Gustavo

Posts de Dezembro, 2005

Carinho Maternal

In ficção on Dezembro 25, 2005 at 9:52 am

Estive por muito tempo sentado naquela calçada sobre a chuva tentando escutar o que sairia daquela briga do lado de dentro do mercadinho.

Como era de costume minha mãe saia todo dia muito cedo, fechava os portões de ferro com um cadeado enorme e eu ficava esperando sentado no meio fio até que tudo estivesse trancado e pudessemos voltar para casa. Eu tenho que esperar porque eu sou muito pequeno para ajuda-la mas naquele dia foi diferente. Antes do nosso pequeno mercadinho se fechar, eu já estava varrendo o chão. Era outono e do lado de fora a chuva começava a pisotear o asfalto, pensei que iriamos precisar de alguma proteção para voltarmos para casa secos. Pouco antes de minha mãe pegar as chaves do cadeado um cliente entrou pela porta com o cabelo todo molhado e a roupa respingando e deixou sua jaqueta de lado, ele parecia bravo e antes que dissesse qualquer palavra minha mãe falou: “Augusto, me espere lá fora”, eu tentei explicar que estava chovendo mas ela brigou comigo por ser desobediente. Enquanto eu ia saindo cabisbaixo o homem que entrou tirou um pequeno pacote de dentro da sacola do supermercado e disse que queria reclamar daquela mercadoria.

Já estou todo molhado sentado neste meio fio e eles ainda não saíram. A luz do poste me iluminava e eu perdí meu tempo observando as poças d’agua sendo empurradas pelos pneus dos carros passando. Depois de muita espera saiu o homem fechando o ziper das calças e minha mãe logo atrás penteando os cabelos.

O homem olhou para mim, eu não parei de o encarar, era por causa daquele miserável que eu estava aqui pegando chuva. Minha mãe me viu na chuva e me cobriu com um guarda chuvas. “Nossa filho, você está todo molhado!”, ela estava cuidando de mim, mas ainda olhava o homem indo embora. Eu queria que ela visse como eu estava, e tudo por causa daquele freguês mal educado, mas ela não tirava os olhos dele.

Assim que chegamos em casa eu reclamei daquele sujeito desprezível. Ela disse para que eu não ficasse bravo pois aquilo poderia acontecer mais vezes. Eu retruquei bravo: “COMO ASSIM MÃE? ELE VAI VOLTAR?” E ela somente completou: “Calma filho. Compraremos amanhã um guarda chuvas novo para você!”

A AMIZADE NO SILÊNCIO

In Sem-categoria on Dezembro 21, 2005 at 12:30 pm

E eu acho que ninguém nunca vai entrar em acordo comigo. Então, quando me torno amigo de alguém não é porque há acordo, mas porque há compreensão.



Eu acho que o único momento em que entro em acordo com alguém é quando estamos em silêncio. E não me refiro ao silêncio da omissão, mas ao da paz.

Só que ainda não morrí então minha voz ainda grita alto e enquanto eu gritar terei inimigos, mas ao cansar de tanto barulho espero que possa haver amizade ao menos no silêncio da calmaria que sempre vem depois da tempestade, e me desculpem pelos gritos, se eu estivesse no lugar de vocês tambem me odiaria.

A hierarquia dos fodões

In ficção on Dezembro 18, 2005 at 2:15 am

Todo cara fodão quer se parecer com um cara que ele acha mais fodão ainda.

Por exemplo:

Pode ser que um cara fodão queira se parecer com o pai dele, ou pode ser que ele queira se parecer com o Rambo ou o Brutus, ou alguma coisa do tipo.

E os caras mais fodões ainda tambem querem se parecer com um cara que é ainda mais fodão que eles todos. Um guru fodástico ou coisa do tipo, são raríssimos e muitos já morreram em guerras sangrentas.

Mas estes caras mais fodões de tudo, seja o pai do seu pai, ou o rei do Clint Eastwood, ou o Sensei do Rambo, eles tem um sonho.

O sonho deles é dormir fodão e acordar uma flor, ou talvez até uma borboleta. Esse é o destino de todos caras fodões. Eles passam a vida sendo fodões porque eles querem ser um mestre fodástico, mas no final eles só querem virar uma estrelinha ou coisa semelhante.

Isso quem me disse foi um cara que virou bailarina. Juro!

