
O quarto do senhor do tempo é hermeticamente fechado. Não vaza um milésimo pra fora ou pra dentro. Ontem de madrugada ele abriu a câmara de descompressão e saiu pra fazer um negócio que ele já não fazia há anos, ou há dias, ou a alguns segundos (bem, isso não importa muito pra ele), saiu pra passear.
De volta ao mundo dos passantes ele começou a sentir aquela velha pressa nas calçadas. Confuso do que deveria fazer (e confusão não é uma coisa muito comum para ele) resolveu beber um pouco daquela cerveja dourada brilhando num bar de quinta categoria da esquina, a cerveja era dourada e a garrafa envolta por uma fina camada de gelo.
Não é todo dia que se vê uma cerveja dessas, para o senhor do tempo qualquer dia é dia mas hoje em dia esse tipo de dia é sempre dia especial, esses dias em que se vê uma cerveja com uma fina camada de gelo, coisa rara de se achar. É um fenômeno extremamente difícil de se acontecer, a cerveja precisa estar na temperatura corretíssima, nem um grau a menos, nem um grau a mais, para que o gelo se forme em torno do casco da cerveja mas não congele o líquido mágico, que se mantem no ponto máximo de “gelidez” antes de efetivamente se congelar. Óbvio que se o garçom for um tanto ignorante com relação a cervejas, ele vai estragar a mágica daquele fenômeno na garrafa, ele vai botar o dedão em cima do gelo e isso vai estragar não só a beleza do espetáculo da cevada engarrafada como também a temperatura cuidadosamente mantida. É curioso que os donos dos mais bem sucedidos bares da cidade tentam exaustivamente repetir este fenômeno mas raramente conseguem, aliás, quase nunca. Por algum motivo esse tipo de fenômeno costuma acontecer sem problemas nos freezeres mais baratos, velhos, oxidados e em estado de mau funcionamento da cidade. Naqueles bares de paredes de azulejo e de frequentadores de aparências não tão agradáveis que só sabem comentar sobre a mulher que já perderam há cinco anos, que é motivo do seu alcoolismo e lamentam-se até hoje por ela não voltar, eles sentem um ódio imenso daquela mulher mas secretamente, entre uma cerveja e outra admitem que a amam e é por causa desse momentinho que ele saboreia o prazer de sofrer. Clientes estranhos os que frequentam esse bar no qual o senhor do tempo veio se meter avidamente em busca do liquido dourado que não era mijo mas era cevada.
Por algum motivo, talvez ela tenha achado que ele fosse Rico, a prostituta que frequentava o motel que ficava localizado num pequeno espaço no andar de cima do bar da cerveja perfeita, chegou perto do senhor do tempo e o paquerou. Ele, já exposto aos riscos do mundo dos vivos, dentro de uma rápida conversa sentiu uma leve ereção que já não sentia há milênios, para ele o tempo não importa, mas sentiu-se velho por causa disso, e dentro de algumas cervejas, afinal não vamos falar em tempo perto do senhor do tempo, ele estava saindo com ela de mãos dadas e abrindo sua câmara hermética temporal para um passeio nas curvas femininas, que ele planejava perfazer nas próximas horas da madrugada.
O passeio foi um tanto inesquecível, não me atrevo a comentar sobre a beleza da senhorita pois não se deve comentar acerca de assuntos desagradáveis, mas atrevo-me a falar que o rebolado dela era o de quem não tem problemas em dançar forró e que aliás, o forró talvez fosse pouco, talvez fosse uma dançarina de lambada ou talvez até mais, talvez fosse uma… meu deus… uma dançarina do ventre. Aquelas antigas senhoritas que enfeitiçavam os homens e faziam com que se… com que se… ahhhh, um orgasmo está vindo em ritmo acelerado e vejo-o obstruir o brilho de uma ponta do tunel para atravessar em explosão até o outro lado dentro de alguns instantes (mais uma vez eu aqui mencionando o tempo)… com que se… com que se… com que se esquececem do tempo. E foi o que aconteceu, porque depois daquele ventre encaixando-se por debaixo das túnicas já desnudadas do senhor do tempo, e aliás lembrei de um fato curioso, a garota tinha covinhas logo acima das nadegas e a curva das costas dela terminavam no meio das costas…

O homem do tempo acabou-se. Chegou ao fim do túnel e pasmem… Perdeu a hora.
A manivelinha na parede do quarto do senhor do tempo pela primeira vez desde que se criou o tempo, e acreditem, isso já faz muito tempo, não havia sido alimentada pela força propulsora do Senhor do Tempo. O trabalho dele era muito simples… Todo dia (de acordo com a métrica do calendário especial cotado especialmente para ele por algum ser de características superiores) ele deveria dar três voltas na manivela. Este e simplesmente esse era o seu trabalho, não precisava mais fazer nada, nem precisava ser sábio, uma característica que se espera de um senhor do tempo, mas esse negócio de sabedoria é lenda, ao menos para ele. Ele conseguiu o emprego numa mamata, quando o universo que começamos estava prestes a ser iniciado ele já tinha seus contatos encaminhados e acabou por entrar nessa boca através de um “quem indica”, emprego fácil, nem um pouco trabalhoso e as horas de trabalho eram simplesmente desimportantes levando em conta o próprio trabalho.
E agora o Senhor do tempo acordava e percebia o erro que havia cometido. Não havia rodado as três habituais voltas necessárias a manivela para que desencadeassem o funcionamento regular diário de todo o universo. O universo havia entrado em estado de trabalho nulo, todo e qualquer movimento fora desabilitado, congelado, cessado.
E o dilema do Senhor do Tempo era o seguinte, assim que desse a corda na manivela o senhor mór, responsável pela administração geral do universo, perceberia que ele havia esquecido de girar a manivela, e então o despediria.
Deveria o senhor do tempo girar a manivela e correr o risco de perder seu emprego?
As curvas da senhorita em sua cama e seu rebolado diziam que não. A eternidade era promissora com aquela duas covinhas lascivas. O senhor do tempo guardou o universo sem movimento dentro de uma pequena pérola e presenteou sua recém conhecida amada e ela se maravilhou com o presente, nunca antes tinha ganhado um universo congelado na vida, e os dois juntos passaram a eternidade sem maiores preocupações.