Gustavo

Posts de Julho, 2007

Vila dos Sonhadores

In Sem-categoria on Julho 31, 2007 at 4:10 am

Não chegamos a ser tantos, não chegamos sequer aos quatrocentos, mas unidos, sonhando, somos no mínimo um exército e com nossos pensamentos podemos remover montanhas imaginárias, desbloquear barreiras e tecer laços invisíveis, como aranhas em busca de um novo caminho em direção ao outro.
Podemos não ser muitos, mas o que somos já basta, porque somos suficientes.

O Ruído

In ficção on Julho 30, 2007 at 7:46 pm

Não há um dia sequer em que Barone – PT4JC não acione sua antena receptora com seus diversos indicativos no Brasil.
É um prazer auscultar conversas alheias como uma coruja, na espreita, aguçado. “Sobre o que estarão falando?” “Quem serão aquelas pessoas?”, é um dos prazeres de Barone ser radio amador.

Quando está com amigos, através das ondas sonoras propagadas pela atmosfera, nunca deixa de demonstrar sua queda por metafísica, amigos entediados. Ele gosta de ponderar acerca dos mistérios sem resposta do universo. As coisas não resolvidas e não respondidas são muito mais interessantes do que aquelas que já estão em panos limpos.

Corujando conversas como sempre faz, numa quarta feira de um mês de outono interrompeu sua rádio escuta para pegar o chá que sua quase esposa (pois já moravam juntos há mais de dez anos) preparou. Enquanto entrava na cozinha para pegar a caneca de água quente, Lucio passou correndo. Com seus 9 anos, adorava descobrir pequenas peças na bagunça do quarto do pai.
“Michele! Tira o Lúcio do quarto! Ele vai bagunçar minhas coisas”
“Barone! Tira você. Estou assistindo a novela.”
“Eu estou preparando meu chá. Vai lá amor. Tira ele de lá pra mim. Vai fazer a maior zona”
“Ta bem. Tá bem”

Michele, acostumada já se prepara para a choradeira por vir. Barone mergulha a erva verde dentro da água e se conforta com a calma que o ritual proporciona ao seu corpo. O vapor que toca seu nariz e o pó fundindo-se a água são pequenos prazeres das noites frias.

Barone passa para o quarto do rádio, há um chiado incomum. Com cuidado para não derramar nenhuma gota, Barone empurra a porta com a cintura e tropeça no corpo de sua esposa derramando a água quente sobre o rosto de seu filho que também está caído inerte no chão. Não há tempo para o desespero nem muito menos para compreensão pois os tímpanos de Barone estão prestes a explodir.

Dizem que durante a raiva nós esquecemos de quem somos. E Barone não era mais Barone, era apenas raiva e ódio.
Raiva e ódio.

Pensamentos dourados

In ficção on Julho 24, 2007 at 6:52 pm

Notívagos de São Paulo dos quais fiz parte um dia, saudações.
Duas da matina, já embriagado mas sem vontade de pisar no inferno do meu cafofo. Não quero deitar naquela cama poeirenta para ouvir os carros passando dentro do meu quarto, nem muito menos ouvir o casal homossexual brigando ou trepando, Babilônia.

Queria ficar fora, arrumar a companhia de umas empregadinhas gostosas frequentadoras de festas em ambientes suspeitos. Andei cambaleante para a rua de trás, e evitei aos tropeços de bater a boca numa placa de sinalização, os cadarços desamarrados.

Bem vestido que eu estava até parecia um bom moço. Desses que vão para a igreja e se perdem no caminho de casa. Na verdade foi exatamente isso o que aconteceu. Um dia eu estava na igreja, com os cabelos penteados, de mãos dadas com meus pais e hoje eu estou aqui, observando uma vadia na porta de um motel, tentando me concentrar nos resquícios de beleza conservados na sua aparência decadente. Uma beleza amassada.

Ela pode me chamar que eu não vou. Estou bêbado mas não sou bobo e ainda tenho dignidade. Passo direto. Alguns passos depois a carência me faz dar a meia volta lá no cruzamento e quando eu me vejo já paguei 20 reais por um quarto no Motel. Esse preço está caro. A minha cara de bonzinho sempre faz com que as pessoas se aproveitem da boa vontade.

