Gustavo

Posts de Agosto, 2007

Provinciano

In ficção on Agosto 19, 2007 at 8:28 pm

Coelum non animum mutant qui trans mare currant*
- Horácio

A luz irritante o acordou no domingo insosso de 19 de agosto de 2005. Era um domingo como todos os outros, exceto pelo fato de que ele não havia pegado geral na noite passada. Não acordou ao lado de alguma gostosa qualquer, de maquiagem borrada, com a perna suja de seu sêmen.

Dessa vez acordou sozinho, da mesma maneira que acordava na manhã de 19 de agosto de 2004, quando ainda era um garoto do interior do paraná. Nessa época ele ainda não tinha os penduricalhos, os piercings e cabelos picotados de forma incomum, quase como um personagem do Laranja Mecânica. Na cidade ele aprendeu que para ser amado precisava “ter um diferencial”, pois tudo alí, por entre as pedras deliberadamente plantadas, chamadas de construções, o “mercado de trabalho” exigia uma atitude “empresarial” com relação a tudo, inclusive sua auto-imagem.

Eram onze horas da manhã no apartamento alugado na rua João Negrão, próximo ao teatro Paiol de Curitiba. Os olhos inchados sentiram vergonha de tanta maquiagem. Sentia-se o mesmo por baixo da máscara, o mesmo garoto interiorano, provinciano e caipira, apesar da atitude descolada de embuste que pregara cuidadosamente com um prego na frente de sua testa.

A companhia artificalmente adquirida nas baladas joviais, neste exato momento em que olhava seu rosto disforme no espelho do banheiro lembrou da frase de quem mais lhe quis bem, sua mãe. Estava prestes a sair de casa e via nas lágrimas de sua mãe uma mensagem, ela não lhe disse nada mas ele pôde ler o que estava escrito em seus olhos. Ela dizia com o ar fraternal que só uma mãe é capaz de comunicar com os olhos: “Seja um garoto feliz”. E ele aceitou o conselho dos olhos chorosos.

Caminhou até a estante da sua sala e deixou sobre a prateleira sete piercings. Raspou os cabelos e despiu-se de atitudes e gírias descoladas. Foi questão de tempo para que as falsas amizades se afastassem, e as garotas bonitas perdessem o interesse. O peso que saiu de seus pulmões foi enorme pois agir como um punk de padaria era um esforço social tremendo. Os ombros aliviaram-se de uma tensão e os problemas de coluna ficaram curados. A hospitalidade passou a ser o motivo de seus anseios.

Passou a viver menos para sí mesmo e mais para os outros.

Quando voltou de um trabalho voluntário na África em 2009 incluiu em suas orações agradecimentos sobre não ter sido devorado por um leão que poderia ter pulado pela janela de sua casa de barro em sua casinha no meio da savana, agradeceu pela amizade que fez em Byrumba, Ruanda, com um comerciante que não sabia fazer nada além de rir da vida, agradeceu por ter ensinado o alfabeto a uma classe de doze crianças, e agradeceu por apesar de ter atravessado o mar e mudado o céu sobre sua cabeça, sua alma era a mesma alma provinciana, interiorana e caipira de sua cidade natal.

* Os que atravessam o mar mudam o céu acima deles mas não as suas almas

O Idoso, alegorista de blogueiro

In Sem-categoria on Agosto 17, 2007 at 5:01 pm

Bateram três vezes na portinhola da velha casa de madeira Curitibana de um idoso solitário. Eu atendi a porta. Deixei que entrasse.

Oferecí chá, tenho diversos sabores, pois moro perto de uma fábrica de chá, também moro perto de uma cervejaria, mas confesso que prefiro os destilados caseiros e as ervas colhidas do meu quintal, preparei um chá de erva cidreira e oferecí uma cadeira, a visita que sentasse.

Sente e beba um pouco de chá. Tenho algumas histórias a contar, a primeira é sobre um antigo amor. E me ponho a lembrar das aventuras eróticas que tive com aquela moça de sotaque tão especial, uma cintura incomparável e os olhinhos redondos. Redondos de bolinha de gude.

“Sumiste, Pernambucana.
Fugiste de mim.”

Mas não vá embora, espere. O chá acabou, mas restam alguns biscoitos. Aceita uma refeição? Veja, as horas passam rápido com esses casos de amor, é um enfado ao coração. Vamos falar de outra coisa? Sei que estou velho, mas a morte me espera, não preciso falar dela, é subentendido.

Lembro de uma pescaria, eu nem sabia pescar pra falar a verdade. Eu de calções compridos numa fazenda, sem camisa, esperando paciente sobre o sol para que aquele peixe enorme mordesse a isca, quando mordeu levou a vara consigo, quis escapar. Não, eu não deixaria. Pulei de bota e tudo, fui pra dentro da água e meus calções escaparam. Saí do lago, pelado. Todos rindo, mas o peixe estava comigo, pescara na marra a melhor refeição que já comi. Satisfiz o desejo memorial e primitivo de jantar da própria caça.

Espere, não vá embora, ainda restam cervejas na geladeira. Não vá, é muito para que eu beba sozinho. Prometo não te entediar com mais histórias chatas, conte algumas das suas.

Sim. Eu entendo, você está na época de viver e não de contar, nem muito menos de ouvir.
Tudo bem, vá e volte quando puder, e comente se lhe aprovier.

