Gustavo

Posts de Julho, 2006

Moleque levado

In ficção on Julho 31, 2006 at 5:54 am

Eu sou da primeira série. Na escola, na hora do recreio todo dia eu vou pra roda de ferro e coloco areia no meio pra ver se enferruja, nunca enferrujou mas faz barulho de enferrujado. Aí todo mundo fica reclamando porque eu vou estragar o brinquedo mas eu não tô nem aí.
Na hora de voltar pra sala de aula quando bate o sinal todo mundo tem que voltar de mãos dadas, aí eu cuspo na minha mão pra não ter que dar mão pra ninguém. A professora não gosta e manda eu lavar a mão, aí eu limpo a mão na camisa.
Quando eu encontrei uma mosca no banheiro ela tava meio morta, aí eu peguei meu estojo de lápis e tinha um espaço sobrando, aquele espaço virou a casinha da mosca, um espacinho pequeno, cabia uma borracha lá dentro. Depois de uns dias quando a mosca morreu de fome eu guardei ela dentro de um cubo de gelo na geladeira e botei uma borracha na casa da mosca, chamei o nome da borracha de mosca, pena que ela se apagou.
Aí teve também o dia que o porteiro tava na frente da escola e eu tava esperando minha mãe há muito tempo, eu segurei minha garrafa de suco pra ela não sacudir e passei correndo. Eu ouví o porteiro brigando comigo mas ele não conseguiu me alcançar, eu voltei sozinho pra casa. Eles achavam que eu não sabia o caminho mas eu sabia. HAahha. Enganei todo mundo. Foi legal.

Diálogo entre dois charlatães

In ficção on Julho 30, 2006 at 3:39 pm

__ Cansei de ser charlatão. Mas ainda admiro os charlatães de verdade. Eu era só um charlatão charlatão. Admiro os verdadeiros charlatões

__Compreendo. Mas você sabe… Fala o que não é ser e diz o que jamais falará que será.

__Sim. Talvez essa seja apenas uma das armadilhas da mente e talvez essa minha tentativa de não ser charlatão seja apenas uma auto sabotagem para que eu não conte aos outros que na verdade sou um charlatão.

__Coisa típica de um charlatão.

__Típica. Tenho que tomar cuidado porque minha mente parece que está ganhando vida própria.

__Deixe de charlatanices.

__Já deixei.

__Vou abrir um parênteses (O mais engraçado num tópico entre dois charlatães é que tudo parece mentira. Só não fecho o parenteses porque você não passa de um charlatão.

__As vezes a coisa mais aburdamente inacreditável pode ser verdade no mundo dos charlatões. Pequenos Charles, já nascem vestidos para mentir.

__Se eu fosse um professor de história charlatãoiria começar a dizer que os charlatões surgiram de um grupo de rebeldes que formaram um povoado depois da revolução francesa. Todos rebentos de charlote d’ monde.

__Com base em que diria isso?

__Com base no fato de que cada charlatão tem uma versão diferente para esta mesma história.

__Mas a única certeza que temos é que essa história de alguma maneira foi verídica, senão, de onde teriam surgido os charlatães ?

__Alguns dizem que vieram dos calhordas.

__Sim, mas na verdade os calhordas tem uma estreita relação com os charlatães, mas há uma tenue linha que separa os dois. Assimo como existe entre a maçonaria e a Rosa Cruz. Na verdade essa linha é bem visível para quem a conhece de perto. Para quem não conhece bem, não dá pra perceber.

__Qual a diferença básica entre os dois?

__O Modus operandi. Fora isso os calhordas costumam ser mais violentos e menos discretos que os charlatães. Sim. Em algum ponto da história eles se divergiram. Assim como aconteceu com os mulçumanos, durante a morte de seu profeta Maomé, surgiram os Xiitas e os Sunitas. Pontos de vista diferente sobre um mesmo princípio.

__E foi uma morte misteriosa a morte do profeta dos charlatões não foi?

__Uma morte cada vez mais misteriosa, e torna-se mais misteriosa de acordo com a forma que é difundida de boca a boca, como no famoso jogo do telefone sem fio.

__Como assim?

__A informação não tem mais a via principal, mas ainda carrega a mesma essência. Os charlatães distorcem os fatos, mas a essência é a mesma.

