A laranjeira do pátio da penitenciária e o calor eventual são as únicas ligações de Michigan, cidade ao Centro Oeste dos Estados Unidos, com o Brasil
Inácio Siqueira, um Paulista de São Paulo Capital veio para cá quando foi preso em 1960, por posse de documentação ilegal. O Brasileiro gostava da boa cozinha, especialmente da cozinha de sua pátria natal, gostava especialmente das frutas daqui, eram importadas do Brasil, mas eram melhores, “só ficamos com o resto por lá” dizia Siqueira. Quando Inácio foi preso em 1962, trouxe consigo alguns caroços de frutas diversas e plantou todas no pátio, no horário de folga.
Só sobraram a laranjeira e o limoeiro, e depois de 43 anos a laranjeira já bate no alpendre acima da janela da cela 3B. Dentro da cela, hoje, residem os dois prisioneiros, Erving Sagan e Michel Goffman.
O dia está calorento em Michigan, os dois prisioneiros sentados sob a janela refrescam-se no chão frio onde a goteira respinga, constante, vazando da caixa d´água. Erving está inquieto por uma conversa, sempre foi conversador, não escolheu a profissão de barbeiro a toa, nesta cidade pacata todos sempre tiveram muito tempo para prosear. Erving já está preso há um mês e até hoje não trocou uma palavra com o companheiro de cela, para um homem conversador como Erving, isso é tortura. Suas façanhas e peripécias, quem saberá delas?
__Calor né? – Abrupto, Erving disfarçou casualidade.
Michel olhou para ele com a mesma expressão de todas as horas, de todos os dias.
__Nada pra fazer nesse lugar. Se tivesse uma chuva pelo menos era fácil de dormir. Mas nem isso. O jeito é jogar conversa fora… Porque cavar um buraco daqui do terceiro andar não leva a gente pra lugar nenhum.
Erving forjou uma risada ardida de vontade de rir, mas ainda amarela. Silêncio. Erving prosseguiu.
__Sabe como eu vim parar aqui? Já que você não fala nada, vou levar na de que quem cala consente. Eu roubei a televisão e o dinheiro de uma loja. Mas não matei ninguém. Quem matou foi o cara que assaltou a loja logo depois de mim. Ele não acreditou que a loja já tinha sido saqueada. Horas depois, já estava assistindo o jogo de hockey na TV nova, que imagem cara! Que imagem! E a polícia bateu lá em casa. Eu fiquei surpreso quando minha mãe deixou que eles entrassem e nem chorou quando eu fui embora. Sabe… tem vezes que eu penso que minha mãe que fez a denúncia contra mim. A televisão é um trambolho muito grande pra se esconder da própria mãe. Mas poxa, uma mãe não faz uma coisa dessas com um filho! Como é que pode? Mas ela veio me visitar um dia, eu nem comentei nada. Se foi ela, eu perdôo. Mãe é mãe né?
__Eu Matei a minha mãe.
Rude e grave, foi assim que Michel falou. A voz preencheu a cela toda. Calafrios! Dava calafrios. Erving conteve o espanto, nem tanto por Michel ter matado a mãe, mas sim por ter falado pela primeira vez. Erving prosseguiu entusiasmado, buscando a normalidade no tom de voz.
__E porque você fez isso cara? Porque matou sua mãe?
__Porque ela cozinhava mal.
__Mas isso não é motivo suficiente pra matar a mulher que te pariu porra! Aliás, esse motivo é o maior clichê criminal da história. O personagem bidimensional, parcial e sem profundidade com essa desculpa, pra dizer que é mau, que mata a mãe por um motivo qualquer.
__É motivo sim! – Calafrios! – A pessoa é o que ela come e mamãe estava tentando me transformar em um babaca. Ela me fazia comer as coisas que os babacas comem.