Submarino Patch – Parte 3

In ficção on Agosto 15, 2007 at 9:22 pm

Capítulo 14 – As sereias
Gulliver teve de prosseguir pela ilha. Chegando ao outro lado observou as rochas que brotavam do oceano. Belas mulheres estavam com metade dos corpos nus esticados sobre as pedras banhando-se ao sol. Assim que Gulliver se aproximou elas, tímidas, nadaram mais do que rápido para as profundezas. Viraram-se esparramando água com as nadadeiras.
Ele improvisou um barco com a folha de uma bananeira gigante, frutos comuns da ilha, que provavelmente servia de alimento para macacos também gigantes, e nadou até chegar perto das pedras. Apontou sua câmera fotográfica movida a vapor para dentro do mar. Tirou algumas fotos. Nas primeiras só viu peixes e algas marinhas desinteressantes, mas aos poucos foram surgindo algumas das ninfas aquáticas mais vaidosas.
Fizeram uma sessão de poses submarinas. A cada impulso que tomavam com os rabos de peixe os cabelos tornavam-se contra o rosto como cortinas dos mais variados tons imaginados índigos, dourados, amarelos, vermelhos, negros. Formavam uma sinfonia de movimentos, cores e corpos prateados pela luz do sol que turvada pela água banhava as nadadeiras.
Cada uma das sereias tinha sua beleza particular, os seus corpos esculturais e desnudos isentos de qualquer vergonha pela nudez fariam com que a mandíbula do mais valente se abrisse e uma gotícula sem controle escorregasse de apetite.
Gulliver queria uma foto sobre o sol e esperou que elas viessem. As sereias, de início envergonhadas, pousavam para Gulliver nas pedras distantes. Munido de suas lentes, muito mais claras do que a de qualquer periscópio, constatou nos cliques os mais belos seios já vistos na face da terra.
Uma delas veio por baixo de sua folha de bananeira gigante. Gulliver percebeu que os tampões das orelhas haviam caído, mas não houve nenhum encanto mal. O rosto dela saiu respingando, o coração palpitando. Gulliver ofegante recebeu a mão úmida que se esticava. Ele teve medo pelas lendas piratescas, mas esticou a mão e sentiu a suavidade da pele mágica que nem enrugada ficou com a umidade do mar. Ele esticou a cabeça e beijou as costas da mão da formosa ninfa. O beijo ficou gravado em seus lábios, os pelos molhados da sereia se eriçaram, mas o barco ameaçou virar e espantou a sereia. Espantá-la foi pior do que ser chicoteado por sonhar ser o capitão do submarino. Foi quando se deu conta de que ser capitão do submarino não era nada perto disso.
As vozes suaves e os cânticos das sereias cessaram assim como acontece com os canários quando lhe oferecem a mão bruscamente. Gulliver esperou por que voltassem. Não tinha mais medo, talvez o único encantamento fora o fato de que ele estava agora apaixonado pela sereia que chegou tão perto de seu barco improvisado, mas que se assustou sem querer. O sol já tinha se inclinado muitos graus e o cálculo de Gulliver foi que o tempo se esgotava.
Levou as fotos aos piratas e eles ficaram fascinados.
“Pronto pessoal! Temos material pra agüentar mais seis meses sem mulher!”
Capítulo 15 – O Regresso de Gulliver
Deviam ser piratas da pior estirpe, pensou, mas ainda assim Gulliver se sentia mais confortável entre eles do que entre os remadores do submarino Patch. Durante a viagem de volta o capitão chamou Gulliver num canto e alertou.
“Gulliver! Alerte os seus companheiros de que o submarino está indo diretamente de encontro ao Iceberg Baffin, um iceberg inextinguível que vagueia pelos oceanos mais calorosos sem nunca se derreter. Vi através de minha luneta. Avisem para que contornem este perigo antes que seja tarde demais.”
Um dos olhos do capitão era um olho de vidro, mas o que lhe sobrava era um olho de águia, naquele olho Gulliver podia confiar, mesmo que não houvesse luneta.
Eles chegam ao Submarino e tocam a campainha na escotilha. Gilmor pede uma azeitona, mas Gulliver não tem nenhuma sobrando. Se soubesse teria pegado alguma gigante da ilha. Gulliver percebe então no periscópio que há vários caroços de azeitona cuspidos na lente. O ranho da baba de Gilmor se misturou com as algas e a visão do periscópio está comprometida. Não há tempo de limpar, Gulliver acaba de tomar uma decisão e precisa informar ao capitão da expedição TROPA.
“Capitão! Eu não quero mais voltar para este submarino! Eu quero viver fotografando as sereias! Eu quero me tornar um membro da expedição TROPA!”
E o capitão não parece ter ficado muito contente com a idéia:
“Que história é essa agora rapaz! Não seja um traidor dos seus! Eles te premiaram com este passeio e agora você vai deixá-los na mão? Pois eu vou dizer! Vou entregá-lo como prisioneiro e deixo bem claro para eles que tipo de sujeito da pior estirpe é você! Seu sujo!”

O capitão ordena que os piratas prendam Gulliver imediatamente e assim eles o fazem. Amarram suas mãos e a escotilha se abre. Leia, Duni e Edna saem à porta e vêem Gulliver amarrado.
O capitão diz:
“Vejam aqui este traidor! Encarcerem o sujeito e tratem-no como um porco! Ele me propôs agora a pouco fugir da vossa embarcação e trair vossa confiança, mas meu voto com os senhores é baseado em palavra de honra, por isso decidi entregá-lo e deixar claro para vocês que tipo de sujeito ele é! Não sei nem como pode ter nome este sujeitinho!”
Ao passo de que Edna diz:
“Ele não tem nome! Não sei nem porque o chamamos pelo nome. Ele é o remador número 81!”
“E agora é o prisioneiro 81!”, disse Duni.
“Venha cá seu vermezinho! Me escute bem! Se você tivesse escapado dessa embarcação nós iríamos caçá-lo com arpões e logo em seguida usaríamos os mesmos arpões para submetê-lo ao suplício da empalação! Está me entendendo? Abra seus olhos remador 81. Abra seus olhos!”, diz Leia ameaçadoramente com uma voz não tão calma, bem diferente de todas as vezes que ele a ouvira falar antes.
Empurraram Gulliver acorrentado para dentro da escotilha. Como não haviam celas no submarino, deram a ele um castigo ainda maior, trancafiaram-no dentro do banheiro sujo utilizado pelo Troll Beto.
Capítulo 16 – A cela de Gulliver
Gulliver desce gritando, mas não tem mais forças para lutar contra os inimigos, além do fato de que está acorrentado. Quando passa em frente aos amigos remadores ele diz:
“Parem de remar seus idiotas! Vocês nem sabem para onde estamos indo!”
Ao passo de que Edna diz:
“Estamos indo para Bora-Bora homens. Se pararem de remar nunca chegaremos. Ele está louco. Confiem em mim.”
E todos parecem tranqüilizar-se com a voz de Edna. O “confiem em mim” já virou uma espécie de reforço positivo para o rato da gaiola que aperta a alavanca querendo comida. Chega uma hora que não tem mais comida, mas o rato ainda aperta a alavanca.
“Estamos indo em direção a um Iceberg! Vamos bater e morrer todos! Foi o capitão da expedição TROPA quem disse! Ele me alertou e pediu que alertasse a vocês.” – Gulliver completa.

