Em São Paulo o sabor da comida, de acordo com a média aritmética de um bolso quase vazio, razoável. Costumo visitar um restaurante que prepara um omelete acima de razoável dentro da conjunto de restaurantes que conheço.
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Quando me sinto de bom humor tem duas coisas que gosto de comer, chocolate ou omelete. Portanto a doceria e este restaurante costumam me receber no meu melhor estado de espírito. Sempre entro alí de bom humor, às vezes com um pouco de preguiça, mas tranqüilo. Há outro fato peculiar sobre mim quando estou de bom humor, começo a ter idéias aos montes, nesses dias ando com caderno e caneta sobre o braço. Quando eu não levo o caderno e caneta eu peço emprestada uma caneta ao caixa e anoto as idéias em um pedaço de guardanapo. Após um tempo com este hábito percebi que a garçonete me observava atentamente movida por uma espécie de curiosidade enquanto eu escrevia.
Ao pedir o omelete eu pedia sempre acompanhado por uma porção de feijão. O omelete vem apenas com batata frita e arroz. Não sou o maior fã de feijão, mas é essencial que num almoço brasileiro esteja presente este pequeno companheiro do arroz para contribuir com seu ferro na corrente sanguínea de um cidadão bem nutrido. E no meu caso, como o de todos os magros, há sempre o risco de desaparecimento, desintegração. Nós magros já somos esquecidos com facilidade, nossa existência beira a inexistência. Temos um secreto complexo de querer comer muito sem nunca engordar. É a sina do magro. Nesse hábito de pedir feijão antes das refeições chegou um ponto em que eu não precisava mais pedir a porção extra, ela já trazia o prato sob medida com meu feijão extra.
Lembro de uma vez em que precisei acordar muito cedo e passei em frente ao restaurante quando eles estavam abrindo para o Café da manhã. Eu não ia entrar mas resolvi parar e conversar com a garçonete que me reconheceu no ato. Descobri que eu virara uma lenda no restaurante, os garçons apostavam sobre qual seria a minha profissão e tentavam adivinhar o que estaria eu escrevendo nos meus papéis. Lendas pitorescas percorriam o imaginário dos funcionários. Perguntavam-se que notas eu estaria tomando em meus papéis, estaria planejando um assalto? Seria um fiscal sanitário? Ou um espião da rede de restaurantes alheia em busca da receita do omelete? O meu hábito de pedir sempre omelete com um prato extra de feijão era, para eles, um tanto quanto suspeito. Eu fui evasivo e não expliquei muito acerca dos meus motivos e da minha personalidade, decidi deixar que o mistério se prorrogasse.
Depois de muito tempo ausente resolvi comer o meu costumeiro omelete. Quando me sentei para fazer o pedido já não era mais a mesma garçonete que atendia os clientes. A nova garçonete era uma novata bem diferente da anterior. Me sentei bem humorado com o caderno sobre o braço. A nova garçonete veio me atender, eu pedi o famigerado omelete. Ela parou imediatamente. Me encarou nos olhos durante cinco exatos segundos em um silêncio estupefato. O rosto da moça adquiriu uma expressão que em câmera lenta se transformava num olhar de camaradagem, de compreensão. Eu fiquei sem jeito, não entendia o porque de toda aquela cena. Os olhos da nova moça brilhavam. Eu não saberia distinguir que olhar era aquele, talvez fosse o mesmo olhar que fazem as mulheres ao descobrir que seu marido volta vivo da guerra, ou talvez não fosse nada disso, eu nunca fui um marido e nem muito menos fui ou voltei da guerra, levando estes detalhes em consideração, como haveria eu de reconhecer tal olhar?
Sem dizer uma palavra a nova garçonete anotou o meu pedido cuidadosamente: Um Omelete com uma porção extra de feijão.
Ela nunca me viu antes, mas deduziu através das histórias misteriosas que circulam o submundo dos funcionários mal pagos de restaurantes de terceira categoria. Todas aquelas histórias eram verdadeiras. O peculiar mistério sem resposta do Homem do Omelete não era apenas uma lenda. Era verdade.