Gustavo

Archive for Setembro 2007

Adeus

In ficção on Setembro 30, 2007 at 2:08 pm

Me despedí da garota ao deixa-la na rodoviária.
“Adeus” ela disse.
Coloquei um cd com músicas apropriadas à noite. Acionei a ignição, pois o carro atrás de mim, já buzinava para que eu desse passagem. A rodoviária é perigosa, eu tive que ficar parado até que ela chegasse em segurança até o ônibus. Pensei que se algo como um assalto ocorresse eu poderia sair do meu carro com a tranca na mão e dar uma de herói. Nada aconteceu, eu fui embora sem me despedir.

Percorri as ruas brasilienses, sempre vazias ao sábado. O brasiliense se isola, sai, viaja, mas não fica nas ruas no sábado. O Brasiliense não é muito o tipo de cidadão que costuma ficar a toa nas ruas jogando conversa para o ar. Preciso me mudar de cidade, o brasiliense gosta de shoppings, eu gosto de lugares abertos. Porque ela se despediu daquela forma? Foi tão estranho, um tchau é efêmero, dura até o próximo encontro, mas o adeus soa tão eterno… “a deus”.

A curva acabou na minha frente e eu nem percebí.

O delicado baque traçou uma fenda no topo de meu crânio durante a colisão com o volante. Nos instantes finais de consciência sentí o calor de vida que emanava de mim. Fortes latejos como bombardeios nas extremidades, os dedos, os ombros, os pés já não podiam mais responder. Brotava-me sangue dos ferimentos e o calor seguinte veio da jorrada de fogo que abraçou o espaço interior do veículo. Enquanto chamusca-va me os cabelos e derretia me os globos óculares, explodi internamente na mais mais plena consciência. Respirava ofegante perdendo a força dos pulmões, ainda úmidos. Estiquei o pescoço e recostei-me no banco. O feltro derretido grudava na minha pele. O pé no acelerador manteve o motor funcionando. Bombeava gasolina nas engrenagens do carro causando novas e pequenas explosões.

“Ele tá gritando…”
“Alguém tira ele dalí…”
“Apaga! Apaga! Apaga o fogo…”

O orgasmo fatal durou pouco mais do que uma eternidade de três segundos.

Brotei pelo teto solar do carro criando uma nova fenda, dessa vez minha cabeça incólume foi que perfurou o metal retorcido do teto. Minhas asas acomodaram-se no vento. Flamulava em mim uma existência não mais terrestre, saindo do corpo mortal. De longe, como uma coruja, observei meu próprio acidente automobilístico a distância. Sobrevoei minha cidade natal. Voei tão longe como nunca pude, e no último vôo de consciência, enquanto desintegrava-me no ar para unir-me ao todo do universo, eu disse, “Adeus” enfim.

O nome dela é Betty Davis e ela não ama ninguém

In Sem-categoria on Setembro 26, 2007 at 3:02 am

Algumas mulheres não sabem do que se trata mas a Betty sabe muito bem! Ela não tem sentimentos, mas tem umas pernas maravilhosas.

Quando se fala em Betty Davis, todo mundo lembra da Bette Davis, aquela branquela azeda e blasê que fez sucesso na década de trinta. A década da Betty foi 70. Eles dizem que ela era diferente!

Eu cheguei correndo na rua brilhante de Los Angeles, o sol tingia de manhã amarelada o asfalto reflexivo e minha calça boca de sino se iluminava por dentro! Era manhã mas o grito rasgado ainda se esticava dentro daquele pub escuro! Era a Betty, todo mundo queria a Betty. Ela era minha… nos meus sonhos.

Aquela voz arranhada gritava
HEY HEY HEY
Betty Davis era a concretização do Funk! Ela não ama ninguém! Hey Hey Hey! Nem eu! Só ela que eu amo! Hey Hey Hey! Ela tem o groove, ela sabe levantar aquelas pernas gostosas vestida num pijama. Nada fica ridículo na Betty!

E então se acalma. O baixo circunda em ondas permanentes e ela agudeia as tonalidades maravilhosas que escorrem em cachoeira de sua garganta incrivelmente sensual. Tudo que eu queria era um beijo da Betty, mas se eu tivesse um beijo dela meus sonhos logo sairiam do chão para um patamar mais considerável. Sabe aquele negócio né? O homem nunca tá contente com o que tem? Aya Aya Aya Eu gosto de mulher que geme, e ninguém sabe gemer melhor do que você Betty!

