Ensaio sobre a cidade
Como as formigas com o formigueiro, o cidadão existe em função da cidade. O comportamento do cidadão é pouco aleatório: Descanso, trabalho, lazer e alimentação. O cidadão age como força motriz. Sua energia é o combustível da cidade e com esta energia ele desempenha seus papéis como trabalhador e consumidor. O consumo é a espinha dorsal que possibilita o crescimento contínuo da cidade.
Assim como nas colméias e formigueiros existem, hierarquias rígidas. Supostamente o cidadão escolhe seus próprios líderes. Os líderes são escolhidos baseados em sua influência. A influência exercida por um líder pode ser baseada em seu carisma, sua retórica, em sua intimidação ou na capacidade de compra de seus recursos. Dinheiro pode comprar não somente objetos e serviços, mas almas, mentes e caráter. Tudo é mercadoria na cidade.
A mente do cidadão está na segunda categoria do saber racional. A categoria do saber racional autômato. O cidadão tem a capacidade de analisar as situações baseado em seu conhecimento e raciocinar tomando pequenas decisões regidas por uma vontade própria limitada. Em seu estado autômato, o cidadão trabalha exclusivamente em função da cidade enquanto emerge em ostracismo e torpor hipnótico deixando de praticar algumas necessidades básicas como a comunicação, a socialização e compaixão para com seus semelhantes. Todos estes são sintomas de apatia, e definem a inércia moral, uma patologia psicológica muito comum, diagnosticada devido à rotina imutável da vida na cidade.
O crescimento da quantidade dos cidadãos é exponencial e requer o crescimento dos setores comerciais e industriais. Caso a cidade não desenvolva estes setores para atender a esta demanda de trabalho, a cidade ganha aos poucos um novo setor habitacional alternativo, também conhecido como favela, cortiço ou assentamento.
Com a miséria surge a criminalidade que tem como função suprir a falta de trabalho dos cidadãos inativos. Esta é uma categoria especial de trabalho que cumpre sua função de perpetuar o ciclo da cidade através do consumo, a partir desse argumento, bandidos são trabalhadores que sustentam a cidade como quaisquer outros trabalhadores, no entanto suas profissões não são regulamentadas pela lei.
A cidade, a fim de assegurar sua própria sobrevivência, cria mecanismos para que o cidadão seja obrigado a consumir, entre estes mecanismos está a publicidade.
A publicidade consiste em criar a necessidade de consumo na mente do cidadão em troca de “prêmios especiais”. Os “prêmios especiais” são pequenas ilusões plantadas sob o consciente limiar da mente do cidadão: como a sensação de ser feliz ou a de se sentir completo no ato da compra. Esta promessa se fricciona com o instinto. A sensação de ter a alma tocada arraiga este desejo no subconsciente do cidadão que passa a consumir todo o tipo de supérfluos sob a ilusão de que terá a alma satisfeita e seus mais profundos desejos realizados quando depois do ato ou efeito de comprar tudo será diferente. Esta ilusão é um mecanismo eficiente para se gerar o consumo, motriz capital.
A economia do super-organismo cidade, como a natureza, segue suas próprias regras. Vivemos e respiramos a tecnologia do metal e do concreto, em contraposição às tecnologias da carne e do vegetal. Habitamos as entranhas da cidade enquanto lhe costuramos e construímos por dentro. Somos os alfaiates e artesãos de sua estrutura condenados à inevitável fagocitose.
Há a possibilidade de que a consciência humana se perca durante a evolução. A natureza funciona plenamente desta forma onde todos os animais estão plenamente adaptados às suas posições e situações, não há rebeldia ou queixas, apenas uma harmonia amoral.
Somente líderes e artistas mantem resquícios de individualidade. Os líderes têm a função de organizar e realizar a manutenção, adaptação e (porque não?) mudança do status-quo e os artistas, derivados dos anjos, tem a função de acordar, abalar e inspirar a catarse. Talvez por este motivo tantos cidadãos busquem se tornar indivíduos especiais e únicos, mas a pessoa é para o que nasce assim como a formiga e a abelha que já nascem com suas funções definidas.
A natureza e a cidade são duas raças diferentes da mesma espécie, ou duas espécies do mesmo gênero, apesar disso, são opostas. Estão em constante embate. A natureza, prisioneira de constritos canteiros cercados por concreto, luta por sobrevivência, é o embate que se dá entre raízes e encanamentos, folhas e fios elétricos, troncos e asfalto. O melhor caminho para a evolução é uma simbiose perfeita. O caminho da involução é a destruição de um dos lados do embate ou uma relação de parasitose de um sobre o outro.
A cidade é um pequeno exemplo cósmico de que o caos tem capacidade de ordenar-se em núcleos lógicos e seqüenciais e desfazer-se da mesma forma, como se nunca houvesse existido. Um grão de areia percorre milhares de anos para acumular em torno de si grãos o suficiente para formar uma montanha, apenas para esperar mais alguns milhões de anos e voltar a ser o grão único, que sempre foi.
A evolução da cidade se dá em ritmo acelerado, assim como o tempo que ela obedece. A cidade respira vivaz, coletivos, automóveis, motos e metrôs circulam em suas veias transportando a energia humana a fim de lhe criar sólidas bases metálicas para o dia em que este colosso irá se erigir em autonomia, para caminhar sobre a terra.
O cidadão não é o ápice da evolução nem o princípio. Não é o primata nem o super-homem. Não é o macaco nem é Deus. Assim como os macacos são para o cidadão um motivo de riso ou dolorosa vergonha, é justamente isso que o cidadão deve ser para o ápice da evolução: Um motivo de riso ou dolorosa vergonha. O cidadão é uma corda estendida entre o primata e o super homem, uma corda sobre o abismo. É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás, o perigo de tremer e parar. O que há de grande, no cidadão, é ser ponte, e não meta. O que pode amar-se no homem, é ser uma transição e um ocaso.
Referências e influências:
• Chico Science – Ref. E Inf.
• Laerte – Ref. Charge
• Will Eisner – Inf.
• Nietzshe – Ref. e Inf.
• Economia Contemporânea – Inf.
• A influência econômica sobre a estética urbana – Ref. e Inf.
• Akira – Ref. e Inf.