__A história que eu ouví dizer é que ele foi enforcado pela tromba de um elefante furioso.

_Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos eu não acreditaria.

__Incrível, eu também estava lá, eu e meu grande amigo primeiro ministro da maldavia.

__Tem certeza ? Era você que usava um turbante ?

__Nâo. Este era meu pai.

__O homem do turbante era seu pai?

__Meu e seu. Ele era seu pai também.

__Uma pena que não é mais.

__Não é mais? Porque?

__Porque eu o matei, achando que ele não era meu pai.

__Uma pena. Uma pena.

__

O Senhor do tempo perdeu a hora

In ficção on Julho 27, 2006 at 7:24 pm

O quarto do senhor do tempo é hermeticamente fechado. Não vaza um milésimo pra fora ou pra dentro. Ontem de madrugada ele abriu a câmara de descompressão e saiu pra fazer um negócio que ele já não fazia há anos, ou há dias, ou a alguns segundos (bem, isso não importa muito pra ele), saiu pra passear.

De volta ao mundo dos passantes ele começou a sentir aquela velha pressa nas calçadas. Confuso do que deveria fazer (e confusão não é uma coisa muito comum para ele) resolveu beber um pouco daquela cerveja dourada brilhando num bar de quinta categoria da esquina, a cerveja era dourada e a garrafa envolta por uma fina camada de gelo.

Não é todo dia que se vê uma cerveja dessas, para o senhor do tempo qualquer dia é dia mas hoje em dia esse tipo de dia é sempre dia especial, esses dias em que se vê uma cerveja com uma fina camada de gelo, coisa rara de se achar. É um fenômeno extremamente difícil de se acontecer, a cerveja precisa estar na temperatura corretíssima, nem um grau a menos, nem um grau a mais, para que o gelo se forme em torno do casco da cerveja mas não congele o líquido mágico, que se mantem no ponto máximo de “gelidez” antes de efetivamente se congelar. Óbvio que se o garçom for um tanto ignorante com relação a cervejas, ele vai estragar a mágica daquele fenômeno na garrafa, ele vai botar o dedão em cima do gelo e isso vai estragar não só a beleza do espetáculo da cevada engarrafada como também a temperatura cuidadosamente mantida. É curioso que os donos dos mais bem sucedidos bares da cidade tentam exaustivamente repetir este fenômeno mas raramente conseguem, aliás, quase nunca. Por algum motivo esse tipo de fenômeno costuma acontecer sem problemas nos freezeres mais baratos, velhos, oxidados e em estado de mau funcionamento da cidade. Naqueles bares de paredes de azulejo e de frequentadores de aparências não tão agradáveis que só sabem comentar sobre a mulher que já perderam há cinco anos, que é motivo do seu alcoolismo e lamentam-se até hoje por ela não voltar, eles sentem um ódio imenso daquela mulher mas secretamente, entre uma cerveja e outra admitem que a amam e é por causa desse momentinho que ele saboreia o prazer de sofrer. Clientes estranhos os que frequentam esse bar no qual o senhor do tempo veio se meter avidamente em busca do liquido dourado que não era mijo mas era cevada.

Por algum motivo, talvez ela tenha achado que ele fosse Rico, a prostituta que frequentava o motel que ficava localizado num pequeno espaço no andar de cima do bar da cerveja perfeita, chegou perto do senhor do tempo e o paquerou. Ele, já exposto aos riscos do mundo dos vivos, dentro de uma rápida conversa sentiu uma leve ereção que já não sentia há milênios, para ele o tempo não importa, mas sentiu-se velho por causa disso, e dentro de algumas cervejas, afinal não vamos falar em tempo perto do senhor do tempo, ele estava saindo com ela de mãos dadas e abrindo sua câmara hermética temporal para um passeio nas curvas femininas, que ele planejava perfazer nas próximas horas da madrugada.

