Gustavo

Posts de Março, 2006

O último vôo de Heliot

In ficção on Março 31, 2006 at 8:53 pm

Um bando de patos ergue vôo a beira de um espelho para o céu.

O vento das asas dos patos balança a água do lago causando nela pequenas ondulações, deixando assim de ser um espelho perfeito para o céu.

De dentro do mato uma estratégia ardilosa acontece. É de lá que sai o tiro da espingarda que atinge um dos patos.

O pato cai dentro da água e é capturado morto por um cão de caça que entrega o pato orgulhoso ao caçador.

Se o caçador soubesse as peripécias pelas quais Heliot o pato já passou, nunca teria disparado aquele tiro em sua direção. Talvez no máximo, teria apontado em outro pato, mas agora era tarde. Heliot já virara banquete de uma mesa farta.

Welly Welly Well

In Sem-categoria on Março 29, 2006 at 10:04 pm

MIOLO:
Você bebeu alguma coisa que eles te deram?

RICO:
Não é por isso. Tem a ver com Patrícia. Um veneno pior do que cicuta.

MIOLO:
Ainda bem que é só isso cara. A cura pra isso é o tempo.

A nova faceta de um conto original

In Sem-categoria on Março 27, 2006 at 1:52 pm

” O domingo amanheceu cinzento. Inerte após a noite de insônia, olhava fixamente o telefone. Na esperança de adquirir coragem, levantou da cama e tomou um banho gelado. Seu reflexo no espelho do banheiro denunciava o medo estampado na face cansada. Preparou um café forte e amargo e a cada gole da bebida quente rezava uma prece sem Deus, rogando ao Nada forças para fazer o que deveria ser feito.”
- Bible Salesman

Conhecem aquela história do escritor que reescreveu o Don Quixote De La Mancha e assumiu sua autoria? Pois é o que eu faço. Assim como o Rio, o conto nunca é o mesmo a cada vez que você mergulha nele.
Este é o meu conto, espero que tenham gostado.

Lembrança de mochileiro

In ficção on Março 23, 2006 at 6:36 pm

A manhã era muito escura. Me lembro de ter acordado com todas as esperanças apontadas para o que viria logo mais. Não que eu esperasse por muito, mas era muito chão que me esperava.

Saí de casa logo cedo com uma mochila gigante nas costas. Ninguém sabia que estava prestes a me mandar para Recife fazendo paradas ocasionais por cantos diversos. Não tinha onde ficar mas para ser verdadeiro o destino não é exatamente a parte mais importante, a parte mais importante da viagem é a própria viagem.

Na parada de ônibus devo ter me dado conta de que devia ter levado meu cachimbo com tabaco porque o frio congelava meu nariz, mas eu estava coberto por uma toca e um casaco enorme esperando para ser um passageiro.

Uma gotícula de sereno se juntou com outras várias e uma gota completa caiu num percurso que acompanhei com cuidado meticuloso e curiosidade de quem pouco sabe a respeito de qualquer do mundo esparramando-se no chão. Se por um segundo eu observasse a mim mesmo do lado de fora saberia que já havia começado a viagem.

Quando o ônibus parou eu me acomodei e como se faz em toda viagem antes do sol nascer encostei a cabeça no vidro e a cidade foi diminuindo, dando lugar ao sol nascente que brotava no milharal.

E foi aí que eu me esquecí do que deixava pra trás e comecei a pensar no que vinha pela frente porque quem não tem para quem voltar não tem motivo para se preocupar.

Bons tempos aqueles.

Eu queria mas não posso…

In ficção on Março 21, 2006 at 11:44 pm

É muito foda agir como se nada tivesse acontecido. Você simplesmente não quer responder porque me fez ir até lá a toa e eu não posso ignorar isso. Nossa, como eu penso em te ver as vezes, mas seria uma afronta a mim mesmo fazer isso, um desrespeito comigo mesmo. Se você ao menos me respondesse porque. Me desse alguns bons motivos. Mas não, você age como se fosse uma coisa banal. Eu queria dizer que te amo… Mas como eu vou dizer que amo uma mulher que nunca sequer ví pessoalmente. Como eu vou dizer uma coisa dessas pra uma pessoa que faz uma coisa dessas comigo e ainda age como se fosse natural. Eu queria, mas não posso.

Eu sou o vendedor de Bíblias

In ficção on Março 13, 2006 at 8:20 pm

Eu sou o vendedor de Bíblias
Não tenho amigos ou intimidade. Sou um andarilho. Faço minhas paradas apenas por dinheiro e não encontrei outro sentido no mundo além da sobrevivência. Por mais idealistas que sejam nossos sonhos, se questionados não respondem por sí sozinhos, precisam de argumentos vazios e falácias.
Eu vendo Bíblias, vendo falácias e motivos para que você e sua família encontrem algum sentido nessa bagunça toda.

Eu posso ser o que tiver de ser, mas ao menos tenho bom senso no meio de tantas ovelhas perdidas.

