as ordens.

Existem algumas coisas que Aurélio gostaria de ter dito, mas precisou se conformar. Quando o braço do ceifador tocou o ombro de Aurélio, o hálito gelado não foi capaz de concretizar em palavras os seus últimos pensamentos.

O grupo de pombos alçou vôo e Aurélio se viu por trás da revoada, as cores já não eram mais cinzentas. De costas para a praça Aurélio alçou um vôo ainda mais alto do que os pombos, e dalí partiu, nunca mais olhou para trás.

Idylliu

In Egotrip on Junho 25, 2008 at 8:30 pm

A sensação de que o tempo não existe

Caiu sobre brasília o sol do fim de tarde. O momento que os pintores, fotógrafos e cineastas chamam de hora mágica. Quando toda fotografia sai bonita. Um cobertor de sol alaranjado paira sobre tudo para tingir a vida, enche os olhos.

Os pássaros entrelaçam-se no céu em vôos curtos de um poste ao outro, de uma árvore à um alpendre, confundiram-se. Pairaram de asas ora abertas, ora fechadas. Os pássaros, acostumados pardais ou foragidos sabiás, sobrevoaram o casal de namorados, que de mãos dadas observavam a vida passando, o mavioso canto diário. Sentiu-se o tempo tão devagar. Mas o relógio nasceu para desmentir as ilusões, o tempo passa sim e passa depressa. “Você me dá a sensação de que não existe o tempo”, foi o que ele quis dizer a ela. Quem dera ele tivesse dito, mas a mecânica da curiosa modernidade impulsiona os ponteiros “Responsabilidade, pressa, ação”, diz o relógio a cada tic, a cada tac. Não há tempo para os namorados, viventes por natureza despreocupados.

O riso das crianças, o cheiro de terra molhada, a pipoca doce, nesta tarde comemorou-se o aniversário de uma cidade satélite. O palhaço incitou as crianças a cantar parabéns àquela cidade que ano-a-ano tomava novas formas. Asfaltos foram traçados, casas e edifícios foram erguidos. Vem ligeira esta modernidade de poeira suspensa e concreto recente, é triste porque rouba o tempo e o espaço do casal de namorados. A chegada desta dinâmica urbana é bem vinda por aqui, mas fica na memória a lembrança da época idílica, quando o tempo era só mais um detalhe.

Ele, o namorado, quis levá-la para passear, quis dançar ao som das engrenagens urbanas, do canto dos ventos voadores. E dançaram de mãos dadas no estranho ritmo de dos que andam sem destino. Quando ela parou de andar o sol laranja banhava o seu rosto e ele a beijou gratuitamente, quis dizer tantas coisinhas, significavam demais. Mas tinha o tempo, o dinheiro, a modernidade, ele não conseguiu dizer, havia um peso em seu peito, o peso de lembrar que entre os sonhos e a vida real há um abismo perigoso, em muitos casos fatal.

Independente dos perigos da vida urbana, capitalista e apressada ele sentiu-se bem por ela existir, pelo breve passeio. A hora passou, o celular tocou, ele se foi e a saudade ficou.

Para minhha querida neguinha companheira: Fulô.

O bom ladrão

In ficção on Junho 21, 2008 at 3:49 am

O verdadeiro canalha sabe encontrar boas desculpas para fazer o que faz

Quando Ricardo observou aquele senhorzinho bem vestido na frente da paróquia carregando uma maleta na mão, logo viu que se tratava de um alvo fácil. Ricardo permaneceu do outro lado da rua, sentado na parada de ônibus. O senhorzinho bem vestido andava de um lado para o outro, esperava por uma carona, talvez. Já era noite, a rua silenciosa, ao lado de Ricardo o vendedor de churrasquinho conversava amenidades com outros dois sujeitos. Dentro da paróquia alguns fiéis prestavam contas de suas dívidas de fé. Assaltar aquele senhorzinho em frente à paróquia seria azar na certa, precisava esperar o momento certo.

O senhorzinho inquieto largava a maleta no chão, consultava as horas. Olhava para os lados mas a rua estava vazia, nem um ônibus, nem um carro. A sensação de solidão e insegurança das ruas noturnas pode assustar alguns, mas para tipos como Ricardo, predadores urbanos, este tipo de ambiente é não apenas conveniente, mas agradável. A insegurança é uma parente relativa à liberdade.

“Esse almofadinha precisa sair daí”, pensou Ricardo. Enquanto isso o vendedor de churrasco conversava com a boca cheia sobre sua amante prostituta. Um cão simpático estava parado de olhos cravados no churrasco, estimulando a própria saliva, deixou a língua pendurada. A conversa do churrasqueiro não era das mais cultas:
“Eu vou dizer pra ela que assumo a penca de filhos que tiver. Vou tirar ela daquela vida. Quando eu ia no putero, ela me dizia que se eu fosse homem e sustentasse ela, pagasse comida e uma casa, seria mulher minha, ia ficar comigo só. Ia trepar sem camisinha. Mas na época que eu conhecí, eu era casado, aí eu falei que não dava, eu tinha mulher e uma filha. Agora minha filha tá crescida já”
“E a sua mulher?”, perguntou o outro sujeito curioso.
“A mulher já morreu de desgosto faz é tempo”, finalizou o vendedor de churrasco.
O cão simpático, quando inventava de uivar por um pouco de comida levava um “sai pra lá”, mas voltava logo em seguida. O estamago de Ricardo, assim como o do cãozinho já roncava bastante, mas nada de comer antes de terminar o “trampo”.

Enquanto isso o senhorzinho conversava ao telefone, parecia enfezado. Após a conversa pelo celular ele entrou na paróquia. Ricardo se apressou, levantou da cadeira da parada de ônibus e seguiu o homem. Antes de entrar, esfregou as mãos uma contra a outra, respirou fundo, estava tão frio que o vapor exalou pela boca. Um sorriso sádico se revelou, o prazer da caça.

Dentro da igreja Ricardo sentou algumas cadeiras após o senhorzinho da maleta. A paróquia estava quase vazia. O senhorzinho buscava uma posição para se prostar de joelhos. Ricardo puxou um espelho, fingiu pentear os cabelos ao observar se o senhorzinho já estava de olhos fechados para rezar. Por o que estaria rezando? O que havia dentro da maleta? O conteúdo, tanto da válise quanto do coração, permaneceriam no mistério.

Ricardo olhou para frente e a imagem de Jesus Cristo crucificado o observava. Os punhos pregados à cruz, sentiu culpa. “To dentro da igreja querendo roubar um cara, sou um canalha mesmo”, pensou. Olhou pelo espelho novamente, o senhorinho já havia fechado os olhos. A maleta sozinha ao seu lado. “Oh pai, tenha piedade, ele tá dando muita sopa”, pensou Ricardo. Mas a imagem de Jesus o deixou constrangido, resolveu fazer uma pequena oração.

“Jesus, pega leve comigo aí. To precisando de uma grana e tu já sabe bem disso! Tú tá ligado que eu to mais quebrado que espelho de feioso. Olha, eu prometo que vou voltar a comparecer às missas, tu sabe que eu sou religioso, que eu gosto desse lugar aqui, mas sabe coméquié né? Preciso viver o presente. Vamos dizer assim, que eu vivo pelo presente, e essa maletinha do engravatado que eu vou pegar e ele não vai perceber é uma oferenda que eu faço ao teu pai, o Deus. Ele é onipresente né? Então ele é do agora também! Vamos entender esse roubo não como um roubo, mas como uma missa pelo tempo presente! Pode ser assim? Tu aceita essas condições? Se não aceitar, me dá um sinal, vou esperar, pode ser qualquer coisa, uma pomba voando, um trovão, qualquer coisa. Se não tiver sinal, aí eu vou lá e celebro a missa pelo tempo presente! Combinado? Tá certo, depois não vai reclamar hein! Tu já perdoou um ladrão uma vez, você pode me perdoar também.”

Ricardo terminou a oração e aguardou por um sinal divino que o impedisse de cometer o furto. Marcou 30 segundos no relógio. “Não vou esperar demais também né? Vou dar uma colher de chá, se o cara sair em 30 segundos eu vou embora sem roubar”. Os trinta segundos foram os mais demorados que Ricardo já passou. Ficou encasquetado tentando descobrir o que tinha dentro daquela maleta, temia que o homem fosse embora, mas no fim dos 30 segundos Jesus não deu nenhum sinal divino. O senhorzinho ainda rezava de olhos fechads, nenhuma santa chorou sangue, nenhuma luz celestial pousou dos céus, e não choveu.

“É Jesus! Quem cala consente!”, pensou Ricardo. Se levantou calmamente, andou em passos astutos, o silêncio abençoado da igreja não ouviu nenhum de seus ossos estralar. Esticou o braço, retirou a maleta do lugar com toda a cautela e saiu pela porta da igreja. O senhorzinho permaneceu rezando, de olhos selados e fé azarada. “Talvez ele esteja pedindo um alívio na vida, eu to aliviando o peso dele carregando a maleta!”, pensou ricardo rindo por dentro.

Quando varou a porta da igreja o estômago já estava reclamando, um ronco agudo e dissonante alertou para a fome. Ricardo atravessou a pista numa calma esquiva, foi até o vendedor de churrasquinho e pediu dois churrascos no espeto. Passou farinha, girou no molho. Tirou a carne toda de um dos espetos e jogou no chão para alimentar o cão simpático.

Caminhou para longe, pelos becos de São Sebastião que só ele conhecia. Comia espeto de churrasco de carne de terceira, com uma mala na mão, um amigo cão e a consciência tranquila.

Estava celebrada a missa pelo tempo presente, o padre? Um ladrão.

John Cage Messe pour le temps Présent
http://www.youtube.com/watch?v=qlSX50pXVto

Aos socialmente bem adaptados

In Sem categoria on Junho 18, 2008 at 1:00 pm

Não é necessariamente sadio estar bem adaptado à uma realidade doente

O trabalho é o laboratório perfeito para a prática de crueldades. Os subordinados são cobaias pagas para agir, se comportar e ser conforme ditam as “normas” de cada empresa. Uma empresa tem sua personalidade, e o indivíduo precisa abdicar da sua própria para se conectar à filosofia empresarial. Para isso servem as gravatas atadas ao pescoço, não há metáfora mais clara para coleira ou forca. Os sapatos desconfortáveis, a calça penicante e a roupa social.

A indumentária do assalariado é um atentado ao espírito humano, livre de nascença. Porém, tanto entre os humanos como entre os cães, existem os facilmente domesticáveis e os que conservam sua agressividade. Fica vivo o seu instinto e sua alma, o que faz respectivamente dos cães, cães, e dos homens, homens.

Tanto nas empresas como nos canis, alguns se sobressaem aos olhos dos “superiores” quando demonstram profunda obediência e conformidade com a situação inalterada, o status quo. A ausência de personalidade e instinto cotuma agradar o opressor.

Os funcionários amestrados são reconhecidos no mundo empresarial, sua docilidade é recompensada com biscoitos, no caso dos cães, e com confiança e promoções, no caso do funcionário. Conquistam posições invejáveis no “MERCADO DE TRABALHO”, pois nunca se põem a frente de seus “absolutos superiores” que os conduzem a base do cabresto, ou da coleira da gravata.

O resultado desse esforço de obediência na vida de um ser-humano é a devoção quase espiritual ao seu ambiente de trabalho. Existe agora o fenômeno dos concursos, tido por muitos como a opção mais viável de uma vida repleta e abundante. O concurseiro é um ser-humano comprometido em estudar várias horas por dia, a colecionar apostilas de direito, português, informática, e a livrar-se de sua vida social em troca de um trabalho bem remunerado, mesmo que não vá necessariamente de encontro com suas potencialidades e perícias. O concurseiro sabe que não precisa se preocupar em gostar de seu trabalho, o dinheiro será a recompensa pelo sofrimento. Há uma vantagem entre os concurseiros, estão protegidos por leis que conferem segurança em sua posição, só são despedidos quando cometem um erro muito grande.

No caso do funcionário não concursado é ainda pior. O “superior” sente-se no direito de tratar o subordinado como lacaio. A competição acirrada leva os cães amestrados a competir pelo poder com grunhidos de puxa-saquismo, miados em alguns casos. O puxa-saco é submisso ao seu “superior”, e desconta sua frustração de não ser o dono do poder submetendo o subordinado a ele a situações degradantes. Parecem tão poderosos, mas quem os conhece sabe bem que foi de tanto uivar o chefinho que ganharam o cargo que tem. “Você com uma arma na mão é um bicho feroz! Sem ela anda rebolando e até muda de voz”, como diria o sambista pernambucano, embaixador dos morros cariocas, Bezerra da Silva.

Essa corja insegura de capatazes, puxa-sacos nativos do conglomerado empresarial, apresentam todas as características físicas de um homem escurraçado, medroso, mas tentam se impor com crueldade para demonstrar a falsa segurança. No latim a palavra idiota significa, um homem de alma curta, o funcionário bem adaptado é um homem que trocou sua alma pela cobiça, pela mesquinharia, está portanto, podre por dentro. Tem uma postura arrogante, aspereza e não tem nenhum senso de humor além do sarcasmo corrosivo. Aliás, sarcasmo corrosivo é uma redundância. Se o bom humor é esperança, o sarcasmo é a corrupção da esperança.

É possível visualizar um estereótipo do funcionário arrogante e frustrado, satisfeito com a orgia do abuso do poder ao abusar de seus subordinados: Carrega a cruz da auto-afirmação, um ar de autoridade artificial; Tem as sobrancelhas bem feitas, possivelmente utiliza uma pinça para este trabalho; Usa um paletó impecável, pendurado a maior parte do tempo em um cabide; os fiapos remanescentes em sua cabeça levam horas em frente a um espelho para serem rigorosamente penteados, segue a estratégia militar, faz com os cabelos no terreno da careca uma estratégia de guerra para encobrir áreas de defesa debilitada. Um verdadeiro estrategista capilar.

Se cabe aos amigos o papel de animar as horas ruins, aos inimigos cabe o papel do desafio, cabe a ele, o patrão estereotipado o papel de fomentar a fúria do funcionário de espírito livre. De removê-lo da apatia para ação subversiva, um passo em falso é sempre desculpa para uma ferroada do capataz.

Os poderosos não são tão firmes como uma rocha. Quanto maior o poder (e o valor que se dá à ele) tanto maior será o medo de perder. Aquele que não sabe administrar o poder seguirá como regra mais básica a máxima: Quantidade de poder é diretamente proporcional a solidão, ao vazio na alma. A ausência de uma espiritualidade individual se resume em uma busca vazia por poder, sexo e consumo.

Patrões, puxa-sacos, engravatados, descolados e toda essa corja de bem adaptados socialmente à uma realidade doente, os seres mais baixos da modernidade.

Do que a alma precisa?

In ficção on Junho 17, 2008 at 4:13 am

Ajoelhou-se como já não fazia há muitos anos

Me ajuda a fazer a coisa certa. Quando a gente tá com a cabeça triste, ou afundada em nervosismo, é difícil escolher a coisa certa. Me ajuda. Eu sei que passei um tempo sem acreditar em você, sem trocar uma palavra contigo, depois passei a olhar com raiva para você, e confesso que ainda não perdí a mania de praguejar. Mas nessa vida eu queria um pouco do direito, de ser um cara bom, de não fazer mais as merdas que eu fiz, de poder amar e ser amado, de dar o valor que minha família merece, de não trair a mim mesmo fazendo coisas que não são do meu feitio. Me dá o poder de ser eu mesmo com toda a força, de saber suportar os meus momentos de fraqueza. Me dá paz e sabedoria, porque depois do tempo que eu passei longe de você, às vezes fica tão difícil conseguir essas coisas todas, que a sensação que dá, é que a gente tem que reaprender tudo de novo.

Foram as coisas que ele disse, com os olhos fechados, cabeça virada para o teto, apoiado sobre os joelhos e os dedos das mãos entrelaçados, com os punhos unidos. Chorava por algo, a antecipação de um futuro sofrimento talvez, lembrou-se de “não vos preocupar com o dia de amanhã”, desistiu de chorar. Pensou em como deveria estar engraçado o seu rosto todo encolhido de tristeza, e sorriu. Sorriu porque já não queria mais chorar para a vida, não queria mais observar a vida com amargura, não queria desejar o mal para às pessoas que lhe fizeram mal. Queria sorrir, e queria de volta o sorriso da vida.

Tanta coisa estava de mudança, os móveis fora do lugar, os papéis fora da gaveta, a cabeça e o coração dobrados por uma garota que instalou uma flor em seu coração.

Dizem que quando nós estamos muito felizes, nós ficamos tristes só de saber que aquela felicidade pode um dia acabar. Por isso estava tão abatido, horas antes daquela conversa sincera. Tanta gente com problemas bem piores do que o seu, tanta gente com coragem para lutar, porque ele sadio não haveria de ter. A tristeza quando vêm e se instala pode ser uma doença grave, a falta de saúde da alma é corrosiva. Mas como alimentar a alma? Do que a alma precisa?

Sem sarcasmo nenhum, no dia seguinte ele tomou uma única e gostosa cerveja sozinho, degustou a cevada. Caminhou com a mente alerta pelas ruas lotadas observando toda a multidão de trabalhadores, o exército de funcionários diários da enorme cidade. A modernidade é bonita enquanto dura. Manteve-se numa direção, observando o entardecer. Não tinha dinheiro para o cinema, mas não se importou, observou o espetáculo gratuito e esperou que acabasse. A tristeza, como o sol, se queimou no horizonte.

A tensão entre afirmação e negação da arte

In Sem categoria on Junho 14, 2008 at 2:42 pm

Quais são os limites da arte? O que é arte?
São perguntas não respondidas, respostas que não temos, mas certos tipos de “arte” soam como charlatanismo. Não querendo desmerecer este tipo de arte, visto que um charlatão precisa ser um verdadeiro artista para conseguir sua credibilidade.

O curta “Sem Título“, dirigido por Caio Polesi em 2004, trata de um homem servido como exposição, preso à linha branca do limite exposição para ser observado, avaliado e questionado em seu valor artístico como existente ocupante de um espaço. O filme nos faz ponderar sobre como podemos ser ridículos ao avaliar uma obra de arte completamente subjetiva, coisa típica da época moderna em que vivemos, quando os valores de arte se tornam cada vez mais abstratos e indefinidos. Para avaliar a arte o espectador busca suas entranhas mais intelectuais para falar pura “água” sobre o que enxerga alí com os olhos da razão, mas será que o observador da arte se sente realmente tocado pelo que vê? Para se observar algo com os olhos da razão é preciso coerência, mas as obras são incoerentes. Além de sua incoerência, as obras muitas vezes não falam com o coração do espectador, portanto, que valor existe na arte contemporânea se ela não é capaz de tocar o coração e nem a mente do espectador? Não existe tal valor na maioria dos casos, ainda assim, a mente se ocupa de atribuir um valor para tudo que vê, por mais abstrato que seja o objeto.

Outra questão interessante é a forma como os artistas de exposição muitas vezes desumanizam sua arte, tornando-a fria e insípida. Lembro de um caso de uma apresentação de artes cênicas da Universidade de Brasília (UnB) na qual uma atriz expoente fazia um discurso pseudo-feminista (talvez na verdade femista), e enquanto discursava, várias galinhas estavam empoleiradas a espera da artista. A artista escolhia uma galinha e a carregava no colo, acariciava a sua cabeça e então torcia-lhe o pescoço até arrancar a sua cabeça, o público ficava estupefato, alguns saiam chocados, ainda assim no final da peça a atriz era aplaudida. Que artista era aquela? Qual seria o significado da sua obra? Qual a relação da galinha degolada com o seu discurso? Até onde vai a licença poética do artista em relação à moral?

O que o artista contemporâneo muitas vezes nos passa é a sensação de que ele próprio nunca pensou muito bem a respeito da sua obra, afinal, todo artista deveria saber da enorme responsabilidade que tem em suas mãos ao criar qualquer tipo de arte, pois a arte influencia, modula opiniões, e portanto deve ser coerente com seu propósito, mesmo que seu propósito seja a pura imagem do caos. Na verdade, supostamente devemos entender que a arte deva ter um propósito. Um valor que está sendo quebrado com a arte moderna da total desconstrução.

A arte encontra tal apoio no charlatanismo que chega ao ponto de a total negação da arte ser aplaudida como tal. Estranho mesmo não é o artista moderno, que cria suas obras sem pensar, afinal o artista moderno parece enfim com seu propósito de ser “O homem que não diz nada”. O que é verdadeiramente estranho é o comportamento do público moderno que aplaude qualquer coisa que lhe deixe em dúvida “Devo aplaudir ou não?”, na dúvida, faça o politicamente correto, ou ao menos vá com a maioria.

Assista o curta
http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?Cod=3332&exib=5937

MOSTRA BRASIL CANDANGO

In Sem-categoria on Junho 13, 2008 at 6:40 am

MOSTRA BRASIL CANDANGO – ANO III

Há exatamente três anos o Distrito Federal ganhava um Projeto Cultural que transformaria os finais de semana de suas Cidades e do Entorno: A Mostra de Cinema Brasil Candango, projeto assinado pelo Instituto Latinoamerica, com o apoio do Ministério da Cultura, e patrocínio da Petrobras

Um ônibus, um caminhão, um projetor, cadeiras, som e uma grande tela… receita simples, mas a mistura certa para fazer nascer mais alegria, mais inclusão social, mais sonhos, MAIS CIDADANIA. É o Cinema ao alcance de todos.

Em 2008, a Mostra volta a colocar o pé na estrada levando a sétima arte à comunidades carentes de alternativas culturais. Desta vez, rompendo os limites do DF e alcançando cidades de Goiás e Minas.

Serão 67 exibições em 22 localidades. Os locais serão escolhidos entre escolas, ginásios, praças e logradouros públicos. Espera-se atingir um público superior a 50 mil pessoas. Além disso, serão realizadas oficinas de vídeo, onde estudantes da rede pública produzirão filmes sobre a realidade local os quais serão exibidos na própria comunidade e ofertados para exibição na rede pública de Televisão.

