Seria uma manhã como outra qualquer, não fossem os gritos desesperados que me acordaram. Entrecortaram as vozes de homens meio hienas meio macacos, e o chiado de um jegue furioso. Olhei pela janela do meu quarto e dois dos homens armados carregavam suas baionetas com pólvora, assim que terminaram o serviço dispararam contra um pequeno grupo de pessoas que passava correndo. Dois caíram.

Um outro grupo de bandidos se sucedeu, montados em seus cavalos eles entraram no meu prédio forçando a porta da frente e eu não sabia o que fazer. Deitei na cama novamente temendo que um daqueles homens de chapéus estranhos me vissem. Eles falavam muito rápido, mal se podia entender o que diziam. Era um sotaque nordestino, na certa que era um sotaque nordestino, mas eles agiam como Indios, suas roupas eram pesadas e cheias de poeira, e a crueldade, não eram humanos. Não demorou para que a porta fosse arrombada a chutes. Minha mãe passou direto pela porta do meu quarto para saber o que estava acontecendo. E então ela soltou um grito e passou novamente, correndo na direção oposta. Um dos homens passou pela porta e parou, olhou direto nos meus olhos e seus dentes arreganhados soltaram mais um daqueles risos de hiena. Eu tranquei a respiração achando que assim ele não ia fazer nada comigo, e não fez, foi fazer à minha mãe, usou da liberdade da baderna para estuprá-la, gritava que ela era uma quenga safada e ela pedia socorro. Eu, um garoto de onze anos não tinha idéia do que deveria fazer. Fiquei escondido atrás da minha porta ouvindo os gritos de mamãe. Outro do bando passou pela porta e eu ouví a respiração bufante, farejando. Um cão de caça, sujo e maltratado, tinha raiva. Acertou um passo no meu quarto e parou na porta enquanto minha mãe berrava no quarto ao lado e então voltou para participar do estupro da Quenga minha mãe. O momento me obrigou a descer as escadas, ficar longe. Várias portas estavam abertas, havia sangue na parede e o Seu Antônio estava com o peito estourado, de boca aberta morto no chão. Vários gritos de mulheres berrando comO loucas. Posso jurar que de dentro de um dos apartamentos uma das mulheres gemia de prazer e eu parei para olhar, um dos cangaceiros estava pressionando a cabeça do marido dela contra a parede para que ele visse tudo, com um trabuco apontado para sua cabeça.
Descendo as escadas parei onde o vidro estava manchado de sangue. Me escondi debaixo das escadas enquanto algumas pessoas passaram gritando, elas levaram tiros nas costas e calaram de imediato. Dois dos monstros armados gargalhavam logo atrás, suas pistolas fumegavam e seus dentes brilhavam com um sorriso arregaçado nas bochechas. E enquanto um deles pisava sobre a mão de uma das vítimas que ainda estava viva eu sai debaixo da escada e corrí para fora do prédio. Os gritos por todos os cantos não me freavam, as lamúrias inúteis não tinham mais resposta, quem pudesse fugir que fugisse. Meu próprio rosto estava sujo com o sangue de outra pessoa.
Eu corrí para a igreja e procurei a porta da frente, um abrigo seguro no qual pudesse me esconder e de dentro da igreja um garoto com a cabeça e as roupas empapadas de sangue saia chorando e pedindo ajuda. Os risos de hienas já saiam de lá de dentro. Fugi do menino que pedia claramente a minha ajuda.
Em um campo aberto um dos cabras veio com seu cavalo e me alcançou facilmente. Ele carregava grandes sacos em sua mão e arremessou um deles perto de mim. Em caí para trás, de dentro do saco uma cobra saltou sobre mim. Eu consegui me desvencilhar, mas não foi o suficiente pois o outro saco ele acertou aberto exatamente sobre a minha cabeça e me prendeu alí dentro. As risadas ecoavam pela rua, sobrepujando os gritos de lamúria.
Ele ergueu o saco e colocou meu peso sobre o cavalo. Uma cobra me fazia companhia dentro do saco, a cabeça da cobra estava imobilizada exatamente entre meu indicador e meu polegar opositor para que não pudesse me morder, fui eu quem a mordeu.
Horas mais tarde quando o grupo de cangaceiros abriu o saco e me encontrou vivo com a cobra prensada nos meus dedos e sua carne sendo devorada pelos meus dentes em nome da sobrevivência ele me chamou a sair pelo nome “Dedos-de-Cobra”. Foi assim que me tornei um cabra, um cangaceiro.