Gustavo

Posts de Abril, 2006

Aonde está seu espírito

In Sem-categoria on Abril 26, 2006 at 3:09 pm

Aonde você acha que vai? Você não vai a lugar nenhum. Só se vai a algum lugar quando se tem algum espírito e ao que me parece você perdeu o seu.

O espírito, ao contrário do que acreditam, não está no cérebro escondido em algum lugar dentro da mente do indivíduo. O espírito é uma coisa prática, há quem o tenha e perfaça um novo caminho de acordo com seu caráter espiritual e há quem não tenha e acorde todos os dias iluminado sobre o mesmo sol e nem sequer sinta a pele arder com o seu calor restaurador.

Aonde você acha que vai desse jeito ? Aonde quer que você chegue saiba que estará sempre parado. No mesmo lugar.

CONSELHOS DISCORDIANOS

Não acredite nas notícias. Elas mentem para você.

Não confie em seu porta voz. Ele mente por você.

O louco e o palhaço são os homens em seu estado mais puro

Pronuncia-se o Rei sobre o desbraçado

In ficção on Abril 14, 2006 at 5:46 pm

Pensem a respeito de Reggio que perdeu seus braços quando ainda era um garotinho, num acidente na guilhotina que seu pai estava fabricanto para mim. Reggio, o desbraçado, como é conhecido está sempre encostado em uma árvore ou em uma parede áspera. É alí que ele fica por horas durante o curso dos sóis e luas que sobrevoam dia após dia o nosso império pois só assim um homem sem braços pode ser feliz.

O caso dele se aplica a mim. Sou um Rei mas preciso de beleza para ser feliz, assim como o homem sem braços precisa satisfazer sua coceira nas costas, a minha coceira se chama vaidade.

Me digam, como pode um homem reinar sem ser belo?

Este é o motivo pelo qual me utilizo deste traje tão belo, mas tão belo que só mesmo os inteligentes são capazes de enxergar. Só com um traje de tal beleza posso me sentir suficientemente satisfeito e confiante para governar.

É por motivo de minha beleza colossal e consequentemente realeza tirânica que ordeno a toda plebe que se curve diante de minha presença pois sou o sinônimo de perfeição divina quando estiver com meu cetro dentro deste traje real.

Curvem-se.

Justificativa para não me justificar

In jornalismo on Abril 6, 2006 at 5:48 pm

“Somente os idiotas se impressionam com palavras difíceis”
- Osho

Os artistas em geral já sofriam pressão de todos os lados porque a arte não se justifica, a arte não tem finalidade prática e olhando por esse prisma parece não ter importância e talvez por este motivo os artistas sofrem pressão até mesmo do próprio meio para que expliquem qual o porque daquilo que querem criar.
“Qual a importância disso?”
É como explicar uma piada antes mesmo de conta-la. Se eu quisesse dizer de outro jeito eu teria dito. A importância disto é isto. Se quer saber a importância disto, leia. Não cabe a mim explicar para um cavalo como se roda uma roda, se não entendeu então provavelmente um de nós é burro demais.
Se precisássemos explicar o porquê de um sentimento ou quantificar o amor, o resultado seria um absurdo completo, mas é isso o que eles querem, uma fórmula matemática para as coisas humanas.
O que seria de artistas excêntricos como Nelson Rodrigues, Andy Kaufman a trupe Monty Phyton ou Leo Bassi se precisassem explicar para todos sobre qual o porquê do que fazem. Muitos ficariam chocados, outros creriam como absurdo inaceitável, suas obras nunca seriam justificadas pois quem julga não são artistas, são pessoas ou preguiçosas ou burras o suficiente para contemplarem uma obra e não perceberem que há algo de importante ali dentro que não pode ser mensurado.
Mas se você é um artista e precisa de uma justificativa então voe, deixe que sua imaginação torne a justificativa uma segunda obra de arte em si. Floreie cada detalhe da justificativa com belas palavras que mesmo que não justifiquem seu texto, dêem a ele um “ar de importância”. Explique por motivos “N” que sua obra merece e precisa ser filmada e explique os porquês, seja um ficcionista justificador e deixe que eles se fascinem com as explicações e com as belas palavras pois eles não se importam com a essência, eles procuram é uma boa embalagem e é disso que a justificativa se trata. Deixe que sua justificativa os iluda. Eles adoram ilusões.
A grande verdade é que tudo é justificável, mesmo a situação mais abissal e lastimável pode ser justificada. Falácias existem para isso e todos bons “profissionais do mercado” sabem fazer bom uso disso e nem sequer se dão conta porque eles não conhecem nada além da mentira e estão satisfeitos deitados sobre seus travesseiros de vento.
A grande diferença entre ficcionistas e publicitários é que os ficcionistas criam uma ilusão que acaba na última página, a ilusão dos publicitários e propagandistas permanece como sujeira debaixo de um tapete, não se percebe, mas ainda fede.
Pensemos sobre a maneira como Hitler se justificou para seu povo. Ele precisava de uma boa justificativa para o que estava fazendo. A justificativa foi uma revolução estética e uma higienização da humanidade. Para os idiotas que sobrevivem às custa de justificativas e bons motivos para fazer isto ou aquilo outro foi o suficiente para que ele justificasse a dizimação de uma raça, de pessoas portadoras de deficiências e tudo aquilo que não fosse considerado bela segundo ele. Hitler era um artista frustrado que se tornou um publicitário. Sobreviveu como ditador pela auto propaganda que disseminou em seu país durante a guerra.
Uma boa explicação justifica até um jantar no qual o prato principal é uma salada de merda e todos engolem sentindo nas goelas o gosto das misturas intestinares descendo secamente e sorriem entre si julgando esta uma verdadeira obra de arte de algum cozinheiro criativo (e é assim que classificam o caviar). É como a lenda da nova roupa do rei na qual o próprio encomendara uma roupa invisível que somente os inteligentes podiam ver. Nem mesmo ele podia ver a roupa, mas ninguém gostaria de se passar por burro.
Aonde então estão os artistas, escritores e cineastas com espírito criativo que não devem explicações a ninguém? Agora precisamos nos explicar sobre cada passo e o porquê de tudo o que fazemos? De que vale então a criação se ela precisa passar sobre um funil estreito no qual em seu fim há um guarda armado que olhando em nossos olhos recolhe as justificativas e direciona intimadoramente por qual caminho o potencial criativo deve seguir. Porque não abrem logo uma porta para os esgotos e enviam todos artistas para lá? Seria mais simples e um ato concreto contra a “inutilidade da arte”, segundo eles acreditam.
Nossa moralidade condena o artista, a lenda da cigarra e das formigas é a prova cabal disso. As pessoas sentem desprezo pelos artistas, mas a cigarra nasceu para o que faz assim como as formigas nasceram para o que fazem. São fatos da vida e ninguém tem mais importância do que ninguém.
Artistas não se justificam, artistas fazem. Se tivéssemos que esperar pela aprovação deste ou daquele trabalho nunca faríamos nada. É uma pena termos que depender do dinheiro deles, mas não se esqueça que a mentira está do seu lado, você é um ficcionista, um criador então justifique-se da forma que eles querem ouvir, só não se deixe levar pela própria justificativa cegando-se pela vaidade. Iluda-os confortavelmente e deixe suas criações livres de qualquer parâmetro artificialmente estipulado.

