Gustavo

Posts de Fevereiro, 2006

Descomensurado

In ficção on Fevereiro 22, 2006 at 8:45 pm

O rádio me acordou tocando Beat It do Michael Jackson como fazia todas as manhãs. Desde Thriller que eu já sabia que ele seria meu artista preferido pelo resto da vida. Qual não foi meu espanto quando tentei abrir os olhos e algo de imenso estava tampando meu olho esquerdo. Meu olho estava lá, mas algo o estava bloqueando. Minha primeira sensação foi de medo, mas me lembrei de uma outra vez, quando acordei sem sentir meu braço, ele estava mole, sem movimentos, eu o beliscava e não doia. Fiquei com tanto medo naquela manhã que quase chorei, depois os movimentos começaram a voltar e eu me toquei que haia dormido sobre o braço e o sangue ficara com a passagem obstruída. Mas o incomodo no olho parecia aumentar e então me levantei, sem nem sequer engolir um gole de água me olhei no espelho e lá estava um baita narigão que me brotava na face como uma raiz torta que brotara deformada. Estava monstruoso e repleto de veias esverdeadas que se alastravam por ele. Espalhava-se pelo meu rosto. Passei a mão levemente sobre a pele e o sentí pulsar e o inchaço aumentou, bloqueando desta vez meus dois olhos. Gritei, e como gritei, mas não parava de nascer, retorcer e contorcer como uma cobra em agonia ele crescia, do que se alimentava eu não sei mas devia ser de ar porque durante as horas que se seguiram seu tamanho se multiplicou tomando conta de todo meu apartamento. Os dias se passaram, eu já não conseguia mais me levantar, estava praticamente esmagado contra o chão e meu nariz protuberante torto como um galho já descia pelas janelas, derramando sua carne por toda a cidade que se alastrou pelas ruas, eu não me lembro de ter sentido fome alguma, nem muito menos dor. Do rádio ligado de meu apartamento eu ouvia os noticiários alertando sobre a imensa massa de carne que se espalhara por entre as ruas da cidade e que não parava de crescer. Ao menos servia de alimento para aqueles que não tinham o que comer, fiquei sabendo que algumas pessoas iam com facas e até serras para destacar grandes bifes de meu nariz gigante e alimentar suas famílias mas eu não me incomodei de forma alguma, apesar de ser o meu nariz que eles estavam comendo, não me faziam mal por que não me causavam dor.

A moral dessa história é que se alguma coisa vem para o bem, por mais que incomode, deixe-a crescer.

O que vejo de minha cama voadora

In ficção on Fevereiro 20, 2006 at 11:58 pm

“Vejo primeiro um mar de possibilidades
De acertos buracos e até inverdades”

Meu cachorro já não mais latia e eu sentia isso forte porque foi a primeira noite que eu não ouvia um ruído sequer senão o dos grilos.
Estava acostumado a dormir com a barulheira, gostava até. Mas quando o Duque foi embora o barulho foi com ele, e com o barulho a minha felicidade.

Mas não demorou até que as minhas pálpebras piscassem e minha janela se abrisse, numa decolagem perfeita ví do alto a boba vila boba, algumas janelas acesas, alguns olhares e surpresas por ver uma cama tão alta voando e um sonhador eu seu cume imaginando.

Quanta coisa se pode ver daqui de cima, da pra ver onde o horizonte se encerra, dá pra ver que o mundo é redondo e pelo jeito o Duque já está dando a volta porque não o vejo daqui.

Mais uma noite de vigília, divertida vigília esta de voar com minha cama, o perigo é deixar cair os lençois mas mantenho todos bem presos, faço uma dobra e estendo os pés por cima, nada voa, só balança, até meus cabelos curtos.

Daqui do alto a visão é tão boa. Que parece que nem eu nem a cama voadora queremos mais descer, mas o Duque vai latir, e como um navegador que já há muito só vê mar, vou gritar que já a vista ele está.

Coração Seco Buceta Molhada

In ficção on Fevereiro 15, 2006 at 11:56 pm

Como pode?
Foi a pergunta que eu fiz quando cheguei na cidade.
Mal tinha pisado na terrinha e já tava sentindo os efeitos dos gases tóxicos e da poluição visual, sonora e do ar que invadia meus orgãos sensoriais tampando meus poros, lacrimejando meus poros e cobrindo de pus protetor minha alma.
Pensei que ela seria a minha salvação…
Mas não foi.
Como pode um coração tão seco ter uma buceta tão molhada?
É a pergunta que eu me faço porque acho que nunca atingi o coração dela de verdade, o máximo que eu atingi foi um hymen rompido há anos por algum namorado malvado do qual ela tenta se vingar até hoje…
E desconta em mim.