Leia pega o seu Telescópio farsesco e olha através do espelho enganador e nada mais vê do que a foto de um oceano calmo e de um céu sem nuvens.
“Não há nada de errado! Pelo meu periscópio de controle remoto tudo está muito bem! Além do mais estamos sobre oceanos caudalosos, nenhum iceberg resiste à água quente” – Diz Leia subindo tranqüila para o seu aposento.

Duni e Edna se entreolham preocupados.

Os remadores não param de remar. Quem são eles para fazer algo contrário a tudo isso? São apenas remadores, não entendem de submarinos e estão conformados. Edna tem tanta credibilidade, Duni é tão confiante. O Patch está seguro nas mãos deles.
Duni e Edna trancam Gulliver no banheiro podre onde Beto liberava seus tesouros intestinais. Duni está ficando realmente preocupado. Edna é suficientemente megalomaníaca para acreditar nas próprias mentiras, mas Duni nunca acreditou tanto no que dizia, ele sempre soube que precisavam conquistar as pessoas mesmo na base da mentira, mas chega a hora em que as mentiras escapam do controle. Edna é orgulhosa demais para admitir que esteja errada. Duni quer tomar o caminho menos pior quando já não há mais possibilidades de que o melhor caminho esteja a vista.
Capitulo 17 – Iceberg a vista
“Vamos conferir no periscópio. Não custa nada!” – Diz Duni
“Ele está mentindo! Não está claro para você? Ele quer causar uma confusão. Ele sempre quis causar confusão desde que entrou nesse submarino! Você não vê isso? Ele é um subversivo.” – Diz Edna.
“Eu sei, mas vamos chegar. Não tem nada de errado em checar.”

Olhando pelo periscópio nada mais há do que a imagem desfocada cheia de manchas pretas, um céu azul indistinguível do mar como sempre.

“Viu! Nada de errado! Está como sempre esteve.” Diz Edna.
“Vamos falar com ele!” Diz Duni
“Pra que?” Diz Edna
“Ele merece algumas chicotadas!” Diz Duni

De volta ao banheiro cela de Gulliver eles abrem a porta e a catinga das fezes de Beto vasa pela porta como escapa o vapor de uma sauna. Gulliver está no canto ao lado de uma privada. Por incrível que pareça o único lugar que o Troll Beto poupou de suas defecadas, porque todos outros lugares estão sujos, até mesmo a pia.

“Que diabos de Iceberg é esse? Como pode um iceberg neste calor todo?” – Duni
“É um iceberg inextinguível! Ele nunca derrete.” – Gulliver
“Tal tipo de coisa não existe!” – Edna

Os remadores estão remando, os cegos estão cegos e o prisioneiro é prisioneiro.
Capítulo 18 – A farsa da farsa é real
A verdade é que dentro de uma farsa as mentiras se confundem com a realidade e muitas das coisas absurdas e burlescas acabam vindo a existir. A mentira que desmente a mentira é verdade? Não há como saber, mas existem coisas burlescas mesmo no mundo real, longe do mundo farsesco. O mundo está recheado de burocratas, assim como os churrascos estão de moscas, de nada servem senão para nos atentar. As pessoas convivem com o burlesco como se fosse uma parte inerente a vida. Ninguém acha os absurdos da vida um absurdo.

“Se não existe tal tipo de iceberg eu não sei. Mas eu sei que estamos indo na direção dele!” – Gulliver já indisposto com o rosto sobre o vaso limpo.
“Acabamos de olhar em nosso periscópio e ele está como sempre esteve” – Diz Edna
“Exato! Entupido de caroços e de catarro do nosso amigo Gilmor. Por acaso vocês não perceberam que o azulado do céu está levemente esverdeado?” – Gulliver
“Ele tem razão Edna. O céu está cada dia mais nojento. Achei que fosse algo relacionado às estações do ano que estavam mudando.” – Diz Duni
“Você está dando razão para esse verme? Ele não passa de um remador! É o remador 81 se esqueceu? Ele não sabe nada sobre nada!” – Edna
“Eu sei! Mas porque ele faria isso. Vamos mudar o curso do submarino só por garantia. Nós temos o poder. Steban não sabe de nada e Leia fica contente com qualquer desculpa. Nós somos os verdadeiros governadores.”
“Mudar o curso? Como vamos mudar o curso? Não fazemos a mínima idéia de onde vamos parar se mudarmos o curso.”
“Não importa! É melhor do que batermos no iceberg e morrermos todos!”
“Que iceberg! Você acredita nesse papo furado? Se ele estivesse realmente acreditado que iríamos morrer chocados por um iceberg teria se suicidado ali mesmo”