A Mostra Brasil Candango – Ano III começou na Praça dos Estados na Candangolândia -DF, no dia 15 de Maio, sempre iniciando as 19 horas.

programação completa no site:

http://www.mostrabrasil.org.br/

Gesse, o pensador que recicla idéias

In jornalismo on Junho 12, 2008 at 5:07 pm

Gesse é um cidadão de mente inquieta, acorda às três da manhã para pensar nas invenções mecânicas que costuma criar

Em uma casa humilde de poucos aposentos, decoração rústica e muita parafernália mecânica em São Sebastião vive Gessé Bizerra, nascido na década de 1960 em Taguatinga. É um cidadão de mente inquieta, dado a invenções engenhosas. Costuma acordar às três horas da manhã para ficar pensando em soluções para os problemas que requerem suas habilidades. Gesse acredita que seu talento para mecânica é nato. “Uns gostam de pintura, outros gostam de escrever. A mecânica é natural para mim”, conta. As criações de Gesse, de forma geral, servem para reduzir a quantidade de esforço aplicado para realizar trabalhos. Desenvolveu, por exemplo, uma bomba de sucção de água de cisternas que é acionada pisando sobre uma manivela, sem eletricidade ou gasolina. Desenvolveu também um macaco hidráulico que funciona com um motor de limpador de pára-brisa.

Apesar de suas criações Gesse não se considera um inventor, diz possuir a visão apurada para encontrar novas utilidades para as coisas que já existem. “Sou um pensador, eu reciclo idéias”, conta.

O interesse por mecânica vem da infância. Desde pequenos, Gesse e seus irmãos observavam os caminhões pesados passando pela rodovia Fernão Dias (BR-381), em Belo Horizonte, onde morava com a família na época. “Era uma paixão que eu tinha por aquelas máquinas”, diz. Quando jovem, o pai de Gesse comprou um trator Ford 8BR Diesel, ele e os irmãos desmontaram e montaram o caminhão que até os amigos mecânicos da Petrobras tinham receio de mexer. Geraldo Bizerra, pai de Gesse, incentivava o desenvolvimento de sua inteligência, havia um laço forte entre eles, Gesse foi o sexto de oito filhos. “Eu me dava muito bem com meu pai porquê ele era meio pá virada que nem eu”, conta.

A primeira idéia criativa concretizada de Gesse ocorreu na Petrobras, onde trabalhava como ajudante de um caldeireiro na adolescência. O enxofre descia fervendo pelas caldeiras, caía em um espaço e se solidificava com a temperatura ambiente. Os funcionários precisavam utilizar marretas para quebrar o enxofre solidificado em blocos. A idéia de Gesse poupou o trabalho de quebrar o enxofre, economizou tempo e, conseqüentemente, dinheiro da empresa. Ele sugeriu que se instalasse uma placa de aço no formato de um grande prato redondo em um ângulo de 45º, com uma corrente de água jorrando sem interrupção. Quando o enxofre cai sobre a placa de metal ela gira com o peso. A água toca no enxofre e o solidifica em pequenos pedaços. Com o giro da placa o enxofre cai sólido e salpicado no chão. Os funcionários não precisaram mais rachar o enxofre com marretas para colocar os blocos pesados no caminhão, basta recolher o enxofre salpicado com uma pá. Gesse conta que não ganhou nenhum reconhecimento pela sua invenção, no entanto, a placa de aço para salpicar o enxofre foi instalada na maioria das caldeireiras.

Outra das invenções de Gesse é a bomba de sucção de água de cisternas, que tem uma história curiosa. Durante a campanha do Ministério da Saúde para combater o mosquito da dengue, Gesse encontrou um pneu de carrinho de mão cheio de água. Pisou no pneu e a água vôou longe, com toda força. “Você vê um pneu. Eu vejo um diafragma”, conta Gesse. Gesse percebeu que poderia utilizar aquela energia para extrair água de uma cisterna vedando o pneu e instalando um cano para a sucção e outro para a expulsão da água. A bomba que ele projetou funciona com pouco dispêndio de energia, basta acionar a alavanca com o pé. Não necessita de eletricidade ou de gasolina. Na época, Gesse pediu a um amigo que enviasse um e-mail para o programa do Ratinho, do canal SBT, para divulgar sua criação. Não houve resposta.

Gesse trabalha atualmente com um caminhão-pipa em São Sebastião. O caminhão é modificado e personalizado com algumas de suas invenções. O freio de mão tem uma válvula para regular a tensão; sob os bancos, há uma mola que torna a viagem mais confortável; há um filtro de ar para otimizar a potência do motor; a torre do filtro, instalada por Gesse, tem uma tampa para impedir a entrada da água da chuva, feita com uma panela de sua esposa. As rodas foram convertidas de seis para dez parafusos; um aparato que um dia foi um extintor é agora um curioso galão de gasolina para o motor da bomba elétrica.

O pensador que recicla idéias, como Gesse se define, é casado e pai de três filhos, Yasmin Nataly Santos, 9 anos; Arthur Caleb Maia, 8, e Ana Sofia Maia, 5. Ele não quer ver os filhos perdidos ou preocupados com futilidades quando forem adultos, incentiva os filhos ao estudo para almejar objetivos maiores. “Se quiserem, podem ir até pra lua que eu deixo. Só não fiquem de vadiagem por aí”, conta.

Gesse possui vários cursos ministrados pelo Setor de Calderaria da petrobrás nas áreas de tratamento térmico, tubulação industrial, solda e já trabalhou até em plataformas de petróleo em alto mar, mas o que chama atenção em sua personalidade é a ampla gama de interesses que possui. Gesse fala sobre os problemas do consumismo, sobre a miopia do empresário brasileiro, sobre suas experiências com o chá de hoasca quando se perdeu em Paraopeba e sobre uma teoria que está desenvolvendo de que o esgoto ainda vai salvar o mundo, fruto de seu interesse por permacultura.

“A maioria das pessoas tem problema de raciocínio. De pensar, de criar. Henry Ford por exemplo nunca fez faculdade, mas foi um cara revolucionário”, diz Gesse. O empresário estadunidense Henry Ford, pai da marca automobilística Ford, assim como Gesse nunca cursou uma faculdade e deve concordar com Gesse: “Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele”. Gesse não se considera um inventor. “Sou um pensador que recicla idéias”.

Tétano e a cordialidade

In ficção on Junho 8, 2008 at 2:18 pm

Texto originalmente escrito em São Paulo 29/09/2006. Ví um garoto humilhado pelo dono de um carro atingido pela bola de futebol do menino. O que se passou pela cabeça do garoto? Quem se tornou aquele garoto depois da humilhação? ( Tá certo que exagerei um pouco )

Uma forma eficiente de preservar a gentileza

A ameaça pressupõe violência. Meu apelido é Tétano, depois eu explico o porquê. Outro dia eu tava jogando bola perto do carro daquele magrelo careca. Com 16 anos eu não aguentaria nem um tapa na orelha daquele fi-di-puta e foi por isso que me deixou com medo quando chegou pra reclamar. Ainda bem que ele não me acertou tapa nenhum, mas bem que poderia ter acertado. Foi por causa de um chute que eu dei e a bola bateu no carro dele, é claro que não foi um chute pesado, nem tinha espaço pra acertar um chutão, mas a bola bateu no carro e fez barulho. Ele olhou pra porta do carro, olhou pra minha cara e ficou calado, só olhando. “Se acertar a bola no meu carro vai ter seu moleque! To avisando!”, ele disse. Fiquei calado.

Não foi um aviso cordial, foi um aviso grosseiro que me fez pensar que assim que ele fosse embora eu voltaria a jogar bola no carro dele, quase sem querer. Ele não é meu pai pra me mandar ficar calado, se meus amigos estivessem aqui eles iam virar pra mim e perguntar “Tétano, você vai deixar ele falar assim com você?”

Preparei uma bicuda e fiquei pronto pra chutar a bola com o dedão para amassar a lataria do retardado. Entrou um frio de medo na minha cabeça e comecei a imaginar um monte de coisas:

“O magrelo rabugento ia aparecer e me acertar uma murranca desgraçada. Eu cairia direto no chão, não dá pra desobedecer a lei da gravidade. Depois ele bicaria as minhas costelas, com a mesma força que eu biquei a bola de futebol. Meus rins ficariam esmigalhados dentro da minha barriga. Aí ele ia me levantar com uma mão só, primeiro ia me dar mais uns tapas na cara, só por diversão. A raiva dele viraria piada e ia me encher de socos, como se eu fosse uma almofada. Um dos golpes esmagaria a minha goela. No final eu estaria triturado. Ele me arremessaria no meio do lixo, cheio de cacos de vidro, eu cairia sem poder fazer nada, abraçado com a minha bola de futebol. Quando chegasse a ambulância eu já estaria delirando, naquele estado que vem antes da morte, quando a pessoa já não tem mais jeito, e fica tentando encontrar uma fagulha de vida através da frestinha que resta nos olhos. Ele teria fugido no carro, não tinha ninguém por perto pra testemunhar, e se alguém chegou a ver isso, ficou tão chocado com a tragédia que não teve nem cabeça pra lembrar do rosto do sujeito. O pessoal só pensaria “Tadinho do Tétano, tava querendo jogar bola em paz, o sujeito foi lá e deu uma pisa na cabeça dele”, ia ser muito triste na hora do meu enterro”.

É claro que isso era tudo a minha imaginação do que ele poderia fazer comigo depois de uma ameaça daquela. Nem meu pai me chama de moleque. Ainda bem que eu sou muito esperto e conseguí imaginar todas as possibilidades. Decidí parar o meu jogo de futebol perto do carro. Não queria acertar uma bola quase sem querer no carro dele, porque eu até gosto da minha vida, eu faço um monte de coisas: falto muita aula, jogo muita bola, jogo videogame e abro passarinhos com canivete pra ver o coraçãozinho bater. Depois eu fecho o peito do passarinho com uma linha de costura pra ele poder voltar a voar. É claro que eu esquento a agulha de costura no fogo, porque senão o passarinho pode pegar tétano. Aliás, foi assim que eu ganhei esse apelido.

Eu comecei a pensar como eu tava com raiva daquele Magrelo rabugento. Deu vontade de fazer com ele o que eu faço com o passarinho. Abriria o peito dele com um facão, aí depois de ver o coração dele eu fecharia e costuraria tudo com agulha, mas eu não colocaria a agulha no fogo, porque queria que ele pegasse tétano pra morrer. Minha raiva tava longe de acabar, e da raiva pro ódio o passo é curtinho, do tamanho de um passo de minhoca.

Ví que o sujeito não ia voltar, ele tinha saído há um tempão, o sol já tava descendo e a rua ficou vazia. Peguei uma pedra de brita e risquei uma frase no carro dele: “Você não é meu pai!”, aí eu assinei em letras bem pequenas “Ass: Tétano”. O engraçado é que se eu tivesse tanta concentração para os estudos quanto eu tenho para as maldades eu seria o melhor aluno na sala. Mas cada um é para o que nasce.

Depois desse dia eu mudei a minha cabeça. Já me sentia adulto. Esse dia mudou minha vida toda. Eu não precisei mais ter medo das pessoas agressivas, porque no instante seguinte eu seria capaz de pagar com vingança para me livrar da ojeriza de ser humilhado sem poder dar o troco.

É por isso que trato as pessoas bem, trato todo mundo como gostaria de ser tratado. Sei que num julgamento honesto, ninguém escapa ao chicote, mas trato as pessoas como se fossem nobres, entidades divinas e não suporto grosseria. Um fato assustador é que eu posso ser qualquer um e este qualquer um pode topar com você hoje ou amanhã na esquina de qualquer cidade, de qualquer lugar, em qualquer horário. Ele pode ter ferro de furar, de bater, ou de atirar, seja qual for o ferro que ele tiver, sua vida pode sair crivada, terrivelmente prejudicada.

Então se você só funciona na base do cabresto, fique atento ao constante exercício de cordialidade urbana porque o que não leva jeito para o respeito entra macio pela goela, mas desliza rasgando na garganta.

Sejam cordiais.

O trivial redime

In Sem-categoria on Maio 28, 2008 at 1:26 pm

A morte de uma mãe, uma família sem rumo

Os três filhos de Neguinho ainda não compreendiam a realidade fatal, o acidente violento do dia anterior levou embora a vida de sua mãe. Viviam perto de Sobradinho em uma casa simples e aconchegante, quadros com fotos penduradas na parede, os cômodos tinham poucos móveis e as panelas eram velhas, mas a vida, apesar de corrida era boa. Apenas um dos filhos frequenta a escola, os outros dois são muito novos. Neguinho, o viúvo, estava calado e sério no funeral ocorrido dentro de casa.

O acidente terrível que matou esmagada a mãe de família, teve consequências políticas, foi o estopim de uma crise maior. A bomba explodiu, 940 veículos de transporte pirata foram apreendidos no Distrito Federal, hoje, em Brasília, cobrar por passagem aos passageiros de qualquer veículo não autorizado para o transporte coletivo é crime. O transporte na cidade era crítico pela quantidade de acidentes, a maior parte deles causados pela truculência dos motoristas de transporte pirata, hoje o transporte é crítico pela falta de transporte público “legal” suficiente para atender a quantidade de gente. O transporte pirata surgiu por pura necessidade, é uma consequência da má administração brasiliense no que se refere ao transporte público.

Durante o velório a tampa do caixão ficou lacrada, Neguinho observou a madeira sem vidrinho, o rosto da esposa havia sido destruído no acidente, só restaram algumas fotos velhas de lembrança. A maior parte da família está no Piauí mas eles fizeram muitos amigos por aqui, havia choro e soluços. Alguém chamou Neguinho lá fora e o consolou “Agora você precisa ter força Neguinho. Fé em Deus e toca a vida pra frente!”. Neguinho confirmou que teria fé e demonstrou até um pouco de ânimo. Foi abraçado com força pelos amigos da água que chegaram num carro grande e barulhento. “Amigos da água” porque Neguinho e seus amigos eram proprietários de caminhões Pipa, faziam entregas para curar a seca de Brasília. Ao menos era a sensação dele “os caminhões pipa servem para curar a seca”. É claro que essa sensação não está tão correta. Os caminhões Pipa tiram água de um lençol freático e abastecem a piscina de algum boa vida, ou o jardim de uma madame, geralmente na margem rica da cidade. Algumas vezes os moradores de alguma região humilde fazem uma vaquinha e chamam um caminhão pipa de 10 mil litros para encher uma série de caixas d´água, “esse é o mais trabalhoso de todos”, pensava Neguinho, “dá um trabalho do cão subir no teto, passar de uma casa pra outra e colocar a mangueira pra encher as caixas d´agua. E gasta mais diesel, porque precisa ligar a bomba para á água ter força pra subir”.

Abraçado com os amigos, fizeram uma oração cristã todos juntos. Neguinho e sua esposa frequentavam a Igreja Universal do Reino de Deus nos domingos de noite. Os filhos iam junto. “Era sempre uma lavagem na alma”, acreditavam todos da família. Na igreja um funcionário “de Deus” punha as mãos sobre a cabeça dos fiéis mais sucetíveis a dominação psicológica e começava a balançar a sua cabeça descontroladamente, enquanto isso um pastor Charlatão gritava e lamuriáva-se do alto do palco, fazendo preces, amaldiçoando o pobre diabo que sempre leva a culpa dos nossos delitos. Aquela zona “celestial” causa uma confusão na cabeça de alguns fieis, eles entram em transe e o coletivo se impressiona com a experiência miraculosa. Era assim todos os domingos, e às vezes às quartas e nas sextas.

“O acidente foi tão feio”, alguém comentou durante o velório. Tiveram cuidado para que nenhum dos filhos ouvisse, “a lotação corria a toda velocidade e quando fez uma curva virou para o lado esquerdo e foi caindo de ladinho. Ela (a esposa de neguinho) se desesperou e tentou pular pela janela, metado do corpo ficou para fora, ela ficou prensada entre a van e o asfalto. A coitada morreu na hora”. Formou-se uma pequena multidão de curiosos em torno dos detalhes do acidente, algum curioso perguntou “será que ela sofreu muito?”, as pessoas queriam saber, “Não. Ela morreu na hora”, disse o mais sabido. Havia uma macha de sangue evidente no aslfato negro. Quando Neguinho se aproximou eles mudaram de assunto em um gesto de respeito. Alguém que estava quieto começou a chorar de verdade.

As crianças ainda não entendiam nada daquilo muito bem. O filho mais novo quis jogar bola mas o vizinho da casa ao lado não permitiu, é da nossa cultura não permitir nenhum sinal de felicidade enquanto se dá o rito da morte.

Neguinho acordou no dia seguinte e não encontrou a esposa. Na cozinha a louça estava suja. Os cachorros não estavam alimentados. As crianças dormiam. As janelas fechadas.

Neguinho vendeu o caminhão para um colega de profissão, a casa e as poucas coisas que tinha além disso e partiu para o Piauí, não se teve mais notícias dele por aqui. Na cidade cada peça tem sua função, o caminhão Pipa, do colega de Neguinho, se encarregou do trabalho de lavar a mancha do asfalto, despiu a rua de seu traje vermelho.

A igreja universal perdeu alguns membros, os ricos e classe-média perderam um serviçal, o trânsito perdeu uma passageira e a família perdeu uma mãe e uma esposa.

Amém.

Filas e crise para a população brasiliense

In jornalismo on Maio 26, 2008 at 4:59 am

Vários anos de fila para quem espera conseguir um abatimento no preço do lote

22 de Maio de 2008. Uma enorme fila gerou tensão no Setor Comercial Sul na última quinta-feira em frente à Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (SEDUMA). O novo programa habitacional do Governo do Distrito Federal pretende beneficiar 152 mil pessoas com a chance de uma moradia. Ao contrário do que pensam muitos dos que estão na fila, não haverá doação de lotes. “O programa não dá lotes, dá a chance de construir sua casa com abatimento nos preços do lote”, afirma Ronaldo Francesco, assessor da diretoria de cooperativismo da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (CODHAB). Os candidatos serão deverão apresentar os documentos requeridos pela CODHAB, até o momento não há possibilidades de parcelamentos no valor mas a Codhab está trabalhando para facilitar a compra dos lotes. Os convocados não poderão receber mais do que 12 salários mínimos, nem ser proprietários de imóveis no DF.

A população que espera conseguir o abatimento no valor dos lotes através do programa habitacional do DF deverá suportar mais dois anos nas filas: são 76 mil famílias beneficiadas pelo programa e o governo pretende atender a todos até 2010. O programa é baseado na lei Nº3.877/06 que dispõe sobre a política habitacional do Distrito Federal. O objetivo do programa é reduzir o déficit habitacional do DF.

A falta de informação e o contingente insuficiente no atendimento geram filas enormes em frente ao edifício. Na segunda portaria da SEDUMA, até pessoas em busca de outras informações são barradas pelos interessados na questão da política habitacional. Foi o caso de Maria Clara*, ela tentou passar consultar qual seria seu saldo devedor, mas não a deixaram passar. Acreditavam que ela estivesse mentindo para furar a fila. Maria Clara foi embora sem atendimento.

A população, irritada pela espera, não permite sequer a entrada dos jornalistas. A equipe do Na Prática tentou conseguir informações da coordenadora do setor que está responsável por atender os beneficiados pelo programa de habitação. O jornalista foi impedido pelas vaias da população, “peça a credencial dele”, disse um homem. Estudantes de jornalismo não tem credencial.

Houve tensão entre as pessoas, a calçada foi ocupada, os transeuntes buscavam passagens alternativas e até os mendigos foram forçados a encontrar lugares mais calmos para dormir.

Segundo Ronaldo Francesco, é preciso preencher uma série de requisitos para conseguir um lote através desse programa habitacional; o principal é morar em Brasília há mais de 30 anos, segundo o edital de convocação no site da CODHAB. Existem critérios aplicados que podem reduzir ou aumentar a pontuação, decidindo a quantidade de tempo que levará para que o cidadão seja atendido. Uma pessoa com muitos filhos, maior tempo de inscrição, pobre e com mais tempo de moradia em Brasília acumula mais pontos e será atendido com mais agilidade. Novas inscrições serão aceitas apenas após o atendimento de toda a lista de 152 mil pessoas.

Maria Élcia mora em Samambaia e faz parte de uma cooperativa de trabalhadores. “Estou em Brasília desde 1969 e nunca tive nada!”, explica. Ela pagou R$500 para entrar na cooperativa da qual não cita o nome e ainda paga R$20 todo mês. Maria Élcia diz ter assistido no programa Balanço Geral da TV Record que o governador José Roberto Arruda doaria os terrenos para a população carente e agora está preocupada com a nova informação de que não haverá doações, apenas abatimento nos preços. “Posso conseguir encaixar no Riacho Fundo, mas o lote custa R$80 mil, se não tiver o dinheiro a vista não ganho o lote”. Ronaldo Francesco, assessor da diretoria da CODHAB explica que a decisão não vem dele, mas de seus superiores, “eu próprio, trabalho aqui, sou filho de Brasília, tenho mais de 30 anos na cidade e não vou receber nada”, afirma.

Nas paredes do SEDUMA há uma lista com os contemplados pelo programa de habitação. A população contemplada aguardará nas filas até 2010 por um atendimento. Para Ronaldo Francesco, a desobediência civil pode ser uma tática mais profícua, “o cara que invade é tratado a pão de ló pelo estado. Quem fica pacificamente na fila, espera por vários anos”.
*nome fictício

A queda

In jornalismo on Maio 23, 2008 at 5:13 pm

O registro fotográfico da queda de uma mulher e sua afilhada renderam notoriedade ao fotógrafo Stanley Jordan

Em 1975 o fotógrafo Stanley Forman estava próximo há um apartamento que pegava fogo em Boston, ele fotografou o momento exato em que a escadaria de incêndio se soltou. Diana Bryant, de 19 anos, e sua afilhada de dois anos, Tiare Jones caíram com a escada. A afilhada Tiare sobreviveu ao acidente.

A foto repercurtiu na imprensa e gerou muita discussão, o fotógrafo foi criticado por invadir a privacidade das pessoas, mas a foto rendeu frutos, as autoridades de Boston reescreveram leis relacionadas à segurança das saídas de emergência.

A seguir o depoimento do fotógrafo Stanley Forman

“Foi no dia 22 de julho de 1975. Estava quase na hora de eu deixar o escritório do Boston Herald depois do expediente.

Recebemos uma ligação sobre um incêndio em uma das áreas mais antigas da cidade com prédios de estilo Vitoriano. Eu fui até o local e corri até a parte de trás do prédio, porque os bombeiros estavam gritando que precisavam de um caminhão com escada para resgatar as pessoas que estavam presas na escada de incêndio do edifício.

Quando olhei para cima, havia uma mulher e uma criança na escada de emergência, e elas estavam se debruçando para tentar escapar do calor do fogo que estava atrás delas.

Enquanto isso, um bombeiro chamado Bob O’Neil escalou a parte da frente do prédio até o telhado e viu as duas na escada de incêndio. Ele se abaixou na direção da escada para resgatá-las.

