Gustavo

Posts de Novembro, 2007

A laranjeita do Pátio

In ficção on Novembro 26, 2007 at 7:58 pm

A laranjeira do pátio da penitenciária e o calor eventual são as únicas ligações de Michigan, cidade ao Centro Oeste dos Estados Unidos, com o Brasil

Inácio Siqueira, um Paulista de São Paulo Capital veio para cá quando foi preso em 1960, por posse de documentação ilegal. O Brasileiro gostava da boa cozinha, especialmente da cozinha de sua pátria natal, gostava especialmente das frutas daqui, eram importadas do Brasil, mas eram melhores, “só ficamos com o resto por lá” dizia Siqueira. Quando Inácio foi preso em 1962, trouxe consigo alguns caroços de frutas diversas e plantou todas no pátio, no horário de folga.

Só sobraram a laranjeira e o limoeiro, e depois de 43 anos a laranjeira já bate no alpendre acima da janela da cela 3B. Dentro da cela, hoje, residem os dois prisioneiros, Erving Sagan e Michel Goffman.

O dia está calorento em Michigan, os dois prisioneiros sentados sob a janela refrescam-se no chão frio onde a goteira respinga, constante, vazando da caixa d´água. Erving está inquieto por uma conversa, sempre foi conversador, não escolheu a profissão de barbeiro a toa, nesta cidade pacata todos sempre tiveram muito tempo para prosear. Erving já está preso há um mês e até hoje não trocou uma palavra com o companheiro de cela, para um homem conversador como Erving, isso é tortura. Suas façanhas e peripécias, quem saberá delas?

__Calor né? – Abrupto, Erving disfarçou casualidade.

Michel olhou para ele com a mesma expressão de todas as horas, de todos os dias.

__Nada pra fazer nesse lugar. Se tivesse uma chuva pelo menos era fácil de dormir. Mas nem isso. O jeito é jogar conversa fora… Porque cavar um buraco daqui do terceiro andar não leva a gente pra lugar nenhum.

Erving forjou uma risada ardida de vontade de rir, mas ainda amarela. Silêncio. Erving prosseguiu.

__Sabe como eu vim parar aqui? Já que você não fala nada, vou levar na de que quem cala consente. Eu roubei a televisão e o dinheiro de uma loja. Mas não matei ninguém. Quem matou foi o cara que assaltou a loja logo depois de mim. Ele não acreditou que a loja já tinha sido saqueada. Horas depois, já estava assistindo o jogo de hockey na TV nova, que imagem cara! Que imagem! E a polícia bateu lá em casa. Eu fiquei surpreso quando minha mãe deixou que eles entrassem e nem chorou quando eu fui embora. Sabe… tem vezes que eu penso que minha mãe que fez a denúncia contra mim. A televisão é um trambolho muito grande pra se esconder da própria mãe. Mas poxa, uma mãe não faz uma coisa dessas com um filho! Como é que pode? Mas ela veio me visitar um dia, eu nem comentei nada. Se foi ela, eu perdôo. Mãe é mãe né?

__Eu Matei a minha mãe.

Rude e grave, foi assim que Michel falou. A voz preencheu a cela toda. Calafrios! Dava calafrios. Erving conteve o espanto, nem tanto por Michel ter matado a mãe, mas sim por ter falado pela primeira vez. Erving prosseguiu entusiasmado, buscando a normalidade no tom de voz.