Ela só queria se picar. Eu tentei agarrar os peitos dela. Parece que não havia sangue pulsando alí, ela nem percebe a minha mão. Está com um isqueiro acendendo a ponta de uma colher torta com o “suquinho”, como ela diz. O suco vai pra seringa e da seringa vai para as veias. O braço todo picado. Que nojo,tiro a minha mão dos peitos dela e deito na cama, o espelho no teto.

Antes de se picar ela me diz que tem medo de ficar com a agulha no braço. Enquanto ela faz os preparativos, me passa um sermão sobre o quanto essa vida é uma merda e que eu não devo usar isso nunca. Ela se pica no meio do sermão e pára de falar, eu tiro a agulha do braço dela. De tão cansado volto a me deitar.

Um gato entra pelo buraco da janela estilhaçada, qualquer chuvisco molharia o chão todo, sorte que ultimamente os dias são quentes e apesar de úmidos, sem chuva. O Gato me conta sobre a filha dela e da vida que ela poderia ter se não fosse viciada, filha de publicitários, foi la que ela aprendeu a cheirar cocaína. Eu peço para o gato falar mais alto, porque daqui do teto não posso ouvi-lo direito. Ele tem uma dicção perfeita, mas o volume de sua voz não me alcança com facilidade.

Eu juro que não queria, mas sentí pena dela. Pensei até, na minha embriaguez, em ficar com ela, cuidar dela, tirá-la dessa vida.
Sabe Brother! Deviamos ser todos irmãos. Cuidar uns dos outros… Eram os meus pensamentos dourados. E os do gato também.

Já faziam duas horas. Foi o que o relógio me disse. O gato, com seus olhos de diamante fitava-nos, sem desdém mas com respeito e dignidade. Era eu quem sentia pena de mim mesmo. “O que estou fazendo aqui?”, mas os olhos do gato me confortaram. Eu a abracei, querendo dormir. Ela estava em paz.

O gato sonhava para nós com um futuro agradável envoltos em nuvens flutuavamos para o céu. Nós dois.

Eu mencionei que o gato estava com pensamentos dourados. Acho que ela não entendeu. Quando amanheceu o dono do motel bateu na porta e pediu para que saíssemos. Eu paguei pela noite, mas queria dormir até meio dia, não podia. Ela já estava melhor agora, gritou para o gerente que ia tomar um banho e que depois sairia. “Me espere terminar o banho, vamos tomar um café da manhã juntos.” e eu disse que tudo bem.

Ela entrou no banheiro minúsculo descalça. As baratas pularam para fora. Ela não se importa. Assim que a ducha se ligou eu abrí a porta e saí do quarto. Desejei que o gato tivesse mais daqueles pensamentos dourados, ela iria precisar.

Fiquei pensando naquela viciada que nunca mais ví.

Receita de Hermes Trismegisto

In Sem-categoria on Julho 23, 2007 at 5:08 pm

Esta receita
Hermes Trismegisto trouxe ao conhecimento da humanidade certos princípios que regem a natureza íntima do nosso mundo. E a mim, ele ensinou a receita do vigor. Uma mistura de frutas e componentes que trazem vigor e sabedoria àquele que a tomar.

Enquanto tocava uns intrumento que ele próprio havia inventado, eu escutava atentamente suas lições em forma de canção. O seu instrumento era feitos de cacos de tartaruga usando como cordas, tripas de vacas. (Vacas roubadas de Apolo).

Começou a cantarolar a canção, que era a receita que eu estava destinado a preparar. Com papel e caneta pude anotar algumas partes da receita:

Três colheres da farinha lactea mais pura e peneirada
Um copo do leite doado espontaneamente de uma vaca gentil
Dois morangos vigorosos de tamanho respeitável
Metade de uma maçã vermelha lustrosa cortada com faca de lâmina afiada
Duas fartas colheres de mel colhidas sob supervisão de abelhas atenciosas (ou Karo)

Bata tudo no liquidificador
Agora é só beber e aproveitar do vigor do qual seu corpo será tomado.