Eu fiquei em uma posição em que eu pudesse fotografar o que eu achava ser uma operação rotineira de resgate. Uma escada de um caminhão foi acionada para retirá-las do prédio. Elas estavam a uma altura de 15 metros. O’Neil disse a Diana que ele subiria na escada do caminhão e pediu que ela entregasse a criança a ele.

O’Neil estava quase chegando à escada do caminhão quando a escada de incêndio cedeu.

Eu estava fotografando quando elas caíram. Depois, eu virei de costas. Eu entendi o que estava acontecendo e não queria vê-las no chão. Eu ainda me lembro do momento em que virei o corpo. Eu tremia.

Depois fiquei sabendo que não teria visto as duas atingirem o chão porque elas caíram atrás de uma cerca onde se encontravam os lixos. Quando finalmente me virei, eu não as vi, mas vi o bombeiro pendurado à escada do caminhão com uma mão, como um macaco, se segurando com muita força. Ele conseguiu voltar depois, com segurança, para o topo do prédio.

Segundo os bombeiros, a mulher amorteceu a queda da criança. Diana morreu na noite daquele mesmo dia.

Naquele momento, eu não sabia que a imagem teria um impacto tão grande. Quando eu comecei a olhar os negativos, eu voltei as minhas atenções para as cenas do resgate, quando as duas ainda estavam agarradas uma à outra. Eu nem olhei para essa fotografia, porque eu não sabia exatamente o que eu tinha conseguido registrar. Eu sabia que havia fotografado as duas durante a queda, mas eu só percebi a grandeza da tragédia depois que eu revelei o filme.

A imagem foi publicada primeiro pelo Boston Herald e depois em jornais de todo o mundo. Houve muito debate sobre a publicação de uma cena tão horrível.

Nunca fiquei incomodado pela controvérsia. Quando penso sobre a publicação da fotografia, não acredito que foi assim horrível. A mulher, no momento da imagem, não estava morta; nós não mostramos uma pessoa morta na primeira página do jornal. Ela morreu, sim, o que é uma coisa horrível. Mas não achei que a escolha de publicar a foto foi ruim, mas eu sou o fotógrafo, eu tenho uma certa inclinação nesse caso.

Sempre que existem histórias sobre incêndio ou tragédias como a que aconteceu devido ao furacão em Nova Orleans, elas fazem as pessoas ficarem mais atentas.

Minha fotografia fez com que as pessoas saíssem de casa e checassem as escadas de incêndio, além de reivindicar mudanças na lei. Ela também foi usada em panfletos sobre segurança em caso de fogo por muitos anos.

Trinta anos depois, é bom saber que eu fiz a coisa certa. Eu nunca vi uma imagem como aquela desde então. Eu já vi fotos que gostaria de ter feito, mas nunca vi nada tão dramático como aquilo.

Quando se diz que uma fotografia vale por mil palavras, essa certamente vale por 10 mil.”

(fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/)

A professora de Piano

In cinema on Maio 23, 2008 at 2:56 pm

Direção: Michael Haneke
Elenco: Isabelle Huppert, Annie Girardot


Filmes e música são parentes próximos e boa música não se mede pela forma como se tocam nas teclas de um piano, mas sim pela forma como se trata o silêncio entre as notas, e o silêncio neste filme é congelante.

A Professora de Piano dedilha assuntos delicados de forma seca. Se assistirmos esta obra do alto do pedestal de nossa moralidade é certo que sairemos ofendidos, com a consciência abalada, porém, como obra cinematográfica, o filme é ousado e provocador.

O espectador adentra sem pressa na privacidade da professora de piano, uma mulher ríspida e triste. Adentra em sua vida, descobrindo que ela é também uma mulher reprimida sexualmente, e consequentemente pervertida. Descobrímos aos poucos as causas dessa repressão. Na faixa dos 30 para 40 anos a protagonista ainda vive com sua mãe, uma mulher possessiva. Ela se envolve em um caso sexual com um de seus alunos e acaba estranhamente apaixonada, mas aqui não existem inocentes, somente culpados.

O enfadonho dia da professora de piano se mostra diferente do que esperávamos quando o contraste se torna evidente. O arquetipo da figura recatada de uma professora de piano soa como uma personagem dos anos vinte, mas o contexto da história sugere uma grande quebra do arquétipo da civilidade pudorada quando a professora visita uma locadora de videos pornográficos procurando por prazer, ela enfrenta a humilhação de esperar por uma vaga numa cabine de videos eróticos.

Aos poucos a professora revela mais e mais hábitos íntimos sempre perversos e doentios, mas é mantido em momento uma distância da vulgaridade.

A história fala sobre perversão, mas não somente sobre isso, talvez sobre a incapacidade, ou a incompatibilidade das diversas formas de amor se é que ainda existe algum amor quando o sexo invade os hábitos pessoais de uma pessoa até lhe tornar uma caricatura disforme de sí mesmo, sempre disfarçada sobre uma fachada impecável de mulher recatada.

O filme é uma corajosa empreitada, tem a força de uma estocada no peito e se mantém poderoso da sequência de abertura até os créditos finais. É uma ópera trágica na qual a música é especial e atinge acordes profundos, mas é o silêncio quem nos diz tudo.

A Capital dos Mortos

In cinema, jornalismo on Maio 22, 2008 at 2:47 pm

O longa metragem, A Capital dos Mortos ressucitou os mortos vivos de Brasília

Foram 27 meses de produção do filme longa-metragem independente sobre uma invasão de Zumbis em Brasília, realizado na raça e na coragem na base do cinema digital, sem quase nenhum dinheiro. Os responsáveis pela loucura: Tiago Belotti, Rodrigo Luiz Martins e uma série de cúmplices, que trabalharam na produção, no elenco e figurando como zumbis.

A estréia oficial do filme ocorreu no dia 2 de Maio no Cine Brasília e lotou o cinema, teve gente que ficou sentada nas escadas, o estacionamento estava lotado, muitos alí participaram do filme e queriam ver o resultado na tela. E o filme foi bom, o público riu, se assustou e vibrou com o filme que acontece em ação ininterrupta.

A Capital tem o primeiro mérito que é a coragem de sua equipe de produzir sem dinheiro, isso mostra que idependente da existência de paternalismos estatais, existe gente que segura o cinema na raça, mostra também como os cineastas de Brasília são capazes de sair do marasmo, criando momentos de fervura cultural na cidade das longas distâncias, e por último, demonstra a espontaneidade da criação brasiliense, assim como a criação audiovisual recifense.

O segundo mérito do filme é a sua despretensão e a capacidade de fazer graça dentro de um clima de filme que não é necessariamente cômico, o filme é uma boa diversão, melhor do que muita coisa que existe na TV. Como produto de entretenimento A Capital dos Mortos realiza seus objetivos, tem a capacidade de não permitir a dispersão de um público adaptado a era da velocidade, diverte sem vulgaridade e se aguenta no ritmo constante do início ao fim.

O terceiro mérito do filme é o carisma que ele ganhou na Capital, a comunidade do orkut possui cerca de 1500 membros que discutiram durante e após a produção sobre as cenas gravadas, sobre as possibilidades de continuações e supõem o que fariam se realmente houvesse uma invasão de zumbis. Os cúmplices do filme participaram da produção fielmente, enchendo o rosto de maquiagem, contribuíram para a realização e deram a força que uma equipe sem dinheiro, à mercê do acaso, precisa para realizar uma produção tão gigantesca.

Brasiliense ou não, assistir à A Capital dos Mortos é preciso.

Visite o site www.acapitaldosmortos.blogspot.com

Nem todos os goianos são radioativos

In ficção on Maio 21, 2008 at 1:17 am

Atenção: Este texto pode conter sentenças preconceituosas. Texto originalmente escrito em 22/09/2007

O acidente isolado com o Césio 137, e os constantes acidentes de trânsito são fatores de preconceito para com os goianos.

Não demorou mais do que três horas para percorrer o trajeto Brasília – Goiania dentro de um ônibus semi congelado. Com umidade relativa do ar em 5%, Gufo calculou que a rachadura de seus lábios e a dor em suas narinas foram causadas pelo ar condicionado constante.

O ônibus chegou às onze horas na noite em Goiania. Gufo pagou um motoboy para levá-lo à casa de uma parente, lá ele dormiria como uma pedra. O motoqueiro do moto táxi acelerou sem dó. O capacete que Gufo foi obrigado a colocar parecia estar subindo de seu rosto. Gufo preocupado em se prender na garupa da moto ficou com medo de que ao puxar o capacete de volta para o rosto. Vendo a cidade passar através do capacete eu pensei que se eu caísse da moto, que andava em alta velocidade, meus braços quebrariam, minhas pernas se estilhaçariam, mas ao menos minha cabeça continuaria intacta, quem sabe né? Coisas da vida.
__O capacete tá caindo! – gritou
__Coloca a viseira! – respondeu o motoboy com outro grito, enquanto acelerava.

A moto enfiou o bico na traseira de um ônibus. Gufo esperou que fosse feita a perigosa ultrapassagem e arriscou tirar uma das mãos da garupa para tampar a viseira. Se lembrou dos boatos que rodam em Brasília sobre o fato de que os Goianos são péssimos motoristas. Em Brasília quando alguém faz uma cagada no trânsito, os Brasilienses chamam essa cagada de Goianada, é um dos preconceitos existentes sobre a cidade de goiania, um bairrismo evidente. Conseguiu criar coragem de tampar a viseira, o capacete parou de quase cair.

Chegou na casa da tia às onze e meia. Conversou com sua tia até as duas da madrugada. Gostava da tia, só não suportava o sotaque. Os goianos também tem a fama de serem ingênuos, até abobados as vezes, mas a tia já havia viajado bastante, morou em outras cidades, não compartilhava do provincianismo do Goiás.

No outro dia Gufo visitou a Faculdade Federal para participar da palestra sobre “Dinâmica Econônica”. Gufo não sabia exatamente do que se tratava isso, mas o chefe do gabinete lá em brasília disse que seria bom que ele participasse. Folga do trabalho com aprovação do chefe, ótimo. “Tomara que não seja uma palestra muito chata” – pensou Gufo enquanto esperava sua hora. O calor rachava sua cabeça.

No dia seguinte a palestra estava entediante, mas Gufo precisou esperar até o fim para assinar uma maldita lista de presença, depois disso ele desceu para almoçar. Teve que andar por algumas quadras passeando pelas agradáveis e silenciosas ruas Goianas. A Goiania dos fins de semana parece ser uma cidade pós apocaliptica. As ruas estão vazias, todos goianos combinam de ficar em casa, “fazendo o que, não sei!” pensou Gufo “Bando de bicho do mato” conclui. Goiania foi palco de um acidente com material radioativo há muitos anos atrás, quase foi mesmo palco de um apocalipse.

Gufo continuou andando, sozinho na rua, quis conhecer a cidade pacata, deserta. Gosta de ver as folhas das árvores balançando com o vento, em Brasília não há tanto vento, “não sei porque”, pensou Gufo, “vento é um negócio tão bonito, porque a gente não vê, mas ele afeta as coisas mesmo assim”.

E então, virando a rua duas almas goianas apareceram. Uma passeata de Goianos protestava com cartazes. A imprensa tirando fotos, câmeras de TV, crianças em volta e cartazes. Muitos cartazes! Exigiam direitos iguais. Queriam o fim do preconceito. Gufo lembrou de ter visto, na hora do almoço, uma notícia sobre a passeata contra o preconceito, pró respeito aos goianos.

Na época do acidente radioativo com césio-137 no Instituto Goiano de radioterapia (13 de setembro de 1987) um grupo de artistas goianos saiu da cidade e foi de viagem para vender seus artesanatos em uma feira do Rio de Janeiro. A intrépida polícia carioca tentou impedir a entrada dos Goianos na cidade. Levaram os coitados para a delegacia sob suspeita de emissão de radiação. Dizem por aí que a pessoa contaminada com radiação infectará as próximas três gerações de sua prole.

Os policiais cariocas impediram a entrada dos artistas Goianos, mas depois de ir para a DP os artistas conseguiram uma autorização da justiça para vender legalmente na feira do Rio de Janeiro. Os guardas cariocas que são tão malandros como qualquer malandro, deixaram que os Goianos fossem a feira, mas mandaram que instalassem sua barraca de fora, mas os guardas não esperavam pelo que aconteceu, a barraca dos goianos, por estar do lado de fora, na porta de entrada, foi a mais visitada da feira. Venderam uma série de estatuetas de artesanato que hoje enfeitam estantes de casas do rio de janeiro.

Não se sabe se houve ionização de gases, fluorescências ou partículas atravessando corpos solidos nas casas dos compradores das obras artísticas. Até o cantor Fagner Montes se pronunciou contra o preconceito que os Goianos sofreram na época. As pessoas não aceitavam goianos em hotéis, eles não podiam viajar. Ficaram isolados, em quarentena. De uma coisa eu sei, o fato dirigirem mal não foi culpa da radiação, os goianos já faziam goianadas no trânsito antes de qualquer desastre radioativo!

Apesar de tudo, e brincadeiras a parte, a experiência em goiania foi boa para quebrar estereótipos. Agora eu sei que nem todos são radioativos, a maioria dos goianos são pessoas de bem, comprometidos com a civilidade e isso é um bom sinal para o mundo. Apesar das barbeiragens, do calor infernal e do sotaque, os goianos são gente boa, tem mulheres bonitas e ruas agradáveis.

Duas irmãs e um cão

In ficção on Maio 15, 2008 at 5:37 pm

São duas irmãs, andam sempre juntas. Uma é a corajosa e a outra é retardada

Quem são elas? Mãe e filha? Não. Óbvio que não, elas tem quase a mesma idade, cerca de uns quarenta anos. No duro, elas são irmãs. Estão todo dia na mesma parada de ônibus, nesse horário das 11h30. Uma delas é a retardada, parece uma criança, e a outra é a corajosa, incuráveis companheiras.

Ouví dizer que a corajosa rejeitou um marido por causa da irmã retardada. Há cinco anos atrás a corajosa namorafa com um tal Bomfim, bom sujeito o rapaz, andava com os cabelos penteados e estudava para se formar engenheiro, hoje deve ser formado já. O Bomfim propôs à irmã corajosa um noivado, depois de algum namoro, notícia feliz, mas havia uma condição, “você precisa internar a sua irmã”, propôs Bomfim.

A irmã corajosa não gostou da condição, ela teve que beber muitos copos d´agua para vencer o nervosismo. “Eu não vou colocar a minha irmãzinha numa casa de loucos, lá não é lugar de gente, eles tratam mal as pessoas”, disse a corajosa. Apesar de triste, continuava corajosa, foi o fim de Bonfim na vida dela. Não tinha tempo para ser vaidosa, os cabelos viviam desgrenhados, mas sempre penteia os cabelos da irmã.

Às vezes a irmã retardada dá muito trabalho. Tem uns chiliques assim do nada, fica irritada e grita, e vou lhe contar, mas mantenha segredo, ainda faz xixi na cama, aos quarenta anos. A corajosa pensou até em se tornar amarga uma vez, você pode compreender. “Eu dou tanto amor pra essa gente, mas para me amar as pessoas querem coisas em troca, pedem condições”. Mas o que fazia da irmã corajosa uma verdadeira corajosa, era a coragem de não ceder, de não amargar, e também a crença de que “não basta ser recebedor do amor, você vai se decepcionar com as pessoas. É preciso ser uma fonte gratuita de amor”.

Numa manhã como qualquer outra lá estavam as duas, como em todas as manhãs, a retardada e a corajosa. A corajosa penteava os cabelos da retardada. A retardada distraída. Basta passar uma borboleta assanhada que a irmã retardada já quer olhar de perto as asinhas batendo “essas borboletas parecem folhas caídas. As folhas se juntam, como duas irmãs, e sobem de novo, pro alto da árvore, uma folha irmã ajuda a outra folha irmã”, pensou a retardada.

Mas o que aconteceu foi um vira-lata perdido passando pela rua. O pobre coitado do cão correndo no meio do asfalto com a língua para fora e no semblante canino um evidente cansaço e desespero “Aonde é a minha casa?”, deveria estar pensando. Os carros buzinando, desviando do cachorro.

A irmã retardada viu a cena e observou de longe. O cachorro passou do outro lado da pista, e ninguém fez o favor de chamar o cachorro para fora da rua. Compadecida, a irmã retardada correu para o meio dos carros na direção do cachorro. Os carros tiveram que brecar, quase causaram um acidente. A irmã corajosa ficou sem reação, boquiaberta, aguardava por um desastre, não teve nem voz para gritar pela irmã.

Por uns instantes os passageiros até pensaram que a retardada fosse morrer. Um carro brecou em cima dela e o motorista gritou “Saia do meio da rua sua retardada imbecil!”, mas ela nem viu o motorista, correu em direção ao cachorro, chamou com um assobio e o acolheu.

O cão baforava linguarudo, assustado, mas agora safo.

Ela voltou para o seu lado da pista e a irmã corajosa brigou com ela “Você não pode andar no meio dos carros, quer morrer?”. Quando o susto passou, olharam juntas para o cachorro e decidiram ficar com ele.

São duas irmãs, andam sempre juntas, uma é corajosa e a outra também.

Valeu pela coragem

In ficção on Maio 14, 2008 at 4:27 am

Um garoto franzino que apanhou muito na quinta série na turma dos repetentes, vinga-se com a esperteza

A sirene tocou e a cambada do ensino primário saiu se acotovelando pelo portão principal sem muita disciplina. Aquele tal de Rafael, que eu odiava, fazia a questão de esbarrar em mim, era meio baixinho e tinha cara de enfezado. Andava acompanhado dos marmanjos repetentes. Era apenas a quinta série, mas tinha marmanjo de até 18 anos, passando dessa idade a diretora não aceitava mais na escola “lugar de delinquente é na rua, não na escola”, dizia a diretora.

A diretora, aliás, era uma mulher inteligente. “Sofrendo e sorrindo”, é como ela dizia que vivia boa parte da população pobre do Brasil. “Aquelas picardias de carnaval, a porcaria de futebol e novela da tv globo, era tudo pra sorrir sofrendo, sentado com a bunda no sofá de chumbo, por isso é melhor que vocês fiquem na escola, aqui dentro sim é lugar de gente”, ela dizia . Nossa escola tinha muitas brigas, ela não impedia a gente de brigar, desde que não fosse dentro da escola “é natural na idade de vocês que se troquem bofetadas, mas façam isso agora, enquanto a bofetada só machuca um pouco, porque se continuarem fazendo isso quando forem mais velhos, não vai ser bofetada, vai ter tiro e facada. Então briguem o que tiverem que brigar agora. Mas briguem a cem metros de distância daqui!”

Na saída do colégio o Rafael me empurrou em direção ao portão de ferro e eu revidei, puxando pelo braço da mochila eu o derrubei no chão e enchi a cara dele de porradas, amassei o rosto do pobre coitado contra o chão. Você não sabe, mas a sensação de socar o rosto de alguém é uma sensação maravilhosa, é a sensação de quem pode tudo, mas não se deve viciar nessa sensação.

Fazendo um parêntese, lembro de uma história que aconteceu lá em casa, minha irmã criava dois lagartos exatamente iguais, um dia um deles fugiu e passou a viver no quintal de casa enquanto o outro permaneceu no aquário. Por duas semanas o lagarto ficou desaparecido, mas um belo dia ela encontrou o lagarto foragido no quintal e o colocou de volta no aquário. A diferença básica entre os lagartos era a selvageria, a coragem, a agressividade. Quando jogavam um inseto no aquário, o lagarto do aquário esperava que o inseto passasse por perto para capturá-lo, o lagarto selvagem ia a caça, caminhando matreiro, espreitando a presa. Eu imagino o medo que aquele lagarto passou quando estava sozinho no quintal, depois de grande eu aprendí que a solidão e o isolamento podem ensinar um monte de coisas para a gente e uma delas é que agressividade não significa violência. No meu futuro, muitos anos depois da quinta série um professor da faculdade olhou para a minha prova corrigida e disse “Uma nota mediocre para um aluno mediocre”, eu poderia ter socado o rosto daquele homem, mas eu me calei e deixei que ele me encarasse como um aluno mediocre. Naquela mesma noite gastei horas pensando na sensação. Não era humilhação, mas eu torcia para que um dia eu surpreendesse aquele professor com algum ato de verdadeira importância. Uma prova de faculdade, uma derrota na vida não prova o valor de um homem. Foi o que pensei, se eu tivesse socado o rosto dele, ou ofendido sua integridade moral, por mais que eu saísse impune as consequências psicológicas seriam desastrosas, eu teria admitido a mediocridade, por causa de uma ridícula prova de faculdade.

Voltando à quinta série, decidimos deixar de brigar na porta de saída da escola por respeito à diretora. Quando me encontrei com o tal pirralho e nojento Rafael, havia uma pequena platéia para assistir a nossa briga. Todos da platéia eram os amigos repetentes do Rafael, marmanjos de 16 a 18 anos. Lembro quando ele começou a estralar os ombros em sinal de que já estava se preparando para a luta, eu o puxei pela camisa e soquei seu rosto já ferido. Achei ótima a forma como tirei aquele sorriso de esperto da cara dele. Os marmanjos deixaram que eu acertasse alguns bons murros até que me seguraram.
“Vamos fazer conforme as regras. Conte até 3 e no três lutem!”
Eles me seguraram com força, e contaram até três. Quando a contagem chegou ao fim o marmanjo que me segurava pelos ombros, me empurrou com força na direção do idiota Rafael, e ele acertou um murro em cheio no meu rosto. Minha visão se apagou e uma penumbra preta me desequilibrou. Eu caí de joelhos no chão e todos eles saíram abraçados e sorrindo. Eu voltei para casa humilhado, com os joelhos ralados e com um murro no meio da minha cara.

No outro dia de escola eles acreditavam que eu estaria tão moralmente rebaixado que poderiam me tratar como quisessem. O Rafael chegou em mim com um empurrão e eu disse “O que foi sua putinha?” (eu tinha treinado por horas na frente do espelho a forma como eu falaria com ele, mas as conversas nunca vão no rumo que a gente planeja). “Como é que é que você me chamou? Repete”, os amigos dele estavam atentos. Eu não tinha coragem de falar, mas eu disse “Você ouviu o que eu disse!”.
“Então repete que eu quero ver se você é homem!”
Eu estava com medo, admito, mas sem demonstrar eu simplesmente dei as costas e sai, eles me chamaram de covarde. Foi quando o Rafael disse “Eu sei onde é a sua casa! Eu posso te quebrar de porrada de novo a hora que eu quiser”.