__E porque você fez isso cara? Porque matou sua mãe?
__Porque ela cozinhava mal.
__Mas isso não é motivo suficiente pra matar a mulher que te pariu porra! Aliás, esse motivo é o maior clichê criminal da história. O personagem bidimensional, parcial e sem profundidade com essa desculpa, pra dizer que é mau, que mata a mãe por um motivo qualquer.
__É motivo sim! – Calafrios! – A pessoa é o que ela come e mamãe estava tentando me transformar em um babaca. Ela me fazia comer as coisas que os babacas comem.
__Como assim? Ela queria te transformar em um babaca por causa da comida?
__Tem pessoas que são bem temperadas, vivazes e coloridas, como os brasileiros. Outras pessoas são excessivamente doces ou salgadas e existem algumas pessoas que são insossas, como os Russos ou os Franceses. Sabe comida de avião? Era assim a comida de minha mãe. Eu nunca viajei de avião, mas eu trabalhei na livraria do Aeroporto e descolei um prato com uma aeromoça loirinha, que estava fodendo no banheiro sempre que o vôo dela fazia escala aqui na cidade. Era uma comida sem graça, e aos poucos eu fui perdendo o tesão por aquela mulher também. Como eu podia encontrar alguma alegria em viver se a comida da minha casa era uma porcaria insossa? Eu me tornei insosso também, porque eu não podia desfrutar as refeições. Eu sentia inveja do meu vizinho italiano, da comida dele de todos os dias, da mulher de seios fartos que ele tinha. Eu fui almoçar lá algumas vezes, e como eram saborosas as massas preparadas pela dona Lola! Eu tive um caso com a Dona Lola. Que italiana! Eu amei aquela mulher! Passei a almoçar todo dia na casa dos casal, me tornei amigo do marido dela, e como eu apreciava as iguarias da casa. O marido dela, é claro, não me notava apreciando a delícia de decote da esposinha cozinheira. Mas foi o que eu fiz, e foram as melhores refeições da minha vida. Aquilo poderia ter durado para sempre. Mas um dia mamãe resolveu que eu não deveria mais ficar tanto tempo na casa dos vizinhos, comendo as coisas de lá. Eu já tinha vinte e dois anos, era idade mais do que suficiente para fazer o que eu quisesse, mas mamãe insistia que eu deveria continuar em casa, vivendo sem tempero, sem gosto pela vida. E tive que abandonar meu amor, a Italiana. Que tipo de mãe é esta? E um dia eu matei a minha mãe, por causa disso.

Erving não tinha o que dizer. Michel prosseguiu.

__Eu odeio a comida da cadeia, mas sabe porque eu pedi a transferência pra essa cela?
__Não.
__Por causa dessa laranjeira, ela tem uma grande história, quem me contou foi o diretor da prisão. O Brasileiro que plantou a laranjeira se tornou o cozinheiro do presídio na década de 60, ele fazia feijoada, uma comida típica do Brasil, e segundo o diretor foi a época em que não houve nenhuma rebelião no presídio, estavam todos felizes com a feijoada brasileira, uma mistura, uma gororoba saborosa. Se eu fosse nascido na época, teria sido preso só para provar algo da comida daquele povo feliz.
__Legal… então se não fosse a laranjeira você não estaria aqui?
__É.

Erving queria conversar sobre futilidades, não se interessava por culinária. Queria falar de mulheres, sobre o que faria depois da prisão, sobre fugas impossíveis, mas mal começou a conversa e já estava de saco cheio do falatório de Michel. Além do mais, Michel é um cara que matou a própria mãe, não é um parceiro de conversas para um ladrão meia boca como Erving. Michel definitivamente não era uma amizade em potencial.
__Novato. Que tal você subir na janela e pegar uma laranja para mim? – Perguntou Michel com a voz poderosa.
__O que?
__Eu falei que você deve pegar uma laranja para mim. É só esticar seu braço na janela.
__Porque você não pega a sua?
__Eu gostei de conversar com você, mas não é só por isso que o seu papel de novato é melhor do que o meu, de veterano. E se você não pegar uma laranja para mim vai virar a substituta de Italiana nas minhas noites de solidão.

Erving teve que subir na janela, com dificuldade porque a janela ficava lá no alto, esticou o braço até a árvore e recolheu a única laranja que estava por ali e jogou para Michel.

Erving quis nunca ter iniciado a conversa, a “intimidade” não vale a pena. Até então nunca tinha recebido uma ordem dentro da prisão e ficou com mais raiva ainda do maldito Brasileiro que plantou aquela árvore miserável.
“Brasileiro fudido, raça nojenta!”, pensou Erving.

Obs: A ficção pode tudo mas saiba que uma laranjeira teria dificuldades de brotar no solo de Michigan, o clima de hoje, só para exemplificar, é de 0 graus, com neve

Bons tempos em Sampa

In Sem-categoria on Novembro 25, 2007 at 4:40 pm

São Paulo era uma cidade assustadora e ao mesmo tempo maravilhosa.
As vezes eu acordava mal, com preguiça de sair da cama, enquanto isso o dia estava comendo lá fora. As pessoas não paravam.
Sempre que podia, nos domingos, eu acordava cedo, visitava a feira de antiguidades, ficava impressionado com os objetos que eu não podia comprar, ficava desejando para mim uma daquelas câmeras de filme Super 8 por R$120,00 que eu não tinha no bolso. E depois ia passear na Paulista, sempre tinha alguma coisa por lá.
Nos dias de semana era a Academia de Cinema, onde eu estudava, Centro Cultural Vergueiro, onde eu lia, assistia e me divertia, e as ruas de SP.
As ruas de SP são repletas de todo tipo de acontecimentos, há vida borbulhando, você sente a respiração da cidade, apesar da impossibilidade causada pela poluição.
Sinto saudades, este video é de um dos dias bons e dispostos, de quando gravávmos nosso longa metragem “Todos os dias”, que hoje está em vias de finalização.