Edna e Duni ouvem o som de descarga. Olham para o lugar onde estava Gulliver, ele não está mais lá. O vaso sanitário está cheio de água, ele acaba de se jogar dentro do encanamento. Vazou pelos canos.
Edna e Duni arregalam os olhos.
Capítulo 19 – A fuga de Gulliver
Gulliver cai no oceano inconsciente. Os encanamentos do submarino são extremamente desconfortáveis. Boiando como fazem todos os excrementos, Gulliver acaba se convencendo de que não existe mais para onde correr e se deixa levar pela agitação das ondas do mar que lhe balançam as roupas e carregam o corpo suavemente num passeio submarino. E então seus cabelos são afagados e os olhos se abrem no conforto subaquático. As sereias estão de volta, prontas para carregá-lo para onde ele quiser. Elas o abraçam, suas peles como a seda e os sorrisos como o da lua quando míngua.
Dentro do Patch, Steban olha através de sua pequena janela, conversando com os peixes.
Leia certifica-se de que não há perigos na superfície através do telescópio farsesco.
Edna e Duni adotam uma nova medida política e direcional.
“Atenção pessoal! Tivemos que fazer uma mudança de curso de última hora. Não vamos mais para Bora-Bora. Mas não vos preocupeis com os problemas de amanhã. Estamos trabalhando para levá-los em segurança para algum lugar seguro e agradável. Preocupem-se em fazer o que estão fazendo agora: remar e remar. Confiem em mim.”
E todos remadores sorriem entre si. Não há nenhuma queixa. A mudança repentina soa mesmo promissora. Carregam nos braços a empolgação inicial. Uma voz tão macia que sabe o que queremos ouvir é sempre um bom incentivo. Há um momento em que os incentivos se tornam as recompensas. Vamos remar.
A verdade é que nenhuma pessoa dentro daquele submarino jamais fez a mínima idéia de para onde estavam viajando. A única idéia fixa na cabeça de todos os tripulantes de Patch é a de que todos queriam controlá-lo, qualquer que fosse o custo.

Homicida é!

In Sem-categoria on Agosto 15, 2007 at 4:28 am

“Se lhe ferir com uma pedrada, de que possa morrer, e morrer, homicida é”
Números 35:17

“Qualquer que odeia a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele.”
João 3:15

No radio, Gufo conversa com seu colega de frequência, Rato.

RATO: Oh elegante! Porque você quer fazer isso?
GUFO: Porque sim!
RATO: É uma loucura, piração! Pra que essa vingança?
GUFO: Já que ninguém faz nada, eu me encarrego de fazer alguma coisa.
RATO: E o que você vai fazer então?
GUFO: Ele não é filho de Deus. Eu vou punir o sujeito pelo que ele fez. E vai ter sangue!
RATO: Como assim cara? A própria Bíblia diz: Não matarás. Você ta falando de Deus, mas você quer matar o cara! Que piração!
GUFO: A mesma Bíblia que diz isso, um capítulo a frente diz o seguinte em Êxodo 21:12 “Quem ferir a outro e causar a sua morte será morto.” Em Gênesis capítulo 9 versículo 6 está escrito “Quem derramar o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue derramado”. E por fim, em Salmos 58:10 “O Justo se alegrará quando vir a vingança; lavará os seus pés no sangue do ímpio”
RATO: Nossa Gufo! Eu to surpreso contigo! É sério! Eu não sabia que você era um desses… Desses evangélicos fanáticos. Sério mesmo. Não fazia idéia!
GUFO: Mas eu não sou evangélico. Graças a Deus, eu não sou.
RATO: Então o que você é? Porra! Você é mais psicopata que esse cara! Sério mesmo!
GUFO: Eu sou Cristão sem religião. Eu ando ao lado de Jesus Cristo. E todos os dias eu oro para ele e peço que me proteja dos seus próprios seguidores.
RATO: To de cara contigo, oh Elegante! Essas coisas que tu diz, são meio malucas mas fazem sentido. Só quero saber uma coisa de tu. Você tá ciente de que se você matar o sujeito, você vai se tornar um assassino também né? Um homicida!

Gufo se cala. Quinze segundos se passam de um conturbado silêncio interno.

GUFO: Eu sei disso.
RATO: Ah bem! Eu só queria saber se você estava sendo sincero consigo. Tá bem então oh elegante! Eu topo te ajudar a caçar esse cara. É só marcar a data e a hora. Preciso sair agora. Volto mais tarde.

Rato desliga.
Gufo fica calado de frente para o rádio. Pensativo.
Desliga o rádio.

Fecha no Black / Corte Seco

Ephémeros Gerundiu e a Rabeca do tempo

In Sem-categoria on Agosto 14, 2007 at 3:40 am

Estamos indo bem, estamos tendo fé.
Disse a fada Ephémeros ao Duende Gerundiu, que acariciava sua Rabeca, com pelos da crina de cavalo.

Adultos, tão coitados, que não crêem na própria fé. “Será existe um Deus?” – se perguntam. A pergunta por sí, só de perguntar, já se nega. Da barriga da interrogação a dúvida nasceu para rabiscar as mentes infantis. Dos rabiscos formaram-se dúvidas. Aquela doce vontade de viver apenas, sem nada entender, foi-se embora. Esmaeceu.

Ouça o vibrar,
a música no ar,
nem precisa acreditar

Para pleno estar no tempo há de se encontrar, imerso em suas cordas, permitir-se comover. Vibrantes são os graves e tão quanto os agudos, entrelaçam-se às entranhas, e juntas tangem uma canção.

Não há pestana
Enquanto há trova
Que permita se fechar

Ephémeros, a cortês fada, de corpo fino e aura amável, não dura mais do que um momento, de bonita que é. Como bolha de sabão. É assim o amor, o amor é sempre assim, dura pouco, empalidece. Até se omite, mas não se esquece.

Pestaneja com Morfeu
Não se deixa olvidar
Essa dor que tem em tí

Gerundiu, o Duende, vive aqui e agora, nunca antes ou depois, desafia a certeza de que um e um dois são. O presente é sua casa, não tem sonhos para amanhã, nem saudades de yesterday.

Toca toca a rabequinha
Com saudades de quem ama
Faz vibrar esta cordinha

Fadas e Duendes vivem anônimos e alheios à concretude dos que pisam no chão. A Vila dos sonhadores, sim é lá que vivem, foi lá que eu fui, e não faz muito, foi dias atrás, mas quando pra trás ficou, esquecí.

A rabeca arrisca um ré
Velho tempo, músico nato
Só crianças ouvem a fé.