Figura:

http://www.orlandolara.com/Mixed-Media/WebRes/Macho.jpg

O DUENDE DA MANGUEIRA

In ficção on Dezembro 12, 2005 at 6:46 pm

Minha casa ficava perto da praia, logo depois da ponte que passava em cima do Rio Jucu. Todo carnaval era festa naquele lugar, o ´congo´ passava a toda altura com milhares de pessoas tocando tambores atravessando a minha rua até chegar na praia onde as mulheres deixavam aqueles barquinhos que eu gostava tanto mas não podia pegar porque eram presentes para Iemanjá.
Mas daquele carnaval não pude vestir minha famosa fantasia de esqueleto para participar porque eu estava doente. Ficava vendo os dias passarem da janela da minha casa.
Minha mão custou a me deixar saí de lá de dentro, mas no dia que deixou eu não pude passar do quintal e tudo o que havia no quintal eram alguns brinquedos com os quais eu não brincava mais e atravessando o muro estava aquela grande mangueira carregada de frutas ainda verdes.
Eu ficava arremessando pedras nas mangas verdes para que elas caíssem, e depois comia com sal até que num certo dia a pedra que eu arremessei voltou certeira contra a minha cabeça me causando um dolorido. Amarrado a pedra, um recado:
NÃO COMA MINHAS MANGAS!

Mais um dia perdido

In Sem-categoria on Dezembro 7, 2005 at 5:07 pm

Eu não sou pra sempre
E você pra mim é demais

Não sei por que ou por quem você chora. Eu já não sei de nada.
Só quero ir embora.

História Anônima – Parte 3

In ficção on Dezembro 6, 2005 at 5:57 am

Pisou fora de casa e lá estava o carro parado.
Lucas ficou assustado mas acabou seguindo até eles.
Da janela de vidro preto que se abriu uma cara terrível saiu de dentro.
Lucas tinha a tendência de andar com estilo, o ritmo estava nas suas veias. Ele não nasceu para roubar, nasceu para dançar.
O Blues, o Hip Hop, o Soul, o Rock n’ Roll saia de suas veias para ser divulgado em seu jeito de ser, de viver e de pensar.

Esse tipo de demonstração tão ingênua de alegria não deixava o BOCA alegre. O BOCA não aguentava ninguem chamando mais atenção que ele, o BOCA sempre foi o garoto na escola que dava porrada nos garotos legais. Uma vez num jogo de basquete bateu num garoto que tinha entrado na escola só porque o coitado, sem saber, fez uma cesta de três pontos no jogo onde ele era pivô.

O BOCA é o rosto nojento que saiu pela janela do carro e cuspiu fumaça de cigarro na cara do Lucas.

O Lucas, outro coitado, tava feliz por ter acabado de dizer o que queria dizer pra mulher que ele ama. Ele Não é tão burro assim, ele sabe que ela não está caindo de amores por ele, mas ele ainda acredita na possibilidade de um dia ela enxergar nele um cara legal. O que deixa ele triste é o que o BOCA vai falar agora, porque o BOCA tem a habilidade de tocar o ponto fraco das pessoas, e ele faz isso de maldade, não é sem querer não, é de maldade mesmo, e o BOCA conseguiu ferir o coitado do Lucas quando disse:

__Ninguém gosta de Crioulo metido a esperto moleque!

O Lucas ficou calado e o BOCA prosseguiu

__Chega mais moleque!

O Lucas chegou mais e foi aí que o BOCA soltou a fumaçona na cara dele, que nem eu disse lá atrás. O Lucas segurou pra não tossir, ele já tava chateado de ter sido chamado de Crioulo por um cara tão nojento mas não quis dar uma de chorão, o problema é que Lucas ainda é muito novo pra bancar o valentão.

__Já arrumou o teu parceiro rapá?
__Ainda não. O cara que ia com a gente tá viajando.
__Olha aqui o bebezinho de vocês oh…

O BOCA mostrou no banco do carro duas armas. Não era qualquer arma não, eram duas ARMAS, eu não entendo muito bem de armas, mas sei que essas aí podem causar um estrago. Essa é daquele tipo que a bala entra e só faz um buraquinho na entrada, mas o pesado mesmo é a saída, quando ela explode um buraco nas costas do coitado que levou o tiro. Acredite em mim, ninguém quer levar um tiro de uma arma daquela, nem mesmo um pedaço de madeira.

O Lucas se esticou pra ver as armas mas o BOCA não dá prazer pra ninguém por muito tempo e tampou logo com o pano as duas brilhantes.

__É hoje cara! Não vai me chegar na reunião sem um parceiro senão você tá fora do esquema!
__Tá bem.

Lucas só concordou. Não tem muito pra falar com esse tipo de sujeito. O Carro saiu, Lucas deixou eles sumirem e continuou andando. Já não tava mais andando estilosamente que nem antes. O Lucas saiu andando e pensando que o droga do BOCA não devia ser tão metido a fodão assim! Esses caras metidos a fodões sempre querem ser que nem um cara que é ainda mais fodão que eles, que por sua vez quer se parecer com um cara mais foda ainda que por sua vez quer dormir fodão e acordar uma flor. É assim que é a hierarquia dos fodões. Acredite que é verdade.