EGOTRIP EM HIGIENÓPOLIS

Transversalidade da Poética Visual

In Sem categoria on Novembro 25, 2007 at 12:51 pm


Réquiem
“As crianças acreditam em papai Noel, os adultos acreditam em Deus. As crianças costumam criar amigos imaginários, os adultos tentam recriar os amigos perdidos.”

Curta de animação de 10 minutos, roteiro de Loureço Mutarelli. Réquiem é a narrativa de uma história autobiográfica e sensível, com os desenhos inestimáveis de Mutarrelli. A trajetória de um colapso emocional resignificado. Com obras em teatro, literatura, incluindo seus fabulosos HQ’s, e o filme o Cheiro do ralo. Lourenço (Selton Mello) é o dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele desenvolve um jogo com seus clientes, trocando a frieza pelo prazer que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo Lourenço passa a ver as pessoas como se estivessem à venda, identificando-as através de uma característica ou um objeto que lhe é oferecido. Incomodado com o permanente e fedorento cheiro do ralo que existe em sua loja, Lourenço vê seu mundo ruir quando é obrigado a se relacionar com uma das pessoas que julgava controlar.
-Ganhou o Prêmio Especial do Júri e o de Melhor Ator (Selton Mello), no Festival do Rio. – Ganhou o prêmio de Melhor Filme
- Júri Oficial e o Prêmio da Crítica – Nacional, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Pois estes são alguns ditames básicos para se conhecer o artista e seu alcance, Mutarelli e suas faces, suas fases e sua riqueza criativa. O curta, categoria animação é apenas mais uma mostra da tamanha expressividade desta criatividade, além disto um belíssimo trabalho de fotografia e produção, Réquiem parece ser aquele tipo de acontecimento chamado fenômeno, onde a união de faculdades irmãs casam perfeitamente. Não é só uma outra maneira de fazer um registro expressivo, mas justamente uma validação da arte conjugada enquanto registro, Réquiem é por certo um momento a ser guardado na mente coletiva, nos receios e ambigüidades humanas.

Ficha Técnica
Produção
Mariana Abbade Fotografia Frederico Borba Roteiro Lourenço Mutarelli Animação Felipe Araújo Montagem Ivan de Angelis Música Bruno Marcus, Marcos Braz

“Me desculpe, se desta vez não lhe apresento um final surpreendente ou personagens interessantes. Esta é a última homenagem que um homem sem fé, presta a um grande amigo.”

Perfil Cinemático: Dalson Carvalho

In Sem categoria on Novembro 23, 2007 at 5:39 pm

Revisão: Fernanda Duarte

Dalson Carvalho é um diretor de cinema independente piauiense de 24 anos, é formado pela Academia Internacional de Cinema de São Paulo com especialização em fotografia e edição, mas acredita que sua maior escola é a vida. Na pré adolescência assistiu o filme Ghost – Do outro lado da vida, em seu primeiro e mágico contato com o aparelho videocassete de duas cabeças. Pegava emprestado o videocassete da irmã e alugava filmes na conta que sua tia, Vilma, abriu de presente para ele em seu aniversário de doze anos, em uma locadora de VHS. Economizava o troco da merenda na escola para alugar filmes no fim de semana, e como os filmes de terror são os mais baratos, eram estes os mais assistidos, alugava na promoção leva 3 paga 2. O gênero do filme não importa, o que encasquetava a mente do jovem Dalson era a questão “Como isso tudo foi parar dentro dessa fita?”. O princípio do pensamento cinematográfico já se instalava em sua cabeça. As câmeras alucinantes e o terror esculachado de Evil Dead, filme do diretor Sam Raimi, despertaram a noção da presença da câmera, e as peças começavam a se encaixar. Com 14 anos Dalson decidiu “vou copiar o mundo com a câmera para uma fita de video”.