O passeio foi um tanto inesquecível, não me atrevo a comentar sobre a beleza da senhorita pois não se deve comentar acerca de assuntos desagradáveis, mas atrevo-me a falar que o rebolado dela era o de quem não tem problemas em dançar forró e que aliás, o forró talvez fosse pouco, talvez fosse uma dançarina de lambada ou talvez até mais, talvez fosse uma… meu deus… uma dançarina do ventre. Aquelas antigas senhoritas que enfeitiçavam os homens e faziam com que se… com que se… ahhhh, um orgasmo está vindo em ritmo acelerado e vejo-o obstruir o brilho de uma ponta do tunel para atravessar em explosão até o outro lado dentro de alguns instantes (mais uma vez eu aqui mencionando o tempo)… com que se… com que se… com que se esquececem do tempo. E foi o que aconteceu, porque depois daquele ventre encaixando-se por debaixo das túnicas já desnudadas do senhor do tempo, e aliás lembrei de um fato curioso, a garota tinha covinhas logo acima das nadegas e a curva das costas dela terminavam no meio das costas…

O homem do tempo acabou-se. Chegou ao fim do túnel e pasmem… Perdeu a hora.

A manivelinha na parede do quarto do senhor do tempo pela primeira vez desde que se criou o tempo, e acreditem, isso já faz muito tempo, não havia sido alimentada pela força propulsora do Senhor do Tempo. O trabalho dele era muito simples… Todo dia (de acordo com a métrica do calendário especial cotado especialmente para ele por algum ser de características superiores) ele deveria dar três voltas na manivela. Este e simplesmente esse era o seu trabalho, não precisava mais fazer nada, nem precisava ser sábio, uma característica que se espera de um senhor do tempo, mas esse negócio de sabedoria é lenda, ao menos para ele. Ele conseguiu o emprego numa mamata, quando o universo que começamos estava prestes a ser iniciado ele já tinha seus contatos encaminhados e acabou por entrar nessa boca através de um “quem indica”, emprego fácil, nem um pouco trabalhoso e as horas de trabalho eram simplesmente desimportantes levando em conta o próprio trabalho.

E agora o Senhor do tempo acordava e percebia o erro que havia cometido. Não havia rodado as três habituais voltas necessárias a manivela para que desencadeassem o funcionamento regular diário de todo o universo. O universo havia entrado em estado de trabalho nulo, todo e qualquer movimento fora desabilitado, congelado, cessado.

E o dilema do Senhor do Tempo era o seguinte, assim que desse a corda na manivela o senhor mór, responsável pela administração geral do universo, perceberia que ele havia esquecido de girar a manivela, e então o despediria.

Deveria o senhor do tempo girar a manivela e correr o risco de perder seu emprego?

As curvas da senhorita em sua cama e seu rebolado diziam que não. A eternidade era promissora com aquela duas covinhas lascivas. O senhor do tempo guardou o universo sem movimento dentro de uma pequena pérola e presenteou sua recém conhecida amada e ela se maravilhou com o presente, nunca antes tinha ganhado um universo congelado na vida, e os dois juntos passaram a eternidade sem maiores preocupações.

Andy Kaufman toca os Bongos

In Sem-categoria on Julho 25, 2006 at 5:13 am

(O texto começa a partir daqui)Nada a dizer. (Fim do texto)

Texto para o 31 concurso Maldito
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=5834833

A liberdade do leopardo mimado

In ficção on Julho 21, 2006 at 3:52 pm

Por entre os becos de imensuráveis edifícios deslizava aos relances o leopardo solitário. Trumpetes e saxofones instauravam o funk de sua trilha sonora e os postes e carros arborizavam o cenário de sua caçada.

O Leopardo foragido de sua jaula soava a todos comovente por seu primeiro vislumbre de liberdade.

Infelizmente a confortável vida de prisioneiro nunca o ensinou a caçar. O conforto, mais do que as grades, aprisionou seu espírito selvagem. Era diferente de seu colega de cela, um leopardo selvagem que fora capturado e posteriormente degredado a cativo sem nunca ter cometido nenhum crime, ao menos sob o ponto de vista das leis da natureza. Este seu companheiro de cela, um selvagem, nunca cedeu ao conforto da pequena jaula de onde as pessoas o observavam a distância segura. Ele se mostrava irritável com os visitantes humanos e se fosse jogado alimento dentro do cárcere, não esperava que a comida viesse até sua boca, esgueirava-se como se estivesse em vasto território e num salto que nenhum dos nascidos em cativeiro sabiam perfazer, o selvagem abocanhava sua presa com tremenda ferocidade, sacudindo a cabeça com todo o ódio necessário para que a presa não tivesse mais forças para escapar. A confortável vida de prisioneiro fazia com que todos os outros leopardos nascidos alí apenas observassem a fúria de seu colega selvagem pois eles sabiam que a comida viria sem esforço todo dia na mesma hora sem falha. O Leopardo Mimado não conseguia entender porque o Leopardo selvagem agia daquela maneira, mas não era questão de conseguir a comida ou não, era sobre manter-se vivo e alerta. Uma vez que um Leopardo cede a qualidade de domesticado perde toda sua força vital e morre, mesmo estando vivo.