Eu virei para ele com uma calma heróica e disse “Pode tentar quando quiser, mas da próxima vez que tentar é bom que você me mate, senão eu vou atrás de você, e vou cobrar vingança”. Ficaram em silêncio, até riram, mas não esconderam a preocupação.

Naquela noite eu dormí tão bem que você não pode me imaginar. Eu lembro que naquela época minha mãe ainda me obrigava a frequentar a igreja, e antes de dormir eu tinha feito uma oração. Deitado no travesseiro eu sorrí pro teto como se estivesse falando com deus, pisquei para ele num tom de camaradagem e pensei na coragem súbita, sabendo que ele poderia me entender eu disse “Valeu pela coragem, Amém”.

Um americano progressista

In jornalismo on Maio 13, 2008 at 2:58 am

Aí estava alguém decidido a acabar com a guerra do Vietnã. E ele seria eleito. Mas ele foi assassinado. Eu nunca me recuperei disso. Isso me fez sentir que há uma violência cega e imbecil nesse país que pode impedir qualquer coisa verdadeiramente iluminada e progressista. Bobby Kennedy era uma figura extraordinária. Eu releio seus discursos e é difícil acreditar, ele era um homem que falava sobre a insignificância do Produto Interno Bruto. O produto interno Bruto não diz nada sobre a força de nossas famílias, sobre a qualidade de nossa arte. Você consegue imaginar como alguém estava concorrendo para a presidência falando coisas como essa?

Mark Kurlansky, autor de “1968- O ano que abalou o mundo”, falando sobre Bobby Kennedy

Mulheres pagãs e a poesia

In Sem-categoria on Abril 27, 2008 at 3:38 pm


Um curta metragem essencialmente feminino e extremamente sensual, “Copo de Leite” é um poema visual. Flerta com o paganismo Celta com seus ritos realizados ao ar livre. São três mulheres conectadas pela música, pela água do mar, pela água doce e por um copo de leite. Todas se banham e se satisfazem dessa forma. O som do mar e da flauta, junto aos pensamentos inquietos são constantes, embrenhando-se aos ruídos urbanos, as três mulheres, em sua solidão, estão conectadas.

“O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em sí não existe”

COPO DE LEITE
Direção: William Cubits Capela
Elenco Hermila Guedes, Karen Black, Keira Myiata

Produção Sergio Oliveira, Elaine Olinda Soares Fotografia Jane Malaquias, Pedro Urano Roteiro Jura Direção de Arte Renata Pinheiro Montagem Karen Barros Música Bernardo Vieira Trilha Sonora Bernardo Vieira, Erasto Vasconcelos

ASSISTA O CURTA:
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=2617#

Longa de terror será lançado em Brasília

In Sem categoria on Abril 16, 2008 at 3:07 am


O Distrito Federal está vivendo um pesadelo, a cidade foi invadida por Zumbis, os responsáveis pela invasão são Tiago Belotti, na direção e Rodrigo Luis Martins na produção, e claro, uma horda de Zumbis brasilienses. O longa independente de terror “A Capital dos Mortos” será lançado no dia 2 de Maio em Brasília e percorrerá o Brasil em festivais e mostras de cinema.

O filme virou febre na cidade, febre no orkut e nos jornais, já foram publicadas várias matérias e entrevistas sobre o filme em jornais locais, no G1 (jornal online da Globo) e entrevistas feitas para uma radio da faculdade federal de Brasília. A seguir uma entrevista realizada por Kamila Pacheco, do jornal Na Prática, IESB, com Tiago Belotti e Rodrigo Luis Martins.

Uma profecia de Dom Bosco nunca antes revelada. Além de sonhar com a construção de Brasília, foi-lhe revelado que os humanos estavam prestes a serem testados, e que a nova capital seria o cenário desse teste. É a partir desse tema – ficcional – que o filme independente A Capital dos Mortos ganha corpo. Produzido por Rodrigo Luiz Martins e sob direção de Tiago Belotti, o filme ganha destaque por ser o primeiro longa-metragem sobre zumbis produzido no Centro-oeste. Desde 1992, Tiago tinha a idéia de fazer um filme desse sub-gênero e a idéia de fazer A Capital surgiu em 2006.

Os produtores audiovisuais contam como foi fundamental a colaboração voluntária do público, falam sobre o “repúdio” ao título de trash, sobre a inércia cultural que paira sobre Brasília, além da divergência entre os entrevistados sobre a possibilidade do filme parar na Internet.


E vocês consideram o filme como um terror trash?

Tiago – Trash é tão ruim que fica bom. A gente não queria fazer um filme trash, tivemos vários cuidados, como a busca do elenco de atores profissionais. Alguns podem classificar o filme como trash, pelo fato de ser independente. Mas A Capital dos Mortos é um filme ambicioso, com vários ângulos, diálogos elaborados, mudança de cenários – coisa que não ocorre no trash. Não acho que A Capital é trash.

E a divulgação das filmagens, se deu de que forma?

Rodrigo – O Orkut e o MSN foram os principais canais para divulgar as filmagens. Veio gente até de Santos para participar. A divulgação aconteceu no boca-a-boca e quem participou está ansioso para ver o resultado desse projeto totalmente independente. Na imprensa, foi mais noticiado no Sudeste que em Brasília. Quando A Capital começou a se popularizar, várias outras produções apareceram. É tudo por causa da Internet.

E se o filme parar na Internet, nos sites de downloads ou no You Tube?

Tiago – Quem quiser prestigiar o filme, deve comprar o DVD. Mas não adianta se preocupar com o inevitável. Se o filme se der bem, vamos investir nos próximos filmes, pois a idéia é fazer uma trilogia com A Capital. O filme parar na Internet é algo que não tem como reverter, é esperar pra ver.

Rodrigo – Se tiver o interesse de piratear é um indicativo de que o filme é interessante e acaba por ter uma divulgação maior. O interesse da pessoa já é valido, que é o que leva a pessoa a baixar da Internet. Nós temos a pretensão de legendar o filme e mandar para o exterior. Quanto mais gente do mundo assistir, melhor.

O filme se passa em Brasília, palco de vários escândalos políticos. Existe a tentativa de passar alguma mensagem ou a finalidade do filme é entreter?

Tiago – Brasília tem a melhor fotografia do Brasil para cinema. É uma cidade planejada, ampla. É um filme de zumbis brasiliense com ação, suspense e terror. Quem assistir vai perceber que o filme faz leves sátiras e que uma mensagem que pode ser tirada do filme é que a paciência com o homem terminou e agora ele deverá sofrer as conseqüências. Existe uma mistura de fatores reais com ficção e dentro desse enredo, Brasília seria uma cidade construída com a função de absolver ou castigar os homens.

Rodrigo – Fazem parte da mitologia de Brasília as profecias de Dom Bosco. E o filme buscou fundamentar a história dentro dessas profecias. A mitologia, nesse caso, é um elemento essencial do filme.


Como foi essa colaboração do público durante as filmagens?

Tiago – A maioria era de desconhecidos. Algumas pessoas ajudaram na produção do filme, na maquiagem, teve gente que se machucou e se entregava de verdade ao projeto. A banda de death metal Device cedeu 4 músicas, o Murilo Ribeiro, maquiador, ajudou nas próteses, o Renan Fersy ajudou na trilha sonora. E todas essas pessoas foram voluntárias. Muitos eram amigos, fãs de zumbi, apreciadores de cinema. Essas pessoas queriam fazer parte de uma coisa inédita e por isso rolou um esforço coletivo.

Rodrigo – Os figurantes apareciam em 15, 20, 30 pessoas. Na primeira filmagem, apareceram mais de 40 zumbis. Isso mostra que existe uma demanda por esse tipo de filme. Faltam produtores para esse gênero. Em Brasília eu sinto falta dessa produção. O Afonso Brazza é uma referência em ficção que sofria dos mesmos problemas que a gente sofre: falta de lugar para exibir, fazia filme com baixo orçamento, independentes. Os figurantes dos filmes do Brazza ficaram perdidos depois que ele morreu. O cinema dele aproximava a arte do cinema do povo e talvez as produções tragam essa proximidade com a população.

O Mágico moderno do cinema

In Sem categoria on Abril 16, 2008 at 1:45 am

O primeiro curta metragem (oficial) do cineasta e diretor de clipes francês Michel Gondry se chama “A carta” (La lettre). Gondry nasceu em Versailles, na França, e tem uma mente brilhante, seus clipes tornaram-se clássicos da MTV, e os comerciais são inesquecíveis por suas idéias inusitadas e criativas de uma engenhosidade invejável. Quando se uniu ao outro genial Charlie Kaufman, realizou o filme que o tornou famoso, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, mas antes disso já dirigia pequenas pérolas em videoclipes para artistas diversos, entre eles Björk, Chemical Brothers, White Stripes, Beck, entre outros.

Ao assistir um DVD coletânea dos trabalhos comerciais e não comerciais de Gondry, é possível se ter uma noção de como funciona sua mente, ele visualiza esquemas e transforma esses esquemas em decupagem para por em prática. Os resultados são manipulações impressionantes das possibilidades cinematográficas, em efeitos visuais, falsa perspectiva, truques de câmera, são visualmente magníficos. A imagem, para Gondry, é fundamental. Gondry é o mágico moderno do cinema, engana os olhos.

La Lettre é um curta pelo qual tenho muito apreço, trata-se de uma história simples, despretensiosa, não abusa de efeitos visuais, ainda assim a imagem é um elemento fundamental. A espontaneidade dos atores de Gondry se deve a sua capacidade, como diretor de atores de estar aberto à improvisos e de buscar a naturalidade. Apesar de seus complexos esquemas, há uma flexibilidade para idéias surgidas no momento da produção. “É preciso estar aberto para captar coisas da vida real, e entre as tomadas, quando a câmera está ligada, é quando os atores são mais eles mesmos”, diz Gondry em uma entrevista. Apesar da improvisação, Gondry é um old school no cinema, desde pequeno filmava com uma câmera Super 8, dada pelos pais, desse aprendizado ganhou grande prática e familiaridade com as possibilidades do aparelho. Muito diferente do cinema digital, que te dá a liberdade de filmar o que se quiser a hora que quiser, filmando em película há sempre uma responsabilidade para se captar o momento certo.

La Lettre é um curta sobre Stephane, um garoto tímido que vive provavelmente o seu primeiro amor, e talvez por causa disso, um amor completamente platônico. O lado fantástico da direção de Gondry entra no filme como o sonho metafórico de Stephane, no qual ele se vê obrigado a tomar alguma atitude para com Aurelie, a garota de quem ele gosta. Apesar do sentimento de inadequação, ele é pressionado pelo irmão Jerome e pelos outros “mais velhos” a tomar uma atitude. É um curta bonito, recheado de momentos de silêncio e diálogos naturais e triviais como devem ser. É um curta sobre a juventude, muito possivelmente uma autobiografia de um adulto que ainda pensa com a inexperiência de uma criança que acaba de ingressar nos jogos do mundo adulto.

O que mais me chama mais atenção na obra de Gondry é a sua capacidade de transformar situações completamente absurdas, que deveriam soar esdrúxulas, em poesia verdadeira, confirmo minha tese, de que Gondry pensa como uma criança, e daí o motivo de sua assinatura inconfundível.

Assista o curta metragem La Lettre do diretor Michel Gondry

Sangria desatada

In ficção on Abril 13, 2008 at 6:42 am

Vivo no infindo impasse entre a maravilha e o terror de ser um individuo. Há vezes em que a angústia vêm sem dizer. Quando nos falta fé, ficamos vulneráveis.

Quando cocei o nariz no trabalho comecei a sangrar loucamente. Pingou na mesa branquinha e me assustei quando ví que tava saindo do nariz, passei o dedo por cima e ví o mel vermelho na minha mão, era pouco sangue, mas brotava com uma facilidade que me deu medo porque lembrei de uma história que minha mãe sempre contava.

Era uma menina, do bairro da minha mãe quando era criança. Vizinha eu acho. A menina teve uma espinha bem no nariz, ela coçou e começou a sair sangue. Não tinha hospital por perto e a mãe dela não se preocupou em ir ao médico, achou que era um sanguinho a toa. O sangramento não parava. Ela manteve o nariz sangrando, só estancando com papel. Vinte e quatro horas depois a menina estava morta. Minha mãe, que era adolescente ficou sabendo disso em casa e cresceu com essa história. Eu achava que ela contava isso só pra impressionar, pra que eu não coçasse o nariz.

Fui ao banheiro tentando chamar o mínimo de atenção, mas só a forma brusca como me levantei foi o suficiente pra que ohassem na minha direção, mas ninguém chegou a ver o sangue. Lavei na pia, me olhei no espelho, e uma gota rapidamente saia do nariz e pingava no branco límpido do mármore. Passei papel, deixei o papel seco em cima do sangramento. Tirava e o sangue ainda brotando. Saí.
__Meu nariz tá sangrando. Não quer parar de sangrar.
__Você já teve isso antes? – Perguntou a patroa.
__Não. Nunca.
__Coloca gelo. Tem na sala alí do lado.

Os outros funcionários estavam me olhando assustados. Peguei o gelo, com uma certa dificuldade, acho que até quebrei o plástico da geladeira. Botei o gelo no nariz e o sangue pingando junto com a água que derretia do gelo. Tirei o gelo. Mais sangue.

Descí do trabalho. Atravessei a rua e entrei no shopping tampando o nariz com um papel branco, empapuçado de sangue, passei por toda aquela gente, deviam achar que eu tinha levado um murro. Entrei na farmácia. Esperei uma pequena fila ser atendida, segurando o papel no meu nariz.
__Meu nariz tá sangrando. Vocês fazem curativo?
__Não, mas a brigada dos bombeiros no segundo andar faz.

Ví que o bandaid era muito caro, resolví subir. Chegando na brigada, a porta estava trancada. Bati uma vez. Demorou um pouco, destrancaram a porta por dentro. Assim que entrei, uma cena um tanto estranha, uma garota, bem bonita por sinal, estava sentada na mesa, ela tinha um decote imenso, nem levantou o rosto, manteve o olhar como estava. As mãos dela estavam estendidas sobre a mesa, do outro lado da mesa um bombeiro acariciava os pulsos dela. A sala tinha um clima pesado, calorento. Entrei na sala e expliquei a situação.
__Lima. Ainda tem bandaid aí? – Disse o bombeiro levantando a voz sobre a cortina azul.
__Vou olhar. – Respondeu o tal do lima, do outro lado da sala.

Fiquei olhando para o bombeiro que conversava com a menina. Dois homens trancados dentro de uma sala com uma mulher que mais parece um monumento ao sexo, no mínimo suspeito. Pela forma como eles estão, a garota deve ser namorada do baixinho, mas e o Lima? Será que ele fica com as casquinhas? Ou ele deixa a menina namorar com o colega enquanto faz vista grossa? De tanto que reparei na situação, ligeiramente constrangedora, o bombeiro baixinho que estava com a menina me falou:
__Vai alí atrás que ele vai fazer um curativo nisso aí.

Obedecí. O lima era um bombeiro de uns dois metros de altura. “Essa menina aí… vai levar a dupla…”, mas ao mesmo tempo que eu queria pensar com humor, eu pensava também com agonia. Bate um desespero quando você não consegue parar de sangrar, você sente que está indo embora. Lembro de uma vez, quando ví um cara baleado. A camisa branca dele se enegreceu com o vermelho noturno, fiquei sabendo que ele morreu. O sangue sai, a gente vai embora.

Passou alcool na ponta de um algodão.
__Isso aí que você está com sangue demais. Tá na hora de ir ao hemocentro.
__Pois é. Mas to é preocupado, porque não pára. Minha coagulação tá ruim.
__É assim mesmo. Mas olha, nós estamos sem bandaid, pressiona esse algodão contra o nariz e compra um na farmácia. Vai tirando os excessos de sangue e passa o bandaid por cima.
__Tá beleza.

Fui saindo da sala reparando na garota sozinha com os dois. Que clima tenso. Assim que saí, a porta se trancou atrás de mim. Descí a escada rolante, os consumidores passaram me observando com um algodão tampando o minúsculo ferimento do nariz do qual saia tanto sangue que já tingia o algodão. Que engraçado ser notado dessa forma. Lí uma entrevista com um antropólogo porto alegrense dizendo que os centros de convergência das cidades não eram mais as indústrias e sim os shoppings. Ele falava sobre o policentrismo.

O policentrismo significa que o consumo, a comunicação e também a cultura têm agora uma importância às vezes maior do que aquela da produção. E que, em particular o consumo, que é baseado sobre esse tipo de shopping-center, mas não somente shopping-centers, também parques temáticos, desenvolve um tipo de público que não é mais o público homogêneo, massificado, da era industrial. É um público muito mais pluralizado, ou podemos dizer, públicos. Esses públicos gostam de performar o lado do consumo. Então, o consumo, o shopping-center tem uma importância que mais ou menos é igual a que tinha a fábrica no passado.

Com o algodão sobre o nariz, reparando nos olhares suspeitos e curiosos, sentí-me como um forasteiro do policentro. Discordo desse filósofo, esse tal MASSIMO CANEVACCI, provavelmente ele é um classe média de pompa, por isso tem tanta tendência a pensar no shopping como centro de convergência, é lá que ele compra os seus pijamas. Para mim, shoppings tem mais o aspecto de matadouros hipnóticos. Você enfia sua cabeça numa loja e consome roupas e artigos diversos, sobe alguns andares carregado por um impulso misterioso consumista, olha algumas besteiras, chega no último andar e consome sua refeição. Seu dinheiro, como se fosse sua cabeça é decepado inutilmente. Eu fazia o caminho do posto, escapava ferido daquele centro, o sangue manchando o chão, marca simbólica de que se pode perder a vida para o consumismo. Prefiro pensar que as feiras, os centros comerciais ao ar livre são os verdadeiros policentros convergentes. Os bancos das praças lotados ao meio dia, as paradas de ônibus, as ruas repletas, a lanchonete da esquina. Lá você tem um céu sobre a sua cabeça, e quando dá tempo de parar, você discute, observa e transforma. No shopping tudo é concreto, tudo é feito com a intenção de prender o seu olhar, você fica perdido, não há pensamento sendo feito no shopping, no shopping tudo é produto pré fabricado, embalado, tudo tem um preço, até seus olhos e sua atenção.

Quando dei por mim já estava com um bandaid no nariz, o sangramento felizmente havia cessado e eu estava fora daquele matadouro, com uma boa desculpa para passear na rua e pensar com mais clareza “mas que dia burlesco”.

Fiz o sinal da cruz e voltei para a minha média vidinha, ostentava um ferimento.

In Sem categoria on Abril 8, 2008 at 5:27 pm

FESTIVAL INTERNACIONAL DE FILMES CURTÍSSIMOS
O Festival Internacional de Filmes Curtíssimos apresenta a seleção de uns cinqüenta filmes vindos de todo o mundo, todos seguindo a mesma regra: não podem ultrapassar três minutos (fora os créditos e título). Todos os gêneros estão presentes: ficção, animação, documentário, experimental. Um concentrado de inventividade e imaginação…
SITE DO FESTIVAL
http://www.filmescurtissimos.com/#
Enviem seus filmes, compareçam ao festival!
Quem tiver um curta de até 3 minutos, pode inscrevê-lo até o dia 24 de abril.
Todas as informações estão no site.

Como seria perfeito

In ficção on Abril 3, 2008 at 1:29 am

Descendente dos povos indígenas, ela era maravilhosa, tanto nos traços faciais quanto no corpo escultural

Como sempre, a maioria das minhas histórias brasilienses ocorrem no trajeto RODOVIÁRIA-CASA. Tinha bebido muita cerveja há uma hora atrás, pois esperava chegar a hora de uma festa que nem aconteceu. Resultado, esperei a toa, mas pelo menos bebí muita cerveja. É claro que eu não estava bêbado, o tempo me ensinou a calibrar a dosagem certa de cerveja para ficar apenas “medicado”. Eu estava com os músculos relaxados, sorriso fácil, mente paciente. O ônibus demorava para chegar quando ela apareceu com uma mini-saia, tão mini que era inevitável olha-la sem percorre-la pelas pernas. Fiquei na fila do ônibus, logo atrás dela, “vou arranjar um lugar para sentar bem do lado dessa garota”. A pele dela era morena jambo, traços faciais característicos dos povos indígenas, e as pernas descobertas tão lindas quanto se pode imaginar, ela tirava os pés do salto, estava inquieta.

Entrando no ônibus, não havia lugar do lado dela. Eu abrí minha revista e comecei a ler algo sobre a evolução das espécies segundo Darwin e outros desses loucos, uma matéria interessante, apontando sobre a forma como utilizaram as teorias Darwinianas como ideologia e pretexto para se cometer massacres genocidas, quando Darwin não apoiava nenhuma ligação de seus estudos científicos com a maldita velha cegueta, a ideologia. Um trecho da matéria me chamou a atenção:

“O macho pode multiplicar seus genes disseminando suas numerosas células sexuais a esmo, ao passo que a fêmea fica restrita a uma fecundação de cada vez. É como se os machos se especializassem em produzir filhotes, as fêmeas em garantir que eles sobrevivam. Richard Dawkings, o evolucionista, tentou realizar estudos de contabilidade evolutiva das espécies com simulações que chegaram aos seguintes resultados: Se 5/6 das fêmeas fossem tímidas e 5/8 dos machos fossem fiéis, esta espécie seria evolutivamente estável. Mais tarde, após numerosos estudos Dawkins reformulou seus pensamentos, “nenhum arranjo seria estável, as proporções flutuariam intermitentemente. O comportamento dos amantes oscila como a lua”, e acrescentou, “ninguém precisa de equações diferenciais para perceber isso”.”

Me sentindo na responsabilidade de macho da espécie, em busca da devida proliferação dos meus genes para evoluir e perdurar, puxei papo com a garota.

“Qual é seu nome?”
“Luciana… porque?” ela respondeu com timidez, o que é um bom sinal, em termos de visão evolutiva.
“Por nada, fiquei curioso. Mas me diz, você tem alguma ascendência Indígena?”

Ela estava meio desconfiada, mas respondeu:
“Porque?” Pequena pausa. A timidez deu lugar a um sorriso, ainda um pouco tímido, mas acolhedor. “Tenho sim, minha avó era India”
“E você é de Brasília?”
“Não. Sou de Maranhão.”

Apaixonei, adoro garotas de fora, de forma geral, o genes das brasilienses estão devidamente programados para a frescura, e à chatice. Eu, como bom procriador, pretendo disseminar meus genes buscando uma diversificação da espécie, missigenação é a chave da sobrevivência.