Filmar em Piauí
Filmar no Piauí se mostrou uma tarefa difícil. “A iniciativa privada é ignorante culturalmente, e os interesses nos lucros superam qualquer desejo de se formar indivíduos de pensamento lúcido”. Dalson caiu fora, foi tentar o mundo.

Estrelas de rolliude e filmes artísticos
A mãe de Dalson é o seu incentivo. Foi ela quem comprou um vídeo cassete de quatro cabeças, e eles criaram o hábito de assistirem juntos aos filmes do Bruce Willis e do 007. Até hoje fazem isso, mas a modernidade chegou, assistem em DVD hoje em dia. “Eu penso em fazer um filme para ela” Diz Dalson, “pena que eu não goste mais de filmes de ação, nem de estrelas rolliudianas, por isso, pretendo criar algo mais artístico, que possa toca-la da mesma forma que o cinema me tocou”.

Egos
Para Dalson a falta de cooperação está entre os piores problemas que se pode ter em um set de filmagem, mas no cinema esse problema é acentuado “é um encontro de egos” diz.”Em alguns filmes que trabalhei, o filme fica em segundo plano, dando espaço para o desfile circense de celebridades que tudo sabem”. Mas não há outra forma de aprender este ofício, o jeito é “experimentar, com o coração e a mente abertos”.

O Elenco no lugar do Elenco
Dalson não tem muitos problemas com atores. “Utilizo o método da amizade. Deixo que eles entrem na minha casa, conheçam a minha família, criando uma relação íntima. Dessa forma eu vejo logo quem vai dar certo e quem não serve para o filme”.
Nos testes de elenco Dalson e o ator ou atriz saem para algum lugar, conversam e interagem, conversam sobre assuntos diversos. “Dessa forma”, diz Dalson, “se um ator causa algum problema, me sinto aberto o suficiente para lembra-lo de sua posição. Segura a tua onda!”.

Filmes Independentes
Para filmar independentemente é preciso dinheiro. Dalson descobriu uma forma muito independente de filmar, ele oferece cursos de fotografia, roteiro, preparação de atores e cobra pelos cursos. Ele investe o dinheiro dos cursos nas produções cinematográficas, “os filmes se adaptaram ao formato 300 contos”, diz Dalson.

Edição
“Durante as filmagens do meu primeiro longa-metragem Depois de Nós, usei a câmera parada, evitando possíveis cortes de edição. O espectador tem a liberdade de contemplar os quadros como se fossem pinturas”.
“Numa palestra com Daniel Rezende sobre edição, questionei a manipulação do corte, aquilo que somos obrigados a ver, porque alguém está nos dizendo para onde olhar”.
“Com o filme Depois de nós, procurei me aproximar do poder da câmera estática. O expectador também é responsável pela edição, assim como na pintura, você monta o filme. Você decide o que olhar, quando quiser, e em qualquer momento”.
“Os filmes de Goddfrey Reggio (Koyaanisqatsi, Powaqqatsi, Naqoyqatsi), não representam só uma libertação da manipulação, como também a construção de uma experiência totalmente nova, supera o próprio cinema, colocando-o no patamar de arte, com vibrações inferiores e mortais, aprisionada num ambiente bi-dimensional”, afirma Dalson.

Filmografia:
Longas:
Depois de Nós (Ficção – São Paulo 2006 – Direção Roteiro)
Todos os Dias ( Comédia – São Paulo 2006 – Fotografia)
O Messias e o Narrador (em produção. Comédia – Teresina 2008 – Direção, Roteiro)

Curtas:
Sem Sentir (Experimental – Teresina 1998 – Direção, Foto, Roteiro)
Limítrofe (Drama – Curitiba 2005 – Direção)
Tormenta (Ficção – Curitiba 2005 – Roteiro)
Zilá (Drama – São Paulo 2006 – Fotografia)
A Conquista do Espaço (Ficção – São Paulo 2006 – Roteiro, Fotografia)
A Casa Rosa às 5inco Horas (Experimental – Teresina 2007 – Direção, Foto, Roteiro)
Corpos Humanos (Ficção – Teresina 2007 – Direção, Foto, Roteiro)
Quem São Os Mestres? (em produção, Documentário Experimental – Teresina 2007- Direção, Foto, Roteiro)

Curta – A CONQUISTA DO ESPAÇO
( Fotografado e escrito por Dalson )

Confira o texto na íntegra

Diário de um quase desvirginador

In ficção on Novembro 16, 2007 at 3:53 am

Nem toda virgem faz juz ao feitiche que se tem por elas.