Submarino Patch – Parte 2

In ficção on Agosto 13, 2007 at 6:21 pm

Capitulo 7 – O Telescópio Farsesco
“Leia, percebemos que você tem sentido falta de conhecer a superfície por isso decidimos criar este periscópio especialmente para você!”, Diz Duni

O periscópio com que presentearam Leia tem uma abertura na extremidade de baixo e é fechado na extremidade superior.

“O que é isso?” – Perguntou Leia não conseguindo deixar de esticar as mãos sem conter a própria curiosidade.

“Demos a ele o nome de Telescópio Farsesco!” Diz Duni.

“Mas que belo nome. Me pergunto para que serve esta invenção peculiar.” Diz Leia

Duni “É um periscópio portátil. Você pode levá-lo para onde quiser, poderá olhar para a superfície de onde estiver, com muito mais nitidez do que através das lentes do periscópio velho desse submarino!”

“Mas ele não tem saída para a proa. Como posso ver alguma coisa da superfície dessa maneira?” – Leia parece confusa, mas ao mesmo tempo feliz com a idéia de que poderá assistir o que se passa lá fora. É até melhor estar em seu quarto, longe de todos estes remadores mal cheirosos. Seres grotescos sem o bom hábito do banho ou do uso diário de desodorante.

“Nunca ouviu falar de controle remoto Leia? Este é um periscópio de controle remoto! Você vê a superfície através de controle remoto. Olhe dentro deste visor e verá” Disse Duni.

A testa de Duni começa a suar, como fica a testa do culpado diante de uma acusação pela qual quer se passar por inocente.
Leia enfia o rosto dentro do visor do Telescópio farsesco e descobre que realmente pode ver uma imagem da superfície através desse sistema inovador de controle remoto. Há um oceano vasto, um claro céu azul e nada mais. Ela sentiu-se feliz pela segunda vez ao saber que poderia ser uma das primeiras a enxergar a terra firme assim que chegassem em Bora-Bora. Perguntou a si mesma se não seria possível instalar uma espécie de vídeo gravador dentro do telescópio remoto para recordar aquele momento mágico, mas decidiu não explicitar a pergunta com medo de que sua ignorância se tornasse pública.
O sistema do telescópio farsesco é baseado numa idéia digna de qualquer charlatão barato. O telescópio é feito de um tubo de madeira na qual estão posicionados um grupo de espelhos que incidem uns sob os outros e o último espelho aponta para a foto estática de um oceano e um céu azul. O reflexo da foto chega aos olhos de Leia como se fosse a imagem da superfície. Como não existem relógios dentro do submarino ela nunca saberia distinguir o dia da noite. Na foto o dia é constante, mas caso ela questione este detalhe, Duni e Edna poderiam atribuir a culpa ao fato de que estavam viajando pela linha do equador celeste e que a esta altura a inclinação magnética é nula e o dia é constante. A explicação não explica coisa alguma, mas Leia não quer correr o risco de tornar pública sua ignorância.
Leia subiu com o telescópio falso para seu quarto. Decidiu que não contaria nada à Steban, guardaria a novidade só para si. Tranqüilizou a própria consciência dizendo que ele próprio preferiria assim, ele era o líder e como líder gostaria de aproveitar a sua viagem de outras maneiras. Enquanto isso Leia poderia governar as coisas em seu lugar sem que ele gastasse um só minuto de cansaço.
Edna e Duni satisfeitos porque seu plano astucioso está em prática e funciona na mais perfeita ordem. Agora os irmãos coordenam o submarino enquanto Steban se confina e Leia se ilude.
Capitulo 8 – A pequena janela de Steban
Os braços de Gulliver estão cansados e cada momento de desatenção de Duni e Edna serve para se permitir um pequeno descanso. Já está exausto e a bexiga pesa a cada empuxo. Por isso Gulliver se levantou e pediu para usar o banheiro. Leia e Duni de tão entorpecidos com o sucesso recente nem se importaram e deixam que ele fosse ao banheiro.
Gulliver caminhou pelos corredores sombrios do Submarino e percebeu a sujeira do lugar. Questionou se todo o discurso de Steban estava sendo posto em prática. Já estavam no mar há tanto tempo e até agora nada além de remar e remar e remar. “Se quiséssemos apenas remar teríamos comprado caiaques e não pagado duzentos xelins e trinta níqueis para remar num submarino”, pensava. Gulliver chegou ao banheiro e foi descarregar seus pensamentos na latrina, mas o banheiro era uma porcaria das maiores pois era usado regularmente por Beto, o Troll, completo ignorante no que se trata de hábitos higiênicos.
Gulliver subiu as escadas, decidiu que queria saber diretamente de Steban quais eram os planos para o futuro, queria ter certeza de que este submarino seria um aprendizado de valor.
Nos corredores superiores do submarino imaginou que não deveria estar lá, sentia-se sujo e por lá tudo era tão limpo e impecável. Passou pelo quarto de Leia, que observava o periscópio de brinquedo atentamente, girava o periscópio no ar como se pudesse controlar o verdadeiro periscópio em busca de terra a vista. Nem dormia, queria ter a sensação de saber de tudo e queria saber antes mesmo das aberrações. O telescópio farsesco tornou-se um vício para Leia, e uma piada que rende bons risos para Edna e Duni.
Steban olha hipnoticamente para a pequena janela do submarino. Cutucando o vidro a espera de alguém ou algum peixe conversador. Se ele pudesse enviar uma mensagem numa garrafa pediria por socorro, mas ninguém saberia ler em seu idioma. Steban viu que Gulliver acaba de entrar pela porta e Gulliver reclamou:

“Ei! Os banheiros do andar de baixo estão uma porcaria só! Quem vai limpar tudo?”
Steban grunhiu algumas palavras, mas a comunicação não se efetivou.