Afinal de contas o artista é o sujeito inversamente oposto ao burocrata.

Nelson Rodrigues Diz…

In Sem-categoria on Abril 6, 2006 at 1:38 am

” A grande vaia é mil vezes mais forte,mas poderosa,mais nobre do que a grande apoteose.Os admiradores corrompem.”(Nelson Rodrigues)

O filme favorito de Pedro Juan

In ficção on Abril 6, 2006 at 1:24 am

__Licença. – eu pedi

Ela descruzou as pernas e eu passei. Sentei do lado dela havendo outros dois lugares vagos adiante.

__Meu filme favorito esse…

Eu comentei sem olhar para o lado, mas claramente falando com ela.

__Gosto muito desse filme e desse diretor. – completei

A verdade é que eu não estava me sentindo muito confortável. Estava me sentindo o sujeito mais chato da face da terra e sem nada pra dizer. Talvez sentindo isso porque sabia que era o que ela estava provavelmente pensando ao meu respeito.

__Qual é seu nome hein?

Ela olhou meio de lado e voltou a ver o filme. Eu aproximei meu rosto do dela e perguntei quase sussurrando.

__Qual é seu nome?

Minha preocupação é que ela pensasse que eu era alguma espécie de tarado. Não que eu não seja, claro que eu sou, mas que ela pensasse que eu sou um tarado perigoso que forçaria ela a fazer alguma coisa.

Ela se virou parecendo chateada.

__Que?
__Seu nome. Posso saber?
__Depois do filme.
__Só depois?
__…

Ela ficou olhando para a frente. Cruzou as pernas e virou pro lado afastando-se de mim com os braços guardando a bolsa. Fiquei esperando o final do filme. Meu deus que filme chato e interminável. O que aquele diretor tinha na cabeça pra filmar um troço tão demorado?

Quando o filme terminou eu confesso que estava meio chapado. Fiquei hipnotizado. Nem tinha prestado atenção. Já tinha visto aquele filme tantas vezes que toda e qualquer informação que pudesse ser abstraída dele já havia se fundido a minha cabeça bloqueando minha passagem intelectual para novas percepções sobre aquela história. Em um resumo do que eu sentia pelo filme: ESTAVA DE SACO CHEIO.

Depois de uma longa espera o filme terminou. E qual não foi a minha raiva quando ela se apressou em descruzar as pernas e se levantar virando as costas para mim sem que me desse tempo de falar nada.

Fiquei sentadinho esperano passar os créditos. Queria saber direitinho o nome de todo mundo que participou daquela droga de filme pra xingar todo mundo, desde o diretor até o sub assistente de contra regra.

Ao meu lado uma outra garota também esperava o final do filme junto comigo. Eu nem havia reparado nela. Ela se levantou e passou por mim.

__Oi.

Ela passou direto. Sem responder.

Que merda de filme!