Os sequazes alem terra

Antes de dormir

In Sem-categoria on Dezembro 5, 2005 at 7:06 am

……..Entre no seu quarto

…….Pegue seu travesseiro

……Enfie-se debaixo das cobertas

…..Procure aa posição mais confortável

….Agora respire fundo, feche bem os olhos

…Não há mais nada o que fazer por hoje certo?

..Então foda-se! Durma tranquilo e sem

.culpa o resto da noite.

História anônima – Parte 2

In ficção on Dezembro 1, 2005 at 5:11 am

__Alô
__Helena
__Isso são horas de ligar? Achei que era uma notícia ruim.
__Tá dentro da gaveta da geladeira.
__O que?
__A chave do seu carro. Eu escondí lá. Queria fazer piada com você…
__Que piada idiota! E se você não me encontrasse aqui Lucas?
__Como você ia sair sem carro hein espertona?
__Por isso mesmo! Eu ia ser obrigada a ir de ônibus.
__Ihh. Nem tinha pensado nisso. Sorte que eu liguei a tempo né?
__Você nunca pensa em nada.
__Mas eu ia te contar na hora, mas é que eu esquecí.
__Tá bem Lucas. Você só ligou pra isso? To com pressa.
__Na verdade eu só lembrei disso agora quando você disse que…
__Então pra que foi ? Fala logo que eu to com pressa.
__Ah… Eu liguei pra falar que gosto muito de você…
__…Falta do que fazer garoto.
__É mesmo. Vou procurar algo pra fazer. Vou escrever um video-arte que só eu consiga assistir inteiro. Quem sabe assim meus amigos intelectuais me respeitem.
__Olha! Não seja um sacana comigo! Você sabe que cinema é minha paixão e nada tem a ver com meus amigos.
__Paixão nada. Você só faz cinema porque sabe que te dá ingresso VIP pra fama, pra drogas e pra safadezas Helena.
__Olha aqui! São sete horas da manhã! Sete horas! E você liga só pra me ofender? Vai a merda!

Do lado da casa de Helena eu ouço uma voz infantil. Parece uma voz de menininha. Ela tem uma filha muito bonitinha, a Bruna. É um doce, mas só quando está dormindo, quando está acordada a capetinha é a própria filha de Satã! Não sei a quem puxou, o pai é um bunda mole e a mãe é tão quietinha, tão na dela. A menininha tá perguntando alguma coisa pra Helena e eu fico aqui só esperando. Nossa, pra falar com ela é difícil esperar qualquer tempo que seja.

__Voltei Lucas.
__Então Helena, desculpa. Eu não quis te ofender. É que eu tô ativo pra diabo. Tô com insônia.
__Você sempre faz cagada e pede desculpa. Chega uma hora que cansa.
__Você sabe que eu odeio quando me chamam de garoto ou piá. Você que começou.
__Tá bem. Tá bem. Olha. É só isso que você tem pra me dizer? Eu tô com pressa.
__Não. Eu quero dizer que eu gosto muito de você. De verdade.
__Porque você tá todo estranho hoje?
__É porque vai ser um dia infernal. Um dia daqueles. Pode ser que dê tudo muito certo, ou pode ser que termine tudo péssimo.
__Todos os dias são assim Lucas.
__É… …verdade.
__Tenho que ir agora.
__Tchau Helena. Beijo.
__Se cuida.

Geralmente eu não sou assim tão meloso, mas é que hoje vai ser mesmo um dia de cão.

O sonho estranho de hoje

In ficção on Dezembro 1, 2005 at 5:06 am

Já teve um sonho daqueles onde tudo parece estar próximo e distante demais? Tudo ao mesmo tempo. É indescritível mas é assim que é nisso que eu acho que na verdade não é sonho mas pesadelo.

Do meu lado direito uma batida de carros. Uma mulher intacta chorava no colo do marido que tinha marcas de sangue na camisa mas estava bem. Os policiais checavam os estragos nas ferragens. Cada vez mais pela rua viaturas chegavam.

Do meu lado esquerdo um motoqueiro parava sua pequena vespa sobre a grama para paquerar as motonas da vitrine de uma loja de motos de corrida. Ele acabou desistindo depois de algum tempo, severamente frustrado por não poder comprar uma daquelas monstruosas beldades. Saiu em sua motoneta que gritava dolorida pelo asfalto como faz um cavalo rouco quando não quer ser montado.

No meio eu, com uma sacola de supermercado. Eu não fumo mas acho que o vendedor tinha deixado um cigarro lá dentro por engano. Eu sabia que tinha alguma coisa estranha nisso tudo. Foi o cigarro droga. Eu não fumo.