Sentada sobre um sofá coberto por uma colcha de retalhos, sem se levantar. Foi assim que ela, conhecida pelo Vulgo de Virgem Marxista me recebeu para a entrevista.
Olhei no relógio, eram 15:33h, ela não se incomodou pelo meu atraso de 15 minutos, provavelmente sabia como o trânsito próximo de sua casa era er… caótico. Ela me ofereceu algo para beber e de início eu me senti completamente sufocado pela formalidade.
Seu ambiente é extremamente bem decorado e impecavelmente limpo, nem uma poeira sequer sobre os lustrosos totens incas que ela coleciona. A beleza da Virgenzinha Marxista me ofuscou por alguns instantes mas logo eu parei de suar e tentei me concentrar na entrevista e não no corpo dela, deliciosa, admito. É tão coberta, tão púdica que se torna provocativa; Seu olhar, tão blasê, tão indiferente, se torna sensual. Puxei meu caderno de notas e comecei:
Cineasta 81:
Boa tarde. Vamos começar com uma pergunta leve. Você escreveu em um de seus 7 livros publicados que não se arrepende de nunca ter aderido a vida de freira. Sente muitas dificuldades de levar um estilo de vida casto no mundo de hoje?
Virgenzinha Marxista:
Antes de tudo boa tarde a todos, e quero corrigir que sim, são 7 livros publicados mas que três novos livros meus sairâo até o fim do ano. Agora voltando a sua pergunta, não. Se eu me sentisse tentada seria difícil, mas eu não sou tentada. Sou paciente na busca do meu objetivo.
Eu deveria perguntá-la sobre qual seu objetivo, mas não me contive.
C81:
Não é tentada mas sabe que é tentadora…
Ela descruza as pernas
VM:
Sei. É verdade. Sei que os homens me desejam. Que tem anseios eróticos pelo meu corpo e que querem me possuir em suas camas, em seus carros, no parque aquático, na esquina, em cima da maquina de lavar, sobre as roupas sujas, em cima da mesa de sinuca, dentro de camas de moteis baratos, mas saber disso só me dá forças para prosseguir com o meu propósito de levar uma vida casta.
C 81:
De acordo com seu livro “Filosoris Hentai Pupulos Néosis” Quando você se refere à castidade, não é a mesma castidade que o Cristianismo vem pregando. Estou correto?
Ela cruza novamente as pernas. Coloca a ponta do dedinho na boca, pensando por um segundo ela olha pela janela, como se houvesse se distraído, mas sem hesitar volta a responder a minha pergunta.
VM
Correto. A castidade a qual eu me refiro é na verdade um retorno às origens, veja bem que entre os significaos – deriva do latim castu – a palavra tambem tem a significância de intacto, intocado. É preciso ressucitar velhos conceitos etmológicos e não se apegar ao que a língua se tornou pois ela está em constante mutação, não é mesmo querido?
Eu tomo um gole d´agua concordando com a cabeça. Perecebo que ela está lambendo os lábios. Olho para o chão humildemente.
C 81
E qual a importância, para você, de se manter intocada?
Ela se vira para trás e seus seios ficam espremidos contra o sofá. Inclinando-se mais um pouco e eu reparo que por baixo da roupa de seda não há calcinha. Ela se inclina mais um pouco e eu sinto um desconforto urgente um pouco abaixo da região do cinto e então ela retorna com um retrato de Karl Marx e Friedrich Engels na mão.
VM
Sou uma mulher de meu tempo, secular, Laica. Vocês homens, perpetradores desse estado falocêntrico são os maiores responsáveis pela solidificação do conceito de que a mulher é um objeto de prazer do homem…
Enquanto ela está falando o vestido de ceda escorre pelo seu ombro e o seio direito quase brota do decote imenso.
VM
E já que somos objetos de prazer do homem nosso único valor é sexual. Se nosso valor como seres humanos do sexo feminino é sexual, a cada vez que somos “tomadas”, “utilizadas”, “fodidas”, “comidas”, “curradas”, “estupradas”, “enrabadas”, “desgustadas”, “penetradas”, a cada vez que isso acontece nós perdemos um pouco do nosso valor…
Não consigo prestar atenção no que ela diz, por sorte eu tinha um gravador. É como o sonho mais incrível que se realiza, mas o leve tecido do vestido da moça está na beira do seio, sustentado apenas pelo bico do peito e minha testa está numa suadeia maluca. Meu caderno de notas está borrado pelas manchas do contato da tinta com as gotas do meu suor. Minhas mãos tremem e minha calça num furor tremendo desabotoaria-se caso houvessem dedos alí dentro, mas só há um, ensoberbado, e é desprovido de ossos e articulações.
VM
O meu objetivo com a causa da castidade voluntário é o de agregar valor feminino ao meu corpo antes que ele se deteriore com o passar dos anos. Tornar-me assim o objeto de maior valor neste mundo, visto que de acordo com a ótica capitalista a ordem da cadeia alimentar ocorre da seguinte maneira: “obter dinheiro para ganhar poder, ganhar poder para conseguir mulheres, ter mulheres para ter sexo”. Com este ato ativista de permanecer virgem eu agrego todo o valor possível ao meu corpo e tiro o poder das mãos dos homens. Eles não tem o sexo, que é o objetivo final de suas vidas e permaneço ainda como objeto abrindo um importante caminho para que as mulheres da próxima geração possam modificar este quadro e sejam valorizadas pelo que elas são. Sou como Ghandi, mas sou melhor, – aliás melhor é uma palavra bem parecida com mulher, já que estavamos falando de etimologia – Sou a primeira mulher do mundo a ser enquadrada na categoria dos possíveis messias da salvação, e não apenas como uma concunbina de Jesus, e atesto hoje com toda a propriedade que num futuro próximo nós, mulheres seremos as herdeiras do mundo.
Um silêncio petrificante se apodera de mim. Não existem perguntas a serem feitas. Ela tem razão! Eu concordo, eu concordo! E então ela se levanta e se inclina sobre mim para beijar meu rosto. Me despeço dela, mas ela se aproxima um pouco mais, o decote da Virgem Marxista, que era até então uma bobinha para mim mas que acaba de se tornar a minha musa, minha rainha, causa-me uma convulsão nos testículos quando apoia as mãos sobre as minhas coxas. Eu beijo o rosto dela e sofro o mais minimalista e maravilhoso orgasmo que eu já tive, apenas com o toque de sua mão. Percebo então o poder que aquela mulher possui.
Ela entra novamente em sua câmara de compressão e eu vou embora com meu caderninho manchado e meu gravador. Exultante pela entrevista miraculosa, porém com um nó no coração.