“E me diz… O que você faz no seu tempo livre aqui em Brasília?”

Ela já estava toda sorridente, era tão linda, eu fiquei reparando nos olhinhos dela.

“Só tenho tempo livre nos domingos, porque trabalho todos os dias, e no domingo eu cuido do meu filho”.

Opa.

“E você é solteira?”
“Não, sou casada.”

Opa.

Houve um longo silêncio. O desejo de procriação havia encontrado uma barreira e o silêncio foi a única resposta plausível que eu conseguí encontrar. Me recostei na minha cadeira, não sabia o que dizer.

“E aí? A curiosidade já passou?”
“Pra falar a verdade ainda não. Tenho muita curiosidade, mas você é casada, eu não posso ser muito curioso.”

Ela riu. Como gosto das garotas de sorriso fácil, se fosse uma brasiliense essa conversa nem teria acontecido. Então, apesar do entrave, eu me sentí feliz, e disse a ela

“Sabe o que seria perfeito?”
“…”
“Seria perfeito se você não fosse casada, e eu te perguntasse pra onde você vai hoje, e você me respondesse que vai para a casa da sua mãe, pois mora sozinha com ela, mas que só vai porque é obrigada, porque você teve uma briga com ela e nem queria voltar pra casa. E ai eu diria o seguinte, eu diria que não tem problema, pois se você quisesse você poderia dormir na minha casa numa boa, eu deixava você ligar para a sua mãe para avisar para ela. E aí, depois desse dia nós passariamos a frequentar um a casa do outro, e quando menos percebessemos, já estariamos namorando.”

Ela ficou surpresa olhando para mim, ela não sabia se devia rir e acabou ficando calada. Percebí que as outras pessoas do ônibus estavam olhando para mim, curiosos com a conversa, mas isso não me preocupou porque eu estava inspirado.

“Pena que as coisas não são mais perfeitas como a gente as vezes gostaria que fossem.”

Puxei a cordinha do ônibus e antes de descer, apertei a mão dela, estava suada de nervosismo. Eu descí do ônibus e fui para casa pensando no cinismo darwinista, e no quanto ele provavelmente deve estar certo com sua teoria evolutiva.
Procriemos.
O amor, se existisse, seria perfeito, mas ele é apenas uma desculpa delirante para a pesada verdade genética.
Perduremos.

Curta Superpoderes

In Sem categoria on Março 31, 2008 at 12:15 pm


A superprodução de um curta-metragem

Cinema é uma arte para super-heróis. Esse pensamento passou pela minha cabeça algumas vezes durante as gravações do meu curta-metragem mais recente, “Superpoderes”. O projeto, selecionado pelo Festival Cultura Inglesa, de quem recebeu patrocínio para ser realizado em mídia digital, contou com o apoio da Academia Internacional de Cinema.
Da AIC veio também boa parte da equipe, de diversas gerações dos programas anuais e intensivos. Uma grande vantagem, por serem pessoas que se conhecem e já trabalharam juntas em outros projetos. Da primeira turma de alunos formados pela AIC, eu (diretora e roteirista) e Janaina Assis (que irá se encarregar das animações e efeitos especiais). Da segunda turma, Tatiane Alencar (editora, agora fazendo seu trabalho na montagem do material recém-captado) e Mariá Gonçalves (responsável pelo som direto e posteriormente pela mixagem). Da terceira turma, Rodrigo Falcon (diretor de fotografia). E a diretora de arte (Sheila Zago), antiga coordenadora de comunicação da Academia Internacional de Cinema. O produtor (Thiago Daher) e a assistente de direção (minha irmã Karen Kreutz), ambos ex-alunos de cursos intensivos. Por fim, o ator protagonista (Victor Ribeiro), também aluno do programa anual de cinema e grande entusiasta da arte cinematográfica.
O roteiro foi inspirado em um conto do escritor britânico H.G. Wells e, seguindo um dos parâmetros do Festival Cultura Inglesa, voltado ao público jovem. “The Man Who Could Work Miracles” conta a história de George Fotheringay, um homem que não acredita em milagres até o momento em que começa a realizá-los. Meu curta-metragem aborda o universo fantástico do conto, mas trazendo o personagem ao século 21, na pele do office-boy Jorge, uma espécie de super-herói adolescente.
Ao descobrir que pode fazer coisas acontecerem apenas pelo poder da vontade, sua primeira reação é de descrença. Um pouco assustado, mas gradativamente animado com as possibilidades, Jorge tenta fazer bom uso de suas novas habilidades. Ele acaba percebendo que lidar com o poder não é tão simples quanto parece.
Para essa livre adaptação, usei como referência visual o universo das histórias em quadrinhos e dos desenhos animados. O mundo quase surreal do protagonista é retratado num tom predominantemente sépia, mas ganha cores fortes na medida em que os poderes do herói começam a se manifestar. Com bom humor, as situações do roteiro se encadeiam num crescendo da euforia de Jorge e seus amigos até emergir uma questão fundamental: de que vale o poder quando não se sabe o que fazer com ele?
Transformar em imagens o que parece tão simples no papel foi meu maior desafio. Foram cinco dias de trabalho árduo, após quase um mês de pré-produção (período no qual foram realizados castings, visitas a locações, reuniões com a equipe técnica, escolha do equipamento e da câmera – uma Panasonic DVX 100 cedida pela AIC, e acordos de parcerias/apoios para o filme). Mas não importa como sejam os preparativos, a execução é sempre muito mais intensa.
No primeiro dia de gravação, cenas em um bar na região da Vila Leopoldina (Atol Bar). Atrasos para retirada dos equipamentos e montagem da luz, muitos planos complexos com travelling, diversos atores e figurantes. Necessidade de adaptar o cronograma. No dia seguinte, ao contrário do planejado, teríamos que voltar para lá.
Segundo dia, garoa e um resfriado que não poderia ser mais inconveniente. Mais cenas no bar, e infelizmente não conseguimos captar todas elas. Uma das atrizes não poderia comparecer. Mas a manhã foi produtiva – em quantidade, gravamos o dobro do que havia sido feito no dia anterior, primeiro pela facilidade dos planos e segundo pelo maior entrosamento da equipe. No começo sempre é preciso “esquentar os motores”, mesmo quando os profissionais envolvidos já se conhecem.
Ainda no segundo dia, a equipe se deslocou do bar para a próxima locação no período da tarde – um apartamento na Rua Augusta. Ótimo para a direção de arte, mas de dimensões um pouco limitadas para a fotografia. Uma parte dos equipamentos foi para lá, outra teve que ir direto para a locação do dia seguinte. Todos conseguiram se espremer no pequeno espaço do apartamento e realizar um bom trabalho, o que parece regra quando se trata de cinema: quanto mais difíceis as circunstâncias ou situações, mais as pessoas dão de si mesmas para que o esforço valha a pena.
Acabamos tarde no segundo dia, começamos cedo no terceiro. A locação, uma casa com diversas obras de arte e objetos que eu temia serem danificados. Felizmente, a equipe tomou todos os cuidados possíveis nesse sentido. Infelizmente, a fiação elétrica antiga da casa fez com que ficássemos sem luz em duas ocasiões, causando um temor ainda maior de que não pudéssemos completar a programação do dia. Anoitecia quando saímos de lá, com um peso a menos sobre os ombros e um excelente material na fita.
O quarto dia das gravações seria somente de externas. Garoa fina e frio em São Paulo quando saímos de casa, eu e boa parte da equipe que se hospedou comigo. Encontramos o restante da equipe e o elenco na frente da Academia Internacional de Cinema, e foi onde montamos nossa base de espera. A chuva precisava parar, pelo menos um pouco, ou diminuir de intensidade. Gravamos uma cena, esperamos mais um pouco, fomos para baixo do Minhocão e gravamos outra, enquanto ainda garoava. Voltamos para Higienópolis e o tempo chuvoso finalmente deu uma trégua. Terminamos tudo o que tínhamos planejado no fim da tarde. Aproveitamos o tempo “livre” para resolver problemas de produção e principalmente prever os que ainda surgiriam, durante a pós-produção.
O quinto e último dia no set teve um sabor agridoce. E já começou com imprevistos. Era um domingo, trânsito calmo, mas uma ponte de acesso à região do bar (onde gravaríamos as derradeiras cenas que faltavam) estava bloqueada. Pegamos outro caminho, atrasamos um pouco e depois compensamos trabalhando mais rápido. As cenas foram externas, na frente do bar (fachada e rua). O tempo colaborou, tínhamos tudo pronto ao meio-dia, corremos para a locação seguinte.
Mais uma vez na Academia Internacional de Cinema, mas agora dentro do prédio, que usaríamos como cenário de um bingo/cassino. Enquanto a equipe de arte preparava os objetos de cena e figurinos, eu gravava alguns planos na porta de entrada com a fotografia, som e atores. Quando passamos para as internas, a tarde já chegava ao fim e foi preciso adaptar muito de minha decupagem para o que poderíamos executar naquele momento. Os últimos planos do dia, e também do filme (ou, como falamos de brincadeira, “take embora”), foram demorados e desgastantes, até porque todos já estavam bastante cansados depois de quase uma semana imersos na captação das imagens.
Mas fechamos as gravações. Alguns membros da equipe, que não moravam em São Paulo, foram embora ainda naquele dia. O clima de despedida se estendeu também às pessoas, causou uma certa depressão pós-filme. Nada que as preocupações referentes à devolução dos equipamentos não pudessem me fazer esquecer. Além disso, ainda tínhamos que prestar contas com a Cultura Inglesa, montar as imagens capturadas e finalizar da melhor forma para que o trabalho estivesse completo.
Atualmente, o “Superpoderes” encontra-se em fase de edição. Em breve teremos o primeiro corte, depois será feita a mixagem de som, inserção das animações e efeitos especiais, criação de uma trilha sonora original. Entregaremos o DVD à coordenação do Festival até o final de abril, e a exibição do curta acontecerá às 21h do dia 6 de maio, na sede da Cultura Inglesa em São Paulo (Rua Ferreira de Araújo, 741, Pinheiros).
Sob o ponto de vista da direção, percebi que ainda estou aprendendo. É importante ter conhecimento e experiências anteriores, o que não me faltou enquanto estudei cinema na AIC (e foi o que me ajudou quando as coisas no set não aconteceram conforme o planejado). Também é importante a escolha da equipe, o que aconteceu de forma natural pelo networking que eu já havia formado, e resultou em uma boa execução do que eu imaginei durante a criação do roteiro. Mas a coisa mais importante talvez seja simplesmente usar os erros e problemas como uma forma de crescer na profissão, não desistir no meio do caminho, ter ânimo para continuar até o final. E só descansar quando o filme estiver pronto, no DVD.
Para quem ainda está em início de carreira, essa é a parte que exige mais esforço, mas também a que trará maiores recompensas futuras. Basta perceber que hoje em dia o cinema está ao alcance de qualquer um que possua criatividade e força de vontade. Nem é preciso ter superpoderes para conseguir… mas até que ajudaria um pouco se a gente tivesse.

A rapsódia do vento

In ficção on Março 25, 2008 at 6:23 am

Uma ode ao vento
Zé Almeida era o chefe do escritório do décimo oitavo andar do edifício. “Mantenham as janelas fechadas”, uma de suas principais recomendações, o sistema imunológico de Zé Almeida é tão forte quanto o seu caráter, um golpe de vento e já se preocupa com pneumonia. Zé foi sempre assim, o chefe chato do décimo oitavo andar, máu hálito, falta de autoconfiança e o péssimo hábito de destratar as outras pessoas. Falavam pelos corredores que ele nunca teve uma mulher, mas a verdade é que ele teve algumas putas, mas a primeira de todas foi a força.

Naquela manhã, um subalterno de tendências anarquistas gastou a manhã toda escrevendo com letras recortadas de revista um poema subversivo. O poema não tinha rimas e o título era “Abram as janelas”. O poema abria com uma introdução, foi xerocado e colado ao lado de cada uma das janelas.

“O velho Baumgartne, meu avô, natural da Austría escreveu, entre várias coisas, um poema sobre os perigos de uma janela fechada. Crescí ouvindo esse poema, sem entender o que significava, mas gostava da sua sonoridade, da forma como ele rimava e da curiosa fonética alemã, tão aspera, mas ainda assim tão bonita. Mesmo sem entender nada, sempre que terminava de declamar o poema, meu avô dizia em português, mantenha abertas as janelas da sua vida. Antes de morrer eu pedí que me traduzísse, linha por linha, para o português, infelizmente o poema veio sem rimas, mas dizia mais ou menos o seguinte:

“Invisível vem o rio. A pequena semente titubeia no alpendre pede para cair. Vem o rio e derruba, traz pra baixo e voa longe, massageia, sacodindo a frágil essência, e enterra com cuidado. Derruba o chapéu. Engana o guardachuva. Do chão, brota cuidadoso, um pedaço da flor. Este rio que recobre, que envolve, precisa de espaço pra correr, é um rio, atravessando o corpo meu e o corpo seu, é invisível quando corre e não existe quando pára. É um mistério, sopro de vida, não se vê. É um rio invisível. O rio corre e serpenteia nos cabelos da ninfeta. O rio empurra, balança a placa, flamula a roupa, empina a pipa, tonteia o falcão e no fim vira tufão, é um rio, de tão forte esse rio, quando passa assusta, levanta a saia. Quando passa por dentro da janela, procura saída na porta ou chaminé, se não há brecha, então pobre do rio, se represa e desmancha, rio nenhum nasceu para ser lago. Quem tem medo de frio não deixa o rio entrar, não deixa o rio sair, nesse rio parado, não vive peixe ou passarinho, só tem poeira velha.”

Zé Almeida, nem precisava dizer, quando viu os poemas nas janelas se enfureceu, arrancou todos os papéis e fez sermão. “o espírito de equipe está emperrado nessa empresa! Isso é uma sabotagem, quando descobrir quem fez isso eu ponho no olho da rua” Foi isso que ele disse. Um dos funcionários questionou “porque não podemos abrir a janela?”. “Mas para que janela se temos ar condicionado?”. “Se quer espírito de equipe”, pensou o neto do Austriaco, “deixe que o vento entre. É ele quem fica entre nós. É o vento quem nos une, quem nos entrelaça. Nenhum homem é uma ilha”. A alma é um sopro, não se entende a alma de alguns mas pode-se senti-la passar, o sopro do rio pelos pêlos eriçados. Se a alma é um sopro, o espírito de equipe é um sopro coletivo, gera vento, cria rios, e rios não ficam represados em escritórios, rios precisam de janelas abertas. São os rios invisíveis que trasnportam a liberdade, sem rios caudalosos, o naufrágio é o final.

Após o longo sermão, no qual Zé Almeida muito falava, e os funcionários apenas escutavam, foram todos juntos para o elevador. Sem cochichos pois o chefe estava perto. Algum gripado e espirrou. O espirro pairou e quando a porta se abriu, o vento carregou a umidade viral para a faringe do Zé Almeida, que chegou em casa com as janelas fechadas respirou o ar viciado de sua casa poeirenta e solitária. Nenhuma boa mulher aguentaria viver alí dentro com as janelas fechadas. Zé Almeida se masturbava muito, as vezes contratava algumas putas e conservava as janelas fechadas para manter o cheiro de sexo do lado de dentro do quarto. O cheiro durava até apodrecer, e impregnava a pele do Zé Almeida.

No outro dia trovoava. O nariz de Zé estava cheio de meleca seca e a garganta de catarro. Ardendo com a passagem da saliva. O vento lá fora trepidava, carregava os fios, ameaçou faltar luz. A chuva soando forte. Zé Almeida saiu de casa atrasado, atravessou o percurso diário, parei em frente o semáforo, percebeu a confusão, carros desordenados. Os semáforos sem sinalização, piscavam em amarelo constante, tudo isso porque o vento carregou uma nuvem cheia de água que maltratou a estação de energia, que por sua vez desestabilizou toda a cidade informatizada, mesmo com janelas fechadas os computadores encheram de água, e não havia por onde sair. Água represada.

Zé Almeida atravessou a pista, os carros estavam loucos, por causa dos sinais que estavam loucos, por culpa da central que estava louca, por culpa da chuva que estava louca, por culpa do vento, que afirmou em trovoadas, que era o dono da razão.
O atropelamento de Zé Almeida na Avenida Principal não pode ser evitado.
Naquele dia todas as janelas do décimo oitavo andar do amanheceram abertas pela força do rio invisível. Foi varrida a poeira e o mal humor. Ficaram boatos de que Zé Almeida não teve forças para proferir sua última palavra antes de morrer, só fez uma coisa, soprou.

Caderninho

In ficção on Março 24, 2008 at 5:16 am

Perdi o caderninho
Foi sumiço que levou
Tão bem foi escondido
No limbo se atracou

Aonde estará o caderno?
Terá alguém o roubado?
E fúteis escritos anotado?
Ai do caderninho, sindo tanto

Havia escrito um poeminha
Mas não quis que ela lesse
Trancafiei intimamente, selei
Ela veio, não leu. Nem eu

Aonde estaria o caderninho?
Quantas letras desperdiçadas
Quantas lembranças no oblívio
Perder a memória é perder a senha

Revirei o quarto, tudo no chão
Escancarei gaveta a gaveta
Arrombei os outros quartos
Dedilhei palavras chave

Tantas páginas lhe faltavam
Me dei por vencido então
Com desapego eu aceitei
O triste fim do caderninho

Foram-se as noites
E logo após um banho
Bem no meio das cuecas
Apanhei-te cadernhinho

Diamante e ouro

In ficção on Março 18, 2008 at 12:50 am

Inspirado pela música Diamond and Gold de Tom Waits

Um…
dois…
três…
Um…
dois…
três…
um…
Cavando e cavando
cavando e cavando
um…
dois…

A arma de Murilo Estorpenico apontada sincera e tremulamente hesitante para a frágil nuca do pobre Lirinha escavador. E lirinha cavando e cavando. Suor escorre às testas de ambos os homens. Uma gota desliza cuidadosa pela fronte direita do rosto enrugado de Murilo, aguardando a delimitação da cova. Várias gotas cachoeiram da testa de lirinha…
cavando…
cavando…

Murilo, equipado com seu guardachuva, terno de linho, está elegantemente posicionado, um dos braços estendidos, o dedo no gatilho. As duas bolsas no chão.
um…
dois…
Cavando e cavando
Cavando e cavando

A pá escava e retira a areia do buraco, abrindo o inevitável caminho do homem, a cova. O buraco sempre esteve alí, só foi necessário que alguém tirasse de dentro toda a terra. Foi a pá que, cavando, tratou de concretizar o potencial buraco no inevitável caminho do homem.

um…
dois…
três…
Sete palmos completos. Lirinha descansa sobre a pá, limpa com a mão a água da testa, desidratação.

Blam. Dispara a pistola de murilo. Os miolos de Lirinha voam pelo ar. Lirinha e a pá caem juntos no chão, quase abraçados, mas a cova ainda está vazia.

Murilo recolhe as duas sacolas, diamante e ouro. Pesadas sacolas, o fardo da vida, a riqueza material.

Murilo posiciona-se em frente a cova cavada pelo defundo Lirinha. Aponta a arma para a própria cabeça.

um…
dois..
blam…

Murilo estira-se de botas batidas, corpo rijo, olhos fechados, testa furada.
Terno de linho.
Diamante e ouro.
A cova ocupada.

A entrevista que não fiz

In ficção on Março 13, 2008 at 1:42 am

Toda vez que essa pessoa passa eu tenho mil perguntas a fazer, mas não é assim que funciona, certas perguntas nunca serão feitas. Porém a ficção anda comigo.

Você lembra de tudo?
Lembro sim, mas é como se eu não estivesse lá na hora. Eu lembro de cada detalhe, mas não parecia que estava fazendo aquilo, é como se estivesse desligado.

Teve algum prazer?
Não. Não foi prazer, eu não tava sentindo nada. Não. Tava não. Eu gostava dela, eu ainda gosto, como eu gostaria de fazer isso? Não, não, não teve nada disso.

E como você fez?
Eu estrangulei ela com as mãos, apertei a traqueia dela, senti um ossinho estralar no meu pescoço e ela ficou toda mole no meu braço, eu deixei ela cair com cuidado pra não se machucar, mas ela já tava morta. Eu deitei e fiquei um tempão olhando pro teto, a janela tava aberta e a brisa tava boa.

Você sente remorso?
Não sei distinguir o que é isso. É que nem queimação de estomago, todo mundo fala que sente, e tem remédios pra isso, mas se eu sentisse eu nem saberia dizer o que é, não sei dizer qual a diferença entre uma queimação de estômago e outra dor de estomago qualquer. Os meus sentimentos são confusos assim, eu não sei a diferença entre o remorso e outra emoção qualquer, é tudo embaralhado.

No outro dia após o crime ele tentou fugir, tentou escapar da cidade, pelo que eu soube o pai deu uma ajuda, mas demorou demais, foi pego quando estava cruzando a entrada do próximo estado. Foi preso, dentro da cadeia não consigo imaginar o que pode ter acontecido a ele, mas esta história não é sobre o que se passou com ele, e sim sobre como ele se sente em relação ao mundo após ter cometido um ato tão digno de arrependimento, e tão distante da redenção, o homicídio.

Da última vez que o ví, ele estava na rodoviária às 11h da noite. O ônibus chegou e a fila se desfez em uma massa humana entupindo a porta de entrada do ônibus, um homem tomou as dores das pessoas que esperavam na fila e alinhou-se a porta, começou a gritar “ninguém vai furar fila comigo aqui não!” Ele olhou pra mim, “você não estava na fila! Você não vai entrar! Não vai!”, eu recuei, era muita gente, foi quando ví o cara, o tal, o “entrevistado”, era um dos mais calmos da fila, todos alvoroçados, menos ele, aliás, ele sempre teve a fama de calmo. Esperava diante da fila com uma paciência tremenda, eu pensava sobre o que aquele sujeito poderia estar pensando. Sobre a impossibilidade de tomar uma ação como qualquer outra pessoa, o simples pensamento de tomar uma atitude violenta diante de uma fila bagunçada pode ser suficiente para desencadear lembranças do dia maldito em que se atreveu a tocar no pescoço de sua namorada com um intuito sinistro. Aquele cara, ele não está mais na cadeia, está solto, mas solto não quer dizer livre, pois imagino que a luta interna sejá constante, para o resto de sua vida lembrará que a mulher que o amou não está mais nesse mundo, e a culpa é toda dele.