“Mas não tem problema, eu queria saber mesmo é quando vamos ter o direito de participar das outras funções dentro do submarino. Eu já cansei de remar e acho que já aprendi bem como se rema. Qual o objetivo de vocês em nos fazer remar afinal?” – Gulliver esperava por alguma resposta genial. Steban quis pedir que falasse mais pausadamente, não adiantaria mesmo assim, mas talvez houvessem fonemas parecidos entre os idiomas. Gulliver só entendeu grunhidos e rezingados.
Capítulo 9 – O Discurso de Edna e Duni
Gulliver fez mímicas para explicar o que tentava dizer. Steban conseguiu entender a parte que dizia que os banheiros estavam sujos. Gulliver e Steban desceram as escadas prontos para resolver este problema. Gulliver sentiu que tudo começaria com a resolução de um pequeno problema que era um banheiro sujo, e logo os outros problemas seriam resolvidos dentro da seqüência. Dentro de pouco tempo o submarino estaria viajando no rumo certo e os tripulantes estariam todos aprendendo e alimentando seus sonhos com esperanças, porque ganhar braços fortes parecia não ser essencial na arte de timonear submarinos.
Gulliver e Steban chegaram ao andar de baixo e foram em direção ao banheiro para analisar o tamanho da calamidade. Duni e Edna levantaram-se imediatamente de seu trono que fica de frente ao periscópio e bloquearam a porta do banheiro antes que Steban tomasse qualquer iniciativa.

“Podemos saber o que se passa aqui Marujo?” Perguntou Duni a Gulliver.

“Eu trouxe o Steban para conferir o estado dos banheiros. Estamos pagando duzentos Xelins e trinta níqueis para aprender a timonear um submarino e não para remar. Nós não aprendemos nada, não sabemos em que direção nós estamos remando, alguns deles estão remando em direções opostas. A comida parece temperada com poeira e o troll nos trata como porcos, nos dá quinze minutos para esperar um prato limpo e pegar a comida. É preciso no mínimo trinta só pra criar coragem de engolir aquela pasta de gororoba!” – Disse Gulliver

Duni e Edna ficam revoltados com a atitude rebelde do marujo Gulliver. Ele por sua vez olha para os companheiros remadores esperando que alguém levante a voz. Que alguém tome partido ou grite um “Estou com ele!”. Estão todos calados, cabisbaixos esperando que os siameses resolvam a situação como acharem melhor. A verdade é que os irmãos siameses faziam a realidade do submarino parecer tão gostosa quanto água na nuca em dia ensolarado. Estavam convencidos, todos eles, de que as coisas estavam assim por enquanto, mas que estão no caminho de um paraíso, e que de acordo com Edna, basta confiar nela que as coisas darão certo. Para os remadores não adianta brigar, mesmo que tudo seja uma mentira, ficar do lado mais fraco não é uma escolha esperta, e Gulliver é tão pequeno. Como pode alguém de estatura tão prejudicada ser portador de alguma razão? Como pode nessa terra, ter recebido um tamanho de rato o correto e ter um corpo duplicado o errado? Isso não pode. Gulliver só pode estar errado e os duplos, ahhh, eles pensam por dois.
Edna pegou Steban pela mão e disse para não se preocupar porque tudo ia acabar bem, bastava que confiasse nela. Duni ofereceu a ele uma estopa para que lustrasse o vidro de sua pequena janela. Edna disse que já havia providenciado uma limpeza geral do banheiro e que o banheiro estava sendo limpo naquele exato instante. Não deviam perturbar de maneira alguma o faxineiro que ali estava porque era um sujeito muito tímido e cheio de regras, uma delas é que durante a limpeza a porta não deveria ser aberta de maneira alguma, o ar poluído do exterior contaminaria antecipadamente o ar imaculado do interior.
Todo bom produtor, todo bom locutor, todo bom orador sabe dizer o que as pessoas precisam ouvir, mesmo que o que elas tenham a dizer não seja verdade. Se as pessoas ouvem o que precisam ouvir já basta para que fiquem satisfeitas. No fundo todos sabem que não se trata da verdade, mas tem uma outra verdade que diz que estar satisfeito é melhor do que saber a verdade. Steban confuso balançou a cabeça como se tivesse entendido tudo, o que não era verdade, mas Steban ficou satisfeito com o tom da voz de Edna, as coisas pareciam estar em ordem. Edna o indicou o caminho de volta para o quarto e ele foi levado como se não conhecesse o caminho, impassível acreditando que na mão dos siameses o problema estaria resolvido. Steban voltou a olhar pela pequena janela do submarino, agora com uma estopa esperando que algum peixe viesse conversar com ele em sua língua natal. Dos peixes, se espera que borbulhem e que nadem, nadem e nadem. De Steban nada.
Capítulo 10 – A punição de Gulliver
Edna e Duni estão descontentes com a rebeldia de Gulliver: “Queremos o melhor para vocês, mas é assim que vocês nos pagam?” Acorrentam-no e o punem com chicotadas. Gulliver agüenta tudo calado e vez ou outra contempla os olhares medrosos dos amigos remadores. Nenhum deles ousa encarar os seus olhos lacrimosos, pois estão com vergonha dos próprios olhos e das próprias costas. Dos olhos porque não estavam chorando quando deviam chorar, das costas tinham vergonha porque eram eles os merecedores das chicotadas. Talvez a maior vergonha de todas fosse agüentar calados toda essa mentira, é uma grande chicotada ser enganado, saber disso e ainda sorrir, mas satisfeitos pela promessa de um futuro melhor cegava as ventas dos remadores e esta vergonha não os incomodava tanto. Os submersos se submetem, é natural.
Uma vez por dia Beto abria a escotilha e oferecia azeitonas ao Gilmor e assim foi por um ano e meio. No fim desse tempo todos já estavam acostumados com o tédio e até mesmo o tédio já havia perdido a graça.
Num belo dia claro para o telescópio farsesco de Leia, mas nublado para o verdadeiro céu do periscópio verdadeiro, alguém do exterior tocou a campainha do submarino. Steban já havia aprendido a conversar a língua dos peixes e seu autismo adquirido não lhe permitia mais distinguir o som de campainhas. Ficou borbulhando de sua janela para os peixes. Leia saiu de seu aposento e subiu as escotilhas num salto nefasto. Duni e Edna vieram logo atrás e todos subiram juntos pela primeira vez desde o início da viagem na proa do Patch. Gilmor estava lá, amarrado em seu cabo e queria azeitonas. Um barco estava ancorado perto do submarino.
Capítulo 11 – A chegada da expedição TROPA
O alvoroço geral era evidente. Entre os remadores murmurinhos curiosos. Eles já não faziam idéia nenhuma de tempo. Gulliver aproveitou que todos estavam na proa do submarino e foi até o periscópio para ver o que estava acontecendo.
A visão do periscópio era muito estranha. Tudo estava borrado e haviam manchas pretas no visor, mal se dava pra distinguir o céu do oceano, o periscópio desfocado era inútil. Edna e Duni ainda assim pareciam seguros de para onde estavam indo. Um guia nublado aos seguidores ceguetas.
Os homens do barco fazem parte da expedição TROPA e é o capitão da expedição que está falando. “Somos a Expedição de Trabalho Racional Operante na Prática de Água-Salgada. Decidimos cortar o S para não nos pouparmos do plural. Nosso trabalho basicamente é investigar a vida curiosa e fantástica dos oceanos tardios, cada grupo operante trabalha em um setor diferente do oceano, este é o nosso”. Os oceanos tardios são oceanos no qual todos chegam uma hora ou outra, mas é sempre tarde demais seja para o que for.
E prosseguiu o capitão: “Vimos um homem surfando sem prancha e pedindo por azeitonas na superfície. Como benfeitores que somos decidimos ajudá-lo.”
Foi este o momento em que Gilmor, o surfista amarrado, puxou a corda e de repente emergiu.
“Nós da expedição TROPA, queremos saber se o submarino Patch não poderia emprestar um de seus tripulantes por um curto período de tempo. Estamos desfalcados de um homem que morreu durante um ataque de tubarões alados. O empréstimo não passará de um dia.”

