Eu sou famoso e você provavelmente me conhece. Ser famoso é um luxo para poucos, a fama equivale ao sangue azul, a fama é necessidade social de alguma forma de aristocracia, e Aristocracia vem do Grego “Aristos”, superlativo de “Agathós” [‘bom’], quer dizer os melhores dentre todos. As pessoas gostam de olhar pro céu e ver as estrelas, isso faz com que sintam seus pés no chão.

Num dia qualquer, eu me dirigia para casa e veio um sujeito até mim, olhando nos meus olhos pediu uma informação. Estávamos em frente ao prédio dos estúdios colossais onde trabalho quase todos os dias. Ele com certeza me reconheceu, você me reconheceria se me visse, afinal, eu sou famoso.
Ele me perguntou:
__Amigo. Você que trabalha aí, pode me dizer para quem eu envio este roteiro? Eu escrevi isso, mas não quero enviar se não for para a pessoa certa e quero ter a certeza de que vai ser lido. Imagino que você deve conhecer a pessoa certa.
É claro que eu conhecia a pessoa certa. Eu conheço todas as pessoas certas. Não convivo entre os medíocres, sou uma bóia que pratica nado de barriga entre a nata glamourosa.
Ele parece impaciente e estava prestes a sair, eu estupefato, por não ter me pedido autógrafo nem ter feito nenhuma pergunta ridícula, como costumam fazer os fãs.
__Vem cá. Qual é seu nome? – Perguntei, sob a suspeita que debaixo daquele cabelo feio residia uma cuca fabulosa.
__Eu posso te fazer uma pergunta primeiro?
Pronto! Lá vem. Eu sabia que ele ia estragar tudo. Os bons estão todos do lado de dentro, este sujeito vai estragar a minha expectativa com uma pergunta medíocre, reflexo da existência inútil que ele insiste em perdurar.
__Como você agüenta essa vida?
__Que vida? – Admito que a pergunta me deixou confuso.
__A vida de famoso ora bolas!
__Como eu agüento? Eu agüento sorrindo!
__É exatamente disso que falo. Você precisa sorrir mesmo sabendo que as pessoas não estão realmente falando com você. Enquanto falam contigo, pensam na maravilha que é poder falar com você. A verdade é que você não conversa com ninguém, apenas é alvo de uma atenção completamente artificial com a qual os fãs são ilusórios, você cria uma sensação de si próprio como sendo importante pelo fato de que tem todas as atenções e isso bagunça toda a sua espiritualidade. A minha pergunta é como você suporta ser famoso sabendo que os fãs controlam sua mente e sua alma. Afinal, se não fosse por eles quem você seria? Você não é ninguém sem os seus fãs, eles pelo contrário seriam pessoas muito melhores se você não existisse, pois nesse caso estariam se preocupando com coisas bem mais úteis do que verificar fofocas em revistas ou na internet sobre o que você anda fazendo. Quando um fã acaba de falar com você ele não está mais pensando em você, ele está pensando no fato de “como foi bom falar com ele!”. Veja bem, eles pensam em você em terceira pessoa, não existe intimidade. Você não acrescenta nada ao mundo deles, apenas uma excitação pueril. Eles vão usar este momento “mágico”que tiveram ao seu lado como forma de se gabar para as outras pessoas. O que importa é o status que estar ao seu lado proporciona. A fama que você exala é mais importante do que você próprio. Os fãs param ao seu lado para tirar fotos ou pedir autógrafos por um motivo, roubam assim o brilho que eles acreditam existir em você. A cada clique fotográfico, a cada letra de sua rubrica num pedaço de guardanapo improvisado e a cada sorriso tolo você está mais banalizado. O mais iludido no final das contas não é o fã por acreditar que o ídolo é especial, é o ídolo por acreditar em si próprio como Deus. Os fãs consomem, o ídolo é consumido. Como você consegue manter-se vivo sabendo que para todos você não passa de um símbolo, não é uma alma, mas uma marca? Como consegue?
Como não houve resposta da minha parte ele foi embora carregando seu roteiro na mão.