Ela olha para a plateia e faz todos sentirem-se desejados, enciumados pela obrigação de compartilhar aquela mulher, aquele monumento de pernas e blackpower sobre o palco. A verdade é que ela tem o magnetismo de nos dizer, todos você me querem, podem ter a minha voz mas não a mim! E ela nos trata com desprezo. Eu sonho com você Betty, cantando no meu ouvido. Saí daquela festa de gente descolada pra descer os undergrounds de Los Angeles e te descobrir aqui.

Diga a eles que você me quer Betty!? Estou falando contigo, nasty girl! Você tá cantando pra quem? Diz que é pra mim, sua … bruxa malvada.

Submarino Patch – Parte 1

In ficção on Setembro 10, 2007 at 8:15 pm

Capitulo 1 – O Submarino Patch
Um estrangeiro de terras longínquas chamado Steban sempre teve o sonho de pescar baleias, sabendo que o preço de um Baleeiro era muito caro e que exigia tripulação treinada ele se decidiu por uma nova idéia. Atravessou o oceano de Balsa e viajou até as “Terras Batidas”, uma ilha tropical cheia de pessoas inexperientes em caça as baleias. O povo vivia da agricultura e não entendia nada de pesca. O máximo de que sabiam a respeito do mar era como pescar piabas sem anzol com uma isca de minhoca ou como pegar jacaré nas ondas propícias.
Steban não encontrou nenhum navio baleeiro, mas tinha dinheiro para uma pechincha, tanto que um mercante do mar ofereceu a preço de banana, um submarino enguiçado que havia lutado na guerra dos estandartes. O submarino inicialmente havia sido pintado de vermelho, mas a pintura já estava gasta. Steban decidiu reformar o submarino, pintou a carcaça de preto e o batizou como “Patch”. Steban anunciou para os quatro ventos que estava vendendo ingressos para uma viagem de submarino que iria cruzar o oceano. O objetivo dessa viagem era treinar pessoas inexperientes em marujos de submarinos e por fim eles desfrutariam de férias gratuitas nas ilhas de Bora-Bora. O preço da viagem e do aprendizado era de Duzentos xelins e Trinta níqueis.
Antes que os tripulantes chegassem, Steban contratou vários ajudantes, os escravos se encarregaram do fornecimento de alimentos, dos despachos, da limpeza e da manufaturação de materiais e de vestimenta. Contratou Beto como o capataz dos escravos. Beto parecia um Troll (monstro gigante, um personagem das lendas inglesas) de voz profunda que num grito seria capaz de fazer tremer todo o submarino. Steban se contentou com Beto pois precisava de alguém com estas características para colocar ordem durante alguma confusão ou possíveis motins.
Durante a reforma que Steban empregou em seu Submarino de terceira categoria, ele ficou com poucos níqueis restantes em seu bolso e para poder empreender sua viagem, ele contou com a ajuda de uma sócia, seu nome Leia. Esta mulher tinha o poder nas palavras e a habilidade de negociar com navios mercantes para conseguir comida barata, além do mais, sua voz mansa era capaz de confortar os tripulantes que transitassem por traumas psicológicos, coisa natural para a vida reclusa dentro do Patch. A viagem pelo oceano até o arquipélago de Bora-Bora duraria dois anos.
Capitulo 2 – A comitiva de Steban
Steban, em sua inteligência forasteira, sentiu necessidade de contratar dois instrutores que seriam responsáveis pela educação dos tripulantes inexperientes que estavam para chegar, estes instrutores deveriam ser capazes de ordenar que os tripulantes remassem na direção certa e quem se desviasse do rumo receberia chicotadas educadoras. Para isso contou com a ajuda de irmãos siameses, Duni e Edna.
Os irmãos siameses se completavam em suas habilidades, Duni já havia guiado muitos submarinos no passado e Edna era capaz de traçar rotas precisas. Seriam não somente instrutores, mas também responsáveis pelo leme do submarino.
Steban e Leia fariam questão de se manterem informados, pois afinal são os empreendedores da viagem, para tal efeito, Duni e Edna precisavam escrever um relatório uma vez por dia sobre como andavam as coisas dentro do submarino. No relatório deveriam constar dados com relação aos alunos, com relação à preservação dos ambientes, das rotas que estavam seguindo e da ordem geral.
