Estive por muito tempo sentado naquela calçada sobre a chuva tentando escutar o que sairia daquela briga do lado de dentro do mercadinho.
Como era de costume minha mãe saia todo dia muito cedo, fechava os portões de ferro com um cadeado enorme e eu ficava esperando sentado no meio fio até que tudo estivesse trancado e pudessemos voltar para casa. Eu tenho que esperar porque eu sou muito pequeno para ajuda-la mas naquele dia foi diferente. Antes do nosso pequeno mercadinho se fechar, eu já estava varrendo o chão. Era outono e do lado de fora a chuva começava a pisotear o asfalto, pensei que iriamos precisar de alguma proteção para voltarmos para casa secos. Pouco antes de minha mãe pegar as chaves do cadeado um cliente entrou pela porta com o cabelo todo molhado e a roupa respingando e deixou sua jaqueta de lado, ele parecia bravo e antes que dissesse qualquer palavra minha mãe falou: “Augusto, me espere lá fora”, eu tentei explicar que estava chovendo mas ela brigou comigo por ser desobediente. Enquanto eu ia saindo cabisbaixo o homem que entrou tirou um pequeno pacote de dentro da sacola do supermercado e disse que queria reclamar daquela mercadoria.
Já estou todo molhado sentado neste meio fio e eles ainda não saíram. A luz do poste me iluminava e eu perdí meu tempo observando as poças d’agua sendo empurradas pelos pneus dos carros passando. Depois de muita espera saiu o homem fechando o ziper das calças e minha mãe logo atrás penteando os cabelos.
O homem olhou para mim, eu não parei de o encarar, era por causa daquele miserável que eu estava aqui pegando chuva. Minha mãe me viu na chuva e me cobriu com um guarda chuvas. “Nossa filho, você está todo molhado!”, ela estava cuidando de mim, mas ainda olhava o homem indo embora. Eu queria que ela visse como eu estava, e tudo por causa daquele freguês mal educado, mas ela não tirava os olhos dele.
Assim que chegamos em casa eu reclamei daquele sujeito desprezível. Ela disse para que eu não ficasse bravo pois aquilo poderia acontecer mais vezes. Eu retruquei bravo: “COMO ASSIM MÃE? ELE VAI VOLTAR?” E ela somente completou: “Calma filho. Compraremos amanhã um guarda chuvas novo para você!”