Obrigado Hermes Trismegisto, por uma pequena parcela das três partes da filosofia universal.

Sem Inspiração

In Sem-categoria on Julho 22, 2007 at 7:03 pm

Não tenho muitas coisas a declarar, e duvido um pouco se o que estou prestes a declarar vale a pena ser declarado.

Existem muitos pseudos, farsantes e charlatões por aí. Muitos deles são arrogantes, outros desonestos e não admitem sua incapacidade e outros simplesmente não tem a consciência de que são péssimos.

Vejo hoje os colegas com quem estudei, a maioria deles fazendo coisas ridículas e pretensiosas, e fazem como se estivessem com algo incrível, e eu sinto pena deles. Estão criando um novo mote para a próxima geração do cinema brasileiro:
Uma câmera na mão e nada na cabeça

É aquela da aparência sem conteúdo. Aliás, a maioria deles tem aparências extravagantes, são afetados, chamam atenção quando estão na rua, mas por dentro da embalagem não tem muito a dizer e pior, nem um pingo de ousadia. Gostam do quadrado. Do careta. Apesar de usarem todas as drogas que podem, de biritar e frequentar as melhores baladas e ficarem doidões, suas idéias são caretas e conservadoras. São massificados.

Caralho, detesto ficar reclamão assim e complexado. O que detesto mais ainda é fazer estes egotrips, mas enfim, não consigo pensar em nada melhor para escrever.

Querendo ou não, inspiração é tudo. Por mais que seja necessário muito mais esforço do que uma luz de inspiração, sem a inspiração não há ponto de partida para se iniciar o esforço. É como diz a frase:
“Escrever ou é facílimo, ou impossível”

Открытая выставочная

In ficção on Julho 4, 2007 at 7:17 pm

A “Feira Aberta” é um mercado ilegal que ocorre semanalmente na Federação Russa, localizado em Alagir, uma cidade da Ossetia do Norte, próxima ao Rio Ardon. Nesta feira qualquer coisa pode ser vendida. Há leilões há todo momento e basta levar seu produto para receber os lances. Existe um leilão bem específico que é um Leilão de Seres Humanos. Você pode vender seres humanos de diversas categorias:
Escravos, Garotas de Programa, Bebês, crianças e mães.

Existem regras gerais e específicas de acordo com as categorias.
Para adotar qualquer ser humano é preciso calcular seu valor primário.
A seguir os aspectos observados pelos monetaristas:
1. Carteira de saúde em dia
É necessário conferir a carteira e aspectos como ausência de membros, cabelos, olhos ou dentes. Humanos que sofreram maus tratos em cativeiro costumam estar avariados e com isso seu preço diminui.
2. Capacidade de Comunicação básica
O objeto de compra deve saber se portar em sociedade e precisa saber no mínimo falar, ler, escrever. Ter a audição funcional também é um elemento que pode aumentar o seu preço no mercado.
3. Noções de auto higiene
Ter que dar banho num escravo não é uma tarefa agradável. Por isso os compradores sempre preferem aqueles que já tem noções sobre como se manter no mínimo sem odores desagradáveis.
4. Rebeldia
É incrível, mas alguns vassalos apresentam um comportamento rebelde que os diferencia dos demais. Costumam lutar e não aceitam as tarefas para as quais são propostos. Estes rebeldes são tratados como maças podres, geralmente são sacrificados ou usados em tarefas lastimáveis para que entendam qual sua posição social.

Existem manuais enormes com regras específicas para as várias modalidades de seres humanos.
As mães devem ser capazes de:
a) prover leite para um bebe
b) reproduzir
c) lavar louças
d) trocar fraldas
e) acalentar
f) amar

Os escravos devem ser capazes de:
a) carregar peso
b) levar açoite

As garotas de programa devem ser capazes de:
a) praticar sexo (com ou sem preservativo)
b) praticar o aborto
c) beijar na boca (dependendo da quantidade de dentes)
d) levar açoite

Os bebês e crianças devem ser capazes de:
a) Controlar seu choro
b) agradar aos pais adotivos
c) não se interessar pelos pais biológicos
d) levar açoites

E não se esqueça de aplicar injeções e vacinas regularmente. Isso prolonga a vida útil de seus vassalos.