Steban contratou por último um homem chamado Gilmor, ele viajaria na proa do submarino amarrado por um cabo. Quando o submarino submergisse, o cabo teria largura para que Gilmor se segurasse no periscópio e respirasse boiando na superfície. Ele precisava ficar do lado de fora porque a escotilha estava emperrada pelo lado de dentro e Gilmor seria o responsável por abrir a escotilha quando lhe pedissem.
Gilmor era um homem do Leste, e no Leste só lhe foram ensinadas três palavras: ABRE, FECHA e AZEITONAS. Portanto, se alguém pedisse a Gilmor que abrisse a porta ele abriria sem complicações, se pedissem que fechasse ele também o faria sem complicações, estas coisas ele sabia fazer bem, apesar do fato de que às vezes se cansava e ficava um pouco emburrado. E azeitona era sua comida favorita, quando sentia fome ele grunhia por azeitonas e alguém lhe providenciaria seu alimento. Todos estavam contratados, era momento de iniciar as inscrições para os interessados na viagem a bordo do Patch!
Os tripulantes começaram a chegar. O preço do embarque era de duzentos xelins e trinta níqueis. Os tripulantes chegavam de todos os lugares do mundo no sonho de aprender a timonear o submarino e de chegar a Bora-Bora. Estavam todos ansiosos.
O submarino estava com os motores defeituosos. Steban e Leia não tinham dinheiro para o conserto. Para isso pediram a Beto que adaptasse um motor mecânico que seria movido a base de energia humana. Em vez de uma hélice, seriam remos.
Capitulo 3 – A festa de inauguração
Com a chegada de todos os tripulantes, Steban e Leia organizaram uma festa de inauguração do submarino Patch. Neste dia todos falaram.
Steban saudou os tripulantes e disse que apesar de não compreender seu idioma, gostaria que se tornassem amigos. Obviamente ninguém entendeu nada, por isso Leia interveio e continuou com o discurso, alertou que se alguém tivesse dificuldades em exercer suas funções no submarino, deveria dirigir-se a ela, se alguém tivesse dificuldades com pagamento também deveria dirigir-se a ela. Ela possui um punhal retorcido que penetra a carne em voltas sinuosas causando dor lancinante, este punhal é um ótimo incentivo aos mal pagadores. O próximo a falar foi Duni, que já iniciou o discurso em tom de reclamação tentando explicar aos tripulantes a melhor forma de remarem, mas de certo modo incentivou a todos e deixou bem claro que a viagem seria longa e que precisariam de braços musculosos para agüentar os remos durante estes dois anos. Edna disse então que ela seria a responsável por guiar o submarino, ela olharia através do periscópio e checaria a superfície todos os dias. Somente Edna e Duni teriam acesso ao periscópio e ninguém mais. Steban também queria o direito de olhar no periscópio, mas não sabia pronunciar esta palavra, contentou-se em receber os relatórios. Steban espera que um dia, quando a viagem acabar, alguém tenha a delicadeza de traduzir os relatórios para sua língua natal. Leia atravessou o discurso de Edna e afirmou veementemente que gostaria muito de olhar através do periscópio, gostaria de saber o que se passava na superfície e deixou clara a posição de que ela já havia tomado posse do cargo de comandante do submarino, deixando para Steban a posição de receber os louros da viagem bem sucedida e os Xelins que pingavam em seu cofre. Edna e Duni já estavam gostando da idéia de guiar o Patch a sós, não queriam dividir o periscópio com ninguém, mas por hora ficaram calados. O último a falar foi Gilmor que pediu uma Azeitona. Não tinha preferência pelas verdes, pelas pretas, azeitonas com palmitos ou pedaços de queijo, contentava-se com qualquer azeitona desde que tivesse caroço. O prazer de Gilmor era roer o caroço por horas a fio para depois acertá-lo em algum alvo numa cusparada certeira.