Leia empolgou-se com a idéia, mas ela própria não gostaria de embarcar com os homens da expedição TROPA. Todos pareciam muito brutos, quase tão brutos como haviam se tornado os remadores. Leia pensou que poderia premiar Edna ou Duni com a chance de viajar. Duni e Edna ficaram interessados, mas os homens da expedição TROPA disseram que o barco só comportava mais uma pessoa, sugeriram que Edna e Duni fossem serrados ao meio. Eles não gostaram da idéia. Numa altura dessas da vida, logo quando tinham conseguido tanto sucesso profissional não era hora de desfalcar a dupla inseparável. Gilmor era muito estúpido para participar da expedição TROPA. Beto era muito grande, afundaria o barco. Os membros da expedição sugeriram que enviassem um dos remadores. Leia hesitou, mas resolveu que sim, daria o prêmio ao mais bem educado de todos eles.

“Muito bem!” Disse Leia. “Vamos escolher o remador número 12. É um excelente remador, tem boa memória, é obediente, bem educado e anota tudo o que a gente diz. Não há melhor remador do que o número 12, definitivamente não dá problemas! Estamos decididos que vamos premiar o número 12 pelo seu bom comportamento.” – Disse Leia.

“Qual o nome do número 12?” – Perguntou o capitão da expedição TROPA.

“Os remadores passaram tanto tempo remando que esqueceram seus próprios nomes.” – Respondeu Duni.

“E como vamos viajar com alguém que não tem nome? Como vamos chamá-lo? Como vamos pedir alguma coisa para alguém que não tem nome? Precisamos de alguém que tenha um nome.” – Capitão

“Mas nenhum dos remadores tem nome! São apenas remadores, nada mais. Remador um, remador dois e por aí vai.” – Duni

“Não vamos viajar com um marinheiro anônimo, isso traz uma má sorte que não vai embora!” – Disse o capitão em nome da expedição Tropa batendo a perna de pau.
Capítulo 12 – O Marinheiro nominado
Era uma confusão geral entre os líderes do Submarino Patch. Quem mandariam? A voz de Edna soou tímida com a solução aparentemente inviável.
“Na verdade um deles tem um nome…”

“Qual… Ahhh sim. Aquele! O tal Gulliver. Não, você não ia se interessar por ele. É um subversivo.” – Duni

“Um subversivo? Eu não tenho problemas com subversivos. Metade da expedição TROPA é formada por ex-piratas. Entre nós existem estupradores, saqueadores, cangaceiros, assassinos, ovelhas negras, marginais sonegadores, mentirosos, picaretas, depravados e subversivos! Um subversivo seria bem vindo a bordo!”

Sem que os piratas da expedição TROPA ouvissem, conversaram entre si os membros do Patch. Com suas línguas de Cobra, Edna, Ludi e Leia decidiram que:
“Então mandem subir o tal Gulliver. Ele é o único de todo este submarino que pode viajar com estes malucos da expedição TROPA. É muito perigoso para qualquer um de nós correr este risco. Enviem-no como isca e se ele voltar receberemos nós o pagamento.”