__Como assim? Ela queria te transformar em um babaca por causa da comida?
__Tem pessoas que são bem temperadas, vivazes e coloridas, como os brasileiros. Outras pessoas são excessivamente doces ou salgadas e existem algumas pessoas que são insossas, como os Russos ou os Franceses. Sabe comida de avião? Era assim a comida de minha mãe. Eu nunca viajei de avião, mas eu trabalhei na livraria do Aeroporto e descolei um prato com uma aeromoça loirinha, que estava fodendo no banheiro sempre que o vôo dela fazia escala aqui na cidade. Era uma comida sem graça, e aos poucos eu fui perdendo o tesão por aquela mulher também. Como eu podia encontrar alguma alegria em viver se a comida da minha casa era uma porcaria insossa? Eu me tornei insosso também, porque eu não podia desfrutar as refeições. Eu sentia inveja do meu vizinho italiano, da comida dele de todos os dias, da mulher de seios fartos que ele tinha. Eu fui almoçar lá algumas vezes, e como eram saborosas as massas preparadas pela dona Lola! Eu tive um caso com a Dona Lola. Que italiana! Eu amei aquela mulher! Passei a almoçar todo dia na casa dos casal, me tornei amigo do marido dela, e como eu apreciava as iguarias da casa. O marido dela, é claro, não me notava apreciando a delícia de decote da esposinha cozinheira. Mas foi o que eu fiz, e foram as melhores refeições da minha vida. Aquilo poderia ter durado para sempre. Mas um dia mamãe resolveu que eu não deveria mais ficar tanto tempo na casa dos vizinhos, comendo as coisas de lá. Eu já tinha vinte e dois anos, era idade mais do que suficiente para fazer o que eu quisesse, mas mamãe insistia que eu deveria continuar em casa, vivendo sem tempero, sem gosto pela vida. E tive que abandonar meu amor, a Italiana. Que tipo de mãe é esta? E um dia eu matei a minha mãe, por causa disso.
Erving não tinha o que dizer. Michel prosseguiu.
__Eu odeio a comida da cadeia, mas sabe porque eu pedi a transferência pra essa cela?
__Não.
__Por causa dessa laranjeira, ela tem uma grande história, quem me contou foi o diretor da prisão. O Brasileiro que plantou a laranjeira se tornou o cozinheiro do presídio na década de 60, ele fazia feijoada, uma comida típica do Brasil, e segundo o diretor foi a época em que não houve nenhuma rebelião no presídio, estavam todos felizes com a feijoada brasileira, uma mistura, uma gororoba saborosa. Se eu fosse nascido na época, teria sido preso só para provar algo da comida daquele povo feliz.
__Legal… então se não fosse a laranjeira você não estaria aqui?
__É.
Erving queria conversar sobre futilidades, não se interessava por culinária. Queria falar de mulheres, sobre o que faria depois da prisão, sobre fugas impossíveis, mas mal começou a conversa e já estava de saco cheio do falatório de Michel. Além do mais, Michel é um cara que matou a própria mãe, não é um parceiro de conversas para um ladrão meia boca como Erving. Michel definitivamente não era uma amizade em potencial.
__Novato. Que tal você subir na janela e pegar uma laranja para mim? – Perguntou Michel com a voz poderosa.
__O que?
__Eu falei que você deve pegar uma laranja para mim. É só esticar seu braço na janela.
__Porque você não pega a sua?
__Eu gostei de conversar com você, mas não é só por isso que o seu papel de novato é melhor do que o meu, de veterano. E se você não pegar uma laranja para mim vai virar a substituta de Italiana nas minhas noites de solidão.
Erving teve que subir na janela, com dificuldade porque a janela ficava lá no alto, esticou o braço até a árvore e recolheu a única laranja que estava por ali e jogou para Michel.
Erving quis nunca ter iniciado a conversa, a “intimidade” não vale a pena. Até então nunca tinha recebido uma ordem dentro da prisão e ficou com mais raiva ainda do maldito Brasileiro que plantou aquela árvore miserável.
“Brasileiro fudido, raça nojenta!”, pensou Erving.
Obs: A ficção pode tudo mas saiba que uma laranjeira teria dificuldades de brotar no solo de Michigan, o clima de hoje, só para exemplificar, é de 0 graus, com neve