Os tripulantes estavam empolgados com a viagem. Alongavam os braços e todos os tendões do corpo. As dificuldades eram muitas, mas isso não os desencorajou. No dia que fossem operar um submarino de primeira classe estariam completamente preparados devido ao aprendizado que tiveram, os braços fortes que ganhariam nestes dois anos seriam úteis para muitas coisas, entre elas para abrir a tampa da lata de azeitonas.
Capitulo 4 – Gulliver
A esperada viagem se iniciou. Edna e Duni não precisaram chicotear ninguém no primeiro dia.
Steban foi para sua sala e apoiou a cabeça sobre as mãos, estava feliz, pois Patch estava em movimento e funcionava perfeitamente com as remadas vigorosas. Havia alguns problemas com o ar condicionado, mas nada preocupante. Mesmo que Steban não entendesse uma palavra da língua dos “aborígines”, ele poderia ao menos se divertir observando as coisas funcionarem. Era uma pena que as televisões não funcionassem dentro do submarino, teria que se contentar em observar o fundo do mar pelas pequenas janelas. Uma pena ainda maior Steban não poder observar a superfície pelo periscópio, nem conseguia dizer periscópio.
Leia estava em sua sala catalogando os nomes dos tripulantes e tratando de trocá-los por números individuais. A comunicação se tornaria mais fácil, pois não precisaria lembrar o nome de ninguém, basta fazer as contas. Ela pensou nas facilidades que teriam com isso:
“Acerte uma chicotada no número 12, está remando devagar!”
Em seu bloco de notas Leia associava os números individuais aos números coletivos que era a soma do cálculo de quantos Xelins se acumulariam no fim desta viagem. “Uma barbada!” pensou. Quem não pudesse pagar seria jogado para fora e devorado pelos tubarões antes que chegasse ao final da viagem. Não basta o esforço em remar, o pagamento precisa ser feito em Xelins, pois o suor se evapora.
Gilmor está preso ao submarino por cabos resistentes que lhe permitem boiar na superfície durante as incursões submarinas do Patch. Ele não se incomoda enquanto houver azeitonas para roer, e poder treinar a mira cuspindo suas azeitonas na lente do periscópio quando estiver entediado.
Gulliver era um dos tripulantes desta viagem. Seus braços eram fracos e devia ser o menor tripulante do Patch. Gulliver não é um bom remador, mas sempre sonhou timonear um submarino. Sentia-se feliz por estar dentro de um. Não esperava que fosse remar. “Logo, logo eles vão nos mandar parar de remar! Devem estar querendo nos iniciar para ver quem são os resistentes!”. Pensou que o Submarino deve ter um motor funcional escondido em algum lugar. Gulliver já havia pesquisado a história dos submarinos, estas embarcações capazes de realizar operações sobre a superfície da água sempre o fascinaram. Já desde os primeiros esboços de Leonardo Da Vinci, até um estranho modelo proposto por Cornelis Van Drebel que foi lançado no Rio Tamisa, em Londres. Aquele modelo era o primeiro veículo construído capaz de operar sob a água. E sua propulsão era manual assim como a do Patch. Utilizava remos. Patch não era uma exceção aos submarinos quanto a sua autonomia limitada, talvez a única exceção fosse o fato de que Patch era enorme por dentro. Gulliver concatenou suas idéias e calculou que Steban era tão genial que havia propositalmente comprado um submarino operado por remos para que os tripulantes tivessem a dura lição sobre como funcionavam as coisas nos primórdios da ordem náutica.
Durante a noite Gulliver sonhou que estava timoneando o submarino. Foi a primeira chicotada distribuída por Duni e Edna que o fez acordar e voltar a remar.
Capitulo 5 – A posse do periscópio
Na manhã seguinte Leia e Steban desceram de seus aposentos reais, tinham acabado de tomar um café da manhã muito saudável e estavam os dois empolgados com o lançamento de Patch no mar. Chegaram em frente aos tripulantes que remavam exaustos e ordenaram que fizessem uma curta pausa de quinze minutos para tomarem seu lanche. As ordens eram que os tripulantes se dirigissem ao Beto, o Troll, e pedissem a comida. Os tripulantes levantaram-se de seus assentos e foram em direção ao refeitório do submarino comer.
Leia pediu a Duni e Edna para olhar através do Periscópio. Duni já havia olhado pelo periscópio naquela manhã.