A primeira virgem que eu quase tive foi no parque da cidade de Brasília. Próximo ao Lago, onde os casais se agarram e os patos mendigam por pipocas. Os assuntos dela não me interessavam nem um caracol. O meu interesse era no conteúdo por baixo daquelas roupas.
Pús-me a passar minha mão sobre o corpinho virginal e ela me deu um empurrão quebra-tesão. Eu me afastava, mas voltava, afastava e voltava. Óbvio que eu não conseguiria nada demais em pleno dia no parque da cidade, mas aproveitei o quanto pude. Eu pedí, meio que de sacanagem, desculpas, por tentar agarra-la e por ter sido chato, e ela disse que tudo bem “o seu papel é esse, o meu papel é não deixar que você cumpra o seu papel.” Que bom que todos sabem os seus lugares. Trata-se da homogenia fálica.

Eu não quis me encontrar novamente com ela. O motivo? Não, não foi o fato dela ser virgem, eu tinha ficado puto mesmo era com o estranho senso de humor virginal daquela garota, ela me contou o final de um filme que eu queria muito ter visto. Isso me deixou irado. Eu pedí que não contasse, mas ela contou, só de maldade. Que espécie de diversão sádica é essa? É a diversão de quem não faz sexo há mais de 20 anos.

Passei a reparar em outras virgens. Sandy, com aquela carinha de virgem gripada não engana ninguém. A Britney, bom, essa não é virgem. Elas são raras mas nos cercam, não é a pureza que define uma virgem, é o senso de humor semi-retardado. Mas eu tenho que concordar que o fato das virgens nunca terem conhecido o sexo faz delas pessoas mais agradáveis do que as mal-comidas. Estas sim são chatas ao extremo, pois por saberem o que estão perdendo, descontam a raiva reclamando da vida, reclamando de tudo.

A virgem de ontem não foi excessão. Além de virgem, é crente. Crente e virgem, só falta ser petista para completar a trinca-fanatismo.

Combinamos às 8 horas, mas choveu onde e eu me atrasei em casa. Eu já queria desmarcar, ela me ligou, eu disse “Eu já to arrumado, e tô esperando na parada de ônibus há um tempão, mas não passa nenhum ônibus”. Mentira minha, eu estava na frente da minha casa com bermuda e sem camisa, mas o cachorro do vizinho latia, ela pergunta “E esse cachorro aí?”. E eu disse “É um cachorro que tá aqui”. Não dei mais explicações, mas ela insistiu “Tudo bem, eu vou aí te buscar!”. Eu tive medo, são lendárias as histórias das virgens que perpetuam paixonites agudas e obsessivas pelos seus desvirginadores (se é que eu faria isso), e eu não queria que ela soubesse o meu endereço. Eu me apressei “Não! Espera aí! Já está vindo um ônibus, me espera perto da catedral”. Corri para dentro de casa, vesti uma roupa, não dava tempo de tomar banho, passei perfume, e corrí para a parada de ônbius. Ela ainda me ligou mais umas três vezes enquanto eu realmente esperava pelo ônibus. “Já esta vindo” eu dizia.

No local marcado ela elogiou o meu perfume. “Sorte” pensei, “ela não percebeu que estou sem banho”. Enrolei até que resolví, dei um beijinho nela, ela quase me engole a cabeça. O beijo para as virgens nunca é banal (tenho isso anotado). Ela tem 27 anos, pasmem! Uma mulher de 27 que nunca fez sexo precisa se saciar de alguma forma, o beijo para as virgens é uma alegoria ao sexo. Conheci uma, há tempos atrás, que me disse, com ar de filósofa “o beijo é o núcleo do relacionamento”. Elas tem essas coisas. Elas não admitem que sentem tesão, mas o que acontece entre o corpo e a calcinha, só a xoxota é quem sabe.