SAMPA

In Sem-categoria on Fevereiro 15, 2006 at 12:29 am

A pior cidade do Brasil não vai conseguir tirar dos meus olhos uma lágrima que seja porque eu sou mais duro do que o concreto do qual ela é feita.

Pra quem nasceu depois

In ficção on Fevereiro 8, 2006 at 2:11 pm

Era difícil nasce naquela época porque nem sabia o que tava se passando ao seu redor. Tinha gente matando seus tio, tinha gente querendo te comer a carne viva. Eles tratava a gente mal e nós nem sabia o porque disso, vez ou outra a gente levava chicotada e minha mãe explicava que tinhamos que agradecer a Oshun mãe do candomblé porque a tempos atrás era pior ainda. Mas isso que eu não entendia. Só porque era pior antes então quer dizer que a gente tinha que aceitar como tava?
Era ruim quando quase todo dia aquele fi da puta me chamava de criolo fedido, me batia com o mesmo chicote que batia no cavalo e maltratava minha mãe. Botava a gente pra trabalhar nos canavial. A maioria de nós nem entendia pra que tudo aquilo, mas era cana de açucar. Cana de açucar é ouro! E a gente só recebia as migalha, isso quando recebia alguma coisa porque se o patrão fi da puta ficava bravo por algum motivo a gente não recebia nada. O desgraçado era mal, tão mal que não dava conta do mulherão que tinha, no dia que aquela pomba gira entrou no rabo dela ela quis abrir as pernas pra um dos que trabalhava com a gente lá na casa dela e o patrão descobriu, naquele dia não teve miséria de pagamento não, mas eu vou te contar que teve morte e fogueira, e não foi um só não, queimaram vários.
Como eu vou dizer que não odeio só o patrão falando com aquele sotaque nojento de portugal, mas odeio tambem o nosso povo porque a gente falava a mesma língua deles, a gente aceita essa coisa toda calado. Vai pergunta pros indio se eles aceitaram essa safadeza? Quando botaram eles pra trabalhar a força que nem a gente os indio se revoltaro e só falto o dono das terra chorá de medo porque naquele dia teve sangue pra todo lado. O cagão e o chicote dele ficaro escondido no armário até acaba a desgraça toda e só depois ele saiu, querendo ainda dar uma de machão. Minha mãe que contou isso, falo que foi antes daquela puta da princesa isabel que todo mundo tinha de queridinha mas eu vo dize mesmo que ela é uma puta porque não sabia de merda nenhuma e que pode até de ter assinado a droga da lei, mas ela não se preocupou no que continuava acontecendo. Tem gente que diz que ela resolveu um problemão. Que problemão? A gente passa fome toda semana. Meu irmão tá doente e eu já não sei o que fazer. Isso aqui é pior que uma floresta as vezes. Fico pensando porque é que eu continuo. Pra merda com esses fi de puta, eu posso ter nascido agora que eles falam que é uma época melhor, talvez eu possa até estar reclamando de boca cheia que nem diz minha mãe. Mas eu fico me perguntando se a gente nunca tivesse saído de lá de onde a gente veio. Será que a merda ia ser tão grande ?


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Conto para o 16 concurso maldito
A: A INGENUIDADE

Ingênuo: 1; sem malícia, franco; 2. Inocente, puro, singelo; 3.Indivíduo ingênuo; 4.Filho de escrava nascido após a lei da emancipação.

Medo de maçons

In Sem-categoria on Fevereiro 6, 2006 at 12:09 pm

Quando eu era criança minha mãe contava histórias de que os maçons iam me pegar e me assar num fogo verde pra depois servir meus pedaços em churrascos e festas das lojas maçônicas em que os convidados comeriam tudo e só os membros dos níveis mais altos teriam direito de deglutir meu cérebro para ficarem com a minha inteligência, segundo a crença dos maçons quem come o cérebro ganha a força do pensamento das outras pessoas. Daí vem as terríveis guerras travadas entre os membros mais altos dos cargos da maçonaria em que os embates sempre terminam em decaptação e é explicado o motivo pelo qual os maçons gostam tanto de miolos, inclusive foi um ex-maçom que criou o primeiro filme de Zumbis “The Night of Livin Dead Maçom” no qual ele fazia uma crítica aos zumbis que viviam comendo miolos.

Por isso eu tenho uma grande dúvida.