“Não há nada demais para ver lá fora, apenas um grande e vasto oceano que nos indica que estamos no caminho certo. Não é mesmo Edna?” e Edna balançou a cabeça em tom afirmativo, antes que Leia pudesse pedir pela segunda vez Edna completou:

“Se não há obstáculos quer dizer que tudo está muito bem. O céu está limpo e o oceano está calmo. Não há o que ver lá fora, já olhamos esta manhã e somos ótimos conhecedores do mar e de seus meandros.”

E com uma voz calma e agradável Edna praticamente acariciou os ouvidos de Leia “Confie em mim.”.

Leia queria mesmo olhar, mas a voz encantadora da irmã siamesa de Duni foi contundente. Ela sentiu na eloqüência e na afabilidade persuasiva com que Edna e Duni se expressavam que havia uma credibilidade inquestionável. Apesar disso Leia não queria perder o direito de olhar pelo periscópio. Para decidir a melhor rota os líderes precisam saber o que se passa no campo por onde viajam. Leia pediu encarecidamente que na manhã seguinte gostaria muito de ver a superfície pelo periscópio.
“E não me venham com respostas negativas, sei que vocês são dois amores e que farão isso por mim, até porque já que Steban já não fala nossa língua. Ele precisa de olhos, ouvidos e de uma boca que fale por ele. Apesar de não entendê-lo creio que ele me confiou esta tarefa porque sabe que eu governaria o Patch da forma que convém a ele e a todos. Peço então a todos que também confiem em mim, pois a partir de amanhã quero o acesso irrestrito ao periscópio” – Disse Leia

Saramago, um escrivão da corte diria que em terra de cegos, quem tem um olho é amaldiçoado, mas no caso do submarino Patch, nesta terra de cegos quem tem um olho é rei. Seria mesmo um rei aquele que tivesse um olho no qual pudesse confiar, pois um olho farsesco é cheio figurações despropositadas. Perigosas, elas podem ludibriar a verdadeira compreensão do que se vê. Neste caso quem tem um olho é ainda mais tolo, pois não somente não enxerga a verdade, como também acredita numa mentira que criou para si mesmo. O maior cego é aquele que não quer ver.
Capitulo 6 – A noite no Submarino Patch
Enquanto isso no refeitório Beto, o Troll, expulsa os tripulantes, alguns nem terminaram suas refeições. As ordens são claras, quinze minutos de intervalo, o submarino não pode ficar parado por muito tempo. Gulliver aprendeu a comer rápido se não quer esperar de barriga vazia pela próxima insossa refeição.
Edna não queria que Leia tivesse acesso ao periscópio. Leia, hierarquicamente esta no direito da posse do periscópio e do comando de Patch sobre Edna. Duni disse a Edna que não se preocupasse, há um plano na manga. Apesar de siameses, Duni e Edna, não compartilham os mesmos pensamentos. Duni é organizado e tem soluções para os problemas difíceis. Muitas das suas soluções exigem métodos ardilosos. De uma cabeça peluda infestada por piolhos Duni trataria do problema escalpelando o couro cabeludo, não restaria moradia aos ectoparasitos que fossem.
Edna é uma oradora eloqüente, sabe induzir e fascinar. Edna pode transformar uma idéia mixuruca em uma concepção pomposa e transcendente pelo simples bom uso de adjetivos e hipérboles. Ela podia convencer um tímido fobofóbico a falar diante de uma platéia. Juntos eram imbatíveis, mesmo quando não estavam com a razão. Edna é uma ficcionista da moral.
A carta na manga de Duni deveria ser eficaz. Os siameses passaram a noite no quarto de ferramentas fabricando algo enquanto os marujos remavam. Os sons de serragens e martelos estridularam a noite.
Gulliver tentou imaginar o que estariam criando lá dentro.

Gilmor sonhava com azeitonas.