Sou como um pastor com a palavra de conforto, mesmo adimitindo que não acredito nela, sei de seu poder, e por isso não deixo de prega-la a todos que querem me ouvir.

Carta de despedida

In Sem-categoria on Março 6, 2006 at 11:55 pm

Eu queria te dizer um monte de coisas, você não sabe o quanto. E não eram coisas ruins como as que eu te disse…

Mas agora é tarde. Eu ainda não entendí o porque de tudo aquilo. Porque me deu o endereço errado e nem nada disso. Mas enfim, cabou. Não vou insistir mais nisso. Não sei mais de quem é a culpa. Talvez não seja de ninguém. Beijo.

Bem melhor parar agora

In Sem-categoria on Março 4, 2006 at 11:57 pm

É, tem que se agora.
Bem melhor parar agora, assim,
Do que fazer um mal maior.

RUI VÊ A CIDADE

In ficção on Março 3, 2006 at 2:49 am


Rui procurou uma saída dalí mas não havia. Estava cercado de prédios de janelas azuis e transparentes, sujas, novas ou velhas. Seus sapatos apertados e as calças já incomodavam por causa do calor que lhe fazia suar e o suor em contato com o tecido pesava a calça. Tentou olhar para o alto mas os prédios quase cobriam sua visão, se conseguiu achar uma ponta de céu foi muita coisa. O espaço que os prédios forma de sua crista é pequeno o suficiente para que caiam poucas gotas da chuva acida, consequência direta do movimento que se faz aqui debaixo.
Carros, automóveis, motos e metrôs, com seus faróis como olhos traçavam destinos por 4 caminhos diferentes e Rui do cruzamento se inspirou a sorrir e sussurou num breve suspiro que a cidade respira.
Juntou os pés e pôs se a andar com uma nova visão sobre aqueles prédios vigorosos que mantinham-se eretos nos cursos das décadas como árvores de pedra nesta savana de metal.
Antes, Rui, pensava na cidade como um perigo, uma ameaça, mas agora Rui começava a entender que a cidade é um organismo vivo.
A cidade e seus habitantes, fossem eles feitos de metal, concreto, carne ou plástico, formavam um conjunto em constante movimento que tinha vida própria. Uma segunda natureza estava formada alí e quem sabe não fosse da mesma maneira que a antiga geração natural se formou? Quem não garante que a carne, num passado remoto, tenha sido a tecnologia vigente de primórdios desconhecidos?
E Rui entendeu que a cidade não era tão má assim. Seus veios são o asfalto por onde circulam os glóbulos que são os carros, transportando trabalho durante o dia e repondo os nutrientes e as energias durante a noite para abastecer a carne e os músculos que são os prédios.
A cidade, germinada a partir de um modelo rústico de aldeia tornou-se um gigante que se funde em concreto carne e metal e que um dia se levantará com vida propria e caminhará como um titã pela face da terra e todas as cidades tramarão juntas uma nova tecnologia, assim como foi feito no passado, quando seres antigos e microscópicos tramaram a tecnologia da carne e inventaram a nós, os humanos.
Mas Rui já chegava perto do metrô a uma altura dessa. Viajou para casa sentado no banco cinza, o banco reservado para idosos e deficientes. Nem se deu conta disso, mas foi o caminho inteiro pensando que ele era parte integrante desse todo colossal.

VALÉRIA VÊ A CIDADE

Corra Valéria. Pule para fora dessa janela porque o ônibus está esperando parado. O motorista risonho não espera muito e nãó é todo dia que se tem transporte para a avenida papoulas, mas lembre de se agasalhar e leve dinheiro, afinal, a viagem de ida é de graça, mas para voltar você precisa do bilhete. E foi o que ela fez, fugiu pela janela sem avisar a mãe. Elas haviam brigado há alguns minutos atrás e Valéria ainda estava com raiva, para ser sincero ela queria mesmo é fugir.
Foi com um agasalho e pisou fora de casa, a noite na rua ventava gostoso e o vestido de seda balançava fugindo e tocando a pele macia da jovem Valéria.
De dentro do ônibus com destino a Avenida Papoulas Valéria viu a cidade enorme crescer a sua frente, acabara de entrar nas avenidas principais e a essa hora da noite ninguém estava acordado.
Um passeio secreto enquanto todos dormiam. Valéria iria se divertir um bocado naquela noite.

A ROUPA DO REI

In ficção on Março 1, 2006 at 2:31 am

Sou o tecelão vigarista trabalhando arduamente em teares de linhas inodoras, insípidas, invisíveis e intocáveis.

O que tenho a venda é um completo traje real tão esplêndido que somente os mais inteligentes e argutos são capazes de enxergar.

Qual rei quererá os trajes que tenho para vender e qual será a carapuça mais adequada para sua máscara real do bom gosto, da inteligência e da divindade que a plebe incauta, estúpida e crédula enxerga em sua imagem imaculada ?