Entre os homens não há piedade.
Que Deus tenha.

Amiga dos EUA

In Sem-categoria on Março 12, 2008 at 6:20 pm

Uma amiga de internet com quem converso me pediu uma descrição
Escrevo em português, mas não respeito a gramática
Moro com meus pais, mas gosto mesmo é de morar só
Leve inclinação anarquista, mas tenho personalidade autoritária
Eu tenho 26, mas todo mundo acha que tenho 20.
Morei lá no Paraná, em Curitiba, por um ano, depois morei em São Paulo mais um ano, mas sou Brasiliense mesmo.
1,83m
Moreno claro, se eu ficar nú na frente de um papel pardo, fico camuflado.
Tambem queria saber de música, mas não sei, até toco um pandeiro e finjo que toco gaita, mas não engano muita gente.
Não sou pai. Rss Sou solteiro de nascença.
Também gosto de sol, mas nesse exato momento que estou te escrevendo o céu tá cinza, chovendo um pouquinho e meus pés estão molhados.

Em busca do banal

In ficção on Março 10, 2008 at 8:29 pm

Tem um banquinho logo ali, vou sentar e prosear

“Não tem nada acontecendo. Não to conseguindo escrever. A impressão que me dá é que o curso de jornalismo tá me deixando com o texto muito metódico” foi o que Jonas estava pensando, sentado em um banquinho da praça do parque da cidade de Brasília.

Ele levantou a cabeça e observou a montanha russa descendo vertiginosamente em direção a pequena quase morte do susto da queda, passageiros gritavam desesperados para no fim entregarem-se ao marasmo da vida do lado de fora dos trilhos. “Quando a gente tá mais seguro nessa vida, aí é que a gente vê como é bom passar medo, perigo e borrar as calças de medo” Jonas estava pensando bastante hoje, mas o quadro da casa dele estava vazio, nem uma pincelada, e eram preciso muitas destas para botar algo na tela, algo que ele pudesse ganhar alguns trocados vendendo na torre de TV.

“Diabo de crise criativa” uma moça passando deixou cair um pedaço de pano, tava molhado o pano e a maquiagem no rosto da moça manchada, “o que será que aconteceu”. Esse porra desse jonas não sabia mais imaginar nem criar bosta nenhuma, só observar.

Jonas agora tinha um papel diferente no mundo, não era mais criar acontecimentos vertiginosos e realizar descidas constantes na montanha Russa, ele tornara-se um fotografo da vida, buscava agora os momentos banais e simples pós montanha russa, e se reparar existem muitos, veja só, a menina que gritava, agora vomita. O garoto que jogou um cuspe pro alto agora foi comer algodão doce. Um monte de coisas acontecendo, a caneta de Jonas já não inventa mais nada, copia e cola, copia e cola, copia e cola. E os momentos mais impressionantes são aqueles próximos do chão, bem longe da montanha russa.

Excelsa morada (1/2)

In ficção on Março 9, 2008 at 9:39 pm

Primeira parte de um antigo conto

Você acorda encostado na quina da parede, sentado. Está usando uma bela calça social e um terno justo ao seu corpo. Suas mãos revestidas com luvas de pano branco e os pés calçados com sapatos caros de bico quadrado. Não entende porque está ali, não lembra seu nome e não tem a mínima informação a seu respeito.
Essa cena lhe parece familiar, no entanto é como se fosse produto de um sonho. O problema é que você nem sequer sabe se existia até minutos antes deste momento. Você se levanta com certa dificuldade, seus músculos estão doloridos como se não se movessem há muito tempo. Seu pescoço dói e as pontas de seus dedos estão pétreas, os olhos custam a se acostumar com a luz da sala.
As paredes da casa são cor-de-rosa, de um plástico resistente, no entanto são finas, seria possível ouvir o que se passa do outro lado, se não houvesse o mais absoluto silêncio. Não existem móveis na sala, somente uma escada, também de plástico. Você pode subir para o próximo andar.
Um porão cor de rosa, você ri, é tudo tão perfeito… e tão falso. Você pensa se aqui as pessoas serão feitas de plástico também, com suas belas aparências, máscaras de plástico. Existe essência sobre o plástico, ou serão todas ocas? Como bonecos?
Você sobe as escadas até o próximo andar, plástico e plástico por todos os lados. O papel de parede é de um adesivo vagabundo, imita a mobília da casa, bidimensional. O cor-de-rosa fino e infinito, super resistente, ânsia de vômito.
Você investiga algumas salas, janelas escuras. Uma misteriosa névoa silenciosa envolve toda a casa, bloqueia as janelas. A frágil porta de entrada está trancada, nem se move. Você se senta em um pequeno sofá de plástico da sala de estar, desproporcional ao seu tamanho, mas suficiente ao seu cansaço.
Como você veio parar aqui? – que estranho referir-se a si mesmo em terceira pessoa.
De onde veio, porque está aqui? Terá alguém lhe empurrado neste maldito lugar com algum propósito? O que há para se fazer? Quais são os seus objetivos aqui? É preciso ficar ou insistir uma saída na porta?
Apesar da familiaridade, sua memória não colabora. Você está completamente esquecido. Se alguém lhe deixou aqui, este alguém não se importa com você. Mas será realmente que “alguém” lhe deixou por aqui? Talvez você tenha chegado por engano. Por acaso.
Big Bang.
As diversas hipóteses lhe dão tempo para descansar o corpo, mas a mente se alardeia. Ficar parado não lhe levará a lugar nenhum, mas apesar de tudo estes pensamentos lhe motivam. Sugerem um objetivo. Acusam a filosofia de doença, uma infindável busca por respostas que se multiplicam em novas perguntas, porém, o fato de erguerem você de um sofá plastificado para encontrar estas respostas já é um bom motivo para se filosofar, talvez a filosofia não valha pelo seu objetivo, mas pela vontade que elas podem criar na alma de um indivíduo, aliás, pela alma que a filosofia lhe cede, a troco da busca. A força de vontade a troco da busca. Da busca sem fim e sem significado. A falta de significado em sua busca não o assusta, não há significado algum em ser o que quer que se seja. Não se pode desprezar a vida baseado no argumento de que ela não possui sentido, seria subordina-la a um conceito humano menor que a própria vida, a razão.

Os dias se passam, o silêncio é propício a evolução de seus pensamentos, às novas perguntas que lhe surgem, e a loucura que a inexistência de respostas podem causar.
Dois dias depois e você está morrendo de fome. É necessário explorar partes da casa que ainda não ousou explorar. Terá que subir a sinistra escada de plástico revestida com papel adesivo de estampa de madeira para descobrir algo por lá.

São diversos corredores, mobília falsa, papel de parede, lugares fechados. Um belo jardim de flores sem vida. Você precisa de comida, mas teme que seja falsa também.
Você se lembra das frutas de plástico, daquelas que as donas de casa usam para enfeitar a mesa de jantar. O motivo? Elas não morrem, não apodrecem, mas também não alimentam. Você costuma chamá-las de pequenas hipocrisias. É assim que começa a hipocrisia humana, aceitando pequenas frutas de plástico sobre suas mesas, e aos poucos, quando menos se percebe as hipocrisias já estão enormes, sem controle, é falta de amor. Não há nada a se sorver de vida nem de saber, de uma fruta de plástico. São tóxicas.
Você não se lembra de nenhuma experiência antes de aparecer nesta casa, mas estranhamente conhece os hábitos da vida comum, as frutas de plástico. Em um esforço mental você tenta associar as frutas de plástico a qualquer outra lembrança, tenta encontrar as suas próprias hipocrisias. Qual foi a última vez que disse eu te amo quando na verdade queria estar com outra pessoa? Essa seria uma hipocrisia e tanto, serviria de base para que se lembrasse de todo o resto de sua vida. Mas não lembra, nem disso. As pequenas hipocrisias cegam aos poucos tudo o que significa alguma coisa em sua vida.
Sua sensação é a de nunca ter existido. Os flashbacks de vagas lembranças são sempre impessoais, de um passado que não parece ter sido o seu, mas sim um passado coletivo, comum a todos nós.
Você só está na casa há três dias, mas é como se fosse a eternidade. As horas não passam no relógio de plástico.
Cada novo pedaço da casa que você conhece lhe traz a sensação de já o haver conhecido previamente, a surpresa do novo não existe. Você pensa que irá se surpreender com o próximo aposento, mas é sempre a mesma sensação:
“Eu já estive aqui.”
Apatia.
Esta “quase lembrança”, esta sensação de já ter passado por isso antes lhe causa um desapego, seus olhos não escondem o tédio. O tédio lastimável das pessoas indiferentes, um olhar elegante, blasé, tão imperceptivelmente triste.
Procurando por algo no sótão da casa nada encontra alem de um quarto vazio que dá para o teto inclinado 45 graus sobre a sua cabeça. O quarto tem cheiro de coisa nova. Presente de dia das crianças. Sempre que você compra algo novo (não que tenha lembrado de algo que já comprou) você se lembra desse cheiro de coisa nova. E lembra-se que gostava desse cheiro, mas agora a história é outra, esse cheiro de coisa nova está em você, em sua casa. Embrulho no estômago.
(continua…)

Excelsa morada (2/2)

In ficção on Março 9, 2008 at 9:39 pm

(…continuação)

Segunda parte de um antigo conto

Dois dias na casa e nada.
Você perde o resto do seu segundo dia na casa tentando encontrar algo para comer ou para beber. A sensação de fome e sede é enorme, mas depois de dois dias sem comer, a fome passa como se nunca tivesse existido. Depois de algumas horas você dorme no sótão da casa e tem alguns sonhos estranhos. Havia alguém dentro da casa. Essa mulher viveu com você por muitos anos e nunca abriu a boca para expressar um sentimento real. Eram muitos “eu te amo” ditos a força, por obrigação, necessidade de convívio civilizado. Você se lembra de estar feliz. De achar estar feliz. Você acorda com a sensação de calor, mas não está suado.
Tudo a sua volta parece falso. Você mora numa casa de plástico.
Existe algum propósito?
Cheiro de novo, belos estofados de plástico, desconfortáveis como pedra, e bela arte em um quadro falso.Desesperado, você corre, desce a escadaria. Não há comida ou saída. A porta do térreo cede facilmente, você está do lado de fora. Tudo está escuro.

Você anda na penumbra e esbarra na parede de papel. Um material resistente, diversas camadas de papel. Tateando pela parede você busca por uma saída. Após alguns minutos, desiste de achar saídas e tenta criar a sua própria. Começa a rasgar o papel da parede, por ser muito espesso e ter várias camadas suas unhas se quebram. Seu desespero é maior do que qualquer preocupação com unhas. Como um rato, você cava.
Você se lembra de ter criado aquele pequeno ratinho que escapou de sua caixa de papelão? Se lembra de como ele fugiu e se escondeu por vários dias atrás da pia do armário do banheiro? O papo dele estava enorme, cheio de comida que ele havia conservado para a fuga. Quando sair deste lugar você não estará tão indefeso quanto o rato. Mas a pessoa que fez isso pagará. Você não admite ser enjaulado. Vingança!
Apenas por um milagre você ainda está vivo.
Esqueça. Não há o que cavar. Você sobe novamente para o ponto mais alto da casa, o teto inclinado em 45 graus. Uma luz podia ser vista através da parede.
Essa luz, a mesma luz que iluminava a casa toda. Pelo fato de que toda a casa era feita de plástico a luz ultrapassava cada parede deixando toda a casa esguiamente iluminada. No segundo andar uma das janelas lhe dá acesso ao teto da casa, tirando forças não se sabe de onde você escala a casa pelo lado de fora. O pensamento de escapar lhe move o corpo, não há medo nem hesitação.
Pulando para cima do telhado da casa, você sobe até o alto. A estranha parede de papel que fazia a volta por toda a casa fecha-se em cima de você como se fosse uma grande caixa envolvendo a casa. Subindo para o topo do telhado, você pode alcançar a pequena abertura que existe em cima da caixa. O lugar de onde emana tanta luz. E com enorme esforço, você passa para o lado de fora da caixa, escapando por fim do terror que ali está contido.
Uma pessoa mais fraca enlouqueceria com tanto sacrifício, mas o terror do lado de dentro da caixa abissal nada se compara ao que existe do lado de fora. Uma voz aguda e estridente ameaça seus tímpanos.
__ Você escapou. Andou vendo coisas que não devia! Agora é hora de descansar um pouco. Depois disso eu te coloco dentro da caixa novamente.
Uma gigante mão infantil lhe segura pela cintura, levando-o até uma plataforma vinte metros sobre o chão. Nesta plataforma está sentada a mesma mulher com quem sonhou, empalidecida, plastificada. Eu te amo. Inexpressiva. Pernas estiradas. Os olhos mortos, focam no infinito.
A mão que lhe carregou, entorta o seu corpo, aplicando-lhe força sobre o abdômen para que fique curvado, com as pernas esticadas. Você é obrigado a sentar-se alinhavado perfeitamente à mulher de seu sonho. A mulher dos seus sonhos.
Você quer falar com ela, mas não é possível. Seus pensamentos emborrachados sentem dificuldades de propagação no hemisfério mental.
A paz está de volta. Os pensamentos inquietantes já se foram. Não há lembranças, somente esta estranha calma que conforta.
Sua curta existência se encerra com as despedidas de boa noite da dona da abissal mão infantil. Você tem certeza que amanhã seu mundo encantado recomeça, assim que a voz divina voltar da escola.
Quando Deus vier brincar com você.

Rotíferos Delirantes

In ficção on Fevereiro 27, 2008 at 5:45 pm

Havia algo na coca cola, e era uma rotífera delirante

Fui de carona a uma festa de música eletrônica, apesar de não gostar, fui. Depois de uma hora de festa eu sentí a dor de cabeça e o mau humor. Irritação, procurei uma saída da festa, passei no meio daqueles jovens estúpidos, porque pra mim uma pessoa que fica debaixo de um chuveiro de estocadas mentais só pode ter merda na cabeça, é a minha geração, com a qual não me identifico. Na saída do local esbarrei sem querer em um frouxo, quando passei por ele, o sujeito empurrou meu braço, eu me virei para ele e a expressão facial de medo na cara do imbecil era evidente, fiz um gesto violento para ele, raspando as unhas dos dedos no queixo e apontando-as para eles, um gesto italiano de desrespeito, ele achou que eu fosse machuca-lo, prosseguí em direção a saída e respirei da atmosfera não tão poluída do lado de fora, ainda assim as batidas daquilo que eles chamam de música ainda era constante.

Não lembro de como foi o trajeto para a minha casa, uma voz gultural soava dizia coisas estranhas, era provavelmente o verme contido na coca cola acoplando suas manopla trituradora ao meu cortex cerebral.

Acordei no dia seguinte com a televisão ligada, não sei dizer até que ponto eu estava realmente acordado, mas penso ter visto, com os olhos entre abertos uma reportagem na TV:

Os vermes podem ser encontrados praticamente em qualquer habitat, mas por sua condição frágil os vermes preferem lugares escuros onde possam se hospedar com segurança. O sipúncula habita o meio marinho em águas pouco profundas aproveitando-se de conchas descartadas de outros animais. Os rotíferos são microscópicos e possuem uma coroa de círculos em sua boca que se movem rapidamente para captar seu alimento, habitam a água doce, mas podem se esconder até em pequenas poças de água da chuva. Alguns vermes podem habitar o aconchegante espaço interno de um ser humano, instalando-se em suas entranhas, alimentando-se da comida, de nacos de carne, de sinapses cerebrais ou até mesmo de dejetos. Alguns dos sintomas de vermes no organismo são: Apatia, sonolência durante o dia, vontade de alimentar-se de doces, desejos obscuros e incoerência de idéias.

Acordei plenamente minutos mais tarde quando já havia começado o programa da Ana Maria Braga. Descí e minha mãe me ofereceu comida, eu não aceitei, balbuciei qualquer coisa, não tinha fome mas roubei um ou dois bombons da caixa de chocolate, aquele programa da TV me deixou preocupado, pensava como os vermes podem influenciar nossa mente. Um simples verme no organismo poderia se conectar ao nosso cérebro solvendo nossa energia mental, alimentando-nos com comandos verminosos. Recebí um telefonema, sem muita atenção atendí. Concordei com uma ou duas sentenças e desliguei, era o meu chefe reclamando da minha falta ao trabalho. Minha mãe injetou minha dose diária de heroína na minha veia e eu perdí totalmente a noção da história que estava contando… não era heroína, mas minha carcaça já havia sido completamente tomada, minha individualidade fora absorvida por pensamentos verminosos. O remédio que minha mãe me injetou era o licor de cacau xavier, potente contra vermes e outras coisas nojentas.

_Mãe! – Gritei. – Me ajuda, me ajuda a sair daqui.
_O que foi meu filho?

Expliquei a ela todos os detalhes, contei inclusive os detalhes sordidos das minhas aventuras sexuais com a garota de um metro e cinquenta. Minha mãe olhou para mim estupefata e gritou:
_Vá para o seu quarto filho, você está com vermes.

Antes de dormir novamente (havia acabado de acordar) olhei para o espelho, profundas olheiras escavadas em meu rosto. Suor na minha testa, febre.

Tive sérios pesadelos aquela noite, quando acordei, a sensação de que tive foi a de que havia mais espaço livre na minha cama, mas os meus pensamentos já haviam adquirido ordem novamente, sai rastejando da cama e após escapar da coberta com uma dificuldade reparei na extensão de meu corpo, um bege estranho e prolongado que se estendia por um metro e oitenta e terminava em uma cauda ferina, tentei me livrar daquela carapaça mas não haviam braços, para me mover era necessário rastejar de um lado para o outro. Eu não era capaz de escavar pois o chão era de concreto, minha mãe abriu a porta e me viu rastejando suado pelo chão:
_Tome isso meu filho, você vai melhorar, você está com febre.
_Não mãe, não me dê um vermífogo, você vai me matar, você quer me matar mãe!!!

Ela me obrigou a tomar o licor de cacau xavier, na minha condição de minhoca não havia muito que eu pudesse fazer. Ela me colocou de volta na cama e durante mais um dia de sono pleno eu senti meus braços regressando a posição normal, podia mover minha cabeça separadamente de todo o corpo e quando acordei a cama parecia bem menor.

Aos poucos retornei a minha condição normal e concluí: Quando tiver vontade de fazer coisas estranhas, apatia, ausência de emotividade, incapacidade criativa e artística, incoerência despropositada ou consciência limitada, tome cuidado…
Podem ser vermes.

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O seu filho vai sorrir melhor.

O cineasta deve fazer o filme que precisa fazer

In Sem categoria on Fevereiro 25, 2008 at 8:41 pm

Entrevista com o jornalista e cineasta Pernambucano Kleber Mendonça Filho, sobre sua vida e pensamento intimamente ligados ao cinema

Por Gustavo Serrate

Pernambuco é o berço de muitos artistas destacados por sua simplicidade e impacto. O medo de que o avante cultural fosse apenas um espasmo temporário passou, já fazem mais de 10 anos desde o início da explosão cultural pernambucana. Kleber Mendonça é um cidadão de Recife, o cineasta é reconhecido desde 2003 por seus curta-metragens e lança-se agora na produção de dois novos longas. A identidade de Kleber Mendonça está presente em todos os seus filmes, e um traço marcante é a abertura da obra para diversas interpretações. No processo criativo do curta Vinil Verde, inspirado em um conto do folclore Russo, Kleber descobriu a própria motivação para a feitura do filme, “eu estava colocando para fora as coisas que senti durante a morte da minha mãe”, mas o curta é sujeito a toda sorte de interpretações “houve quem dissesse que o curta falasse sobre a proibição da maconha (…)”, e sobre o Eletrodoméstica “(…)na França disseram que foi uma releitura do Romance Madame Bovary”. São várias as interpretações, e o talento do realizador é perceptível, Kleber aponta caminhos àqueles que não possuem talento, mas possuem bom senso, e observa a existência de castas na produção cinematográfica, castas que estão caindo com a popularização do cinema digital.

Kleber Mendonça Filho é cineasta e jornalista especializado em crítica para cinema. Trabalha como crítico profissional de cinema para o Jornal do Comércio e alimenta seu site especializado em cinema, Cinemascópio, há mais de 9 anos e está em reformulação. Dirigiu diversos curtas premiados no Brasil e no exterior: A menina do Algodão (2002), Vinil Verde (2004), Eletrodoméstica (2005), Noite de Sexta, manhã de sábado (2007). Kleber ruma agora para a carreira de longa-metragens com o lançamento de seu primeiro longa, o documentário: Crítico, sobre “ver e fazer filmes”, segundo suas palavras. O cineasta prepara a produção de um novo ficção-documental chamado Recife Frio, uma alegoria para fenômenos sociais e psicológicos que ocorrem em Recife.

(entrevista bruta, realizada por telefone e sem cortes)

Gostaria que falasse um pouco sobre seus projetos em andamento e futuras idéias.
Bom, eu, to conseguindo manter um ritmo desde 2003, um filme por ano. Teve a menina do algodão, Vinil Verde, Eletrodoméstica. Aí eu to fazendo atualmente um curta que ganhou um prêmio na Petrobras que se chama “Recife Frio”.

É ficção ou documental?
É os dois na verdade. É um falso documentário. Na melhor das hipóteses ele vai parecer um documentário bem verdadeiro, pelo absurdo do tema, as pessoas vão entender que não é um documentário, mas ele se comporta exatamente como um documentário. O filme é sobre uma mudança que acontece no clima de Recife, ele passa a ser uma cidade fria em vez de uma cidade tropical. No filme a idéia é fazer um documentário de uma TV francesa sobre essa cidade do Brasil que deixou de ser tropical e tornou-se fria.

Transformando a realidade em ficção.
É mas, muita coisa do filme são observações bem reais sobre o que eu acho que está acontecendo no Recife hoje em dia. Não tão em questões climáticas, mas em questões urbanísticas, etc, mas esse é o filme que estou fazendo atualmente, eu imagino que ele fique pronto ainda esse ano, espero. Mas antes desse filme eu terminei um documentário de longa-metragem chamado O CRÍTICO, que reune nove anos de entrevistas que eu fiz no Brasil e fora do Brasil sobre Críticos.