Na manhã seguinte Leia saiu na ponta dos pés de seu quarto para não acordar Steban, que já não sabia mais do tempo. As notícias dos relógios cessaram desde o primeiro dia, o misterioso magnetismo das ferragens de Patch é um fenômeno que perturba as engrenagens dos ponteiros e as horas se expandem.
O sono de Steban fica mais pesado a cada dia. Seu contato com o mundo é unilateral e mesmo estar em pé não significa estar desperto.
Leia desceu até o andar dos empregados e dos vassalos. Lá estava o periscópio sozinho e reluzente. Ela achou bom porque poderia olhar livremente, não seria preciso conversar com aquela aberração de dois em um, olharia direto a superfície através do visor. Quando se está distante da superfície se quer o mínimo de intermediários possíveis, um periscópio já é cheio deles: o primeiro intermediário entre a superfície é a blindagem que não permite que a pressão da água estoure o vidro. Em seguida a luz penetra o prisma do tubo e transforma a visada horizontal em vertical, o segundo torna novamente horizontal a fim de que a cena possa ser observada, finalmente a luz passa pelo ultimo visor. É claro como o dia que para a luz não há intermediários vítreos que lhe impeçam.
Antes que Leia possa encostar o olho no visor do periscópio Duni e Edna saem de dentro da sala de ferramentas apressados, tornam-se novamente o segundo intermediário entre Leia e a superfície.
“Tcharam” Dizem Duni e Edna juntos.

Leia tenta ver o periscópio pelo visor, mas Duni e Edna chegam perto dela com um abraço camarada desviando sua atenção. Eles carregam em uma das Mãos um telescópio improvisado de madeira.

O MAM é um viado velho e afetado

In Sem-categoria on Setembro 9, 2007 at 1:55 am

Recuso o convite! É o que tenho a dizer a estes jovens arrogantes, nascidos depois da ditadura que já se crêem os donos do mundo. E não me acusem de conservador, neste mesmo relato descobrirão que conservador é algo que não sou.
Demorou tanto pra ficar pronto e vejam que fracasso. Preferia que caísse aos pedaços, este museu, assim como eu. São 87 primaveras que completo na semana que vem, nem estou doente e já me prestam homenagem. Querem me imortalizar criando uma cópia idêntica da minha pessoa feita em cera. Mórbido é pouco.
Terminaram as reformas no museu. Os admiradores propuseram uma reforma no meu corpo também. Estes artistas da carne fazem milagres com um bisturi. São mais ousados do que os arquitetos, artistas do concreto. Não vai demorar para que incluam a cirurgia plástica como a décima arte.
Quando o Museu de Arte Moderna foi fundado eu tinha vinte anos. O edifício era um bebê como eu. Não conhecíamos nossas vocações. O Museu, por culpa dos ricos empresários, deixou sua vocação de museu para se tornar uma casa de shows! Um espetáculo constante. É como dizem: “Os tempos mudaram. Agora as coisas são diferentes!”. O que vos digo é “sim, os tempos mudaram, meus jovens, mas a essência permanece “. Um homem sempre será um homem, um museu sempre será um museu. As cascas mudam, a alma permanece. Os jovens não entendem nada sobre essência. Não tem conteúdo nem senso de estética. Estão fascinados por cascas e são ocos.
Eu nunca aceitaria o implante de silicone a que me propuseram. Não posaria nunca na frente de um museu falido, de gestores tortos. Os jornais anunciavam: “O convite para virar estátua no Madame Tussauds lhe chegou em boa hora”, referindo-se a mim, mas eu não tenho interesse em virar uma múmia de cera. Me pergunto se a Dercy terá aceitado o convite. Eu me recuso. Tenho meu orgulho a preservar. Um travesti velho como eu, não cairia bem. Imagine! Ganhar um par de tetas como presente de aniversário e virar memória em frente a um museu, corrompido pela juventude. Não sou dinossauro! Antes fálico do que falido. Não obrigado. Prefiro ficar de acordo com o projeto original. Bem diferente do MAM. Muita praticidade, pouca leveza.
***
Por questões financeiras, dois meses depois aceitei o convite. Me tornei um viado de cera na vitrina do museu falido, ao lado de Dercy Gonçalves. Ostentávamos um busto de 90 centímetros.

I wish my time was mine

In Sem-categoria on Setembro 6, 2007 at 1:55 am

A sensação é de impotência. Tenho tantos compromissos e parece que todos eles estão destruindo o que eu chamo de: O meu direito ao tempo.
O tempo é escasso para tudo e o que me parece não é suficiente para completar todas as tarefas perfeitamente.
Minhas idéias para escrever estão secas, a mente está árida.