Propûs sem escrúpulos que nos beijassemos dentro do carro, ela não queria “é perigoso”, mas a música ambiente era um funk carioca pornográfico no som importado do porta malas do carro de algum playboy, espécie em abundância no Distrito Federal. Por causa da música entramos no carro dela. No pequeno espaço eu levei uma cabeçada não intencional, ela tentava se virar e me acertou a testa. “Nem doeu” eu disse, “Ugh”. Começamos a nos beijar, mas ao mínimo sinal de mão-nos-peitinhos ela já se afastavam de mim e dava um grito que trincava o meu tímpano “Meu Deus! Você tá muito assanhado pro meu gosto”. Se eu fosse um malandro eu diria “Mas gata, é assim que eu sou”. Fora isso, os crente são autores das maiores façanhas no que se refere a utilizar o nome de Deus em vão, eles convocam o Deus todo poderoso até para passar numa prova de vestibular. “Sangue de Jesus tem poder” ela dizia a cada trinta segundos. “Sua miserável dos infernos” eu respondia mentalmente, e ela, percebendo uma expressão em meu rosto, que ela definia como “cara de cachorro pidão”, me abraçava e eu pensado “Que diabos eu estou fazendo aqui?”. Se vocês vissem minha cara saberiam, não é cara de cachorro pidão, é cara saco-cheio.

Por sorte, a coisa começou a ficar boa quando os vidros do carro começaram a embaçar. Fui percebendo que só era proibido tocar os peitinhos com a mão, mas a minha região pélvica podia fazer nela uma massagem genital, isso era permitido. E assim aproveitei como pude, simulei um sexo vestido.

E no fim a bomba. Eu não estava de carro. Ofereci a ela 10 reais para que me deixasse em casa. E ela disse “Faz o seguinte, paga o taxi com esses 10 reais que ele te leva. Pode ser?”. Mais uma vez o sádico humor das virgens. Contrariado eu disse que “tudo bem”. Ela me deixou na rodoviária e me perguntou “Vai ter repeteco né?”. “No seu rabo que vai” foi o que eu pensei, o que eu disse foi “É… vai…”.

Eu não desvirginei nenhuma das duas, apesar dos lucros eróticos que obtive. Hoje eu percebo que dos dois um:
Ou as virgens são incrivelmente inteligentes para se preservarem por tantos anos, ou são realmente umas bestas completas.

Eu te Ex-Amo

In Sem categoria on Novembro 14, 2007 at 5:56 pm

“O mundo novo” é o curta dirigido por Jean-Luc Godard, para a coleção de curtas ROCOPAG, que reune o já citado, Godard, Roberto Rosselini, Pier Paolo Pasolini e Ugo Gregoretti.

Certo dia uma bomba atômica explode a mais de mil metrôs de altura sobre o céu de Paris. Especialistas afirmam que a bomba não causou nenhum dano e não deixou vestígios de sua explosão, porém um sujeito está atentamente observando o dia-a-dia da cidade de Paris e percebe que tudo está mudado. Tudo está da mesma maneira, mas está mudado. A moral, a liberdade e a humanidade não são mais as mesmas, as pessoas estão diferentes, se tornaram todos autômatos, sem amor, robóticas. O sujeito, inominado, é apaixonado por uma mulher, já há algum tempo, e tem um relacionamento encontrá-la e pergunta se ela ainda o ama, e ela responde “Eu o ex-amo” com total frieza.

O filme, também muito frio, é composto de câmeras estáticas e movimentos laterais. É interessante a forma como Godard utiliza o movimento pan da câmera (movimento lateral com câmera presa ao tripé) para descrever os desencontros entre os personagens. Ele conta uma história fantástica dentro de uma narrativa absolutamente diária, dura e seca. Os quadros ficam vazios em alguns momentos, enquanto um personagem entra para pegar algo no quarto, um outro personagem passa em primeiro plano, e o segundo sai pela porta, os autores ficam ausentes na cena. O trabalho de marcação com os atores e a câmera foi extremamente bem realizado, apesar da atuação estranha em certos momentos, como por exemplo, quando a mulher abraça e beija um completo desconhecido com as mãos cruzadas, a intenção da cena é a de demonstrar a mecanicidade das relações humanas . A Paris retratada, como a de todos os dias, não mudou nada com a explosão da bomba, porque a explosão não atingiu as coisas, e sim a alma humana, estão todos mortos.

Excelente curta, muito estranho, vale a pena assistir como uma pesquisa de linguagem.

Trecho de entrevista com Godard:

Quadro “Cinema” do programa “Espaço Unisanta” sobre o diretor de cinema francês Jean-Luc Godard, produzido e narrado por Ricardo Prado.

Cartão Vesa

In ficção on Novembro 12, 2007 at 1:12 pm

O velho espera, entediado, no caixa do supermercado. Batuca com os dedos.