Você se formou em jornalismo nessa época?
Não, me formei em jornalismo em 92, nos anos 90 eu fiz muito video, mas eu me cansei da pouca exposição que o video tinha na época, e eu acho que de lá pra cá houve uma melhoria com o digital. O digital ganhou uma certa nobreza em relação à película. Mas aí eu de fato cansei nos anos 90, aí eu dei uma parada, em 97 eu fui escrever sobre cinema no jornal do comércio, e aí me dediquei entre 97 à 2002 cem por cento à jornalismo na área de cinema como crítico. Em 2002 quando o digital já tinha se petrificado, eu partí pra uma nova fase das coisas, e de lá pra cá eu tenho tido bons resultados e muito mais exposição do que eu tive nos anos 90 com o video.
O digital me permitiu a fazer em casa o que eu antes fazia com apoio super complicado. A menina do Algodão, que você viu, foi feito por mim e por Daniel Bandeira, a equipe tinha duas pessoas, ele inclusive é o ator do filme, mas ele fez a montagem comigo, tinha uma câmera de 1ccd, e é um filme extremamente simples, mas era um filme dimensionado para ser o que ele é. Tem a simplicidade, mas isso funciona a fazer dele.

Aliás, o que marca os seus filmes é essa simplicidade.
Eu acho que eu tenho um interesse muito grande pela concepção da idéia do filme. Eu sempre me pergunto se uma determinada idéia vale a pena todo o trabalho de fazer um filme, algumas idéias elas são muito simples, mas mesmo simples elas se seguram. Eu acho que essa coisa, a concepção do roteiro e o conflito humano é uma coisa que me interessa muito.

E como é a sua busca para encontrar a próxima história?
Até agora eu acho que… eu não tive um filme que não fosse assim, mas todos os meus filmes que fiz até agora, e o longa que estou escrevendo agora, são muito pessoais. Então são observações muito pessoais minhas sobre aspectos que estão sempre muito por perto. Significa que eu faço filmes monotemáticos, eu acho que você como pessoa, você pode ser afetado, você pode ser marcado por vários aspectos diferentes da vida. Por exemplo a Menina do Algodão é um filme sobre um medo muito infantil, e uma experiência de medo que eu já tive quando eu estava no primário numa escola, era uma idéia, uma lenda urbana de que no banheiro tinha uma menina morta, e isso, na época, eu e meus amigos esperávamos horas pra fazer xixi em casa, pra você ter uma idéia do medo que isso era. E de alguma maneira você cresce, fica adulto e ainda lembra daquele medo.
O ser humano sempre vai ter medo, e aí eu achei que era uma idéia boa pra fazer um filme de gênero, que é muito raro no Brasil na verdade. Um filme de gênero muito brasileiro, sem castelos na transilvânia, nem serial killers como nos Estados Unidos. Um filme bem simples, feito aqui no Recife. E Vinil Verde também é um filme que segue um pouco, mas é um pouco mais complexo. O menina do algodão é muito simples, ele é aquilo.
A idéia do Vinil Verde foi o seguinte, uma amiga Ucraniana, que eu terminei fazendo o Noite de Sexta (manhã de sábado) com ela, ela viu o Menina do Algodão e imediatamente ela falou “me lembra várias histórias que eu ouvia quando era criança, na escola na Ucrânia”. E aí ela achou um site onde tinha uma antologia de histórias para criança, e ela lembrava muito dessa que era fantástica, e conseguiu ler exatamente a versão correta da história, porque na cabeça dela já tinha variado muito, e aí ela leu a história das luvas verdes, que é uma história essencialmente sobre a perda da inocência, o amadurecimento de uma criança e aí quando eu ouvi a história eu achei incrivelmente forte, muito dentro dessa idéia da fábula Russa, porque a fábula Russa é extremamente dura, ela é muito poética, e ela tem uma verdade que assusta. Acho que é um pouco da própria alma Russa, você lê a literatura Russa, é uma literatura que choca muitas vezes, mas ela choca com a beleza, ela não choca com táticas vulgares, o choque vem através da beleza. Isso é uma coisa notável na literatura, nas fábulas russas. Eu achei que eu teria que fazer um filme que honrasse essa atmosfera, essa filosofia do choque, é forte, mas ao mesmo tempo é muito bonito, e eu acho que é aí que o filme chama a atenção de muita gente, porque o Vinil Verde, embora o eletrodomésticas seja tecnicamente um filme mais bem sucedido, mas eu acho que o Vinil Verde é um filme mais amado.

Deve ter sido dificílimo filmar o Vinil Verde.
Na verdade não tanto, porque em 94 eu fiz um video que entrou nessa leva dos videos pouco vistos chamado “Paz à esta casa”, que é um filme muito curto, tem um minuto e meio, que é sobre a demolição de uma casa. Eu fiz todo com uma seqüência de fotografias animadas e na época do Vinil Verde eu estava influenciado por um filme chamado La Jetée (Chris Marker, 1962), é considerado um dos grandes curtas metragens da história do cinema. E é um filme todo feito com fotografias, é um foto romance, porque o Vinil Verde envolvia elementos fantásticos, principalmente a coisa da mutilação, a escolha óbvia seria evitar o filme normal, com movimentação, até porque teria efeitos especiais, seria difícil, e transformar o filme numa espécie de livro de histórias infantis animadas. Então é muito difícil de fato você arquitetar o filme.

Você decupou tudo em papel?
Eu decupei olhando pelo visor da câmera, no apartamento onde a gente tava filmando. Mas a grande dificuldade desse filme, eu tenho que te dizer que isso veio naturalmente, mas pensando agora, a grande dificuldade do filme é você decidir quais são as imagens importantes. Porque num filme normal você tem imagens a 24 quadros por segundo, no Vinil Verde você tem as vezes 4 imagens por minuto, dependendo da cena. Então você tem sempre ver quais são as imagens importantes e quais você não vai usar, não na montagem, mas na filmagem, isso talvez seja a parte mais difícil do filme. Mas foi um filme muito bonito de fazer com a Verônica e Gabriela, que são mãe e filha. Foi feito no apartamento delas, e é um filme que geralmente ele tem uma resposta, algumas pessoas obviamente não reagem bem porque consideram o filme muito estranho, ou simplesmente não entram, não fazem parte. Mas quem entra geralmente entra e sai bem mexido do filme, é um filme que eu acho que é muito pessoal porque na verdade durante o processo de montagem eu meio que entendi a minha atração pelo filme, e nesse sentido eu entendi que o filme era uma espécie de, eu estava colocando para fora algumas das coisas que eu senti na morte da minha mãe. Então isso foi um processo bem complicado pra mim durante a montagem.

E tem alguma relação com culpa também? A questão da menina que faz algo independente da ordem da mãe.
Essa é a interpretação que cada um tem, mas eu pessoalmente não acho que é um filme tanto sobre a culpa, eu acho que é um filme sobre processos impossíveis de serem mudados. A gente é o que é, e nós não temos como mudar isso. Então a vida faz com que você faça as coisas da maneira como elas são feitas, então por mais que a mãe fale “não faça isso”, a menina vai e faz. Eu acho que é uma questão de processo irreversível da vida, do tempo.
Tem muitas interpretações, outro dia eu recebi um e-mail de um cara dizendo que o filme na verdade era sobre a proibição da maconha. Não sei muito bem o que dizer sobre um e-mail desses (risos), mas se funciona para ele dessa forma.

E sobre as críticas que você recebe. Quais foram as melhores, que te deram uma nova interpretação sobre a sua própria obra?
Eu ouví na França uma interpretação interessante sobre o eletrodoméstica dizendo que era uma revisão do Madame Bovary (Romance clássico de Flaubert, realizado por Claude Chabrol em 1991), e nunca tinha passado isso pela minha cabeça, mas faz total sentido, aliás sentido até de que é uma versão moderna do Madame Bovary, porque o amante dela seria uma maquina. Mas eu não sei, tem críticas inteligentes positivas que são as melhores, tem críticas burras e positivas que são indiferentes, tem críticas inteligentes e negativas e tem críticas negativas que são estúpidas. Teve uma no festival de Brasília que para falar bem do Noite de Sexta, o cara decidiu falar mal do Vinil Verde “dois anos depois de mostrar o trash ridículo Vinil Verde, ele vem agora com um filme realmente bom”, alguma coisa assim. Você não tem nem como repudiar uma crítica dessa porque ela é tão estranha que ela bate e volta. Mas até agora eu tenho que admitir que eu fui bem mimado pela recepção dos meus filmes, as críticas negativas elas foram mais nesse sentido. Porque acho que o grande medo do cineasta é ele ver uma crítica negativa mas ele concorda e ele diz “Caralho. Tirou minha roupa aqui”. Isso até agora não aconteceu não.

E em relação ao “Noite de Sexta, Manhã de Sábado”, gostaria de saber sobre essa mudança total de linguagem em relação aos seus outros filmes, que eram mais formalistas, e neste caso é bem mais livre.
É porque cada filme exige uma linguagem. Uma noite de sexta exigiu uma outra linguagem por ter sido feito… é um filme muito feito, literalmente nas carreiras, no susto, e não tinha como estudar os enquadramentos, tinha que fazer de uma maneira muito intuitiva, e de fato muita gente ficou espantada com o Noite de sexta por ser um filme completamente diferente. Além disso ele é um filme de amor, então outras pessoas acharam estranho, porque supostamente uma pessoa que trabalha com sarcasmo, e uma certa acidez, e agora um filme mais doce, digamos assim. Mas é um filme doce com um final bem amargo também.

As pessoas já devem esperar uma continuidade de seus trabalhos anteriores.
É, mas a continuidade, ela vem na obra, não vem a cada trabalho, você pode negar às pessoas o que elas estão esperando, eu acho isso muito bom também. Há uma certa expectativa, e essa expectativa tem que ser satisfeita num nível de qualidade, e não no nível temático, e o Recife Frio mesmo vai ser diferente de todos os filmes, mas o longa de ficção ele provavelmente vai estar mais perto do eletrodoméstica. Eu adoraria fazer um longa de ficção diferente desses todos, mas o que tá entrando na minha cabeça agora é voltar para esse universo do Recife.

E essa questão dessa narrativa que não é tradicional, ela segue o acaso.
Isso é um problema, não um problema para o filme pronto, mas um problema prático para o realizado que está submetendo o roteiro para um edital, por exemplo. O eletrodoméstica passou 8 anos no inferno dos editais sem nunca ser selecionado. Uma vez eu tive o retorno de uma pessoa que estava em um edital (não ela assumindo nenhuma culpa pelo filme não ter sido selecionado, mas ela me repassando o que falaram) “eles disseram que não acontecia nada no filme”. Isso para um roteiro é um pouco complicado, você fazer um roteiro que não tem uma história, sabe, uma história que numa sinopse você queira ver aquele filme, que é o mais normal. Mas infelizmente eu tenho um pouco de medo do longa nesse sentido porque o longa são observações da vida numa vizinhança de classe média, então, eu até acho que as observações são interessantes, mas eu não sei se a norma dos editais vai passar como algo interessante, isso é um problema.

E você acha que o caminho do cinema é nessa direção da narrativa que escapa da narrativa clássica?
Eu não sei, o cinema é muito grande, tem muita gente fazendo muita coisa. Mas eu tava agora trabalhando na cobertura, como crítico, do festival de Berlim, e sendo bem seco, ví uns cinco filmes Brasileiros em Berlim, três eram filmes de favela e o Tropa de Elite que é um filme de favela ganhou um Leão de Ouro. Tropa de Elite, antes do Urso de Ouro, Tropa de Elite já era um dos filmes brasileiros mais importantes dessa década, junto com Cidade de Deus que é outro filme de favela. Sem entrar nas qualidades individuais de cada filme, me parece que há uma movimentação, pelo menos no sentido de mercado, de valorizar, cada vez mais filmes feitos onde os realizadores não tenham o nível pessoal deles, ou seja, os realizadores brasileiros que fazem cinema não moram em favelas, mas de alguma maneira eles fazem filmes muito bem sucedidos de favela. Eu a princípio não faria um filme numa favela, por eu não ter a experiência pessoal da favela. Eu teria muita preocupação de fazer um filme onde eu mesmo criticaria o que eu estivesse vendo. Então eu faço filmes ao meu redor, e o meu longa deve ser isso, e os curtas com certeza foram até agora, e de alguma maneira eles tem funcionado, eu espero que existam partes suficientes do cinema brasileiro para que existam filmes super bem produzidos sobre favela e filmes super bem produzidos pessoais, e documentários e comédias. Eu espero que cada um tenha a chance de fazer seu filme, e o filme pronto, que cada filme seja devidamente valorizado, dependendo do valor dele.

E você começando a fazer longas, pretende voltar ao curta-metragem?
Essa é uma pergunta boa porque eu sempre me pergunto porque gente como Jorge Furtado, Beto Brant que surgiram no curta metragem e passaram para o longa, nunca mais voltaram para o curta. E antes eu tinha uma defesa, e até criticava ou via isso com maus olhos, mas hoje eu entendo como funciona, porque uma coisa que você só entende quando você percorre todas as hierarquias do audiovisual, e quando você não percorre você não entende isso, porque você não consegue sentir isso, é que de fato existe uma série de castas, classes, dentro do audiovisual. É como eu te falei, nos anos 90 eu fiz video e ninguém viu. Aí na década de 2000 eu faço curta em 35mm e todo mundo vê, só que nada se compara a se ter um longa metragem em termos de exposição, porque os meus filmes são super bem sucedidos, mas eles ainda ficam presos no gueto do curta metragem, passa só no Canal Brasil, ou seja, dentro do universo do curta metragem eles extrapolaram, foram para fora do Brasil em dezenas de festivais, mas dentro do universo do curta. Mas nada disso se compara à exposição que se pode ter com o longa metragem. É como se fosse uma droga que faz com que o cineasta não queira mais voltar para o curta, porque o curta, é o que eu disse, não se compara em termos de retorno, e satisfação pessoal de ter seu trabalho visto. Isso que eu to começando a entender agora, isso é complicado para um cineasta porque fazer um filme é muito difícil. Você precisa de muito tempo e dedicação e se você ficar num curta metragem durante 6 ou 7 meses e de repente ele não será visto. Agora, ao mesmo tempo que eu falo isso, o Eletrodoméstica e o Vinil Verde tiveram muito mais exposição do que vários longas, isso é triste, quer dizer, é bom pra mim, mas é triste pra muitos diretores. Mas de qualquer maneira, mas não sei responder se uma vez fazendo longa, eu vou voltar ao curta, eu espero que sim.

Qual você acha que é a importância de se fazer o curta metragem?
Bom, curta metragem é bem mais acessível do que um longa, com a tecnologia você pode. Informalmente há uma noção que eu não acho errada, de que é interessante você fazer curtas até para exercitar seja lá que talento você tem. E caso você não tenha talento, e tenha bom senso, o que obviamente não acontece (riso) é interessante você dizer “ok, eu não tenho talento, vou partir para produção, ou para fazer qualquer outra coisa”. Mas o curta metragem ele cresce como um, ele pra mim é tão importante quanto um longa, mas existe uma hierarquia de não ver as coisas assim. Então tem que ser prático. É claro, aquele filme que eu falei, o La Jeteé, é um filme mais conhecido do que milhares de longas que tem por aí, é um filme importantíssimo. Pra mim alguns longas deveriam abrir para alguns curtas. Mas tem o outro lado, o lado de hierarquia.

E qual a sua ligação com a Russia? Tem alguma raiz de lá?
Não não. Mas eu amo o cinema russo, a literatura Russa. Tem um casal chamado Elem Klimov e Larisa Shepitko, por acaso eles eram um casal, mas separadamente fizeram filmes maravilhosos, me interesso muito. O Elem fez um filme chamado Vá e veja (Come and See – 1985) é um filme, cada pessoa que viu esse filme, meio que… virou pedra. É impressionante. É um filme de guerra que acabou com todos os filmes de guerra que eu já tinha visto antes. Esse cara é uma influência bem forte, embora eu até me sinta constrangido de dizer que um dia eu vou fazer algum filme que seja dois por cento do filme que ele fez. É claro, Tarkovski, que faz parte do imaginário de todos os estudantes de cinema, o Eisenstein. A Larissa fez um outro filme em 76 e ganhou o Urso de Ouro em Berlim, A ascensão. Também realmente especial. Mas é um cinema que tem algo de muito especial, tem um filme chamado, Quando voam as cegonhas, do Mikhail Kalatosov, é um filme de 58, tem em DVD no Brasil inclusive. Incrível o filme.

O cinema Russo é bem diferente, parece ter se desenvolvido paralelamente ao nosso do ocidente.
Mas é isso que aconteceu, na época do comunismo, da união soviética, era um mundo paralelo mesmo. Ao mesmo tempo em que era paralelo, eram filmes absolutamente… não tem nada alienígena no filme, eram filmes sobre gente, filmes humanos, mas a forma de tratar é realmente muito diferente.

E como está a vida cinematográfica aí em Pernambuco?
Tem uma produção bem interessante aqui, o nível de acerto eu acho que é alto, pernambuco está se destacando em festivais. Já são 13 anos dessa nova fase do cinema Pernambucano, começou com Baile Perfumado, e o medo era que fosse um espasmo temporário, porque a história do cinema é feita de ciclos que acabam em no máximo 10 anos. Espera-se que fosse mais um espasmo de Recife, mas eu acho que com a tecnologia digital, está mais que garantido que isso vá continuar, aliás, isso está acontecendo no mundo inteiro, as hierarquias caíram, ou estão caindo. Hoje por exemplo o Daniel Bandeira que fez o Menina do Algodão comigo, apresentou com 25 anos de idade um longa metragem no festival em Brasília. Ele fez um longa com uma câmera digital e 48 mil reais para filmar. Isso até 10 anos atrás seria impossível, e aí Daniel quebrou várias hierarquias. Acho que há 15 anos atrás Daniel chegaria ao longa talvez com 40 anos. Porque submete a edital, aí passa na frente todo mundo que tem mais currículo, aí tem que fazer mais curtas, ganhar mais prêmios, ai quem sabe com 35 ele ganha o prêmio de roteiro pra organizar o filme. E agora isso está acontecendo no mundo inteiro, tem uma leva nova de um bando de fedelhos de 22 e 23 anos. Eu to acompanhando, faço programação de umas salas, a gente exibe muitos curtas, eu recebo DVD pra dar uma olhada na montagem do filme novo, e agora pelo que eu to vendo a coisa vai continuar. Não só continuar, mas está se renovando. Estão fazendo muito filme em cima do folclore, mesmo que seja um folclore pop, Baile Perfumado era folclore pop, mas era folclore. Mas atualmente ainda tem esse pessoal mais velho fazendo essa coisa mais folclórica, e jovens fazendo uma coisa completamente fora dos padrões do que se espera do cinema pernambucano. Os meus filmes mesmo não se encaixam muito nessa coisa do folclore, são filmes mais, sei lá, são pernambucanos.

A impressão que a gente tem aqui de fora é que com a chegada do Manguebeat Recife se revirou totalmente não só na música, mas em todo cenário cultural.
É totalmente coerente isso. A chegada do manguebeat virou a cabeça de todo mundo, porque o manguebeat é normalmente associado à música, mas não é só isso, a partir do momento que surgiu uma banda, essa banda queria fazer um clipe. Aí eram feitas alianças e parcerias, quem tava querendo fazer cinema, ia fazer esse clipe, ai chama neguinho que trabalhava com design pra fazer a capa do disco. Movimentou muito o Recife. Recife tem uma certa aura difícil de definir, mas Recife tem uma bagagem cultural muito grande, muito fértil pra provocar reação. Isso tem funcionado de alguma maneira, tem feito as coisas acontecerem. É como eu falei, eu posso até não gostar de vários filmes, mas reconheço que são filmes sérios que foram feitos por pessoas que estão tentando dizer algo pessoal naquele filme, você vê filmes que a maioria em festival de curta, são filmes que qualquer um poderia ter feito, vem pré formatados, como um template do Corel Draw. Eu acho que a maior qualidade aqui do Recife é que tem filmes que você vê que só poderiam ter sido feitos por aquele cara. E isso, bom ou ruim, é uma coisa que deve ser valorizada.

Só para finalizar, o que você tem a dizer para essa fornada de jovens que está chegando com o cinema digital? Talvez um conselho que você gostaria de ter ouvido quando estava começando.
Eu acho que cada um tem que fazer o filme que… eu acho inclusive que estamos superando uma certa frase, dez anos atrás eu ouví, numa reunião uma coisa pavorosa, naquela época eu já tinha noção de quão pavorosa foi aquela coisa que eu ouví. O cara estava falando que ele tinha um roteiro que era sobre a paixão que ele tinha pela prima dele, mas ele na verdade ia colocar no próxima edital um roteiro sobre Maracatú porque disseram que tinha mais chance de ganhar, e eu achei isso pavoroso, eu falei pra ele “não faça isso não, eu quero ver o filme sobre a sua prima”, maracatú já tem quarenta outros documentários aí na televisão, é muito improvável que você vá acrescentar qualquer coisa de novo em relação a isso. Eu acho que cada um tem que fazer o filme que precisa fazer, sem pensar nas modas e nas tendências e nas questões de editais. Eu acho que isso está acabando aqui no Recife, pelo menos na coisa dos editais. Em 97 eu fiz um filme chamado enjaulado, e era um filme totalmente urbano, mas as pessoas reclamaram que em vez de fazer um filme de folclore eu vou fazer um filme em apartamento. Ou seja, eu não acho que hoje em dia eu ouviria uma coisa dessas, o panorama já está muito mais diversificado, você tem filmes de interior você tem Baixio das Bestas… mas aí é que tá, o Baixio das Bestas e Baile Perfumado são filmes de interior, rurais, mas não são só isso, são outra coisa. E aí tem alguma coisa aí que dá um twist, que faz o filme interessante. Mas de qualquer forma a diversidade está muito saudável aqui e foi conquistada ao pouco, ao longo desses dez anos.

Trailer – CRÍTICO

Assista os curtas

ELETRODOMÉSTICA
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=3293

VINIL VERDE
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1999

A MENINA DO ALGODÃO
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1447

Fui me foder

In ficção on Fevereiro 21, 2008 at 12:16 pm

Mau humor contamina, e a culpa é dos maçons

Entrei no shopping, era pra encontrar alguém na lateral do shopping, mas em qual das duas? Fui na lateral errada e passando perto da porta esbarrei com um apressado, ele carregava um grande anel metálico, o anel raspou na minha mão causando um arranhão dolorido, agudo.
__Porra. Olha por onde anda! – Eu disse.

O cara lá de trás olhou pra mim e voltou.
__O que é que foi?

O guarda percebendo a confusão se aproximou, o sujeito chegava perto, eu parado, esperei.
__Você acha que eu fiz de propósito? – ele disse gritando.
__Não, mas toma cuidado com isso aí pow, chegou a sangrar aqui. Fica balançando o braço que nem um macaco. – Acho que foi a chegada do guarda que me deu essa coragem.