Qual o cardápio servido no lanchinho matinal e divertido dos maçons?

Ouví dizer a tecnologia que impede a propagação de sinais de celular é maçônica. E essa tecnologia foi utilizada nas salas de cinema, para que ninguém faça contato com o mundo exterior, e nas cadeias, para que ninguém se distraia.

Você conseguiria atingir um alvo com um dardo se o alvo não estivesse lá?
Qual seu grau de precisão?

A CAMA DE MORFEU – CENA 2

In Sem-categoria on Fevereiro 5, 2006 at 5:37 am


Morfeu mal pisou dentro de casa e foi dizendo:

__Mãe! Posso voltar a pé para casa?
__Não Morfeu! Eu pedí que a dona Marcília te trouxesse porque é perigoso você vir sozinho pra casa. O caminho é muito longo.
__Se eu tivesse uma bicicleta ia ser rapidinho!
__Mas você não tem!
__Então compra uma pra mim!
__Morfeu? O que conversamos?
__É que a Dona Marcília é uma velha chata. Eu tenho que tomar aula com ela, depois volto de carro com ela e ainda tenho que morar na frente dela. Vamos nos mudar daqui então!
__Morfeu…
__Tá bem…
__O almoço tá quase pronto.

Morfeu entrou no seu quarto e deitou cansado. Quis dormir quando Duque latiu.

__Duque!

Pulou pela janela e foi brincar com Duque no quintal. A dona Marcília lá do outro lado, na sua cadeirinha de balanço comia um almoço insosso. Ela apreciava coisas insossas e por algum motivo havia escolhido para a sua vida tornar todas as coisas insossas. Aliás o motivo pelo qual ela escolheu a profissão de professora é o de ensinar a coisas inssoas às crianças desde cedo. É como uma vela com a chama fraca, dura mais. Talvez fosse logo na infância, de tanto receber nãos e nãos ela aceitou um não final e assim ficou. Mas é claro que pode ter sido na juventude quando, por pudor, evitou qualquer relação amorosa que fosse, mas para dizer a verdade acho que foi mesmo quando ela experimentou fazer aulas de ballet e quebrou a perna de tal modo que criou medo e nunca mais quis voltar e nem pensou em fazer nada parecido. A vida é perigosa demais para quem quer viver.

Enquanto isso Duque e Morfeu brincavam no quintal, faziam barulho e nem lembravam da Dona Marcília do outro lado da rua. Morfeu uma vez elogiou as flores do quintal dela, eram bonitas mesmo, mas depois do elogio ela se encheu do sabor da felicidade, era doce demais e parou de cuidar das flores.

__Morfeu! O almoço está pronto.

Morfeu correu para dentro e Dona Marcília, já incomodada com tantos latidos parou de tricotar assim que Morfeu pisou dentro de casa.

Morfeu almoçava vorazmente e Duque lá fora latia, como sempre fazia durante o almoço. Era um cão elétrico. Mas o latido de repente calou. Isso não acontece todo dia, só quando soltam fogos ou quando é dia de chuva.

__Mãe. Hoje é dia de jogo?
__Não. Porque?
__Porque eu não ouví os fogos
__Nem eu. Mas porque?
__Por que o Duque tá calado.
__As vezes ele se cala filho.
__Quando eu to aqui não.

E Morfeu saiu para descobrir que o Portão da casa estava aberto. Dona Marcília tinha acabado de sentar na sua cadeira e voltado a tricotar. Morfeu atravessou o asfalto e foi direto na direção dela. Do meio da pista gritou:

__O que você fez com meu cachorro Dona Marcília!
__Nada Menino! Volta para a sua casa.
__Você soltou ele. Você odeia ele!
__Ele escapou menino! Volta pra casa e fica quieto porque aquele vira lata pestinha não vai mais incomodar.
__Você soltou ele!
__Volta pra casa e fica quieto menino!
__Você não manda em mim!

A mãe de Morfeu saiu de casa.

__O que é isso Morfeu? Pare de gritar com a Dona Marcília.
__É bom mesmo dar um pouco de educação a este menino – Reclamou Marcília
__Ela soltou o Duque mãe. Eu sei que foi ela. O portão não abre a toa.
__Morfeu, vai ver o vento bateu e abriu o portão. – Disse a mãe.
__Foi o vento moleque! – Disse a velha
__Meu nome é Morfeu!
__Olha como fala comigo moleque! – Diz Marcília
__Morfeu, vamos entrar. – Disse a mãe.
__Entrar nada. Eu vou achar o Duque.