O lojista chega correndo, traz consigo uma colher, presa entre o polegar e o indicador.

VELHO: Po! Eu não vou comprar mais essa colher.
LOJISTA: Mas eu fui lá só pra ver o preço dela pra você.
VELHO: Eu sei, mas você vem com o dedão bem em cima da parte de comer.
LOJISTA: AH. É isso? Tem problema não, é só dar uma lavada.
VELHO: Uma lavada? Uma lavada? Você tá com a mão suja de dinheiro, fica mechendo com dinheiro o dia inteiro, dinheiro é merda pura. É a mesma coisa de você vir com a mão suja de merda e me dar a colher. Dá no mesmo.
LOJISTA: Não. Não é bem assim. Minha mão tá limpa.
VELHO: Você é ateu?
LOJISTA: Porque?
VELHO: Porque parece. Você só acredita no que vê. Sua mão nesse instante está borbulhando de micróbios sujos nadando nas banheiras de oleosidade dentro de seus poros e agora alguns deles estão tomando banho de sol em cima da minha colher.
LOJISTA: Tá exagerando.
VELHO: Exagerando? Se eu te desse merda para comer o senhor comeria?
LOJISTA: Não mas…
VELHO: Pronto! Pronto. Você mesmo adimite que não comeria merda. Mas por outro lado você quer que eu chegue em casa, coloque meu cereal na tijela, encha a vasilha de leite e vá com essa colher suja de vermes fecais.
LOJISTA: Vermes fecais? Minha mão não é tão suja.
VELHO: Dinheiro e fezes é quase a mesma coisa meu amigo. Se você meche com dinheiro meche com merda. A única diferença entre dinheiro e merda é que o dinheiro a gente luta pra conseguir, a merda a gente luta pra se livrar.
LOJISTA: Olha. Peço desculpas, se não quiser levar a colher não leva.
VELHO: Não é bem assim. Agora vou ter que denunciar o senhor ao procon por tal porcaria, vender colheres sujas de merda.
LOJISTA: Olha pra colher. Você tá vendo algum vestígio de merda aqui?
VELHO: É um ateu incurável.
LOJISTA: Toma! Toma! Fica com a colher para o senhor. Não precisa pagar. Deixa que eu pago a colher.

O lojista pega o dinheiro do bolso e coloca em cima do balcão.

LOJISTA: Agora eu to curioso pra ver como você vai pagar o resto das compras sem pegar na merda.

O velho abre a carteira, hesita por um momento.

Letreiro:

“Compras da semana: 40,00 R$
Colher: 2,50 R$”

O velho tira da carteira o seu cartão VESA e entrega ao caixa.

Letreiro:


“Sair com a dignidade em alta… Não tem preço.”
VESA, Não deixa você na merda.

In Sem-categoria on Novembro 11, 2007 at 4:20 pm

Divertido exemplo de criacionismo


O raciocínio cristão enxerga o mundo com olhos caricatos…
Leia o resto dessa história aqui:
http://www.evo.bio.br/LAYOUT/CriaExemplo.html

A idéia é criar uma série de youtube onde um dos personagens é um crente. E ele contesta todas informações, por mais sensatas que elas sejam, com argumentos tipicamente “crentes”. E tampa os ouvidos quando vê que não tem razão.

Dá uma série de temas

crente x ciência
crente x rpg
crente x sexo
crente x diversão
crente x mundo

Os crentes são figuras engraçadas. Mas ao mesmo tempo que são engraçados, tornam-se perigosos, pois sua falta de bom senso as vezes é compartilhada por uma maioria tremenda. E se vivemos numa democracia, os crentes facilmente podem vencer qualquer debate, não por boa argumentação, mas apenas pelo fato de serem a maioria.

Culinária Mentecapta

In Sem-categoria on Novembro 11, 2007 at 3:56 pm

Tu já cagou lumbriga?

Lá no norte fazem um buraco no tamburete e a criança senta pra cagar as lombrigas

Lombrigas e leite de pênis, que bela mistura.

Seria macarrão ao creme de leite.

Mas quem comeria? Em que restaurante serviriam ?

O povo do nordeste come!

Preconceito!

Claro que não. É a realidade. Eles amam comer verme do mar!

Porque não o povo do Lago Sul? Eles são finos! São a Avant Garde da culinária

Porque o povo do bairro fino eu não conheço, o povo do nordeste eu conheço.