Hoje, num dia clara de céu azulo leopardo selvagem estava morto, fora abatido durante a fuga, mas o leopardo domesticado milagrosamente havia escapado de seus perseguidores armados e estava livre e ciente de sua própria inabilidade com a selvageria. Mas pretendia encarar a floresta, precisava encontrar a sí mesmo dentro do instinto até então inativo. Uma floresta sem árvores, sem elefantes e sem lagos para se banhar, adverso a tudo estavam as fontes das praças públicas, os carros metálicos e as presas que por sua vez eram mais fáceis de ser capturadas do que o mais lento dos herbívoros da savana. Sim, haviam muitas presas fáceis com quem poderia praticar suas habilidades para desenvolver aos poucos a selvageria necessária para se habitar uma cidade.

Na cidade ou na selva as leis são as mesmas. A cidade ou a selva não espera pelos fracos, aquele que não aprende a caçar vira refeição. A tendência natural da cidade ou da selva é a de deglutir sem se enfastiar todo e qualquer tolo que atreva-se a parar para um breve cochilo. A cidade, assim como a selva tem vida própria e são os maiores predadores, suas garras são o tempo, os quais elas dominam com agilidade maestral e cravam em suas presas sem perdão, porém o jovem leopardo mimado estava ao menos temporariamente imune ao tempo. Um dos axiomas das garras do tempo é que ele não é capaz de penetrar na carne da juventude, mas dê tempo ao tempo e a carne se torna frágil. Mesmo a fragilidade do tempo é compensada pelo próprio tempo.

As hienas escarnecedoras estão atrás do lixo espreitando os mimados forasteiros que vieram de terras tranquilas. Elas reconhecem a inocência e a pureza, e não há gosto melhor do que o da carne inocente para quem está acostumado a engolir restos de carcaça. Os risos ecoam pelos becos sombrios a cada tolo que cai nas suas garras. Alguns morrem de sede, outros morrem pelo cansaço e outros por caírem nas armadilhas dos predadores mais repulsivos que habitam as cidades e as savanas.

O sono triste que tomou conta do Leopardo durante as primeiras horas de estadia na cidade foi o suficiente para que alguém lhe cravasse os dentes furiosos no tapete perfeito que era sua pele. Um selvagem nunca perde a atenção, por instinto está a todo tempo plenamente arguto. O orgulho retardado do ex-prisioneiro demorou para agir, de início o pobre leopardo mimado sentiu-se triste pois em seu sono inocente ele nunca esperou ser atacado. Acreditava que podia confiar em tudo e em todos. Na floresta ou na cidade não se confia em ninguém.

A mordida da Hiena em sua pele macia lhe causou enorme estrago e de longe se ouviram as gargalhadas sarcásticas. A humilhação aos poucos cedeu lugar ao ódio, e a ferocidade é o primeiro e mais seguro indicador que o instinto de uma fera está para surgir.

Após dias na selva de pedra o leopardo mimado já está esfomeado, cansado e abatido a mercê dos urubus e hienas da cidade. Já se passou o fervor inicial da primeira experiência de liberdade e agora tudo o que lhe resta é a necessidade constante de sobrevivência.

A raiva chegou definitivamente atrasada mas ainda era-se em tempo de perceber que quem devia ditar as regras na selva de pedra era ele, o predador. Tinha presas e devia usa-las para rasgar, cortar e mastigar. Tinha músculos e devia usá-los para correr, pular e agarrar. Tinha garras e devia usa-las para prender, cortar e fincar. Tinha inteligência e devia usá-la para planejar, sobreviver e atacar.

A cicatriz em suas costas ainda não estava completamente curada e a cicatriz em seu orgulho era a que mais doia, sangrava-lhe as ventas. Eram lembretes do instinto adormecido do Leopardo, que aos poucos, estava deixando de ser mimado e estava se tornando selvagem.

