
Rui procurou uma saída dalí mas não havia. Estava cercado de prédios de janelas azuis e transparentes, sujas, novas ou velhas. Seus sapatos apertados e as calças já incomodavam por causa do calor que lhe fazia suar e o suor em contato com o tecido pesava a calça. Tentou olhar para o alto mas os prédios quase cobriam sua visão, se conseguiu achar uma ponta de céu foi muita coisa. O espaço que os prédios forma de sua crista é pequeno o suficiente para que caiam poucas gotas da chuva acida, consequência direta do movimento que se faz aqui debaixo.
Carros, automóveis, motos e metrôs, com seus faróis como olhos traçavam destinos por 4 caminhos diferentes e Rui do cruzamento se inspirou a sorrir e sussurou num breve suspiro que a cidade respira.
Juntou os pés e pôs se a andar com uma nova visão sobre aqueles prédios vigorosos que mantinham-se eretos nos cursos das décadas como árvores de pedra nesta savana de metal.
Antes, Rui, pensava na cidade como um perigo, uma ameaça, mas agora Rui começava a entender que a cidade é um organismo vivo.
A cidade e seus habitantes, fossem eles feitos de metal, concreto, carne ou plástico, formavam um conjunto em constante movimento que tinha vida própria. Uma segunda natureza estava formada alí e quem sabe não fosse da mesma maneira que a antiga geração natural se formou? Quem não garante que a carne, num passado remoto, tenha sido a tecnologia vigente de primórdios desconhecidos?
E Rui entendeu que a cidade não era tão má assim. Seus veios são o asfalto por onde circulam os glóbulos que são os carros, transportando trabalho durante o dia e repondo os nutrientes e as energias durante a noite para abastecer a carne e os músculos que são os prédios.
A cidade, germinada a partir de um modelo rústico de aldeia tornou-se um gigante que se funde em concreto carne e metal e que um dia se levantará com vida propria e caminhará como um titã pela face da terra e todas as cidades tramarão juntas uma nova tecnologia, assim como foi feito no passado, quando seres antigos e microscópicos tramaram a tecnologia da carne e inventaram a nós, os humanos.
Mas Rui já chegava perto do metrô a uma altura dessa. Viajou para casa sentado no banco cinza, o banco reservado para idosos e deficientes. Nem se deu conta disso, mas foi o caminho inteiro pensando que ele era parte integrante desse todo colossal.
VALÉRIA VÊ A CIDADE

Corra Valéria. Pule para fora dessa janela porque o ônibus está esperando parado. O motorista risonho não espera muito e nãó é todo dia que se tem transporte para a avenida papoulas, mas lembre de se agasalhar e leve dinheiro, afinal, a viagem de ida é de graça, mas para voltar você precisa do bilhete. E foi o que ela fez, fugiu pela janela sem avisar a mãe. Elas haviam brigado há alguns minutos atrás e Valéria ainda estava com raiva, para ser sincero ela queria mesmo é fugir.
Foi com um agasalho e pisou fora de casa, a noite na rua ventava gostoso e o vestido de seda balançava fugindo e tocando a pele macia da jovem Valéria.
De dentro do ônibus com destino a Avenida Papoulas Valéria viu a cidade enorme crescer a sua frente, acabara de entrar nas avenidas principais e a essa hora da noite ninguém estava acordado.
Um passeio secreto enquanto todos dormiam. Valéria iria se divertir um bocado naquela noite.