A última aula do jardim de infância

In ficção on Julho 3, 2007 at 2:48 am

Uma professora entra na escola suando, não sabe bem o que está acontecendo. Foi arranhada minutos atrás por um ensandecido e teve que empurrar o sujeito. Agora está passando mal.

Depois que perde o primeiro ônibus é difícil conseguir outro. Ela entra no jardim de infância mas está passando mal, já não consegue definir muito bem o caminho. Será a menopausa?

Bebeu água. Era um calor tremendo, talvez passasse. Não quis passar na sala dos professores, estava atrasada e era melhor não passar pela vergonha de se confrontar com a diretora, já era a terceira vez que tinha chegado atrasada só nesta semana e para a sorte a maquina de bater ponto estava com defeito. O crime perfeito.

Chegou na sala, as crianças alvoroçadas já de manhã. Segunda série é fogo! Mas foi só entrar na porta da sala que a criançada silenciou.
“Bom dia professora!”

Ela acenou. Já não conseguia mais responder. Pegou o giz com a mão suada. Rabiscou no quadro e o suor com o giz molhado tornaram a letra um tanto feia, talvez fosse a coordenação motora que já estava indo para as cucuias. Pediu às crianças uma redação sobre onde iriam passar suas férias. A criançada começou, deu sorte de pegar uma turma onde quase todos gostavam de redação, menos o Pedro, que odiava, entregava uma página com uma frase só, sempre algo do tipo “minha mãe é bonita”, sem muita complexibilidade. Já a Anita inventava histórias formosas, adorava falar sobre coelhinhos e o Amilton, garoto esperto surpreendia a professora com a capacidade de inventar histórias bizarras e as vezes até crueis.

A professora dava sempre 20 minutos para terminar a redação. fez como sempre, sentou na cadeira, abriu a lista de chamada e começou a verificar os nomes. O suor da testa despencava aos montes. O sangue parecia ser arrastado dentro das veias, a cada pulso uma contração em todo o corpo. Os olhos não queriam mais ficar abertos e um deles apontava para o lado errado. Algo de errado estava acontecendo à doce professora, ela não era mais dona dos próprios movimentos.

A criançada redigiu e a primeira a terminar foi a Luiza, a mais bonitinha da classe, ela dizia que seria vendedora quando fosse grande. Uma vez a Luiza trouxe brigadeiros para a escola e todo mundo comprou. Ela adorou.

A luiza entregou uma redação bem bonita pra professora. “Pronto. Acabei”
Ela ficou esperando a professora falar. “Agora fica quietinha e espera seus colegas terminarem” mas a professora não disse nada. Era só um troço suado, sentado na cadeira com a coluna envergada e a cabeça pendurada. A Luiza, sempre uma boa menina, fez um carinho na cabeça da professora, tinha pena de gente cansada.

A boca da professora abriu e um resquício de bílis vazou sobre o colo sujando a saia nova. Arreganhou os dentes e cravou uma mordida no bracinho infantil da Luiza, devorou partes do ombro da menininha. Ela não resistiu por muito tempo.

Seria por demais degradante descrever a carnificina que se passou na sala 2B da escola de ensino primário da Asa Norte. Não vale a pena conhecer tal história.

Algumas crianças tentaram escapar, mas as grades eram fechadas e aconteceu que aos poucos todas foram sendo devoradas. A diretora se manteve escondida enquanto ouvia os gritos das crianças lá no pátio principal, onde geralmente eram risinhos do recreio que a incomodavam em sua sala, mas hoje era medonho. Não adiantava apertar o sinal porque as crianças, mortas vivas, não retornariam educadamente às suas classes.

Assim que houve uma brecha a diretora escapou pela porta deixando o portão principal, pegou seu carro e foi embora. Alguns quilômetros adiante seu carro se acidentou com um corsa desgovernado.

Quando as crianças zumbificadas saíram pela porta principal, não houve quem não con corcordasse que o exército infantil de mortos vivos fora a coisa mais triste e repugnante que já se viu nessa vida.