A vingança do leopardo já está planejada e o pescoço da Hiena vai em breve sentir o crivar dos caninos de um verdadeiro “Phantera Pardus” enfurecido.

http://en.wikipedia.org/wiki/Leopard

Manifesto pelo fim do amor romântico

In Sem-categoria on Julho 19, 2006 at 7:36 am

Estamos ligados ainda a obsoleta idéia utópica de que o amor para ser verdadeiro precisa ser trágico e romântico. São histórias que no século dezenove entraram para o consciente coletivo de toda a população e estão incrustadas até hoje e as recebemos continuamente desde crianças como o “molde” para se amar, estas histórias se disseminam através de “Contos de fadas” da tv e de todos os formadores de opinião conservadores que estão presentes no nosso dia a dia.

O amor do nosso século precisa de erotismo e de liberdade para ambas as almas. O amor de nosso século não exige que as almas sejam únicas. O amor de nosso século pede encarecidamente que as almas tenham paciência umas com as outras e que seus corpos se amem das formas que encontrarem conforto e este amor tem repulsa ao drama exacerbado e a carência emocional. Uma alma precisa apenas de sí mesma e tudo o que ela pode sentir da outra é o calor, é preciso aceitar a solidão incondicional do ser humano para entender que o amor verdadeiro é uma fricção de suas essências.

Acredito firmemente no fato de que um dia as velhinhas vão reclamar:

__O mundo não é mais erótico como era antigamente.

Inspirado no texto: ‘Ensaios de Escreviver’ de Urbano Tavares Rodrigues

Minguantes

In ficção on Julho 12, 2006 at 7:24 pm

Ítalo andava cabisbaixo ultimamente, sentia-se só. Havia muito o que fazer mas não havia a quem procurar para se fazer junto. Ítalo não era exatamente um misantropo, ele na verdade queria fazer parte dos risos, choros e da furia coletiva mas simplesmente não sabia como se integrar. Percebia em quase todos os rostos uma cortesia remota. Uma educação reservada. Mas ele sentia falta mesmo era do calor com o qual todos se comunicavam, mas que para ele não sobrava nunca.

Talvez lhe houvessem roubado a alma, ou talvez ela estivesse simplesmente muito bem escondida. As pessoas só conseguem gargalhar ou odiar honestamente quando sentem a fricção de suas almas umas com as outras, é o atrito da humanidade que Ítalo queria encontrar, ou pelo menos esperava que as pessoas encontrassem nele, caso ele próprio não fosse capaz.

A última festa foi um desastre social tremendo mas depois de algumas cervejas foi capaz de capturar a atenção de uma garota por tempo suficiente para se sentir espontâneo e feliz novamente. Mas a atenção dela não durou o tempo necessário para que sua alma saltasse para fora do corpo em contentamento e logo Ítalo estava mais uma vez só.

Detestava auto piedade, obviamente não queria viver para sempre assim e estava tentando buscar soluções para se livrar desse problema, a pergunta era COMO? Se ao menos as pessoas lhe dissessem o que há de errado seria mais fácil, mas na afabilidade das pessoas havia um medo, uma distância, a falta de intimidade. Por falta de intimidade ninguem dizia a verdade que ele precisava ouvir. Um cheque matte? Uma equação sem resposta? A verdade é que este senhor inepto social precisava da paciência das pessoas, só com muito tempo ele poderia se ajustar. Uma pena que na bolsa de valores das virtudes a paciência não esteja em alta cotação dentro do território urbano.

E foi pensando sobre isso que Ítalo abriu as portas do edifício no qual morava, um cafofo de janelas empoeiradas, e saiu caminhando pensativo sobre o que poderia estar tão errado. Qual seria o ponto fundamental da coisa toda? Ouviu dizer que as pessoas abertas a novas experiências eram mais extrovertidas, mas não era exatamente timidez o problema, era calor, era tempero. Sentiu-se parvo por pensar nisso. Se ele fosse uma refeição que refeição seria? Será que seria algo sem graça? Será que seria uma espécie de comida de avião? Sem gosto, sem sabor? Ou seria um fruto de casca grossa insípida? Pode ser que as pessoas estivessem lhe provando apenas a casca, esquecendo de procurar o que havia de valioso. Quando o coco despencasse do coqueiro sobre uma pedra pontiaguda e se quebrasse numa rachadura reveladora toda a água saltaria para fora, uma revelação do que carregava todo o tempo dentro de sí, toda a alma que nunca fora antes vista ou sequer imaginada.