Quando ele percebeu a chegada do guarda ele saiu a tempo de dizer:
__Vá se foder.

Saí para a lateral e me encontrei com José, tirei de um envelope pardo alguns papéis referentes a uma negociação em andamento. José assinou os papéis enquanto eu percebia o sangramento da minha mão, causado pelo anel que o macaco ostentava no dedo. “Porque alguém anda com um anel tão esdrúxulo?”, pensei, “provavelmente é maçom”.

Prosseguí a caminhada, tinha um encontro marcado com a Lilian, achei que me acalmaria. Ela começou a comentar sobre coisas que eu tinha feito de errado com ela. Eu sentí como se a estivesse deixando triste, sentí que tudo que estava fazendo com ela era errado, mesmo sem querer.
__Aquele dia você não devia ter bebido cerveja!
__Mas eu nem quis ir, eu estava de carona! E além do mais, depois disso fiquei doente.
__E mereceu! Pra aprender!
__Mas eu te liguei pra avisar, não foi culpa minha.

Ela me olhou e apertou os olhos, o tom de acusação.
__Isso é atitude de menino! Eu não te disse que você tem jeito de menino? Eu tava certa – foi o que ela me disse, para concluir a ofensa.

O que ela quis dizer é que eu não me porto como um homem, que eu não tenho caráter. Depois dessa acusação eu não conseguirei ser espontâneo com ela novamente, pois sou o que sou, mas eu ainda não tinha cabeça para saber se eu estava certo ou errado, sorrí um sorriso bem amarelo, me levantei da frente dela meio baqueado, me despedí secamente e saí pensando como aquela garota estava me fazendo mal. Pensativo, na beira da pista de um dia chuvoso o ônibus aproveitou a poça suja para espirrar água na minha canela e dentro dos meus sapatos.
De calças e meias molhadas gritei:
__Vá se foder!

O sapo não lava o pé

In Sem-categoria on Fevereiro 14, 2008 at 3:50 pm

O sapo não lava o pé
Não lava porque não quer
Ele mora lá na lagoa
Não lava o pé porque não quer
Mas que chulé


Nunca entendi muito bem essa música.
Se o sapo mora na lagoa, mesmo que ele não lave o pé, quando ele cai na lagoa ele dá uma boa molhada no pé, é quase como lavar.
Fora isso, é impossível que um sapo tenha chulé, sapo não usa sapato.

Coração de pedra simulado

In ficção on Fevereiro 3, 2008 at 11:28 pm

Ela quis terminar o namoro ontem, eu não fugi
Tudo começou no dia que eu fui na casa dela e percebí que ela estava sofrendo pelo ex namorado. Aí eu pensei, eu não devia ter me apaixonado, tudo estava seguro enquanto eu só queria passar a mão nas pernas dela, agora foi longe demais. E eu titubei, mas não caiu nenhuma lágrima, porque eu estava sofrendo, mas o período que passei em São Paulo me foi útil para aprender a simular um coração de pedra.
_Tá. Eu vou embora então.

Foi o que eu disse enquanto me levantava. Ela tentou me puxar pelo braço. Eu puxei o meu braço com de violência. Ela olhou pra mim surpresa.
_Eu vou. Porque eu sei como são essas coisas, e eu não vou me lamentar aqui pra você.

Fui embora. Lembro que no ônibus eu tirei um anel que ficava no meu dedo. Eu considerava um anel de compromisso. Ela não sabia disso, só eu tinha o anel, eu nunca tive coragem de dar um anel pra ela. Eu andava com um anel no meu dedo para me lembrar de não fazer besteiras. Joguei o anel pela janela do ônibus. Ele quicou umas duas vezes no chão até que um carro passou por cima.

E eu pensando:
_Então você vai acabar comigo mesmo né?

E ela acabou comigo. No outro dia eu estava acabado. Triste e apático.

Recebí hoje uma ligação dos meus pais. Eu to com uma tremenda dor de barriga, vai ver foi aquela sopa de feijão que eu comi ontem a noite no lual perto do tororó. O jeito certo pra preparar feijão é deixa-lo congelado um dia antes, assim evita gases e as dores inconvenientes, oriundas do acúmulo de ar no abdomen. Quando meus pais me ligaram eu estava com duas dores inconvenientes… a primeira dor, dos gases, a segunda era a dor de estar acabado.

Tratei meus pais tão friamente que sentí pena deles depois, pois sou um filho tão omisso e tão desmerecedor de tudo o que tive nessa vida. Sempre fui um filhinho de papai, burguês, classe média, cristão e higiênico e olhem só para mim agora, tratando-os com descaso. Que péssimo traste de filho eu sou. Por causa de uma estúpida garota que não me ama, estou tratando as pessoas que realmente me amam, e que ligam pra mim somente para ter notícias de como eu estou.
Isso é tão triste que eu não pude simular o coração de pedra.
Eu chorei.

A Boca da fé

In ficção on Janeiro 28, 2008 at 6:12 pm

Os dentes são a fé e Deus é o Dentista
Cara. Minha teoria sobre a fé do Cristão é a seguinte. Deus é como um dentista, os dentes são a fé e o dono da fé é o Cristão. O Cristão só cuida dos próprios dentes porque ele morre de medo de encarar o dentista. Os cáries são as máculas dos pecados nos dentes da fé. Os doces são as tentações que destroem a fé. Os dentes brancos e corretos são exemplos de fé, santidades bucais.
Quando Deus corrige as máculas da alma, ele causa dor, muita dor. O Cristão fica exposto de boca aberta, diante de seu Deus, é uma provação!
Perder os dentes seria algo como cair nas brasas do inferno, você nunca mais terá acesso as tentações, tomará sopa para o resto da sua vida!

Entendeu a parada boca murcha ?

Naja

In ficção on Janeiro 25, 2008 at 4:52 pm

Já estava bêbado, mas parei em um boteco para beber mais e ouvir forró de terceira
Lastimável o meu estado. Completamente bêbado, cheio de olheiras, com o pé sujo de chutar latas de lixo e pisar nas poças de pós chuva. Sentei na mesa e pedí uma cerveja mas não quis ficar sentado, fui para dentro do boteco. Fiquei perto da Jukebox, de uma seleção musical de extremo mal gosto. De costas para a muvuca impregnada de suor eu bebi a minha cerveja e fiquei observando de longe uma mulher mal cuidada, mas bonita. O cabelo embaraçado e a maquiagem barata disfarçavam a beleza natural daquela mulher, habitante da sargeta.

Olhava para ela de longe e ela se aproximou com o rebolado dengoso, deixei que o meu quadril se encostasse no dela. Eu podia estar no fundo do poço, mas ainda estava melhor do que qualquer pé rapado daquele bar.

_Qual é seu nome? – perguntei.
_Por aqui me chamam de Naja.
_mas esse é seu nome?
_Não interesa. Vem cá.

Mesmo sem saber dançar me engalfinhei com aquela mulher e saímos balançando pelo bar, esbarrando em todo mundo. Acabamos a cerveja e saímos do bar sob o olhar malicioso e invejoso dos que já estavam alí há algum tempo, esperando brecha daquela mulher.

_Para onde estamos indo?
_Para o “Cereja´s”, fica perto da minha casa. Eu conheço todo mundo por lá.

Saímos andando, bêbados esbarrando um no outro. Passamos em frente ao lugar onde eu morava.

_Espera. Vou entrar para escovar o dente e já volto.

Enquanto eu abria o cadeado da minha porta ela me puxou.

_Não. Vamos para o cereja´s
_Só quero escovar o dente, minha boca está com um gosto ruim.
_Se eu não vou escovar o dente você também não vai. É justo né?
_certo.

Tá certo, ela sabia o que eu estava fazendo. Eu realmente queria escovar os dentes, mas no fundo o que eu queria mesmo era traze-la para o meu quarto, o matadouro. Ela foi esperta em me puxar. Continuamos atravessando as ruas sujas, o sol nascendo coloria de cor bonita aquela feiura toda, misturada com miséria e gente suja. Ela começou a me contar sobre um caso de amor, que se transformou em um caso de ódio. Um ex-namorado humilhou ela em frente da família dela e ainda ficou lhe devendo 300 reais.

_Eu quero matar ele! Eu juro que vou me vingar! O que ele fez comigo ninguém mais faz!
_Que isso. não é pra tanto!
_Eu vou matar ele! Eu mato mesmo! Eu mato com a minha mão.

Fiquei assustado, mas estava tão bêbado que abracei ela enquanto andavamos, como um amigão dos velhos tempos.

_Não tem porque você fazer isso. Ignora esse cara. Pensa no tanto de coisas boas que você vai deixar de fazer se fizer uma coisa ruim com esse cara? Você vai pra cadeia! Vai sujar sua vida em troco de quê ? De trezentos contos e de um cara que é um verdadeiro bosta! Esquece essa idéia!
_Eu não.
_Poxa. To te pedindo de coração aqui. Esquece esse assunto. Faz isso por mim.

Eu não costumo dizer essas coisas, acho engraçado até essa minha última frase, mas eu estava realmente muito bêbado, e saiu. Ela parou, pensou, também estava muito bêbada.

_Sabia que eu to gostando da sua presença aqui?

Ela me repetiu isso umas três vezes enquanto caminhavamos. O sol batia no nosso rosto, o dia estava bom, mas o sono já começava a incomodar. E aí eu comecei a pensar em Deus e nas coisas que ele faz, e comecei a imaginar que o senso de moral definitivamente não foi uma das invenções desse nosso Deus. Deus é bom, mas a maneira dele, se ele tivesse mesmo um senso de moral ele me castigaria por estar bêbado, mas vejam bem, eu estou bêbado nesse momento, pregando para essa garota cheia de ódio e rancor uma mensagem de amor: Perdôe o seu próximo. Eu estou na sarjeta e mesmo assim posso fazer algo de bom. Me desculpem mas os Cristãos estão errados, eles não sabem do que estão falando. Ser um certinho hipócrita não é sinal de presença do divino.

Chegamos no tal “ceraja´s”, mais um boteco meia boca. Naja chegou cumprimentando todo mundo.

_Eu moro alí!

Ela me apontou um apartamento caindo aos pedaços e já foi pedindo outra cerveja. Um velhinho com traços de boçal ficava nos fazendo rir com sua maneira engraçada de falar. Ele abraçava a Naja a todo momento e olhava para mim com uma cara divertida. Os outros bêbados, amanheceram descendo a cachaça, mas todos tinham algo de bom no olhar, infelizmente estavam numa posição ruim. Eu não queria acabar como eles. A Naja repetiu que a minha presença estava fazendo a ela muito bem, e que ela já tinha desistido de matar o cara. Achei graça.

_Eu tenho que ir agora.

Eu deixei meu copo de cerveja pela metade. Ela foi comigo até a porta do bar.

_Me dá um beijo. – Eu pedi.
_Não. Pra que?
_Quero te beijar. Eu vim até aqui com você pra te beijar.

Ela não pareceu incomodada. Ela me deu um beijo bem pequeno, um selinho, lábios com lábios, mas o bom foi saber que o dia estava começando bem.

Quando virei a esquina ela ainda estava se despedindo.
Nunca mais ví a Naja.

Estranho dia, e comiseração

In Egotrip, ficção on Janeiro 17, 2008 at 7:16 pm

Era um dia complicado, dor de cabeça, mal humor, calor. Eu confesso, estava a ponto de chorar. Digno de comiseração. A empregada da minha casa veio passando mal, isso foi há um mês, e chegou febril e mesmo assim realizamos todas as ações, não reparei que ela estava doente, eu devia estar num dia daqueles, de correria, mas ela suava como um porco que acabou de trepar. Eu não reparei. Tudo bem, isso foi há um mês.
Hoje eu acordei de mal humor, tive um pesadelo terrível, sonhei que um sujeito invadia a minha casa, sequestrava duas mulheres que estavam comigo e me prendia. Ele me torturava arrancando uma das minhas orelhas, me fazia implorar pela vida, eu ficava com o rosto colado no chão e com os olhos arregalados esperando pelo pior. Em certo momento eu conseguia escapar e fugia correndo, alucinado, fechava o portão da casa e olhava para trás, ele, o antagonista, ainda não tinha me visto, porém já tinha percebido que eu havia escapado. Eu entrava num matagal e dalí prosseguia para um pedregulho, para me esconder. O maldito vinha andando. Eu achava que estava bem escondido, mas ele vinha exatamente na minha direção. Eu fugia para dentro de uma casa e encontrava uma faca que usava para perfurar a barriga do criminoso e fazer um corte em seu rosto. E então eu saia desse local, mas o criminoso ainda estava vivo e vinha andando atrás de mim, e então eu era obrigado a cortar o pescoço dele para que morresse. Eu saia, sem querer assistir a miséria daquele homem, sofrendo com a garganta cortada diante de mim. Eu voltava para minha casa e encontrava o meu cachorro, que é o cachorro que possuo na vida real. O cachoro me atacava, era o espírito do assassino que estava incorporado no meu cão! Ele me mordia, arrancava grandes nacos da minha carne, e num certo momento ele falava, com sua voz canina, que iria me destruir, completamente, porque me odiava. E então eu parava e discutia, dizia que por mais que ele me odiasse, eu nada poderia fazer, porque não sabia sequer qual era a razão do ódio que ele tinha por mim, e pedia desculpas caso eu tivesse feito algo em meu passado que o irritasse. Mas ele não me dizia nada, não explicava o porquê do ódio, eu, por não me lembrar de motivo algum, assumi que fosse um ódio gratuito. Mas aí então o demônio saia do corpo de meu cachorro e me deixava finalmente em paz, severamente danificado, psicológica e fisicamente, eu acordei, debilitado na manhã de hoje. A casa estava vazia, tive que alimentar os pássaros e os cachorros.
Olhei a caixa de correio e lá estava uma carta que eu abrí com cuidado para não estragar demais o envelope. Qual não foi minha surpresa ao saber que a minha empregada estava me ameaçando. Ela queria me processar pelo meu descaso como empregador, por tê-la feito trabalhar num dia de febre, e que isso lhe causara grandes aflições à saúde e ao psicológico dela. Quase rí, estariamos ambos tendo maus dias, em dias diferentes. A carta me deixou ainda mais abalado do que o pesadelo, ou talvez da mesma forma, não sei dizer.

Fui ao restaurante almoçar, não havia mais comida congelada em casa, e um homem de porte atlético discutia suas teorias fascistas com um outro sujeito, provavelmente seu irmão, que ouvia tudo calado, apenas comendo, sem muito gosto. Explicava ao colega que os gordos são animais, e que são sujos como são os pervertidos sexuais, pois o pensamento em comida do gordo é luxuriante, seus hábitos alimentares são bestiais e sua aparência rotunda, uma blasfêmia. O ideal grego de beleza, quase nazista. Mas para o meu espanto, na mesma mesa em que ele estava sentado comendo se sentou uma mulher gorda, ela era enorme, e era realmente feia, e comia voraz, a comida caia pelas bordas do prato, e ela repetia. Enquanto isso o sujeito atlético olhava com reprovação “Está vendo só! É o que eu estou dizendo”. Por algum motivo senti raiva de todos presentes naquela mesa, não pareciam humanos, pareciam ter sido unidos por um trágico destino, falando em Grécia, por um ato de crueldade dos Deuses. Porque estariam juntos, alí naquele momento, um homem que odeia gordos, com um antipático, com uma gorda tremenda? Mas o odiador de gordos se humanizou quando me disse: “Quando eu era como você! Eu pensava como você, e tudo o que os outros diziam parecia não me fazer sentido! Mas eu tive alguém para me educar, e vou educar você! Pára de comer essa comida agora!” Ela queria repetir o prato, mas ele não deixava.

Eu contemplava os dois brigando enquanto pensava que não havia fundamento algum na dramaturgia da vida cotidiana.

MOMENTU

In Sem-categoria on Janeiro 12, 2008 at 6:18 pm

Eu sou daqueles que pára quieto, pareço distante
O que eu to fazendo é observar o contexto, entender a situação como um todo. Eu sinto o cheiro, observo as roupas, as relações humanas, as expressões, procuro encontrar e decifrar os aspectos que compõem o MOMENTUM, decupando-os mentalmente num embaralhado sistema de edição mental analisando a possibilidade de uma remontagem, de uma manipulação, de uma reconstrução, de uma dramaturgia inserida, ou apenas de uma reprodução quase fotográfica, jornalistica, daquele instante embaralhado no tempo. Uma recontextualização das diversas partes reunidas na ordem que eu escolherei.

O MOMENTUM reorganizado é escrito, filmado, desenhado, falado e assim é expressa a sua essência. Por mais que a sequência esteja alterada, seja na ordem cronológica, na direção dos olhares, na percepção dos sentimentos ou no drama humano em sí, ainda assim é uma sequência, uma nova sequência equivalente ao momento vivido, a vida esculpida.

E assim eu passo os meus dias, reconstruindo a vida, alimentando a alma.

Menino Explosão e a nota baixa

In ficção on Janeiro 11, 2008 at 2:23 am

Lições anarquistas do menino explosão
Menino explosão e a nota baixa (001)

Oi, :-)

Eu sou o menino explosão. Algumas coisas que me incomodam, eu acabo explodindo com as técnicas que eu aprendí :) Eu tenho esse péssimo hábito de explodir as coisas. hehehe. Eu sei. É falta de educação, mas poxa vida. Eu sou uma criança e as bombas me dão uma sensação de ser mais poderoso que os adultos autoritários.

Uma vez minha professora tinha pedido pra eu trazer um trabalho mas eu não trouxe, aí ela ficou me enchendo o saco e baixou minha nota. Eu fiquei triste e quase chorei. Mas aí eu resolví me vingar. Eu pedí pra ir no banheiro. Em vez de ir no banheiro eu fui na piscina e peguei um pouco de cloro granulado (20 a 50g). Depois fui na cantina e pedí a mesma quantidade de açucar (20 a 50g). Arrumei uma garrafa de refrigerante (dois litros). Só achei a garrafa de plástico. Se eu resolvesse usar a de vidro poderia fazer um belo estrago porque o vidro se espalha e voa em alta velocidade para todas as direções causando danos enormes a qualquer coisa que esteja no caminho. Aí eu peguei a garrafa, coloquei o cloro primeiro, depois fiz uma mistura (separadamente) de água (mas com açucar (mas tambem poderia usar leite) e joguei lá dentro. A quantidade de água que eu usei tomou mais ou menos 1/4 da garrafa, é uma boa quantidade. Aí eu agitei a garrafa rapidinho e voltei pra sala como se nada tivesse acontecido. Minha Bomba de cloro estava engatilhada.

Na hora que eu sentei na cadeira, a garrafa demorou um pouco para explodir mas isso é normal, a reação não é rápida, por isso é melhor não voltar, mesmo que ache que vai dar errado. Alguns segundos intermináveis se passaram e a garrafa explodiu. KABUM ! A minha professora deu um grito tão alto que eu achei que ela ia morrer do coração.

Ela olhou para mim com uma certa suspeita. Eu olhei de volta com um sorrisinho educado. As minhas notas não aumentaram mas acho que ela entendeu o recado porque apesar de ter ido mal em todas as provas eu passei de ano numa boa. Ela foi esperta, porque sabe que o carro dela seria o próximo alvo caso meus pais soubessem de alguma coisa ;-)

Das próximas vezes vou contar algumas das minhas experiências com outras bombas :) Você sabia que para fazer napalm é a coisa mais fácil do mundo? Um dos ingredientes pode ser suco de laranja. Legal né? :-D

Será que ele voou?

In ficção on Janeiro 5, 2008 at 1:51 pm

Augusto tomava cerveja e ouvia mpb num barzinho a beiramar quando da telha cai um pássaro, direto no chão. Ele se aproxima e segura o pequeno filhote, cheio de pulgas, que mal sabe piar, está abrindo a boca pedindo por minhocas.
Augusto jura de pés juntos que tentou colocar o passarinho de volta no seu ninho escondido no teto do bar, mas esse rebelde voltava a cair. A solução foi leva-lo para casa, embrulha-lo com jornais e isopor e amassar um pouco de goiaba e maracujá para alimentar o bichinho.

No dia seguinte Augusto acordou tarde, foi direto olhar o embrulho do passarinho, não estava mais lá. Maria é o nome da empregada da casa, ela fala num tom monocórdio e lento, e as vezes quando você diz alguma coisa ela responde automaticamente, como se não tivesse entendido nada, mas responde do mesmo jeito.

_Maria! Você viu um passarinho aqui?

Maria se aproxima, faz uma cara de sonsa e responde no monotom, lentamente.

_Que passarinho?

Augusto imaginou: Essa mulher jogou fora o embrulho com o passarinho e nem sequer viu que ele estava lá dentro.

_Maria, é porque ontem eu encontrei um passarinho que fugiu do ninho e decidi abriga-lo aqui em casa. Eu deixei ele guardado aqui.
_Num embrulho de isopor?
_ISSO!
_Será que ele voou?

Como assim será que ele voou? Pensou Augusto, que tipo de pergunta é essa?
_Não Maria. Ele era bem filhote, as penas estavam se formando. Além do mais ele estava preso.

Maria ficou calada, como se estivesse engolindo a culpa. Aquela cara de sonsa.
_Vem cá. -Ela disse.

Augusto foi atrás de Maria, percorreram a cozinha, saíram de casa. O sol rachava lá fora. Maria apontou um toco de madeira e o passarinho estava estirado, duro como uma pedra debaixo do calor do sol quente. Augusto olhou para o bichinho, Maria pegou nele sem nenhum cuidado, e fez o pescocinho inerte se mover. Augusto sentiu uma fisgada no coração, era de família, quando viam um animal doente tinham que cuidar, e o peso da responsabilidade doia porque geralmente o animal morria.

_Maria. Quando você tirou ele da caixa ele já estava morto?
_Ahhh. Já.
_Já estava morto? Tem certeza?
_Ahhh. Estava quase morto.

Que raiva Augusto sentiu. Pensamentos infames, “eu podia pega a bicicleta dela e esconder em algum canto. “Augusto, aonde está minha bicicleta?” ela perguntaria. “Será que ela não saiu andando?”, e então a levaria em direção a bicicleta e a roda estaria quebrada, “Augusto, a roda já estava quebrada antes?”, e Augusto responderia “Ahhh.Estava quase quebrada”.

Maria jogou o bichinho morto na lixeira, Augusto ficou parado em frente ao toco de madeira ensolarado.

Aquela mentecapta, Maria.

ilustração: Garden and Birds Nest – Maria Eva