Chamaram Gulliver entre os remadores. Alguns o invejaram, outros sentiram medo por ele. Outros acharam que ele havia sido julgado a morrer na prancha. Ninguém sabia por que ou para que, além de anônimos eram todos ignorantes de qualquer realidade que não fosse a de segurar seus remos individuais. Já era tanto tempo dentro do submarino remando que nem sabiam mais para que estavam remando. Sabiam remar com perfeição, seus giros eram perfeitos e faziam o submarino avançar ferozmente, movido pelos seus braços fortes, mas não faziam noção nem mais da direção em que estavam remando. O que importava era que fizessem certo o que tinham para fazer. Pensaram que um dia alguém perceberia como remam bem e os chamaria para trabalhar num submarino nuclear, ou algo que o valha. A verdade é que entre os remadores, quem rema pior é quem sai. Bons remadores continuam para sempre fazendo o que tem de fazer, remar.
Gulliver subiu a escotilha e partiu com os piratas da expedição TROPA.
Capítulo 13 – Gulliver e os piratas
“Meu rapaz, hoje vamos fotografar e estudar o comportamento das sereias das ilhas de Antemoessa. Coloque estes tampões nos ouvidos assim que chegar lá e tudo ficará bem. Leve esta maquina e fotografe tudo o que puder.” – Disse o capitão da expedição TROPA.
Durante o percurso um dos piratas começou a tocar sua sanfona. Uma voz rouca e desafinada soou cantando uma canção, as outras vozes acompanharam a cantoria, todos cantaram menos Gulliver, que não conhecia as letras.
Após um bom tempo de festa a expedição TROPA chega à ilhota e o silêncio volta a reinar. Com cuidado para não fazer barulho os piratas empurraram Gulliver a terra firme.
“Nós temos que ir por aqui?” Gulliver pergunta.
“Nós não. Você vai!” – Um dos piratas responde.
O capitão completa a instrução.
“Basta atravessar a ilha, tire todas as fotos que puder. Se não voltar em duas horas vamos embora sem você.” O capitão diz.
“E para que estes tampões nos ouvidos?” Pergunta Gulliver.
“Para que o canto delas não te influencie magicamente. As sereias são perigosas, elas podem te levar para o fundo do oceano e lá elas te devoram vivo.”
Entre os piratas ficou o medo da morte, apesar de um explícito desejo contido, mas não escondido de observar as mulheres peixe de perto.
Gulliver quis voltar, mas as espadas dos piratas da operação TROPA apontaram-se para ele.
“E se voltar sem as fotos morre do mesmo jeito!” Gritaram.

Fela Kuti

In jornalismo on Agosto 6, 2007 at 8:04 pm

Eta é uma pesquisa que fiz sobre o músico e ativista Nigeriano Fela Kuti. Achei interessante postar aqui, o sujeito é para a Nigéria o que Chico Science é para o Brasil, talvez tão importante quanto Bob Marley mas bem menos reconhecido. Conheçam esse sujeito!

“Africanos, ouçam a mim como africanos
Não africanos, ouçam a mim com a mente aberta.”

Fela Kuti, Nigeriano, pai do estilo musical “Afrobeat” e ativista engajado pelos direitos humanos. Morreu em 1997 portador de HIV.

Fela Kuti nasceu em Abeokuta, Nigéria, em uma família de classe média. Sua mãe Funmilaio Ransome – Kuti, foi feminista ativa em um movimento anti-colonial. Seu pai, reverendo Israel Oludotun Kuti, foi presidente da união Nigeriana de professores. Ele se mudou para Londres em 1958 para estudar medicina, mas decidiu estudar música.

Formou uma banda chamada “Koola Lobitos” tocando um estilo que chamou de AfroBeat. Mais tarde levou a banda para os EUA e lá teve contato com o movimento Black Power que influenciou sua música e visão política. Voltou com a banda para Nigéria, com o novo nome “Nigéria 70” onde fundou a República de Kalakuta. Uma comuna, estúdio e lar para os envolvidos com a banda, declarando-se independente do estado da Nigéria.

Mudou seu nome para Anikulapo, que quer dizer “Aquele que carrega a morte em sua mala”, pois seu nome original “Ransome” era um nome de escravo.

Suas músicas são críticas ferrenhas ao sistema colonialista e à atitude conformista da população. Falava sobre a igualdade racial, identidade africana, feminismo, necessidade de insurreição, e como Bob Marley, sobre o povo no poder. Isso incomodava o governo Nigeriano. Sua vida se entrelaçava com o que compunha. Em 1974 a polícia chegou em sua comuna sob uma alegação de que econtrariam maconha no local. Para o incriminar, forjariam a pista “plantando” a droga em Fela. Estando ciente disso, ele engoliu o a droga. Em resposta a polícia o levou sob custódia. Esperaram para lhe examinar as fezes. Fela Pediu ajuda ao seus colegas de prisão e deu a polícia as fezes de outra pessoa. Ficando assim livre da incriminação forjada. Ele narra seu conto na música “Expensive Shit” (Merda Cara).

O Groove do Universo Caótico

In ficção on Agosto 3, 2007 at 3:52 am

Barbaridade meu cumpadre!

A Pedra voou numa trajetória facilmente descrita e destrinchada pela física newtoniana e ao cair abriu um ferimento de possibilidades quânticas na tua cabeça, sujeito teimoso. Alvejado pelo amor, cambaleou sem direção e procurou as setas no chão. Não há indicação de para onde ir!

Cercado pelo ceticismo miserável de uma mente egoísta o sujeito teimoso busca se proteger. Se não tivesse o amor. Se não tivesse essa dor, será que valia a pena? Badden, já diria “era melhor tudo se acabar”.

O chão manchado da cor da chuva carregou para o bueiro as lágrimas de um sujeito que teimava em não encarar os olhos de seu objeto de amor, e talvez por isso houvesse um débito com o próprio Satanás, de pagar em lágrimas a sua aversão pelo amor!

Ainda assim, inveterado estudante, teimava em viver encarcerado do universo comum a todos, aquele mesmo universo que faz dos humanos, humanos. A não aceitação da mediocridade intelectual lhe tornou um tecnocrata mediocre no que se refere a qualquer forma de afeto. Nada sabe sobre a a-ciência do coração.

A ciência pode explicar um monte de coisa, e chega a travar o mundo num conceito exato. Mas quando bate uma tecla de amor, de um acorde bem agudo, aí meu cumpadre, muda tudo e a física que funcionava na prática a olho nú não serve pra descrever o movimento quântico das partículas subatômicas. E aí meu chapa, é a hora que as músicas do Tim Maia começam a fazer sentido, e do teu coração brota uma coisa que tú nunca viste nessa terra, é um groove.

Barbaridade, meu cumpadre!

É hora de dar meia volta, porque esse terreno é perigoso. Talvez o mais careta dos humanos não esteja preparado para tal vislumbramento dessa dimensão tão maior do que se pode compreender. Fica quieto aí teimoso porque hoje a noite meu chapa, hoje a noite vai chover, só você que não vai se molhar, porque a chuva vem de ti.