Por um instante isso o fez se sentir bem. Era apenas um casca grossa, nada de errado. Com as mãos dentro dos bolsos passeou por aquela avenida lotada numa noite fria de outono. Ladrilhos povoados por milhões carregando sacolas, indo e vindo, trazendo e levando, andando e vendendo, eram tantos e ele no meio em passo lento, sem a pressa típica de um cidadão. Foi uma noite triste aquela na qual Ítalo e a lua minguaram juntos.

Texto para o 30 Concurso Maldito
Da comunidade Blogueiros Malditos

1/4 de século

In Sem-categoria on Julho 12, 2006 at 5:35 pm

A partir do dia 12 de Julho eu sou um homem com um quarto de século. Idade o suficiente para me fazer sentir uma ponta de responsabilidade com o mundo, responsabilidade esta de criar algo de valioso, de despertar o que há de bom nas pessoas e de aprender a interagir em harmonia com o mundo, obedecendo os meus próprios limites, os teus limites e os nossos limites.

Catedral cor de rosa
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/06/356964.shtml

A fumaça do seu cigarro e a minha bolha de sabão

In ficção on Julho 12, 2006 at 2:38 pm

As tuas baforadas de ar poluído entram dentro das bolhas de sabão que eu fiz com um arame, água e detergente.

Dá pra ver a diferença clara entre eu e você. Dá pra ver onde eu quero chegar claramente e dá pra ver que você se espalha pra todos os cantos e parece não querer chegar a lugar nenhum.

Estas são as propriedades da fumaça e da bolha de sabão. A fumaça se espalha em entropia constante, há uma tendência a desordem em sua natureza, a bolha, pelo contrário nasce do caos e procura a harmonia e apesar da vibração, procura o formato perfeito e tudo o que quer é subir.

Mas a bolha é cordial e dentro dela pode carregar a fumaça para subirem juntas. Isso, claro, se o ar impregnado da fumaça não estourar a força da bolha de sabão.
Música recomendada para acompanha este texto:
Coffin For Head Of State – Part 2
Autor: Fela Kuti

<a href=”javascript:Popuptocar(‘http://app.radio.musica.uol.com.br/radiouol/player/frameset.php?opcao=umcd&nomeplaylist=002105-2Best_Best_Of_Fela_Kuti_Vol._2′)”>

Bubble-in-a-Bubble, by Hubble




No centro da Buble Nebula (Nebula Bolha), a 100 mil anos luz na constelação de cassiopéia, é uma estrela que produz uma espécie de “ventania” de partículas carregadas que percorrem o espaço a 7 milhões de quilômetros por hora. Conforme estas partículas se movimentam elas se confrontam com materiais instelares mais densos e formam estas bolhas visíveis.

O aspecto singular de uma simples queda

In ficção on Julho 5, 2006 at 3:42 am

O aspecto singular de uma simples queda

Era uma descida muito lisa, achei que dava pra descer na boa. Tava tão confiante com as minhas habilidades recém adquiridas no skate que eu comecei a olhar pra lua. Como ela tava linda. As pedrinhas começaram a tilintar e quando eu olhei pra pista sentí aquela sensação de câmera lenta. A ondulação do asfalto mal formado estava há uns dois metros na minha frente e eu andava há uns 60Km/h. Calcula na regra de três que você vai descobrir X é igual a Sessenta mil metros dividido por dois metros. O resultado da equação (X) é igual ao tempo que eu tiVe para pensar. É por isso que eu não questiono o Einstein, o tempo é relativo, afinal aquele momentinho mínimo foi suficiente pra eu pensar em muita coisa, entre elas que no momento seguinte eu me daria muito muito mal. Penso que o tempo é tão relativo que o instante antes da morte pode se tornar infinito e aí cada um cria o seu céu e o seu inferno num instante congelado no tempo apenas para ele. Para todo o resto do mundo o tempo passa mas aquele último instante do sujeito foi infinito em sua duração.