E saiu correndo sem ouvir os gritos da mãe.

A CAMA DE MORFEU – CENA 1

In Sem-categoria on Fevereiro 4, 2006 at 5:56 am


O sino da escola tocou e logo vieram Morfeu e sua professora. Entraram no carro. Morfeu detestava pegar carona com ela mas

precisava porque a mãe não o deixava ir a pé para casa. Ele tinha maior vergonha de sair de carro com a professora, por isso ao entrar se abaixava para que ninguém o visse. Ela nem percebia.

__Morfeu! Você está com péssimas notas hein!

Ele tinha uma preguiça de falar a essa hora. A hora do almoço é uma hora na qual pouca gente tem vontade de falar, bate a preguiça tanto antes quanto depois. Antes porque você tá fraco de fome e depois porque seu organismo gasta muita energia pra digerir e dá preguiça de falar tambem. Se você gosta de conversar antes ou depois do almoço sinta-se privilegiado, Morfeu não era privilegiado, por isso respondeu apenas:

__Sim Senhora Marcília.
__Senhorita por favor.
__Tá.
__Você precisa estudar mais. Fica o dia inteiro brincando com aquele seu cachorro. Você pensa que eu não vejo?
__Não.
__Ah é? Está me desafiando é?
__Não… quis dizer sim.
__Ah bem. Porque eu não gosto de crianças que não respeitam os adultos. Você sabe que aquele seu cachorro pode te transmitir doenças?
__Sim.
__Você deve tomar banho sempre depois de brincar com ele. Meu Deus! Corre até o risco de infestar meu carro de pulgas.

A Dona Marcília, professora de Morfeu já era quase uma anciã, não pela idade, ela não era tão velha, devia ter apenas uns 40 anos de idade, mas suas costas, suas rugas e seus seios obedeciam a gravidade como ninguém. Além disso, ela definitivamente era uma privilegiada. Morfeu não se sabia se isso se devia ao fato dela nunca ter sido casada e por isso precisava gastar seu verbo de todas as formas possíveis fosse com quem fosse, ou se era por algum outro motivo misterioso que aquela velha chata nunca revelava. A questão é que se ela não gostasse tanto de se meter em seus assuntos pessoais não haveria problemas mas ela se mete na vida de todo mundo, tem dicas sobre tudo mas alguém devia dar uma dica para que ela deixasse de ser tão… como eu poderia dizer… “distribuidora de dicas”, sim, creio que este termo é perfeito.

__Eu me lavo.
__Eu sei. Mas não adianta só se lavar. Os micróbio ficam. Além do mais não é só questão de sujeira. É claro que isso é um problema, mas aquele cachorro, o …
__Duque.
__Duque, doque, plim plim, Au Au, Snoop. Tudo a mesma porcaria. Cachorro nasceu pra virar linguiça no matadouro! Só isso! Mas como eu ia dizendo, não é só sujeira, os cães fazem muita poluição sonora, principalmente aquele seu…
__Duque
__Já disse que não importa.
__Ele fica latindo o dia inteiro. Eu não consigo tricotar. Não consigo tomar meu banho, não consigo fazer minhas massagens terapeuticas diárias nem muito menos assistir minha tv. Sua mãe tem algum problema no ouvido?
__Não.
__Pois eu acho que tem sim, e acho que ela devia se cuidar porque como ela consegue não se incomodar com aquele cachorro latindo o dia inteiro? Aquele cachorro é louco! É pirado, é lê lê da Cuca.
__Duque cão louco voador auhahahaha
__Tá rindo do que?
__Não, é que eu lembrei da música que eu fiz pra ele.
__Fez até uma música pro Duque?
__Fiz, quer ouvir.
__Não, obrigada, se fosse uma música sobre alguma coisa mais útil.
__Müsicas não precisam ser úteis – Morfeu se levanta na cadeira.
__Precisam sim! O que não ensina é perfeitamente dispensável.
__Minha mãe disse que a gente tambem precisa se divertir.
__Primeiro! Sua mãe é surda! Segundo, sua mãe é professora?
__Não.
__Pois eu sou! Então silêncio.
__Mas.
__Pronto. Chegamos. Vai para casa e pensa no que eu disse! Dê um jeito nesse cachorro!

Sem que ela percebesse Morfeu ficou mais alguns segundos no banco de trás do carro olhando para uma chave que brilhava no porta luvas aberto. Quando ela virou para o lado Morfeu passou a mão na chave e desceu do carro. Agora ele podia ir.