Gustavo

Vidigal na peleja contra Exu

In ficção on Abril 1, 2007 at 8:35 pm

Absque argento omnia vana
Sem dinheiro, tudo é vão

Não fosse por uma série de agraventes te mataria agora mesmo. Mas não ouse estalar uma junta de seu corpo que juro que disparo sem hesitar esta arma para a tua cabeça de merda.

Disse a Mulher ao Tenente Vidigal. O tenente que não era bobo nem nada só queria escapar alí, mesmo que fosse sem a maleta de dinheiro. Mas a ex-esposa conhecia bem a índole de pilantra do velho marido que lhe maltratou por tantos anos, e que broxava noite após noite, talvez porque seu tesão fosse mais por dinheiro do que por mulheres.

O dinheiro deveria ser uma ferramenta, mas para Vidigal fora uma finalidade. Aquele inveterado adorador de dinheiro era um canalha. Se vocês o conhecessem, caros leitores, tenho todas as certezas de que o odiariam tanto quanto sua ex-esposa, mas nesta história de um narrador e dois personagens, o protagonista é o vilão, portanto não sei se será tão fácil assim matá-lo.

Mas mulher – Disse Vidigal à ex-esposa – Vejo que você tem ódio não somente de mim, mas também do dinheiro. Veja bem que foi o dinheiro quem lhe comprou este vestido e foi este mesmo quem nos uniu no sagrado matrimônio. Não seria sóbrio que pensasse mais um pouco? Que ponderasse antes de sequer apontar esta arma para meu rosto imaculado?

Mas a mulher, frequentadora de terreiros, era uma antena das entidades do candomblé e constantemente atenta a tentativas de persuasão. Filha de Exú, ela poderia se deixar levar pelo espírito arguto do velho Deus Africano.

Rosto Imaculado? - Disse a mulher. – Você parece que passou a tarde sentado no pedregal e depois trocou a cara pela Bunda! De hoje você não passa, seu Muquirana mão de vaca, filho duma quenga manca!

Vidigal se assustou, mas a aura do dinheiro e a fachada impecável deviam ser, de alguma forma, uma espécie de proteção. Divina ou diabólica, fosse o que fosse, vez ou outra funcionava. Apesar de salafrário tira sempre a sorte grande, mesmo em se tratando de assuntos sobrenaturais. O dinheiro é a raiz de todo o mal, e todo o mal deve ser muito forte se quiser perdurar por tantas gerações. O dinheiro é a forma de poder mais eficiente, dinheiro é sinônimo de poder não somente pelo poder em sí, mas pela liberdade que o poder pode trazer. Essa liberdade é uma premissa verdadeira ao menos para aquele que escolheu para sí uma vida urbana e atarefada e está disposto a permanecer assim, pois uma vez na roda fica difícil escapar.

Eu sei o que você quer meu bem. – Disse ele a Ex-Mulher esperando encontrar a velha personalidade mortal debaixo do Orixá controlador que a havia dominado. – Você quer se livrar de mim e ao mesmo tempo não quer. O motivo de me querer longe (ou morto talvez) é o de que eu lhe aprisiono, sou ciumento demais, porém, eu próprio gosto da liberdade nas camas de outras mulheres. É o meu egoísmo que lhe incomoda. O dinheiro é o único motivo de não ter me largado ainda, se eu fosse um pé rapado não teria mais comigo. As noites insossas ao meu lado, reconheço, não são satisfatórias, gasto energia demais fora de casa. Sim, eu admito isso. Mas eu sei que mesmo a mais interesseira das mulheres nada é sem amor. Pois se o homem tem a ambição pelo poder, a ambição das mulheres é o amor. A vaidade é o motivo matriz para ambos os sexos, os meios de se atingi-la é que são diferentes. Pois entenda o que quero fazer. Com este dinheiro contido na maleta eu compro seu amor, em troca ganho a minha liberdade. Entrego a tí, minha ex-esposa, todo o capital de minha fábrica e ponho na tua mão as honrarias que recebí. Fica a teu cargo liderar a empresa. Eu assino todos os papéis que forem necessários para que você me poupe a vida. Com tanto dinheiro você terá a liberdade que quiser, poderá viajar pelo mundo e conhecer novos amantes, novos lugares. Praias tão belas e iguarias maravilhosas. Esquecerá que um dia me amou. E eu terei minha consciência limpa, por ter lhe pagado o sofrimento que lhe causei.

Meia hora após o argumento contundente de Vidigal a mulher estava sobre a mesa, ainda na mesma posição, mas sozinha. Em sua frente os papéis assinados e uma maleta cheia de dinheiro.

Com tanta veemência nas palavras Vidigal conquistou o apreço não somente da mulher, mas também o de Exu. O truque de Vidigal fora rejeitar sua própria ganância para conquistar a verdadeira liberdade. Com tantos credores a sua volta e um processo de falência iminente, sua morte pela mão dos mafiosos da cidade já estava decretada, ao repassar a empresa para o nome da mulher livrara-se do fardo duplo e pesado. O primeiro, do matrimônio sem amor, o segundo do dinheiro aprisionador. Vidigal estava emfim sem nenhum dinheiro no bolso, livre e poderoso como um adolescente que recém abandonou a casa dos pais e que vê o mundo pela frente.

Para um capitalista nato como Vidigal, a culpa é tão presente quanto o tesão. Aparece com uma certa frequência, mas não dura mais do que alguns minutos.

  1. “Você parece que passou a tarde sentado no pedregal e depois trocou a cara pela Bunda! De hoje você não passa, seu Muquirana mão de vaca, filho duma quenga manca!”

    Achei que ele ia se dar mal no final, mas depois pensei: não… iria ser muito igual a tudo.

  2. Bá… Quase um Nelson Rodrigues… I Love it!!!

    bjsss

  3. Concordo com a Moni, você tem talento!

  4. Letrinha miudinha essa, não? rs*……… E olha que nem sou velha, nem tenho vista cansada, nem nada….

    Bom, fiquei pensando, aqui, se gente como ele não sente culpa, mesmo!? Será?

    beijocas e boa semana, querido

    MM

    ps: adoreeeeeeei esse ‘ gravando’ seu. Rola de emprestar? rs*…. Ou de ensinar onde achar uns parecidos!?