Assim que passei pela ondulação não fui capaz de manter meu pé fixado no skate e minhas pernas foram jogadas para cima, o skate voou longe e eu só via o céu. A lua realmente tava linda, com certeza naquela hora ela tava olhando para mim, eu era o centro das atenções do universo na minha quedinha insignificante. É num susto que a nossa alma pula pra fora e aí o universo pode enxergar o que tem dentro de você de verdade. Minha alma deu um salto tão grande que quase beijou a lua, aquela lua cheia. O próximo momento foi muito vago porque eu batí no chão com o corpo e a força da gravidade, que é a mesma que mantem a lua virada pra mim, fez minha cabeça bater no asfalto e meu corpo quicar pra fora da pista. O destino é engraçado, foi ele quem me fez cair estatelado mas também foi ele quem me fez quicar pra um canto seguro fora da pista evitando que um carro em alta velocidade me atropelasse. Foi como se ele me dissesse que isso é pra deixar de ser teimoso.

Quando abrí os olhos haviam algumas pessoas em minha volta. Foram eles quem me contaram que eu quiquei para fora da pista porque se eles não me contassem eu juraria que foram eles quem me carregaram. Tentaram falar comigo e eu tentei responder, não me lembro se foi uma comunicação bem sucedida mas minutos após estava uma ambulância iluminando de vermelho o local sem postes. Lembro de ter pedido para checar minhas costelas porque tinha lembrado uma história assustadora sobre a possibilidade de uma costela fraturada perfurar o pulmão.

O sujeito disse que estava tudo bem. Meu pescoço foi imobilizado e eu fui colocado numa maca na contagem de três. Me colocaram dentro da ambulância e eu perdí meu breve contato com a lua.

Nunca mais andei de skate.

JUSTIÇA SACANA

In ficção on Julho 5, 2006 at 3:35 am

__ Cara! Acho que você não tá entendendo a moral da história! O negócio é o seguinte. Ou você se fode ou eu me fodo! E eu não vou me foder por sua causa. Eu sou escolhido de Deus. Simplesmente isso.
Porque? A arma tá na mão de quem? Na minha ou na sua? Deus me escolheu, colocou a arma na minha mão porque quem se fode hoje é você. E Deus no fim das contas não é justo, porque se fosse justo tinha uma arma na sua mão também, mas olhando por outro lado ele é justo porque tem uma arma na minha mão, mas o dinheiro tá no seu bolso, mas é claro que tem ainda o terceiro lado de que no fim das contas tanto a arma vai estar na minha mão quanto o dinheiro vai estar no meu bolso. Deus não é justo, era o que eu pensava quando eu via vocês ricaços erguendo pesos naquela academiazinha de bosta, vocês pagavam mais de 500 reais pra levantar peso. Eu recebia trezentos reais pra levantar peso, erguer concreto e construir muros. Onde tem justiça nisso? Eu pensava. Deus não é justo. Mas aí eu pensei que Deus é justo porque ele me deu livre arbítrio e com esse livro arbítrio eu comprei essa arma, bem interessante, porque agora mesmo com todo o teu dinheiro no bolso é você quem tá se borrando de medo.

Ainda vivo

In ficção on Julho 5, 2006 at 3:31 am

Senhor Gustavo, mostre seus dentes
Vamos ver quantos ainda lhe restam
Vamos ver se ainda aguenta mais um soco forte na boca e umas pancadas no estômago, tua coragem tá esverdeando?

Rapaz é melhor ficar acordado porque falta muito pra tú aguentar, não sou cordial e misericórdia nunca foi uma palavra frequente no meu vocabulário.
Esta é a última vez que vou alertar para que fortaleça suas bases, são três as minhas qualidades como lutador e as suas desvantagens são enormes, o tempo está contra tí, a sede está contra tí e a tua própria má vontade.
Toma um banho de água fria, abre estes olhos sonolentos e prepara-te porque amanhã tem mais uma surra das belas e se tua cabeça não permanece erguida vai ser difícil você revidar um soco da vida, este saco de pancadas que te perturba pelo único motivo de que as vezes você esquece como revidar e abaixa os ombros e no impulso da queda inevitalvelmente exercido pela gravidade teu corpo vai ao chão e tua força de vontade fica dilacerada, auto piedade invade tua alma e teu impulso criativo vai pro brejo. Que os tambores te dêem força porque o próximo murro vem na tua direção.