1° Promoção do Curtablog

In Sem-categoria on Novembro 4, 2007 at 2:47 am

CONCURSO IDIOTIA:
Crie o filme mais idiota


* Crie e envie um argumento idiota para um filme,coloque seu nome completo e idade.
* O Argumento deve contar resumidamente a história do início ao fim, abusando dos níveis de idiotice aceitáveis tolerados pela sociedade
* O argumento deve ter no máximo uma lauda de word ( Times new roman 12 )
* Aqueles idiotas o suficientes para enviarem seus argumentos, correrão o risco de terem sua idéia filmada, passando a vergonha de ter seu nome creditado no filme
* O ARGUMENTO TEM QUE SER ORIGINAL e pode ser sobre qualquer gênero.
* O argumento idiota escolhido será postado nesse blog.

Um júri(colaboradores do blog)seleciona o argumento mais idiota para um filme.

O escolhido ganha um dvd lacrado do filme Trainspotting- 1996- danny boyle

Email para o envio do argumento até dia 25/11 - Resultado dia 30/11.

rodrigohuagha@gmail.com

Exemplo de uma argumento bem idiota para um filme:
Erin (Demi Moore) perde o emprego de secretária no FBI por causa do marido, um pequeno golpista. Por não ter emprego, perde a custódia da filha. Começa a trabalhar como stripper e se vê às voltas com o ex-marido trapalhão, um congressista tarado e um detetive que quer ajudá-la.O importante é que a Demi Moore tire a roupa,esse é o argumento principal do filme,o resto é desculpa, só para o filme ser feito.

Participem e Divulguem

Esperamos pela sua idiotia

Pastilhas

In ficção on Novembro 1, 2007 at 5:31 pm

Eram duas da manhã, eu queria ficar loucão

Visitei a rua de baixo e paguei sessenta reais em dois comprimidos de cor púrpura, em alto relevo o desenho de um elefante.

Não provei. Deixei os comprimidos embrulhados num recorte de jornal, coberto pelas roupas. Confesso, a consciência não me pesou, mas naquela madrugada aconteceu uma coisa bem pior, eu acordei e suava. Suava muito.

Tão grande o mal estar, tão grande a dor, me tornei nu e me levantei com um gosto ruim na boca. Um gosto horrível, o pior que já sentí. E o gosto estava por todo meu corpo, inexplicável, a pior sensação que já senti. O tempo me assustava ainda mais, será que teria fim? Três e meia da manhã.

Sob estresse latente devido ao repentino ataque de pânico, pensei que aquilo seria culpa dos comprimidos, mas eu não tinha nem sequer provado nenhum dos dois. Havia no máximo tocado com os dedos em sua superfície e levando a mão à língua. E agora este colapso nervoso.

Minutos depois, com o rosto lavado já estava mais calmo. Deitei, temia acordar novamente, com a mesma sensação, o gosto ruim. Acordei, intacto. Um junkie-wannabe da faculdade me pagou dez reais a menos pelo preço que eu paguei. “amanhã eu trago a grana’” ele disse. “Amanhã eu trago a bala” eu disse.

Voltei pra casa, no caminho uma blitz policial. Eu tremia de medo, as balas ainda no bolso, deveria ter dado, jogado fora. Nem olharam para mim, mas eu não ousava verificar com os olhos se já estava tudo certo. No outro dia fiz o mesmo caminho e vendí as pastilhas.

Um mês depois perguntei ao junkie-wannabe sobre qual teria sido o destino da bala. “Perdí cara! Eu levei para a balada e deixei cair!”.

Pensei em algumas das milhares de possibilidades, foi engolida por um cachorro esfomeado? Vou esmagada pelos pés de uma criança que voltava da escola? Foi encontrada por um casal de idosos e degustada no jantar? Foi pelo ralo. Não importa. “Me devolve o dinheiro” ele disse brincando. Eu quase devolví, tão limpa estava minha consciência.

Dias depois, tive o mesmo pesadelo, mas permanecí na cama. Sonhei que estava morrendo novamente. O gosto ruim na boca. Um gosto ácido e dolorido. O problema não era com as balas, apesar de saber que não deveria tê-las provado. O problema era a apatia que me levou a ir atrás das balas, esse sim foi o motivo.

O pesadelo de morte, um lembrete de que ainda estava vivo.